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Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim - e nisso sou irredutível — não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!
Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.
Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognóstico reservado?
Maria Luísa era uma verdadeira pluma!
Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…
Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.
Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.
Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!
Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?
Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.- Oliverio Girondo
- Paul Celan
- David Bottoms
(tradução de LP)
- Ian Hamilton
- Jaime Gil de Biedma
Adília Lopes, Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007«Há sempre alguma coisa de penoso no palhaço triste que, sem graça, tenta rir de si mesmo. A escrita patológica de Adília Lopes coloca-se frequentemente na posição de quem tenta inventar motivos para se desculpabilizar, identificar os seus limites para, sublinhando-os, definir uma identidade. Apesar da aparência de ruptura que os seus textos apresentam (ruptura com uma imagem de poesia e de mulher), este é um projecto que ameaça esgotar-se na sua enunciação; melhor, ameaça esgotar-se na definição da autora enquanto personagem. Quando um projecto artístico vive da desconstrução de uma convenção, ele instala-se, por isso, num plano estranhamente convencional: vivendo da ou contra a convenção, perde parte importante do seu significado simbólico e artístico com o enfraquecimento da própria convenção. Definindo-se contra uma suposta convenção romântica de escrita e de feminino, o projecto poético de Adília Lopes fica paradoxalmente preso à manutenção desta convenção. Ora, talvez já não exista nem a noção de mulher, nem a ideia de poesia que subjazem como negativo a estes textos. Acresce a isto que a frequente focalização da escrita na figura da própria autora é em si mesma uma marca indelével da convenção romântica que supostamente pretende recusar.»

Entre 22 de Outubro e 17 de Dezembro o Centro Nacional de Cultura será o cenário para um convívio invulgar: escritores portugueses da vanguarda do século XXI recebem os seus artistas favoritos da vanguarda do século XX.
Na primeira sessão estarão presentes Gonçalo M. Tavares e Os Espacialistas.
Nas restantes sessões David Machado, Filipa Martins, João Tordo, José Mário Silva, JP Simões, Miguel Castro Caldas, Patrícia Portela e a revista «Criatura».
As conversas cruzarão temáticas, estilos, processos, valores, preocupações e inovações da "nova" e da "velha" vanguardas.
Uma iniciativa da Associação Prado. Apoio: Ministério da Cultura.
Mais informações aqui.
VELADA
A noite toda
deitado ao pé
de um companheiro
massacrado
com a sua boca
rangendo à lua
com a congestão
das duas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor
Não me senti
nunca
tão agarrado à vida
NOSTALGIA
Quando
a noite chega ao fim
pouco antes de primavera
e só raro
é que alguém passa
Sobre Paris adensa-se
uma escura cor
de pranto
Em um canto
de ponte
contemplo
o ilimitado silêncio
de uma rapariga
ténue
As nossas
duas doenças
confundem-se
E como deitados fora
permanece-se- Giuseppe Ungaretti
- Charles Tomlinson
- Ian Hamilton
- Ian Hamilton
A partir de amanhã, das 10h às 20h, e até quarta-feira, irei prestar aconselhamento jurídico nesse que é de longe o escritório mais respeitado desta nossa cidade - no número 11 da Rua Cecílio de Sousa.
Visitem-nos. Temos disponível para consulta e venda uma preciosíssima colecção de legislação e tratados abrangendo as mais diversas matérias do ordenamento jurídico nacional e transnacional. O Exmo. Senhor Professor Doutor Changuito não poderá leccionar a habitual aula de Direito Comparado, mas deixou as suas notas caso alguém precise de tirar dúvidas de última hora.
O sol de certa forma intitula a natureza. Eis de que forma.
Durante a noite aproxima-se dela por debaixo. Depois aparece no horizonte do texto, incorporando-se por instantes na sua primeira linha, da qual aliás logo se desliga. E há aí um momento sangrento.
Erguendo-se pouco a pouco, atinge então no zénite a situação exacta de título, e tudo então fica justo, tudo se refere a ele segundo raios iguais em intensidade e em extensão.
Mas a partir daí, ele declina pouco a pouco, em direcção ao ângulo inferior direito da página, e quando transpõe a última linha, para voltar a mergulhar na obscuridade e no silêncio, há um novo momento sangrento.
Rapidamente então a sombra cresce pelo texto que em breve deixa de ser legível.
É então que o brado nocturno da indignação ressoa.
- Francis Ponge
- Vítor Nogueira
in Mar Largo, & etc.
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Drummond de Andrade
- Carlos Drummond de Andrade
.
O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
– Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.- Herberto Helder
- Rui Nunes
- Eugénio de Andrade
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Jaime Gil Biedma
- Joaquim Manuel Magalhães

X – O CORAÇÃO
O coração assemelha-se
a quanto posso perder
– tudo – junto a ti.
Sob o sinal de anos pretéritos
a sós com o meu olhar
a colecção das nossas perdas
ganha um involuntário valor
sobre estes dias.
Adere a cada hora
um significado como uma forma
de gravidade sobre o tempo.
Hoje sei como se perde
a noite e nela a vida; como se
decompõe entre a luz e a sombra
onde um corpo espera.
Não é a ausência, tão-só o amor
quem faz esta vigília, esse excesso
que é também abreviatura
e aqui termina.
- Rui Miguel Ribeiro
in XX DIAS, Averno
- Wallace Stevens
.
Meço-me
Contra uma árvore alta.
Acho que sou muito mais alto,
Pois chego mesmo até ao sol,
Com os meus olhos;
E chego à praia do mar
Com os meus ouvidos.
Todavia não gosto
Do modo como as formigas rastejam
Para dentro e para fora da minha sombra.
- Wallace Stevens
- Wallace Stevens
Os loucos muitos
é a mão do sol
que lhes coça a cabeça
lhes estende o lençol
Passam coruscantes
com os seus cães atrás
a fazer os recados
que ninguém faz
Ou presos da miragem
à tarde estão
de cócoras redigindo
o pó do chão- Luiza Neto Jorge
- João Miguel Fernandes Jorge

-
Entre a maneira de cair
a rosa e a maré de amanhã
recordas
as pedras e o ruído do tempo?
Entre a aventura e o verbo
ouve o meu nome veloz.
O espaço que prometias
faz a luz, atinge
a face antiga das mãos
onde parecia o destino.
O tempo é qualquer coisa
que tem a ver com água
com deus demasiado largo
explodindo.
Esmaga a neve esquecida
das mãos à alegria.
A noite cai sobre os olhos e não
chega para ninguém. As palavras levamo-las,
pequeno livro aberto sob os dedos frios,
como se alguém concordasse em as roubar.
As palavras ou a neve
quando o fim a inclina.
Elas, a nossa idade,
a frase distraída,
os lábios nós próprios, o
equilíbrio, ah! e o rosto,
o rosto encostado tanto à noite.
Neste forte de Espanha as estações
não abandonaram as margens,
as searas, as oliveiras, a flor.
As mãos tratam do alimento,
oscilação ou equilíbrio do corpo
talvez maior do que para ele este
lugar. As coisas próximas dos vivos
o sol limita.
Eu desço, procuro a mão que prolongue
as margens da ribeira.
Resta o que escrevi.
Creio que gastaste um pouco mais de tempo
que o devido, talvez não carecesses de mais nada,
de um pouco de justiça, um pouco da cidade em
que se vive. Tens a maior vantagem
em usar as mãos, mesmo pequenas que sejam
será como quem está sozinho e usa testemunhas
perante a natureza de deus.
Creio que adormeceste, que encostaste a fronte
ao verão, à punição que o submerge,
à violenta maresia.
- António Osório
- Charles Tomlinson
«A arte é coisa que não existe para o artista, da mesma forma que não existe para o público; é uma noção que só tem sentido para os críticos.
O artista e o público contentam-se com registar, como um sismógrafo, uma carga electromagnética que não se pode racionalizar. Tudo o que se sabe é que se produz uma vaga transmissão, verdadeira ou falsa, com ou sem resultado, segundo o caso. Mas pretender analisá-la não conduz a nada.»- Lawrence Durrell
«A incerteza em que vivemos! [...] Todas as nossas qualidades se confundem. Vemos como se ouvíssemos, e pensamos como se sentíssemos. A sensação obscurece-nos o raciocínio, e o raciocínio adultera a sensação. [...] Felizes os de intelecto cristalino, que tudo cristaliza. O universo, para eles, é qual bloco recortado. Mas os seus olhos não serão vítimas da sua própria luz definidora, a traçar limites, em pleno Indefinido? Mas são felizes, acreditam em si, absolutamente. De resto, cada animal acredita em si, absolutamente. Só admite os outros como alimento.»- Teixeira de Pascoaes
- Carlos Saraiva Pinto
in Escrever foi um engano, O correio dos navios
- José Miguel Silva
- José Miguel Silva
para José Miguel Silva
- Carlos Bessa
para Manuel de Freitas
- Carlos Bessa
- Joaquim Manuel Magalhães
- Rui Knopfli
“(…) quem acusa este tipo de poesia de não se afastar suficientemente do imediato, de se moldar pela banalidade da vida quotidiana, esquece-se muitas vezes que, neste caso, o golpe da magia poética, quando é conseguido, consiste precisamente em interromper aquilo que está diante dos nossos olhos, em provocar um acto de estranhamento que faz com que apareça como uma forma de experiência aquilo que estava escondido na repetição banal. Esta interrupção, que é um estado de excepção na regra da quotidianidade, revela as asperezas que o hábito tinha alisado. Este quotidiano reclama a descoberta, a invenção, a construção. Desvelar-lhe o rosto é sempre mais difícil do que parece e significa descobrir o significado trágico do presente que não temos o direito de desprezar. Movemo-nos aqui num terreno onde, ao contrário do que alguns pensam, nem todos os gatos são pardos, onde continuam a ser facilmente reconhecíveis as mais fortes produções da poesia. Não esqueçamos que foi também no seio da realidade mais trivial que Baudelaire produziu um novo «heroísmo», ligado a uma radicalidade crítica perante o presente. Se tivéssemos de remeter estes novos poetas portugueses para uma disciplina do saber, diríamos que grande parte deles estão mais do lado da sociologia do que da linguística ou da filosofia.”
- Estou cansada.
- Eu também.
- De quê?
- De mim, de ti, dos outros, de tudo.
- Eu também. Mas...
- Mas o quê?
- No entanto, é um cansaço de falta e não de excesso.
- Talvez.
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A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
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Um dia sopraremos os dias
para onde o tempo nos levar.
Reencontrar-nos-emos à hora
do mar não ter desistido de nós.
Os peixes cintilarão nos poemas
boiando pela adolescência.
Ao pequeno-almoço ser-nos-ão servidos
ovos escalfados numa pensão de estrada.
Olhando-nos, todos pensarão
que nascemos para isto.- Ana Salomé
- José Carlos Barros