sexta-feira, julho 20, 2018


Voltar a casa pelo cheiro erradio das figueiras, somando passos como se reza, inventa, trabalha, se apura e leva uma paisagem na boca. Quanto tempo até que o perfume lhe entre nos versos? Ajuizado sacrifício, este fracasso que me serve perfeitamente de ambição. O desconto que baste para uma velhice fragrante pastoreando ritmos, pétalas, conchas, nuvens. As coisas que oiço, que me passam diante dos olhos, mal me dão o tempo de as separar, como se preferisse lê-las, tê-las escrito uma por uma. Governá-las. Escrever algo aonde regressar. É provável que o verso medido, preciso, seja o que impõe esta lentidão à voz, lentidão sagrada, espécie de temor ante a beleza. Uns olhos antigos, arrasados, luz que nos serve um sabor solitário... A possibilidade de dispor dos anos na sua mais comovente desordem. Oiço uma água, pronuncio com a memória húmida o que abrandou o coração. Um tipo alcança o seu fim, chega a ser tomado pela sensação da posteridade... as cigarras cantando já depois da sua morte. Oiço ainda o passarito negro de mil novecentos e cinco do fundo do poço de um verso de Gerardo Diego, oiço-o: é outro e o mesmo. Fecho os olhos, distraído como quem se apaga, negra, docemente. Ele leva-me à minha morte.


De vez em quando, eu esbarro num saudosista. É um sujeito esplêndido, que vive enfiado no passado. Direi mais: — vive feliz e realizado no passado como um peixinho num aquário de sala de visitas. E convenhamos que isto é bonito, é lindo. Outro dia, um deles atracou-se comigo no meio da rua; arrastou-me para o fundo de um café, e, lá, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, pôs-se a falar de Marcos de Mendonça, o “Fitinha Roxa”; da “espanhola”; do assassinato de Pinheiro Machado e do campeonato que o Botafogo tirou em 1910. Mas, nos vinte minutos da conversa retrospectiva, já lhe pendia do beiço uma grossa, uma espuma bovina, uma baba elástica. De mim para mim, compreendi essa nostalgia, louvei essa fidelidade ao passado. Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

- Nelson Rodrigues

quinta-feira, julho 19, 2018


Gosto de como fico lá ao fundo, como a esta distância estremeço espelhos, educo-me a partir desses reflexos que nascem de outro tremor: fisga e fita métrica para tirar nota a quedas e proporções, um remo feito ceptro de quantos poderes?; os caroços todos de um cerejal indo pelos caminhos, cuspidos, espalhados pelo mais vasto entardecer. Não tinha, não tenho livros, mas as chaves da sombra, um mapa dos cantos suaves de embalo; ir direito à corda namorar aquele cheiro a trevo e a leite que se desprende do vestido. Os dias que quis intactos, contornando pelo lado que direis da infância – passasse por aqui uma estrada romana, o melhor esforço da antiguidade, até o chilrear dos pássaros a preto e branco – mas é engano vosso, estou bem aqui, contra o balcão. Bebo uma cerveja como toda a gente. O mundo começa a apagar-se, e o resto virá de surpresa. Como a noite se decompõe, certa das suas simetrias, noite que dará (ainda vamos ver como) para essa manhã metade flor metade cinza nos lençóis, a transparência da carne entre sombras que se esforçam por voltar a ser homem, mulher. Tudo é o chão de tudo. Apanhas a chávena rachada, e, no corte, um brilho de mel começa a tocar o disco do que ficou lá fora – por onde ia a conversa, os passos que a imaginação prossegue. Vou até à mesa miserável entre luzes arrancadas, à deriva, corrijo a sua língua de álcool, o sangue sentido de tudo, rimas desvanecidas, as ondas contadas, o mar ancorado nos versos, um veneno que se arrasta através da espuma. Tomam a forma da nossa idade as coisas, o mundo que puxas, que deixas secar na página, como uma imensa manhã cuja claridade, além das sombras, nos apagasse também.

quarta-feira, julho 18, 2018


Dorme nas tuas escadas uma velha memória, unhas e flores metem-se pelas gretas de idades verde-húmidas, as telhas cedem, correm céus inesperados, arrastam-se bêbedas lembranças, e o vento entre as árvores faz a tarde ouvir as suas intimidades. Esta é a região; no bolso ainda trago o fósforo dos incêndios, sonho de uma força a que nunca demos forma. Fomos estranhos o tempo todo – quanto ardor por ser puros – um amor pobre e correspondido. Chovia no quarto, tínhamos os tachos espalhados e jogávamos cartas, líamos as descrições do sono noutras línguas, atirando-nos à escuridão onde o mundo é feito. Amantes de filmes mudos, sombras de dez dedos na projecção do candeeiro sobre a parede, pobre cinema para agachar o céu, deixar as estrelas queimar os lençóis. O espelho que escondeste, derrama-se ainda, verte reflexos inalcançáveis: antigos restos do amor. Nos dedos da memória desfiz essa rosa, fiz dela um vestido. Levei-o nos braços e o vento parou de novo nos teus cabelos calmos. A mão de que te despejaste, preparou-me a chuva este Verão, oiço-a de roda da casa, cá dentro piso sons quebrados, a abelha enganada desfaz as asas, onde morre o ar retoma a sua lenta indústria, sob a treva produz o mel de quantas coisas se perdeu o sabor, devolve-nos o soluço a meio do verso, tudo o que perseguimos, imagens de um mundo esvaído. Olha uma única vez dentro do copo, este que se embebedava nos santos vasos perdeu a sombra, soube o que era a rua, por tantas ruas teve um encanto doméstico. Na cara abriam-se-lhe luzes fortíssimas, teve apitos de comboio rente à pele, dormiu algumas vezes na linha mas nunca quis deixar a ninguém a sua morte, como me fizeste.

"carvão :: capim", de Guilherme Gontijo Flores, ed. Artefacto



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, julho 17, 2018


Miúdo, trazia as piores notas, mas eu tinha a paciência própria de um mentecapto, agachado no quintal o dia inteiro, o olho na fechadura de uma porta solta, sem incomodar ninguém, horas a espiar galáxias: a minha era uma solidão cósmica. Nos dias mais terra-a-terra era eu e o cão escavando buracos em busca dos nossos iguais. Então as palavras eram o modo de atiçar, fazer crescer as coisas, dar-lhes corda. A beleza ainda vinha longe; só passaria naqueles lugares anos mais tarde. Foi a professora substituta que tirou o bigode às aulas de alemão e levou os meus primeiros ensaios com a paisagem.  Até ali, para que serviam as flores, os livros, tantos nomes inquietantes na sua inflamação sonora, e mesmo a porta do quarto antes sempre escancarada? A janela era só a moldura para a árvore que, no largo, vez por outra prendia uma nuvem. O rádio vigiava do parapeito, e a rua aumentava o volume quando ela subia, a música aos pés dela. Eu ia vê-la, esperava, tirava o resto da tarde para estudar como expor-lhe o meu caso, que desordem eu tinha visto a partir dela nas coisas do mundo. Meses passeando à beira de água, sentindo-me olhado. Na última semana dela tirei o meu primeiro bom+, depois a outra voltou da licença e as notas desabaram. O alemão ficou de novo um som de fundo impondo e ditando o fim do mundo. Nem sabia já fazer-me companhia. Arrancava o escuro, despetalando-o quieto junto da aranha e da sua constelação de morte. Ela lembrava-me um cego de roupão ao piano, deliciada com o som das articulações de cada insecto. Um rio todo penumbra cortou ao meio a casa, o silêncio ficou sonâmbulo, batendo os cantos. No quintal, os pássaros desciam sobre as costelas da tarde e a respiração tornou-se pesada. As distâncias chamavam-se e tudo o que ficava no meio se abatia. Ruídos puseram-se olhando para trás esse eco balançando-se de garras crispadas no poleiro da memória. Como a dor aprendeu o caminho voltava agora quando queria, a adolescência lembrava mais um estado de decomposição: tiveste um corpo porque outro to disse, e depois do corpo só restavam os nomes, as palavras que perdiam o sentido entre eles.

segunda-feira, julho 16, 2018


para o João

Digamos que amanhece, que acordas desses teus pesadelos cheios de talento e ao redor da cama dás com um bando de pássaros mortos (tão mortos, tão imóveis, tão caídos...). Os gatos também encolhem os ombros. A casa é um eco que não acaba. Surda, tem uma memória espantosa, mas já nada de novo recebe. Erguendo-se no meio do tempo sobre uma raiz secreta, balança-se, tricotando os dias. Tem as ranhuras do sol no pátio e, por toda a parte, ligando as divisões, fios de aranha e baba cristalina, o reflexo de sempre na bacia entupida, as flechas da infância e pedras tão fundas. Um relógio caído a um canto, devorado por formigas, e as horas fugidas, desmesuradas. Esse deserto de porcelana, flores imóveis, tudo petrificado num espelho morto que dessangra reflexos antigos. Uma nuvem cobre os espaços a que a dor se habituou. Lá fora, o vento já depôs as armas. Resta a chuva, o seu coruscar. O silêncio bebe-a. Um sol frio bebe leite nos escombros da velha casa. Com os dedos lês os detalhes de que a luz cuidou, o gesto sombrio da sua glória consumida. Outra flecha perdida entre a tua fragilidade e o ruído de uma máquina de coser no quarto, trancado há tanto tempo. Digamos que anoitece e no escuro a tua lâmpada canta só, põe ordem ao enredo e o seu círculo alarga, sussurrante, embriagando os mosquitos. A máquina em que te bates, como uma prece depois de perdida a fé, soa bem alto pela noite fora. Face à hesitante ruína da casa, quase a cair para dentro, e ouvindo o grito das pedras, lanças-lhe um urro que devolve o orgulho e a pose à sua arquitectura.

domingo, julho 15, 2018


Não vem de longe o enferrujado murmúrio dos baloiços que nos diz o lugar onde a infância foi enterrada. Inclinas o ouvido, perdes-te no sussurro medieval destas águas – largo espelho onde se animam as frontes quebradas dos antepassados. Longos bandos de aves atravessam a região, como procissões piedosas. Tudo é remoto, um luto antiquíssimo comanda o menor gesto no espaço mínimo da mesa de pedra onde traduzes a paisagem em lentas sílabas de sombra. A noite estende-nos a sua mão de vidro de que bebemos o vinho cintilante dos nossos reflexos. Luz assombrada que vai ficando de verso para verso entre estes corpos de penumbra e vozes sem conta, ecos envelhecidos. Vidas meio inconscientes mas de pé, ao balcão. Como uma infantaria cansada de trincheiras e pás, deixam-se alvejar. Quando não podem mais, são fantasmas a cambalear pelas ruas até caírem nalgum buraco ou ao lado de uma mulher. Foi sempre esta a ideia que fizeste do que é um homem entre homens, disposto a sofrer com eles, enlouquecer com eles. De um povo que abdicou de fazer heróis, e dessa escolha retira a sua força. Ilegíveis lendas, as estátuas anónimas trocando olhares comovidos nestas praças negras dedicadas à memória de impossíveis derrotas. Uma quietude, a sensação de uma eternidade maligna que nos devolve aos lugares onde a vida não soube distinguir-nos uns dos outros.

sábado, julho 14, 2018


Quando a memória começa a fazer efeito, retiras as tuas porcarias de caixas (a herança que deixaste de ti a ti próprio) e levantas essa âncora de restos para regressares à malha empedrada dos caminhos. A voz lenta que te envergonha sossega enfim quando o sol se cala e o céu se abandona a uns astros cegos. Afundas-te nuns bolsos tristes entre ruas num recorte sonâmbulo onde os cães derrubam pequenos castelos de lixo ao passo que o vento se abre em goelas de lata. No pátio de uma escola abandonada, sem rumo no ar, um cheiro de lembrança torna-se enjoativo e cansa. A fonte, tenteante, repete um som de pedra, o mar vazio que no escuro te embala. Ao fundo, a luz dos antigos portos treme do comércio onde o teu erro há-de encontrar mil ecos. Vozes submersas, suaves, e o dilacerado convívio desta corte vagabunda. Um teatro rouco que sempre te acolhe e te oferece um papel a uma hora em que nada preserva já intimidade. Asilados em cafés, vivemos e morremos mortes e vidas de outros, histórias tão sem destino, tudo o que mais nos expõe como alvos fáceis para o esquecimento. Aí, bebemos e vociferamos enquanto a morte não alcança a nossa idade nem apaga estes sinais. Velhas sombras de canções atravessam-nos o sangue. Assim, a meio coração, revejo-te por instantes. Um calor delicado enquanto procuro o teu rosto, o perfume esforçado e o grão da voz, essa paz que me diz que estás bem, que tudo ficou melhor depois de mim. Oiço-a como se enterrasse uma pedra na carne, e estimo os dias que me levará para desfazê-la em cinza. A dose perfeita cambaleando no sangue enquanto a dor canta entre uns passos distraídos.

sexta-feira, julho 13, 2018


Os pássaros largam num grito indecifrável, as árvores estalam capazes de se desenraizar. De um quintal a outro, os frutos ardem, lançados acima dos muros com as pedras, e as nuvens atingidas encharcando as ruas. Eu só os tinha visto crescer daquela maneira ao longe, ouvido no chão, a terra telegrafando uma carga de cavalaria, os rapazes levantando o pó, ecos esmagadores. Ela garante-me que não somos vistos pelos nossos sonhos. E então foi isto o que restou do meu cavalo? Nem o selim, só uma lembrança. Ele diz-me que o seu nome só reteve da infância os reflexos de um frasco. Não sei que grilo o traz acordado até tão tarde. Ao menos eu sinto ainda a porta soprada, recobro intacta aquela manhã que fez a descoberta do canário, tenho a vista da janela emoldurada, agacho-me, finjo que sei ler rastros, sei pelo menos como de quietos caminhos inventámos os outros, da poeira erguendo-se, dos meandros de água e dentes de leão, fazíamos uma boca, interpretávamos tudo. Calados, ainda ouvimos a floresta tropeçando na flauta. Daqui, os passos já não fazem as distâncias tremer, os dias não pegam, perdi a narração. A brevidade da mão basta para medir incessantemente a distância da porta ao último jardim. Vivo dedicado a ganhos invisíveis, entre as palavras só espreito intimidades desnecessárias, a respiração épica esvaiu-se inteiramente dos nossos hábitos. Num dia bom, bêbedo de sede e de sol, sigo desconhecidos imaginando o que poderão fazer por mim. Regresso ao quarto, ao trabalho. Com a subtil reverência da abelha, estudo as leis físicas em busca da falha que me leve às outras. De resto, já só nos livros encontramos os vícios dos grandes devoradores de épocas, fumadores de ópio, os bebedores incansáveis de olhos fixos na própria morte. Não lhes sinto a falta, oiço-os bem. Mas a geração à qual pertenço é pior que nada, não deixa gosto algum. Lavo os pratos, olho para o lado, fito a expressão egípcia no rosto do gato. Dividimos tudo, ocupamos a mesma extensão. Trocamos apontamentos. Ele tem espinhas milenares escondidas nas gavetas, carcaças cintilantes de lepidópteros raros por estas partes. Um tesouro oculto que me diz muito sobre aquilo que vale a pena preservar. Como eu tenho sobre os meus papéis aquela pedra escura a alimentar-se de um velho ressentimento. Um corpo dissipado, estrela entre as minhas cinzas. Esse verso que pus de parte, em que a vejo enxugar-se da tempestade, em que o seu olor se alia singularmente à obediência da minha memória. Tudo o que aprendemos, o gole de água retido na boca enquanto morríamos de sede, esse gole que encurralamos numa frase, para deixar noutra boca o gosto de uma infância deixada para mais tarde.

First Reformed (2018)




7/10



Solitário como uma civilização extinta, sou o que resta e o que ficou aqui a aguar o tempo, amolecê-lo no silencioso desmoronamento de amargos países como este onde tudo nos leva à invenção do exílio, esse grito degolado. Ecos sempre mais surdos nestas páginas já sem margens. E nelas cada um de nós risca todos os outros ou juntos somos devorados pelas nossas próprias imagens. A manhã traz as suas nuvens rastejando, as ruas envolvidas nesta luz de fim de mundo. Os pássaros que não souberam escapar-lhe são simples nódoas. Às sombras deixo-as vir, fazendo um ninho destas mãos. Roçando arestas vivas entre o bocejo e o abandono, tudo isto que me arruína o sangue e alimenta tremores, murmúrios debaixo da pele. Na escura água deste baptismo, crianças como astros arremessados de infâncias miseráveis e os nomes tristes que dão às coisas arrastando-as para o seu mundo, os jogos cruéis, as estratégias de intimidação. Como depois de uma frase aterradora, algumas engolem a própria língua, outras cospem-na tão longe e enfim esvaem-se silenciosamente. Como de uma pele envelhecida, a cidade se desfaz de nós, se arrasta sobre as suas escamas de vidro, vultos despedaçados entre reflexos. Cartomantes e videntes, traficantes de tudo. A mesma noite há anos. Volto a deixar-me cair sem resistência, deixar que me cante essa voz de sombra, coberta de musgo, soprando a luz, animando os contornos deste pesadelo de ossos e músculo prestes a tornar-se algo simplesmente sujo. No fim, a inútil metamorfose de que ainda nos servimos neste apartamento obscuro e comovido. Por todo o lado pêlos, um rasto delicado de pequenos animais mortos. Às vezes gato, outras cão ou anjo. Passa as noites esgaravatando o soalho, escavando o seu pequeno abismo. A cama exausta, o sexo que ali deixei como uma página arrancada e o choro da pequena flor negra à cabeceira, como se um último suspiro rasgando a memória. De uma boca a outra o ar como música gelada, e esta dor que nos partilha quando de novo somos a sombra distante e capturada um do outro.

terça-feira, julho 10, 2018




Isso de passar chumbo no passario, têm dito, ainda fará o céu despencar, cuida-te ou cai-te nos cornos. Nem seria mau morrer disso ao invés de ficar na geral vigilância do colesterol, mas está difícil. Até ao dia, nada, nem sinal de uma racha nas colunas. Mas sempre gostarias de saber contra que alvos se faz a pontaria hoje, tão comedidos que estamos. Se não se atira aos pardais, se às espécies migratórias ninguém se atreve, pelos mil anos de azar prometidos, resta o quê para espreitar por dentro as ininterruptas deslocações, o que é dos grandes movimentos continentais? Mal se ouve a ancestral respiração marcada, as cicatrizes mapeando cada desatenção. E o que é das exaltantes caçadas? Agora que as bestas prodigiosas não grafam já o seu mágico perfil nos nossos sonhos, que linha ficou para a mão se assombrar, fazer do esboço no fundo de uma caverna uma conjura? Porque estes não impressionam ninguém. Que triste descendência para os xamãs, tirando-as da cabeça tumultuosa, formas que prendiam à pedra nas galerias subterrâneas, com o fogo espreitando a obra sobre o ombro. O terror era omnívoro, então, mas hoje que exemplo se oferece quando séculos depois se reclamam filhos uns meias-tintas, anarco-pensionistas que, ao romper do dia, saem do estúdio, da oficina, do tão decorado cárcere, saem da noite e do frio, para vender os bordados, chapéus de palha para a cambada de tigres de papel, em consonância com a incontinente consciência, e esses golpes petulantes, muito ao gosto, muito fruta da época. Ah, as belas "imagens mártires", que deslumbrante papel de parede, cenário de aventura dos reis dos bairros de ontem. E que linda a antiga tipografia, os hieróglifos, as runas, os caracteres de chumbo, produto interno bruto das clínicas da respiração assistida. Ei-los gestores da inanição (aclamações por sabermos estar vivos na geleira!), pedindo fundos, rifando pentes e garfos em nome de vagos projectos diletantes. E nisto, dessa alma toda, de tão grande paixão e revolta, foi-se a ver, não deixara mais que pêlos, nada que não a intermitência dos biscates: cartazes, slogans, o que levam os ratos das opiniões fortes, a ocasional itinerância e o gregarismo da videirunha, mais as máquinas de fumo da feitiçaria fetiche. Ó operários do agarrem-me-que-eu-vou-ma-eles, da inaparente sublevação, tribunal de recurso entre a terra e o céu, fazei-nos um retrato fatal, uma hiena que ri, a gargalhada que se afina entre os exaustos, tão talentosos ossos, esses vossos, de passarinho, que servem à época de palito.

American Pastoral (2016)



8/10

"Amores (Im)possíveis, de Inês Meneses, Abysmo, crítica de Marcos Pereira



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"56/25-31", de Esménio, Flop



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)



A nossa Candy fingia-se grandes pundonores, gozando o anonimato mais como quem diz a si mesmo "a minha vida não é isto", enquanto sugeria uma verdadeira vida alhures, uma onde até beijava na boca, fazia umas coisas com a língua. Já por cá, e atrás do leque, vivia numa costureirice 2.0. Para o que contava com o equivalente a um nome de stripper adaptado à poesia, portanto, a dar uma de queque, fazer de cocote, para tão cedo alforriar a matrona. E lá foi esperando correio dos admiradores, somando uma versice intestinal, sempre num registo de livro de reclamações aberto à cabeceira, sempre a puxar para o grosso, reproduzindo os sintomas do desconsolo. Lembrava certo conto do Rubem Fonseca em que o protagonista tem uma fixação com a própria matéria fecal, fotografando os ditos, intrigado com as diferenças de cor e consistência, documentando-os e compondo um bestial álbum de família. Da última vez que fui indagar, estava encaminhada para ter um livro na Tinta-da-China. Um remate final que dava sentido a toda aquela pose, como dizer que, de vez em quando, caía nas escadas. Era uma forma, como qualquer outra, de apanhar.