sábado, janeiro 21, 2017

língua morta 069



CANÍCULA,
de Daniel Jonas,
capa a partir de gravura de Pieter Bruegel

[300 exemplares, 96 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


quinta-feira, janeiro 19, 2017


A um canto, os lábios cerrados feito um punho, lápis de cera, raios de sol, as putinhas das flores e o resto, faço bem barata a ficção, mas não confesso porra nenhuma, nem a ferros, choques, babando de bata nas instituições de um branco que fere, alvura de osso limpo pelas formigas, a lua raspando nas grades, sempre o mesmo canal a zurzir-nos, e jogos de tabuleiro com mais dentes já que peões, nestas linhas nem uma migalha por descuido, prefiro engolir até à última pílula, fritar no óleo bem sujo da eternidade, a corrente a passar de uma ponta à outra pé ante pé, não abro a boca para isso, dizer coisas minhas, nada, um homem se tem algo de seu é a vergonha, larga isso e não há mais volta, nem corda no escuro para se orientar entre as divisões que faz, nem uivo nenhum que lhe erice os pêlos, agora essa de ter de vivê-la e ainda vir contar, passar a limpo esta asneirada, isso seria pior que dar-lhes todos os meus nomes, ainda os lugares e as horas em que vão passar, bufo de si!, que tristeza essa gente toda que à imaginação dá morte com veneno para ratos, quotidiano só ouvi falar, ver com estes olhos não posso dizer que tenha, alheado, tive sempre outros compromissos, dos que enchem a primeira página mas de outros jornais, a gente afasta o azulejo e deixa lá o último número à guarda da humidade, de bichos-deuses, o escuro roendo, tratando do estilo, vão as instruções sobre o homem, o que é, como funciona a doença de ligar os sentidos todos ao mesmo tempo, um avançando sobre o limite do outro, esta respiração diabólica, esse jeito tímido de ficar no seu canto à espera do seu momento feito bomba, passando com a colher de chá a pólvora do tic para o tac, até os relógios no edifício ficarem lerdos, o tempo numa imperceptível câmara lenta, e ir deitar-se à espera na banheira, melhor passar soluções químicas nos versos que essas desesperadas tentativas de intimidar a inspiração, quem escreve curto concentra, põe-se um frio danado nas redondezas, soa entredentes a receita de provocar tremores na cabeça, na pele das coisas, nos astros, nas fezes, mas se fazem os testes estamos limpos, descontando a borboleta que surgiu na ressonância magnética, o paciente lava-se, come, dorme, ou pelo menos deita-se, não recebe visitas, recebe as cartas mais estapafúrdias, algumas perfeitamente ilegíveis, em idiomas desconhecidos, não vemos razão para proibir, tudo considerado parece-nos bastante inofensivo.

terça-feira, janeiro 17, 2017




A Noite da Iguana no São Luiz



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


segunda-feira, janeiro 16, 2017


Hás-de chamar amor a essa necessidade de dar outro passo lá fora, perder um tempo que te torne inconfiável, beber perfumes de um golpe da brisa, ter o acidente de conjugações irrepetíveis, cortar caminho e atravessar esse país onde os bosques rezam. Ainda que te escreva directamente, há hipótese de que os ventos se intrometam, alguma coisa borre, falte a ignição às sílabas de fogo. Assim, no envelope seguem também alguns dentes. Não quero que vá tudo a enterrar junto. Percorreria a terra desfazendo-me se pudesse. Seja isto o que for, de há muito não tenho senão as últimas forças para receber ditadas as cartas de um lugar sitiado. Na minha armadura negra reflecte-se uma paisagem cada vez mais ténue. E há o reverso, a forma como nós próprios estamos sujeitos à desaparição. Falta-me o rosto, sinto ter-lhe perdido os traços nos cadernos, é-me impossível hoje reunir-me num único reflexo, ainda que seja notório que alguém atrás das palavras mexe a cortina, lhe causa uma depressão. Os anos ou as horas que passam não me importam, mas nem os olhos, nem desses a cor eu sei. Uma porta bateu e o eco não acaba de trancar-nos um a um. Não voltei a acender qualquer luz; imagino que pela frente tenha uma terra muito lenta de rosas amargas, sonâmbulas. Vi os anjos alinhados sobre o muro do ódio, refiz o passado a partir daí, mas lendo-o noutras línguas para que não se tornasse demasiado pessoal. Não voltaria a cometer o mesmo erro: admitir aproximações, gestos cuja sombra me atravesse a carne. A distância tornou-se o grande recurso de estilo. Naturalmente tudo o que sejam sentimentos só passam entre aspas. Persigo frases que conheçam o gosto da terra, a persistência de tudo, o peso até dos céus no enlace das nuvens, tempestades como rumores caminhantes, o uivo dos chacais nos desertos de timo, o besouro, o labor mais secreto de um coração no parêntesis de umas asas, longe sentir mesmo o mar envelhecer, tudo isso que vem a fazer da voz a única mala para quem sai perdidamente.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Nua e crua


Sabia que olhavam para si
com a atenção suja
que se dedica aos vizinhos da frente.
Ao homem, à mulher, à filha mais velha,
à miséria de uns e à ingenuidade dos outros,
espreitando-lhes a intimidade pela fenda
da janela entreaberta.
Os passos entre a sala e a cozinha, entre o quarto
e a casa de banho, a televisão, o álcool, o tabaco,
o vai e vem inquieto no colchão,
os corpos nus, as discussões,
o sangue e a violência se se tivesse sorte.
Sabia-o, desejava-o,
mostraria o que houvesse para mostrar.
Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer
que ela mesma usava aqueles que a liam.

Não conhecia, em literatura,
outro fim, outra estratégia ou outra moral.

- Madalena de Castro Campos




 Para o Miguel

Espalhadas ao redor da minha paciência
uma porção de coisas
resistindo a toda a utilidade:
baldes, a pá e o arame, gatos de cimento,
pulgas, defuntos, os retratos,
segurando as paredes,
uma ameixa mole num prato...
Tenho uma fome sobrenatural
de objectos naturais, e peço
a cada um que não me deixe só
com as palavras.

Na minha vida é tarde, mal oiço já
os passos do sol e se os frutos caem
sinto-me seguido. Vivo intrigado
com as notas secas, ínfimas
que escapam de troncos húmidos,
o refúgio de bichos que esticam
a corda ao mais espantoso
silêncio. Afinam tudo,
até que toda a terra se converta
em eco
.

Na pedra ainda há pouco a chuva
citava Verlaine perfeitamente,
as poças ficaram calmas
como segredos de escura água estelar.
Não vou dizer que os conheço,
mas sei de tipos a quem o mundo
de verdade pertence,  só têm
os cigarros em que passam perdidos,
isso e um ouvido de pardal,
tão trabalhado
que não lhes escapa um soluço
de bom calibre, nem inversões na brisa,
cortes de sentido ou imagens dessas
que iluminam bruscamente
a nossa época.

Não os encontro por estas ruas,
mas tenho-os lido, sigo esses cuidados
todos: como cada manhã
limpam as armas, como de noite
tiram o chapéu e tapam
o peito quando olham para cima
atentos a movimentações no céu,
como compõem debaixo da pele
os ossos numa certa ordem.

Se em tempos só tínhamos
por horizonte a parede
,
hoje trazemos ao cinto as chaves
desta terra. Sobre ela
as flores projectam sombras
na forma de cruzes. Enterrámos
tudo, impusemos o terror da beleza.
Quando passamos as distâncias
ainda movem os lábios, aos poucos
retomam os idiomas abolidos.

Leio sem descanso.
E se já desapareço, ou me custa
dizer que faço do tempo,
no chão, os vidros do copo partido
de que agora mesmo bebo,
dizem-me que estou acordado:
no piso de cima de um lado ao outro,
agitado, pareço ter companhia –
vou-lhe perguntando
em que guerra nos poderemos salvar?

Por muito que me trema a mão,
o quarto ou o juízo,
isto pelo menos eu tenho: a confiança
de saber que um golpe firme,
de pura intenção, basta para que o meu
verso rompa a mola dos anos.

Neste país que me oculta e me nega,
naturalmente, quero a admiração
do meu inimigo.
Quero que se entregue, traga
a corda e o nó feito. Hei-de cuspir
o caroço da ameixa, podemos
esperar juntos que a árvore cresça.


quarta-feira, janeiro 11, 2017

Natação


Aprendi a nadar em seco. É mais proveitoso do que fazê-lo na água. Não há o medo de afundar, pois já se está no fundo e, pela mesma razão, já se está afogado de antemão. Também se evita que tenham de nos pescar à luz de um farol ou na deslumbrante claridade de um belo dia. Além do mais, a ausência de água evitará que fiquemos inchados.
Não posso negar que nadar em seco tem algo de agónico. À primeira vista pensar-se-ia nos estertores da morte. No entanto, há uma diferença: enquanto se agoniza estamos bem vivos, bem alerta, a escutar a música que entra pela janela e a observar a lagarta que se arrasta pelo chão.
A princípio os meus amigos criticaram esta decisão. Esquivavam-se aos meus olhares e soluçavam pelos cantos. Felizmente, a crise passou. Agora sabem que me sinto bem a nadar em seco. De vez em quando, mergulho as mãos no chão de mármore e ofereço-lhes um peixinho que apanho nas profundezas submarinas.

- Virgilio Piñera
(tradução de Rui Manuel Amaral)
in O Grande Baro e outras histórias

Dejame contemplarte todavía,
mientras mis ojos cambian de función
convertiéndose en música azulada.

Juan Eduardo Cirlot

Nunca toquei nada do que foste,
aprendi a guardar um triste encanto,
sereno, constante. Apurar detalhes,
a repetida imagem do cabelo,
levando de noite e com muito veneno
o teu corpo à boca, bem escolhidas
as palavras, como uma fonte
onde molho as mãos cada vez
mais distantes. A luz
de tanto ter-te olhado, produziu
a sua aurora meio devorada,
outro horário, e hoje mal reparo
se passas, algo já não serve
porque a tua ausência
se me tornou
mais necessária, querida –
uma rosa minha como trono
perpétuo, como terra interior.

Ultrapassaste aquele horizonte morto,
e do outro lado a tua vida tem
um certo ar desnecessário.


terça-feira, janeiro 10, 2017

Em 2016 a Língua Morta publicou oito livros:


A ORIGEM DO ÓDIO, de Rui Ângelo Araújo
CODA, de Miguel Alexandre Marquez
MOVIMENTO DE TERRAS, de António Amaral Tavares
LACRE, traduções e versões de Vasco Gato
FAZER DE MORTO, de Frederico Pedreira
A PEDRA-QUE-MATA, Poesia Japonesa, traduções de Luís Pignatelli
APARTAMENTOS, AAVV
SOMBRAS BRANCAS, traduções e versões de Jorge Sousa Braga 

Aí estão, contra a parede, os sacrificados do ano. Com a curiosa excepção de uma breve recensão na revista E (Expresso), em que o Pedro Mexia se aproveita da edição de "Lacre" para prosseguir as crónicas em que dá conta da sua vida de coleccionista de leituras poéticas (fazendo questão de sublinhar que já conhecia a maior parte dos poetas incluídos na selecção, isto sem que depois ou antes o volume lhe mereça qualquer apreciação crítica), cada um destes livros foi ostensivamente ignorado pelos agentes da operação de trânsito feliz nas cada vez mais secundárias estradas da literatura portuguesa. Já não há dois sentidos. Há um, e cada capela guarda zelosamente a sua estradinha de cabras, onde só passam as cabras de cada curral, algumas com dupla ou tripla nacionalidade, e um ou outro elefante, com cada vez maior dificuldade. A obliteração em curso é uma forma de punição aos editores da Língua Morta, mas afecta os autores, e, procurando tornar invisíveis estas edições, em última análise, quer dissuadi-los de publicar com este selo. Autores que em qualquer outra editora merecem alguma atenção, se aceitam dar-nos um livro sabem o silêncio que os cercará. Alguns leitores parecem estar-se já perfeitamente nas tintas para tudo o que se passa na intriga dos jornais ou das revistas, onde a guerra é feita pelo apagamento de tudo o que não alinha com o esquema em pirâmide que cada uma promove. Esses leitores esgotam-nos as edições. O nosso agradecimento é expresso apenas e só através dos livros, em que continuamos a perder tempo e dinheiro. A nossa esperança é que novo sangue conquiste posições e obrigue ao fim desta obstrução, porque o maior problema hoje na poesia portuguesa é que, mesmo se todos os anos se publicam bastantes poemas dignos, estes surgem já do lado da ficção, como vozes numa encenação teatral. É com muita pena que, ano após ano, confirmamos a degradação do ambiente, e se há cada vez mais actores, os poetas neste país começam a parecer aparentados com os unicórnios.

Noite de Reis, de William Shakespeare, no Teatro do Bairro



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

segunda-feira, janeiro 09, 2017


Juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro

nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro

juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando

em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta

juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa

- Ricardo Silvestrin
retirado daqui

No ano que vem


No ano que vem já ninguém reparará em nós.
Agora somos recém-chegados e fitam-nos com desprezo
até mesmo os que andam por cá há quarenta anos
e já nada os muda.
Temos um ar aturdido e tenaz
que faz rir as mulheres
e quase nem nos atrevemos a mexer a cabeça
por temor a perder o equilíbrio.

Daqui a um ano, porém, já teremos mudado de pele,
envergaremos a roupa com mais desenvoltura,
perseguiremos as raparigas
e teremos aprendido a dizer palavras duras
sem que sintamos as pernas a tremer.
Chegará então o momento de esperar os outros,
os recém-chegados do turno de entrar no jogo
e faremos parte, já para sempre, do bando que odiávamos,
será o momento de ensaiar formas novas
de ganhar o fôlego de uma gargalhada
de estúpida cumplicidade
ou talvez uma ruidosa blasfémia de surpresa.

E envelheceremos depressa,
pois nada cansa tanto quanto conquistar
em só um ano tudo aquilo que almejávamos.

- Miquel Martí i Pol
(tradução de Miguel Filipe Mochila)

Sim e Não


Oh, William Blake! Tu compreendes-me
e sabes porque leio tanto
determinados livros da Bíblia.

Quando passam os anos
e as horas passam,
é necessário a um homem encontrar algo
onde a sua noite cante ou se ilumine.

Longe crescem sem mim as margaridas,
longe ardem os céus azulados.

Sim e Não;
este é o destino do mundo.
Oh, William Blake, tu compreendes-me.

[...]

- Juan Eduardo Cirlot
in El Peor de los Dragones

domingo, janeiro 08, 2017


Mal dá para separá-las, as palavras se despertam uma distância fazem do seu voo carne, salgam um caminho, como gente do circo, a dos itinerantes, dão a volta, apressam-se a erguer a tenda enorme, espalham o lixo das suas fantasias cansadas, visões agrestes, mesmo antes de ouvir a própria voz, os sons envolvem-se na boca, um peso estriba a língua, aos dentes fica-lhes espaço, as gengivas recuam, por um fio vem aquele gosto de ferro que há no sangue, vejo-me a cuspir alguns dentes na mão sem que isso aconteça já, mas a qualquer momento, é um alerta, a minha patética calamidade, começar a desfazer-me a partir de uma frase, nem chegar a produzir propriamente as sílabas, como se na saliva pudesse ficar o esqueleto do idioma, só que fosse o corpo a ser atacado como espelho que se embacia ilustrando um rumor, e se estilhaça depois nesse desenho, o de uns abanos, tremores inúteis, porque há uma tal ordem de violência que se insinua menos no que possa pensar-se do que no ar frio que começa a respirar por si mesmo, como pelas palavras um instinto se calça, sobe a uma cadência meio frenética, há passos a toda a volta, uma invisível insurreição, no porão as lâmpadas irisam-se e uns quantos vultos sentam-se de volta da mesa a limpar as armas, e porque te conheço, nos conhecemos, não é mistério que vamos até ao fim, se o ódio insiste tanto, vais segui-lo, alguma coisa saberá, nem que seja só o desenhar uma recta vingativa para abater um cão debaixo da lua, ainda que se perca o caminho de regresso, mesmo que logo após o tiro as mãos percam o significado, fiquem destroçadas, e acabe a apanhá-las do chão como os cacos de um antigo vaso quebrado, na hipótese de pelas flores saber reconstitui-las, e a uma hora dessas penso sempre no triste que é estar morto no fundo de um bosque, e não haver sequer uma cruz para servir de ombro a algum pássaro.


Cuando te contemplé ya estaba muerto,
muerto como las hierbas, aunque crecen,
como los mares muertos, que son rocas.

Sólo lo que es eterno está en la vida,
aunque lo blanco eleva su belleza
sobre las formas grises de lo negro.

Y simula existir donde el no ser
extiende sus certezas transitorias:
Bronwyn, tu claridad no eternamente.

- Juan Eduardo Cirlot