quarta-feira, outubro 16, 2019


uma orelha e um dedo, restos que ficaram na cama, ao lado do corpo que se esvaíra, que triste e estranho terrorista, chegara a enviar uns embrulhos, o correio entregou-os nos dias que se seguiram, numa ordem pouco clara, e todos ficaram na expectativa, as pequenas porções mutiladas de que se separou antes que se tornasse fatal, com a precisão de um rito selvagem, para que soubessem o peso de cada frase, o lado irremediável, que preço pagava com o que escrevia, e todo esse cansaço, as múmias alinhadas, os rodeios, os modos de se perder tempo, que paciência para os protocolos, que estória e que enjoo, essas estórias gastam-nos como má cerveja, o sabor a mijo, a circularidade que tanto nos castra, mais vale abrir a navalha, cortar uma orelha, entre uma mão e a outra desfazer alguma coisa, estrangular uma sombra, damos o gargarejo no copo de cólera de uns poucos, peregrinos que se cantam, espreitam-se, apagam a vela uns dos outros, sabem que a morte é uma fantasia que não exige grandes cuidados, não seca, uma pouca água a cada cem anos, e estes tipos acabam criando à sua volta um cenário de cadeira eléctrica, a mesma corrente que os anima acabará por fritá-los, que diferença lhes faz a afinação, o verbo arranca as suas penas, galga escalas, trepa qualquer baixeza, e afunda nela as esporas, que atropelo de assonâncias, que protagonismo dá aos ventos nas suas peças, como deixa para os estalido a pontuação, e nenhuma imagem parece intacta, mas está ali, toda cosida, remendada depois de que escaramuça, e quanto ao bom gosto parece que foi de alguma ajuda a casa ter desabado sobre nós, vamos arrumando à medida que nos dá jeito, fazendo um tecto como manda a chuva, e a velha máquina de costura que ali está provou ser bem mais calmante, a sua rima é mais desaforada, tem mais vigor, maior alcance do que os poemas que se escrevem, esses infelizes grupos de caça que formam os escritores, às dezenas, se deitam abaixo uma lebre já ficam exultantes, nada pior do que a vida nas composições de um bando de cretinos prolongando os tempos de escola, criançolas envaidecidos, prefiro desenhar as letras com tanta força e tão devagar que todo o sentido fuja, no escuro, calada e a brilhar, a televisão é a minha fada, sorri de tantos modos, faz o corredor do desespero com uma graça que me anima, passo pelo café no caminho para o inferno, bebo a bica, faço caretas no espelho atrás do balcão, quase me faço rir, fico satisfeito com as pequenas dores espalhadas pelo corpo, como se o recosessem depois do péssimo trabalho que foi feito originalmente, tudo está pior, range, assobia a despropósito, eu assombro-me, e na minha pele está-se cada vez melhor, mesmo o horror, como me fizeste notar, não funciona sem o sonho e sem a música, nada haveria a aproveitar de todo este desastre, mas assim é outra coisa, oiço o concerto dos cães à lua, tudo me fica a caminho, uma orelha e um dedo num banco de jardim, com um bilhete, assinado:

either way i lose




quarta-feira, outubro 09, 2019


Dobradas no bolso em linhas difíceis
as cinzas calmas
o lume escrito e gasto de um roedor lento
depois de muito terem ocupado os lábios
mas de boca encostada à própria mudez
que vozes se perdeu?
Vamos voltando sobre si as coisas
como ondas, se a luz recolhe na treva
algumas impressões, a desfasada razão
de tudo o que longamente se perde
ganho uma ciência de uso para a morte
por capricho, alguma revolta
carne e sangue e mais de tudo e do tanto
que aos versos se tem prometido
como se a voz mais que nada nos engrandecesse
e que riquezas, tesouros, que mágica
a de abrir-se a música, eviscerá-la
mas em que mesas deste mundo?
E cortar desde onde... até que fim desolado?
A colher escura e o horizonte queimado
por raiva amorosa talvez, oiço então
o que mal vejo, muito a custo a vida
estende longe a sua sombra, e que animal
arrasta o canto, que doce assobio selvagem
com que dobram as canas até quebrar
um sentido perdido em algum outro
e na retirada que sonhos enchem a cabeça
a um soldado, deserta covarde cantor
em troca de umas noites ao relento e a sós
arrisca a honra e o nome
e virão a encontrá-lo morto afogado
de tanta respiração e das tão esquecidas
notas caindo da memória à melodia
estilhas, soluços secos, o mais curto
o que o temporal ritma
a bruta canção ameaçando tudo
largar o seu fósforo, e se por absurdo cantasse
enquanto a história se apaga
em qualquer parte da noite se ouvisse
amarrado às coisas que vês
o feroz encanto de tudo o que te prometeste.


terça-feira, outubro 08, 2019

Esfarelar o Saramago


Que bando de caquéticos! O meio literário português é realmente invencível na sua cretinice. Estão a desfazer o Saramago em porções a tal ponto ínfimas que, do velho prestígio, parece ter sobrado só o suficiente para a anual carcaça de que se arrancam os pedacitos para causar estardalhaço entre os pombos. No que respeita às letras, há muito se dissipou o seu assombroso apelo. É próprio de gente à míngua de um destino, uma fé mais robusta, que se defenda do mundo cingindo-o a narrativas que não perturbam nada, não atazanam a consciência. É natural, se levarmos em conta aquilo que nos espera, que esta seja uma época toda ela jogando à defesa. Dentro de dez, talvez vinte anos, não só não se falará mais destas porcarias, como ninguém pode esperar que a literatura, nesta degeneração das últimas décadas, tenha a menor hipótese de se aguentar. Esta bimbalhice supérflua vai toda pelo ralo. Toda esta barulheira ficará soterrada. E ainda bem. Talvez restem alguns testemunhos, papéis chagados, linhas escrufulosas, mas não certamente este género de literatura-calmante. Sobre este “Pão de Açúcar”, não posso dizer muito mais do que já disse (aqui está: um, dois, três textos desenvolvidos sobre o assunto). Não bastou que eu tivesse um pouco de razão, fizeram o favor de dar-me uma razão absurda, cheia de hilaridade. E ainda que tenha previsto o prémio, não imaginava que dessem cabo deste, desbaratando a pouca dignidade que lhe restava. Se os que se estão nas tintas nem foram ler, ou tomaram tudo à conta da rabujice sacana deste vosso fiel sacripanta, talvez não se possa descartar de todo a ideia de que ainda há alguns espíritos não de todo amodorrados, alguns que se importam, e que talvez tenham tido curiosidade suficiente para ir saber mais qualquer coisa sobre um caso que, para lá do registo mais sensacional (esse que convenceu o Afonso de que podia esmifrar a coisa) se esconde algo realmente perturbador, um episódio escabroso e que deixa a descoberto um sarilho de todo o tamanho envolvendo as nossas instituições de acção social e, também, o sistema judicial. Assim, e passados anos, o encobrimento de tudo o que falhou e conduziu à morte de Gisberta Salce Júnior é coroado por uma narrativa de uma ingenuidade espantosa, tão edulcorada quanto imbecil, e que revela bem o tipo de produtos que saem das nossas indústrias de consolação cultural. Não vou mais longe aqui porque já fiz o que podia naquela sequência de textos, os quais não podiam simplesmente ser ignorados. Mas foram. O Afonso, os seus editores e os promotores deste sucesso das nossas letras estão-se nas tintas para o que aconteceu com a Gisberta ou com os rapazes. Esta obra é o exemplo acabado da inépcia absoluta daquilo que nos é vendido como ficção. Mas lá se arranjou um jeito de que o triste pão-de-ló ganhasse a cobertura glacé de um “grande” (leia-se: espalhafatoso) prémio. E logo se verá se este caso fica enterrado, ou se os bonzos das letras ainda haverão de sentir umas comichões caso alguém tenha a coragem de fazer uma exumação deste episódio. Quanto à literatura, vamos continuar a assistir a este um-dois-três-macaquinho-do-chinês, com a ficção a virar as costas quando a coisa fica feia ou exige outro empenho, e mais trabalho. Não podemos, hoje, contar com ela para desenterrar seja o que for, traçar um olhar mais fundo nem duro de tal modo que a vida nas suas linhas pareça aumentada. Nem esperamos já deparar nesta livralhada com uma frase que nos doa, nos siga até casa, se nos meta dentro, firmemente, a escarafunchar como uma terrível dúvida. É sempre um cauteloso pouco-a-pouco aquele que serve de processo a estes temperamentos regulares. Um uso da gramática para fins de tráfico de bijuteria melodramática. E gemem sangues de alguns milréis fracos. Sempiternamente as mesmices convencionais. Como me dizia o velho há dias: “A dúvida está a desaparecer do mundo. Matamo-la ao mesmo tempo que matamos os homens que duvidam. É mais seguro.” E esta nossa elite pindérica, as damas com lugar cativo nos júris de prémios, as viúvas de cera, os críticos oficiais, consolam-se com as suas certezas tão pobres e confrangedoras. E renovam-nas indo buscar algum rapaz ao molhe. De tal modo convertidos ao esquema publicitário, a bazófia leva-os a agacharem-se para catar novos valores, como se o futuro viesse numa apanha da conquilha. Uns elogios vagos, umas banalidades preguiçosas, limitando-se a carimbar a caderneta de mais um pacóvio que dê garantias de que vai sempre portar-se bem. É tão fraco o sustento das palavras. Não há mais veneno lúcido nos textos. Só ficou esta literatura de repouso, andando para trás e para diante de pantufas a tentar lembrar o que buscava e se lhe varreu. Estórinhas para essas senhoras cheirando a religião, mas uma religião que não crê em Deus nenhum. Senhoras que têm para anjo, para velar os seus dias, a pobre mosca que lhes assenta sobre a caca moral estrafegando-lhes o juízo. E nisto, quantos hoje escrevem ainda desde alguma outra parte, sem andar nesta procissão entoando as estafadas e tolas cançonetas? O que fica claro é que, para afastar a hipótese de um crime, todas as linhas foram entregues ao tédio, à conversinha mole, a uns enredos de entreter, a um modo de liofilizar a vida, e mesmo o horror com que esta tenta sacudir-nos. Assim, na nossa literatura, e especialmente na da chamada ficção, não se vê ninguém trepar, gritar nos telhados, uivar nas esquinas... Nada. A ofensa capital por estes dias é atentar contra o decoro, o bom senso, a escrita escorreita, que não dá trabalho, não desassossega, não range os dentes nas trevas. O homem já parece estar fora das suas próprias criações. Não há a menor vertigem, não se sente aquela tontura que nos provocam os aspectos trágicos e irremediáveis à medida que penetramos no seu destino. E quem paga por tudo isto são as palavras. Restos. Nem a música resiste, e já só vivemos de velhas gravações que vão perdendo alcance até serem ecos sem pujança. Já não acreditamos em deuses literários. Só capelães, acólitos, beatas. De algum modo, mesmo aqueles de nós que se esforçam, e que vão mordendo o limão, estamos todos sujeitos a esta carência, esta espécie de escorbuto que se generalizou entre a tripulação da nau encalacrada num baixio, e que deixa para o fim os piores, estes moluscos, lambe-botas. Parabéns ao Afonso, que deve estar muito feliz, e que celebrará o prémio sem vergonha nenhuma da atitude parasitária que fez dele a mais segura das apostas entre todos esses novos escribas inofensivos que revelam grande promessa.

quinta-feira, setembro 26, 2019

Soldados gratuitos


Prosseguimos as buscas, e estas exigem-nos, na verdade, um combate, um exercício desesperado para arrancar a página escabrosa, um crime inesquecível, que impressione, mas, mais que isso, macere, convulsione, degrade a imagem que fazemos de nós próprios, uns dos outros, rancorosos ou dóceis, imbecis sempre, muito ou pouco, pois não passamos de um amontoado de miseráveis, e o que é preciso é dar cabo de toda a confiança, essa ilusão malcheirosa que está em toda a produção da época. Mais valia que rastejássemos, sem dignidade nenhuma, talvez até um pouco menos emproados. Mas como notava o mais maduro, “nós nunca mudamos: nem de peúgas, nem de donos, nem de opiniões, ou fazemo-lo tão tarde que já não nos vale a pena”. E depois, quando se tenta tocar esse fundo sensível, ainda há a carreira dos malentendidos, essas leituras apressadas, e não chega uma vida inteira para que um tipo se liberte das acusações mais vulgares, as que primeiro vos sobem à boca, como o escarro que subjaz a almas sem treino nenhum. Neste vosso inferno, chapinha-se, não há profundidade nenhuma mesmo que passasse pela cabeça de alguém afogar-se. Essa ideia que de mim fazem, não me parece que esteja errada, apenas peca por ser simplória; um mal que se esforça, e não essa sujidade que resulta das vossas tão fracas convicções e ainda mais débil talento, assim, o que aborrece em tudo o que me chega desse monte de carcaças é como recusam olhar-me mais fundo, pelo receio de se encontrarem a si mesmos, verem-se espezinhados. Tem de se destruir o outro tendo-se abismado nos limites de si próprio. Como avisava Valéry, temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes. Pois de mim eu sei bem o quão magoado estou, e resulta disto que sei magoar. Mas que me venham com ofensas cheias de mofo, em tão maçadoras redacções escolares... e o que custa mais ainda é ver como lêem livros, documentam-se. Armados, que vontade de rir, se a ponta que cospe fogo parece levantar-lhes dúvidas, e se estão mais à-vontade com as trombetas de que logo puxam a rolha, a única ameaça é a facilidade deste em render aquele, como se diluem uns nos outros, repetem as mesmas queixas, com idêntico estrépito, e se algum perigo resulta disto é o seu prolongado cerco, fastidioso, pois não há sítio onde não estejam. Depois, e mesmo que sigam admiravelmente a marcha do pelotão, que tiros nos pés, que barracadas, que sucessão de falhanços nos servem estes “soldados gratuitos, heróis perante todos e macacos falantes”. Atacam violentamente no coro, e a sua estupidez soa cortando o avanço até a um incêndio num campo seco com a chocarreira música da sua secção de cordas, dominada pelas cigarras. Estão na mais perfeita sintonia com a impostura, e, por isso, as suas consciências parece-lhes que rimam com tudo o que têm à sua volta. É tão fácil ir buscar outro, revezarem-se nos seus postos, como um corpo que se deixa sacudir pelas suas pulgas, e se chega à frente, qual moribundo disposto a ser estripado, como se nada fosse. No fim, como se recarregassem, continuam todos a admirar-se mutuamente e isso basta-lhes. Trepam a esse céu onde nada brilha. Lá vem este grunhidor que mal se distingue do último, lá vem com a conversa do moralista, do que se julga impoluto, quando há muito que o que aqui se foi dizendo é que só me orgulha ser bem pior do que possam imaginar. Lá vem o chinfrim de frases que, de tão buriladas, se recortam e abrem como grinaldas, enfeites de festa, bandeirolas, e fazem as suas caretas, cumprem o serviço obrigatório em nome de um destino do qual há muito me desembaracei. De Ponta Delgada mandam-me um sicário zarolho, mais outro que me vai fazer a folha, e lá vem ele com umas considerações muito gerais, uns planos de prevenção, cuspinhando umas sentenças que qualquer um podia ter baixado a escrito numa sebenta, mas sem nada que se sinta ou resolva interiormente, uma só gota de veneno certeiro, e logo fica claro que é mais um que puxa o lustro, faz entrar o processo com uma lista de provérbios inúteis, mas sem uma só linha admirável a impor-se-lhe, quase a estrangulá-lo. E, então, contamos com mais este aguarelista insular, contente por ser incluído nos turnos, vir “fortalecer muralhas”, como diz o imbecil que afixa o calendário e trata da rotação do pessoal. “Gritando de cio, desabam os telhados”, assegura-nos aquele redundante magarefe. O certo é que cada vez mais os ecos mais furiosos de qualquer razão inventiva não têm já cabimento se zurzidos contra este quadro mental em que chafurdamos. A literatura é, entre nós, um resto. Uma coisa tremendamente desolada. Tantas vezes saqueada... Tudo o que se quis evitar culminou nos nossos dias e o vazio encharca-nos. Faz um frio que nos deixa tiritantes, e, mais do que quaisquer outros, parecemos ser nós os filhos daqueles que quiseram fugir e não puderam ir mais longe porque o mar não os deixou. Sobrou uma hipótese: a fuga da própria vida. Escapar-se aos sentidos, até ao último. Assim se explica esta espécie de bebedeira, o estupor geral: “Para o alcoólico a água pura é um veneno. Odeia-a com todas as forças... não a quer ver à mesa... ele quer bosta engarrafada. Em filmes, em livros, em tiradas, em canções de amor, em mijo...” E, nestas condições, mesmo aquele que aspira a um acto infame é tomado por um “moralista”, alguém que ambiciona tornar-se o senhorio na morada da salvação. Ora, este género de confusões e inanidades são próprias de um tipo de escriba para quem já nem as palavras prendem o menor sentido, e não passam de gases modulados por um instrumento que se toca de forma sofrível apenas para entreter os beiços. Estamos, assim, muito para lá do bem e do mal, num território onde esses velhos conceitos são esgrimidos da forma mais ociosa, e chegamos a sentir nostalgia de tempos em que se falava do meio literário como um campo propício a esses espíritos capazes de ordinarices espantosas, de uma “maledicência absoluta, fanática, máxima, do mexerico furioso, mesquinho, da bisbilhotice delirante”. Apenas temos para nos coçarmos fantasmagorias sórdidas, ausências pesadas e que ressoam nos nossos espíritos como uma maldição. Nem somos já essas tristes coisas vis que provocam o nojo, mas apenas existências desnecessárias, e que se agarram, não propriamente à vida, mas a isto, sendo que, intimamente, reconhecem o favor que se lhes faria pondo fim à sua miséria. Neste estado de coisas, é de uma perfídia assombrosa alfinetar essas ilusões, expor esta enorme e permanente velhacaria. Pois é esse, no fim de contas, o fio que vos prende à vida.

terça-feira, setembro 24, 2019


"No nosso país de estetocracia – não sei o que se passa noutros lados, com certeza a mesma coisa, embora me pareça que não no mesmo grau – tudo quanto faz gala em pertencer à casta dominante se afirma, antes de mais, adepto do bom gosto, do discernimento estético, da fala elegante, da boa escrita. O lado belas-artes, boas maneiras e belas letras é o lado do mais forte. A casta instalada proclama-se conservatório cultural, e assenta nisso a sua legitimidade. É o seu argumento de reserva, o seu salvo-conduto. A senhora – a senhora Não Me Toques, a senhora Alta Costura, a senhora Pancada Alta – sabe que aplicando verbos no conjuntivo consegue mergulhar numa reverência assombrada o canalizador que conserta a torneira. Mesmo nos casos em que a senhora não tem dinheiro para pagar o conserto. Não é a riqueza que fundamenta os galões, mas o emprego do conjuntivo. Já se reparou nisto? Já se reparou o bastante? Julgo que não. O mito da boa escrita é uma peça capital da defesa burguesa. Se quisermos falar ao coração da casta que por aí lavra, impressionemo-la com os conjuntivos, com o cerimonial do bem-falar oco, com os seus tiques de esteta. Aquele que estragar de uma vez para sempre os santos relicários que ela costuma brandir, como os feiticeiros negros brandem os seus fetiches – os seus grandes autores, a sua Gioconda, as suas cadeiras Luís XV, a sua bela gramática, a sua língua morta esterilizada, toda a sua confusão de conservas de osso que faz passar por arte e cultura –, aquele que conseguir fazer entrar na cabeça do fim da fila que a verdadeira arte viva, a única, e a verdadeira criação inventiva estão do seu lado e não do lado do mascarado patrocinado pelos ministérios, fará tocar a despedida da casta que por aí lavra. Mas, quanto à casta que por aí lavra, teremos de contar que vai defender-se. Ela depende do seu mito e do seu estilo: todos os meios são bons, todos os golpes permitidos." 
- Jean Dubuffet

segunda-feira, setembro 23, 2019


Numa linha só, desperto, o nó desfeito, a corda na boca, e para escapar falavas a língua deles, dores que combinam com a subtil emboscada de uma paisagem, até gostares, pela hipótese de vingança e por ser mais fiel ao terror que agora te alimenta, admirá-la como apenas um estrangeiro pode, entreter-se com a descrição de mapas (as descrições em geral são uma forma de hipnose), valas, serras ásperas, dunas, os espaços retorcendo-se com a indisposição própria da gramática, o gole de um copo deixado algures com travo de navio afundado, os corpos a dançar lentos com os peixes... Ouves-me? Cheio de uma culpa apaixonada. E que água escura, tão densa de reflexos, que rostos nos espantam, que frases, a escrita que se arranca, sem cortes, sem truques, esgotando cada pedaço de papel, numa página corrigida de forma insana ao longo de anos, quase ilegível a cada linha, de tão fria, tão pesada. Que importa se nada canta tão claro, deixemos-lhe mesmo essa tapeçaria de escombros, e que lhe custe tanto a ele, pague o mesmo preço, levante com a própria carne estes ossos. Por mim, já me acabo aqui, e imagino que te cubra com o seu pó um tempo meditado, um tiro dividido por quantas bocas. O que muda, perguntas-me, ou de que vale? Agora, encolho os ombros; mais tarde talvez me ocorra que o sangue acaba por mostrar-se mais atento. Mas não vejo nada de recomendável. Nunca aconselharia porra nenhuma a quem não estivesse já perdido pelo mesmo caminho. Detestável essa coisa de tomar os jovens por outra coisa que não um eventual inimigo. O formidável antagonista que te obriga a rever tudo, a desejar ardentemente a razão de quem regressa ao zero. Qualquer outra razão é um desastre. Disseram-me outra coisa. Fizeram-me as recomendações mais firmes, desde o não te distraias, e, é claro, o não percas o tino, não te deixes encantar pelo ódio, não te desvies por coisas sem importância, mas ouvi-os dizer quase o contrário: acende tudo o que possas, usa a luz toda, a que se integra e se alastra rangendo; de cada nesga, candeeiro de rua, do ínfimo fôlego de um fósforo, enche-te o mais que possas porque, se lhes trazes o susto, invariavelmente, apagam-te a luz. Não esperava era que se metesse pelo sono, um raio estremecendo tudo, sob a pele, onde a carne assume expressão contra o mundo, os sentidos desfeitos por essa intermitência desoladora, até que a cabeça te seja um peso oscilante, estranho – dê vontade de te livrares dela. Quieto. Emudecido e subalimentado, que figura se faz, tomamos nota então das parecenças com todo o pobre diabo, e o que ouvimos contar regressa com as sombras do avesso. Nestas horas, se a distância nos medisse em seixos, galhos, unhas, cada caroço roído pelas voltas do sangue. Se lhes tocasse a noite como a mim, que atalhos, que modo de se sentar sozinho à mesa, deixar vir as marés, comer-se o defunto que se abriu em gomos, esta árvore caída que te deu a tangerina mais escura. Nas unhas, o gosto amargo que torna a mão próxima de outros ciclos. Que outro mundo assim debaixo das unhas. Mais acima, junto das mulheres, dobrar o rio sobre o joelho, ouvi-lo escorrer, secar-se numa toalha, escolher um quarto, segui-la. É uma pena que tenham limitado tanto a lista dos amantes. Que crimes te chamam a ponto de sentires o nome sujo, inspirado, o tocam como de um violino podre se raspa uma nota viva, cheia de intimidade dolorosa, o oco, o infinito sonoro, esse ritmo revolvendo-te o juízo, como um livro onde uma rosa deixou o seu murmúrio, e, porque não me deixa ouvi-lo, dou veneno ao cão e ladro eu pela vida inteira.

terça-feira, setembro 17, 2019

DA EDIÇÃO LITERÁRIA E DOS EDITORES


Quem está na edição sabe como a regra que vai valendo nos tira sempre o chão, a cada passo estremecemos, anda-se aos trambolhões, entre uma série de desastres, alguns tremendamente felizes, e mesmo que se esteja quase sempre em perda, mesmo das piores enrascadas, sai-se com estórias, não nos falta matéria para elaborar perfis, comparar-se e fugir de si mesmo cultivando relações entre este “género desarranjado”, não perder nunca o encalço dessa sarabanda alucinante, quase todos, com a ocasional excepção, são fabulosamente ingratos, às vezes ao ponto da crueldade, e isto sejam eles radiantes safardanas entre tantos soldadinhos de plástico, oportunistas com um certo brilho, membros de uma incerta realeza, príncipes disto e daquilo que, com os seus modos impecáveis, até solenes, querem saber se estamos à altura da honra de nos tomarem para seus secretários pessoais, e há os fatigantes funcionários que aturamos pelo talento que, inesperadamente, lhes assoma nos escritos, ou esses outros párias bafejados por uma glória discretíssima, que não incomoda ninguém a não ser os próprios. Ser editor é gostar de espreitar a coisa no antes, crua, ainda tremendo de possibilidades, ler por cima do ombro, rezar em voz alta e ser atendido por um deus andrajoso e atoleimado, apreciar a pureza de uma impressão que salvou de se afogar, rodeada de borrões e linhas riscadas com uma fúria que há muito parece ter caído em desuso nos ambientes literários, e é o privilégio de seguir esse esforço comprometido até à loucura, o de quem vai desatando os nós de uma corda e se revolta contra a terra inteira, devido a não sei que afronta infligida por um ser invisível. É um gosto, afinal, de se dar ânimo a essas subtilezas tão ferozes, tão desacompanhadas, dar pelo mecanismo, a música dessa ocupação absurda, uma fornalha em que se queima a vida para dar força às vezes a umas poucas linhas. É abissal a margem para o erro, e, de algum modo, todos se deixam iludir por cintilações de oiro, um pó espalhado, dançando. Colhem-se pistas, firmando esse retrato do desgrenhado detective a cozer uma eterna ressaca, com gestos ingénuos, os dedos gastos, fumados e ardidos de insónia, com a memória como papéis flutuando num minúsculo apartamento inundado. Sem nada de seu, orgulhoso apenas do seu rasto, este tipo de editor ama o descalabro das suas pacatas ilusões, não há nele nenhum rigor, mesmo o seu reflexo parece efeito de uma longa colagem, as coisas sucedem-se com o azar deixando o troco para um resto de sorte. Prossegue nesse modo cambaleante, de quem apenas se guia por uma luz bem fraca, que já nem bruxuleia. Seria uma tristeza, uma canalhice, na verdade, fingir que há algum charme na edição literária, é uma vocação desesperada, em nome de um mundo que há muito levantou as âncoras e descolou deste, tendo deixado apenas o cheiro a despegado, esses traiçoeiros ecos de ordens às tripulações, e ainda temos de aturar esses marinheiros de água doce, enchendo a toda a hora a boca com os ó céu ó mar ó clã ó destino, e temos as enfadonhas canções de bêbados, as mais desconchavadas meretrizes com a sua entrega desoladora, e, nisto, no máximo pode aspirar-se àquela noção romântica que Leminski cunhou para o poema que não se entende, e por isso é digno de nota, com a dignidade suprema de um navio perdendo a rota, assim, editar seria como escrever algo em busca de um desentendimento imensamente desafiante e animador, essa conversa que o escritor israelita Etgar Keret disse ser longa como um túnel debaixo de uma prisão, escavada pelo editor – paciente e dolorosamente – com uma colher, para que possamos sair do lugar onde estamos. A edição está a meio caminho entre a utopia e o pão com margarina servido a um faminto. Há, por tanto, muita margem não só para erros audaciosos, mas para aldrabices, e é uma paisagem que se apresenta hoje cheia de lacraus e vigaristas, desses que não apenas acreditam mas, mais, até se deixam embalar nas próprias lérias. Isto digo-vos eu que, como sabem, me alegro e compadeço tendo-me oferecido para fazer o trabalho sujo, quando todos se enchem e ninguém lava um prato, nem há o mínimo asseio, vejo-me tão desacompanhado, pobre diabo de mim com tantos rabos por esfolar. Os editores emergem entre o desgraçado lote e, põem as gafas como quem veste uma capa, e comportam-se como heróis em ficções ameaçadas, falando como predestinados. Alguns vão editando como quem organiza um coro, numa peça tão gritada e tão mecânica que lembra a cantoria da tabuada, esse eco amolecido que parece ser tudo quanto ficou de uma infância corrompida. Se os mais esforçados vão cultivando um oficio que se quer insustentável, e misturam um insano desprendimento com um impiedoso faro em relação às grandes causas, os outros dedicam-se a acções publicitárias acompanhadas da reivindicação de um prestígio que se acabou. De resto, estão-se nas tintas para os leitores. Mal passam a margarina pela carcaça, e o chá que servem azeda a água. Montam estes serviços de acção social e vão-se safando com ajudas de custo, subsídios de inserção, sacudindo tudo o que haja para aí de entidades culturais. E se um paquiderme se enfia numa ilha e diz que faz livros só porque esgota tinteiros, sabemos como estamos submersos nesta forma de contrafacção literata. “Fazemos livros”, diz-nos o badameco ilhado. E acrescenta: “Não fazemos objectos para nutrir aqueles que apenas se servem dos livros para inchar egos e panças.” Mas é precisamente esse o modelo de negócio: egos & panças. E depois ajuda ter certas características, como baixeza, cobiça, temperamento de chacal. Este tem sido o signo de uma geração que já se sabe perdida e, ao invés de se rebelar no interior dessa angústia, distinguindo obras singularíssimas, que encorajem o leitor a comprar cada vez menos livros, a percorrer as galerias escavadas à colher debaixo desta prisão com uma vela junto ao peito, antes contribui para que fiquemos encarcerados entre estas muralhas de lixo a que, desde há algumas décadas, vieram juntar-se os livros. Com toda a sua estéril agitação, a acção destes editores é menos corrosiva do que é complacente, e não faz mais do que cantar a tabuada. Ao mesmo tempo desarmada e prevaricadora, é uma acção que se faz valer de uma ideia do livro que ela mesma desonra, e todos esses editores que se dizem independentes são piores do que os outros. Se estes são meros jagunços que servem a inclinação, já aqueles são os tarados deste inferno degenerado a que só restam formas de pequeno poder burocrático, e que se fazem valer de certos ideais já bastante maltratados, para se tornarem controladores do tráfego do ego, esse tráfego rastejante que paga portagem sob a forma de bajulação.

sábado, setembro 14, 2019


Era de esperar que se escavasse abaixo do zero. Há gerações que não produzem um só protagonista, nem um personagem delicioso. Não acham nas suas reservas um anjo irado, um escaravelho que empurre a sua bola de esterco por uma distância que canse os céus. Pior é como a época se compensa e o disfarça, vem-nos com a infindável lista de candidatos. Currículos e recomendações. Como cada um se nos mete pela frente, enumera os tantos dotes, e, rejeitado, lembra o gafanhoto a dizer que isto não fica assim, que volta, que da próxima nos traz as pragas bíblicas. Maldição da fraca presença, empregados de mesa desse tristíssimo cabaret que não fecha por nada deste mundo. Repara no seu dilúvio pingado, reuniões da comissão taralhouca. Hoje o diletante é todo um circo arrasando as províncias com o seu mesquinho fabulário, sem sinceras distracções de bicho, a consciência atazana-o com ideias de grandeza mesmo ao limpar o cu; se prende um assobio com alguma vivacidade logo se imagina a compor sonatas, liderar óperas, e aborrece os amigos com a dor das imensas possibilidades que o acossam ao longo de uma hora só. Não aguenta todo o talento desperdiçado. Mira-se nas montras, cospe no pente, acachapa o cabelo, acha-se despencado de um mito dos antigos, e ainda que não deixe de cumprir com todas as obrigações desde que se levanta até se lançar à cama, entrelaçando os dedos como uma adolescente prometida, se tira quartos de hora para aliviar-se nas murtas, dar uma volta entre os campos, logo se põe a fumar um caule de flor e a imaginar-se um admirável andarilho, um sujeito de uma insubmissão exemplar. A maior banalidade merece-lhe um grande temor. Ensaia-o como se a natureza lhe imitasse a expressão, lhe fosse um espelho portátil, fluído, e se calha ter audiência, lá vem o relincho moral, a macaqueação e imitação das posições doutrinais. Diz-se um pastor de riachos e tempestades, numa charlatanice de ganâncias irrisórias, um usurário do ego, tudo por uns trocos de ilusão. Vai lendo como um catador de piriscas, tentando saborear a inspiração na saliva já seca do outro. Órfão de musa, só lhe resta desdenhar a deste ou daquele. Compara-se e o seu desânimo com o das páginas mais encharcadas da literatura, os urros dos grandes amotinadores da consciência, trocando-os em personagens de inquietação canalha entregues a alcoolismos coceguentos, sem vertigem nem uma sede raspada mais fundo, só essa figura que se ouve rouca e aos tabefes no fundo da cantina a exigir outro mezcalito, por favor. Mediúnico cronista, xamã emparvecido, furioso aforista, notário da pequena edição, pregador da fé que se puser ao dispor, relojoeiro deste tempo alheio e de feitio turvo e nebuloso, marchetador da via do comércio piolhento, especialista de inventários, orgulhoso gato pingado a enterrar carne morta convencido do seu tesouro, pevideiro, comentador de tudo na mesma hora, filósofo ou bruxo e, porque não, poeta também.

domingo, setembro 08, 2019


I am in blood/ Stepp'd in so far that, should I wade no more,/ Returning were as tedious as go o'er.

Comprar um pedaço de alho e pão, caçar pombos à pedrada, o que torna possível comer-se a si mesmo vivo, essa lista de vinhos para se encher de sede, os pobres prazeres da penúria, este desejo corrosivo que nos tira algo mais cada noite, apanhas o teu próprio nome, o som inteiro, de costas, à bulha, bruto, indefeso, numa longa e emaranhada história, e que memórias de um quarto partilhado com outros três, obrigado a dispor como loiça quebrada umas palavras sobre a linha abrupta do velho que, a meu lado, quase sufoca de tanto ressonar, ou deste, à minha frente, pele e osso, um moribundo praguejando no sono, já naquele estado em que o último sonho se gastou, não sobra mais nada, e além, o mais novo está imerso, calado, como quem mexe uma sopa que nunca mais arrefece e de cada vez lhe queima os lábios. Não tenho aqui o menor apoio, nada me segredam estas horas, os mosquitos esmagados na pele, essa perna que parece ter ficado debaixo de alguém, e que, por mais que me esforce, não o convenço a virar-se para o outro lado. Vamos estar dias nisto. É como dizias: Ninguém nos salva desta porra triste. Nem a luz suave desses mestres inconscientes se deixa ligar, nem um fósforo junto à boca, se se ouve roncar desta maneira a meio de um poema, começas a perceber o argumento que a noite vai prolongando até quebrar um a um os ossos da tua moralidade, e seria pouco complicado empurrar a cama até à dele, pôr-lhe a almofada sobre a cara, e pressionar como se fazia aos imperadores romanos. Se ninguém despertasse, voltaria a pô-la debaixo da cabeça, para dormir um par de horas. Isto aqui é como estar no mar com as piores estrelas em cima, como golpes deixando-te zonzo, vomita e acabas atraindo algum monstro. A cama de ferro, os peixinhos a lamber a ferrugem. Cuspo e por momentos vejo uma ilha. Assobio a espinha de uma melodia, frágil, bem trabalhada. De entre o descalabro da memória retiro uma das minhas poucas, boca como cereja, loura, capaz de dar cabo da saúde de todas as vezes em que nos fazíamos, como um sacrifício. Imaginem isto: que ela pagasse realmente um preço, imaginem que já se habituara a que, depois do coito, depois de eu sair, as queimaduras eram certas, e a febre. O que eu vi da paixão pareceu-me improvável, uma coisa muita antiga, demasiado bela. Não se consegue acordar ao lado daquilo. A intensidade humilha-nos na nossa baixeza. No fim estás farto desse mundo antigo. Queres as coisas diluídas da tua época. Mas imagino ter percebido como será. Ter a quem se ame. Outra carne onde embalar a mesma doença. Não pude, eu, mas se tu queres, sabe isto: deves destruir a vida de mais alguém, o que seguramente irá entrançar os vossos destinos. Depois, nunca mais foges.

quarta-feira, agosto 21, 2019


Talvez tudo seja sinal da fome que passámos. É de imaginar que até a carne das gaivotas se tenha comido, e a dos corvos, porque não? Nem essa seria de desaproveitar. O bico destes terá sido usado para se inscrever o nome na pedra até se lhe esquecer as letras. Que dores no juízo nos dá ainda. São comuns as doenças raras nas vidas encostadas ao mar. E o que foi das garrafas, de todas as súplicas que nunca ninguém leu? Ter ensinado um povo destes a escrever, uma língua que sempre se falou mal e se escreve ainda pior, não podia dar outra coisa que um desastre grosso. Ao francês foi-se buscar uma certa finura de modos que disfarçava, mas a rudez tem algo de implacável. A vida literária portuguesa, quando se passa além dessas alas iniciais dos maluquinhos de entreter, essas vaidades mecânicas que parecem funcionar a moedas, é uma insânia. Aí sim começam a ouvir-se os gemidos nos fundos de um hospício que se criou por inércia. Uns tipos amarrados a camas de ferro, exorcismos abandonados a meio, sombras de pé em quartos podres, salas cheias de troféus e carcaças mal empalhadas, diplomas cobrindo as paredes. O talento é uma péssima desculpa, a convicção esse piano a giz desenhado no soalho. Cada um trepa pela imaginação para ouvir soar mais qualquer coisa, grandes concertos se dão por aqui, como no jardinzito pardo os heróis do guelas, os deuses do pião, de bolsos rasgados andam numa agitação estéril, pobres tarados de roda de si mesmos. A nossa obra capital há-de ser uma enciclopédia de todas estas disfunções que se fingem tão encantadoras, nobres, para depois se instalar essa épica mesquinha, as incuráveis doenças inventadas, o teatro sórdido e infinito. Na cantina, até os ratos participam, em troca de miolo de pão, nas recriações dos episódios mais negros, a própria história atacada pela peste. Os rapazes aborrecem-se com as longas cartas da amada que eles mesmos pagam a um, com um pouco mais de astúcia pornográfica, para que as escreva e lhes enderece, e há o vento que não nos deixa, como uma consciência comum, tão ressentida. Despedem-se uns, vidas inteiras a agitar um lenço sujo, e outros perdem-se em eternos preparativos, formam-se tripulações; ao leme temos sempre um sujeitinho cadaveroso que finge avistar índias e brasis, recitando algum salmo ulceroso a um papagaio de cera, ao lado um retardado ora pára a benzer-se ora toca insistentemente as duas notas que sabe num órgão de igreja como se fosse lembrar-se do resto, outro desenha nuns papelinhos a sua ilha, e não tarda volta a insistir que tem lá escondido um grande tesouro. Sobre as cabeças, a esparvoar, o urubu-vigilante, tirando medidas à vista grossa, vai calculando a ordem em que poderá reclamar-nos os ossos para se enfeitar, e há cada historiador mais taralhouco e aldrabão, como este, coitado, arrastando a sua saca com livros, empobrecendo-os com a sua leitura gaguejante. E ninguém se lembra de melhor fim do que dizer que a coisa continua e que a morte tem muita pena, mas que nem ela quer ter nada a ver com isto.

terça-feira, agosto 20, 2019

O Livro e o Digital



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segunda-feira, agosto 19, 2019

Contra los nuevos poetas


Berardinelli lo tiene claro: ya no hay poetas publicables. Dice que la lástima es que se abran colecciones de poesía que después no saben con qué llenarse. Entonces llega el amigo, y el amigo del amigo, después el que tiene poder; más tarde el que insiste, el que te lo hará pagar muy caro y el que amenaza con suicidarse. Mientras, la crítica de poesía o bien se lo traga todo, o bien guarda silencio. "Para escribir el 90% de los poemas italianos que circulan hoy en día, no se requiere ninguna cualidad". 
Por eso todos somos poetas. "El pueblo ha tomado el poder poético, ¡hurra!", ironiza de nuevo. "Todos somos libres de crear, de expresarnos y de publicar. Además tenemos derecho a ser considerados poetas si lo deseamos con mucha fuerza, si estamos firmemente convencidos de serlo (...) independientemente de la calidad, el valor o el interés de lo que hayamos escrito". Lo llama "populismo poético": un inocente lector perseguido por veinte poetas que reclaman el "derecho a que se los lea". 
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Hans Magnus Enzensberger determinó que la poesía moderna “no sólo hay que conocerla, sino también criticarla: ya no es posible separar la creación de la crítica”. 
Los motivos de esta necesaria y continua lectura crítica poética son producto de un gravísimo problema actual. Nos advierte Berardinelli: “Si en la actualidad hay tantos poetas, se debe sobre todo al hecho de que creen que la poesía es un género literario sin reglas que no requiere que nadie tenga algo que decir (…) tanta libertad mal entendida ha liberado la poesía de un público de lectores y del juicio crítico, transformando en una tierra de nadie de libre acceso a un género que antes era considerado arduo hasta el ascetismo”.
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“El enemigo más temible e insidioso de la poesía es la propia poesía, o más bien, su idea, su mito, su tradicional nobleza: un valor que, sin razón aparente, continúa garantizado per se como excelente. Mejor aún: creo que en la actualidad los poetas se han convertido en los verdaderos enemigos de la poesía, escribiendo lo que escriben y poniéndose bajo el amparo y la protección de la nobleza de este género literario”.
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“hoy el acceso a la poesía se ha liberalizado y democratizado. No hay maestros más que nada porque no se los tolera (…) A todo aquel que osa emitir juicios críticos y hacer comparaciones con el pasado se le mira mal, se le considera inoportuno, envidioso, rencoroso, enemigo de la vida y de la creación”
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“ser amable con todos los poetas pone en peligro a muchas personas que no consiguen ni leer ni hacerse leer. Es el mal público, o la carencia de público, lo que vuelve mala o insignificante a la poesía”.

Querem um debate alargado?


Os poetas têm infortúnios muito seus, parece que caem por uns buracos que se abrem especialmente para eles. Depois é ver os cartazes afixados lugubremente pela cidade: desaparecido este no mês de tantos, àquele ninguém põe os olhos em cima faz anos, e os respeitáveis que ainda restam vivem fugidos, e, como aparições, pôr-lhes em cima os olhos é já notícia. Alguns distraem-se como podem da selvagem parolice e da praga de literatos espremendo o pus dos seus abcessos, vão "remexendo baldadamente nas cinzas geladas do Além", mas nisto, e até com a melhor das intenções, serve-se a oportunidade, nesta época carnavalesca, para o triunfo do pendor folclórico, e logo vem por aí o desfile dos xéxés babando sobre a memória, os soturnos sobreviventes, dando-se ares, a riscar tudo e recompor, em golpes de revisionismo em que assumem grandes protagonismos por terem guardado as migalhas que caíam da grande mesa. E, nos últimos tempos, tão chocha e desanimadora anda a coisa que se ganhou o hábito, seja truque retórico ou tique nervoso, de coçar o desgosto clamando por um debate. Venha daí essa razão controvertida, vá, como que uma insurgência das tropas na reserva, essas milícias ociosas... Só que, mal o debate é proposto, logo se vê uns pegar nas próprias fezes, e o tipo que o exigia arrepende-se quase de imediato da sua lírica entoação. Constata que o silêncio tem, afinal, uma danada razão de ser. Porque nesta terra ou se está a uma mesa com um número reservado de cadeiras à volta, e quem mastiga consegue organizar umas ideias sem estar a cuspir no prato do da frente ou do lado, ou a posição geralmente assumida é ficar de quatro, afocinhando na manjedoura. Não há grande conversa ali, mas a confusa deglutição de uma rançosa mistela farta brutos, e não se trocam informações nem noções mais profundas sobre nada. É a ceva para a fulanada, uma engorda das hipóteses que julgam ter. Assim, conspira-se fátua e inutilmente, acirram-se ódios, elevando o lume no tacho onde se adensa aquela sopa que empanturra e emburrece os estômagos. Qualquer discussão só amesquinha essa consciência minimamente dramática que cada um entretém, de si para si, nas suas ruminações. Falar alto, com verdadeiro empenho, e mesmo por escrito, é um acto masoquista. Os ecos gelam-nos. Tudo só piora a desolação. Por isso, sobre os poetas e a sua natural propensão para o sumiço, para desastres que tardam em explicar-se, só resta saudar que o destino continue a preservá-los das honrarias terrenas, dessas atenções em tudo frívolas, e de se verem festejados em tristíssimas orgias. Contando que não esteja por uma unha negra, com a exalação da morte a cercá-lo, a despertar a larica nos vermes, o poeta dá-se melhor ficando na sua, e afina mais seu canto raspando a voz na pedra das contrariedades. E depois, até o mais galaró, logo se farta desses mimos grosseiros e furta-se ao castigo de ter de se misturar, emprestar-se à ladainha dessa caterva de egos leprosos. Comece-se pelo que vai aí de raro talento abespinhado e que se pisga para não acabar na promoção pague um, leve quantos quiser dessa malta medíocre. Veja-se como se ergueu essa igreja para os desamparados das letras, onde algum pároco gemebundo dá a sua missa num atropelo de crendices e patacoadas, armado em milagreiro, a fazer bailar e saracotearem os comichosos fingidores que vêm à esmola e se ficam pelos fundos a roer os próprios ossos. E tudo isto em nome do quê? Pois de Nossa Senhora da Inspiração, é claro. Só no meio literato é que todo o pelintra dá por si a ter visões e vira um místico do real quotidiano, desata a walsar e a esfarelar uma broa prosaica em versinhos. Depois vem reclamar o seu quinhão entre os imortais. Face a isto, todo o crítico é um herege, e a sua palavra sacrílega. Que margem fica, assim, para um debate minimamente sério se o ego se sobrepõe a tudo? A partir do momento em que este serve de esteio e se enreda na obra, os dois partilham um mesmo destino, a afirmação literária torna-se uma questão de sobrevivência. O valor de um texto hoje já parece desejar ser lido menos segundo critérios literários do que à luz da declaração universal dos direitos do homem. Assim, a partir de que ângulo se pode atacá-lo? E se na poesia são mais os que sujam os papéis do que aqueles que os lêem, todo o crítico que se embrenhe com uma faca de mato por essa selva acabará apodado de facínora.

sábado, agosto 10, 2019


Não o reconhecerias mais num espelho
se já te contentas com as estrelas
o rosto enfiado numa fresta
a alimentar-se do cheiro, das voltas do ar

riem-se as regiões selvagens lá
onde a noite se mistura, e ganham forma
afiam em silêncio as armas as velhas hostes
depois do vento se quedar, ecoam incrivelmente
as dores de estômago
e tanto do que não passa nem se sacia
chupando os dedos da imaginação

ao lado uma cabeça de mármore no chão
com a voz roída retoma os disparates
e sentes a migração das forças, do encanto

detrás do nada um ofegar tão-só
as ossadas de um cavalo adoçam o pavor
da vista que nos resta
e se tivéssemos papel
arrastaríamos a descrição por vários tomos

lutamos pelo perdão de coisas que nem fizemos
e do modo como nos mastiga a solidão
aceitamos as piores visitas
descemos de ouvido o rio
enquanto no odre se enredam os cabelos de afogados

olha lá fora o que perseguem as árvores
de uma folha que chegue, um velho impresso,
a pétala de um jornal 
tiras mais que de uma boa vingança
das delicadas anotações de um tipógrafo
ou do gotejo de uma água desprezada
impressões suaves que nos quebram os ossos

a carne chegou ao peso das palavras
o idioma é um delírio atravessado por moscas
perde-se a boca encostada a um ouvido
na extrema prece de um nome
e responde um riso desde o fundo de si
a sensação de que a vida acabou
mas nos falta a convicção que a morte exige


sexta-feira, julho 26, 2019

O Paraíso dos Loucos - sobre a viagem, os viajantes e os turistas





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segunda-feira, julho 22, 2019


Mais que a falta de informação, o vazio parece crescer tornando-se respeitoso, talvez porque depreende o quanto ficou por dizer, e sendo os diários desses homens terrivelmente discretos, esgotam o absurdo daqueles dias resumindo tudo a impressões alheadas, algum comentário sobre o modo de soar dos pássaros aqui, algum devaneio um tanto frívolo não fosse a encantadora escolha das palavras, a ordem que assumem nessas tão curtas frases, com uma data impossível posta no fim, esse dia que já não viveremos com eles, embalado pelo ritmo das águas; comprei o jornal para lhos ler e fingir que o mundo, mal ou pior, continua aí, a vida remendada, e se este não chega a ser um dia belo (não há nada como a luz que lhes é devida), tem nele a sensação de um intervalo. As coisas irão certamente agravar-se, mas não para já, e por mais trivial que pareça, as palavras ainda podem ser postas para bom uso, mesmo se os jovens poetas parecem ignorá-lo, se o enfado e o desprezo são o que mais cultivam nos seus versos. As lutas melhores estão aí para ser travadas, toda a gente de um lado e ninguém do outro, e não deixa de ser aliciante não só a quantidade, mas a baixaria, o nível dos imbecis, e essas migalhas por que se debatem tanto... Se insisto em reescrever os diários é porque o pouco que dizem tem mais ouvido, e lembra-me o cuidado de Blas de Otero pra não acordar o rouxinol que dorme no gume do bisturi. Parece que oiço um deles falar enquanto apara a barba sobre o tanque, o outro a enrolar com um cuidado musical um cigarro, ando à volta da casa ou entro, tento interrogar os tão casuais objectos deixados no lugar onde se desmoronaram, atlas, herbários, a intimidade que deixa cheiro em roupas tão frias, o zumbido desses restos da história, alguma discussão, posso imaginar os últimos dias como o de prisioneiros de guerra, trocando confissões banais como segredos de Estado, que os reescreva não é para substituir ou alterar alguma coisa, mas para ouvir algo mais, nem que seja a muito custo, mesmo com fezes e sangue, com uma mão e com a outra, esperando que a luz ainda desenterre alguma linha; assim, a pobreza é uma razão, tal como esse desejo de fugir que torna irrelevantes as distâncias, depois dos maus tratos, tentando cansado a loucura, aprende-se como alguém dobrado sobre um piano riscado no soalho, a afinar a fome, com o ritmo cheio de bichos, combativo, brusco, um romance de detalhes, as ideias em pó, ossos quebrados de outras ficções, nacos de um romance que se recusa, até porque o mundo já não se aguenta; depois de tanto se envolver, o cansaço é o génio, aquilo que sai para lá da conta, o sobrante, e julgo que me terão reconciliado com a ideia de que qualquer verdadeira honra que este tempo se disponha a fazer-nos terá de passar por alguma forma de condenação, ainda que rodeando a última, a mais honesta, a morte; por isso, se da vida deles retive a clareza dessas tão límpidas notas, se me parece que vibram sobre a música de lembranças realmente duras, tudo isso me soa mais verdadeiro, apontado ao órgão que em nós suspira, a paisagem torcida como um pano, a pingar, retalhos ínfimos, o equilíbrio de quem aprendeu a esconder-se nas coisas que vê, modelando o infinito amorfo do seu inspirado hálito, afinal, se a vida nos surge por extenso é só porque nos habituámos à conversa, às tantas bocas que o dizem pegado, esses sentimentos exagerados, a forma suja de saudade em que ninguém acredita, uma coisa sem pele, essas baladas sobre o remorso e a redenção, tudo limpo, emocionado, uma humanidade para consumo de quem não viveu nada, nem se apercebe que a dor nunca ajudou a articular qualquer narrativa, antes a deitá-las fora, e assim passemos frio entre os apontamentos que restam, não duvidando de que os mestres morrem pelas costas, esquecidos ou atirados à fossa, e que não te quebre o lábio adolescente, não pouse nele a mosca dessa fala, a deliciar-se com o mel do desastre, se podemos continuar, sentir contra a carne o peso de uma estrela como o da própria respiração, talvez tenhamos ouvido o suficiente e nos seja impossível fingir que tudo não passou de uma brincadeira.