sábado, outubro 31, 2009

Whatever Works (2009)


7/10

A fazer lembrar um poema de Pablo Garcia Casado

No pequeno televisor em cima da bancada de granito negro da cozinha passam as imagens da destruição: mercado de Alpuri, em Mingora, distrito de Shangle, a leste do vale de Swat, um atentado bombista levado a cabo por um rapaz de 13 ou 14 anos - as autoridades paquistanesas ainda não têm a certeza - provocou a morte de 41 pessoas, 35 das quais civis, homens, mulheres e crianças que regateavam o preço de laranjas e panos de cozinha quando a explosão se deu. Uns minutos depois e as imagens são já outras, o tema a oscilação das taxas de juro ou as medidas do Banco Central Europeu, a fazer lembrar um poema de Pablo Garcia Casado.
No pequeno televisor em cima da bancada de granito negro os acontecimentos seguem o seu curso como se fossem apenas imagens.

Não me importa nada...

Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim - e nisso sou irredutível — não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!

Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.

Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?

Maria Luísa era uma verdadeira pluma!

Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…

Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.

Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.

Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!

Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?

Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.

- Oliverio Girondo

Corona

Na minha mão come o Outono a sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e ensinamo-lo a andar:
o tempo retorna à casca.

No espelho é domingo,
no sonho há espaço para dormir,
as nossas bocas dizem a verdade.

O meu olhar desce ao sexo da amada:
olhamos um para o outro,
trocamos palavras sombrias,
amamo-nos um ao outro como borboleta e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio de sangue da lua.

Estamos abraçados à janela, olhamo-nos desde a rua:
já é tempo que se saiba!
Já é tempo de a pedra fazer um esforço para florir,
que à inquietude lhe palpite o coração.
Já é tempo que seja tempo.
Já é tempo.

- Paul Celan

Luiz Pacheco

XXVI

Melhor que a mulher é o vinho
que faz esquecer a mulher...
que faz dum amor já velhinho
ressurgir novo prazer.


Finale, muito católico

XXVII


Assim termina o Lamento
pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.



Coro dos Cornudos - Contraponto
O tempo é uma provação da mágoa
Não é um remédio -
Tal provaria, se fosse um remédio,
Que não existia doença.



Emily Dickinson - Bilhetinhos com poemas

I tre Amici

o escritor da anti epopeia trágica morreu a contar uma curiosidade sobre a Roma antiga, qualquer coisa sobre um imperador homossexual

o teu sono é a minha vigília, a tua língua o meu exílio, sou um transmissor de energia quente enquanto desejo aquele que dorme ao meu lado:
a nossa terra é os braços a tremer, durante dois séculos entrelaçados numa febre siamesa dos que dormem numa península fria
Veja o facebook da minha amiga deficiente
Com a sua boquita torta e a rir-se,
a lenta masturbação dos pirilampos, que tal como a Europa não têm história,
Só o diabo tem o poder de não existir,
Só ele, um cobrador de impostos, que abandonou a sua mesa cheia de dinheiro para seguir Jesus, veio ter comigo a Palermo, com os seus olhinhos a brilhar, apostamos o livro do desassossego de Fernando Pessoa

Não imagino um deus que não seja o próprio riso,
Não o imagino senão deficiente e torto, dependente do homem como um cão,
deficiente e torto no facebook
o prazer não é permitido ao que se faz derrotado: o sol explode mas ainda temos 8 minutos de luz

A omnipotência é os dentes cariados do meu amigo
A minha amiga chora por trás da base



Nuno Brito

Ecrã

De ti quisiera música lijera
tocarte la garganta profunda
con mi lengua de pixeles
sentir las sustancias móviles
como la rabia
antes que su olor se pierda
entre tus gritos,


saber cual es el sabor
dulce o amargo
de tu visión sensacionalista

tú ojo

la luz VS. la luz mía
esplendor simultáneo

luz CONTRA luz

tú deslumbrante
comienzo, TÙ
hiel coagulada

FALSIFICACASENSACIÓN

que aparece
y se esfuma en una interferencia
de placeres
en una antena oxidada
mi yo irradiado

YO,
abarcado por tu señal:

odio, o-dio, o-di-o
te,
odio-te, o-dio- te, o-di-o-te,
¿ porqué nunca para tu queja?




Estupidez absorbente,
hambre de hoyo negro
trágame en una calda
suave y
par-si-mo-nio-sa-men-te



Hazme la noche,
en una operación binaria:


abre los ojos/ es la modernidad
cierra los ojos/ es la pos-modernidad
háblale/ que ahí está la entidad metafísica
cállate/ que ahí está la plasticidad laica

hazme sentir
el carbono 14
que vive de historias
mal contadas


De ti quisiera danza & confusión
para activar los censores contra incendios,
delatarme como un televisor de bulbos
en esta alter-modernidad de fast- track

Soy el ecrã SUPER SLOW

Acércate a la pantalla
ve
los rastros más insignificantes
de mi catástrofe
multimedia
en horario estelar,

los más pequeños detalles
de mi colapso
cibernético
en un canal pornográfico,

las huellas más imperceptibles
de mi crisis
nerval…


Rober Diaz

Elementos de Modernidade líquida em "Ecrã" de Rober Diaz

O elemento virtual está presente em todo este texto e funde-se com o sensorial. O conceito de modernidade líquida, onde se diluem estilos, formas e conteúdos, está bem vivo e presente neste texto através duma dicotomia entre matéria e virtualidade, acentuada por uma linguagem forte e ausente de qualquer simbolismo. Em Rober Diaz o símbolo é o próprio objecto. Ele não deixa de aparecer, mas assume aqui elementos de hiper-realidade, de uma simbologia ao contrário em que as imagens valem pelo que são, (retirando assim qualquer força ao abstraccionismo e à interpretação).
São vários os elementos inovadores presentes em “Ecrã”. A força da imagem assume aqui proporções imensas em que o sensorial se funde ao virtual, como uma outra forma de sentir, uma forma estranha de sentir: “De ti quisiera música lijera / tocarte la garganta profunda / con mi lengua de pixeles”
O elemento luz / cor / sabor / textura / fundem-se obtendo-se uma unidade sensitiva discrepante em que os opostos são já a mesma coisa: la luz VS. la luz mia e luz CONTRA luz
A nível formal o texto é um campo de grande experimentação em que a pausa é suave e conseguida não só através da pontuação, mas também do uso da maiúscula realçando a força das imagens. A criação de palavras está presente, como o caso de “ FALSIFICACASENSACIÓN” ou o uso do travessão que reformula a palavra ódio, com a repetição / recriação do conceito que aqui é levado ao limite.
A imagem conseguida através da força do sublime continua em versos seguintes:
“Estupidez absorbente, /hambre de hoyo negro / trágame en una calda / suave y/ par-si-mo-nio-sa-men-te”. O contraste líquido e absorvente procura sempre a fusão entre vários elementos. O tema é social – A questão da arte e dos seus estilos, a catalogação: a modernidade é líquida, é instante e é mudança, não é preciso muito para a atingir:

abre los ojos/ es la modernidad
cierra los ojos/ es la pos-modernidad
háblale/ que ahí está la entidad metafísica
cállate/ que ahí está la plasticidad laica

Mais do que poema histórico, o poema é social e doce. “A impressão alia-se à sensação numa racional e inteligente linguagem de contras entre a grande velocidade e a paralisia, ou o movimento de ecrã lento, num jogo de escalas temporal mas também físico.

“Soy el ecrã SUPERSLOW”


“De ti quisiera danza & confusión
para activar los censores contra incendios,
delatarme como un televisor de bulbos
en esta alter-modernidad de fast- track”

O sujeito poético é aqui a mudança, não se acredita que seja um homem, embora só possa ser um homem (Alguém que se perde em colapsos nervosos no meio de um filme pornográfico) A imagem de alguém inserido na teia virtual (mundo da imaginação, do vazio, do que não há) é aqui potencializada.
É potenciada a forma do mundo virtual (o das trevas: o não-lugar) de uma era desconhecida em que a modernidade se assume flutuante e ambígua. Este texto não está assim arredado de elementos meta-literários.
O homem na sua impotência face ao ecrã, numa impotência radioactiva, impotência, impotência. O ecrã como lugar de recepção/ recolha passiva de representações – mas também lugar de criação onde o sujeito poético se perde, questionando as concepções de modernidade como um todo.

Nuno Brito

sexta-feira, outubro 30, 2009

SANTA SCALA

Por baixo do lençol aqueciam-se os três pastorinhos belgas, não esperavam ninguém mas a morte com a sua carita bifurcada veio ter com eles, por baixo do lençol meteu-se a morte como um cãozinho. Estava muito frio. O rabo da morte ficava de fora.

Três deles são rapazes e três deles são raparigas, dois deles são anjos. O outro também é anjo. Às quatro da manhã o primeiro acende uma vela, o outro liga a playstation, o outro abre o Google news para saber as novidades. Está muito frio e os três entram uns nos outros por horas a fios. Alguns milénios depois um deles sua e os outros também suam. Depois vão para o corredor em fila. Com as suas pantufas entram no meu quarto. A morte vem atrás deles com o rabo aceso. A morte que é a primeira correcção lambe-me a cara. O primeiro escreve a baton no meu espelho: “O Paraíso é outra pessoa”. O segundo lambe com a língua o espelho e apaga a frase. Fica com a língua roxa. A morte lambe-lhe os pés. E ele começa a falar que o capitalismo é uma casa e que o comunismo é outra casa, mas que um bom empreiteiro compra duas casas, destrói-as e das suas pedras ergue um prédio. O outro goza-lhe, ri-se lhe na cara – Deves ter a mania!
O que tem a mania acaba de lamber a frase mas as palavras ganham outra cor e a frase é agora fluorescente.

Dormimos um meta-sono igual ao que Jonathan Franzen criou e acordamos no terceiro milénio depois de um homem que me esqueci o nome. Trazia-o apontado, preso ao cinto, para que quando fosse noite e o tirasse me lembrasse do nome do messias. Mas hoje não trago cinto


Um deles conta-me a história de um antigo traficante de relíquias que viveu por volta do ano mil. Um dia roubou os ossos de São Bento de Nursia guardados num altar da abadia de Montecassino. Depois vendeu-os na mesma caixa dourada ao abade de Fleury-Sur-Loire. Adormeci a meio da história e Sonhei com São Bento a caminhar pela neve de Montecassino com os pés vermelhos e grandes. São Bento para em frente a um rio e vê os patos que em fila se deixam guiar pela corrente de uma água quase gelada.


A memória colectiva tem mecanismo onde a razão não entra.

No espelho estava escrito “Patrício”
Depois “Os que são quentes”
Depois “Não sei se ele está em todo o lado, mas sei que é apenas a vontade de rir”


Tínhamos vontade de fazer coisas doces.

A mão esquerda do meu pai

Por vezes a mão do meu velho voa sobre o seu joelho, agita-se
em círculos malucos, e regressa à sua base.

Por vezes fica apoiada durante uma hora sobre essa proeminência ossuda.

E por vezes quando o meu velho tenta falar, a sua mão sacode-se
no ar, perseguindo uma palavra, depois empoleira-se de novo

na barra do andarilho ou no braço de uma cadeira.

Por vezes quando o anoitecer se fecha sobre a sua janela e a chuva
se tinge de negro até se tornar gelo na soleira, ela treme como um pardal numa tempestade.

Então a noite escura cai, e treme menos, e menos, até que sossega.

- David Bottoms
(tradução de LP)

Crítica

Na Cornualha, do abrigo da tua vivenda
Achavas o mar «compassivo»
E depois «monótono»,
Embora nunca, com toda a justiça,
«Inconnue». Não havia como escondê-lo.
As tuas poesias eram fátuas.

Ficámos sentados mais uma hora ou duas,
Velhos companheiros literários,
Tu demorando o teu J e B no paladar
E eu curvado sobre os meus joelhos
Com o teu impotente versejar.

«Não nos vemos há tanto tempo», disseste,
«Faço uma corrida contigo até ao mar.»

- Ian Hamilton

quinta-feira, outubro 29, 2009

O Jaguar e o seu dialecto

Veio ter comigo um homem com um estranho amuleto. A sua forma e cor eram indefinidas. Não percebi se era uma cruz mais parecida com uma estrela de várias pontas ou um símbolo de uma organização mundial de luta contra o cancro. Não era verdadeiramente um homem, todas as suas feições se pareciam com um jaguar. Trazia ao pescoço uma cruz fluorescente. Subimos o cerro, os dois sem dizer nada e em passos seguros como se fossemos só um. A cruz que o jaguar trazia ao peito iluminava todo o cerro. Quando chegamos ao cimo, o jaguar contou-me várias histórias, todas elas sem qualquer moral ou variante, coisas que acontecem porque têm que acontecer. Começou a tocar numa flauta de osso uma música pré-hispânica. Disse que isso acalmaria os Atlantas e todos aqueles que esperam. A paciência é um acto dos ídolos, aos homens é exigido mais, disse. Estranhei ter percebido a frase não através de palavras, mas do som rouco da flauta. Lá em baixo, Ticoman dormia, passava um ou outro carro.
Contou-me que a flauta fora feita num osso do braço esquerdo de São Judas, padroeiro das causas perdidas e lhe fora oferecido por um homem ou por um jaguar na rua de Regina, não se lembrava bem.
Um grupo de rapazes aproximou-se em passo inseguro, confundiram o Jaguar com um traficante ou foram apenas atraídos pela luz fluorescente do estranho amuleto.


Contou-me o Jaguar as conversas que tinha tido com Macedónio Fernandez e como o ajudou a escrever uma novela eterna, sempre incompleta como qualquer narrativa. Falou-me de quando ia ter com Roberto Bolaño a um quarto de hotel. Falou-me do Rio de La Plata e de Rober Diaz. Aí o cerro iluminou-se por completo e houve algumas aparições marianas por toda a cidade.
O jaguar adquiriu uma expressão mais calma e vestiu um grande sobretudo deixando o amuleto à vista. Seguimos por um caminho de terra junto à linha de comboio e chegamos a uma pequena barraca onde dois homens fumavam. Uma voz começou então por nos contar em todas as línguas ao mesmo tempo, a história simples
da humanidade. No interior passava Morphine sem que qualquer aparelhagem estivesse a funcionar. Uma grande escultura em obsediana erguia-se no meio da sala. O Jaguar guiou-nos por um corredor e depois por outro, seguiam-nos agora mais pessoas, gente simples numa peregrinação silenciosa até entrarmos num pátio interior com uma fonte no centro a jorrar água da boca de quatro leões de bronze. Todos os reis de Granada nos saudaram, sentamo-nos nos espaços relvados entre as esculturas. Rimo-nos do rabo arredondado de um bulldog que passou. Entraram no pátio alguns ditadores que haviam marcado a História da humanidade. Um ou dois anticristos juntaram-se também à assembleia. Estávamos em Granada e esperávamos uma invasão espanhola. Contava-mos histórias como as de Bocaccio. Todos nos sabíamos ausentes de simbolismo.
Um índio juntou-se a nós sentiu a nossa segurança e preparou em cima de uma mesa com um cartão do metro, linhas de cocaína geometricamente perfeitas. Alinhava e distribuía as linhas como um arquitecto desenhando a planta de uma cidade da Antiguidade. Com o cartão do metro, fazia as muralhas, as casas, os estábulos, os palácios, os templos de adoração, os balneários e os aposentos dos escravos, uma planta em escala reduzida de uma cidade, com os seus muros finos de cocaína. Perguntei-lhe se era Babilónia porque me pareceu reconhecer o farol e a torre junto a um antigo aglomerado de casas. O índio disse-me que era Cartago. Jaguar enrolou uma nota da Hungria, inalou a antiga cidade e estremeceu. Sentiu-se abrangido pela múltipla perspectiva que é a de todos os olhares e todas as línguas. Ofereci-lhe a flauta de osso, iluminei-lhe o cerro com o amuleto. Era em tudo parecido comigo. Éramos apenas dois jaguares que passam.

Spread (2009)


8/10

António Osório (4)

Vísceras



Criança que despeja um grilo,
pata a pata,
víscera a víscera,
da sua pequeníssima alma.

E não há quem refaça
o grilo e a criança.




(Poema do livro "Décima aurora", in A luz fraterna: poesia reunida (1965-2009), Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 230).

Valsa do aniversário

Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,

se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te

para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.

Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos ternamente, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.

Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)

difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois

de amanhã
pela manhã...

- Jaime Gil de Biedma

Crítica de poesia e literatura (mas a sério)

Adília Lopes, Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007

«Há sempre alguma coisa de penoso no palhaço triste que, sem graça, tenta rir de si mesmo. A escrita patológica de Adília Lopes coloca-se frequentemente na posição de quem tenta inventar motivos para se desculpabilizar, identificar os seus limites para, sublinhando-os, definir uma identidade. Apesar da aparência de ruptura que os seus textos apresentam (ruptura com uma imagem de poesia e de mulher), este é um projecto que ameaça esgotar-se na sua enunciação; melhor, ameaça esgotar-se na definição da autora enquanto personagem. Quando um projecto artístico vive da desconstrução de uma convenção, ele instala-se, por isso, num plano estranhamente convencional: vivendo da ou contra a convenção, perde parte importante do seu significado simbólico e artístico com o enfraquecimento da própria convenção. Definindo-se contra uma suposta convenção romântica de escrita e de feminino, o projecto poético de Adília Lopes fica paradoxalmente preso à manutenção desta convenção. Ora, talvez já não exista nem a noção de mulher, nem a ideia de poesia que subjazem como negativo a estes textos. Acresce a isto que a frequente focalização da escrita na figura da própria autora é em si mesma uma marca indelével da convenção romântica que supostamente pretende recusar.»

Vanguardas Ruminantes

Entre 22 de Outubro e 17 de Dezembro o Centro Nacional de Cultura será o cenário para um convívio invulgar: escritores portugueses da vanguarda do século XXI recebem os seus artistas favoritos da vanguarda do século XX.
Na primeira sessão estarão presentes Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas.
Nas restantes sessões David Machado, Filipa Martins, João Tordo, José Mário Silva, JP Simões, Miguel Castro Caldas, Patrícia Portela e a revista «Criatura».
As conversas cruzarão temáticas, estilos, processos, valores, preocupações e inovações da "nova" e da "velha" vanguardas.
Uma iniciativa da Associação Prado. Apoio: Ministério da Cultura.
Mais informações aqui.
VELADA

A noite toda
deitado ao pé
de um companheiro
massacrado
com a sua boca
rangendo à lua
com a congestão
das duas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor

Não me senti
nunca
tão agarrado à vida



NOSTALGIA

Quando
a noite chega ao fim
pouco antes de primavera
e só raro
é que alguém passa

Sobre Paris adensa-se
uma escura cor
de pranto

Em um canto
de ponte
contemplo
o ilimitado silêncio
de uma rapariga
ténue

As nossas
duas doenças
confundem-se

E como deitados fora
permanece-se

- Giuseppe Ungaretti
.
sentada no café como se
vendo passar comboios ou melhor
no próprio comboio entornando a paisagem
passando com ela parando nela
levando comigo quem elouqueceu
quem não esteve presente quando
algo de tudo lhe aconteceu


Bénédicte Houart
in Vida: Variações, Cotovia

quarta-feira, outubro 28, 2009

António Osório (3)

Ofício



Armazenar sofrimento.

Distribuí-lo depois
límpido.



(poema do livro "A ignorância da morte", in A luz fraterna: poesoa reunida (1965-2009), Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 86)

terça-feira, outubro 27, 2009

António Osório (2)

(...)
Poesia e prosa juntas no mesmo jacto, na mesma destreza, na mesma ironia e verve. Camilo, nas cartas mais torturadas, para se libertar da adversidade e do revólver bulldog com que andava a ameaçar a morte dele, escreveu também poesia. Alguns contos de Torga pertencem à sua poesia mais genuína. As narrativas de Borges têm densidade igual à dos poemas, e o mesmo se diga das crónicas de Bandeira, de Cecília e Drummond em relação à poesia deles. O poeta Octávio Paz é também um dos maiores ensaístas do nosso tempo. Poesia e prosa vivem paredes-meias, interpenetram-se, quando não coabitam na mesma pessoa, como sucede com Régio e Nemésio, Sophia e Eugénio de Andrade. Trocar a poesia pela prosa era uma falsa questão para Montale, que continuou com as duas. O verdadeiro problema é ainda o de fundi-las.



(Último parágrafo de "Um inimigo da poesia", texto de "Crónica da fortuna", in A luz fraterna: poesia reunida (1965-2009, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 393).
O FRUTO

Registam a febre e o coração.
Neste fim de março em que
não vejo árvores de fruto,
chegam-me as novas da minha
nespereira, pejada, dizem-me.
À espera, como o meu sangue,
de que a vida seja uma protecção
adocicada, carnuda e macia,
pronta a colher.


Rui Miguel Ribeiro
in XX DIAS, Averno
[43ae2cb67-eade-492d-8d53-af48c47152.jpg]

A doçura de um hábito

Com olhos meio apagados
onde a luz se debruça, e chove.
Alguns tons ao hesitar
embaraçam-se, escorrendo sobre
os quebrados degraus onde te
tropeça a voz e um veio de água,
apressando-se, galga as margens
da respiração para o sangue.

A cabeça baixa, levada entre curtos,
vagos pensamentos, descolados
uns dos outros sem deixar fio
nem sequência, e não deixa
de ser doce, talvez só assim,
chegando-lhes a boca distraidamente,
a imitar as formas e ganhar-lhes o gosto.

O ar respira com dificuldade
no quarto, ao fundo, a cama desfeita,
os lençóis onde dormiu e o livro
virado sobre a cómoda.
Uma lembrança, calmamente,
derrubando o coração
sobre o esquecido e fraco alcance da vista
desde a varanda. Uns descaminhos
sombreados de azáleas, brenhas e abetos,
o olor fresco das pequenas folhas
e dos rebentos contados no pátio
onde a tarde vem apanhar do chão
este Outono.

Sobre este eixo guincha um baloiço
no espaço vizinho, açoitado pelo vento,
a sombra encurralada estende bem
os pés para a frente, depois recolhe-os,
mas não vai mais longe.

Há um encanto grosseiro nisto,
uma suave e benigna tristeza
que se mistura na bebida.
Deixas-te entreter, quase
te olhas de trás – parado à chuva,
joelhos junto ao queixo, no velho
sofá arrastado até cá fora.

Já chove menos. Vão-se sacudindo
as flores espinhosas,
meio embrutecidas, uns restos
de azul-esverdeado entre pequenos
muros de areia – dão-se bem por aqui –,
drogadas de uma doce sonolência,
o barulho do mar e uma brisa colhendo
nelas este perfume difícil de explicar.

Devolves-te aos poucos de entre
o deleite descritivo, na curva de um verso
um soluço trepa-te a garganta, despertas
e descobres com o pé o cabo de uma fisga.
Vês a luz caída aí, envolvendo nos dedos
algumas pedras, atirando só
a sombra delas, numa lentidão venenosa
que acaba por atingir tudo.

A arte da poesia

A princípio a mente sente-se contundida.
A luz abre orifícios brancos na folhagem negra
Ou, a não ser a si própria, a névoa tudo oculta.

Mas como deveremos dizê-lo? –
Isto é um facto: quando a verdade não é boa que baste
Nós exageramos. As proporções

Importam. É difícil acertá-las.
Não deve haver nada
Supérfluo, nada que não seja elegante
E nada que o seja se for apenas isso.

Este entardecer verde tem contornos violetas.

Borboletas amarelas
Nervosamente mudando de lugar
De flores vermelhas para outras brônzeas
Desaparecem quando aparece o entardecer.

- Charles Tomlinson

António Osório (1)

(...)
E à poesia, para Montale "la più discreta delle arti", qual o lugar que poderemos confiar-lhe? Um lugar de excepção (último) e de encontro, se preservar no meio de tanta afronta a diferença, a alegria dos valores vitais. Se for uma respiração oposta à de nidificar, uma arte de repugnância, uma moral pura e simples de salvar o cerne das palavras - a presença mortal da vida sobre e sob a terra - como devem outros salvar os sons, as cores e a própria forma, desabitada, do homem. Um ofício tão antigo, humilde e preciso quanto o de um vedor, poceiro, operador da pedra da loucura. Ofício que começa pelo deslumbramento por cada palavra, observar letra a letra o que comportam de exaltante e frustrado, debruçar-se sobre as gerações de sílabas como se fossem as longas vísceras de um animal jovem, ainda fumegantes, e juntá-las, pedras de uma muralha, na edificação do corpo poético, suma de tudo - poesia que é irrepetível e, no entanto, assenta com mão de oleiro no barro húmido e comum do mundo.
(Parágrafo final de "A desgraçada máquina", do livro "Décima aurora", incluído em A luz fraterna - poesia reunida (1965-2009), Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 211).

segunda-feira, outubro 26, 2009

OUVIDO NUMA CASA GEIJIN EM QUIOTO

Estão a foder no quarto ao lado.
As paredes são - sim - finas como papel.
O que faz a minha Fantasia mais disto
do que dos sussuros abafados
da viajante ouvida a masturbar-se
no seu quarto minshuku em Hiroshima?
Que este casal é brasileiro
e a mulher está a incitar naquela língua
que amo, de atropelos, rosnidos e ceceio?
É isso que faz do que ouço poesia?


John Mateer
(tradução de Andreia Sarabando e Miguel Martins)
in Viagens, Tea For One

Histórias de botas para rapazes

Há uma primeira história, uma que o meu pai nos contava algumas vezes, à mesa, em ocasiões especiais. Passou-se com ele e com a sua mãe, nossa avó, no meio do Alentejo, em meados dos anos 50 do século passado. Portanto, há pouco mais de 50 anos. É uma história de Inverno:
A minha avó é uma camponesa sujeita ao trabalho duro do campo e o meu pai acompanha-a pois, feita a 4ª classe, já não anda na escola. Tem 10 ou 11 anos, está descalço e, enterrado na lama, queixa-se, imagino que a bater os dentes, de frio nos pés. A minha avó gostaria muito de lhe comprar umas botas, mas o dinheiro é escasso, não chega para quase nada. Por isso, e porque as queixas devem ter continuado, dias depois, na feira, a minha avó comprou um boné ao meu pai, um daqueles que tinham partes laterais para proteger as orelhas. Descalço, mas com um boné que lhe aquece a cabeça e as orelhas, o meu pai atravessa todo esse Inverno guardando para si as suas queixas.
De seguida, há uma segunda história, agora contada por mim. Muitos anos depois, tenho talvez 13 anos e o meu pai compra-me umas botas. Pele dura, sola alta de borracha, umas botas grosseiras, baratas, fora de moda, capazes de durar todos os Invernos da minha adolescência. Não tenho outras, se quero andar com os pés secos não posso deixar de as usar. São, claro, botas quentes, mas humilhantes: de rústico, boas para trabalhar na terra, mas nós vivemos na margem sul da capital, não no campo. Com as devidas diferenças, lembro bem "a agonia desses momentos, a raiva, o sofrimento, o desespero", isso tudo de que fala Peter Stallybrass em "A vida social das coisas" e, particularmente, quando se refere ao par de sapatos que os pais de Jen White, a mulher de Allon White, o seu melhor amigo, lhe compraram para levar à escola: "Sapatos práticos, bons, mas com os quais você tinha vergonha de ser visto."
Por fim, uma terceira história. O meu filho tem 12 anos e, apesar de previsível, o seu crescimento apanhou-nos a todos de surpresa. Por isso os dois pares de botas que ele tem já não lhe servem. Também de surpresa, depois de dias de calor intenso e fora de época, chegaram o frio, o mau tempo, a chuva, e ele não tem calçado apropriado para sair de manhã. Dou-lhe, então, um dos meus dois pares, que ele calça com evidente satisfação: ficam-lhe bem e são confortáveis. Agora, sim, está preparado para a invernia. Mais logo, quando regressar, à mesa, hei-de contar-lhe três histórias de Inverno sobre botas.

domingo, outubro 25, 2009

À queima-roupa

Fazes-me mal quando me beijas
quando me citas em versos que desconheço
e falas de um futuro que não tenho.
Ao calor de uma garrafa
______sem fundo
___________cheguei
onde as tuas mãos não são necessárias
e só o meu hálito
vale mais que todos os teus sonhos.
Estávamos a injectar o inferno em nós
frente a um televisor avariado
quando vieste foder com a ternura
um quilo de paciência
doze meses por ano e que vá para o diabo
a nossa oportunidade perdida.


Uberto Stabile
(tradução de José Manuel Vasconcelos)
in Foro das Letras - Julho 2009

Magnólias

Uma vez, pelo menos
uma vez deveríamos prestar atenção,
ganhar coragem,
oferecer magnólias. E
não a quem nos ama,
antes a quem nunca dissemos
uma palavra.
É um desígnio tão claro
como a luz das seis da manhã
que, cortada em fatias,
toca de lado a parede mais escura.
No fundo trata-se
de uma questão de vida
ou morte, embora as magnólias
não sejam absolutamente
necessárias, para o efeito
pirliteiros e azedas servem até muito bem.

sexta-feira, outubro 23, 2009

John Updike (2)

Despida



Jovens homens belos - brasileiros, com
um capataz grego de ar fúnebre - vieram
e rasparam cem anos de tinta desta nossa
casa. Como método, foi árduo,
bicadas a cercarem o ar todo, raspando-me
também o interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu em madeira crua, de cor
mais loura do que o esperado, morna

e vulnerável, como uma mulher que viveu
cem anos em branco de noiva e agora
está nua para um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira substância macia, o seu granulado
e matiz tão carnais que vemos por fim que,
nestes anos nossos, ela nos envolveu e nos amou.



(de Ponto último e outros poemas, tradução de Ana Luísa Amaral, Civilização, Porto, 2009, p. 85).
.
Uma gota desliza pela face do anjo
que vigia os sinos
Que rajada de chuva e de metralha
alertou os seus olhos desde o céu?
Que branco véu cobre agora a sua têmpora?
Que coração entrincheirado
detrás do muro de artifício
renega a mão que o cria?

Algo se quebra debaixo da pele escura da terra
entre as ruínas o sangue inventa novos leitos
a tempestade de areia apaga dos campos
a coragem
nos escombros o frio clama por raízes abissais...

Alguém guardou a espada
para voltar a brandi-la sobre o nosso pescoço
alguém sem rosto pretende que todos esejamos
à medida da angústia quando ao longe
soam de novo as sirenes
quando as pedras morrem pelo ruído
quando a dor dos nossos pés
emudece os sinos
quando o nosso olhar
correndo planícies impensáveis
morde o pó
quebra a face do anjo
faz em pedaços os badalos na hora sinistra
e torna impossível a palavra.

lágrima amputada.


***

Porque ainda me resta
um ponto de vista inquebrantável
para desbaratá-lo à minha maneira
posso sentar-me em qualquer esquina
a trçar ou desfazer os meus planos
sobre as velhas tábuas de madeira
que fazem parte dessa carroça
sem uma cadeira para estes olhos alheios
sem uma desculpa para dois pés cansados
hoje que por fim ultrapassei
tantos relógios e lugares
e corpos de delito.


Janet Nuñez Marroquín
(tradução de José Manuel de Vasconcelos)
in Foro das Letras - Julho 2009

quinta-feira, outubro 22, 2009

John Updike (1)

Náutilo-imperador


Quantos quartos usamos para viver uma vida! -
a pequena cela de uma criança, ao alcance do ouvido
dos gemidos abafados dos seus pais; o quarto
de universidade numerado, posto avançado de liberdade
forrado a posters; o quarto de homem casado,
cena exígua de feliz domínio e mágoa furtiva;
o aluguer de férias, a cheirar a sal e a sol
e aos dias já passados pelos outros; a mansão
majestosa com cortinados e pompa; o hotel
do empresário, aventura de uma noite,
de limpas camas duplas e televisão, desenhando
um sonho de lar logo esquecido; o quarto de hóspedes
frio; o espaço branco e caro do hospital
onde agora o gemido aproximou a calma.



(de Ponto último e outros poemas, tradução de Ana Luísa Amaral, Civilização, Porto, 2009, p. 86).

terça-feira, outubro 20, 2009

Vizinhos

Das janelas que dão para a baía
No ruinoso hotel do outro lado da estrada
Misteriosos hóspedes por uma noite
Assomam às varandas
Para absorver a frescura do ar.

Deixamo-los espiar
As nossas plácidas vidas.
Eles deixam-nos pensar que será feito deles.

- Ian Hamilton

Palavras

Não tiveste vida nenhuma
De que falar, silenciosa criança.
Esta noite
A cantiga alemã da tua mãe
Desfez-se em lágrimas
Sobre a tua cabeça sem sonhos
E tu acordaste radiante
Por acolheres o pranto dela
Que nem resposta tem.

- Ian Hamilton

Adília Lopes (4)

Os namorados pobres



O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome

Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres

Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
e trocam alianças
feitas de cordel

Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar

O acaso
naõ os favorece

Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro

Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome

Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se

Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá par[a] um
de cada vez

O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira

O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço



(Poema do livro "Os namorados pobres", in Dobra - poesia reunida: 1983-2007, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, pp. 623-625).

segunda-feira, outubro 19, 2009

Adília Lopes (3)

Dr. Salazar



Era proibido
conviver

Era proibido
viver

Era proibido
ser feliz

Só se podia
poupar
e gastar
mal gasto

Os vinhos
e os perfumes
não se usavam
apodreciam
nas garrafas

Ele era
o nosso pai
e o nosso padrasto

Ele morreu

E em herança
deixou-nos
mais pobres

Deixou-nos
o medo
de ser pobres

Somos mesquinhos
e picuinhas



(poema do livro "Ovos", in Dobra - poesia reunida: 1983-2007, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, pp. 538-539).

domingo, outubro 18, 2009

Adília Lopes (2)

(...)
Horroriza-me o poder e o culto do poder. O dinheiro, o sex-appeal, a inteligência, o snobismo são as quatro faces do monstro do sucesso, do sussexo, esse tigre de papel, esse ópio do povo, de todos os povos, da burguesia e da aristocracia, da massa e da elite, das operárias e das tias, dos psiquiatras e dos carvoeiros. Antes o fracasso, o falhanço. Antes andar aos caídos que aos subidos. Meto no mesmo saco a inteligência porque a inteligência está muitas vezes ao serviço da estupidez.
(...)


(Nota 4 ao livro "César a César", in Dobra - Poesia Reunida: 1983-2007, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 653).

Adília Lopes

(...)
Nos últimos dez anos os meus poemas tornaram-se mais secos, mais pobres e, ao mesmo tempo, mais exuberantes, luxuriantes e corajosos. Os meus poemas são como puzzles - cada verso, cada palavra é uma peça. Pela disposição na página e pela sua feitura cada poema é uma trança ou uma tripa. Não me contento com pouco, só me contento com tudo, com o todo. Ou, como dizia S. Francisco de Assis (cito de cor), preciso de pouco e, desse pouco, preciso de muito pouco. É o que tenho a dizer sobre estilo. De resto, os meus textos são políticos, de intervenção, cerzidos com a minha vida.
(...)
"Sobre o meu novo livro de poemas (Setembro de 2001)", "A mulher-a-dias", in Dobra - Poesia Reunida: 1983-2007, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 445.

Aviso

A partir de amanhã, das 10h às 20h, e até quarta-feira, irei prestar aconselhamento jurídico nesse que é de longe o escritório mais respeitado desta nossa cidade - no número 11 da Rua Cecílio de Sousa.
Visitem-nos. Temos disponível para consulta e venda uma preciosíssima colecção de legislação e tratados abrangendo as mais diversas matérias do ordenamento jurídico nacional e transnacional. O Exmo. Senhor Professor Doutor Changuito não poderá leccionar a habitual aula de Direito Comparado, mas deixou as suas notas caso alguém precise de tirar dúvidas de última hora.

O sol intitula a natureza

O sol de certa forma intitula a natureza. Eis de que forma.
Durante a noite aproxima-se dela por debaixo. Depois aparece no horizonte do texto, incorporando-se por instantes na sua primeira linha, da qual aliás logo se desliga. E há aí um momento sangrento.
Erguendo-se pouco a pouco, atinge então no zénite a situação exacta de título, e tudo então fica justo, tudo se refere a ele segundo raios iguais em intensidade e em extensão.
Mas a partir daí, ele declina pouco a pouco, em direcção ao ângulo inferior direito da página, e quando transpõe a última linha, para voltar a mergulhar na obscuridade e no silêncio, há um novo momento sangrento.
Rapidamente então a sombra cresce pelo texto que em breve deixa de ser legível.

É então que o brado nocturno da indignação ressoa.

- Francis Ponge

sábado, outubro 17, 2009

Janela

No final um deles inverte a posição
da pandeireta, recolhe na esplanada as moedas
mais escuras, alheio a um cartaz que lembra
um pano de cenário: «Basta de desemprego.

Sim, é possível uma vida melhor.»
Nada mais que um recatado enquadramento,
fugaz como este copo, esta garrafa,
este olhar que agora lanço da janela.

A felicidade, em todo o caso, é mensurável?
É coisa que se treine, se construa? Os anos,
senhores, estão a passar para o nosso lado,
hasteiam devagar a bandeira da vitória.

- Vítor Nogueira
in Mar Largo, & etc.



A música barata


Paloma, Violetera, Feuilles Mortes.
Saudades do Matão e de quem mais?
A música barata me visita
e me conduz
para um pobre nirvana à minha imagem.

Valsas e canções engavetadas
num armário que vibra de guardá-las,
no velho armário, cedro, pinho ou...?
(O marceneiro ao fazê-lo bem sabia
quanto essa madeira sofreria.)

Não quero Handel para meu amigo
nem ouço a matinada dos arcanjos.
Basta-me
o que veio da rua, sem mensagem,
e, como nos perdemos,
_________________ se perdeu.

- Carlos Drummond de Andrade

A bruxa

Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras

Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.

- Carlos Drummond de Andrade

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

- Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, outubro 16, 2009

A noção do espaço

Nunca perco a noção do espaço nas cidades de cuja geografia labiríntica tomo conhecimento pelos livros: a Dublin de Joyce, a Verona de Shakespeare, a Paris de Baudelaire, a Antuérpia de Herberto Helder, etc. Na minha cidade-dormitório, porém, acabo sempre por me perder, pois não foram escritas ainda as palavras que me resgatarão destas ruas descarnadas, destes prédios estalados que vigiam rigorosamente os meus passos desde o dia em que ensaiei a minha primeira tentativa de fuga.
.
O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
– Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.

- Herberto Helder

quinta-feira, outubro 15, 2009

vésperas da pobreza

vaguear pela aldeia e descobrir o pó entre duas casas, a teimosia
que um besouro constrói na terra com as patas: a bola de exre-
mentos rola aos solavancos, acompanha-a o som árido com que
as moscas esbatem a sombra.
a mão surge na fresta, cola-se à ombreira e ajuda o corpo a encurvar-
-se, para que se abrigue nele um pouco de frescura:
a eternidade atravessa a sua longa repetição

o peso do adobe: centelha de pó em queda pela luz

rua a rua, muro a muro, o esquecimento é a nossa alegria


a voz abre na manhã a sombra
de uma pausa, o cão leva o silêncio
na corrida, quem se ergue expõe
o vento rudimentar do abandono


recupera a palavra como um deus a extinguir-se
uma longa morte
a tua longa morte;
recupera a morte nos seus trâmites intensos:
os caminhos de um corpo no olhar de outro corpo
até à mão a encolher-se num movimento incerto:
sobre os lábios, contra os lábios, já não esconde
o nome do segredo;
recupera a voz que não reconheces,
a sua estranheza onde não reconheces a pergunta;
recupera o exílio, esse lugar
onde a palavra mais íntima se torna desmedida;
recupera a terra que perdeu o encontro:
o país que te ensinou a não procurar um rosto:
cada rosto é uma casa que não habitarás;
recupera o caminho que te afasta do regresso
e prolonga a ausência a que já deste um nome:
não vivas outra vez a voz que te sufoca;
recupera a palavra mais pobre: sombra
que uma criança persegue com a vela

- Rui Nunes

À memória de Ruy Belo

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.

A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

- Eugénio de Andrade
[alice-in-wonderland-7.jpg]

Chamo-te

para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.

Jaime Gil Biedma


Juntar um pouco do corpo, da morte
a que sabe, a este estupor doméstico,
roçando-se nas arestas e sílabas,
os móveis, as paredes antes
comidas por posters, agora quase
nuas. Algumas estantes, livros
e poetas – inevitavelmente também
hão-de arder algum dia.

A voz enchendo, às tantas
rompe num gemido, um golpe
de ar que não chega a agarrar-se
a nada. Um primeiro verso
daí a pouco, muito por baixo,
começa mal e nem sabe bem
para onde ir. Põe-se a olhar
em volta – o aparelho de som:

um batido de punk com rock
molhado em pop, assim muito
pós-uma-porra-qualquer,
a música quebrando-se toda
com uma guitarra aguentando-se para ali
e uma gaja num nhanhanha
que não se entende,
mas tu não mudas
porque até estás a gostar.

O candeeiro, próximo, cospe
uma luz morna que vem coxeando
e se cansa antes de dar com os limites
do quarto. Deixas os óculos, pões
as mãos sobre os olhos
e esforças a vista:

a imagem dela vem de há
uns meses e pesa-te
sobre a colcha, secando o cabelo
escuro numa toalha, lento
como um fogo que sopras e
se reacende. No rosto torce-se
um sorriso, menos até que isso,
solta uns estalidos com a língua
e diz-te que não, antes ainda
de teres escolhido as palavras
para perguntar-lhe.

A noite vai assoreando
naquela boca mal pintada, suja
e desejável,
mordendo os lábios, rasgando
pedacinhos de pele.
É uma forma de dizer,
a cor regressando às coisas, rendidas
à recordação de um velho hábito.

Ficas-te com uns gestos
que vão até onde podem e depois
alagam, enquanto ela se serve
de um cigarro. Fuma rápido
para outro, como dantes,
mas não bebe contigo.
Disse-te certa vez que preferia não,
que lhe estragava a timidez.

Alguma coisa se estoura,
um silêncio que se aborrece de estar ali
no meio. Sangras do nariz, a princípio
nem dás por isso, depois escorre-te
sobre uma frase que tinhas
para dizer-lhe. Não dizes, vês-te
só, as mãos nervosas

como as da criança que se sentava
no sonho de há umas noites,
puxando a própria sombra
para dentro da boca, tossindo
meio aflita, e continuava.
Um sonho que (já é costume)
não quer dizer nada, mas a criança
não parava com aquilo.

quarta-feira, outubro 14, 2009

Autarquias litorais

Por um voto cala cada câmara
a vacanceira lapidação da costa.
Cóios de tabopan com um deus dará
de fossas atascam em bairro de lata
e choça para fim de semana as ribas da praia.
Tractores com canis de gente
ensacam-se na linha de aldeia e mar.
Uma semi-social de democracia
com o direito de todos ao iodo
amontoa-se de taras comuns
e lirismos motorizados.
Lerda epopeia moral de famílias
e fedores nem o inverno a leva já:
cus sobre pernas grossas,
escarro a seguir à prisca,
mamalhões tapados por cores indizíveis,
barrigas e refegos arpoadores,
peles curtidas de celulite.
Esta miséria saciada e com dinheiro,
funcionária, retornada e emigrante,
compra as casas baixas e cavalga-lhes
andares servis de tintas engenheiras.
Somos todos iguais, temos todos
direito ao mesmo: ao voto neles,
à destruição do que se pode ver,
à mesquinha cavalgada dos comércios,
à indústria de ida e volta para legar
vazios, monturos, devastações.

- Joaquim Manuel Magalhães


X – O CORAÇÃO

O coração assemelha-se
a quanto posso perder
– tudo – junto a ti.
Sob o sinal de anos pretéritos
a sós com o meu olhar
a colecção das nossas perdas
ganha um involuntário valor
sobre estes dias.

Adere a cada hora
um significado como uma forma
de gravidade sobre o tempo.

Hoje sei como se perde
a noite e nela a vida; como se
decompõe entre a luz e a sombra
onde um corpo espera.

Não é a ausência, tão-só o amor
quem faz esta vigília, esse excesso
que é também abreviatura
e aqui termina.

- Rui Miguel Ribeiro
in XX DIAS, Averno

O sentido simples das coisas

Depois das folhas terem caído, regressamos
A um sentido simples das coisas. É como se
Tivéssemos chegado ao fim da imaginação,
Inanimados num inerte savoir.

É difícil até escolher o adjectivo
Para este frio vazio, esta tristeza sem causa.
A grandiosa estrutura tornou-se numa casa menor.
Nenhum turbante caminha através dos soalhos degradados.

A estufa nunca precisou tanto de tinta.
A chaminé tem cinquenta anos e está inclinada para um lado.
Falhou um esforço fantástico, uma repetição
Numa repetitividade de homens e moscas.

Contundo a ausência da imaginação tinha
Ela própria de ser imaginada. O lago grandioso,
O seu sentido simples, sem reflexos, folhas,
Lama, água como vidro sujo, expressando silêncio.

De certo tipo, silêncio de um rato saindo para ver,
O lago grandioso e a sua imensidade de nenúfares, tudo isto
Tinha de ser imaginado como um conhecimento inevitável,
Exigido, como uma necessidade exige.

- Wallace Stevens
.
Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.

- Wallace Stevens

Uma velha cristã de tom altivo

A poesia é a ficção suprema, madame.
Tome a lei moral e faça dela uma nave
E da nave construa o céu assombrado. Assim,
A consciência é convertida em palmas,
Como cítaras de vento ansiando por hinos.
Em princípio concordamos. É claro. Mas tome
A lei oposta e faça um peristilo,
E do peristilo projecte uma mascarada
Para lá dos planetas. Assim a nossa indecência,
Não expurgada por epitáfio, praticada por fim,
É igualmente convertida em palmas,
Manejando-se como saxofones. E palma por palma,
Madame, estamos onde começámos. Permita,
Portanto, que na cena planetária
Os seus flageladores desafectos, bem-comidos,
Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,
Orgulhosos de tais novidades do sublime,
Tais trran-tan-tan e trrum-tum-tum,
Possam, meramente possam, madame, arrancar de si mesmos
Uma jovial algazarra entre as esferas.
Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias
Piscam quando não querem. Piscam mais quando as viúvas se crispam.

- Wallace Stevens

terça-feira, outubro 13, 2009


Os loucos muitos
é a mão do sol
que lhes coça a cabeça
lhes estende o lençol

Passam coruscantes
com os seus cães atrás
a fazer os recados
que ninguém faz

Ou presos da miragem
à tarde estão
de cócoras redigindo
o pó do chão

- Luiza Neto Jorge

Um lume branco à esquerda

Não perguntarás. É impossível saber que
fim os deuses nos terão dado

nem tentarás os números
onde se esconde o conhecimento
para suportares melhor o que tiver de ser - o bem ou o mal

quer Apolo te conceda ainda vários invernos e
conduza a vela do teu barco uma vez mais à ilha
e ordene a palavra do teu nome

se voltares a subir, no abandono de fevereiro,
o trilho de Delfos e o Templo

quer o filho de deus, o israelita,
te subtraia de invernos e dia «é o último»
quando as pedras invadem o Atlântico mar - a aspereza

espremerás o vinho e também o mel
a longa esperança tomarás por espaço
enquanto falamos, fugirá o tempo - o teu melhor verso

nem sequer o meu melhor verso....... nunca foram escritos

- João Miguel Fernandes Jorge

Meditação de um soldado de infantaria no campo de batalha (talvez no século XVIII)

O que hoje se escreve
é para mim
de tal forma obscuro
que não consigo
aproximar-me
minimamente do sentido
das palavras.
Coloco, por isso, a luz
do sol
sobre os textos.
Mas o foco fortíssimo,
ao invés de trazer
claridade,
faz emergir as camadas sucessivas
de que eles se
compõem: janelas,
portas, bandos
de aves que
à medida que leio e escavo
revelam outras janelas,
portas, bandos
de aves
ainda e sempre
mais escusos
e inumeráveis. Pelo que,
para não enlouquecer
de vez,
assesto a arma,
fixo o olhar num dos soldados
da vanguarda
à minha frente
e ponho-me a reflectir sobre
a única questão
que me parece digna
de glosa num tratado
de poética contemporânea:
como fazer
a pederneira comunicar
o lume à pólvora
para que o tiro seja
efectivamente
disparado?

segunda-feira, outubro 12, 2009

O poeta chorava...

O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
mas buscava uma estrela (talvez a salvação?)
O poeta era sinceríssimo honesto total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões

E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
depois comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do lôgro, é um tanto sinistro,
mas é inevitável, é um bem, é uma dádiva.

Tirai-lhe agora os versos que êle mesmo despreza,
negai-lhe o amor que êle mesmo abandona,
caçai-o entre a multidão.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com êle.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA
destroi-vos

- Mário Cesariny

João Miguel Fernandes Jorge


-
Entre a maneira de cair
a rosa e a maré de amanhã
recordas
as pedras e o ruído do tempo?

Entre a aventura e o verbo
ouve o meu nome veloz.

O espaço que prometias
faz a luz, atinge
a face antiga das mãos
onde parecia o destino.

O tempo é qualquer coisa
que tem a ver com água
com deus demasiado largo
explodindo.




Esmaga a neve esquecida
das mãos à alegria.

A noite cai sobre os olhos e não
chega para ninguém. As palavras levamo-las,
pequeno livro aberto sob os dedos frios,
como se alguém concordasse em as roubar.
As palavras ou a neve
quando o fim a inclina.

Elas, a nossa idade,
a frase distraída,
os lábios nós próprios, o
equilíbrio, ah! e o rosto,
o rosto encostado tanto à noite.




Neste forte de Espanha as estações
não abandonaram as margens,
as searas, as oliveiras, a flor.

As mãos tratam do alimento,
oscilação ou equilíbrio do corpo
talvez maior do que para ele este
lugar. As coisas próximas dos vivos
o sol limita.

Eu desço, procuro a mão que prolongue
as margens da ribeira.
Resta o que escrevi.




Creio que gastaste um pouco mais de tempo
que o devido, talvez não carecesses de mais nada,
de um pouco de justiça, um pouco da cidade em
que se vive. Tens a maior vantagem
em usar as mãos, mesmo pequenas que sejam
será como quem está sozinho e usa testemunhas
perante a natureza de deus.

Creio que adormeceste, que encostaste a fronte
ao verão, à punição que o submerge,
à violenta maresia.

A raiz afectuosa

Com os anos
a pouco e pouco
a raiz afectuosa
penetrou
no fundo da terra
até chegar ao mais pequeno
e mais antigo
veio de lágrimas.

- António Osório

A influência de certo imaginário islandês na poesia portuguesa mais recente

Vou escorregar, sim, e vou cair. Mas, antes da cabeça atingir com estrondo o chão gelado, vou roubar - só para os teus olhos - duas dessas imagens: cães latindo na neve, à beira dos portões, de baba espessa a escorrer das mandíbulas e o trenó dos meus irmãos a atravessar, sem remos nem velas, o crepúsculo de águas cheias de flores e moedas trémulas como um último sorvo de ar.

Lisbonne sous la pluie

for Michel Deguy

Pigeons verminously cling
to their sheltering ledge:
an Atlantic sibilance
turns the Latin edge

of this city unsunned:
the music of light and shadow
has abandoned Bach,
fades to muffled fado,

a lamentation of gutters,
of drains overfilled:
a moody ocean condensed
overarches the hills.

After the breath of car on car
the odour of just one
eucalyptus sweetens
the air now the rain has done.

- Charles Tomlinson

domingo, outubro 11, 2009

Clint Eastwood & John Updike

Numa das cenas de Gran Torino, de Clint Eastwood, a personagem do rapaz (Bee Vang) fica espantada com a colecção de ferramentas que o homem velho possui e dispõe meticulosamente - cada objecto no seu lugar - nas paredes e nas bancadas da sua garagem. Como é que alguém, pergunta o rapaz deslumbrado, consegue ter uma colecção tão rica e completa de ferramentas? O velho Walt Kowalski responde-lhe com o seu típico mau génio: é precisa uma vida inteira, minorca!
Esta cena foi ontem recordada por todos; e levou um de nós até Ponto último, o livro de John Updike recentemente publicado e traduzido por Ana Luísa Amaral (Civilização). Abriu na página 87 e começou a ler para si e para os outros dois:


FERRAMENTAS



Dizei-me, como têm lucro os fabricantes de ferramentas?
Uso o mesmo martelo há quarenta anos. A chave de fendas
turva de ferrugem passou há muito tempo para a minha mão
jovem, o seu novo proprietário. Esquecidas, as ferramentas
esperam para serem usadas: o alicate, boca muito aberta,
dentes como um tubarão de banda desenhada; a chave inglesa,
mandíbulas num parafuso; a plaina ainda afiada para morder,
ondulante e cheirosa; o berbequim ainda bom para mastigar
o pinho, como um pensamento paciente; a fita métrica,
polegadas inalteradas apesar de eu ter encolhido; o esquadro
de carpinteiro, ainda inteiro e recto, embora eu me tivesse
desviado; o nível de madeira da escassa colecção
do meu pai. As suas formas persistentes impregnam a cave,
em parcimónia que envergonha a nossa vida perdulária.



E os outros dois não ouviram silenciosa nem cerimoniosamente, como talvez fosse esperado. Nada disso: interromperam e fizeram comentários, deslumbrados, como o rapaz do filme de Eastwood, com a sabedoria e a precisão de uns versos, de um poema, afinal uma ferramenta como outra qualquer, à espera de ser usada, tão útil e tão cortante como um formão ou uma serra de cortar ferro.
«A arte é coisa que não existe para o artista, da mesma forma que não existe para o público; é uma noção que só tem sentido para os críticos.
O artista e o público contentam-se com registar, como um sismógrafo, uma carga electromagnética que não se pode racionalizar. Tudo o que se sabe é que se produz uma vaga transmissão, verdadeira ou falsa, com ou sem resultado, segundo o caso. Mas pretender analisá-la não conduz a nada.»

- Lawrence Durrell

Recreio

A poesia tem largas bancadas, uma gente abespinhada que fica meio fora meio dentro a dar indicações, uns tipos com cartão de sócio que vestem de gabardina e vêm de treinadores com os apitos, listas de convocados e blocos de notas todos riscados com as melhores estratégias para a vitória. Espera-se muito dela ainda, e ainda não se sabe bem o quê, mas serve de assunto a quem deles tem falta, a poesia, que afinal não é nada, um saco que enche e enche de ar para subitamente explodir, sem dessa forma comprimida resultar nada. Mas é assim, e não deve passar-se de um modo muito diferente no caso da pintura ou da música. Só que com estas e outras, talvez mais público signifique maior liberdade, uma escala de tons superior e um gosto que, saudavelmente, varie o bastante para que os inevitáveis, os do costume, assumam aí algum pudor nos seus exercícios para castrar, emparedar as coisas, limitar o espaço à circulação.
Se a poesia, seja ela o que for, pudesse não ser um castigo, um sacrifício a favor de supostos e cansados benefícios culturais, se a poesia pudesse significar só um gosto que é ganho pelos sentidos que se formam e seguem em verso, como quando se desenha e não interessa de imediato o quê, nem para quê, mas faz-se um desenho e isso parece natural, antes de ser mau ou bom, talvez a sua experiência pudesse crescer e revigorar-se. E mesmo quando seja um garoto que vai directo à folha, desenha com uma mão bem firme e não corrige uma linha mas parece contente com o que consegue, mesmo aí, não vejo ninguém (investido de bom senso, pelo menos) vir a correr para dizer-lhe que não é assim que se faz. Faz-se como então? Seguindo os pontinhos numerados na página?
Vão lá para o caralho com as lições, ensinar etiqueta e bons modos aos vossos filhos.
Que a poesia seja um recreio, que as qualidades, como o domínio da bola e a pontaria, venham com o tempo, e de cada um experimentar os seus alvos. Se não estamos a atirar à vossa baliza não se metam no caminho da bola. Se não querem jogar com os outros, joguem à parede, fiquem na sala de aula à espera que o intervalo acabe ou vão para casa, onde de certeza (?) haverá quem vos ache crianças muito especiais.

Em suma: uma coisa é aceitar um esforço e o seu resultado, comentá-lo criticamente valorizando certos aspectos, desvalorizando outros, mas desqualificar um esforço, não reconhecendo a sua intenção nem objecto é um exercício inútil. O recreio, meninos, é para todos.

Animal

«A incerteza em que vivemos! [...] Todas as nossas qualidades se confundem. Vemos como se ouvíssemos, e pensamos como se sentíssemos. A sensação obscurece-nos o raciocínio, e o raciocínio adultera a sensação. [...] Felizes os de intelecto cristalino, que tudo cristaliza. O universo, para eles, é qual bloco recortado. Mas os seus olhos não serão vítimas da sua própria luz definidora, a traçar limites, em pleno Indefinido? Mas são felizes, acreditam em si, absolutamente. De resto, cada animal acredita em si, absolutamente. Só admite os outros como alimento.»

- Teixeira de Pascoaes
dos dias antes de morrer
lavrou o campo
com o velho arado.

o meu pai via do escritório
passar os funerais
a caminho do cemitério da cidade.

havia nessas figuras austeras
algo de semelhante
a um outono de alma,
negro e cruel.

passados anos,
eu pensava como aquele pintor
diante dos caixões de pinho
levados aos ombros:

é assim que o meu país me quer.

- Carlos Saraiva Pinto
in Escrever foi um engano, O correio dos navios

Män som Hatar Kvinnor (2009)


Grande, grande filme - 8/10

sábado, outubro 10, 2009

Viajante

Eu sempre acreditei na aventura.
Aos dez anos lia o Verne e o Salgari,
em lugar da volta ao mundo
que me estava prometida.
Piratas, vagabundos, marinheiros, intrépidos
segadores de espaço, a gesta dos heróis.
Aos dezassete tinha tudo para me alistar
na marinha. Não me quiseram. Aos vinte,
a debilidade dos meus pulsos fez rir o imediato
do cargueiro Argos – o mais belo panorama
que meus olhos já viram. O resto, já sabeis,
igual a tantos. Comprei um táxi com dinheiro
emprestado. Iniciei-me nisso a que chamam
ganhar a morte. Durante quinze anos
não saí desta cidade, conheço-a melhor
do que me conheço a mim.
Quando os médicos me avisaram contra a sorte
sedentária que levava, que vontade de rir:
os índices de colesterol, o ataque cardíaco.
E pensar que fiz quilómetros bastantes
para dar catorze voltas, tão inúteis,
neste túmulo de raiva e desconsolo.

- José Miguel Silva

Um poeta

Eu nunca gostei de bolinhos da sorte.
Quando tinha fome bebia um copo de água,
um refrigerante. Era suficiente, até à próxima crise.
Praticava, com algum desdém, a arte do jejum
filosófico. Não conseguia acreditar em palavras
com mais de cinco letras. A realidade,
talvez por isso, negou-me o brevet de aviador.
Nem Dédalo nem Píramo nem nada.
Eu olhava com terror o sorriso das praças.
Na cabeça de um menino via o mapa do inferno,
e até o amor me deixava sem palavras. Poeta?
Não. Apenas um enorme desejo de cegar.
Em suma, fui um triste, um céptico, um homem
estacado na fronteira entre verdade e pânico;
muito rente aos afectos e desconfiado,
sempre, da ideia de cintilação.

- José Miguel Silva

dentro de momentos, moral

para José Miguel Silva

Música ou qualquer coisa que faça barulho
e encha o vazio da espera –
instruções mecânicas, avisos electrónicos
- até que chegue voz verdadeira
com nome, vontade, profissão,
capaz de responder com indiferença
e cinismo à aflição. Mas, não raro,
depois de guerra qualquer, depois do
pingue-pongue das palavras vazias,
sobrevém um conforto, uma quase alegria,
também pela ilusão de que o comércio
é esse intercâmbio do bem pelo mal
e deste pelo amor.

- Carlos Bessa

vida

para Manuel de Freitas

Hei-de , talvez, chegar a velho com o croché
da melancolia, como esses tantos que,
com mais e menos idade,
arrumam as horas nos jardins,
aprumados na sueca
ou noutras fúrias colectivas.
Entreter-me-ei, de desculpa em desculpa,
como se preparasse terreno
para um féretro de pompa,
assistindo. Apenas isso.
Porque um dia fui crente?
Não, apenas novo, sensível
- por distracção ou excesso pop -
ao que se mistura com as palavras
com que aprendi a ler e a escrever.
Poderá ter sido por higiene,
pelo prazer dos banhos secos
que certos livros oferecem.
Não sei, tudo o que conheço é
dos homens, mesmo o que se calhar
nunca foi e que chamam de
mistério, de magia. Sei que rasurar e
rezingar contra imagens e falinhas
mansas foram os modos que soube,
que pude, para estancar o medo
- sem dar por isso eram já armaduras,
asfixia -. Quiçá da razão, do ser-se
adulto. Deve ser. Não devem faltar
as análises, os argumentos, a argúcia.
Acontece que, ainda vivo, ainda
com o mesmo corpo, talvez como
analgésico, dou por mim mais atento
a sofrer contigo as estórias
de quantos, prisioneiros, pedem fora,
ao mundo, as razões e emoções
para uma dor que mesmo fingida
deveras sentem. E gostaria, como tu,
que a vida fosse tão-só o que é
sem que me sentisse espectador ou cúmplice.
Gostaria que não doesse tanto.

- Carlos Bessa
-
Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar,
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.

Mais do que tudo é isso que lhes quero
na confusão destas palavras atingidas
pelo contrário do que lhes entrego.
Pode até haver crianças, brinquedos espalhados,
o cheiro da comida, todas essas coisas de que fujo,
mas que me lessem sem pensar
na armadilha de palavras assim.

Alguém que me visitasse só
com o que ficou para trás nesse dia,
antes de pôr o vídeo com que vai tentar
esquecer o peso do princípio da noite,
as horas depois do emprego e do jantar,
antes do sono que tantas vezes é
um fechamento do desconsolo.

Estrelas cadentes, outras e outras
no dia? na noite tão curta? decepadas
e enaltecidas por entre o ladrar
de um cão que na distância
responde a outro cão.

- Joaquim Manuel Magalhães

sexta-feira, outubro 09, 2009

Unhas & cabelo

Diz-se que as unhas e o cabelo continuam a crescer depois da morte do corpo. Por isso, enquanto estou vivo, corto as unhas, rapo o cabelo, adio a morte, escrevo este texto. No entanto, mais importante do que escrever é constatar que, tal como acontece com as aparas das unhas e os restos de cabelo, também estas palavras não trazem dor alguma ao corpo que se separou definitivamente do que acabou de escrever.

noiserv

Fim de tarde no café

Na tarde cor de azebre
falávamos de coisas amargas.
Ali, na mesa triste do café
com moscas adejando
sobre restos de açúcar
e um copo de água
morna de esquecida,
falávamos da amargura das coisas,
entre rostos graníticos e enxovalhados,
entre estranhos e estranhos
de estranhos e com os que,
nada tendo de estranhos,
cuidam de cuidar
o que se passa entre estranhos.
Na tarde comprida e silenciosa
tecíamos gestos inúteis
e palavras entre dentes,
mergulhados na paisagem geométrica
do café. Do café tão cheio de gente
e fumo e moscas e caras tristes
e afinal tão profundamente,
tão desesperadamente __ vazio.

- Rui Knopfli
“(…) quem acusa este tipo de poesia de não se afastar suficientemente do imediato, de se moldar pela banalidade da vida quotidiana, esquece-se muitas vezes que, neste caso, o golpe da magia poética, quando é conseguido, consiste precisamente em interromper aquilo que está diante dos nossos olhos, em provocar um acto de estranhamento que faz com que apareça como uma forma de experiência aquilo que estava escondido na repetição banal. Esta interrupção, que é um estado de excepção na regra da quotidianidade, revela as asperezas que o hábito tinha alisado. Este quotidiano reclama a descoberta, a invenção, a construção. Desvelar-lhe o rosto é sempre mais difícil do que parece e significa descobrir o significado trágico do presente que não temos o direito de desprezar. Movemo-nos aqui num terreno onde, ao contrário do que alguns pensam, nem todos os gatos são pardos, onde continuam a ser facilmente reconhecíveis as mais fortes produções da poesia. Não esqueçamos que foi também no seio da realidade mais trivial que Baudelaire produziu um novo «heroísmo», ligado a uma radicalidade crítica perante o presente. Se tivéssemos de remeter estes novos poetas portugueses para uma disciplina do saber, diríamos que grande parte deles estão mais do lado da sociologia do que da linguística ou da filosofia.”

- António Guerreiro, in Relâmpago n.º12, sobre “Alguns aspectos da poesia contemporânea”


- Estou cansada.
- Eu também.
- De quê?
- De mim, de ti, dos outros, de tudo.
- Eu também. Mas...
- Mas o quê?
- No entanto, é um cansaço de falta e não de excesso.
- Talvez.

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A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.

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Um dia sopraremos os dias
para onde o tempo nos levar.
Reencontrar-nos-emos à hora
do mar não ter desistido de nós.
Os peixes cintilarão nos poemas
boiando pela adolescência.
Ao pequeno-almoço ser-nos-ão servidos
ovos escalfados numa pensão de estrada.
Olhando-nos, todos pensarão
que nascemos para isto.

- Ana Salomé

quinta-feira, outubro 08, 2009

Bernardo Soares

Nenhuma fotografia fará subir a chama
da paisagem para lá da janela do terceiro
andar deste prédio. O real é uma abstracção
inútil, uma eternidade a que tivessem

cortado a sua face de sonho, um coração
onde nada pesa que não seja o peso
leve dos sentidos. A vida toda é este mover
das coisas mais próximas, os ombros

a bússola de viagem o desenho a tinta da china
de pequenos barcos coloridos
algumas vozes longínquas que logo fazem
viver as suas formas substantivas: pobre

de quem vê o que seus olhos vêem. Às vezes
é como se tudo tivesse uma alma um
destino superior às vogais do seu nome
um espaço onde a eternidade vem para morrer.

- José Carlos Barros
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