terça-feira, outubro 27, 2009

A doçura de um hábito

Com olhos meio apagados
onde a luz se debruça, e chove.
Alguns tons ao hesitar
embaraçam-se, escorrendo sobre
os quebrados degraus onde te
tropeça a voz e um veio de água,
apressando-se, galga as margens
da respiração para o sangue.

A cabeça baixa, levada entre curtos,
vagos pensamentos, descolados
uns dos outros sem deixar fio
nem sequência, e não deixa
de ser doce, talvez só assim,
chegando-lhes a boca distraidamente,
a imitar as formas e ganhar-lhes o gosto.

O ar respira com dificuldade
no quarto, ao fundo, a cama desfeita,
os lençóis onde dormiu e o livro
virado sobre a cómoda.
Uma lembrança, calmamente,
derrubando o coração
sobre o esquecido e fraco alcance da vista
desde a varanda. Uns descaminhos
sombreados de azáleas, brenhas e abetos,
o olor fresco das pequenas folhas
e dos rebentos contados no pátio
onde a tarde vem apanhar do chão
este Outono.

Sobre este eixo guincha um baloiço
no espaço vizinho, açoitado pelo vento,
a sombra encurralada estende bem
os pés para a frente, depois recolhe-os,
mas não vai mais longe.

Há um encanto grosseiro nisto,
uma suave e benigna tristeza
que se mistura na bebida.
Deixas-te entreter, quase
te olhas de trás – parado à chuva,
joelhos junto ao queixo, no velho
sofá arrastado até cá fora.

Já chove menos. Vão-se sacudindo
as flores espinhosas,
meio embrutecidas, uns restos
de azul-esverdeado entre pequenos
muros de areia – dão-se bem por aqui –,
drogadas de uma doce sonolência,
o barulho do mar e uma brisa colhendo
nelas este perfume difícil de explicar.

Devolves-te aos poucos de entre
o deleite descritivo, na curva de um verso
um soluço trepa-te a garganta, despertas
e descobres com o pé o cabo de uma fisga.
Vês a luz caída aí, envolvendo nos dedos
algumas pedras, atirando só
a sombra delas, numa lentidão venenosa
que acaba por atingir tudo.

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