segunda-feira, Setembro 22, 2014

Frederico Pedreira, entrevista ao JL



Vai para aí muito de conselhos a jovens escritores. O que gostam os capangas da administração do frouxo condomínio livresco de ensaiar manuais de etiqueta e vir legar a corcunda. Reclamar seniority. Talvez seja hoje um tempo em que tudo sabe a tarde demais. Mas talvez fizesse mais sentido que, novamente, fossem os jovens a dar alguns conselhos aos seus velhos. Explicar que não, não basta a natural inclinação das coisas para ir tudo bem encaminhado, não basta fazer uma coisa muitas vezes nem há muito tempo, melhor seria fazê-lo comedidamente, não insistir tanto. É uma forma de radicalismo, essa moleza que tanto insiste, que sempre se oferece e mostra disponível. A grande vanguarda ainda é o anonimato. A expressão que se desembaraça dos modos de torpor hierárquico. É uma doença comum essa coisa da experiência. Basta dar anos da vida a um certo tipo de erro e a coisa parece ficar séria, admirável. Mas e se a teimosia não for mais que uma vaidade desesperada, que vive de se arrastar pelo chão e já o decora de nuvens de giz e faz de brilhos ajoelhados e reflexos baixos os astros de um céu dos caídos. Nenhum acto rebelde pode tornar-se um estilo de vida. Isso é já miserabilismo. É mais justo fazer as coisas por acaso, ou por desacato mas sem um ânimo moral. A liberdade é acidental. Sai-se para a literatura quando é da literatura que é preciso sair. Deixem-se lá de conveniências. Tudo já é muito difícil caoticamente, mas instalada a ordem torna-se então quase impossível. Se é literário, começou pelo fim e é necessariamente mau. Se ganhou um prémio, pior. Se tanta gente precisa de estabelecer uma claque para seguir com o espanto que sente diante do que a comove, essa gente apenas revela fraqueza. Uma classe que vive as suas paixões de forma adepta. Que se cola, segue, numa emburrada militância. Normalmente, não é preciso mais, mas menos. Deixar que as coisas prossigam a sua natureza fenomenal. Do que não se extingue, embora como espécie seja já o último exemplar, incapaz de perfeita reprodução. A ideia da multiplicação é uma conspiração carente e decadente. Crescei e multiplicai-vos, mas só se fordes muito parvos e não tiverdes outros modos de vos fazer entender. Há ideias melhores, mais necessárias. Cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata. Como vamos explicar isto melhor? O mal é a desconfiança que sempre nos obriga a mais. Como quem inscreve na pele o seu memento. Perante o terror de esquecer, tatua-se, faz da pele um caderno de notas. E não entende como a tinta o encerra cada vez mais fundo em inúteis convicções. Engaiolado na própria pele. Um bocadinho mais ausentes, mais silenciosos, menos à flor de todo este absurdo, seremos mais lúcidos. Menos obstinados, menos ansiosos.
 

quinta-feira, Setembro 18, 2014


Estas peças surgiram numa época de guerra constante e tornaram-se parte da educação dos soldados. Estes soldados, cujas naturezas tinham tanto de Walter Pater como de Aquiles, associados aos sacerdotes budistas e às mulheres no aperfeiçoamento da vida numa cerimónia, quer a jogar futebol, quer a beber chá, quer ainda a viver todos os grandes acontecimentos do Estado, transformaram-nas em ritual. Na pintura que decorava as suas paredes e na poesia que recitavam descobrem-se os únicos sinais de uma grande época que não podem decepcionar-nos, o mais vívido e subtil discernimento dos sentidos, e a invenção de imagens mais poderosas do que os sentidos; a presença constante da realidade. É ainda verdade que Deus nos oferece, de acordo com a Sua promessa, não o Seu pensamento ou as Suas convicções mas a Sua carne e o Seu sangue, e acredito que a esmerada técnica das artes, parecendo criar, a partir de si própria, uma vida sobre-humana, ensinou mais homens a morrer do que a oratória ou o livro de orações. Só acreditamos naqueles pensamentos que foram concebidos não no cérebro mas em todo o corpo. O soldado minóico que carregava sobre o braço o escudo ornamentado com a pomba, no Museu de Creta, ou que tinha sobre a cabeça o elmo com o cavalo alado, sabia desempenhar o seu papel na vida. Quando Nobuzane pintou o Santo Kōbō Daishi em criança, ajoelhando-se cheio de doce austeridade sobre a flor de lótus, colocou diante dos nossos olhos a excelência da vida e a aceitação da morte.
Não consigo imaginar aqueles jovens soldados nem as mulheres que amavam, agradados com a malformação e com a teatralidade de Carlyle, nem, penso eu, com a grandiloquência de Hugo. Tudo isto pertence a uma era industrial, a uma sequência mecânica de ideias; mas quando me lembro daquele curioso jogo a que os japoneses chamaram, com uma confusão dos sentidos que teria parecido típica da nossa própria época, "ouvindo o incenso", sei que alguns de entre eles teriam compreendido a prosa de Walter Pater, a pintura de Puvis de Chavannes, a poesia de Mallarmé e de Verlaine. Quando o heroísmo regressou à nossa época trouxe consigo, como sua primeira dádiva, a sinceridade técnica.


- W. B. Yeats
(tradução de Célia Rego Pinheiro)
in Ouvir o Incenso, Cotovia

Realismo


O realismo foi criado para a gente comum e foi sempre o seu deleite característico, e é hoje o deleite de todos aqueles cujas mentes, educadas apenas por mestres-escola e por jornais, não têm a memória do belo e da subtileza emocional. O realismo ocasionalmente humorístico que tanto intensificou o efeito emocional da tragédia isabelina – o velho de Cleópatra com a áspide, por exemplo – elevando a crise trágica, por contraste, acima da fasquia do teatro palaciano de Corneille, foi feito, de início, para agradar ao cidadão comum que assistia de pé sobre os juncos do chão; mas as grandes falas foram escritas por poetas que se lembravam dos seus patronos nas galerias cobertas. O fanático Savonarola estava morto havia já um século, e a sua queixa, no frenesi da sua retórica, de que cada príncipe da Igreja ou do Estado, pela Europa fora, estava exclusivamente ocupado com as belas-artes, tinha ainda o seu quinhão de verdade. Um trecho poético não pode ser compreendido sem uma memória rica e, tal como a velha escola de pintura, apela a uma tradição e não apenas quando fala do "cais do Letes" ou de "Dido à beira do mar revolto", mas no ritmo, no vocabulário; pois o ouvido tem de notar ligeiras variações sobre velhas cadências e palavras usuais, toda aquela esmerada produção de estilo poético onde não há nada de ostentoso, nada rude, nenhum fôlego de parvenu ou de jornalista.
Pressionemos as artes populares a um realismo mais completo – essa seria a sua honestidade – pois as artes comerciais desmoralizam pelo seu compromisso, o seu estado incompleto, o seu idealismo sem sinceridade ou elegância, a sua pretensão de que a ignorância pode compreender a beleza. No estúdio e na sala de estar podemos fundar um verdadeiro teatro da beleza. Poetas do tempo de Keats e de Blake escarneceram da sua geração apenas por via do que é menos declamatório, menos popular na arte de Shakespeare, e em tal teatro encontraram o seu público habitual e mantiveram a sua liberdade. A Europa é muito velha e já experimentou muitas artes e conheceu o fruto de cada flor e soube o que cada fruto deixa, e é agora tempo de copiar o Oriente e de viver deliberadamente.

- W. B. Yeats
(tradução de Célia Rego Pinheiro)
in Ouvir o Incenso, Cotovia

terça-feira, Setembro 16, 2014

Japanese Maple


Your death, near now, is of an easy sort.
So slow a fading out brings no real pain.
Breath growing short
Is just uncomfortable. You feel the drain
Of energy, but thought and sight remain:

Enhanced, in fact. When did you ever see
So much sweet beauty as when fine rain falls
On that small tree
And saturates your brick back garden walls,
So many Amber Rooms and mirror halls?

Ever more lavish as the dusk descends
This glistening illuminates the air.
It never ends.
Whenever the rain comes it will be there,
Beyond my time, but now I take my share.

My daughter’s choice, the maple tree is new.
Come autumn and its leaves will turn to flame.
What I must do
Is live to see that. That will end the game
For me, though life continues all the same:

Filling the double doors to bathe my eyes,
A final flood of colors will live on
As my mind dies,
Burned by my vision of a world that shone
So brightly at the last, and then was gone.

- Clive James

Habitante da dor


Não deixes o cuidado de governar teu coração a essas ternuras, pai e mãe do outono, a quem emprestam o plácido andar e a sua afável agonia. Os olhos são precoces em rugas. O sofrimento conhece poucas palavras. Opta por deitar-te sem fardo: sonharás com o dia seguinte e o leito ser-te-á leve. Sonharás que a tua casa já não tem vidraças. Estás impaciente por unir-te ao vento, ao vento que numa só noite percorre um ano. Outros cantarão a incorporação melodiosa, a carne que personifica apenas a feitiçaria da ampulheta. Condenarás a gratidão que se repete. Mais tarde hão-de identificar-te com qualquer gigante desagregado, senhor do impossível.
Contudo.
Não fizeste mais do que acrescentar o peso da tua noite. Regressaste à pesca nas muralhas, à canícula sem verão. Estás furioso com teu amor no centro de uma inteligência que enlouquece. Sonhas com a casa perfeita que jamais verás erguer. Para quando a colheita do abismo? Mas tu vazaste os olhos do leão. Julgaste ver passar a beleza sobre alfazema negra...
Que foi que te levantou outra vez um pouco mais alto sem te convencer?
Nenhum cerco é puro.

- René Char
(tradução de Eugénio de Andrade)

segunda-feira, Setembro 15, 2014

quinta-feira, Setembro 11, 2014

quinta-feira, Agosto 28, 2014


Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos – da – ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó –
dos – andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.


- Ferreira Gullar
in Dentro da noite veloz, 1975

terça-feira, Agosto 26, 2014



o miúdo não sabe quando e eu também não. ficamos debaixo do olhar dele e temos conservas, comida para uns dias, além da sorte de sabermos que há-de chover quando for preciso. cambaleamos ensonados, distraídos num ambiente de conto do qual raptaram as fadas, num registo que seria o da literatura fantástica não fosse ao mesmo tempo tão grosseiro, louca, resmungona e inconveniente. as coisas sucedem, supomos, por alguma razão. a velhice já tem as suas suspeitas atrás de nós. o bairro põe-se de má cara, nem já os bons dias como antes e pela tarde quase nos toca o cuspe, enquanto à noite temos já levado um ou outro chute. temos feito das nossas. a nossa lista e retribuição: identificamo-los, aos adiados [cadáveres], nas paredes [deles]. as letras não chegam a ser garrafais mas acotovelam-se, gritam, zurzem com uma eficiente minúcia, e escarafuncham, saltam, seguem pela rua mais alguns metros a morder-lhes os calcanhares. porque ouvimos como os deuses e as moscas, discretos, atrás de portas. tiramos-lhes medidas e as manhas, a sacanice, tramoias e bajulices. um dia destes iremos daqui, num barco, quando a chuva for suficiente. é importante ter só isso como fim, rapazes, irmo-nos daqui, ainda vivos, para outro lado, mas enquanto não, ver com olhos de ver, aumentar se for preciso, e ser visto também, dizer alto mal ou bem, mas sem ganho, sem perda, sem fazer contas, é muito necessário deixar a linha tornar-se clara, a oposição entre os que beliscam as bochechas e retocam os cabelinhos para que os fotografe em perfeita pose a morte / e os que hão-de morrer com um ar de desconchavo tal que envergonhará a vaca, a pensar longe fora noutra coisa, porque esta gente aqui cheira a formol, dá frio e arrepia como atravessar fantasmas



Parece que se morre por aí. Ouve-se falar muitos, alguns bem, certamente, outros o que lhes dá, que é pouco, e ainda assim se faz ouvir. Barulho, faz uma barulheira louca este século novo, bruto, fução, rato, ridículo, elaborado, espantoso, num contraste enérgico e violento ou até, mais raramente, encantatório. É preciso ser-se muito frio, muito burro para um tipo não se comover. Ficar a comer a esparguete infinita da tacinha do umbigo parece palhaçada, mas dá-se que há quem se ache fonte de luz assim, enconando fora da cona da mãe. É preciso que a gente se vá pondo dos milhentos lados desta questão que nós temos todos, em comum até um incerto ponto. Mas morrer, que facto bicudo é esse para quem fica insiste desse lado mais fraco e sentimental das coisas. Então, um tipo, agora eu ou tu, por efeito perverso e limitado desta pôrra, vamos e lemos num blog uma nota sobre um poeta que morreu num dos cus de judas por onde a vida se desmanda, porque afinal mesmo na capital mais olimpesca deste lado do desentendimento um gajo acha-se sempre a um passo do absoluto vazio. Aqui como em toda a parte morre-se muito mal. De resto, o mais é retórica e ingenuidade. E depois há uma certa paz e um sorriso sem destino ou destinatário. Mas virem-se uns vingar nos outros, usar a morte ainda fresca para se lhe porem às cavalitas e fazerem uma última ronda pelos bairros mais a jeito, é peso a mais para sepultar um morto. Já nem carregam o caixão, sentam-se-lhe em cima e vão-se até ao buraco de cachimbo na beiçalha a reclamar que qualquer caminho feito é sempre pouca terra. Depois dão um salto ao lado, cospem uma flor e mal ouvem as pazadas já vão pelos fundos da vida a mandar tudo ao caralho enquanto se reclamam impérios. O que se pode dizer a estes coleccionadores de ossos que usam do solilóquio não para os "ser ou não ser" da vida mas para andarem a xingar nas traseiras dos dias e a dizer que o mundo não presta porque não tem a paciência para mandar cantar todos os cegos que lhe enchem as praças e quintais. Que puta de banda que não mais acaba, e agora vêm-se aqui, limpam-se às cortinas e dizem-se donos disto aqui até ao que fica além. Não há, como podia haver, paciência. O apego é coisa tão séria como disparatada. Já o dizia o Assis Pacheco: "Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória. Em todo o caso não a forces." Então porquê essa conversa dos que morrem contra os que ficam. A cada um o seu dia, a hora de retirar-se. Sem nem deixar nota colada no frigorífico nalguns casos, noutros deixando obras vastas, bibliotecas inteiras. Mas e depois? Há génio?, há com certeza (e felizmente). Mas vamos ter de aturá-los a todos? Morreu um hoje (ou não), e agora? É suposto que se montasse um piquete de greve às portas do céu? Não deixar que nenhum outro fure? Que merda de vida é essa que só serve de ilustração a uns que nem choram nem mudam o seu tom mas juntam tudo no iracundo obituário com que se reclamam mais que vivos, deuses. Não há paciência. Saibamos morrer nós e deixar que se morra, na paz possível, sem acusar o mundo de desatenções, de desafectos. Na hora de alguém morrer, não vale a pena o estardalhaço, no fim só fica um pouco e essa é a medida certa, que deve e pode ficar. De tudo fica um pouco. Um pouco.

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.


Encargo



No me des tregua, no me perdones nunca.
Hostígame en la sangre, que cada cosa cruel sea tú que vuelves.
¡No me dejes dormir, no me des paz!
Entonces ganaré mi reino,
naceré lentamente.
No me pierdas como una música fácil, no seas caricia ni guante;
tállame como un sílex, desespérame.
Guarda tu amor humano, tu sonrisa, tu pelo. Dalos.
Ven a mí con tu cólera seca de fósforo y escamas.
Grita. Vomítame arena en la boca, rópeme las fauces.
No me importa ignorarte en pleno día, saber que juegas cara al sol y al hombre.
Compártelo.

Yo te pido la cruel ceremonia del tajo,
Lo que nadie te pide: las espinas
Hasta el hueso. Arráncame esta cara infame, oblígame a gritar al fin mi verdadero nombre.

- Julio Cortázar

segunda-feira, Agosto 25, 2014

Imortalidade, amores, ruído


texto de Pedro Meneses


Se imortal, sê-lo-ei pelos temores
em que me criaram mais do que pelas minhas crenças
(Antonio Hernández, O mundo inteiro, ed. Língua Morta, p. 42.)


Na imortalidade não se acredita, ela resulta de um temor. Não se acredita nela como se acreditaria em Deus. Ela é um efeito de circunstâncias que infundem temor. Pode ter sido por via da educação, ou mais latamente pela experiência de vida do próprio poeta; circunstâncias de vida, sejam elas quais forem, educaram-no pelo temor. Crer-se imortal é temer. Quem se crê imortal, não faz o que tem a fazer agora, seja lá o que isso for. Foge de si próprio, não se confronta com o mundo ético invisível aos outros. Deixa para mais tarde aquilo que quer fazer, não realiza a sua potência. Só quem se julga imortal procrastina, só quem se julga imortal tem medo de agarrar a vida já, só quem se julga imortal tem tempo e teme realizar a sua potência. Quem se julga imortal teme a morte, pois. Aliás, na página 16, encontra-se este verso do autor: a preguiça, dom dos imortais. Alguém poderia escrever um verso como: o cansaço, dom dos mortais.


Os antigos amores nunca morrem
de morte súbita (idem, p. 46.)

Versos terríveis, educativos. Os antigos amores são duros de ultrapassar, não se apagam simplesmente. Subentende-se que esses amores morrem, é certo, mas de uma forma lenta, a forma – ao que posso saber – mais penosa de morrer. Vão sendo lacerados à medida que envelhecemos, a nossa morte acompanha a morte deles. Seria bom que houvesse um corte que os alijasse definitivamente, poderíamos dizer. Porém não: eles vão morrendo connosco, carregamo-los morrendo, morremos e eles morrem connosco, morremos porque – diria um romântico indefectível – eles morrem connosco. Mas, de outro ângulo – os antigos amores morrem como nos é dado viver.


O seu encanto está nas pausas
com que acompanha a sua melancolia
e então olha o mar e pelos seus olhos
eu sei que amou sem correspondência. (idem, p. 45.)

Fala-se de Contreras, uma das personagens que erra pelos poemas e pelas praias de Antonio Hernández. As poucas palavras são sintoma de desvinculação simbólica. O melancólico Contreras não é um tagarela, interrompe constantemente a fala, extasia-se pela plenitude sem dobras que é o mar. Há no melancólico qualquer coisa de poético, na medida em que também a poesia é pouco – ou nada – comunicativa e se distancia do senso comum. E é graças a essa distância que ela se investe de aura. Há a tentação da tagarelice, da revisitação dos álbuns de família, do fluxo linguístico ininterrupto e clarividente, da aproximação à fala quotidiana – de tornar impossível a boca bilingue. Hernández observa a desatenção e a ineficácia comunicativa de Contreras – e, apiedando-se dele, conhece um pouco mais da errância dos poetas.


A nudez precisa de ser esbatida
e excita mais um corpo despindo-se
do que outro sem roupa, despido. (idem, p. 22.)

A nudez não compele o movimento, não excita. Não gera expectativa nem tão-pouco vontade de fazer. A nudez é um todo, pleno; possui, poderíamos acrescentar, algo de totalitário. Induz passividade, entorpece o desejo. Poderíamos concluir dizendo que a pornografia estiola o desejo.


Qualquer ruído se entranha na cabeça
mais do que um verso genial (idem, p. 33.)

Os poetas compreenderão bem este verso. É-nos dito que um verso é, desde logo, som. Um som que até se pode diferenciar do informe ruído, mas talvez já fosse inferir demasiado. Um automóvel, um trovão, a chuva, o zum-zum dos vizinhos – ruídos que se entranham. Porque nos perturbam, nos ameaçam, se repetem. Até certo ponto, para muitos crentes, uma oração pode bem ser um ruído, isto é, um conjunto informe de sons. Entranha-se portanto o ruído que ameaça ou que salve. Talvez a poesia que se entranha seja justamente aquela que ameaça ou salve. Todavia – um verso não é um trovão que possa matar e quem está vivo e sofre sabe-o bem. E, para acabar com o desespero, para salvar, já existem as orações, conjunto de sons especializado há milénios na tarefa. A poesia pode ser como uma oração ou/e como um trovão.




(ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?), de Rui Nunes - recenção na Atual


segunda-feira, Agosto 11, 2014

língua morta 050




UM BÁRBARO EM CASA,
de Frederico Pedreira,
com capa de Luís Henriques
[300 exemplares, 160 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


Coisas desencadeadas


1) Mutações bruscas, cortes radicais com o passado literário, parecem-me inviáveis. Começar outra vez a poesia portuguesa como se ela acabasse de nascer? Desculpem-me (os espíritos «cultos») a imagem camponesa, mas a enxertia faz-se na árvore que já existe. Para a revitalizar ou para conseguir frutos diferentes que trazem no entanto um pouco do sabor, da textura anteriores.
Certamente, vivemos um tempo de prodígios. A física nuclear, por exemplo, encontra-se à beira dos mais íntimos segredos da matéria e são imagináveis hoje espantosas mutações. Mas qualquer identificação entre o conhecimento científico e o experimentalismo literário (o letrismo, a poesia concreta, a atomização dos versos, das palavras, a produção poética através de máquinas, etc.) não deve ser tomada a sério, se é que alguma coisa a propõe claramente.
2) A crise primordial do mundo moderno pode talvez sintetizar-se assim: almas contra-revolucionárias com as armas das revoluções industriais nas mãos. A arte, espelho social, apesar de tudo límpido, reflecte por força as consequências dessa crise. Tomemos para exemplo um aspecto do problema: o «malefício» dos objectos. Sabemos todos que o domínio crescente da natureza pelos homens constitui a lei fatal, irreversível, do progresso. No entanto ninguém me acusará de reaccionário, espero, se disser que implica graves perigos para o próprio homem e poderá transformar-se até num boomerang. Não me refiro já à brutal aventura da destruição que o 20.º aniversário da bomba de Hiroshima, comemorado há pouco, recorda aterradoramente, ou à poluição industrial ameaçando de gangrena a terra, a água, o ar, a flora, a fauna. Refiro-me aos perigos dum outro apocalipse, por dentro, menos espectacular mas também destruidor: a tecnocracia; a habituação passiva ao mecanismo, a uma atmosfera de metal diluído; e a idolatria, a sufocante obsessão dos objectos, fomentada por um aparelho publicitário formidável. É neste ponto que julgo ter a arte um papel de medicina humanista, de contraveneno insubstituível. Sartre diz algures que «o rigor científico reclama em cada um de nós outro rigor mais difícil, que o equilibra: o rigor poético», sublinhando que se trata de duas formas culturais «complementares».
A antinomia homem-objecto está plantada a meio da problemática artística das sociedades neocapitalistas e não é por acaso que lá está. Daí, que a substituição do poeta pela máquina electrónica de fazer poemas se me afigure uma coisa sem destino, uma «arte de consumo» sem consumidores. O poema é um objecto de substância especialíssima, com meios de produção adequados, cuja evolução se processa por caminhos muito seus que não admitem, ao que penso, qualquer ruptura na profunda integridade em que fluem. A poesia evolui, experimenta, liberta-se, mas não deixa de ser um produto directo, dilecto, da consciência humana. A verdadeira vanguarda não imita exactamente aquilo que mais precisa de combater, o esquecimento do homem na rápida aridez do mundo, que não advém do progresso mas do seu uso deturpado. Se a poesia é como queria Maiakovski uma «encomenda social», o que a sociedade pede aos poetas de hoje, mesmo que o peça nebulosamente, não anda longe disto: evitar que a tempestade das coisas desencadeadas nos corrompa ou destrua.

- Carlos de Oliveira
em resposta a um inquérito do Diário de Lisboa, em 1965

domingo, Agosto 10, 2014

Ainda há críticos no país: Joana Emídio Marques



Quando os poetas interrogam Deus?
[texto publicado na edição de sábado do Diário de Notícias] 



Numa cultura sem grandes tradições místicas, Deus na poesia é tema vasto e instigante. Porém, ‘Verbo: Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa’ fica a saber a pouco 


Pode-se escrever poesia sem de alguma forma lidar com o Divino? Poderá algum poeta moldar as palavras, o seu peso e a sua leveza sem um desejo de infinito que nos conduz necessariamente... a Deus? Há, afinal, dentro do nosso tempo descrente um tempo crente, em que não se teme explorar as regiões noturnas nem a nudez luminosa, mesmo que seja como parte de uma crise, de um dilaceramento?

Verbo - Deus como interrogação na Poesia Portuguesa é uma antologia feita por José Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia, na qual se reúnem 13 poetas portugueses do século XX em cuja obra (ou parte dela) surge uma interpelação direta a um Deus cristão, um Deus vivo e contendo um ponto de plausibilidade que detém a força irreprimível das questões.

Vitorino Nemésio, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, José Bento, Ruy Belo, Cristovam Pavia, Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho, Carlos Poças Falcão, Adília Lopes, Daniel Faria, são os poetas incluídos nesta obra que nos deixa com muitas interrogações (o que à partida será bom) mas também com uma certa frustração:

1) Por conter uma lista tão exígua de poetas;

2) Por ser essencialmente cristã;

3) Por não incluir poetas jovens que estão a produzir na última década;

4) Por não ter como suporte uma introdução sólida que dê aos leitores a possibilidade de um salto para mudarem, aprofundarem o seu nível de leitura, abrirem novas portas de entrada para a obras destes poetas, e para a relação entre a poesia e o divino em particular;

5) Porque é que esta antologia (mesmo que o seu critério último seja o do “gosto” dos antologistas) não abrange a dissidência da visão convencional de Deus?

Verbo não tem uma introdução. Tem uma “explicação”, “termo retirado da obra de Daniel Faria”, explica Pedro Mexia. Esta não inclusão de uma introdução mais vasta foi “propositada” pois o objetivo do livro é tão--só “uma tentativa que nunca ultrapassasse a difícil fronteira entre os poemas e as biografias dos autores”, porque não queriam “tentar converter postumamente poetas que não eram crentes nem forçar os poemas a uma intenção que eles não têm”.

“Escolhemos como balizas temporais as obras de Nemésio e Daniel Faria e lemos com atenção e vagar os poetas portugueses nascidos entre 1901 e 1971, que fizeram da ‘questão de Deus’ um tema, motivo ou obsessão”, escreve Tolentino de Mendonça. “Muitíssimos autores e movimentos ignoraram a questão de Deus inexistente ou ocasional no primeiro modernismo, no neorrealismo, no surrealismo, na poesia 61, na poesia experimental, em boa parte dos poetas nascidos na segunda metade do século. Em contrapartida, a questão aparece com frequência nos autores ligados à Presença, ao Cadernos de Poesia ou até à Árvore, pareceu--nos, porém, que interessava mais a questão dos poetas consigo mesmos, quer se tratasse de fé, angústia, recusa, apostasia, incompreensão, revolta ou prece.”

Mexia explicou ao Q. que “a questão de Deus foi muito importante para os poetas da primeira metade do século XX, mas foi perdendo importância na segunda metade e hoje tende a ser uma coisa ocasional ou lateral. Nós quisemos fixar-nos nos poetas que colocaram Deus como questão fundamental numa determinada fase da sua criação poética, mesmo que depois isso quase desapareça como no caso de Ruy Belo”.

O misticismo na poesia portuguesa

Não há uma tradição mística em Portugal como, por exemplo, na Espanha. Há um quietismo algo contemplativo e ternurento, de um Deus menininho e uma mãe virgem. Camões, como em tudo, é uma exceção. Mesmo o Pessoa (embora capaz de esoterismo filosófico) fala daquele menino Jesus rapazito no Guardador de Rebanhos. O Guerra Junqueiro teve uma relação violentamente anticlericalista com o divino, mas o seu suposto catolicismo era judaico. Houve também o Raul Leal (surrealista), é claro, em demanda de Deus pela via inversa, da degradação. Os títulos são sugestivos: Sodoma Divinizada, Anthéchrist et la Gloire du Saint-Esprit... E o poema: “As gloriosas convulsões de Luxúria/ e Fogo/ que agitam Jeová” (...) “Glória a Deus/ que sublimemente se submerge/ no abismo-espírito/ do Reino de Satã.” Era um gnóstico e (consequentemente) um dualista. Degradação da carne para permitir a fusão (gnose) do espírito eterno aprisionado na carne com o eterno divino. De algum modo (sem estridência) o José Blanc de Portugal também era gnóstico. Mas era um intelectual e não um místico.

“Uma palavra só/ mas essa não sei/ seria Deus se a soubesse agora/ meu Deus/ Só sei que existe,/ a única que é e foi bastante/ p’ra criar estas com que escrevo e falo/ do que não sei ou sei apenas que É.”

Mas como explicar a ausência de Miguel Torga, José Régio, Manuel António Pina, esse ateu? Ou dos poetas jovens que estão a escrever atualmente temos pelo menos dois exemplos claros: Daniel Jonas e Inês Fonseca Santos, que fazem dos textos bíblicos matéria da sua obra poética onde se interpela Deus não de forma direta mas alterando-o pela forma radicalmente nova como olham para ele e como lhe falam, como se aproximam?

Claro que os treze poetas incluídos tem obras que impressionam, pelo choque poderoso, a mistura de sentimentos e pulsões contrárias. Sena ou Ruy Belo são o exemplo de dois poetas em crise na sua relação com Deus. Já Sophia tem uma imaginário em que o panteísmo grego se mistura com o Deus cristão. Ou Nemésio, em que o Homem é simultaneamente “menos que nada e mais que tudo”. Para eles, Deus não retirou ao homem o lugar de uma grande potência, capaz de infinitos universos, recursos desconhecidos tantas vezes destinados não a conseguir a salvação mas a vencer a Criação. O fundo fala neles mais alto do que Deus.

“Amei-te/ quando gritei ao teu céu:/ devolve-me as minhas mágoas./ Eu de Deus não quero nada/ que não seja igual a ti;/ que não seja igual a mim./ Amei-te,/ porque eras maior do que eu;/ porque eras o meu destino:/ remendo, trapo, farrapo,/ natureza, minhas mágoas,/ homem farrapo divino. (“Corpo de Cristo”, Ruy Cinatti, página 48)

Eles não são escolhidos por Deus. São eles que escolhem Deus.

“(...) mas sempre somos nós e sermo-nos/ é o haver mistérios na alma e no mundo/ e o não haver necessidade de mistérios em ti./ Contudo sei que um dia cairei rendido/ e hei-de acreditar nos dogmas/ e nessa crença encontrarei a alegria de quem contempla paredes verdadeiras (...) (“Declaração”, Jorge de Sena, página 57).

Muitas vezes o Deus não nomeado parece dar a ver nessa ocultação uma relação mais intensa e profunda com Ele, como no caso de Adília Lopes ou de Armando Silva Carvalho, em que Deus não é uma coisa intemporal mas um produtor de histórias:

“Deus é a nossa/ mulher-a-dias/ que nos dá prendas/ que deitamos fora/ como a vida/ porque achamos/ que não presta/ Deus é a nossa mulher-a-dias/ que nos dá prendas/ que deitamos fora/ como a fé/ porque achamos/ que é pirosa” (página 195).

Mexia deixa claro que a intenção dos antologistas “não era abordar a relação da poesia com o sagrado” pois isso seria “um trabalho tão vasto que não caberia neste projeto”, já Tolentino de Mendonça afirma: “Esta não é uma antologia para crentes ou para não crentes, é uma antologia de poesia que dá exemplos de uma tema, de um motivo, de uma obsessão...) poetas com uma questão, com uma pergunta que nunca está respondida.”

Para que serve uma antologia?

O resultado de uma proposta antológica deveria ser suscitar novas questões, calar velhas respostas e alimentar nobremente a necessidade de falar dos homens. Facilitar a visão dessas regiões interiores e exteriores sempre mal descobertas mas não as circunscrever aos seus limites. Uma antologia é sempre uma afirmação de poder dos antologistas, dos que impõem o seu gosto, o seu discurso, a sua opinião sobre o tema no espaço público. Posição perversa. Se por um lado eles vêm mostrar uma face da obra destes poetas, por outro lado eles encerram-na num todo, é como se nos viessem dizer: esta é a poesia que interpela Deus, que dialoga com Deus. É esta e não outra, é esta que está recenseada por nós, medida e confirmada através da palavra permanente. Deus.

Ora uma antologia fala tanto daquilo que inclui como daquilo que exclui. E exclui todos os outros poetas que ao longo do século XX e início do século XXI abordaram Deus, nomeadamente o Deus católico.

Fora estão todos os outros. Sobretudo os dissidentes. De alguma forma, todos os poetas antologiados nesta obra são figuras mais ou menos consensuais por mais ou menos conhecidas, vivas ou mortas.

Como escreveu Maurice Blanchot: “O livro não é nada se não for paixão. Se não conduzir a um salto torna-se simples necessidade de representação.”(1)

É esse salto que esperávamos de uma antologia com um tema tão instigador, mesmo sabendo que tudo o que podemos fazer é aproximarmo-nos do tema, do seu irracional, do seu inominável, como o faz, por exemplo, Inês Fonseca Santos (n. 1978), que fala de úteros. Porque afinal pode-se meter Deus e um útero num poema.

“Senhor, liberta-me de mim mesmo/ para que eu possa esconder-me dentro/ delas. Dentro dela há pouco espaço,/ ela só me tem amor. Compra-me cigarros, cozinha-me refeições, expõe-me/ como refugiado aos efeitos benéficos do álcool - e aguarda./ Aguarda que lhe devolva amor./ Por isso, Senhor, peço: liberta-me/de mim mesmo para que eu possa esconder-me/ dentro delas, das paredes./ Dois metros e vinte por outros tantos ou mais é espaço suficiente/ para que possa esconder-me e servir-Te como mereces:/ erguer-Te uma capela, pintar-Te um fresco, ser genial para Ti, Senhor,/ liberto de mim mesmo/ por dentro das paredes/ do útero dela. (A Habitação de Jonas).

(1) Maurice Blanchot, Livro do Por Vir, Relógio D’Água.