terça-feira, dezembro 16, 2014

domingo, dezembro 14, 2014

"Nu contra Nu", Jorge Roque, Averno





(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

sexta-feira, dezembro 12, 2014

2014, títulos portugueses


1. Pátria Minha, António Barahona, Averno
2. Enredos, Rui Nunes, Relógio d'Água
3. Corpo Santo, Ruy Cinatti, Averno
4. Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes, Tinta da China
5. Nocturno Europeu, Rui Nunes, Relógio d'Água
6. Fera Oculta, Vasco Gato, Douda Correria
7. Autocataclismos, Alberto Pimenta, Pianola
8. Neófitos, Alexandre Sarrazola, Averno
9. Nu contra Nu, Jorge Roque, Averno
10. , Daniel Jonas, Assírio & Alvim
11. Romance ou Falência, Luís Pedroso, Artefacto

Lista do Diogo e do David

quinta-feira, dezembro 11, 2014




Sê paciente, pois o lobo está sempre contigo.
Escuta, imbecil, o som do teu desejo;
Não te deixes iludir, não é o mar,
O lobo é loucura, mas a lua é luz.
Deus virá de uma ignorância como a tua,
Não como um boneco de caixa de surpresas, mas ...como
Árvore feita pai choroso em delírio,
As dores da noite têm todas o seu trágico lugar,
Meio rosto de Deus procura a outra metade.
E Ele achará o teu génio na escuridão
E to restituirá sem fiador.

Sê paciente, pois o lobo está sempre contigo,
Feio e mau e, contudo, divino.
Esquece o estrépito do mar,
O mar desdenhoso fazendo beiço todo o dia,
Estridente como fábricas de vidro a estilhaçar-se.
Passa ao largo do mar lustroso, invindimável,
Pois quem lhe bebe mais fundo são os afogados.
A neve negra amontoa-se sob o relógio,
Onde o encontro falhado se junta a tempo ao coração magoado.
Este é um mundo de mistérios sem valor.
Sê paciente, pois muita, muita coisa é paciente.

Sê paciente, pois o lobo é paciente,
Aquele cuja sombra curta aqui parou.
Os prados aguardam que os arco-íris digam Deus,
As sombras aguardam que tu digas a palavra,
Duas almofadas confiam no amor para salvar o mundo.
Ao luar o mineiro vacila junto à âncora suja.
O frete aguarda: o navio congela no fiorde.
O anjo aguarda, o coração feito mão dorida
Pronta a levar-te, longe de nós, para o país do entardecer,
Onde ninguém é voraz, mas onde as coisas se fazem,
E onde não há lobo, nem pensar em dilúvio.
Sê paciente, porque o lobo é paciente.
O pisco aguarda das trevas a reparação,
A andorinha anseia pelo Outono para dizer já,
E Eco por Hero, para não responder não.
Só o sino que segue não espera,
Galopando o seu rosto de mãe pelos campos fora,
Para te esfolar até ao osso com a rudeza do repique.
No começo do Inferno, no meio
Da floresta, a imagem oscila entre mãe e mar.
Não dês ouvidos ao sino nem ao mar envelhecido,
Mas ao bom e querido lobo jura fidelidade.

Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente:
Todas as dores e guinchos da noite têm o seu lugar,
Acharás a tua toca de sangue quente e enfim repousarás;
As sombras aguardam que digas a palavra.
Escuta agora o teu próprio passo macio e manhoso.
Sê paciente, por causa do lobo, sê paciente -
O passo dele é já o teu, és livre porque despojado.




- Malcolm Lowry
(tradução de João Ferreira Duarte)

retirado daqui

terça-feira, dezembro 09, 2014

domingo, dezembro 07, 2014

Rui Nunes, «Nocturno Europeu», Relógio d'Água



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


sexta-feira, dezembro 05, 2014

Manchete


A mulher, de joelhos, lavou a varanda. Lavava. Sabe lá o que é a morte: sabe lavar a varanda: enfia o trapo no balde azul de plástico cheio de água e passa-o depois pelos mosaicos. A morte, sabe lá o que é a morte.
É quase invisível, esta mulher. É a mulher que lava a varanda. Por isso, não sabe o que é a morte. Rasa o chão. É o chão. Quando se levanta, levanta o chão com ela. Um vestido.
:
Há quem venha de lugares que são nomes. Só nomes. Cujas cidades são nomes. Só nomes. Nas folhas de um jornal há os lugares de onde vêm as mulheres que lavam as varandas. A pele. O sangue escondido.
São todas diferentes as mortes.
Mas os mortos, esses. Basta olhar em volta as mulheres que lavam as varandas. Basta esperar um pouco.
Ficam para trás, para trás, sem um nome sequer.
Não é a vida que é uma questão de tempo: é a morte.
O morto.

(Rui Nunes, "Nocturno Europeu", Relógio d'Água)

Esta é a notícia que faria hoje a manchete do Jornal. O diário mais necessário. Um que entreviste o mundo, o retrate nos ângulos insistentes, brutais, imutáveis, que o investigue, lhe faça perguntas. Mas o público deu-lhe as costas para se entregar a uma obsessão emocional com a sua própria ingenuidade, assistindo de manhã à noite a desenhos animados, uma bonecada que não tem verdadeiramente outra escolha que não deixar-se corromper. De um jeito ou de outro. Ou roubam para si mesmos, ou, mais idiotas, dão a roubar a outros. Bem aconselhado, na próxima carta do presídio o nosso ex devia era escrever "Ide-vos foder. Ide todos apanhar fundamente nessas peidas". Queriam o quê? Heróis do serviço público? Que se sujeitassem a ser julgados por isto? Os heróis reformam-se hoje muito cedo, ainda na preparatória perante professores atrasados mentais e a pequena violência sistemática das avaliações. Levam as mãos nos bolsos para não estrangular ninguém. Encolhem-se, distraem-se, calam-se para não gritar-nos nas trombas enfadonhas:

You common cry of curs! whose breath I hate
As reek o' the rotten fens, whose loves I prize
As the dead carcasses of unburied men
That do corrupt my air, I banish you;
And here remain with your uncertainty!
Let every feeble rumour shake your hearts!
Your enemies, with nodding of their plumes,
Fan you into despair! Have the power still
To banish your defenders; till at length
Your ignorance, which finds not till it feels,
Making not reservation of yourselves,
Still your own foes, deliver you as most
Abated captives to some nation
That won you without blows! Despising,
For you, the city, thus I turn my back:
There is a world elsewhere.

terça-feira, dezembro 02, 2014

Crítica da poesia


Eis aqui a chuva igual e as suas ervas daninhas
O sal, o mar desfeito...
Apaga-se o anterior e logo se escreve:
Este mar convexo, os seus enraízados
e migratórios costumes,
já serviu algumas vezes para se fazer mil poemas.
(A cadela infecta, a sarnosa poesia,
variedade risível da neurose,
preço que alguns homens pagam
por não saber viver.
A doce, eterna, luminosa poesia.)

Talvez não seja agora o momento:
a nossa época
deixou-nos a falar sozinhos.

- José Emilio Pacheco
(tradução de Luís Filipe Parrado)

No cretáceo inferior


Apareceram durante a noite
há cem milhões de anos
as primeiras flores de sempre
uma novidade sob o sol
inventada pelas plantas
Seriam aí umas 7 da manhã
quando um mamífero semelhante a um musaranho
que abandonava trôpego a sua toca escura
espreitou com olhos míopes
a primeira flor com
um semblante próximo do espanto
concluindo que não era perigosa

Nos primeiros séculos que se seguiram
as flores começaram a cobrir a terra
brilhavam na Primavera
com uma iridescência reluzente
não apenas um ramalhete mínimo
como as cores no pescoço de um pato-bravo
antes de os patos-bravos existirem
nem como os protectores auriculares de deus
antes de se escrever o Génesis
e apesar de ninguém lá ter estado
para analisar
elas geravam ainda assim uma sensação
à qual não se podia dar um nome
que apenas se podia partilhar
como o luar em águas que correm
conversa de folhas na floresta
as melhores coisas mesmo à frente do nosso nariz
e que não pertencem a ninguém

E um dos primeiros habitantes
um dinossauro ornitópode com um ar cómico
talvez tenha erguido a cabeça
com a boca cheia de ervas gotejantes
e murmurado c'um caraças
ou algo do género
talvez um tricerátopo tenha engolido uma povoação
de flores amarelas
um diplodoco tenha provado o azul
ao longo de vários horizontes
achando-o celestial
e a cor tornou-se comida

Não se tratava de uma glória imóvel
pois as cores pulavam para fora da terra
brilhavam no céu
quando o vento varria grandes campos amarelos
dançavam ondulantes ao sol
centenas de quilómetros de flores azuis
eram escuro veludo à luz das estrelas
e talvez uma criatura anónima
tenha ficado acordada a noite inteira no
meio de mil quilómetros de cor
só para ver como seria
ter todo o roxo azulado que havia
a rebentar-lhe no cérebro
e a alterar tanto o presente como o futuro

Mas nunca se há-de saber
como terá sido
essa primeira vez na terra primordial
em que as abelhas enlouqueceram com a febre dos pólenes
e as sementes voaram para longe de casa
vogando em pequenos pára-quedas brancos
sem dizerem nada aos pais
– nunca se há-de saber
nem mesmo quando alguém receber
a oferta de uma simples rosa
e por trás dessa rosa singular
estiverem os antepassados de todas as rosas
e de todas as flores e de todas as Primaveras
ao longo de cem milhões de anos
de Verão e por instantes
nos seus olhos um eco
da ternura primeira

- Al Purdy
(tradução de Vasco Gato)

A arte calada de olhar, rapace, em busca de um nervo exposto, algum tremor na superfície calma de revelhas cidades, manta fria sobre os joelhos do centro europeu. Estrasburgo, esta manhã. Como se circulasse numa maquete projectada por um deus desinteressado ou autista, a minuciosa fluência de vidas à escala apenas para provar um ponto qualquer na próxima reunião do conselho. Vidas de bolas de neve. Das pequenas coisas sérias que nos separam, nos jogos solitários em que nos embrenhamos, a privacidade do idioma vem à cabeça. O português, ríspido, mordente. Língua de santo pobre endoidecido a varrer as ruas e a tentar assobiar no meio de alguma tempestade. No estrangeiro é das coisas em que faço mais gosto, defender a causa, virar a história a nosso favor. E então subir, fazer os corredores do parlamento europeu a praguejar. O luzir-luso da língua, menos Camões e mais pró Bocage, a vir-se ali num gozo celerado, numa febre descamisada. Só digo que experimentem, um dia.
26-Nov


Eu sempre disse que a frase que quero em meu tumulo é : “Eu vou, mas eu volto”.
Lourenço Mutarelli

Em vez dessa paixão que dá um trocado em putinhas, cigarro de mentol e risco ao meio, uma desalegria com dores de mundo, como entre as costelas, não sei precisar, gostar disto basta, sem querer ficar dono de dia nenhum, sem querer bater ninguém com resultados, notas, o que eu sempre detestei foi melhores alunos de turma, os espermatozóides não cansados que seguiram vida fora como se fosse ainda uma corrida, conheço alguns depois -que horror- que viram casais. Ó doença de fazer ficar junto o que já sozinho não fazia sentido nenhum. Mas um tipo aprende a deixá-los viver, mesmo sendo contra a sua religião -que manda matá-los todos-, um tipo deixa de olhar, finge que não ouve, só é pena essa gente existir tanto. Porque gente séria não anda nisto todos os dias. Bate um e depois tira uma semana, folgamundo. Estes não. Têm sempre a puta da tromba batendo o sininho. Cada dia, vai moeda. Eu coso nesta brandura toda. Fica até em meu caminho. Era só meter boné, dizer que é dos correios, tem embalagem e folha para rubricar. Subia as escadas e ia lá meter faca no balão, fiu-fiando, ia aquela merda toda de repente pelo ralo da vida. É tão fácil que dói. Mas há lei até para isso, para garantir que esse pum-florido tem direito a gozar o nosso desgosto até ao fim. E o gosto que o pum tem em meter-se debaixo do nosso nariz. A alternativa era a vida ser uma questão directa. Olhar nos olhos, mesmo os portugueses, tão castanhos, subitamente claros. Pior é haver sempre outra opinião, uma segunda, terceira. Doutores formados no instante, só para contrariar. Porque é preciso ver o outro lado da questão. Outro lado, porra, que outro lado? Vamos ficar claros nisto: se eles gostam não gosta mais ninguém. Nem digo matar, mas vamos ao menos exilar essa pandilha?

Rua Scarlatti


Com mais ninguém que tu
é a conversa.

Curta entre dois sopros de clamor
segue, toda casas, a rua;
mas de repente abre-a um rasgão
onde irrompem dispersos
garotos e talvez o sol na primavera.
Agora dentro dela parece sempre noite.
Mais adiante é ainda mais escura,
é cinza e fumo a rua.
Mas os rostos os rostos não sei dizer:
sombra  mais sombra de cansaço e raiva.
Daquele sofrimento zomba
um bater de saltos adolescentes,
a repentina rouquidão dum dueto
de ópera numa multidão apressada.
É aqui que te espero.

- Vittorio Sereni
(tradução de Stefano Cortese e Gil T. Sousa)

quinta-feira, novembro 27, 2014

língua morta 052



O CONDÓMINO,
de António Gregório,
com capa de Ricardo Castro
[250 exemplares, 138 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


segunda-feira, novembro 24, 2014

O rio


E sim, parece que é assim, que te foste embora dizendo não sei o quê, que te ias atirar ao Sena, qualquer coisa desse tipo, uma dessas frases em plena noite, misturadas com o lençol e de boca pastosa, quase sempre na escuridão ou com qualquer coisa de mão ou de pé roçando o corpo daquele que quase nem ouve, porque há já tanto tempo que quase nem te oiço quando dizes essas coisas, coisas que vêm do outro lado dos meus olhos fechados, do sono que me afunda novamente. Então está bem, que importa que tenhas partido, se te afogaste ou se ainda andas pelos cais olhando a água, e além disso não tenho a certeza, pois estás aqui adormecida respirando entrecortadamente, mas então não partiste quando partiste a certa altura na noite antes de eu me perder no sono, porque tinhas partido dizendo alguma coisa, que te ias afogar no Sena, ou seja tiveste medo, arrependeste-te e de súbito estás aqui quase a tocar-me, e moves-te ondulando como se alguma coisa trabalhasse suavemente no teu sono, como se verdadeiramente sonhasses que partiste e que após tudo isto chegaste ao cais e te atiraste à agua. Qualquer coisa assim, novamente, para adormeceres depois com a cara encharcada por um choro estúpido, até às onze da manhã, hora em que trazem o jornal com as notícias dos que de facto se afogaram.

Dás-me vontade de rir, coitada. As tuas determinações trágicas, essa maneira de andar a bater às portas como uma actriz de tournées de província, pergunto-me se realmente acreditas nas tuas ameaças, nas tuas repugnantes chantagens, nas tuas inesgotáveis cenas patéticas untadas de lágrimas e de adjectivos e de repetições. Merecias alguém mais dotado do que eu que redarguisse, ver-se-ia erguer-se então o casal perfeito, com o deleitoso fedor do homem e da mulher que se destroem enquanto se olham nos olhos para assegurarem o mais precário adiamento, para sobreviverem ainda e voltarem a tentar e perseguirem inesgotavelmente a sua verdade de terreno baldio e de restos raspados do fundo do tacho. Mas, como podes ver, escolho o silêncio, acendo um cigarro e oiço o que dizes, oiço as tuas queixas (que têm razão de ser, mas que posso eu fazer?), ou, o que ainda é melhor, vou-me deixando adormecer, quase embalado pelas tuas previsíveis imprecações, com os olhos semicerrados misturo ainda por um instante as primeiras vagas dos sonhos com os teus gestos de ridícula camisa de dormir à luz do candelabro que nos ofereceram quando nos casámos, e julgo que por fim adormeço e levo comigo, confesso-to quase com amor, a parte mais aproveitável dos teus movimentos e das tuas denúncias, o som explosivo que te deforma os lábios lívidos de cólera. Para enriquecer os meus próprios sonhos onde nunca ninguém se lembra de afogar-se, acredita.

Mas se é assim pergunto-me o que estás a fazer nesta cama que tinhas decidido abandonar pela outra mais vasta e mais esquiva. É que agora dormes, moves de quando em quando uma perna que vai mudando o desenho do lençol, pareces incomodada com alguma coisa, não demasiado incomodada, é como um cansaço amargo, os teus lábios esboçam um esgar de desprezo, deixam escapar o ar entrecortadamente, recolhem-no a baforadas breves, e julgo que se não estivesse tão exasperado pelas tuas falsas ameaças admitiria que és outra vez bonita, como se o sono te devolvesse um pouco do meu lado em que o desejo é possível e até mesmo a reconciliação ou um novo prazo, qualquer coisa menos turva do que este amanhecer onde principiam a rolar os primeiros carros e os galos abominavelmente desnudam a sua horrenda servidão. Não sei, já nem sequer faz sentido perguntar outra vez se chegaste a partir, se eras tu quem bateu com a porta ao sair no instante exacto em que eu resvalava no esquecimento, e é talvez por isso que prefiro tocar-te, não porque duvide de que estás aqui, provavelmente nem chegaste a sair do quarto, talvez um golpe de vento tenha fechado a porta, sonhei que partiras enquanto tu, julgando-me acordado, me gritavas a tua ameaça aos pés da cama. Não é por isso que te toco, na penumbra verde do amanhecer é quase doce passar uma mão por esse ombro que estremece e me recusa. O lençol cobre-te pela metade, os meus dedos começam a descer pelo cristalino desenho da tua garganta, inclinando-me respiro o teu hálito que cheira a noite e a xarope, não sei como mas os meus braços envolveram-te, oiço um queixume enquanto arqueias a cintura, resistindo, mas os dois conhecemos demasiado bem este jogo para acreditarmos nele, é preciso que me abandones a boca que ofega palavras soltas, de nada serve que o teu corpo amodorrado e vencido lute procurando escapar-se, somos a tal ponto uma mesma coisa nesse enredo de novelo onde a lã branca e a lã negra lutam como aranhas num bocal. No lençol que já quase não te cobre consigo entrever a lufada instantânea que sulca o ar e se perde na sombra e agora estamos nus, o amanhecer envolve-nos e reconcilia-nos numa só matéria trémula, mas obstinas-te em lutar, encolhendo-te, lançando os braços por sobre a minha cabeça, abrindo como num relâmpago as coxas para voltar a fechar as suas tenazes monstruosas que desejam separar-me de mim mesmo. Tenho de dominar-te lentamente (e, como sabes, fi-lo sempre com uma graça cerimonial), vou dobrando os juncos dos teus braços sem magoar-te, cinjo-me ao teu prazer de mãos crispadas, de olhos enormemente abertos, agora o teu ritmo enfim afunda-se como um pano de seda em lentos movimentos ondulantes, de profundas borbulhas subindo até à minha cara, vagamente acaricio o teu cabelo espalhado na almofada, olho surpreendido a minha mão que jorra na penumbra verde, e antes de resvalar a teu lado sei que acabam de tirar-te da água, e que é demasiado tarde, naturalmente, e que jazes sobre as pedras do cais rodeada de sapatos e de vozes, nua e com as costas no chão, com o teu cabelo encharcado e os teus olhos abertos.

- Julio Cortázar
(tradução de Miguel Mochila)
in Final do Jogo, Cavalo de Ferro

retirado daqui

domingo, novembro 23, 2014

Vasco Gato, "Fera Oculta", Douda Correria



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)