segunda-feira, setembro 21, 2020

Egito Gonçalves. “Uma porta de febre para lá dos cemitérios”

 



No ano em que se assinala o centenário do autor do mítico poema “Notícias do Bloqueio”, é estarrecedor o silêncio à volta do poeta que foi, entre nós, uma das figuras centrais da intervenção cultural na segunda metade do século XX, especialmente no Porto. Sem iniciativas editoriais que resgatem a sua obra ao olvido, coube à Gazeta Literária a única homenagem digna e útil.


O tempo é a tarefa que alguns poetas sabem acolher. Não só dar um acordo nessa dimensão, nesse fio que se perde ou enreda de tal modo que estrangula. Mas dispor com os suportes à mão, e ainda alguns arrancados da imaginação, um horizonte adiado, nestas praias onde parece que “o sol roeu os fios que poderiam/ comunicar as rotas necessárias”. A crónica é um regime absorvente para aqueles que se deparam com uma realidade de tal modo agreste que, mais do que uma vida fluente, é a morte que parece conduzir todos os rituais, e em que os homens surgem como se desfeitos pelo “ranger mecânico e bocejante” de um quotidiano abandonado pelo sonho: “A asfixia é lenta e os que morrem/ parecem ir de morte natural”. Mas a história pode não oferecer grande consolo, e é natural que alguns poetas, tentando libertar-se da obrigação de completar as frases de discursos já mortos, sintam necessidade de se libertar, muitas vezes buscando sustento no mito. Contudo, nunca se vêem inteiramente livres dela. “A História é o pesadelo do qual tenho tentado acordar”, escreveu Joyce, que preferiu dedicar sete anos da sua vida a uma existência apagada, dando aulas, enquanto escrevia a sua obra-prima, que se obstinava em ignorar o terrível momento histórico, imortalizando o fôlego de gerações na recriação de um único dia em Dublin, aquela quinta-feira de 16 de junho de 1904. E porquê este virar de costas ao mundo para concentrar a música da existência numa só página do calendário? Porque, de algum modo, aquilo que pressentiram os grandes escritores do século XX, como nos diz Derek Walcott, foi que o método pelo qual o passado nos foi ensinado, alinhando motivos e consequências, não é diferente dos hábitos que trazemos da leitura de narrativas de ficção. Para se libertarem da História, cujo sentido actua cruamente ao nível dos nervos, nos poetas, era romper com essa tradição lutuosa. “Com o tempo, cada evento fica dependente de um exercício de memória e está, por isso, sujeito à invenção”, diz-nos o poeta antilhano. E acrescenta: “Quanto mais são os factos, mais a história se pretifica em mitos. E, assim, à medida que envelhecemos como raça, damo-nos conta de que a história é escrita, que é uma espécie de literatura sem moralidade”.

Egito Gonçalves, poeta cujo centenário se assinalou de forma bastante frouxa em abril passado, e que surpreendeu mais pela falta de notícias de quaisquer iniciativas com vista a lembrar uma das figuras centrais na intervenção cultural na vida portuguesa na segunda metade do século XX, e, possivelmente uma figura sem par no que toca à dinamização dos meios literários no Porto, foi um desses poetas assombrados não apenas pela história, mas pela forma como esta lança a sua sombra desoladora sobre o presente. E isto num poeta que, como nos diz Maria Alzira Seixo, “foca, desde o início, a incomunicabilidade devida ao ambiente social de então, tacanho e repressivo (o país encarado como ‘ilha’, a atmosfera como ‘neblina’, o indivíduo como ‘decepado’)”. Num poema recolhido em “Os Arquivos do Silêncio” (1959-1961) dá-nos conta desse desânimo logo no arranque: “Os campos dão pedras, as vinhas estiolam,/ as aldeias dão párias emigrando em porões. (...) As cidades dão fumo, queimam a amizade,/ esmagam a consciência, distribuem o crepúsculo./ Um pequeno descuido, nova fuga de tempo, o espelho transforma-te em velhice – perderás a vida,/ pálido encolhido, no fundo das caves.” Logo depois vem um apontamento em que o poeta parece situar-se face à história, reconhecendo a fragilidade da sua condição, as suas fracas hipóteses: “É mais tarde do que pensas!/ É difícil agora deste fruto ácido/ conseguir raízes, flores e perfume.” E contudo, há um sobressalto que parece nascido do próprio desespero, como uma inquietação própria de um fundo de poço, quando se é cercado dos próprios ecos, e estes ameaçam fazer da lucidez um desastre, uma receita para a loucura. E assim, os versos reagem, como um reflexo inesperado e vibrante, um brilho que se desata no escuro, nas tensões entre aquilo que, embora não encontre saída, nem saiba como libertar-se, encontra força nessa forma de se ligar aos outros, alugar-se por umas horas, como diz a epígrafe de Gabriel Celaya: “e rio e choro com todos; mas escreveria um poema perfeito/ se não fosse indecente fazê-los nestes tempos”.

Também em Egito Gonçalves sentimos que os seus versos políticos surgem num desvio à última do seu assumido temperamento lírico, traições exigidas pelo tempo, em face do momento histórico que o cerca e sacode, pois não há compromisso amoroso que sobreviva num homem que se deixa alhear do sofrimento e das servidões impostas a quem o cerca. “Ao fim e ao cabo”, escreve D.H. Lawrence, “podemos ouvir as histórias mais íntimas dos outros,/ mas só com o espírito imbuído de respeito,/ de delicada e arguta simpatia/ para com essa coisa que luta e sofre:/ uma alma humana./ Porque até mesmo a sátira é uma forma de simpatia.” E num tempo em que o inimigo não é qualquer ameaça externa ou distante, qualquer razão ou força a que se tem a dignidade de poder declarar guerra, mas é antes algo que nos cerca e oprime, espiando “esta calma fictícia em que vives”, que tem poder sobre nós (“migalha-te o futuro, cobiça-te os joelhos,/ oferece longas jornas de fome, salários/ feitos de medo e asco”), o poeta vê-se obrigado a exigir mais dos sentidos, do vínculo dos pés à terra, que acabará por engolir-lhe os ossos, e grita: “O teu reino é deste mundo!” E recorda a lição que recebeu de outros: “Não deixes para amanhã o grito necessário,/ o enforcamento sumário do agente opressor,/ o tributo para a máquina de alargar horizontes...”

Fica a sensação ao ler tantos dos poemas políticos de Egito Gonçalves, que o seu lirismo, a sua propensão dia-a-dia amante, ficou muitas vezes capturada, cerceada pelas circunstâncias, pum certo pudor de buscar o tal poema perfeito, tomando-o como qualquer coisa de indecente, ou pulha, como diria mais tarde Fernando Assis Pacheco. Mas também não se ficou como outros, pela “secreção/ de hinos, marchas, isca/ para as massas”, esse programa que Hans Magnus Enzensberger caustica, adiantando que “em caso grave basta/ interioridade, trágica, ser incompreendido/ nas mansardas. Enquadrado na segunda vaga do neo-realismo, Egito Gonçalves, como nota José Manuel Teixeira da Silva, “não se conforma com rótulos e escolas, distante que está de práticas poéticas ingénuas ou apenas voluntaristas”. No fundo, e deslocando-se entre exercícios sensíveis, ora aproveitando um “realismo cru e de um humor ácido”, ora aproveitando-se ainda das lições do seu encantamento contemplativo, do espaço de reserva íntima que tinha para ser fiel a uma dedicação à amizade e ao amor, provando os seus dons ao vertebrar os poemas, mesmo os mais devastados, de impressões fortíssimas e até exuberantes, formulando “sínteses coerentes, densas e claras”, provando uma capacidade invulgar para servir versos “impressivamente lapidares” (Maria Alzira Seixo) com “uma  concentração imagística de uma elegância e sobriedade exemplares” (António Ramos Rosa), no fim, o que diferencia este poeta está nesse compromisso que assume de “ir com o seu tempo – não apenas simular cobardia” (Enzensberger).

“Assassinado pelo céu”, talvez seja justo reconhecer a este poeta um lugar de destaque entre aquilo que soube empenhar-se na luta anti-fascista, adquirindo um fulgor mais perene, pelas tantas acções que interpôs, pelo trabalho que deu lá nas repartições de cima, ainda que estivesse a falar de nimiedades, dessas coisas que tendem a ser desvalorizadas com o passar do tempo, como o pão esforçado de quem come o que amassa, as dores de tantos atravessados pelo sopro do inimigo sobre os campos e as fábricas, esse que traz consigo uma paralisia. Fala-nos de “árvore em aço de frutos indigestos”, descreve perfeitamente esse estado dos “vegetantes”: “Vidrado limo o rosto/ de rugas sem memória/ assistem à vida como um filme:/ disparar sobre a tela é proibido/ e além do mais inútil.// Curvam ao solo os ombros/ escorjados; curvam-nos para/ duradoiras urtigas, seixos/ sem horizonte, epitáfios/ de lama, dezembros, poeira fria.” É traçado não só um retrato mas uma crónica de um tempo que amarra “ao país do cansaço que entre dentes/ ressaca” tantos homens vinculados a ele por uma vergonha mortífera, esse sentimento que pode ser tão mais forte que o amor, e que nos enraíza à terra e amaldiçoa, até pela forma como rebaixa tudo aqui que tenta escapar-lhe: “E fazem do amor essa triste humidade,/ um delíquio formal logo amortalhado.”

Já citámos o ensaio de José Manuel Teixeira da Silva, o qual integra o sétimo número da “Gazeta Literária”, dedicado a Egito Gonçlaves, e que é, até ver, a única iniciativa de relevo feita ao poeta no seu centenário, uma publicação da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, cuja direcção teve em Egito o seu primeiro presidente, e este número, que homenageia também Nuno Rocha Morais (1973-2008), conta não só com poemas dedicados por amigos, um conjunto de ensaios e uma entrevista que Francisco Duarte Mangas, actual director da revista, lhe fez em 1993, e que surge agora ampliada em relação à versão publicada nas páginas do “Diário de Notícias”. Este é um documento bastante curioso, nem tanto pelo desenvolvimento ou profundida das respostas, mas sobretudo por algumas alusões, e particularmente pelo relato do episódio que levou à escrita de “Afogado no Rio Leça”, poema tocado pelo tom surrealista, e que tem como destinatário Mário Cesariny, a quem Egito salvou a vida. Este lembra como o autor de Pena Capital ficava puto sempre que vinha à baila esse percalço que poderia ter-lhe sido fatal. “Como foi esse mergulho no Leça?”, pergunta o entrevistador, e Egito não se faz rogado, e conta o incidente que se deu no início dos anos 50. “Encontrei o Cesariny no Porto  convidei-o a ir comigo a Matosinhos. Estava um dia de calor insuportável, embora fosse princípios de abril. Já lá, disse-lhe: ‘E se fôssemos tomar um banho.’ Despi-me e atirei-me à água, mas dei quatro ou cinco braçadas e saí logo – a água estava um gelo. (...) Fui para junto da roupa, numa zona de onde não se via o leito do rio. O Cesariny entrou depois, e já não sei porquê fui chamá-lo. Quando cheguei à margem, não o vi. Achei que estava a brincar. Não estava. Hesitei por um bocado, antes de me lançar de novo a água e acabar arrastando o corpo dele para terra. Uns pescadores vieram a correr. Viraram o Cesariny de cabeça para baixo e começaram a dar-lhe murros nos pés (...) Depois de uns murros, entredentes, ele lá disse: ‘Já chega!’” Egito adianta que foi levado de ambulância para o hospital, e quando o entrevistador lhe pergunta se Cesariny lhe ficou agradecido por lhe ter salvo a vida, nota que este teve uma estranha reacção ao incidente: “É um gajo esquisito. Uns anos depois, escrevi-lhe a pedir autorização para publicar um texto dele. Respondeu a dizer que não (ele diz sempre que não), e a carta tinha um post scriptum, este: “olha que eu não me quis suicidar.”

Entre as colaborações para este dossier, merecem destaque os ensaios, e, em particular, além do de Teixeira da Silva, os de Rosa Alice Branco, companheira do poeta nos últimos anos, e o de Domingos Lobo, isto porque nos ajudam não só a redescobrir este autor hoje ameaçado pelo esquecimento, e que, a não ser assim, pode resvalar para uma dessas frias poses de estátua, adornando alguma praça ou jardim. E a respeito desse risco de se ver abatido pela “maria gloriazinha” que a pátria tem para oferecer e domesticar os seus poetas, ele mesmo se mostrou consciente, lembrando-se de um “que levava o signo das águas,/ a chave do horizonte” e que acabou estátua, mas assim “engoliu os dentes:/ E nada lhe encontraram. O murmúrio// perdera ali seus invisíveis fios,/ resistia à traição a que o chamavam.” E o poeta adianta nos versos finais desse “Episódio Mito-Lógico”: “Contaram-me isso. E que ele cumpria/ seu destino de sílex nas trevas.// Pois era vivo. Um fogo de silêncio,/ uma porta de febre para lá dos cemitérios.”

Assim, o exemplo deste poeta que exige ser recordado não como estátua mas pela estatura dos seus feitos, do imenso contributo cultural e cívico que pautou sempre a sua obra, que levanta o pó como uma marcha, num murmúrio de muitos, e que cobre o próprio silêncio com o fogo e o grito de outros, é importante neste tempo em que o país se acha uma vez mais a arrastar-se, em que “os pulmões/ como peixes na pedra asfixiam”, em que “os cartazes anunciam nas paredes/ uma economia aquosa”, e em que os sonhos “pétreos vão servindo/ de cimento para túmulos”, e em que os melhores exemplos do passado nos são servidos em “epitáfios de lama”, é essencial fazer valer este centenário, que começa por assinalar a importância do percurso de Egito Gonçalves. E, para isso, recorremos ao testemunho de Óscar Lopes, que, no prefácio a “Os Arquivos do Silêncio”, nos dá a ficha biográfica do poeta, seu conterrâneo, e um amigo muito próximo. O ensaísta sublinha o quanto as origens e os trabalhos a que se deu o poeta se mostrarão relevantes na desenho da sua obra poética, e começa por dizer-nos que José Egito de Oliveira Gonçalves é originário de uma família camponesa transmontana da raia, tendo nascido em Matosinhos, a 8 de abril de 1922. Frequentou um curso de electricista numa Escola Técnica “onde não aprendeu nada”, mas que o fez, ao tempo da guerra, encontrar-se como primeiro cabo radiotelegrafista entre os militares expedicionários nos Açores, o que explica certas vivências da guerra que transparecem na sua poesia, acompanhando à distâncias as movimentações de navios torpedeiros, e Lopes fala nas “tensões de mobilizado em iminência de luta, espectáculo de combate, bombardeamentos no mar, destruições materiais e humanas”. Após a desmobilização, virou-se pelos seus meios, uma vez que, sem ter grandes estudos e não vindo de um meio privilegiado que o pudesse pôr no caminho dessas posições invejáveis, dependeu da sua capacidade pessoal de se orientar e ir à luta para reconhecer o terreno, tão parco em oportunidades, e assumir vantagem. Assim, erguia-se da cama e bateu todas as esquinas, esteve em muitas filas, e partilhou o desespero de tantos, foi ele mesmo um ror de gente, experimentou diversos ofícios e empregos, desde apontador de cais, empregado de balcão, pracista, dactilógrafo, caixeiro viajante, gerente de café e funcionário de escritório, isto até se livrar desse regime de cansaços, conquistando a independência com transacções de imóveis, o que lhe permitiu, então, dedicar boa parte do seu tempo ao envolvimento na vida cultural, com um papel decisivo numa série de organizações, sendo uma dessas figuras ímpares e dinâmicas, que ao longo de décadas marcou à acção resistente, e tantas vezes abandonada a si, e esquecida, que marcou uma razão do espírito na cidade do Porto. Como chama a atenção José António Gomes, num texto assinado no jornal “O Militante”, em 1958, fazendo um balanço desse período marcado pela deriva e a incerteza, pela penúria que sentiu na pele e espiou nos outros, Egito escreve no seu “Diário Obsessivo” (que, após uma edição fora do mercado, integraria o já mencionado “Os Arquivos do Silêncio”): “Um gosto acre a alho é o que me fica de certas manhãs de que atinjo o meridiano sem paisagem, debruçado à varanda dos números cansando os olhos na aridez do equilíbrio ‘deve-haver’ onde não há arado nem suor que engendre uma espiga luminosa.”

Óscar Lopes, com quem colaborou e conviveu assiduamente na Delegação do Norte da Sociedade Portuguesa de Escritores, isto uns bons anos antes da sua destruição pela PIDE, em 1965, ajuda-nos a deitar um contorno à incessante função de Egito enquanto dinamizador de projectos de cultura nas décadas de 50 e 60, que passou muito pela divulgação dos seus pares, e no empenho crítico bem como enquanto tradutor de poetas das mais diversas geografias, tendo dirigido ou colaborado numa série de publicações, como “A Serpente”, “Árvore”, “Notícias do Bloqueio” (revista que co-dirigiu e cujo nome vem do título do mais celebrado dos seus poemas), e da 2.ª série de “Bandarra”. Foi ainda membro de órgãos orientadores do Cine-Clube do Porto e um dos dois correspondentes em Portugal do Centre International d’Études Poétiques. Viria a pertencer também à direcção do Teatro Experimental do Porto, que ajudou a fundar, mas a expressão mais significativa da sua trajectórica cívica é nesse paralelo que traça com a sua própria criação literária, assumindo-se sabiamente como um poeta “intermitente, de longos silêncios”, isto para não ceder a esse ritualismo gagá, às desagradáveis repetições, como frisa Franscisco Duarte Mangas, director da “Gazeta Literária” da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, tendo sido o primeiro a presidir à direcção desta. Assim, para não resvalar para a inanidade de querer ter facturas para comprovar um lucro diário, desdobrou-se como editor, tradutor, organizador de antologias. Depois da revista “Limiar”, já nos anos 90, funda um selo com o mesmo nome, e exclusivamente dedicado à poesia, tendo publicado não só autores já estabelecidos (Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Fiama, Gastão Cruz, Armando da Silva Carvalho ou Luís Miguel Nava) como jovens (Carlos Poças Falcão, por exemplo), e além de originais, algumas antologias fundamentais de estrangeiros, como César Vallejo ou Yannis Ritsos. 

Voltando à obra poética de Egito, e à razão porque esta voz assume uma exemplaridade e um poder de evocação que nos restitui a um período de trevas recente, sem cair numa mera narrativa ficcional, mas produzindo a vertigem própria daqueles que estiveram sujeitos aos abusos e ao regime amesquinhante salazarista, uma das apreciações críticas mais ajustadas que foram feitas sobre esta poesia veio de Ramos Rosa, que notou que “a novidade deste lirismo residirá, porventura, na combinação harmoniosa dos sentimentos amorosos com a consciência social, na perfeita integração daqueles numa atmosfera de combate e lúcida vigília e, consequentemente, na unidade de tom e persistência de uma elegância enunciativa que jamais se quebra.”

E, neste ponto, é importante lembrar que muitas vezes a melhor poesia, como nos diz Walcott, parece uma homenagem à resignação, uma forma essencial de fatalismo. Mas o autor de “Omeros” esclarece que não é a pressão do passado aquilo que atormenta os grandes poetas e sim o peso do presente. Ora, entre nós, talvez nenhum outro poeta tenha visto a sua vocação tão enredada por esse peso, até mesmo esmagada por ele, de tal modo que, ao encerrar essa reunião decisiva dos versos escritos entre o final da década de 50 e o início da de 60 – “Os Arquivos do Silêncio” (1963, Portugália Editora) –,  o poeta serve-se de uma “Pedra de Fecho” em que deixa claro o sentido do que ficou para trás como daquilo que dele, mesmo adiante, se poderia esperar: “Sobre o presente escrevo. Raspo/ a caliça do invólucro, tento/ atingir o cerno emparedado.// Sobe até mim a esperança de supor/ que serei ininteligível/ ao leitores do futuro.// Penso que acreditarão mórbida/ a minha ‘fantasia’. Não poderão/ entender este gosto de saliva/ e veneno; esta floração/ de artérias abertas sobre a raiva.// Pensarão: ‘Que pavores o povoavam?/ Como acreditar na falta de saúde/ do tempo que descreve? Aceitaremos/ este emissário da dor, este vazio/ febril das mãos que estende?’// Entre o papel e a luz escrevo/ das moedas do agora. Pressagio/ que não entenderão, que não serão/ raros braços a arder os clarões na noite.” 
Assim, este poema que não será tão memorável quanto outros, tão fulgurante e emblemático quanto “Notícias do Bloqueio”, talvez, até hoje, o poema mais isoladamente traduzido lá fora, sobrevivendo a barreiras alfandegárias, hasteado entre aqueles que nas diversas repúblicas do silêncio se vão organizando, e compensando a escassez de víveres com a abundância da raiva. Mas o que este poema tem é essa discreta assinatura de um poeta que, humildemente, afirma uma generosidade tremenda, a desse poeta que a clareza da percepção mais humana, o espírito imbuído de respeito, de delicada e arguta simpatia, e que vai ao ponto de imaginar o mundo já livre do tempo que foi o seu foi, de um regime de servidão e desespero que, entretanto, começa até a soar aos vindouros como uma fantasia mórbida. Esses que se dão ao luxo de esquecer, tomam o poeta como um vulto descabido, marchando longe de espingarda às costas, e não percebem o cuidado e o risco de quem sente os pés avançar através dos desastres. Esta inteligência de ser capaz de se ler a si mesmo, os próprios versos, como um testemunho póstumo, é isto o que nos faz sentir a enorme diferença, essa “ferida amável” desses poetas capazes de construir o mundo nos cafés, entre as prisões e os intervalos: “todos têm um sonho, todos/ se esforçam por valer o pão que amassam/ – lançam seu delicado peso na balança”. Estes poetas que quase não deixaram descendentes, que arriscam até o esquecimento, e que, muitas vezes, com uma poesia menos perfeita, com “simples alusões como rápidas moscas”, conseguiam ser realmente admiráveis, procurando salvar mais que a história essa devastação que torna impossível o amor, e que faz com que os amantes, impedidos de trocarem “beijos longos”, estejam dedicados a esses duras e lentas conquistas, que chegam a parecer, aos deste tempo, míseras vitórias, indignas do esforço: “conquistaremos cinco ruas, um leito de hospital,/ uma aldeia sem nome, um lençol mortuário;/ conquistaremos um nome no granito.” E isso que parece pouco, por vezes, é tudo. Talvez seja a única coisa que impede alguns de não serem já capazes de despertar do pesadelo da História.

sábado, setembro 19, 2020


No fundo de água balbuceio, afino a voz
num pranto com rouxinol alucinado
com um arpão na dextra 
enquanto a mão mais fraca prende
à fibra do papel o mais animal dos versos,
sombra arrancada à parede,
as moscas do inverno gelam de tão quietas
e porque é mais tarde
nas paredes do meu quarto,
e sabem já o que me sucederá
a desonra, depois outros leões
piores do que eu e fomes tempestades
deambular sem rumo, ouvir mudarem as vozes
ouvir falar do cansaço como de uma lenda
algum relâmpago a medir o esforço, o riso
o gozo imenso a atirar-se para o cume,
baleia ou nuvem rápida,
golpe de ânimo absurdo na carne do que se conhece,
a dor desarrumando tudo enquanto te buscas
revistando os cafés e os cemitérios e as igrejas
e nem a metade é real, bah,
estou mais que cheio dessa zurrapa,
não quebrarei outro copo
para libertar a vida que nele se esquece
aladamente desço bebo do poço,
raspo do fundo restos de uma vaga ficção
mas desce aqui, dobra-te raios, vê isto
esmaga o percevejo, toma nota
deste cheiro miserável e tão largo, é o universo 
que se expande, como o beijo
que de nós fez afogados, como entre soluços
nos vimos pelos mares em uivos
como navios naufragados, isso tudo
tão mal ecoa agora na rua deserta que olho
e quem fui comove-me muito pouco
a noite dá-me a volta, aparece-me o seu velho astro
do outro lado, mordo-o como a um fruto
e atiro-o fora,
sinto-o na dor de dentes, a sua pele
a envolver-me o sangue frio
oiço-me pelos telhados repetir
a vida ou outra troca, forma fixa que me dá
só por um bocado e logo passa
de toda a admiração que senti
guardo só remorsos
passageiro, de raça nebulosa
tomo-me nos braços, finjo que choro
e a morte canta devagar, depois
engole-te em seco

quarta-feira, setembro 09, 2020


Quis ouvir por fim o quebrar
das coisas que estavam já perdidas
saber de outros aquilo que fez
como a beleza deu cabo de nós
tantas vezes só de se insinuar
os anos derivam ébrios mal deixam
o que recordar, sei só das juras
que fez, e traiu, que decorou versos,
despiu-se, chamou da cozinha
como se inventasse a tarde
e desde o início algum jardim
estreito, esquivo, no gesto suave
de servir o chá, e agora que queres
se me oiço, alto, torres caindo
monge insano de roda de um sino
pareço tombado no seu interior
flor de tinta derramada
desbravando novos tons de negro
o escuro e aquilo que sabe
um corpo imprimindo a sua letra
preso na cela dos seus contornos
tal como um pássaro se debate
ainda e muito depois de morto
a afundar-se em si mesmo
enquanto formigas devoram o céu
a sombra se separa da terra
e aquela boca não tem já
outro sentido que possa beijar
só um dedo persiste esquecido 
nota ferida de um órgão de igreja
contando alto os passos, e vejo
como o caminho vem, se deixa tomar
num cerco que os bichos cantam
a noite volta, vagueia aquerôntica
num vigor de envelhecida praga
e num rumor se ergue o pó soprado 
de um soneto, o que a carne diria
ao mármore se pudesse fazer vasos
com o tempo, mas não ficam senão
palavras sem peso, vagas, frias
como uma luz estúpida e baça
formando essa cobra, com a pele
misturada ao próprio rastro
sons de fundo, o coração arrastado
desmanchando-se contra as pedras.

segunda-feira, setembro 07, 2020

 

Quis que o seu nome soasse como uma ameaça, proferido sempre um pouco mais baixo do que as palavras ditas antes ou depois, não só entredentes, mas com receio de os perder, receio de atrair algo de funesto, ao invés de uma obra imensa e elaborada, preferia que o que quer que lhe sobrevivesse fosse lido aos bocados, duvidando da própria língua, da capacidade de a ler usada desse jeito, como um pedaço de carne que resiste a ser engolido, dando a impressão de que poderá sufocar-nos no caso de nos distrairmos, uma obra que fosse lida mais como uma maldita inquirição, traiçoeira, exigindo toda a frieza para lhe escondermos as nossas suspeitas, cuidando, ao mesmo tempo, para não nos deixarmos levar pela paranóia, pela ideia de que está a dirigir-se especificamente a nós neste e naquele ponto, uma obra que forçasse quem a lesse a interromper-se para ir lá fora, imitando os gestos de um desses prodigiosos fumadores para garantir-se do mundo, como esses que se apalpam, se beliscam, agora assustados com a hipótese de encontrar algo a mais, uma coisa que não devia ali estar, ou voltar atrás para fechar a luz e dar por si no quarto, sentado, com o livro nas mãos, um ar de alguém a meio de uma queda, preso à invocação de alguma praga, frases sem grande sentido, mas cheias de tumulto, ofensas que ficam connosco por nos revirarem de forma inexplicável, como quem nos cortasse o sexto dedo da mão esquerda, e ainda que não deixasse rasto, nem sangue nem dor propriamente, mas a sombra de uma anel desenhada em qualquer superfície que te tivesse debruçado, uma escrita vinda do outro lado, da vida ou da rua, a de uma mente afastando-se de toda a civilidade, algo como sentir o peso da terra sobre um corpo que se amou, ser sovado por premonições, dores que nos dobram num instante e que, depois, nunca mais se repetem, sentir a visão turvar-se, virarmo-nos para um qualquer poeta obscuro que registou frases que pareciam antes demasiado frias e agora nos revelam a sua secreta anatomia, e delas, como de um fruto, mais do que algum significado, desprendem-se insectos, ínfimos, e um perfume varia e faz-nos enlouquecer se tentamos descrever o que contém, os seus saltos, só a cama nos parece bem, mas depois de apagada a luz que outras coisas se irão urdir no escuro, sugestões bizarras, sons que da linguagem deixam pingar no mundo físico qualquer coisa mais, socorremo-nos do candeeiro antes que um vulto se nos chegue, puxando algum texto biográfico, a vida de alguma condessa, cartas trocadas em tom aflitivo entre figuras que se servem uma da outra, se ignoram num embevecimento patético por si mesmas, atropelando-se e interpelando a posteridade, e termos o desejo de chamar o criado, "sair outra vez a cavalo, imponente como um cruzado para ir à caça da raposa", raios, já nem o tédio faz o menor sentido, os estados melancólicos surgem-nos datados, os nossos sentimentos, se os tentamos traduzir, surgem tocados por uma insuportável afectação romanesca, própria de ficções de oitocentos, e, assim, não podemos deixar de olhar em volta, com a sensação de ter esse impiedoso leitor a sussurrar-nos ao ouvido, a fazer-nos ver o intragáveis que são, infligidas no papel, as vidas que fingimos resgatar, e como na verdade não desejamos senão enterrá-las mais fundo, esse corpo amado que tão mal cheira que nos faz estremecer até no sono, a ponto de as frases serem cada vez mais curtas e insistentes, como comprimidos que tomamos para dormir ou, se isso falhar, para morrer.

 

segunda-feira, agosto 31, 2020


A noite tem os seus escriturários dispersos estrategicamente ainda que o não saibam, corpos que de tão frequentes deixam de ser vistos, mesas a um canto, acumulando garrafas negras, e, como de um barro mais escuro, são feitos dessa carne que serve de pouco mais do que de aviso, ela tem-los onde quer, cobrando-lhes a dose miserável de talento que os mantém presos, afinando eternamente a sua teia, para que lhe descrevam no menor número de frases possíveis a derrota, desde que se levanta até que se deita, sei-o porque em tempos fiz esse turno, nos anos em que estudava, e mais alguns depois, e que sombras passava uma mão à outra, do juízo à boca, a caneta como se degolada, esvaindo-se, e se me distrair volto ao mesmo, apago, dou por mim como eles, nessa relação degradante que se toma, com um orgulho grotesco, pela face mais crua do real, ainda posso ouvir o realejo a tocar, e tenho de me controlar, as frases parecem pacientes enervados entre sessões de choques, por mais que espumem, ainda que encarem o demónio, lhe ofereçam o que lhes resta, é tarde, passeia nestes sítios, o cabrão, delicia-se, e nem é o desespero que lhe dá gozo, é essa fúria de que se sufoca, o olhar absurdo às voltas antes de se tornar claro que não há saída, um sobressalto em carne viva, lavo a roupa eu mesmo, passo-a ferro uma e outra vez, até em sonhos o faço, lavo-me insistentemente e enfio-me nela, tudo se me oferece como paisagem, a cidade ri-se do modo como vou numa agitação estranha até para mim, há alturas em que um gajo deixa de acreditar na sua própria vida, nas circunstâncias, naquilo que lhe fizeram, e se o nosso desastre nunca nos impressiona tanto como aos outros, são eles que esperam ver-nos ultrapassar a coisa, e garantem, de cada vez que nos vêem, que parecemos muito melhor, e então uma mulher vem à cabeça, e, no esforço de te livrares dela, vê-se seguida pela voz acanalhada do único amigo que não se conforma, começa tudo dizendo-te a porra que é, como é pior do que se imagina, diz-me coisas terríveis e faz-te rir, gosta de repetir que uma mulher é como uma meloa cantalupe, e já nem precisa de concluir, de adiantar que logo que se abre, apodrece, e está coberto de razão, sobretudo quando te diz que o pior é as histórias que se contam, como estão todos cobertos de razão, e que somos nós que ficamos com as noites na pele, como a cicatriz cada vez mais funda de um duelo, uma coisa da qual vimos a descobrir só muito mais tarde que foi um golpe ao qual, ao contrário do que nos diziam os outros, não sobrevivemos.


terça-feira, agosto 25, 2020

língua morta 106


BARTLEBYANA,
de Mariano Alejandro Ribeiro

[250 exemplares, 106 pp., 9€]
 

sábado, agosto 22, 2020


Com García Lorca

Entre cães apagados,
nesse murmúrio que se cobriu de ervas
onde o campo morde o próprio rabo,
temo-nos visto, cruzado em diferentes papéis
fingindo que somos mais, correndo
pelo mundo dos mortos e dos jornais abandonados,
honrando homens cujo esqueleto lhes soou
e o cantaram, aquele ali, mais fino, galante,
apontava tudo o que o sul nos dissera
este que eu faço perdia logo as estribeiras
procurador-geral das antigas mesas de café
ela, mais velha, cansada, sabia muito e sorria
caímos juntos pelas escadas
de tanto nos amaldiçoarem,
mas que importa se vimos os telhados
que a lua levantou,
a velocidade das últimas bicicletas
dá-me saudades a morte que foi daqui faz muito,
de tão poucos, lancinante,
tinteiro entornado, negros corpos minúsculos
trepando em haste, e os instintos,
as formas, leves, como mariposas dissecadas
tudo o que pecou por excesso de luz.
Mas e agora? Experimenta, pergunta-lhes:
a que sabe o sangue se não perdeu o gosto
indaga, erguendo um pouco a cabeça escura
que guerra me trazes
que tempo ainda nos olha dentro?
"Amante da música de loiros cabelos",
como outros, vejo agora que ao desejo
restou para contentar-se o corpo do fim,
não há noite aqui que nos chegue
e só o que se esquece num copo talvez
ainda germine obscuramente,
o fruto abrindo-se na memória,
rasgado com os dentes
deixando cair as sementes, e então a brisa
entontecida contra este "esqueleto de tabaco"
empurra-as, mistura-se terra e água
e dentro voz e força, ela
com feridas nas mãos, anotou a receita,
sabia quanto do quê, de ventos, canto, mirra,
os ingredientes com que ressuscitar
um dia a raça das abelhas,
quando soubermos para onde iremos.


segunda-feira, agosto 17, 2020

língua morta 105



O MEU LIVRO DE CABECEIRA É UM REVÓLVER,
Dezassete Suicidas
(Poetas de Língua Espanhola)
Selecção e tradução de Jorge Melícias

capa a partir de pintura de Vincent Van Gogh

[300 exemplares, 166 pp., 11€]


quinta-feira, agosto 13, 2020

Vai longe a idade dos franco-atiradores.

 

Não havendo cuidado, os nossos melhores papéis, os que custaram a um homem não uma só mas sete vidas, nove, quantas encarnações?, essas asas de hipóteses todas feitas em pó, essas saídas que não se toma, que acabam bloqueadas por se ter dito o que a paixão exigia, por se ter feito da mão, pela escrita, um desses lobos de sombras projectadas na parede, ter provocado o susto, com gatafunhos desses que se abatem sobre o mundo num desvio à última da loucura, raspados, aflitos, respondendo a uma causa capaz de revivificar esses corpos minúsculos e negros, porque, como já alguém disse, o fim dos tempos é cada minuto de cada dia, porque é preciso exaltar quem nasce e arrasta esta consciência, e se cansa de ver como o que não falta é quem finja que as palavras não têm importância, como se não fossem os homens quem mais cedo perde a realidade, estrafegada pelo discurso das hipócritas conveniências, por tudo isso, é importante cuidar que não ficam perdidas, enodoadas nas mãos dos que julgam que andar nisto é montar peditórios, fazer a fita das altas patentes, exigir benefícios por "grandes sacríficios" em nome da pátria, e a literatura (a desgraçada) surge já não como recreio, mas como emporém, um filho maluco e que se baba, diz os maiores horrores quando se apanha com as tias frente ao serviço de chá, nem tem já qualquer préstimo como carreira de tiro, traseiras sombrias onde ajustar contas com as bestas luminosas, e, para que cartas como esta não fiquem penduradas na parede dos burocratas da coacção cultural, emolduradas como diplomas, a fingir que as assinam por baixo, é preciso garantir que não se suprime a licença a quem mais queira "investir contra os cornos duma série de touros mansos e partir alguma louça". O que não falta em qualquer tempo são zeladores para virem dizer que a porrada que se dá hoje não vale, e inventar muitas regras, demarcar coitos, assinalar faltas, garantir que o golpe foi abaixo da cintura, fez dói-dói, ou virem com a cantiguinha dos ataques "ad hominem" (adoram mascar estas banalidades em latim, supondo que isso lhes confere um selo inquebrável), e, em desespero, ainda nos borrifam com água benta, ficando desesperados porque nem assim, nem com alho, nem com invocações presunçosas... Estão à espera que deus se materialize apenas porque julgam ter encontrado o diabo. Pobres coitados, trancados nas suas igrejas erigidas do pé para a mão, e ficam lá dentro com os seus penicos quase a transbordar, e antes de vir o sol não saem nem para fazer chichi, com um pavor ridículo de serem engolidos pela noite.

Ex.mo e Il.mo Senhor:
Vitor Silva Tavares
Rua da Emenda, 30, subterrâneo 3
1200 LISBOA

Não lhe dou, caro Vitor, nenhuma novidade: sem V., eu nunca teria chegado a escrever uma única linha na Imprensa portuguesa. Foi por V. ser coordenador do Suplemento Literário do D. L. e do & etc que eu, nos já remotos anos 70, pude, embora sob censura dos coronéis, investir contra os cornos duma série de touros mansos e partir alguma louça. Bons tempos!...
Também não lhe dou novidade nenhuma se disser que, tendo de voltar atrás e sabendo o que hoje sei, faria certamente as coisas que então fiz, pela boa razão de que escrever e escrever assim é uma das poucas coisas que sei fazer...
Sei que a primeira atitude das pessoas foi, na altura, considerarem-me um provocador e julgarem que eu nada mais queria do que dar nas vistas. Sabe V. que eu tinha motivos de sobra para não dar nas vistas e razões para não provocar. Mas tinha também uma vontade ingénua de escrever e uma indomável necessidade física de o fazer polemicamente.
Vontade idêntica foi a que encontrei no autor dos textos que lhe venho propor para publicação. É um rapazinho discreto, ingénuo, inseguro e muito trabalhador. Ninguém diria que pode acalentar a raiva demonstrada nos textos que fará a fineza de ler.
Importa dizer que a liberdade de expressão decretada com o 25 de Abril de 74 não lhe foi muito propícia. O seu (o nosso) & etc, por razões phinanceiras, acabou e, no meu caso concreto, como nos de outras pessoas, a possibilidade de escrever em liberdade total nunca mais nos surgiu. Também aqui não lhe dou novidade nenhuma: a censura não-oficial proliferou e é eficacíssima; os censurados de ontem são hoje óptimos censores e não lhes escapam as nossas artimanhas. As censuras internas funcionam drasticamente e as regras que espartilham os plumitivos não são menos severas hoje do que no tempo dos coronéis. Vai longe a idade dos franco-atiradores. A imprensa recusa sistematicamente, hoje como ontem, não só tudo o que cheire a doentio e a dissolvente (estou a citar Pessoa), mas até o que cheire a discutível. O ofensivo e o demolidor não passam. Recusa-se a Diferença, valor que, há-de concordar, sobeja nos escritos do neófito que lhe apresento. Os espalha-brasas são indesejáveis (exceptuando talvez os de direita que até já chegam a deputados e a ministros). Quanto mais mole e mais cadaveroso, hoje, melhor se vende!
O país dos brandos costumes tomou a iniciativa e reina Tony Silva, às vezes com o pseudónimo de... vide titulares das nossas colunas culturais.
Pergunte ao Augusto Abelaira, ao Vicente Jorge Silva, ao Diogo Pires Aurélio se os seus independentes jornais podem publicar alguma coisa que não esteja prevista nas invariáveis regras do bom-senso e do bom-gosto, da boa camaradagem política, literária, etc.... Não podem.
É um facto não termos assim muitos jornais fascistas; temos felizmente alguns pró-soviéticos e bastantes pró-europeus. Não nego que isso não seja um progresso relativamente ao 24 de Abril. Mas, se eu quiser atacar sem brandura os brandos costumes nacionais, tocar no intocável, romper com a normalidade, não tenho jornal que mo permita. A Igreja, por exemplo, nunca pode ser atacada; o Presidente da Republica, só de tantos em tantos meses, em ocasiões determinadas que eu nunca sei quando são, porque nunca são quando eu julgo que são.
E tudo isto em nome de quê? Essencialmente da falta de papel. Ante a falta de papel, toda a literatura se torna impossível e desnecessária. Desnecessária porque impossível e impossível porque desnecessária. Impossível porque falta o papel; desnecessária porque, se falta o papel, todos os outros problemas são ociosos e inoportunos.
Que jazer? O mais ajuizado, todos acharão, seria parar de escrever. A desgraça é que o autor destes «Segredos» não deixou. Pior: a dar crédito a certos inquéritos ultimamente vindos à luz, será mesmo o único escritor português que já não tem gavetas para guardar tanto original. Ora estas prosas que ora lhe envio são alguns dos muitos escritos que ele tem parido nos últimos meses. Enredo, estilo, personagens (esta Jacinta é irmã legítima da Alice carroliniana e da Eugénia de Mistival sadiana), tudo é do tal meu amigo que prefere guardar o anonimato. Eu limitei-me a traduzi-los em vernáculo (?) e a copiá-los à máquina, emendando um ou outro erro de sintaxe (?) e dando aqui e ali uns retoques que os tornem compreensíveis. As razões de os capítulos se denominarem garrafas serão explicitadas no devido tempo.
Brevemente, logo que a possibilidade e a necessidade da literatura se me imponham, enviarei umas coisas da minha lavra.
Seja benevolente.
Saúde, afinal, é que é preciso e é o que lhe deseja de todo o coração este que se assina
Manuel João Gomes.

(Manuel João Gomes, Os segredos da Jacinta, Lisboa, & etc, 1982: 3-5)

terça-feira, agosto 11, 2020

 

Chegado o Verão, e um que teve a grotesca audácia de ser tudo menos silly, nem por isso o "Público" mandou dar baixa no que toca à programação pataqueira, e, portanto, lá na redacção alguém logo foi acometido pela graça e se lembrou: e se fôssemos ouvir os seres da bruma, os brutos, os bruxos...aquele!, onde se meteu, como era o nome...?, o seminarista doidivanas, que mandou deus ao diabo e numa noite de selvajaria luxuriante comeu três freiras e, para pôr uma cereja no topo, ainda foi ao rabo de um abade. Sim, o que andou pelos corredores do poder, ganhou confianças, preparou venenos lentíssimos e os deixou como brincos às senhoras, para que os cuspissem no ouvido dos amantes, quando estes apagassem de êxtase, sim, já devem ter adivinhado, estou a falar do maldito versejador, o das pedrinhas nos bolsos, uma por cada cabeça, apregoando que enquanto houver morte há esperança, essa figura que aparecia sempre ao fundo, nos pesadelos, a meio dos comícios, apavorando os do poder com as suas profecias cruentas, esse ser que faz contorcer a nossa imaginação deixando os seus botins enlameados na graciosa sala de refeições mantida fechada à espera de uma visita do príncipe. Quando foi que ouvimos pela última vez o Pedro Mexia? Por favor, mandem a Isabel Lucas, ela que o cative com os seus dotes de sacerdotisa do nhónhónhó, e vamos lá saber o que nos diz esse que nunca aparece. Só assim, e com que voltas!, que ficções por omissão, este banalíssimo literateco, este gestor de enfados, com a sua caixa de botões, de peças sobresselentes para relógios de bolso, pode fazer a fita de um ser "incomodado", alguém que tem até do que se queixar, este reitor da universidadezinha da bienséance, um chato que não tira a sua pose de avô precoce, com as suas recomendações de vitaminas, põe um casaquinho, cuidado não apanhes um resfriado, só assim passa por uma voz que, além das missas semanais, ainda tem alento para vir dizer coisas à margem seja do que for, adiantar uma porra qualquer, sugerir uma maldição, um veneno que nos salve das curas gerais. Mas é isto. O país vicia-se nestes generalistas dengosos, nestas falas mansas, aceita fazer de bancada para estes rabos e bochechas arfando o pó de talco das suas opiniões, e no tédio lá vai comendo a papa, enquanto a sua imaginação social emparvece, e acha que não há saída, aguenta a cantilena e ainda honra os que seguram esse registo, a nossa música das esferas, esse silêncio corrompido das coisas que estão lá como uma peçonha e já nem damos conta, tomamos como naturais, como achar-se que um intelectual possa ser isto, um gajo que se ocupa há décadas de tudo para mascarar o seu nada, uma trança de bocejos, que intervém naquele sentido em que, se os lugares estiverem todos ocupados, ninguém poderá queixar-se de que o leite está azedo, a dobrada veio fria, com o seu zumbido dolorento, o destas moscas que vão dando conta do pensamento e não deixam que se lhe oiça nem as interjeições.


 

segunda-feira, agosto 10, 2020


Queres ver apenas o que me zango e quanto, ris,
quase imploras antes de me descobrires o flanco,
trespassando-o no jeito de quem esmaga flores
na fechadura para perfumar um quarto trancado
fingir que se dá voltas a uma chave
torturando quem lá está dentro com memórias
jardins há muito remotos, impossíveis
e isto porque queres saber que infernos puxo,
que velas armo, de que tempestades me sirvo,
se sou tão mau como dizem, bruxo, sem freio,
insano, cruel e tanto, obsceno, vulgaríssimo,
com que nomes e insultos calei os anjos,
lhes cozia os ovos, quebrando-os no joelho,
meu ser de tantas cabeças, bocarras, dentes mil,
e que venenos, mulheres absurdas de volta,
noites em cacos, tudo puxando as cordas
como se lhes fugisse o mundo, e prendessem
mais à frente já exausta essa criatura voluptuosa,
abalando e sacudindo uns restos da antiguidade,
caindo do céu o estuque, fundidas as lâmpadas
demorando até que visse o que fiz, e alto
gozando-me o escuro, esse cerco espantado
que em breve me faria prisioneiro e queres ainda
ver se me explico, me arrependo e que remorso
agora se afina se então como dantes tomei
notas com os ventos, lhes rasguei o ventre,
e revirando as entranhas me aconselhei,
mais alguma coisa se há-de ouvir ainda,
esperas: mais que soluços, volto-te o juízo,
meu ruído metido no que sentes, pragas
mínimas, longes ritmos miados, pingantes,
a mosca que te apalpe, tudo que se aproveite
e morda onde estejas doce, tudo o que de ti
possam cheirar, e se embebedem de olhar-te
personagens imundos, inofensivos afinal
mas de um horror insistente batendo palmas
para lengalengas imaginárias, em cerco
até que o corpo te enegreça e se te desfaça
nas mãos como migalhas de pão que lhes atires
para afastá-los por um momento, um alívio
enquanto te devoram, corvos, pegas que enfim
te levem os olhos, e isso que sintas então,
assim mo pediste, rindo alto um riso parecido
ao das muitas espécies tomando parte no festim,
em rixas brutais ou já desoladas pelos séculos
até que nem infimamente restem sinais de ti.

sábado, agosto 08, 2020

terça-feira, agosto 04, 2020

Merda formalíssima

 

Antes desta merda formalíssima que vigora no regime audiovisual, essa estética abotoadinha que tresanda a bafio, com uns jovens formados em cursos da treta, onde aprendem todo o lixo das gerais consciências mais caninas, antes disto tudo éramos mais livres, mais honrosamente pobres, sem esses disfarces, esses estúdios com o ar de naves, sem essas batas mediáticas dos que administram injecções de verdade, cheios do seu rigor e objectividade, essas mistificações que os idiotas adoram, éramos mais frágeis, mais angulosos, mais desamparados, mas tínhamos pelo menos a alegria de quem assume erros próprios, de quem arrisca a esparrela, o naufrágio em directo, capaz de falar em nome de si ao outro, como uma comunicação feita entre civilizações, com essa capacidade de se espantar imensamente, de apresentar-se, dizer ao que se vem e não cavar de imediato, não fazer que sim com a cabeça a tudo, ao que quer que seja, com esse ar dos enterrados, dos enforcados, como essas antas que presumem falar de coisas de cultura na televisão, poesia e o raio, e que nos lembram dos padres, dos piores professores de liceu que tivemos, essa gente desgraçada que finge ensinar-nos alguma coisa mas que não faz mais que estar ali insistentemente a regar as plantas raquíticas que medram no vazio, enquanto perdemos o mundo fora dessas salas de aula, dessa morgue espalhada por toda a parte.

 

segunda-feira, agosto 03, 2020

língua morta 104




DICIONÁRIO DE GARÇAS E DE MELROS
& OUTROS TEXTOS,
de Pablo Javier Pérez López,
com tradução de João Moita

capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[250 exemplares, 140 pp., 10€]



Os roubos são menores agora, as tentações tornam-se secretas, os crimes cada vez mais íntimos, mandamos vir de fora, não só a comida mas o sentido, textos cruzam-se, um mesmo ar respirado em diferentes épocas, rouxinóis mortos a oriente e trazidos em livros como flores secas, uma videira selvagem nasce das linhas impressas, nutre-se da atenção que se lhe dá com o livro aberto, respirando, caça como pode, deixa-lhes um olor a vinho espesso, que nasce já mancha, já fruto esborratado, pedindo-nos que fechemos os olhos, sustento-me como posso, um predador da orla do bosque cheirando debaixo da lua os restos da festa, aqueço o orgulho como uma lata de sopa, só me resta de contactos essas presas aturdidas, que se perdem, amuam e fingem abandonar o grupo à espera que as chamem de volta, mas encontram-me a mim, num primeiro exercício, mostro o que sei, meço-os com pássaros, sei os nomes selvagens, imito assobios e trilos de toda a espécie, pode cheirar-se um pesadelo de infância a léguas de distância, e com algumas perguntas indiscretas percebe-se como a coisa evoluiu, arrasto um saco de papéis pesado como um corpo, memórias soltas, há outros piores, melhores do que eu, atam tudo isto numa trama bem mais delicada, enredam fabulosamente, deixam folga suficiente para dar margem a todo o catálogo de ilusões, e nunca abrem a boca antes da altura certa, não têm impulsos, não entretêm uma falsa consciência, não brincam aos remorsos, a elegância é a coisa mais fria, e estranhamente doce, sabe sempre o que dizer e como, comprime os lábios nos funerais, mas por dentro cantarola.

 

quinta-feira, julho 09, 2020


O espírito despedaça-se nas coisas que pede, contra as roseiras, os aspectos em que a sua admiração o reflecte, no orvalho e nas fragrâncias que primeiro despertam, a manhã confunde-o sempre, algum eco dele cresce, persegue-o mais tarde quando já não se lembra, assim surgem dois corpos um atrás do outro, não é precisa tanta carne, basta a mesa, um grande bocado de pão sobre ela, a colher de sal, uma cebola doce, a espera com a luz indo e vindo, um homem acaba aproveitando, torna-se modesto, tudo o que o cala tira-lhe da boca os nomes com que a dor se lhe apresentou, os frutos rolam para longe da sua fome, se os morde fica nauseado e já não pode senão cuspi-los, já não quer fazer sentido do que lhe disseram as poucas mulheres, os olhos são ferida suficiente, as coisas sem vida sabem da morte o que importa reter, deu um golpe na garganta de alguém para apagar a lanterna que se movia ali perto quando a noite ficava mais escura, era para ser um crime mas foi outra coisa, o cabelo cai ou contorce-se, fios de cinza semeados, como se uma fonte de calor o preparasse para a própria extinção, um bosque inteiro ardeu para que uma flor o visse, ele usa os penhascos, põe do lado de fora as suas piores impressões, busca-as, desgasta-se fisicamente, iria para a guerra se ainda as houvesse, se se pudesse receber na carne uma flecha, se o aço do inimigo conseguisse atravessar a agonia do mundo, se tivesse a sorte de sufocar alguém e ouvir o grito de outros mil, e pudesse regressar àquela mesa e trincar o mesmo pedaço de pão, sentindo na boca o pavor, a pressa final do sangue e o gosto atroz de outro coração.

Valerio Magrelli II


Em tempos deixavas na página
o dia que passara, mas agora
só queres falar da própria fala.
Como se na jornada que a impressão
faz a caminho do papel
um fosso se tivesse rasgado.
E ao mover-se de uma
para a outra costa
toda a mercadoria se tivesse perdido
e o viajante,
tendo esquecido as suas viagens,
apenas pudesse falar dos perigos a que sobreviveu.


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Há um momento em que o corpo
se recolhe a si mesmo na respiração
e o pensamento pára e hesita.
Da mesma forma as coisas
aconchegadas pela lua
são submetidas à influência
do suspiro das marés
ou à flexão doce do eclipse.
E as tábuas dos barcos
incham delicadamente nas águas.


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O sono subtrai tanto à vida.
O trabalho suspenso na berma do dia
gradualmente afunda-se no silêncio.
A mente subtraída a si mesma
é velada pelas pálpebras.
E o sono cresce dentro do sono
como um sinistro segundo corpo.