sábado, maio 28, 2016



Coitado do poeta, habituado demais aos gatos, contava talvez ir para um céu cheio deles, à sua medida, fazer lá casa, só não contou que houvesse surpresas tão estúpidas como a morte. Meteu-se-lhe no colo uma neta postiça e oportunista, quando morreu deu com ela montada no caixão, a impedi-lo de ascender pelo fio de miados que o chamavam ou de descer aos bichos e limpar-se dos restos piores da vida, teve de ficar de múmia na boca da neta que queria muito falar alto ao pé de muita gente. Começava as frases sempre com o: "Como dizia o meu avô..." e lá ia ela ladrando as coisinhas que lhe convinham na sua vida de apresentadeira.

quinta-feira, maio 26, 2016



Às vezes um leitor, assim, empenhado mas mediano, dá-se com o espanto avassalador de um clássico, e porque não fazer notícia dele, tirá-lo do óbvio e chamá-lo de novidade, essa novidade que é sempre quando alguém pela primeira vez o abre, e treme e diz: então era isto, tinham razão os que falavam dele alto e com toda aquela comoção. Porque o clássico não enternece o tempo, ele cavalga gerações, quase humilha o presente. E assim proponho como se fosse uma coisa de ontem, qual, desta manhã, não, vamos ser sinceros, de amanhã, de tantos amanhãs, um clássico que, para quem não o leu, caiu como uma pedra apontada à nossa cabeça por uma mão futura. No caso, a de Machado de Assis. "Dom Casmurro" é a adolescência ao quadrado, cheia de subtileza, reescrita com um sabor de quem envelheceu e voltou, uma magistral e nostálgica singeleza. As frases às cavalitas umas das outras, dispondo um recreio mágico nesta língua. Coisas simples, afinal, mas alinhadas sobre uma capacidade de aproveitamento tal da vida, um somatório das suas alegrias mais breves, que, em poucas páginas, nos sentimos soterrados pelo encanto de umas também poucas personagens com as suas vidas casuais, dilemas ordinários, mas uma tão profunda, meiga e deleitosa inteligência soprando com tal perícia para o furo sensível onde nos sentimos humanos que esta se torna a história completa dos nossos afectos. E indo a meio, o que vos diz este leitor, às vezes um tanto desconfiado das receitas dos clássicos, é que lhe faltava este empurrão. Se houver mais destes eu farei do meu horizonte uma coisa vertical: uma pilha de livros que faça a minha vida erguer-se como uma tremenda ruína do futuro.

quarta-feira, maio 25, 2016



Dias
úteis
em que o couro das mãos exibe greta
e o rosto se fecha mais um pouco,
as esferas bailam como criança em ventre
e o balde retorna sêco
do fundo obscuro do poço - exibe
o nada que se entorna de ruínas, moinhos
reduzidos a pontuação de paisagem,
vírgulas de pão

Úteis
juntam-se ao côro,
a este canto alçado, esclarecimento de ravina
cada vez mais débil circadiano pulso,
porque até para mover em vão um músculo
há que beber uma porção de água,
construir um pródigo
tijolo-a-tijolo de abóbada

Um definitivo
afastamento celeste

- Luís Pedroso 
inédito

Cadernos do Subterrâneo LXXII


terça-feira, maio 24, 2016

Inês Fonseca Santos e a cartelização da poesia



Vai ser assim por muito tempo. A conversa de roda da poesia, dos novos poetas (?), vai descer até não haver mais queda possível. Uma gente que vive a respiração assistida da breve atenção que soma, levada pela força desgastante dos hábitos, da mais pobre reciprocidade, gente-tropeçante-de-ternura, caindo uns pelos outros abaixo, caídos aos montes por todo o lado, a assenhorearem-se de todos os recantos, provocando uma diabetes mental, transformando cada página de atenção em mais uma extensão do salão de chá, apenas a água suja das coisas, um eco retardado do momento inspirador, e os que não precisam, não se sentem parte, os que não querem, a tropeçar mesmo assim por não haver volta a dar, a sair pelo outro lado de um tempo servido frio, funcionário, em que no lugar da coisa vem a sua versão miniaturizada, esta sombra afectiva que lhe ocupa o lugar. Correntes de favores, legos de egos, castelinhos embevecidos para efeitos decorativos. Escrevem sempre com a desculpa da bóia, do salva-vidas, confessam a perda e insistem nela, vidas que se querem o mais públicas possível e tão sem gosto para não provocar o menor arrepio, vidas que sabem a sequências de números. Em vez da poesia fica esta delicadeza que adia a vida, que, em sua homenagem, lhe põe a almofada sobre a boca e a adormece pela asfixia.

Que isto não é sério, dizem em vossa defesa, que não tem toda essa importância ou sequer consequência, garantem enquanto patrocinam com o like, mas vamos ver quando aqueles que vos sucederem derem mais passos no mesmo sentido, forem mais longe neste vício sem nenhuma vertigem, redundando circularmente, vamos ver o que dizem quando não se puder respirar, e o tecto ficar tão baixo que já um tipo não se possa nem pôr de pé, quando a ira for multada, quando qualquer palavra contra a piroseira enjoativa que tomou conta de tudo fizer de ti ou de ti um simples inimputável, alguém que não merece a palavra, e venham depois queixar-se do mundo lá fora, falem-me do capitalismo e outras merdas mais cósmicas e sofisticadas, não meçam os passos em volta, não repitam que isto está tudo ligado, que começa aqui, no um para um, nessa distância que se diz que é a mais curta entre duas pessoas. Ainda é a poesia, certo?


Cheiro do que partiu, deixou a intimidade escancarada, infecta, um tumulto ao longe, como um pingo repetido, soluçando, juntando no saco o eco todo da casa, a voz que sai, que alguém ultimamente fica ouvindo, e pendurado no alto, esse fruto de sombra prestes a cair e derramar na memória um gosto de azia. Os gestos que enfim ficam donos das coisas, tudo são colheres, mexem, ficam a meio entre o mundo e a boca, é impossível dizer o que se passou, este retrato move-se, um desastre sem coragem nenhuma, fica apenas espreitando, gerindo, dando-se corda. Um clarão que houve, uma nuvem-cogumelo presa na memória, não de coisas que dizem respeito a todo o mundo, mas algo sob a pele do tempo, de uma noite que não deixou nascer outro dia, atirou a cópia de uma cópia sobre a mesa, assim, infinitamente, até que as coisas ficassem numa tal incerteza, coçando-se, inquietas nos seus contornos, as cores indispostas, com tonturas, desbotando, a vida dos outros não chegava para convencer, se alguém dava uma risada parecia uma coisa gravada, notava-se a dificuldade da fita para aguentar esperando ser rendida por outra ideia, há mais gente desconfiada, todos se olham na cara e o olhar só fica às voltas, teremos visto o fim, não houve de facto explosão nenhuma que avisasse, mas nem um choro, apenas a cola secando, a morte como se fosse o papel de parede lentamente descolando.

segunda-feira, maio 23, 2016


Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.

- António Ramos Rosa

domingo, maio 22, 2016

Laura Liuzzi


DE UMA MANHÃ

A praia sob a bruma
na primeira hora de luz
é um Turner improvável.
Não teria esse véu gris
sobre a baía que desperta
plena de certezas e pulmão
se não se ouvissem os bugios
no coração fundo da mata
a sugar a noite sem o mel
do dia, seca e sólida
arranhando a garganta
ancestral que anuncia
que quer nascer, quer nascer.


RETRATO DE SZYMBORSKA

Mesmo com os olhos
semicerrados
nota-se, atrás da nuvem
do cigarro
na leveza dos ombros
e pescoço esguio
na colher que descansa
sobre o pires
na dobra folgada
da manga da camisa
nos livros apoiados
sem pressão
na estante e na estante
quase vazia
atrás de si, ela
moça arguta
que sorve o mundo
como quem sorve
por hábito
o café.


SUCESSÃO

1.

Nota-se a instalação do tédio
no modo como os dedos do pé
se encolhem como minúsculos
animais marinhos à suspeita de
visitas. As almofadas parecem
zangadas e o jornal não tem
modos a essa altura da noite:
se esparrama, não deixa espaço
para o que não é notícia, embora
não haja assunto para preencher
o vazio que a música deixou
ou ao menos sobrepor-se a
o peso dos pequenos rumores
dos corpos na sala: a respiração
que não cabe na boca; os estalos
dos ossos acordando no sofá.
Ninguém parece ouvir lá de fora
as baforadas das ondas na praia
o esforço de gravidade da lua.


2.

Silêncio não é ausência de som.
É uma sintonia dos ruídos tal
que eles não se distinguem uns
dos outros. Se transparência não
é ausência de cor, mas passagem
da luz, silêncio é a passagem do som.


3.

A noite esconde o mar que esconde
os barcos que esconde os marinheiros
mas ninguém tem os olhos fechados.
Todos se espreitam e se ouvem
sem sabê-lo. Os livros aparados
na estante dizem o que dizem
quando estão fechados? Estariam
apenas em silêncio?
Não há palavra que toque a coisa
mas há palavra que a invente.
Atravessar o vazio da sala de meias
pode ser a solução para vencer
a âncora desta noite porque todas
as noites parecem não ter fim
até que venha o sol anunciar
que nada é tão complicado
quanto parecia. O dia sucede.


ESPIÃO

Não são mais os motivos da noite
mas os imperativos do dia
que escurecem as almas.
Ainda temos medo, Carlos.
Falta tudo aos homens
mas o que pensam que lhes falta
é o que lhes excede:
as armas contra a solidão
são sua máquina e sentença.

Há dias dou voltas em mim mesma
minha revolução particular
sobre o chão de chumbo da casa
onde se escondem seres microscópicos
às gargalhadas e aos borbotões
se multiplicam. Silenciosas explosões
deformam o rosto dentro da noite.

A percepção da chegada dos dias
lentos, esquecidos de suas tarefas.
Migalhas sobre a mesa: país estilhaçado.
Os homens espiam os homens
como corpos dados à autópsia.
Insuficiente é a investigação das causas
se viver é também um fenômeno.
Raro.


LINHA

Durou uma penca de anos
silencioso como um naufrágio
e tão fundo desci que hoje
tenho guelras e essa couraça
prateada refrata as lanças
solares que ora me embotaram
os olhos — agora, me acendem às três
horas de uma lenta madrugada.

Tenho poucos recursos: um par
de meias, outro de óculos.
Uma tangerina pela metade
para ver o centro da terra
o planeta de isopor, aquários
com miniaturas de tartarugas.
Parcos recursos. Pequenas
metáforas na concha da mão.

Existe uma linha invisível
de uma cor extraordinária
ela se enrosca nela mesma
e nas outras infinitas linhas
que trazemos presas aos
nossos calcanhares.

Se o corpo é a casa e o mapa é o corpo
formamos um improvável arquipélago
flutuamos ora perto ora longe
sem caixa de correios ou endereço
apenas a correspondência possível
entre o silêncio de ilha e os seus pássaros
remotos.

Explicação necessária


Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
                                         Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro. Não sei que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.

- Yannis Ritsos
(Tradução de Eugénio de Andrade)

quinta-feira, maio 19, 2016

GOMORRA


 Texto publicado no jornal Lisboa, Capital, República, Popular


Cultura 365, cultura q.b., cultura 86-60-86, cultura e pluribus unum, cultura palito nos dentes, loja dos trezentos, cultura prêt-à-porter, cultura-rosário, paizinho-nosso, avé-maria nas baixezas, cultura defunta, culto da urna... Aqui fica uma adenda ao obituário a que todos andam tão dedicados

Tenho na cabeça as linhas gerais de uma esplendorosa diatribe. Isso e alguns garfos espetados em sítios estranhos. Levo a mão onde me dói e sempre, com surpresa, lá encontro outro. De todos os feitios, diferentes tamanhos. Alguns ferrugentos, de lata ou pobres metais, alguns quase de pau, outros de ligas nobres, com incrustações, autênticas relíquias. Alguns muito à superfície, outros em busca de órgãos vitais. Onde me dói percebo que alguma coisa está fora do lugar, pressinto uma fome inimiga.
Comecemos por aí. Andamos demasiado certos da importância da cultura. Da sua vitalidade essencial e capacidade transformadora. Pela minha parte, não posso fazer outra coisa senão levar as suspeitas a passear, distribuí-las, deixá-las farejar, fazer um mapa ciscando os cantos, e ladrar quando temos diante de nós um ajuntamento de pessoas. Sobretudo se as apanhamos em poses exclamativas, claques viradas sobre si mesmas.
Dá-me a impressão de que se vê cada vez pior o mundo daqui. Eu vejo-o mal ao perto e ao longe, tenho necessidade de ir lá com as mãos. O frio dos gestos próprios pressente inicialmente um certo calor, e logo algo de viscoso. A maior das minhas dificuldades são as coisas que se dizem. As grandiosidades com que andam na boca. Então quando me vêm com a ética... Estivessem calados e não daríamos por nada de muito estranho. Mas começam a falar e anunciam tais milagres que nos deixam a salivar, revirados de expectativas, ao ponto de ficarmos siderados de entusiasmo.
Passando um quarto de hora, logo essas lindíssimas intenções entram em decomposição, descem ao seu inferno e largam um cheiro que elabora uma certa náusea, se enturma entre as famílias da peste.
A sensação que tenho de há uns anos a esta parte, andando para cima e para baixo, atravessando-vos, e depois de ter posto as mãos em muita gente (podia dizer nomes; o mais certo era que dissesse o teu), de ter amassado alguns, é que todo este carnaval a entupir a avenida é uma forma de evitar o assunto. Dir-se-ia que odeiam todos a cultura. Uns muito, praticamente não têm outra ocupação, outros mais distraidamente, até sem querer, seguindo a confusão, pagando para ver, e vendo, aplaudindo até, porque os outros também, e não quiseram ficar de fora.
Ouve-se falar dos “outros” e lá vem a carroça infernal puxada por essa mula que o Sartre pôs no nosso caminho. O importante é notar o quanto esta ideia que fazemos dos outros é um pouco já da ordem do capitalismo, esse modelo dos cínicos. Basta acreditar que na base somos umas bestas e que, no fundo, não há volta a dar.
Para simplificar, venham os números, a sua eficácia exaustiva. Os números que hão-de ter tudo, que não precisam de se explicar porque têm o selo de garantia do que bate certo, do que se soma e subtrai, dobrando ou desdobrando, a razão muito útil das evidências. Mais é mais. Dois e dois nunca dá outra volta que não passe pelo quatro. Agarrado firmemente a esta certeza, e contra o campo de batalha onde se enfrentam as dúvidas, começa a maior das estupidezes do homem, a maior das suas covardias.
A cultura odeia inteligências e espíritos calculistas. Diz-nos tudo o que nos falta. Mundos de coisas desde logo inumeráveis. Pode-se fazer contas dentro de uma fantasia tal como fora, mas nenhuma equação ergue uma só coluna nos territórios da imaginação. A toda a hora a cultura é um martírio para os espíritos cínicos. Porque orienta contra a inclinação das coisas. A sua natureza é a do atrito, põe bombas nas partes íntimas da autoridade. Diz-nos sempre que está tudo errado, a começar pelo que bate certo. Dois e dois só dá quatro se não tivermos mais nada a acrescentar.
A matemática não faz a mínima puta de ideia do que estamos a falar. E ainda não chegámos às artes, nem, muito menos, à poesia. São assuntos complicados cuja natureza é descompor-nos. Mas sem explicarmos muito – mesmo porque não há ninguém para ser convencido –, digamos que o capitalismo é a coisa mais sem imaginação sobre a qual os homens já chegaram a acordo.
Há muitas maneiras de ver a questão, mas de uma forma ou de outra chega um momento em que um porco aparece feito eminência e garante-nos com base em minuciosas aritméticas, intermináveis folhas de cálculo do excel, que para nosso bem precisa de nos cagar em cima. Em troca, é claro, pagará (bem negociado) o nosso preço.
Chegamos a casa a feder e lavamo-nos. Escovamos com o maior afinco: por baixo dos braços, das unhas, nas pregas e orifícios, todos os lugares ofendidos postos a brilhar, e depois sentamo-nos, cheirosos, impecáveis, em frente à televisão ou outro ralo animado para distrair a vida que se escoa e, mesmo aí, comemos. Bem vestidos, bem alimentados.
Só que a merda entranha-se-nos. Porque por melhores hábitos de higiene, do que se trata é do tipo de porcarias que nos despejam em cima. Não há nada de errado com o capitalismo, está tudo certo. Só não espera nada de bom de nós. É uma disciplina sobre o nojo, e precisa que nos encaremos como um mais um mais um, ou antes, outro e outro e outro... Todos somos outros. Tudo começa e acaba num só. O mundo é visto a partir daí e a morrer aí. De resto, passamos a vida a tentar recuperar dessa inextinguível solidão para que tudo empurra.
Já a cultura, essa, não aceita parcelas, as coisas participam umas das outras, e alguém é tão mais culto quanto mais for capaz de detectar essas cadeias de relação espantosas e que, estando erradas, alargam a realidade. O tempo não tem tanto que ver com um antes e um depois mas com um ritmo. A cultura diz-nos sobre o desprendimento, sobre a escravidão voluntária dos hábitos que nos apoucam. Fazemo-nos cães das nossas circunstâncias.
Pior é que seguindo esta linha a cultura não é mais que um horizonte que recua a cada passo que damos, para nos satisfazer. Um dia vamos todos ser artistas. Actores de uma peça de um e para um só. Todas as noites com lotação esgotada. Lá estaremos, cada um de nós frente a si mesmo, parado, suspenso do fio de baba ao canto da boca, como quem bate palmas a si mesmo. Vítimas radiantes dessa vaidade que obriga a uma pulverização das atenções.
E estamos tão perto disso. A vasta razão produtiva, o forno de cada um bulindo, as editoras xerox, a proliferação de iniciativas, projectos, audácias frívolas, estes grupos teatrais para emboscar os familiares e amigos, mais alguns levados ao engano, alguns mais acidentalmente, que não sabem ao certo o quê, mas precisam, falta-lhes qualquer coisa. Querem juntar-se, como em tempos um tipo ia juntar-se ao circo. Vêm ao espectáculo e ficam até ao fim, ao fim do fim, com ar songa para cumprimentar os artistas, o produtor oferecendo-se a tudo como a um casting.
Vidas inteiras à espera de serem descobertas. Cada um em busca de ter as suas ambições legitimadas, diplomadas e emolduradas na parede. Já não uma cultura da excepção, mas da absoluta diversidade, todos flocos de neve únicos, uma encenação do espectáculo na escala de um por um, em que os outros são esse inferno que há que subornar um a um, para que aceitem fazer de figurantes, fazer número, fazer de público, audiência, auditório, um tribunal da mais ínfima, da mais falsa instância.
Estamos perdidos uns para os outros. Assembleias histéricas de comiseração. E a realidade que espelhamos é o nosso antagonista. O mundo sente-se inteiro do lado de fora. E nós trancados, chiu, cá dentro, que belos conspiradores, que planos, que força de vontade. Só derrotados pelos números. Incapazes de admirar mais a alguém. Nem falamos de narcisismo, falamos já de afogados. Esta perseverança doentia, este jeito doseado de querermos aos outros. Não vejam nisto qualquer forma de pessimismo. Estou seguro de que estamos no bom caminho. Aos poucos vamos pondo fogo, Neros tristes olhando da janela de cada quarto enquanto tudo arde. Não creio que a este incêndio de pequenos egos, vaidades insaciáveis, possa resistir seja o que for. A maior de todas as imoralidades é o desinteresse, a indiferença, o vazio que tira do prato da paixão.

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É contra-intuitiva a ideia de que a própria aceleração produza uma colisão que não acaba, um desastre de proporções que não chegamos nunca a poder admirar porque estamos imersos nessa debandada, num ritmo frenético que copiamos com o sangue.
É-nos difícil conceber que a velocidade possa significar outra coisa que não o progresso. Mas, como notava Blake, sem a oposição, o jogo de forças contrárias, nunca chega a haver progressão.
Esta besta locomotora agrega os nossos impulsos, consome-os no seu fôlego, tornando-nos uma espécie com as emoções atreladas a uma bateria ansiosa, só vindo à tona do cansaço para respirar assustadamente para logo mergulhar de novo e tomar o lugar nesta corrente incansável. Uma composição que atravessa as paisagens e as mistura, dissolve umas nas outras, criando uma vertigem que coloca a atenção de joelhos, encadeada, comungando aflitivamente dos fenómenos de que participa com a incredulidade e o encanto das vítimas.
Não há desembarque, tudo muscula esta mecânica delirante. Das janelas observamos uma explosão serena. Como nunca ficamos para trás, o rumor da destruição não nos convence. Receando falhar uma batida, empregamos inteiramente as pulsações, timoratos, registando tudo, incapazes de conservar mais que a sensação de uma constante descolagem, uma ausência ou atraso exasperante. Este comboio fugitivo deixa a própria vida para trás. Humilha todos os horizontes.
O gesto de um homem é imediatamente assumido por centenas, milhares, uma reprodução de uns (1,1,1) seguidos de cadeias de zeros (000) até à exaustão. Aqui, a moral dos seres actuais descorporiza paixão e acção. Quem diria que o pior dos nossos acidentes seria sermos incapazes de travar. Que a máquina se impusesse não por uma inteligência artificial capaz de consumir os nossos melhores instintos, virando-os contra nós, mas simplesmente dominando a maior de todas as nossas ficções: o tempo. Esse deus indisputado.
Entontecidos, os sentidos não nos dizem nada. Agarramo-nos ao freio e ele só nos diz que nos faltam as forças. Para sair é preciso saltar a meio do andamento cada vez mais intenso desta alucinada centopeia atropelando tudo, desta galé imensa cujos remadores com o impulso dos braços secam o mar. Cada instante de indecisão, hesitação, reunindo coragem, só oferece mais tempo para que a aceleração se torne ainda mais persuasiva, a sua fúria mais temível. Saltar é arriscar ser esfolado vivo antes que o corpo consiga recuperar o chão. Quem sai fora torna-se invisível, quem segue dentro permanece cego.

 

segunda-feira, maio 16, 2016

domingo, maio 15, 2016

quarta-feira, maio 11, 2016

Cervantes, por Miguel Filipe Mochila



(abre a imagem noutro separador para a ampliares)




a chuva tirou-lhe a roupa aqui
adianto o pé, levanto um pouco
de terra, persigo a alça do
vestido
digo-me que se o sangue falhar
não estarei longe

olhei-a com toda a
luz e toda a escuridão que tenho

se quisesse dizê-lo mais alto
o difícil seria não ter por onde começar
que estas coisas nascem e morrem
sem um nome

por esta altura bebi o chá até ao fim
o último cigarro caiu-me dos lábios
quando dormia, o fogo levou
o que quis, por esta altura
chorei como todos fazem
nas paredes, em letras tremidas
recuperei o que perdi
mais para sentir nos ossos da mão
desenvolver-se a dor

o vento voltou
e o que juntei já se espalhou
nas intimidades do arvoredo

daqui até ali a rua tornou-se impossível
os canários insultam-se de janela
a janela entre os lençóis
nos estendais
agitando-se quando uma insinuação
marinha faz a cama no ar

cansado de passar ferido
pela sua música canalha e erudita
hoje é-me claro como tardando ou não
os pássaros acabam por domesticar-nos

ao passo que do seu reino mudo o gato
com a lenta vertigem do olhar
anota os defeitos da vida
e ao afastar-se deixa a impressão
de um verso cuja ordem mágica
não conseguimos retomar

ninguém esperava do inferno
que fosse só isto, tão despido de exageros
do espavento do terror
não a mesa posta um relógio alto
e o pão partido com um tipo de gente
que parece copiada à vista
com uns olhares inventados
cheios de uma estúpida bondade

outros ruindo de parte
com passos de quem limpa as ruas
levando para dentro coisas frias
coleccionando vestígios
de que falamos
para nos parecerem reais
todas essas histórias que se calam
connosco dentro

eles escrevem poemas
em que falam contra a poesia
desgraçam-na com todos os pormenores
deliciados com a mais baixa biografia

como exigem pouco da realidade
e queixam-se que hoje não se lê poesia
mas ler o quê?
esse tímido namoro à morte
que a cada dia morrem como gado
atropelado fugindo
do menor prenúncio de guerra

as estações fogem umas pelas outras
as folhas caindo e depois
nem um barulho,
juntam-se, enterram-se a si mesmas
outras enegrecem, viram barcos
e de cada tanque fazem um porto
mendigando um rumo às estrelas

mas nós já nem com o mar contamos,
lemos no seu silêncio
um final terrível:
os navios não zarparão,
as ilhas remotas não existem


para não se ser arrastado para lá de si
um tipo arma-se daquilo que lê
contra o mundo esse tráfico
de nuvens injuriosas
num céu que sobre nós se partiu

o dia é ganho marcando uma página,
alguma frase que nos sirva de apoio
mesmo depois de mortos

os dias encurtam,
o sol larga os ossos pelo caminho
a tarde vem-se desabotoando
as noites já chegam de joelhos
e abatem-se nos nossos quartos

fico no escuro com um gesto
e dois olhos ou mais
a respiração silenciosa atenta
devorando fantasmas
guardo sons que trabalho, racho
o meu sino devagar

nunca mais verei um beijo
de perder o rosto a voz e o nome
sinto apenas de longe o cheiro a sabão
uma vela reabrindo o corredor
com um cuidado descalço
vertendo o silêncio
de um cântaro para outro

coisas que se repetem de uma ponta
à outra da alma
a distância que nos cabe segurar
para que deste mundo não se diga
que não houve mais quem lhe escapasse vivo