quinta-feira, abril 28, 2016

Shakespeare





(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

língua morta 064


LACRE,
correspondência afectiva
Traduções e versões de poesia de Vasco Gato,


[200 exemplares, 240 pp., 12€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com

sábado, abril 23, 2016


Toda a santa noite, um relógio de cuco, o sino
de uma igreja, um carro na avenida, a insónia
a tomar o peso ao desalento, e a ternura em fuga
por um campo deserto. Toda a santa noite,
a mesma correria, abraçando-me ao ar como
se fosse um corpo, rasurando as imagens, em saldo
e já alheias, de um passado um pouco menos
precipício. Uma meia de leite, uma meia no pé,
meia lua, quase meia maratona, sem sair do quarto,
sem sair do enredo a que me acho preso como
o fogo à chama. Alça a madrugada o seu can-can
de vento sobre a tabuada livre das crianças,
e todo o meu medo se reconstrói em tempo, tempo
que percorre, nuvem de leite azedo, a vida de quantos
têm cinco dedos em cada mão pousada sobre o muro
do cerco. Depois, tudo pára (para tomar chá? ou será
que a canseira desafinou os dedos?) e, súbito, o degredo
é a única forma de esquecermos os barcos
em que, outrora, sonhámos alcançar Port Said
no embalo de um verso de desespero ao largo.

- Miguel Martins
22/04/2016

quarta-feira, abril 20, 2016

Cosac & Naify



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

O desaguar dos crepúsculos no Ebro


Eu estava presente quando o corpo do hernandez
deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente
roxo, evocava os últimos dias da sua vida,
quando se demorava o menos possível nos cafés de
barcelona, perseguido até por si próprio.
De facto a loucura procurava-o lentamente.
Durante a noite, em tempo de lua cheia, a sua
sombra por vezes corria pelo silêncio dorsal
das colinas, rindo. Eu lia então até tarde as
suas descrições de uma espanha enlouquecida,
sonhadora de sangue, impulsionada pelos
cemitérios sombrios onde corpos se iam decompondo
enquanto esperavam. Os seus dedos crispavam-se
quando o vi trazido para terra naquele poente
áspero como poentes da cantábria. Os seus olhos
eram duas covas percorridas por algas e
peixes minúsculos, os lábios articulavam ainda as
últimas palavras para o aniquilamento negro dos
seus dias. Mas a boca, submetida no silêncio de
estar morto, esboçava o mais puro sorriso,
a ironia de poemas inteiros meditando o mais
violento infortúnio.

A noite escurecia a praia e os rostos estranhos
das falésias. Vinha com as asas de morta humedecidas
de sangue, irmã de hernandez despedindo-se
suavemente da lua negra.
Olhei-o uma derradeira vez:
o ebro cobria-lhe os cabelos agitados
e no espesso desaguar das narinas
o seu estilo reaparecia.

- Rui Diniz 
retirado daqui

terça-feira, abril 19, 2016

Literato cantabile


Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:

Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento

- Torquato Neto

sábado, abril 16, 2016

Invocação da juventude


Wittgenstein escreveu o seu Tractatus Logico-Philosophicus dos 25 aos 28 anos, durante a Primeira Guerra, na qual participou como voluntário, alistado no exército austro-húngaro. Heidegger escreveu Ser e Tempo com pouco mais de 30 anos. A mais famosa tesi di laurea da história da universidade italiana, intitulada La persuasione e la rettorica, de Carlo Michelstaedter, um jovem de Gorizia, perto de Trieste, que restaurou com um grupo de amigos a prática do simpósio em que só era permitido falar grego clássico, foi finalizada quando o seu autor tinha 23 anos. Walter Benjamin publicou os seus primeiros textos – sobre a cultura juvenil e a educação escolar - quando tinha 15 anos. Lukács escreveu A Alma e as Formas quando tinha pouco mais de 20. Escolhi estes exemplos por pertencerem todos a um tempo, o início do século XX, e a um espaço cultural onde os movimentos de juventude foram muito importantes do ponto de vista  social, político e até filosófico (Walter Benjamin escreveu em 1913, tinha 21 anos, um texto programático chamado Metafísica da Juventude).  À juventude cabia a missão de imprimir uma marca profunda na sua época. Essa missão, de carácter messiânico, recusava o convencional engagement político e tinha uma inspiração anarquista e romântica. A juventude devia realizar uma verdadeira redenção da cultura moderna. Ora, o que é feito hoje da juventude? A resposta é simples: é um ideal de beleza física e um conjunto de hábitos, práticas de consumo e modas vestimentárias. Mas é também uma vida bloqueada. A Universidade moderna, fundada em Berlim por Humboldt no princípio do século XIX, tinha como um dos seus princípios fundamentais a renovação do saber pela sucessão das gerações. Hoje, as escolas e as universidades, em boa parte da Europa, estão envelhecidas: a grande maioria dos professores tem mais de cinquenta anos. Não só há um fosse etário profundo entre eles e os alunos (no ensino básico e secundário isto é gravíssimo) como estes não têm qualquer hipótese de suceder aos seus professores. E noutras profissões acontece o mesmo: os jornais, por exemplo, estão habitados por uma população que anda neles há muito tempo (categoria de usurpadores na qual me incluo) e os vai ocupar até que eles se extingam. Está para breve. Todos aqueles que nos últimos anos entraram de novo na profissão foi apenas para providenciar à proletarização do jornalismo. Um dia, todo o país das profissões clássicas vai entrar na reforma ao mesmo tempo e não haverá professores, nem médicos, nem funcionários públicos porque entretanto não foram formados, uma vez que não havia lugar para eles, por falta de “empregabilidade”. A sociedade que assim está a ser construída é estéril e corporativa. Aqueles que têm experiência exigem experiência aos que a não têm. A experiência é o requisito que serve de máscara ao sénior e lhe garante que tudo continua na mesma. É, em suma, o capital detido por aqueles que já perderam a juventude, os ideais, a esperança. A metafísica da juventude, a ideia da juventude como uma categoria ética e do “espírito”, foi completamente abolida e o que ficou no lugar dela é o racionalismo dos velhos. Por isso já não há uma vida dos estudantes e até a vida da infância está a desaparecer. A tarefa política mais urgente seria a criação de movimentos de juventude para recusar com veemência a mutilação e a instrumentalização a que os jovens estão submetidos. Hoje, já ninguém escreve um Tractatus aos 25 anos porque a um jovem não é dada aquela disponibilidade a que dantes se chamava “abstracção pura do espírito”. 

- António Guerreiro



quinta-feira, abril 14, 2016

domingo, abril 10, 2016

quarta-feira, abril 06, 2016


não sei
se tenho inimigos não sei
onde se escondem
os meus inimigos não sei
quem são os meus inimigos
o que deles herdei

pois serei carne da carne do mundo
dos meus inimigos, planta nas areias
dos meus inimigos, regado pelos céus
dos meus inimigos, e os ventos
dos meus inimigos são os meus

contemporâneos e antepassados

com eles rocei ombros em carruagens
na tenra idade e no sono e a caminho

em casa abandonada, a puxar luz aos olhos

esses comércios enfim contrabandos

*

Que sinais deixar na porta
para afugentar anjos e cobradores?

Já fiz o meu êxodo.

Então rodeio-me de trincheiras.

*

Que nem os pássaros a cair à nossa frente
Nem o grão de pó, nem a hora do almoço
Nem a quinquilharia do nosso passado
São neutrais na guerra dos mundos

qual que não vejo

repara

para chegares a casa terás
de atravessar exércitos
e a manhã não te traz
serenidade nem prodígios
por detrás da luz

e a promessa de minas d’oiro
é uma declaração de guerra

é que a serenidade é
uma declaração de guerra

embora
os bombeiros partam as portas de graça
e alguém da água faça chá, te leve ao jardim
ainda assim as urtigas são talvez
uma declaração de guerra

não sei

é incessante isto

- Miguel Cardoso 
(excerto, inédito)

terça-feira, abril 05, 2016

sexta-feira, abril 01, 2016

Sophia de Mello Breyner, cultura contra a cultura


[Intervenção da poeta na Assembleia Constituinte, a 3 de Setembro de 1975, sobre os artigos da Constituição que na sua redacção final teriam os números 42 e 43, relativos à "Liberdade de criação cultural" e "Liberdade de aprender e ensinar"]
«Num país e num mundo onde há doentes sem cama e doentes sem tratamento e sem hospital a questão da liberdade artística e intelectual pode parecer uma questão secundária. Mas sabemos que a cultura influi radicalmente na estrutura social e na estrutura política. E por isso a questão da liberdade da cultura é uma questão primordial.
E sabemos que toda a cultura real trabalha para a libertação do homem e que por isso toda a "cultura real" é, na sua raiz, revolucionária. E sabemos que não poderemos construir de facto o socialismo se não ultrapassarmos o uso burguês da cultura. Pois a cultura não é um luxo de privilegiados, mas uma necessidade fundamental de todos os homens e de todas as comunidades.
A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar - para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura. Como disse Amílcar Cabral, na frase há dias citada por Manuel Alegre, "a revolução é um acto cultural". E é por isso que existe sempre uma profunda unidade entre a liberdade de um povo e a liberdade do intelectual e do artista.
Não é por acaso que o Chile é neste momento o país do Mundo onde há mais intelectuais presos. No princípio da guerra de Espanha, na Universidade de Salamanca, o general Milan Astray gritou: "Morra a inteligência". Este grito pertence à essência do fascismo. Durante quarenta e oito anos a maioria dos escritores, artistas e intelectuais portugueses lutaram contra o fascismo. E ao lutar sabiam que não lutavam apenas pela sua liberdade, que não lutavam por uma "liberdade especializada", mas que lutavam pela libertação do povo a que pertencem e pela justiça e pela verdade da vida.
E a liberdade de expressão e de cultura, e nomeadamente a liberdade de crítica, é intrinsecamente necessária à busca e à construção da justiça. A justiça não se constrói com dogmatismos indiscutíveis, nem com maximalismos irreais, nem com demagogia, nem com cabotinismo cultural.
Precisamos de uma revolução culturalmente apta a fazer constantemente o seu exame de consciência. A verdadeira vigilância revolucionária é a lucidez revolucionária. Sem liberdade de crítica nunca se pode aprender verdadeiramente "a lição do erro". Sem liberdade crítica não há cultura verdadeiramente participante. A crítica é orgânica.
Somos um país que tem às costas séculos de inquisição e meio século de fascismo, com censura, prisões, escritores e pintores e intelectuais exilados, livros proibidos, exposições proibidas, projectos que nunca se ergueram. E vivemos num tempo em que nos países totalitários do Leste e do Ocidente aqueles intelectuais que têm a coragem de falar têm expiado e expiam essa coragem nos campos de concentração, nas prisões, nos asilos psiquiátricos. 
De tudo isto queremos emergir. Queremos uma relação limpa e saudável entre a cultura e a política. Não queremos opressão cultural. Também não queremos dirigismo cultural. A política, sempre que quer dirigir a cultura, engana-se. Pois o dirigismo é uma forma de anticultura e toda a anticultura é reaccionária.
O poder totalitário persegue o intelectual e procura manipular a cultura, transformando-a em luxo.
Não aceitamos a cultura como luxo de privilegiados nem como superioridade de eleitos. O lugar da cultura é a comunidade. Ultrapassar o uso burguês da cultura e pôr a cultura em comum é uma tarefa essencial do socialismo. Mas esta tarefa é uma tarefa de invenção. E inventar é uma tarefa da liberdade.
Por isso, toda a população tem direito à inviolabilidade e à livre expressão das formas de cultura que lhe são próprias. Nenhuma forma de cultura se pode atribuir o direito de destruir ou menorizar outras formas de cultura.
Não podemos aceitar o paternalismo cultural.
A cultura dos trabalhadores rurais, dos pescadores, a cultura das aldeias longínquas, não é uma cultura menor. E se essa cultura está paralisada pelo isolamento, esmagada e traumatizada pela pobreza e em muitos aspectos já semidestruída, no entanto, ela permanece, na sua raíz, uma semente de revolução, pois é uma cultura não burguesa, uma cultura integrada no trabalho e na vida, uma cultura do comportamento humano. E o encontro com essa cultura ajudará a ultrapassarmos o uso burguê da cultura.
No artigo intitulado "Gente da esquerda, renovai-vos", Jean Marte Domenach, ao falar da renovação da esquerda, escreve: "Eu mantenho que este projecto exige uma conversão intelectual. Não se trata de opor um novo obscurantismo à ciência e à técnica, mas sim de nos subtrairmos ao seu domínio e às suas fatalidades. Pois não é só o capitalismo que devemos condenar, mas também a cultura que o propôs." (...)»


Sunday Morning, Wallace Stevens, 1879 - 1955



 I

Complacencies of the peignoir, and late
Coffee and oranges in a sunny chair,
And the green freedom of a cockatoo
Upon a rug mingle to dissipate
The holy hush of ancient sacrifice.
She dreams a little, and she feels the dark
Encroachment of that old catastrophe,
As a calm darkens among water-lights.
The pungent oranges and bright, green wings
Seem things in some procession of the dead,
Winding across wide water, without sound.
The day is like wide water, without sound,
Stilled for the passing of her dreaming feet
Over the seas, to silent Palestine,
Dominion of the blood and sepulchre.

II

Why should she give her bounty to the dead?
What is divinity if it can come
Only in silent shadows and in dreams?
Shall she not find in comforts of the sun,
In pungent fruit and bright, green wings, or else
In any balm or beauty of the earth,
Things to be cherished like the thought of heaven?
Divinity must live within herself:
Passions of rain, or moods in falling snow;
Grievings in loneliness, or unsubdued
Elations when the forest blooms; gusty
Emotions on wet roads on autumn nights;
All pleasures and all pains, remembering
The bough of summer and the winter branch.
These are the measures destined for her soul.

III

Jove in the clouds had his inhuman birth.
No mother suckled him, no sweet land gave
Large-mannered motions to his mythy mind
He moved among us, as a muttering king,
Magnificent, would move among his hinds,
Until our blood, commingling, virginal,
With heaven, brought such requital to desire
The very hinds discerned it, in a star.
Shall our blood fail? Or shall it come to be
The blood of paradise? And shall the earth
Seem all of paradise that we shall know?
The sky will be much friendlier then than now,
A part of labor and a part of pain,
And next in glory to enduring love,
Not this dividing and indifferent blue.

IV

She says, “I am content when wakened birds,
Before they fly, test the reality
Of misty fields, by their sweet questionings;
But when the birds are gone, and their warm fields
Return no more, where, then, is paradise?”
There is not any haunt of prophecy,
Nor any old chimera of the grave,
Neither the golden underground, nor isle
Melodious, where spirits gat them home,
Nor visionary south, nor cloudy palm
Remote on heaven’s hill, that has endured
As April’s green endures; or will endure
Like her remembrance of awakened birds,
Or her desire for June and evening, tipped
By the consummation of the swallow’s wings.

V

She says, “But in contentment I still feel
The need of some imperishable bliss.”
Death is the mother of beauty; hence from her,
Alone, shall come fulfilment to our dreams
And our desires. Although she strews the leaves
Of sure obliteration on our paths,
The path sick sorrow took, the many paths
Where triumph rang its brassy phrase, or love
Whispered a little out of tenderness,
She makes the willow shiver in the sun
For maidens who were wont to sit and gaze
Upon the grass, relinquished to their feet.
She causes boys to pile new plums and pears
On disregarded plate. The maidens taste
And stray impassioned in the littering leaves.

VI

Is there no change of death in paradise?
Does ripe fruit never fall? Or do the boughs
Hang always heavy in that perfect sky,
Unchanging, yet so like our perishing earth,
With rivers like our own that seek for seas
They never find, the same receding shores
That never touch with inarticulate pang?
Why set the pear upon those river-banks
Or spice the shores with odors of the plum?
Alas, that they should wear our colors there,
The silken weavings of our afternoons,
And pick the strings of our insipid lutes!
Death is the mother of beauty, mystical,
Within whose burning bosom we devise
Our earthly mothers waiting, sleeplessly.

VII

Supple and turbulent, a ring of men
Shall chant in orgy on a summer morn
Their boisterous devotion to the sun,
Not as a god, but as a god might be,
Naked among them, like a savage source.
Their chant shall be a chant of paradise,
Out of their blood, returning to the sky;
And in their chant shall enter, voice by voice,
The windy lake wherein their lord delights,
The trees, like serafin, and echoing hills,
That choir among themselves long afterward.
They shall know well the heavenly fellowship
Of men that perish and of summer morn.
And whence they came and whither they shall go
The dew upon their feet shall manifest.

VIII

She hears, upon that water without sound,
A voice that cries, “The tomb in Palestine
Is not the porch of spirits lingering.
It is the grave of Jesus, where he lay.”
We live in an old chaos of the sun,
Or old dependency of day and night,
Or island solitude, unsponsored, free,
Of that wide water, inescapable.
Deer walk upon our mountains, and the quail
Whistle about us their spontaneous cries;
Sweet berries ripen in the wilderness;
And, in the isolation of the sky,
At evening, casual flocks of pigeons make
Ambiguous undulations as they sink,
Downward to darkness, on extended wings.