Quinta-feira, Novembro 12, 2009

O lamento de Qu Yuan

Confusão é uma palavra que inventámos
para uma ordem que não se entende.

Henry Miller

Sopraste nas minhas feridas e estas despegaram-se de mim.
Estendidas no vento, circulando por vales e verões,
ainda ternas, foram aderindo à casca de uma árvore,
pousaram sobre o lago, abriram veias noutros corpos.
Acamado, hoje o mundo na sua língua diz mal de nós:
o bosque perde pássaros, a água foge da água
e a manhã é uma mula carregando sacos rotos.
E assim, cada coisa é uma hemorragia, cada coisa está fora
de cada coisa, é todas as outras menos ela mesma.

Mulher que velas os amotinados limites do meu corpo:
Nunca apagues com a tua boca a boca de um mistério.
A verdade é uma fenda que abre uma rota direita ao abismo.
A contradição um país secreto de que sempre se regressa
com um beijo nas costas e uma punhalada nos lábios.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Cemitério do Père-Lachaise

No Père-Lachaise a solidão é um útero de regresso,
os mármores têm a aparência de leite cansado,
a eternidade é uma topeira que dá de mamar aos seus mortos.
No Père-Lachaise há crianças albinas a mascar hera,
os corvos entesouram puxadores caídos de portas que ninguém conhece,
soam mais amargos os violinos de Enescu debaixo dos salgueiros.
Junto a Jim Morrison alguns cravos de outros tempos
ainda elevam vapores e descargas eléctricas.
Oscar Wilde é só musgo a rebentar a pedra.
Às seis da tarde um funcionário tranca a morte,
abre a cigarreira. Sumido entre o fumo talvez pense:
Que trabalho inútil viver. Quanto tempo perdido.
Uma roseira deixou os espigões abertos sobre Sadeq Hadayat.
Sentados nos seus ciprestes os anjos levantam âncoras.
O cemitério zarpa novamente e Paris é o Inverno.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

1.

as garças já não passam por
aqui, o frio impede a rotação da
imagem, um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a
sobrevivência em redor do
peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo
sol
vejo-lhes as viúvas
escuras como
travessões largos nos
passeios
enquanto os putos
ameaçam as ondas e quantas
vezes os pais irreconhecíveis de
encontro às rochas, os corações
convocados e o sino a
distribuir a morte
severamente

gente de lã, golas
manchadas, um cobertor
pelas costas no fundo do dia, a
noite e a oração, deus nos
perdoe a ferocidade, a dor tão
profunda, a comida mal servida,
o vocabulário dos
filhos, a virtude e o cheiro
das raparigas, o asseio da páscoa, a
pressa do terço e
a maldição do seu
nome

dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento

por vezes
a areia vem à estrada, acordo
com o despiste dos
forasteiros, chamo as ambulâncias
e as mulheres obreiras brotam das
portas a entristecer, como
boca fora do peixe o fôlego o
mata

juntam-se no cais, confusas no
vazio dos sexos, suadas enquanto
juram que na
fome dos lençóis
chegam virgens ao fim da noite

atordoam com cio, à minha boca, só os
forasteiros mortos a
partir, já súbito o
segredo se levanta e elas
gemem para dentro dos
xailes

- valter hugo mãe
in três minutos antes de a maré encher

2.

uma mulher arde no
centro da minha
casa, consome o corpo
de amor

mulher cantando uma
ladainha, descalça na
pedra do chão, caem-lhe
cerejas dos dedos que tocadas
à boca das pessoas
trazem caroços à
mão como gotas de luz




sou um poeta, ignoro
também as coisas todas

escrevo livros nos olhos
de dante, os pescadores em
círculos nas ondas, o
mar espalmado nas minhas mãos




tanto me faz, doido de nada ou
doido de tudo, sou pasto
do vento e um fogo pálido
onde o mar se vem aquecer

colecciono até o inferno, poema
mais difícil de escrever




assusta-me que o
ofício da luz perca os
objectos ou estas longas
paisagens. mas farto-me das
coisas que, ao mínimo
vislumbre, parecem
reais




posso falar do mar
como um incêndio de
água e erguê-lo em
chamas numa só
palavra, efeito secundário
da boca




existe uma arritmia ténue
no coração de quem recusou
o amor de outrém, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem




a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir




sabes, não é como
os bichos, o céu muda
de pele mas não temos
prova disso

por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

- valter hugo mãe
in três minutos antes de a maré encher

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

.
Li hoje um poema medido a pulso
dentro de mim. Sede pousada no labirinto
e, no centro, aquele conhecido verso
secreto que amanhece nas açoteias.
Disponível para o sexo e para as cousas d'alma.
Ah li-o, e era um bicho exasperado
por sair à caça
com o sol a dar-lhe no dorso alquímico dos sonhos.
Dum vigésimo andar pode partir-se
com botijas de oxigénio
ou de binóculos. Precário, insubmisso
ao Estado das coisas.
São outros, porém, os cravos
da moderna paixão:
casamentos, relógios de ponto,
habitação própria domesticam
o horizonte, e o horizonte
basta.

- Paulo da Costa Domingos

à memória do meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro

álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantendo aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção de luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso dos sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso - este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho da
parede de uma casa,
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta -
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que me embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ouço já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro

- Herberto Helder
in A faca não corta o fogo

O bloco de moradas de Tania Savicheva

No meio da indiferenciação e do horror dos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial que o historiador vai apresentando sistematicamente surge, de súbito, um nome, uma pessoa, uma vida. Na página 430 lê-se:
"Em Leninegrado, os mortos de fome, embora já não tão numerosos como em Abril, eram ainda vários milhares por dia. Foi no dia 13 que Tania Savicheva, uma rapariguinha que passara o cerco na cidade, registou no seu bloco de moradas, na letra M: "Mamã, 13 de Maio, 7.30 da manhã, 1942. Os Savichev morreram. Todos. Só ficou a Tania." Outras páginas marcadas por letras revelavam: "Zheny, morreu a 28 de Dezembro"; "Avozinha, morreu a 25 de Janeiro"; "Leka, morreu a 17 de Março", "Tio Vasya, morrreu a 13 de Abril", e "Tio Lyosha, morreu a 10 de Maio."
Evacuada para Gorki, a própria Tania morreria de disenteria crónica no Verão de 1943."(1)
À página 430 segue-se, sem dúvida, a página 431. E parece tão simples continuar a leitura.
(1) Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, D. Quixote, 2ª edição, Lisboa, 2009.

Enquanto ela arranja o cabelo

Ela arranja o cabelo antes de se deitar
e permanece em frente do espelho uma eternidade
entre cada flexão do braço
passam eras dos seus cabelos brotam silenciosamente
soldados da segunda legião de Augusto Antoniano
irmãos de armas de Rolando artilheiros de Verdun
com os dedos agéis
segura a auréola na cabeça
demorou tanto tempo
que quando
finalmente chegou até mim
meneando as ancas
o meu coração até aí tão dócil
parou
e na minha pele senti
grosseiros grãos de sal

- Zbigniew Herbert