quarta-feira, março 29, 2017

Livraria Flâneur, Porto



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segunda-feira, março 27, 2017


Move essa merda um centímetro que seja, só o aprendi, como eles diziam, depois de ter dado uma década, foi o Haroldo quem falou: o vocábulo é a minha fábula, não se tratava de falso prestígio mas de ter o nó atado antes de si, bem lá atrás, na síntese das eras, descer por essa linha tensa de assombrações, o mar num pingo, a cada gota um afogamento, passar por cima de quantas memórias não guardam mais que a canção das ervas, e eu, que não guardo sentimentos senão como antiguidades de que não consigo desfazer-me, por muito tempo li as cartas longas e aborrecidas da minha época, e o mais que por mim fizeram foi manter-me à distância, quantos quartos vazios, perguntava-me, gastarão os seus espelhos a lutar com uma imensidade de reflexos que não passa de espuma, não se inventou em qualquer deles um sol, nada senão o barulho que é próprio dos vivos, nenhum morto com eles, cada semente que achei fui metê-la na boca dos mortos, sobre a minha própria morte estava esclarecido, tinha-a visto, não me encantou como a outros, impressionava-me mais escrever uma linha, dar o braço a essa cicatriz contínua, e ficar diante dela como se a sua extensão fosse tudo, o suficiente para andar fugido anos e ser caçado pela barba, esconder-me escutando num puro terror que vira deslumbre as pisadas de água, um rio sufocado como boca em busca de um ouvido sobre a terra, dormir sobre esta linha cem noites, rasgar-se à sua luz, ver o mundo daqui, a podridão inteira da terra, e o lixo espalhado da história, viver da espécie deitada fora, que desistiu, um reflexo arrancado do rosto à faca, as palavras alimentam-se das próprias raízes e a voz, se a isso chegam, abala o mundo fazendo pontaria ao centro, a carne que nasce abraçada a esse caroço de demência, e ter certo que o contexto não é suficiente, no meu silêncio, depois de ter dito tudo e me ter revoltado contra o que fez de mim um deles, cresceu enfim uma rosa escura sem saída, ouvi o que não queria, a repetição que, sem se autorizar o menor desvio, nos infunde a fantasia de todas as grandes composições, concertos, sonatas, para um tipo desfazer-se como uma aranha dissolvida na própria teia, esse equilíbrio precário de quem desaparece debaixo de si, sai pela porta que mais ninguém vê, imagino a minha ausência a recuperar um corpo semelhante sem que mais nenhum dia se levante, nem uma noite, a hora não passa, é intransponível, o mesmo gelo nos astros, nas articulações, iodo, um contorno de ferrugem, o que a sujidade nos dita, e a dor, aquele murmúrio que foi inspirado pela cárie, somos arremessados a léguas de distância pela entoação de uma frase, desponta de a ouvirmos interminavelmente no oco de nós, um eco afiando o osso, planta-se a perspectiva da cólera até que se destrinça no vento umas vozes das outras, estamos abaixo do nível em que noutra hora esteve o mar, os meus cabelos enchem-se de peixes de penumbra, estudei-o como se fora um livro, o mar, até à ferrugem, depois dele, não queria estender-me, ao contrário preferi que me vissem coxear nas distâncias que me faltavam, que ficassem claras as marcas, não cobri o rasto, não larguei a pele no caminho, mas deixei ao inimigo a roupa em que mais suei de terror para que os cães dele soubessem onde procurar, não quis ficar a dever a vida a nenhum buraco ou desatenção, este o meu ultimato, antes tê-la por esse fio, esgarçado, sentir que não faz diferença que o cortem, porque outro mais cedo ou mais tarde o retomará.


21 de Junho de 1962


Trabalho o dia todo como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenómeno
fatal, como se dela não fosse objecto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu voo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.

- Pier Paolo Pasolini 
(tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
in Poemas, Assírio & Alvim

retirado daqui

terça-feira, março 21, 2017


Um momento e logo a perna cruzada dói sobre a outra, nem a quietude seguras, o barro, e a paisagem arrasta-se. Em cada sombra uma breve tempestade de areia, os cheiros chegam com atraso, alguns trocados, o próprio som do pássaro, se o isolas, torna-se extenuante. De ouvi-lo insistir, como se discutisse sozinho, sentes-te suar. Há algo de maquinal na criação, como se Deus tivesse deixado a chave na ignição e desaparecido a pé. Se à distância segues alguém, nasce um cuidado teu, quase uma proximidade. De cada figura salvam-se os gestos interpretando uma música que não há. Mas se trocas algumas palavras, logo esse tipo vomita um sujeito, fica claro que está alguém a mais ali. Raramente há um ombro, ou a mão que o toque, para voltar o rosto e ver-se além disto. Tão amontoados aqui, monocórdicos tons cruzados, uma variedade feita apenas de truques, subtilezas no volume, tempos diferentes. Quando este está de saída, farto de tudo, aquele só entrou, vem doido por cumprimentar o outro, mas recebe um encontrão. Navegamos nesse eco que traz os nomes lidos ao contrário. Pela minha parte, não ultrapassei ainda os olhos perdidos de Kerouac pouco acima do balcão, a dias de se afundar na cabana em Big Sur, fingir que o mar se interessa, que barafusta por alguma razão. Agora é triste notar como lhe faltam as palavras, se afogam incapazes de avisar o jovem imbecil que tanto o admira de que não vai encontrar nada, não era por ali, não era por estrada nenhuma. Talvez ainda se descubra alguma vista que por si só destrua o olhar, lhe arranque a película, o coma às colheres. Cá dentro, a selva trabalha as feras, sons que levantam as tábuas do soalho, bebericam pelos fundos, o pó ergue-se, dança na sala de arrumos, mas por agora só a mudança das estações. Para se subir e ver além de si, um tipo pisa o pulso, renega o ritmo que tem em si e em volta, rejeita o próprio coração, produz velocidade para queimar-lhe os fusíveis um por um. Atrás do rosto, um outro nos chama, de outro mundo, essa voz faz-nos estremecer. Dá-me o tom doente de ter passado um tempo sério atento aos detalhes, esgotando-os. Separei o excesso e vi a falha cantar. Acelerando-o por escrito, a razão esquemática daquilo a que chamas natureza põe-se a descoberto. Tomei um segundo, bebi um copo para além do meu fôlego, percebi que a frase sabe ser mais fria, tirar o céu de um corpo deitado, o firmamento desenredado desse hálito chocante. Ter-me-ei afogado num só copo como outros fazem ao longo de anos, firmando na terra devoções menores, a embriaguez contando noites, garrafas espalhadas pela casa, escondidas atrás da pia, como suicídios infantis. A aventura esquece-se como um bilhete num bolso. Se voltas a procurá-lo, era afinal outro o casaco, talvez também tu. Descruzas a perna, detestas também isto: este banco, este parque. E o dia estava tão bonito, para que te foste sentar?

sexta-feira, março 17, 2017

língua morta 072



LACRE,
correspondência afectiva, 
com capa a partir de gravura de Pieter Bruegel

Traduções e versões de poesia de Vasco Gato
2ª edição aumentada

[250 exemplares, 408 pp., 15€] 

Esta nova edição aumentada conta com poemas de: ABELARDO LINARES | AL PURDY | ALEJANDRA PIZARNIK | ALESSANDRO PARRONCHI | ALLEN GINSBERG | AMELIA ROSSELLI | ANDREA ZANZOTTO | ANNE SEXTON | BERTOLT BRECHT | BOB KAUFMAN | CAMILLO SBARBARO | CARL SANDBURG | CHARLES BUKOWSKI | CHARLES SIMIC | CHARLES WRIGHT | D. H. LAWRENCE | DAVID MASON | DEREK WALCOTT | DIANE DI PRIMA | DINO CAMPANA | DORIANNE LAUX | E.E. CUMMINGS | EDOARDO SANGUINETI | EHSAN TABARI | ELIO PAGLIARANI | EUGENIO MONTALE | EZRA POUND | FABIO MORÁBITO | FEDERICO GARCÍA LORCA | FERNANDO VALVERDE | FOROUGH FARROKHZAD | FRANCO FORTINI | FRANK O'HARA | GEORGE SZIRTES | GIACOMO LEOPARDI | GIORGIO CAPRONI | GIUSEPPE UNGARETTI | GREGORY CORSO | HA JIN | HALDIYYA GAB ALLAH | HAROLD NORSE | HART CRANE | HUGO VON HOFMANNSTHAL | INGEBORG BACHMANN | JAAN KAPLINSKI | JACK GILBERT | JACOB SAM-LA ROSE | JANA PRIKRYL | JANE DRAYCOTT | JANE HIRSHFIELD | JEAN-LUC SARRÉ | JÓHANN HJÁLMARSSON | JOHANN WOLFGANG VON GOETHE | JOHN BERGER | JOHN UPDIKE | JOSÉ LEZAMA LIMA | JUAN GELMAN | KURT SCHWITTERS | LAWRENCE FERLINGHETTI | LEONARD COHEN | LEONARDO SCIASCIA | LEOPOLDO MARÍA PANERO | LINDA GREGG | LUCIANO ERBA | MAHMOUD DARWISH | MARGARET ATWOOD | MARIO BENEDETTI | MARIO LUZI | MARK STRAND | MARTHA BAIRD | MARY OLIVER | NICK FLYNN | PARVIZ SADIGHI | PAUL CELAN | PAUL ÉLUARD | PHILIP LARKIN | PHILIP LEVINE | PRIMO LEVI | RAINER MARIA RILKE | RALPH ANGEL | RAÚL ZURITA | RICHARD SKINNER | ROBERTO FERNÁNDEZ RETAMAR | ROBIN ROBERTSON | ROBINSON JEFFERS | RUMI | RYNN WILLIAMS | SALVATORE QUASIMODO | SAM SHEPARD | SANDRO SINIGAGLIA | SIAVASH KASRAI | SOHRAB SEPEHRI | STEFAN HERTMANS | STEPHEN CRANE | STEVIE SMITH | TED KOOSER | TOMAS TRANSTRÖMER | VINCENZO CARDARELLI | W. B. YEATS | W. G. SEBALD | WALLACE STEVENS | WILLIAM BLAKE | WILLIAM CARLOS WILLIAMS | YAARA SHEHORI | YEHUDA AMICHAI

Os 150 anos do nascimento de Raul Brandão



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quarta-feira, março 15, 2017

Sobre Almeida Faria




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segunda-feira, março 13, 2017


Ódio e montagem, entrego cada impressão à desmesura como se recriasse o espaço depois de uma tremenda batalha, e o fizesse a partir de unhas e cabelos, com água e lume subo a temperatura, atiro vida às paredes, um atlas poderoso de tão detalhado, as soluções químicas da loucura, cada data, a história do mundo em dores descritas, tirá-lo inteiro da voz enquanto o sangue troca uma época por outra, a fome das coisas lá fora risca com o vento e os galhos os tantos quartos que habitaste como se o ar ali fosse sufocar os outros, de longe encomendavas febres espectaculares, o mosquito egípcio deixou-te uma marca belíssima, quis ir longe o suficiente, entreter a doença muito para lá da cura, na mão, o poema começado fala baixo, assusta os cavalos como certas luas, ficou à vista esse estranho ângulo nos sentidos, a realidade ao lado, essa que é a grande fraqueza deles, servia-nos meramente de comparação, o próprio mundo é fruto mais do artifício que da naturalidade, tantas as cenas que entregues à memória de mendigos fazem reis, como ela as despedaça, tornam-se perturbadas, sobrenaturais, o mais distante dos nossos impulsos nutre intimidades com o escuro, deslocando o sentido entre ecos, a própria razão, e eu sempre acrescentei à conta o peso de um pássaro, gorjeta lixada, nada de pacífico aqui, uma árvore imensa tombada no meio da cabeça, a noite começa a respirar, mais curta que um verso, isto que nos levou até às últimas regiões, sempre em expedição, por receio fazíamos barulho como se fôssemos cada vez mais, completando a memória a partir de coisas desenterradas, às vezes as próprias mãos como loiça chinesa, mas nenhuma forma tão firme e clara, tão imperturbável como a de um morto, mamífero, insecto ou flor, como se a própria sombra o devorasse, a luz descendo alguns degraus, quieta, é quase a morte o nosso tempo, anos que não imprimem nada, meia canção batendo-se contra um ouvido de pedra, dizem-me que é tarde para sentimentos fortes, que tudo se dissolve, e, como se o próprio mundo estivesse a desaparecer, não resiste senão a mera névoa de um homem atravessando friamente os outros, um tempo em que se coloca a mão sobre a do inimigo, para afundar a lâmina na própria carne.

domingo, março 12, 2017

Entrevista a Almeida Faria



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António Franco Alexandre dixit


quinta-feira, março 09, 2017



O mais natural é que tudo isto acabe
em desastre. E às vezes, para lá da crise
e do colapso, já divisamos o nosso
próprio rastro pelas últimas aldeias
onde o corpo se embriaga na qualidade
tranquila da luz, no modo como o vento
explora as casas, meio derruídas.
O abandono é sempre o grande tesouro
que uma era cede à seguinte.
Deixar tudo como está, no desvario
de um mundo antigo
murmurando na sua língua de cacos.

Na sala é provável que as notícias
tenham sido ignoradas a favor da música.
O giradiscos passa pelo sublime artefacto
de uma civilização digna de memória.
A agulha infectada de um estranho som
pinga uma gota fria que nos imobiliza.
Certo é que o vinho secou finalmente
em duas canecas de porcelana.
Levo uma aos lábios, de um cheiro vago
ou imaginado bebo-o morno
e o chão volta a estremecer.

A luz repartida e triste no quarto,
a sombra de um felino derramada
sobre a cómoda e um frasco junta selos,
moedas estrangeiras e borboletas
como se fora um velho encantamento.
Nesta cama, depois deles, terão dormido
astros com gafanhotos. Terá sido
testemunha das maiores intimidades
no transtorno das estações.

Já não contando ser lidos, os poucos
livros suprimiram o drama,
enterraram os personagens, e a tinta
ficou num delírio desatando as descrições.
De modo semelhante o amarelo
dos girassóis mancha-nos os dedos
só de olhar a imitação de Van Gogh,
tão pobre mas tão fiel, talvez
mais triste ainda que o original.
Há outra tela no cavalete,
o pincel caído, e algo como a sombra
de uma mão cheia dos cabelos dela.
Não me perguntes. A beleza sempre
parece ocultar-nos um segredo.

Aqui a chuva tem o peso inteiro da casa.
Penso nas sucessivas inundações,
enquanto vejo as formigas
carregando às costas barcos de cinza.
Pelos caminhos afogados, irmãs do silêncio,
as flores não têm mais que a sua beleza e solidão
.
Ecoam em uníssono doces impressões
que nos cobrem de abelhas o pensamento.

No largo, a capela tornou-se agnóstica,
as velhas loucuras foram apaziguadas.
Ouvem-se ritmos distantes cruzar
a superfície da terra. Os finais todos,
as cidades dinamitadas pelo sonho.
E a realidade que lhe escapou
chegou aqui sentindo-se culpada
depois de ter dado por si a ansiar
por toda esta desolação.


Uma exposição de Mário Cesariny




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quarta-feira, março 08, 2017

segunda-feira, março 06, 2017


Repetiam oh captain, my captain, e não era a exclamação o mais digno de lástima, mas aquele vinho sem paciência nenhuma, uma coisa sem céu nem terra que se juntava ao sangue e formava nele cristais de gelo, um travo a bafio, o capitão encerrado na própria garrafa, afogado num oceano de semelhanças, tudo perdido numa onda tão difícil de beber, ouvia-se uma canção de cegos remando no escuro, às voltas, eu vi um barco virado onde tinham saído os últimos em busca de ajuda, as escamas do sonho foram dando à costa, e as crianças faziam colares, os velhos reuniam em concelho e indagavam-se que espécie de monstro poderia tê-las vestido, estávamos para lá dos limites da história e havia gaivotas a pairar em cima de nós, a pele cheirava a peixe, não se sabia que estação era, mas o verão acabara, talvez para sempre, os poemas aborreciam, a prosa parecia mais piedosa, a ninguém já preocupava o êxito, mas tentavam lembrar-se de orações como se disso dependesse a sua sanidade, mesmo aqueles que antes tinham apontado noutras direcções, as ruas voltavam a abanar a cabeça, nunca mais se sentiu o vento vir nem erguer-se em parte alguma, pediam-se direcções em desespero e morria o pássaro de corda da cabeça de cada um, a noção de estrangeiro tornou-se uma lenda, sem saída, alguns esqueciam como virar as chaves, perdiam gestos, demasiadas portas não abriam, tantos ficaram fechados por dentro, e por qualquer razão gritar parecia uma ofensa, o escuro burilava ritmos distantes, como emboscadas, as coisas falavam entre si, por ironia agora tinha crescido entre eles o medo de passar em frente a espelhos, ser-se desfeito pelo próprio reflexo, ninguém fazia a menor ideia do susto que provocava nos outros, não parecia o princípio nem o fim de nada, mas uma continuação inútil e desinspirada, ver finalmente Deus, mas de costas, e a afastar-se.

Agustina Bessa-Luís, "Ensaios e Artigos"



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quinta-feira, março 02, 2017


As almas também precisam
de levar porrada.

Céline
 
Homens cheios de sentimentos, silêncios antigos como achados arqueológicos, e os venenos banais de que se servem. Sem mais referências, um grilo lembra onde fica a porta, o fósforo de um ou outro relâmpago risca a distância e um punhado de estrelas lançadas bem alto dá-nos uma ideia da enormidade desta merda. Junto ao alvorecer restam só corpos meio bebidos a abrir rastos onde a claridade se espreguiça. O vento ficou sem trabalho e agora cola-se a nós, empurra. Os pássaros acordam sem paciência e gritam aos frutos que amadureçam de vez. A custo distingo já o que se passa, as ruas parecem-me um pouco estúpidas, limitadas, o que lhes resta de delírio ainda somos nós. Vultos fabulosos, alheados, sonâmbulos, num ritmo de quebras e sobressaltos. Ouço distraidamente os meus passos, essa soma que me perde, num vago andar feroz e quase inútil. Desfaço-me do sonho descendo a lugares onde não entra mais nenhuma ficção. Uma luz que pouco se esforça para nos distinguir, dá-nos a mesma idade e torna fáceis as confusões do desejo. O mais fundo da carne vem à superfície. Agitados, fervorosos, a língua a afiar as garras contra o céu da boca. Em voz baixa, entregues a pragas e preces, frases tremidas acompanham gestos de uma precisão dolorosa. Não me chego muito. Não me faço de ninguém. Se não baixo os olhos, também não me explico ou desculpo, não conto estórias, não sei falar. Se me levanto, pago e desapareço. Sigo um pensamento contínuo meses a fio, não me interrompo. Dou por mim esvaziado atrás de um sorriso rasgado de violência. Com a alma tonta de dor saio por aí à espera que me façam descer, que me cubram de porrada.