quarta-feira, julho 29, 2015


E mais fácil ainda me seria
descer a ti plas mais sombrias escadas,
aquelas do desejo que me assalta
como lobo infecundo noite adentro.

Sei que tu colherias dos meus livros
com as mãos sabedoras do perdão…

E também sei que me amas de um amor
casto, infindável, reino de tristeza…

Mas eu pra ti o pranto o alisei
dia após dia como luz repleta
e mando-o de volta tácita aos meus
olhos, que, se te olho, vivem de estrelas.

(de Tu és Pedro, Scheiwiller, 1961)

- Alda Merini 
(tradução de Marco Bruno)
in Relâmpago, n.º 17 10/2005

Cadernos do Subterrâneo XIX


segunda-feira, julho 27, 2015

quarta-feira, julho 22, 2015


Y ahora vamos con la oscuridad de Góngora. ¿Qué es eso de oscuridad? Yo creo que peca de luminoso. Pero para llegar a él hay que estar iniciado en la Poesía y tener una sensibilidad preparada por lecturas y experiencias. Una persona fuera de su mundo no puede paladearlo, como tampoco paladea un cuadro aunque vea lo que hay pintado, ni una composición musical. A Góngora no hay que leerlo: hay que amarlo. Los gramáticos críticos aferrados en construcciones sabidas por ellos no han admitido la fecunda revolución gongorina, como los beethovenianos empedernidos en sus éxtasis putrefactos dicen que la música de Claudio Debussy es un gato andando por un piano. Ellos no han admitido la revolución gramatical; pero el idioma, que no tiene que ver nada con ellos, sí la recibió con los brazos abiertos. Se abrieron nuevas palabras. El castellano tuvo nuevas perspectivas. Cayó el rocío vivificador, que es siempre un gran poeta para un lenguaje. El caso de Góngora es único en este sentido gramatical. Los viejos intelectuales aficionados a la Poesía en su época, debieron de quedarse estupefactos al ver que el castellano se les convertía en lengua extraña que no sabían descifrar.


FEDERICO GARCÍA LORCA, La imagen poética de don Luis de Góngora, Obras, VI, Prosa, 2, Akal Editor, 1994, Madrid, pág. 1243
retirado daqui

terça-feira, julho 21, 2015

1º episódio



Não é a catástrofe
que, como luz difusa, paira
sobre a espera, sem fim.
(Há um instante em que percebes,
com sentidos que nunca soubeste
teus, a vibração
de uma corda estendida
de sol a sol,
uma corda que vibra
sem movimento, e é
por isso o próprio temor.)
Mas não
é sequer essa corda
nem a sua sombra na água.

Também não é o sabor,
frutado ou obsceno, do instante
em que abres a janela e já é noite
e tu não esperavas
essa brisa que te desarma.
Nem é a imensidão de um amor
que não queres medir
para alimentá-lo em segredo.

(Às vezes, após colher
uma flor, fica-nos na boca o gosto
a sangue; depois do mais
inocente dos nossos passos,
eleva-se um perfume de vingança.)
Mas também não é um punhado
de pétalas, nem é uma
pegada na terra. (Nem uma
promessa, uma desculpa, um esquecimento,
uma metamorfose, uma morte
nem uma ressurreição.)

É o poema que julgavas teu
e que não hás-de escrever nunca.

- Ángel Crespo

domingo, julho 19, 2015

Cadernos do Subterrâneo XVIII


Drum

Leo's Tool & Die, 1950


In the early morning before the shop
opens, men standing out in the yard
on pine planks over the umber mud.
The oil drum, squat, brooding, brimmed
with metal scraps, three-armed crosses,
silver shavings whitened with milky oil,
drill bits bitten off. The light diamonds
last night's rain; inside a buzzer purrs.
The overhead door stammers upward
to reveal the scene of our day.

We sit
for lunch on crates before the open door.
Bobeck, the boss's nephew, squats to hug
the overflowing drum, gasps and lifts. Rain
comes down in sheets staining his gun-metal
covert suit. A stake truck sloshes off
as the sun returns through a low sky.
By four the office help has driven off. We
sweep, wash up, punch out, collect outside
for a final smoke. The great door crashes
down at last.

In the darkness the scents
of mint, apples, asters. In the darkness
this could be a Carthaginian outpost sent
to guard the waters of the West, those mounds
could be elephants at rest, the acrid half light
the haze of stars striking armor if stars were out.
On the galvanized tin roof the tunes of sudden rain.
The slow light of Friday morning in Michigan,
the one we waited for, shows seven hills
of scraped earth topped with crab grass,
weeds, a black oil drum empty, glistening
at the exact center of the modern world.

- Philip Levine

sábado, julho 18, 2015

Vivo e mortal


Sei que há estrelas, luminosos mares
de fogo, inabitados paraísos,
cadeias de planetas, céus limpos,
montanhas que se erguem como altares.

Sei que o mundo, a Terra que piso,
tem vida, a mesma que me faz.
Mas sei que se morre se se nasce,
e nasce-se, por quê?, por quem, quem o quis?

Ninguém quis nascer. Nem quer ninguém
morrer. Por quê matar o que prefere
viver? Por quê nascer o que se ignora?

Só está o homem. O mundo, imenso, roda.
Sobre o seu eixo virgem, suspira
o que, vivo e mortal, o homem chora.

- Blas de Otero
in Ancia

A Terra


De terra e mar, de fogo e sombra pura,
esta rosa redonda, reclinada
no espaço, rosa volteada
pelas mãos de Deus, como procura

suster-se em pé e na beldade
do céu aberto, oh imortalizada
luz da morte ferindo o nosso nada!
A Terra: girassol; maçã madura.

Mas chega um mau vento, um golpe frio
das mãos de Deus, e derruba-nos.
E o homem, que era uma árvore, agora é um rio.

Um rio largado, sem rumor, vazio,
enquanto a Terra segue à deriva,
oh Capitão, meu Capitão, Deus meu!

- Blas de Otero
in Ancia

Fidelidade


Acredito no homem. Eu vi
costas destroçadas por chicotadas,
almas cegas avançando aos tropeções
(espanhas a cavalo
na dor e na fome). E acreditei.

Acredito na paz. Eu vi
altas estrelas, campos ardendo
com o amanhecer, incendiando rios
fundos, caudal humano
para uma outra luz: eu vi e acreditei.

Acredito em ti, pátria. Digo
o que vi: relâmpagos
de raiva, o amor frio, e uma lâmina
a gemer, desfazendo-se em pedaços
de pão: embora hoje só reste a sombra, eu vi
e acreditei.

- Blas de Otero
in Pido la paz y la palabra

A ponto de cair


Nada é tão necessário a um homem como um pedaço de mar
e uma margem de esperança para lá da morte,
é tudo do que necessito, e talvez um par de asas
abertas no capítulo primeiro da carne.

Não sei como dizê-lo, com que cara
trocar-me por um anjo dos de antes da terra,
partiram-se-me os braços de tanto lhes dar corda,
diz-me o que farei agora, diz-me que horas são e se ainda há tempo,
é preciso que suba para me mudar, que me arrependa sem perder uma lágrima,
uma só, uma lágrima orfã,
por favor, diz-me que hora é a das lágrimas,
sobre tudo a das lágrimas sem mais nem más que choro
e choro todavia e para sempre.

Nada é tão necessário ao homem com um par de lágrimas
a ponto de cair no desespero.

- Blas de Otero
in Redoble de conciencia

quarta-feira, julho 15, 2015

"A Sombra do Mar", Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim



(abre a imagem noutro separador para a ampliares)

terça-feira, julho 14, 2015

Vésperas


A idade traz-me as metáforas do perigo
e também as suas regras
no desastre.
Vejo chegar a noite e com ela um poema do Eugénio,
magríssimo cauteloso, cioso das suas sílabas
e da cal apagada junto à boca.

Agarro o seu silêncio
que se deixa cair perto do mar.
As rochas do outono estendem as mãos grossas
para me alcançarem o corpo.
Mas o meu tempo é cada vez mais frágil
e entre o vento e a chuva uma pequena luz parece
que germina.

Sem a claridade dos pássaros o poema não voa,
no chão a palavra rasteja na secura
da tarde abandonada.
São os olhos da terra que mais doem, a erva amarga,
e cantar ao crepúsculo passa a ser uma cegueira,
a bem dizer, um crime.

- Armando Silva Carvalho 
in A Sombra do Mar, Assírio & Alvim

quarta-feira, julho 08, 2015

Dedication for a Plot of Ground


This plot of ground
facing the waters of this inlet
is dedicated to the living presence of
Emily Dickinson Wellcome
who was born in England; married;
lost her husband and with
her five year old son
sailed for New York in a two-master;
was driven to the Azores;
ran adrift on Fire Island shoal,
met her second husband
in a Brooklyn boarding house,
went with him to Puerto Rico
bore three more children, lost
her second husband, lived hard
for eight years in St. Thomas,
Puerto Rico, San Domingo, followed
the oldest son to New York,
lost her daughter, lost her "baby,"
seized the two boys of
the oldest son by the second marriage
mothered them—they being
motherless—fought for them
against the other grandmother
and the aunts, brought them here
summer after summer, defended
herself here against thieves,
storms, sun, fire,
against flies, against girls
that came smelling about, against
drought, against weeds, storm-tides,
neighbors, weasels that stole her chickens,
against the weakness of her own hands,
against the growing strength of
the boys, against wind, against
the stones, against trespassers,
against rents, against her own mind.

She grubbed this earth with her own hands,
domineered over this grass plot,
blackguarded her oldest son
into buying it, lived here fifteen years,
attained a final loneliness and—

If you can bring nothing to this place
but your carcass, keep out.

- William Carlos Williams

terça-feira, julho 07, 2015