sexta-feira, maio 17, 2019

língua morta 093



LIVRO REDONDO
de Catarina Nunes de Almeida

capa a partir de gravura
de Andreas Cellarius

[300 exemplares, 80 pp., 9€]


terça-feira, maio 14, 2019

Uma malga de sopa


Tem graça partir o pão com qualquer tosco e deixar as migalhinhas cair na toalha vendo o acaso abrir-nos o apetite, criando uma espécie de intriga. Assim, acabava de cruzar-me com um texto que foi fazendo eco e ganhando vigor quando lia os recados, ponto por ponto, deste senhor. “Dizia Bíon de Borístenes, filósofo antigo: é impossível agradar à multidão a não ser transformando-se num pasticho, ou num vinho adocicado.” E registo que, a ver se tomava balanço, o nosso psico-néscio puxou da mão do Virgílio Ferreira como de uma colher de pau para mexer um pouco antes de me servir o caldo de um diagnóstico de narcisismo. Nisto, algum já se poupou na consulta, não é doutor? Mas devo aqui precatar-me: ou contrato eu próprio as coristas, os músicos, largando uns cobres para assegurar a diversão, ou, se me fico, sopro e sorvo essa sopinha, então bocejo e vou dormir mais cedo. Ora, se assim for, é natural que o público se sinta uma vez mais intrujado, achando que isto das rixas entre os das letras é coisa para ter morrido no século passado. Mas vendo-vos desse lado em tais dificuldades, coço com o dedo o queixo, a ver se vos dou a dica. Chego a desenhar-lhe uma cruz. "Anda, bate-me aqui." Está tão aborrecido isto que me solidarizo convosco. Salto para esse lado da barricada por um momento, a ver se as coisas se equilibram, e dou-vos uma mãozinha, sugerindo o tipo de projéctil que escavaque algum órgão vital na passagem, levando-me àquele sorriso de quem se sabe perdido diante do inimigo. Pois então, sem lhe deitar vinho adocicado, pois não me convenço, ao contrário daquele estarola, de que assim vá melhorar a receita original, e com a tarefa de atirar sobre mim mesmo, deixem que cite um dos “Pensamentos” de Leopardi na edição primorosa que saiu aí há uns meses pelas edições do saguão: “Vi em Florença um indivíduo que, puxando à maneira de um animal de tiro, como ali é costume, um carro carregado de trouxas, avançava com enorme sobranceria gritando e ordenando às pessoas que lhe dessem passagem; e pareceu-me a imagem de muitos que vão por aí cheios de orgulho, a insultar os outros, por razões em nada distintas daquela que causava a sobranceria no tal indivíduo, isto é, puxar um carro.” Aí está uma coisa que me faria tremer, e dispensando severidades clínicas, exames, seringas, picadas... Só que em vez de uma bata e estetoscópio saiu-me um pressuroso agente da velha atmosfera de estupro maila sua terminologia ridícula. Então, só posso benzer-me... É que ainda prefiro um padre que me persiga, querendo dar-me a toda a hora a extrema-unção, a essa espécie de crápulas e intriguistas diplomados (Artaud). Voltando lá atrás, à tal arte dos insultos, preferia que falássemos numa artesania, e vincar que não se trata só de projectá-lo, mas que o escarro deve ser raspado das profundas, trazer nele a substância que liberta a mosca que trabalha para fazer descer a alma às coisas do mundo. Sem isso, fica difícil injuriar gloriosamente seja quem for. E parece-me que sim, que estamos condenados a esgrimir por meio de citações pois já se escavou entre os dois um fosso inultrapassável. Retiro, por isso, mais do que este eremita papa-moscas possa trazer-me já entre aspas do que admitindo, por mera hipótese académica, que o que tenha a dizer-me neste particular possa algum dia, pelos seus méritos, vir a ser reproduzido entre aspas. Farejando nesse senhor a pestilência de alguém que se julga municiado de argumentos científicos para querelar, dar-me-á um treco se volto a sentir esse cheiro a fritos de quem brande argumentos de autoridade nestas coisas, saltando por cima de todas as descortesias que ainda tínhamos à disposição, para se lançar nestas núpcias-relâmpago, a tirar-me as medidas para uma camisa de forças enquanto me diz o que vem no DSM-IV. Mas a pobreza de recursos já na adenda ao post anterior ficara à vista ao tratar como “verborreia” uma prosa em tudo superior à sua. É que essa chacha tem que se lhe diga: já a ouvi um par de vezes, e sempre de escribas de muletas, que mal se têm de pé nestas trocas e depressa pedem para trocar de campo, deixando o literário por outras vias, como quem veio para a guerra armado de uma fisga e, achando-se diante de uma horda rindo e salivando, munida de chibatas, arpões, baionetas, espingardas, afinal manda cancelar a festa. Ainda temos a acusação de "vaidade". E é nestas alturas que qualquer esperança de que este rastilho molhado ainda possa acender dando uma polémica memorável morre de vez, ficando claro porque o meio literário, no seu azedume, está tão desasado. Faltam-nos actores que saibam representar dignamente esta classe prometida à extinção: a dos bons velhos literatos. Daí a bandalheira que leva a que se preencham as vagas recorrendo à mole de moralistas que abunda em qualquer época. Em consequência, é natural que nos venham com espadas de pau e insultos não melhores nem mais sofisticados do que esses que se trocam no trânsito. Que lhe dá no estilo barroco, e esconde um pensamento indisciplinado, ainda abusa nos clichés... Claro, claro. Suponho que cliché seja uma categoria bastante flexível, do mesmo modo que, na rede de um pescador, tudo o que não seja sardinha é outra bota. Ainda diz que deste lado ladramos, mas sem morder... Mais pontos, aqui, pela originalidade! Face a isto, de que me serviria agora encher o peito e dizer, como Victor Hugo, que tenho a honra de ser um homem odiado? Até porque, como o patego afiança, a ti que estás vivo podem muito bem preferir-se tantos mortos. Desde logo um Pacheco, um Herberto, e mais e mais. É como se os mortos, ao serem chamados, formassem fila atrás dele. O que eu gosto da elegância destes que vêm para a literatura deixar flores à pedra das sepulturas para que as mastigue pela eternidade fora. E é claro que o nosso psicotonto não deixa de admirar estilos rebuscados, do teu especificamente é que não, e se veio a terreiro, foi por dever profissional, trazer de volta algum bom senso. Quanto ao que ficou para trás, desdiz-se, é sempre esse, aliás, o mais fácil dos recursos estilísticos. E dada a delirante confiança do paciente, só resta abolir por completo estilismos, subtilezas, invenções linguísticas, brasões, e apontar o caminho para o asilo. No fim desta charada, se não posso reconhecer nem averiguar do percurso ou dos feitos da personagem que me interpela, o mais curioso é como o ilustríssimo prosador dominical (que a pratica à missionário) também se acha à altura de formular um parecer a respeito da poesia portuguesa contemporânea. Ah pois, lá no café também gira o polegar para cima ou para baixo ditando a sorte da caterva de bardos que não atingem o génio - "Não é Herberto quem quer", diz-nos o palonço que há dias arrancava uma dessas prosinhas bem molestas mas que, certamente, o enchem de orgulho, com esta jóia da narrativa moderna: "As crianças olhavam incrédulas para os rapazolas libidinosos". Agora o ponto em que a desonestidade nos dá aquele arrepio próprio de uma assombração um tudo nada genérica é quando, para enterrar o punhal onde julga que tenho o fígado, me confunde com a maralha, porque afinal sou apenas outro desses arganazes das letras a fazer-se valer de alianças e intrigas para tratar da vidinha. Aí está o que há de pior na liquidez de critérios que permite sempre alterar o género da fita à última hora: de um thriller passa a comédia, zás, numa típica inversão por pirraça. Assim se avalia entre nós a mediocridade contando com todos esses que, cada um pelos seus motivos, fazem fila para o programado linchamento literário, e nos roubam às evidências, negam o valor a quem o tem e até contrariam essa "coragem inútil" que tanto ódio motiva e que é, afinal, a grande cola num meio literário a que falta outro eixo. Assim, e uma vez que o campo de honra está vedado a duelos com badamecos, só resta retomar a leitura, limpar o chão com o lençol que cobriu aquele triste fantasma e sair de cena citando uma vez mais Leopardi: "Ou muito me engano, ou é raro no nosso século a pessoa geralmente louvada cujos louvores não começaram na sua própria boca. Tanto é o egoísmo, e tanta a inveja e o ódio que os homens têm uns pelos outros, que, querendo ganhar nome, não basta fazer coisas louváveis, é preciso ainda louvá-las, ou encontrar - o que vai dar ao mesmo - quem as apregoe e as engrandeça, entoando-as com voz forte aos ouvidos do público, para obrigar as pessoas, seja mediante o exemplo, seja pela audácia e a perseverança, a repetir parte desses louvores. Não esperes que espontaneamente digam uma palavra pela grandeza de valores que tu demonstres, ou pela beleza das obras que realizes. Olham e calam-se eternamente; e, podendo, impedem os outros de ver. Quem quer elevar-se, ainda que por virtude verdadeira, deve banir a modéstia. E neste aspecto o mundo assemelha-se às mulheres: com pudor e com reserva, dele nada se obtém."

segunda-feira, maio 13, 2019

"A literatura é uma guerra"


Algo de tenebroso tem de haver nesta forma de ociosidade para levar-nos a buscar um reflexo justamente nessas superfícies que mais podem desfear-nos. E o convívio com a empertigada imbecilidade que se tornou comum a quem se chega mais à letra para ficar cego para noções abrangentes (e lembre-se que “o mundo dos míopes é sempre curto, embora detalhado”) é sinal de que estamos a tentar domar algo que não está fora, mas dentro. Assim, este colocar-se a jeito, armar confusão, pode bem ser uma estratégia para cansar o animal longe de casa. Esfalfá-lo na rua para contornar a sua natureza indomesticável. Mas estas subtilezas só dá por elas um leitor com um bom arco sobre o qual baloiçar a cadeira em que se põe a ler. Fico contente por isso que me tragam esses papelinhos, para que me assoe e me inspire, nesta ordem ou noutra, tanto faz. Tenho vários tachos ao lume, e é só verter a água que já ferve de um para outro, desviar o curso, atrelar carruagens a este ânimo que terá de seguir pela linha da crueldade a toda a brida e até descarrilar. Só tenho planos de contingência. E espanta-me sempre a desproporção da estupidez face à inteligência, o modo como, entre duas hipóteses, quem se sente atraído pelo literário opta sempre pelo troço que não lhe ameaça a imaginação. Seja como for, ao ler este texto, animou-me que, desta vez, ao invés de um idiota piramidal, me tenha saído a variante do clínico de bata e estetoscópio, servindo o seu diagnóstico com uma certa frieza. A atitude da personagem não deixa de ser refrescante face à estupefacção ingénua de quem ainda não percebeu no que anda metido, e apresenta queixa nalgum balcão do serviço de defesa ao consumidor, absolutamente convertido à noção de que a humanidade são clientes. Foi-se-me fazendo lembrado um tempo em que um gajo podia encher a boca para dizer que a literatura é uma guerra e isso não era levado apenas à conta de uma enfática figura de expressão. Dizia o Vergílio Martinho que era por saber disto que a juventude que se lhe dedica (à literatura) quer sempre mais e está no seu direito. Mas nestes tempos arrumou-se com a juventude, e o que esculpe o perfil do nosso cretino cultivado é uma boa dose de cinismo na forma como trata as resilientes noções românticas daqueles que vão um pouco mais longe, ao ponto de não dizer as coisas da boca para fora. Dito isto, fico satisfeito por ver um clínico a passar os olhos pela minha ficha. Do ar circunspecto, eu gosto, e daquela distância estudada, sobrancelha arqueada, a firmeza de quem, não mordendo o isco, julga que me cortou a linha. Notam-se-lhe nos modos mecânicos a soberba própria de um janota que vem para a literatura como quem bafeja um espelho, e tira certo gozo imaginando-se vigiado pelos autores que lê. Distingue-se facilmente do impaciente mentecapto que não resiste e taca o primeiro seixo que lhe vem à mão. Este toma o seu cházinho, ainda troca duas palavras sobre o assunto com a mamã, e só então manda que lhe preparem o cavalo. Vem a trote, deixando no papel a grafia dos cascos, para que fique claro que não sujou as botas, não deixou nunca a garupa do animal, e distribui uns desdéns no olhar que lança em volta, ao tratar com vilões, dobrados e a trabalhar o duro solo das letras. Em geral, dirige-se a um terceiro, fora de cena, com a sobranceria de quem está imune ao descalabro das paixões, achando indecoroso esse corpo-a-corpo em que os das letras se esgatanham, cuspindo-se insultos, infâmias. E, contudo, o certo “é que há momentos em que mesmo a máquina mostra respeito”. Assim, agradeço a fineza que me faz, pois para chegar ao ponto que lhe interessa, achar-me movido por raivinhas “infanto-juvenis”, não foge a reconhecer a maturidade do estilo: o léxico, a gramática, as citações, as piruetas... Concede-mo para depois focar-se numa fraqueza que supostamente se acha mais fundo, como se despisse a mão de uma luva, fingindo ignorar, como convém a quem se entrega a apontamentos ditados pelo bom senso e num estilo meramente polido, que a radiância de uma coisa embala a outra, e que, em literatura, a expressão é tudo. Mas o mais curioso é como a graciosidade de sua senhoria não disfarça um raciocínio obtuso quando, para não se ficar pelo remoque, demonstra ser apenas um desses nobres arruinados que gasta o que lhe resta nas aparências. Numa escrita em que quase se vislumbra o clássico numa antiga encadernação pousado sobre o colo, vemo-lo sacudir a cinza de um juízo banal como se pronunciasse uma douta sentença. Só que o véu esgarçado facilmente lho puxamos, revelando um ser abúlico, com um toque de asma, o que já leva a que se sinta contente por conseguir ordenar um parágrafo com a clareza que se espera de um qualquer notário. Cheira-se-lhe o sangue desfiado ao longo das gerações e que só lhe chega para o vigor de quem pontua escrupulosamente frases num tom elanguescido. Mas e o que nos diz o nosso fidalgote que, afinal, trai a sua tacanhez? Conta que um seu amigo estrangeiro a viver em Portugal lhe deu nota da sua perplexidade ao constatar que também os países pequenos cultivam o seu lote de celebridades, não se ficando pelos produtos de importação. Diante da emparvecida constatação do outro, logo se apressa a corrigir-lhe a graduação, e explica uma vez mais que “as celebridades, como outras figuras e pulsões, emergem formando padrões fractais, pois surgem com as mesmas características independentemente da escala”... Como resistir se a língua que nos falam ganha esta espessura, se o orador se dá ares de sumo-sacerdote, e em menos de nada, torna líquido, para nosso benefício, que o mesmo se aplica ao meio literário minúsculo de um país pequeno e culturalmente insignificante como Portugal, possibilitando que “os egos possam ser praticamente nova-iorquinos, as invejas parisienses e os ressabiamentos londrinos, mesmo quando em causa estão prémios de tostões”? Chega a ser comovente o tom convicto como nos vem este lorde de pantufas servir uma teoria geral da angústia provinciana, a desse literato que, sem consultar o mapa, se atreve a inquietar-se, exaltar-se e convocar mil raios em questões de amor ou ódio, ao invés de exibir a probidade que se exige de uma existência relegada para um plano secundaríssimo, a de um aborígene dessas zonas por natureza esteticamente sinistradas, porque periféricas. E nisto, sua senhoria ri-se ou, em alternativa, boceja, tomando como certo que num desencantado subúrbio não se corre o perigo de ser sacudido por um grito lindíssimo. Espera-se comedimento do escriba nacional, que tenha maneiras, saiba estar à mesa, usar condignamente o talher. Está-lhe vedada a grandiloquência, seria tomada por um arroto, e faria bem em seguir o exemplo da elite intelectual que não espera da literatura mais que um jogo de convenções e de ardis, com o rabo de fora. Deixemo-nos, pois, de excessos, desse destempero de quem se julga num eixo de atracção e rejeição como se fora o centro do universo. E, com isto, percebemos porque o nosso duque desvaloriza o estilo, não vê nele uma verdadeira substância, nem entende como ali pode residir uma conquista pessoalíssima, uma pulsão essencial, porque o que lhe interessa a ele é a bagagem dinástica. Revela também a debilidade de um raciocínio que se retém como uma herança familiar, essa resignação de quem subsume o homem a um ensarilhamento de causas, e se exercita a testá-lo clinicamente. Há aqui uma imbecilidade apurada, algo que se transmite orgulhosamente de pais para filhos. É natural por isso que a esta refinada besta escape o gozo profano que alguns tiram treinando a pontaria em latas, desassossegando a vizinhança. Seria muito difícil explicar-lhe como alguns de nós vão com mais ganância às disputas por feijões. E como, mesmo sem ter em perspectiva nenhuma grande guerra, isto nos leva a praticar um estilo literariamente armado até aos dentes. De nada vale, também, citar-lhe os versos de Blaise Cendrars, mas repita-mo-los para nós próprios: “Porque a minha adolescência era tão ardente e tão louca/ Que o meu coração ardia, alternadamente, como o templo de Éfeso ou a Praça Vermelha de Moscovo/ Quando o sol se põe./ E os meus olhos iluminavam caminhos antigos./ E era já tão mau poeta/ Que não sabia ir até ao fim.” Assim, entende-se perfeitamente a estranheza que há-de causar a este nosso amigo o desejo de se ir ao limite quando nada há a ganhar. E, pela inversa, também se extrai que o mais certo é que nunca se tenha dado a liberdade de agir como se nada tivesse a perder.

sexta-feira, maio 10, 2019

Mexia & Somava


Isto de se estar na mó de cima, ter lugar cativo no conselho de administração do Esquema, é outra coisa inteiramente, outro país, e regras, leis diferentes. Pago principescamente para ataviar umas patacoadas no Expresso, enchouriçar sentimentalidades perras, mondar a sua galeria de lordes-laçarote e pôr os tarecos a seguir a pauta de uns quintais para os outros, depois, e ao ritmo estudado de quem coça a fraca memória das tias, lá vem o cordel para juntar os papelinhos na Tinta da China, sendo pago de novo, agora à laia de direitos de autor, e, finalmente, género bónus anual, ainda se arranja um prémio à medida, e em que, estrategicamente, o infante dom Mexia se desvia, não integrando o júri, para que lho entreguem a ele. Mais doze... e logo mil!, caem no bolso deste patudo, soma, segue e até tilinta. Bem queríamos falar de outra coisa, de outra gente, mas quando um gajo tira folga, tenta inspirar outros ares... they pull me back in again.

quarta-feira, maio 08, 2019

A cólera de não nos terem dado os deuses verdadeiros inimigos com que brincar


Que dores de dentes me dá tudo isto... Só mordendo. Podia rangê-los em silêncio, imobilizar-me voluptuosamente na inércia, devaneando como se faz para aí, gracejando sobre o facto de não termos sequer um verdadeiro objecto de raiva. Pois não os tendo, creio que às vezes o melhor será farejá-los para fora da imaginação, criá-los a partir de seres que aí se postam como espantalhos. Há aqui um passe de ilusionismo, uma batota, uma burla, mas a verdade é que nos dói. É de facto uma miséria, uma falha terrível que se acha a certa altura, uma falta de meios por parte da existência, e nesses momentos desconfia-se de que houve desleixo nesta porra. Que grandiosidade vertiginosa no universo, mas depois, indo ao detalhe, que vazio se espreita no fundo das coisas. Admito que, em casos assim, o abate, na falta de uma rima melhor, ainda possa ser uma solução. Cansa-me o Fialho, a falta de vigor deste nabo que não tem nem a consciência da honra que lhe faço. É de uma lisura aquela cabeça, para não falar daquela prosazinha sem osso nem nervo. Vou buscá-lo ao buraco dele, levanto-o, saúdo-o, sacudo-o, enfio-lhe umas taponas a ver se o liberto do pó, se o arranco àquela esclerose mental, e nada; queixa-se como se implorasse que lhe permitisse ser só outro velho que prefere ficar na cartada com as mulas do meio literário, ir-se daqui sem dar luta. Também eu queria ter outra gente pela frente, mais façanhuda, dura de roer, umas inteligências que metessem respeito... Mas já se vê que não há mais que isto, temo-nos uns aos outros e é só. Para quê vir dar-lhe com ficções em cima, retirar-vos um botão para ir coser no casaco do personagem. Se não se importam, ou mesmo que protestem, tomo essas existências de cartão de empréstimo, escrevo na margem, por cima, corrijo. E nisto, desta esforçada convivência, tentam vir-me com exigências. Esperam uma coerência absoluta de mim, uns maus modos diabólicos. Sinto que gostariam de fazer de mim o Unabomber da crítica literária, enfiado nalguma cabana em Monsanto, a alimentar-me de bagas de goji e caganitas de passarinho, sem vir cá fora senão para mandar a literatura dinamite pelos correios, e isto para não cair em contradição com os ataques que vão saindo desta pena à paroleira promocionante de uns e umas que até já esquecem que o importante não era compor a estante, mas o acto da escrita, essa ponderação difícil, absurda, tantas vezes em silêncio. Ora, este jura que não se fica, que não aceita ser injuriado sem dar réplica, mas vem e nem ferradura tem nos cascos, como se não se permitisse senão galar as burras. A este que se espoja contente como os demais nesse lodaçal mortífero, nesse monturo fétido composto das ambições de uma gente que não deixa gosto de espécie nenhuma em quem as lê, e que tresanda a fantasias que dão dó, nesse "glacial meio desespero meia esperança", numa forma de sepultamento em vida, deixo-lhe um citação que pode ser que junto da sua descendência, se melhor misturada, talvez ainda venha a produzir algum efeito. Sobre essa forma de se ler mais do que os livros, os homens, disse Carl Einstein: “Eu só acredito em pessoas que comecem por destruir os meios da sua própria virtuosidade. O resto são meros escândalos de bastidores.” Portanto, deixemo-nos de escandaleiras, bagunças sentimentais, de todo este veneno de impregnados desejos insatisfeitos, umas figurinhas como soldados de plástico pretendendo fingir-se dignidades, dando salvas quando um morre e nada morre com ele, muito rectos. Uns bonecos que nunca foram esbofeteados. É uma pena, na verdade, o modo como andam nisto mas nada querem com a sensação de se ser esmagado, como um insecto, reduzido a nada. E esforçam-se tanto por bagatelas, por um lugar na fila, pelas senhas no refeitório onde come toda a gente. Que terror de se acabar sozinho, como aconteceu com cada um dos autores que admiram. E o Fialho até é um desses mesquinhos admiradores que se servem do prestígio dos suicidas, como se lhes pudesse vestir as peles. Pois, talvez pudesse começar por escrever num português que fizesse tremer quem o ousasse desafiar, e não rebaixar tudo a uma troca de galhardetes. Se o desaforo ainda é o alfinete que vos fura a pele, se merece por isso que se estude os seus quadros de honra, e se vos cuspo em cima, do mesmo modo poria a cabeça num cepo na hora em que venha daí uma sentença nascida de algo mais do que essa zarolha indignação. Chega-se a este ponto, com a alargada consciência do deserto que se tem em volta, e um tipo conclui: “é bom ser-se um canalha – como se, para um canalha, fosse uma consolação ter a consciência alargada de que é mesmo um canalha. Pronto, chega... Quanto a falar, bem falei eu, mas tirei a limpo alguma coisa?... Como se explica este género de gozo?”, pergunta Dostóievski, e eu creio que é uma via para um tipo refinar-se, andar à bulha, cobrir-se de marcas de guerra, nem que seja por peguilhice. Continuando a alargar a consciência dos seus limites. E devolvo-lhe outra vez a palavra: "claro que não vou furar a parede com a testa se não tiver realmente força para a furar, mas o facto, por si só, de a parede ser de pedra e eu ser tão frágil não é razão para me submeter.” 

terça-feira, maio 07, 2019

Fialho, a lombriga por excelência



Veja-se o estado em que nos chega a carninha fresca vinda do triste talho que é o nosso meio literário. Uma pobre carcaça que já nem o interesse dos abutres desperta, nem para afiar o bico, essa coisa desde sempre mal morta, e que já esgotou todo o catálogo de metamorfoses e reinvenções a ver se pegava como escritor, contraiu aquela sarna dos do abysmo, e é vê-lo aí, um que se tinha como lobo solitário, justiceiro das letras de província... Era fácil de prever que por uma malga logo punha o seu exército de pulgas ao serviço do circo Cotrim & manos, figurando enfim num retrato de família. Aqui está Fialho, "o moribundo", travestido de jovem promessa. É espreitar por cima daquele ombro para se ver o que aí vem de novo. Depois querem saber o que é feito da juventude, que foi que lhe aconteceu? Fala-se na geração dilapidada... No lugar dela espetaram estas velhas cagonas, foi o que aconteceu. Só neste país é que a juventude é tão entradota que, não se ficando pelos 25 nem pelos 30, os tem para lá dos 40, em eternas plásticas, a chupar tudo o que sejam elixires, e, assim, quando se finam é aquela conversa da desgraça, e até se diz que a miudagem hoje falece dessa estranha doença da idade avançada, trastes adolescentes de sessenta anos, que desaparecem cedo porque os deuses, já se sabe, não aguentaram mais esperar.
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O Fialho não tem ideia do que seja um saco de porrada; é até comovedor que se eleja como objecto de afeição, por tornar claro como do amor parece fazer a pior ideia. E, para nos explicar o fenómeno, quem melhor do que Camilo, que nos diz que "os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo". Trata-se por isso de um erro de interpretação para o qual o pobre leitor foi empurrado por tudo aquilo a que a vida o vem habituando. Assim, enternece-se pois lê como uma ténia, essa que "lombriga por excelência". E Camilo ainda nos ajuda a entender como, para este género de personagem, o aspecto mórbido daquilo que parasita é para os seus intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos: "confunde-se com os sintomas de graves achaques". Fica, pois, mais do que perdoado pela confusão. Mas sou o primeiro a reconhecer-lhe o benefício dessa camuflagem de sentimentos num alegre consumidor de escórias, atributo que nos não surpreende num anfíbio que tanto na prosa como no verso, por muito que esperneie, não encontra jeito de aquecer o sangue, seja o próprio ou o do leitor. Não deixa de ser verdade que não havia razão para colocar sobre ele o alvo, a não ser por nos aparecer ali à cabeceira, nessa gangrenada visão do que possa ser o novo, e que só com uma grande amputação (que não começaria nem acabaria com ele) talvez pudesse refrescar o desejável efeito de reanimação do ideal moderno de uma juventude que, em vez de continuar, viesse romper com o vício, com este cardápio de literatos que se vai lendo como as páginas de um necrológio. Mas é verdade que me dá uns apetites, e me lanço a esse prato cheio dos tentáculos pequeninos de um polvo que fez da literatura contemporânea um impenetrável, quase ilegível borrão. É certo que devia poupar-me, mas que fazer se gosto disto, prefiro enrijecer os ossos das mãos a desconjuntar estas anatomias estapafúrdias, e, assim, entrar na marabunda, de tal modo que quando sei que vai sair outro disparate, um artiguinho com potencial, fico até ansioso, corro os quiosques a ver se já chegou, e os que me conhecem este desequílibrio acham-me louco por dar seis euros por uma lixarada como a que preenche as páginas da Ler, classificados para pequenos egos encravados. E o artigo do Bruno Vieira Amaral, que nem disfarça a má consciência, a falta de justificativa, um texto só que contextualizasse, oferecesse balizas mínimas, é o exemplo acabado de quem anda nisto com o ânimo de um bufarinheiro. E ainda seria pouco dizer só que a coisa não tem pernas, nem bengala para se ter de pé. Mas anedótico é que, mais ansioso que eu, estaria o pobre do Fialho, lá veio o gajo das Caldas para tirar a foto, deu-se ao trabalho de descer cá abaixo, à cidade, como quem se aperalta para a visita anual ao médico, e logo se pôs todo feliz por contar com mais um destaque, nem uma côdea para servir à lenda, este género de ténia já faz a festa com uma mal enjorcada legenda bibliográfica. E, no caso, é mesmo pena porque nem as usuais rendas mentais, um delíriozinho piedoso, algum testemunho do tempo sustentando o elenco, mas pior, o Bruno Vieira Amaral, que costuma exibir mais brio, foi só mais outro a cuspir na noção esfalfada que por aí vai do "novo", das novidades, avelhentando-o, ajudando a empalhar a coisa, mumificá-la, borrifando-se e borrifando os seus "novos valores da literatura" desse tipo de essência que nos entra pelas narinas vindo da jarra onde as flores nos deitam aqueles esgar degolado. Mas fico feliz que este meu velho saco, onde venho há anos aperfeiçoando o golpe, está entre esses que, sempre tão ressentidos, na verdade, logo se mostram alegres por se verem chamados a ilustrar a nossa comarca das letras, em mais outro postal do nosso desolador presépio. Já não há mitos nem glórias, apenas um microondas para o caldo mil vezes requentado, e sim, como atabalhoadamente nota o Fialho, ficam mal, destoam bastante naquele retrato, o Miguel Mochila, e o Rui Lage, autores em tudo superiores ao Fialho. Tê-lo ao lado, mesmo que num artigo para encher, é como darem-se em flagelação. Enquanto os outros vão com os rostos abertos, estes parece que se encolhem ao verem-se nesta procissão provinciana reciclável, duendes entre os cadáveres mais ou menos ambíguos que formigam na paisagem. Lamento sempre que vejo um escritor de talento, uma consciência séria, em luta consigo mesma, ver-se usado nestas atrabiliárias campanhas de vendas. E reconheço o dilema: não sabe bem até que limite se há-de levar a precaução, o imperioso gesto de recusa face a um tempo em que os autores não sabem pensar-se senão como produtos. Afinal, até que ponto, se esticarmos muito o não, não acabamos roendo a própria corda, esse frágil fio que nos liga aos outros (mas outros realmente, e não estes cromos que tanto gostam de sair repetidos). Desta noção das coisas, hoje, em algum momento, todo o autor acaba por debater-se com o risco de acabar isolado, marginalizado a um ponto sem regresso, por ter ido além da conta no uso do "não", ao ponto de a sua obra ser colocada do lado de um fundamentalismo de qualquer espécie, uma marginalidade que se torna útil a estes que precisam a todo o momento de aparecer para sentir que existem, que o seu trabalho tem algum valor - e, curiosamente, não tem por isso mesmo. É, portanto, um dilema decisivo para qualquer escritor escrupuloso, a grande questão que tem de resolver consigo mesmo, consciente de que, dizendo não a tudo, e à partida, isso será o mesmo que apagar a luz de presença, deixando-se estar às escuras, não mais ser procurado, arriscando-se a viver ermitado, e ainda dando o seu melhor, como se trancasse os leitores do lado de fora da sua gaveta.

segunda-feira, maio 06, 2019

Os imortais, tão fofos


"Romance Português Contemporâneo - 1950-2010", de Miguel Real, ed. Caminho
E depois há esta obsessão das listinhas, dos pódios, a absurda tara que une e denuncia os nossos promotorzecos da livralhada, sempre com o caderninho e os pontos, as promoções e despromoções, estrelas que se seguram com grande custo, caindo e colando de novo com cuspo, e as medalhinhas que fazem de badalo ao pescoço dos vitelos. Os pastores vesguíssimos não se cansam de preencher o boletim desse 1X2 da literatice, a tentar enfiar a coisa em rankings, a vir-nos com aquela banha da cobra do "um dos mais estimulantes livros dos últimos 20 anos", espera, "200!!!", bota séculos nisso... E isto para fingir que se tem a última palavra. Na verdade, já fede tamanho desespero, essa ânsia com que o crítico de bibe, ou o caturra que ninguém lê, julga ostentar autoridade para fixar o cânone... Se ainda fosse uma lista de nomes para fuzilar! Mas não; é sempre um diploma em papel higiénico, uma comenda redigida num português de tom fúnebre, e lá vem o rol dos honoráveis, a lista encimada por alguns distintos finados (para ganhar balanço e despistar, dar ares de coisa séria) e logo resvala para esse lazareto de troca-tintas, uns tipinhos que ninguém sabe quem são projectados a um parnaso paroquial - e que fofos ficam na fotografia os nossos 'imortais'. Vendo bem, nem uma aposta séria é, mas uma lista dos convidados para as mais aborrecidas festas de anos, baptizados, almocinhos na quinta solarenga da tia Celeste. Estas listas deviam ser escritas uma só vez: como testamento. Íamos lá ver, volvidas umas décadas, e se não passasse de uma vala comum já se sabia da seriedade do bicho. Quanto aos escribas, era chamá-los a uma inspecção, questionar se levam realmente a coisa a sério, dispô-los em círculos de seis a jogar à roleta russa se quisessem publicar um livro. Quem tivesse mesmo de o fazer, arriscava que a última refeição nesta terra fosse uma bala. Uma que escavasse num ápice um furinho entre a goela e o ego. Estancavam-se logo essas vaidades gangrenadas. Assim, o leitor ao pegar no livro sentia nas mãos o peso e na alma o calafrio desse potencial acto derradeiro, tenebroso, tinha entre as duas um caixão selado ou um em que podia ter-se deitado o escritor. Mostrou, pelo menos, convicção suficiente na coisa para arriscar a vida para fazer aquele livro chegar-te às mãos. Nada menos que isso seria hoje de exigir no reino da barulheira. Haveria pelo menos duas filas: os inanes, que se coçam por escrito, e aqueles outros, que se sentem desvalidos de tudo, e sem outro recurso, seres demoníacos a quem não importa se descem mais um nível ou dois, tendo já isto como o inferno.

quinta-feira, maio 02, 2019


Que redes puxam quantos não dormem

e perdem os dedos entre nós suavíssimos,
antigas subtilezas, as mãos como sombras
de um texto que a luz fareja, abre-lhe os poros

e sopra, enfunando as velas

passam-nas pela água, demoram-se ali

até que a corrente arraste o idioma

para essa tempestade já velha

descoberta viva num soluço nocturno
do qual ainda emerge um fragmento de mastro

um ritmo que houve e derruba ainda de fascínio

novas presas neste desdobrar das eras

os ecos desfazem-se, outros ganham forças

e de uma flor colhe o vento o balanço de toda a época

como do olhar inclinado à doçura de um erro

fica a carne pontuando o canto

ervas à beira-água, um tremor que mal se sente

assim nos falam melhor as coisas através da ruína

diz-se em cacos espalhados o amante

nos resíduos de séculos que de novo cintilam

como se o desejo perseguisse a sua história

mais além da vida, e um rumor te despisse
a boca vencida arfando entre o que a terra comeu
um morto lembra-se do teu nome de menina

tornam-se mais firmes as linhas, quase apagadas

e a posição dos astros deixa-se ler

rasgando os pássaros, nas entranhas

seguindo com o dedo o céu pelo avesso

esse tom fresco do sangue nas nuvens

lembra a mancha que te arde no branco

enrodilhado nos tornozelos

e com cada passo vai soando outra nota

nos tantos quartos onde se adivinhou

o tranquilo assombro da tua nudez.

Tradução


Trata-se pois de se ter sentado procurando o olhar
o olhar da noite que o olha. Longamente o fita -
Entretanto o vidro sobrepunha imagens das madeiras claras
dos focos eléctricos e do vaso imitado antigo, tosco e largo,
réplica exausta da porcelana mais leve
que o ar,
às luzes que campânulas negras deitam
sobre a água que escurece e obscura projecta o filme
no céu fechado e húmido, poalha de chuva, jardim aéreo
vertigem do mínimo: vestígio do fulgor
Seria este o motivo light: o interruptor:
O que irrompe e fecha é o que abre e acende.
Dizes: alguém carregou no interruptor; o tempo
interrompeu-se e a noite olha o corpo do homem
que não espera nem desespera; está.
Há quem chame a isto "uma solidão", uma palavra
contudo desnecessária.
Julgas nocturno saber de noite que isso
é o que te prende à repetição de ti em que te perdes;
quando o que quererias seria talvez dissolver-te
água do mundo
Habitando a fenda, a fracção ou a fractura do tempo
voltas ao princípio; um olhar não vale o outro;
nem simetria há. E de facto não se enfrentam.
Só se encontram lá
onde um terceiro olhar os olha.
Perguntas: quem é o mundo?
será que o mundo nos vê?
nos vê ali? Ou ninguém?
Pessanha traduziu Ou Mun para um não lugar
uma concha acústica onde vibra o mundo limiar:
a água do luar: pedra, uma espécie de primavera
ou um outono de tinta da china.
Ela então disse: estava ali um anjo -
o terceiro incluído - e não nos viu, ou -
mas eu sei que lhe tocaste
porque a tua mão atravessou a minha
e isso era a noite olhar-nos aos três.

- Manuel Gusmão

domingo, abril 21, 2019


Se a terra me surgisse por partes
como sons na lista de um cego,
o íntimo tremor na superfície hoje seca
cantasse ao ouvido um naufrágio,
um tom erguendo no ar a mesma ordem
como flor antiga abrindo sem que tudo se desate
mas ate um pouco mais fundo
rompa uma veia e a vista se turve.
Tem uma hesitação mortífera a beleza,
um prenúncio, algum resto,
o modo que tinha de pôr-se à janela
e ameaçar-te como se o contemplasse
passando por trás dos espelhos
como quem veste, se despe e planta
sementes de um fruto com quantos séculos
Aquele nome que dela tão pouco tinha
murmuro-o devagar e lavo a boca mais tarde
no excessivo gosto da carne
Tomo o meu banho e observo
memorizo a sombra como se a pregasse
para estudar no caderno em alguns anos
ensaiando a receita de que se alimentou
com a pequena tijela entre as mãos
na água velha de que lume o aroma perseguido
como se a tinta mordesse de um eco os lábios,
como ter a insectos numa garrafa e agitá-la de noite
para que façam um pouco de luz,
bêbados depois de tudo ter-se acabado,
e talvez um soneto fosse a justa dose,
decantando uma melodia pela vida fora
que línguas haveria em sua volta de escutar,
portas abertas, aragens, mutilações suaves
como no mel em tempos podia ler-se
a ardorosa biografia das abelhas,
e com gestos simples, secos, pedir que chova
num mesmo ritmo sôfrego,
nos mesmos perdidos lugares
tão fresca proximidade do mundo

quarta-feira, abril 17, 2019

Elogio de João Paulo Cotrim


É difícil não escrever uma sátira, ou, difficile est satyram non scribere, se preferirem no original. Deste tempo, podia dizer-se que mostra especial carinho por canalhas. Mesmo assim seria ingénuo esperar requinte das manobras das nossas ratazanas, exigir grande elaboração nos esquemas que mantêm nas queijarias da cultura. Não faço fila entre os que se acham mal servidos. Podia até repetir o que há muito se diz de serem estes tempos obstinadamente interessantes. Se vamos ser sinceros, boa parte de nós estará com Cioran ao admitir: “No Paraíso, eu não me aguentaria nem uma temporada, até nem sequer durante um dia.” Pela minha parte, não deixo de admirar esse talento teimoso dos que se aguentam há décadas nesta zona que a peste não larga, e onde a bomba cai desde que nos lembramos, deixando tudo em cacos. Não se passa um dia sem catástrofe. Mas os anos passam e eles vão-se arranjando, provando enorme resiliência. Há aqui um instinto fabuloso, um talento para sacar a última gota de um hospedeiro moribundo. Além do mais, de que nos vale essa fita do indignado, pôr aquele ar muito consternado, agitar o leque, fingir que não se acredita. Nesta época, só deposito alguma fé nos crápulas. E sim, depois das explicações do Cotrim, se quisesse fazer estalar aquela pose do injuriado, toda aquela dignidade de quem diz que cumpriu com tudo, e até desafia os adversários a arranjarem provas dos seus ilícitos, se o quisesse, bastaria lançar sobre aquela cabecita a frase com que Agustina resume as coisas num raio: “E um crime continua a ser crime, mesmo quando ele fica submerso nas nossas pequenas fraudes de negligência e na participação numa falsa normalidade pública.” Mas não, não vale a pena apelar ao discernimento nem à inteligência, não há jeito de se fazer do Cotrim um aristocrata da pulhice, o homem não tem pergaminhos para tanto. De resto, até acho que o engolíamos melhor se se libertasse do elogio destrambelhado que incessantemente lhe tece a sua trupe de sequazes. Era bom que se desfizesse da rastejante moralidade com que se exibem uns e tantos como pais de família da edição independente. A verdade é que somos pobres. Não dá para grandes programas de engenharia social ou cultural, só dá para aguentar este motel ordinário na beira de uma estrada para nenhures, com os quartos arrendados a um bando de escribas comichosos, sicofantas, taralhoucos narcisistas, nada de muito tenebroso, o catálogo das espécies e do ranço que dá brilho a um abismozeco comovedor. Num certo sentido, e é aquilo que aqui se defende, devemos até apreciar os esforços desta congregação de badamecos, deste editor que faz um belo trabalho a resgatar para o seu circo artistas desses que definham aguardando pelo abate nos canis municipais da cultura, ensinando-lhes aquele modo piramidal de se concertarem, irem pelas terriolas erguendo a pulguenta tenda, e convencerem-se de que estão a levar a cabo uma revolução coperniciana na cultura, como defendia, aqui há uns anos, um deles. Neste ponto, vale a pena lembrar o que dizia Kafka, esse bruxo das letras: “Quanto mais cavalos tu atrelares, tanto mais depressa a coisa vai – não, está claro, o arrancar do bloco dos seus alicerces, o que é impossível, mas o rasgar das rédeas e, portanto, a correria vã e divertida.” Esta vã correria larga ecos transumantes entre nós, um cheiro de transpiração louca, e alguns até já falam disso como de um perfume, sinal do muito que se afadigam com essas utopias da patética sabujice que se refastela “numa boa”. Não deixa de ser curioso ler o Cotrim cronista, com a habitual prosa perna-de-pau, e os ombros cheios das cagadas dos papagaios que vão e vêm, e que, por uma vez, faz a defesa da sua manchada honra, poupando-nos a mais um relato do programa das festas, as aventuras de um empenhado dinamizador cultural acorrendo aos desoladores anfiteatros das nossas províncias, de norte a sul, esticando as pontas do mapa, com o “Povo” a acorrer para ser instruído pela sua equipa de neo-evangelistas. E se “o espectáculo do homem cansa”, como bradava aquele filósofo que entrou por aí empunhando um martelo, nada como esta comédia a la carte com as suas personagens roídas pelo nada e a sua incandescente euforia para nos fazer esquecer a sensaboria do nosso drama. Atente-se neste texto saído no “Hoje Macau”... Por esta hora, lá nos casinos, estão as slot machines ao abandono, e, de olhos em bico, como merecem ser lidas as lamúrias seculares de um honrado editor, está tudo a ler a crónica, e a pensar quem raio vem a ser este João Pedro George, um patusco que teima em vir investigar como se têm arranjado Cotrim e outros dos nossos providenciais mestres de cerimónia, vindo assim, este George, criar mau ambiente, lançar suspeitas sobre gente que há-de ser enterrada de pé, lembrada duas ou três vezes antes de ser esquecida, como nós seremos à primeira, uma gente que fez de tudo para libertar-nos das rotinas do palhaço pobre da cultura, para nos oferecer umas palhaçadas com ar sumptuoso. Afinal, que mal tem se nos últimos vinte anos o Cotrim soube ir buscar mais de trezentos mil euros ao erário público em contratos por ajuste directo? Até me parece pouco. Só em rações para todo aquele canzoal que o homem vai recolhendo já deve ter dissipado pelo menos o dobro disso. O George, armado em traquinas, só mostra com isto que nunca pagou jantares aos amigos. Mesmo se ainda lhe caiu nas veias alguma gota de sangue azul (diz a Wikipédia, e faz questão de repetir o Cotrim, que o tipo é sobrinho-bisneto de um Visconde), a coisa acabou tão mal misturada que o tipo saiu um grande sovina. Nisto, é natural que o editor da Abysmo sinta que o país tem sido ingrato. É pena que o escreva em vez de ter feito alguma performance lendo o cancioneiro do queixume no “Povo”. Aquelas frases todas carcomidas pela pontuação, num excesso que parece gaguez, frases que ficam soprando fininho, deixando fracas ondulações, desajeitando o idioma, como para turvar-nos a consciência. É chato que os editores que aí andam mais impantes, ao subir à letra de forma parece que descem, ficam meio tuberculosos quando escrevem. Tossindo muito, cuspindo bocadinhos do pulmão. Até dá pena. O leitor por uns momentos vacila na alta consideração que lhes tem. Mas depois lembra-se que estamos nisto pela vontade de rir que nos dá. E a pouca coisa acho mais graça do que imaginar o Cotrim dobrado sobre alguma mesa, quem sabe na margem de alguma daquelas apresentações de livros, a cabecear a bola de pingue-pongue do tédio, e a congeminar uma frase como esta: “Aliás, o mais insidioso, que me obriga a defesa frustre perante ataque soez, é o sobrinho-bisneto não afirmar nada. Insinua com a elegância do ‘elefante no nenúfar’ (aspas, ver abaixo).” Fui ver lá abaixo, não vi nada. Mas gostei da ameaça. Um tipo que estava a ler o texto ao meu lado, e que estava a ficar com pinta de chinês, por causa da prosa, ao ler esta passagem, um tanto desconsolado dizia-me: Era bom que mandassem um pergaminho lá de um mosteiro encravado algures na Idade Média a pedir de volta ao Cotrim o vocabulário. Desta já eu não me ri tanto, mas achei imensa graça quando o pobre do Cotrim, qual Bocage tentando desenvencilhar-se da sanha dos seus adversários, lá mais para baixo nos alerta para uma nova inquisição que anda para aqui montada, com um estilo de ataque aprendido nas páginas do “Correio da Manhã”, e que adora santos que “pagaram na pele o preço do dito e do feito”. O texto é uma espécie de cardápio do atabalhoamento que vai no espírito caluniado deste editor que se lembra de citar um amigo “querido”, que escreveu esta máxima digna de ser cravada à entrada dos nossos tribunais: “a honra ainda é um valor e ainda há juízes em Berlim”. E eu pergunto e bolas, há? Cotrim, o ofendido, que faz questão de nos relembrar que tem editados mais de 140 títulos, e que nem 10% resultam de parcerias, não deixa passar a oportunidade de uma vez mais puxar do cartãozinho de independente, agitá-lo nas nossas ventas, e enquanto nos perguntamos “independente” do quê, ainda nos espeta com uma esquerda de fininho, um ferrão directo aos rins, dizendo-nos que é, ainda por cima, um romântico. E, não sendo ele pai, compadece-se das filhas de George, por terem de conviver “com gente desta cujas janelas dão apenas para o nevoeiro”. Ainda solta um beijo, “com dedo de permeio”. Digam lá se não é um privilégio ver a língua esgrimida com tão sagaz e feroz desenvoltura. O honrado editor não sai de cena, no entanto, sem nos dar as últimas sobre as suas andanças com os tarecos pelos salões, e não me canso de rir da forma como os nomes surgem sempre muito próprios seguidos dos apelidos enfiados na gaiola de um parêntesis recto, para que o leitor saiba que o vínculo entre os ‘manos’ dispensa formalidades, mas também não se confunda entre o rol de personagens secundários e figurantes que vão entrando nesta metaficção. Cotrim diz-se piegas, diz que se comove com o divertimento que ele e os seus mariolas erguem. E acaba a enrascada crónica como um justo, com um poema que não escreveu, mas, até melhor: traduziu. Assim, e se não há meio de fintar a maldição, a porca realidade que nos cerca, ao menos temos este campeonato de inversões canhestras com que nos entretermos, e não há outra coisa a fazer senão rir, rir alto ao pé de muita gente. Não há maneira de fazer sentir a estas mentalidades festeiras, viciadas no programa da feira cabisbaixa, que esta porra é ainda mais triste por se tratar de um microcosmos, em que tudo afecta a todos, e a bardinagem de uns sai, naturalmente, cara aos demais. Não há meio de fazer entender que estas momices, estes jeitos de bandalho que vai a todas, este princípio gregário de se criar esquadrões para o saque dos esqueletos como se fora uma caça aos gambozinos, e o atrevimento de se enfiarem nos mausoléus, fazerem ali piqueniques, este gosto pelo pandemónio, obriga quem está de fora a mexer-se, defender uma linha qualquer, por mais recuada e mesmo que a contragosto, para que não fique de todo empestada esta condição. Está muito contente este paquiderme da nossa edição em acabar-se por aí, desfilando como independente, quando não faz mais que imitar, numa redução à escala, os compromissos com um modo de se esgotar tudo, capitalizar, empanzinar, gastar à tripa-forra. E quem vier depois que se lixe. Pois terminemos citando um poeta, este uns furos acima do que ele traduziu: “Qualquer homem poderá talvez sentir uma espécie de mágoa, ou pavor, ao constatar como o mundo e a sua história se mostram entregues a um inelutável movimento, sempre expansivo, e que só movimentos cada vez mais grosseiros modificam as manifestações visíveis desse mundo. E o mundo visível é como é, nunca através da nossa acção chegaremos a transformá-lo noutro. Nostálgicos, porém, sonhamos um universo onde o homem em vez de agir tão furiosamente sobre a aparência visível, se aplique no destruí-la”... (Jean Genet, “O Estúdio de Alberto Giacometti”).

quinta-feira, março 28, 2019

língua morta 092


A INOCÊNCIA DO DEVIR
de Silvina Rodrigues Lopes

Ensaio a partir da obra de
Herberto Helder

[400 exemplares, 100 pp., 9€]

língua morta 091


SPINALONGA
de Amândio Reis

capa a partir de gravura
de Pieter Bruegel

[250 exemplares, 84 pp., 9€]


terça-feira, março 26, 2019


Trago o pássaro de fogo num cantil
balanço-o e vibro com cada volta, as asas
o muito que se bate,
como depois o esforço arrefecendo
da água
e a cada gole estremece-me a boca,
aclara-me os olhos numa hora,
escurece-me a pele noutra,
como quem lesse música oiço-a sem fôlego
nos caules quebrados, as flores deitadas
aumentam-me a cabeça os sentidos

que dizia a chuva numa panela velha
faz muito, o vento nas ervas?
afastando a mesa, um verso
de pontaria distendida
montava armadilhas para pintassilgos
Era isto: acabava ali a terra, em tons suaves:
amarelos, azuis, rosas de sorriso carnívoro
teria uns dezassete, só depois chegam as idades
diferentes, a noite inteira
o sol dando a volta no interior de frascos
e que lâmpadas, como se nasce
saboreando novas expressões
a desordem do mundo como um lanho na carne
ter um nome dos últimos
e olhar desde aí essas raras impressões
enquanto a vida não se acaba

como a visão dela em flor de som
os cabelos escorrendo água
como do próprio perfume se sacode
e nele se move brandamente o arvoredo
Mas a pressa ainda é pouco, sigo-a
caules, salpicos de sangue ou suor nas silvas
bebendo nas folhas a gota estreita que me escapou
e brusco descrevo-a, isto circula
a flecha zumbe e o fogo espalha-se
deito a colher nas fontes que fervem
e nem me faltam crenças selvagens
a parte quebrada que do grito se volta
e fere como lâmina
um desejo de silêncio devorando os grilos
o sabor das coisas, respirando, sublinhadas
uma espécie de arte que fosse simples
como ter fome


domingo, março 24, 2019


Gostas de beber das garrafinhas pequenas, e de canções em que miúdos com o dom da velha voz se limitam a contar pássaros, te dão detalhes do céu, esse para o qual não te dás mais ao trabalho de olhar, tens dores mais antigas que tu, bêbeda, de leve, deitada na banheira, reatando os nós dos dedos, quase flutuas lembrando as intimidades que tiveste com um morto, que agora levou segredos teus para o além, as coisas que lhe fizeste, aquele corpo vagaroso, pesado e calmo como um navio, os lugares comuns, inocentes, indiscretos, que já não sabes quem os disse ao outro, e gostas de telefones públicos, chegas a andar quilómetros para usar um, e as cabines, procura-las como a santuários, descrições antigas da vida íntima de civilizações extintas, na cidade não tens nada, todos os jardins são uma decepção, estás magra, ainda há quem se lembre de ti ruiva, mas hoje só restam os olhos, grandes, frios, foste à terra e sentiste que lhe pertencias, mas depois lembrou-te a morte que conheces de menina, se não passasse o comboio duas vezes ao dia não passava nada, são lugares bons para deixar de sentir seja o que for, um vazio que de fora é confundido com tristeza, podes enfim comer o sentido livrando-te das entranhas, bastou a janela acesa esta noite para sentir que me escrevias, depois de dias fora, passei sem o menor sinal, eu gostei de ti quando eras bela, e quis-te, mas era cedo, depois foi a tua vez, e já era tarde quando me voltaste a ver, e tivemos muita pena, tu ias morrer e eu já não tinha nada do rapaz que conheceste, nunca andei no teu carro batido mas lembro-me de imaginar as estradas secundárias por onde o metias, estreitas, de terra, levantando nuvens, para ires com mais alguém, e vejo como puxas a camisola sobre a cabeça e ele te arranca o sutiã por cortesia, pois as tens tão pequenas, mas nunca foste menos que uma mulher, e se te arranjasses menos podias sempre ir com outro tipo de homens, foder com as luzes ao longe, segurar-lho como se o escuro afectasse até o instinto e não fosse claro o que havia a fazer com ele, e assim comparo-te a Eva imaginando o gozo que seria atravessar o desejo sem nenhuma indicação, sem saber como acabar, talvez os anjos te reconheçam, visto daqui, o simples passar dos anos torna-se uma feliz derrota, e quando já não sabemos dormir, adormecemos, e quando já não pensava em ti, tu morres.

quarta-feira, março 20, 2019

UM LANÇAMENTO DE LIVRO FEITO À REVELIA DO EDITOR




E amanhã? As canas estão contadas, faltando o fogo não se poupou no artifício, e garantem-nos que vai ser lindo. É o dia para nos empanzinarmos de rimas, vir mostrar o que, no resto do ano, e até por decoro, a malta esconde... Dia mundial da poesia, ah pois, até fizemos as unhas, e estamos a contar com o sol, aí, refastelado, a chupar sumos de palhinha. Já contávamos com piqueniques e recitais, cada qual com cada um buscando o poente que lhes convenha, e, em chegando a noite, tudo a correr para casa, a família toda a ler, já não Cesário, já não porque hoje o burro tem o cu voltado para o mar, prefere Nuno Júdice, assim, estarão todos em casa a ler-lhe a obra completa, a ver se a morte se esquece deles. Nós estávamos já contando com tudo isso, e irmos dumas cerimónias para as outras, não perder nada, até fazermos boa figura entre o coro de bocejos, mas eis que, de um ângulo mortíssimo, nos apanham desprevenidos: foi o Instituto Cervantes, organização de beneficência que espalha puetas de carreira e espanhóis pelo mundo, essa casa que de bom grado trocaríamos por um tasco a-espanholado, de um gajo de Olivença, que ali servisse tapas e desse refugio a sevilhanas foragidas, chicas saltando para cima das mesas do soalho sujo dos sonhos que vomitassem os bêbados no fim da noite, e a salvo das correntes desse mar grosso, sacudissem a saia, tocando castanholas... Então e como foi que a rataria do Cervantes nos veio ao queijo...? Bem, acabam de comunicar-nos (um tal de Gonzalo Del Puerto) que, numa parceria com a Casa da América Latina (outra digníssima instituição dirigida por Madame Júdice e que mais nos valia se se reformasse, senão em tasco ou cantina, talvez em casa de serviços consonantes com o estatuto delirante e libidinal das literaturas lá mais para baixo), e com o CCB, esse espaventoso antro para o género de programa cultural de se encher a gaiola de cucos, decidiram que, no fim-de-semana a seguir, dia 23, às 19h, e por ocasião do dia mundial da poesia, vão lançar a antologia “A Vida em Chamas”, de Luis Alberto de Cuenca. Então e que mal há nisso? Um detalhe: é que a obra foi publicada por nós. Editamos nós, apresentam-na eles. E o à-vontade é tal que nos comunicam a coisa como facto consumado, em cima da hora. E se o fazem é porque querem livros (dá cá uns exemplares) para oferecer a jornalistas, e que talvez se possa dar um jeito de pôr alguns à venda no CCB. CCB que, todo o dia mundial da poesia, tem lá umas mesas a vender o que parece uma amostra regional, cada ano os mesmos, dessas mesmas editoras, que nem é bem poesia o que editam, antes servem chá. Isto lembrou-me da vez em que a Vitor Silva Tavares chegou notícia, em 2013, de que tinha ganhado um prémio, e esse era mesmo especial, prémio carreira. E era dado pela congregação dos anjos que gostam de mijar e jogar uma cartada a horas trágicas na Madragoa? Não. Então, dava-o quem? Pois, era a revista Ler, mais os consultores editoriais Booktailors. Como toda a gente sabe, gente do melhor que há, amantes seríssimos dos livros (infelizmente gostam é um pouquito mais do negócio do que do ócio), mas é gente que calça maravilhosamente os saltos altos, e quanto a prestígio, têm-no para dar e vender. Nesse caso, o editor ainda teve o especial gozo de anunciar que declinava a honraria, não a recebia, coisa fácil de prever, de resto, não sendo o género de atenção que o comovesse como a outros. Não o aquecia nem arrefecia, e certamente também dispensava ter algum pinchavelho à laia de troféu a atravancar a chafarica... Mas o aspecto que aqui mais nos importa era a nota em que VST informava de que se tratava de um prémio atribuído à revelia. Tanta é a fominha de uns que, já se sabe, quem lança estas campanhas nem pensa uma quanto mais duas vezes, e para espevitar a rotina técnica do elogio-mútuo, também não supõem que haja uns que foram a correr encher-se de alergias ao tipo de gracinhas e medalhas com que esta malta monta o carnaval do beletrismo, praga que provoca o espirro a quem realmente anda nisto pelos livros e até dispensava o ambiente popular e as festividades consagratórias. VST nem contactado foi. Toma lá ó magrizela. Lembrei-me do episódio, que é bem giro, muito mais digno de se contar aos netos do que esta bandalheira de virem uns institutos assenhorear-se de uma edição com a qual não tiverem nada a ver, para a qual até contribuíram zero, manifestando, como é de regra, interesse nenhum por esta como por qualquer outra das obras antologiadas e traduzidas de autores espanhóis. E já são algumas. Estamos, assim, não apenas sujeitos a aturar a azucrinante vizinhança, ficamos a saber que agora estamos também sujeitos a editar livros para vê-los apresentados por outros, e à nossa revelia. O autor, que com toda a probabilidade, está alheado de tudo isto, há-de ser trazido de Madrid, e a apresentação lá se fará, entre outras mil merdices, mas o melhor é que se apresenta uma antologia sem nem um a aviso ao antologiador e tradutor: Miguel Filipe Mochila. Vai-se lá saber, talvez o homem até tivesse interesse em estar lá, dizer alguma coisinha sobre o trabalho que fez, mas não é importante, consideram os institutos. É outro que tem mais é que ficar agradecido. Deve ser isto um modelo novo de defesa da cultura até ao limite, à bruta, até porque a crise e a época estão a exigir medidas drásticas, e se és um desses que têm a veleidade de vir dizer que não comes deste pão, é deixar que enrijeça e atiram-to às fuças, até se te partirem os dentes.

domingo, março 10, 2019