terça-feira, janeiro 15, 2019

Pedra de Canto


Ainda terás alento e pedra de canto,
Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,
Para cantar em sílabas ásperas o canto,
De rima em -anto, o pranto,
O amor, o apego, o sossego, a rima interna
Das almas calmas, isto e aquilo, o canto
Do pranto em pedra aparelhada a corpo e escopro,
O estupro de outrora, a triste vida dela, o canto,
Buraco onde te metes, duplamente: com falo,
Falas, fá-la chorar e ganir, com falo o canto
No buraco de grilo onde anoiteces,
No buraco de falso eremita onde conheces
Teu nada, o dela, o buraco dela, o canto
De pedra, sim, canteiro por cantares e aparelhares
Com ela em rua e cama o falo fá-la cheia,
Canteiro porque o falo a julga flores, o canto
Áspero do canteiro de pedra e sémen que tu és
(No buraco do falo falaste),
Tu, falazão de amor, que a amas e conheces.
Amas a quem? Conheces quem? Pobre Hipocrene,
Apolo de pataco, Camões binocular, poeta de merda,
Embora isso em sangue dessa pobre alma em ferida:
A dela, a tua, cadela a tua pura e fiel no canto
De lama e amor como não há no charco em torno,
Maravilhoso canto só de soprares na ponta a um corno
E logo a sílaba e o inferno te obedecem
E as dores íntimas dela nas tuas falas se conhecem,
Sua íntima vergonha inconfessada desponta,
Passiflora penada, pequenina vulva triste
Em teu sémen sarada e já livre de afronta:
O canto em pedra e voz, psicóide e bem vibrado,
Límpido como vidro a altas horas lavado,
Como o galo de bronze pela dor acordado,
No amor e na morte alevantado,
Da trampa mentirosa resgatado,
Como Dante o lavrou em pedra de Florença
E deus to deu de amor põe ela no atoleiro?
Flor menina de orvalho em amor verdadeiro?

Ainda terás amor e pedra de canto,
Fé nela e sua dor de arrependida e enganada,
Ou, enfim, amor a fogo dado e perdão puro...
Eu quero lá saber! Amor de Deus no canto
De misericórdia e paz, mesmo para os violentos
Da violência violeta, a breve miosótis
Ao canto unida e em tuas lágrimas orvalhada?
Cala-te e humilha-te como ela,
Ou é maior do que tu no canto
E a esta hora só bebe talvez água salgada,
Oh poeta de água doce!

Mas, antes de calar espada e voz, responde:
Ainda terás alento e pedra de canto
Para cantar estas coisas,
Encantar outra vez a donzela roubada ou niña morta,
Enfim, o teu amor?
Dize, lá, sem-vergonha,
Homem singelo:
Pois se nisto me mentes nunca mais a verás.

(Quem fala?)


- Vitorino Nemésio

segunda-feira, janeiro 14, 2019

Vaga canção por desejo desferida


Não pudesse senão como uma sombra
balançar-me nos flancos da luz
recolher na pele quantas pedras de mim façam
a montanha, arvorar num altíssimo estrondo
e com quantos gatos na rua
cheirar-te, ainda me coso e ao nome
por dentro, nas bainhas como sementes
somos um do outro o silêncio entre notas: fumo, pássaro
a canela e a camisa de noite, de molho
como uma frase presa, onde te tenho cativa,
um esboço vivo,
e nem vejo o que a carne possa dar-me mais
do muito que te fixo, cerco, colho pelas costas a rosa
roço-me nos espinhos,
e se deixo pela terra as pétalas, as partes,
parece que entendo e sinto o que me escapa
vejo que nem o escuro pode com isto
forço-me, e sou eu o devorado 

II
É natural que sentem os amantes
à mesa dos canibais
conhecedores dos sagrados prazeres,
dos livros maduros e do que torna admirável um corpo
as provas todas, do intenso do cheiro
ao fragor sujo de uns dias sem se lavar,
da curva que tens entre as linhas principais
sinto-a puxar-me a corda, e tal
como a fome se enche de pão e queijo
faz o mesmo o desejo depois de estar às janelas,
tirando o mais da boca dos outros
mas uso mais certo lhe damos farejando de noite
os quartos mais fundos
descendo por degraus infinitos onde
por mais alto o gemido ou do tanto que lhe bata
nada se escuta, não existe já mundo lá fora  

III 
Colhe um fruto que se tome por íntimo dos astros
como de um rosto há imagens que se cortam à faca
e arrancadas as portas aos gonzos
cantado todo o eco te interrompe
tanto do que te chama aos níveis inferiores
onde o sonho se reúne ainda, intacto
seca-o, tira-lhe o gole, ou aspira e bebe do odre vazio
um canto mudo que te atravesse a cara, e a casa
como o raio vagabundo de sol que da flor no copo
escuta a trama inteira,
só um sopro ou a música de quem mastiga,
doce truculência, trabalho da saliva dentes e língua
o que pudesse surdo ainda perceber
patadas, beliscaduras, cheiros vivos que se trocam
as desgraçadas cores que do mundo nos dão o grito,
uma selvajaria mas de honesta proporção
e por mim bem posso morrer de um ritmo
como monstro de assombros que ao vento ainda
inspire uma última volta

IV 
Fosse o soldado de uma companhia qualquer, pouco interessa a época, seguindo-os até à fronteira, com que ordens, e por que batalha?, sem rumo, perdido com pensamentos, colhendo ao acaso, com a bebedeira do cansaço, detalhes suaves, como um calmo morto, encantado do seu pobre destino 
e para quê isto?, pois por uma voz dessas que
mortas têm o melhor alimento
o vinho que se bebe do elmo de outro
com lembranças, sangue seco
e a demora inquietante dos seus passos,
outros vultos sorvidos num ápice
e de que febre as sensações, ares roucos, lumes frios,
caules dobrados e os caminhos mordendo a língua
refúgios onde luzem fungos comestíveis,
roçam-se as ervas altas na barriga do vento
e como tudo se sente próximo, respira
uma água que de um cometa antigo tenha sorvido
o desalinho dos cabelos, tomando-lhe o gosto veloz,
o desastre decantado, o tremor e a nuvem,
ou a natureza numa amedrontada insistência
cercando-o, como se o saqueasse
alargando a ele a sua vaidade silvestre 

Posso aprendê-lo,
se chove e oiço sem me mexer tanto
ou me dá a sede do que é bebido na terra,
vertido por uma longa memória
até que a sílaba se derrama,
se derreta o ouro com o que num pote fervi
acabando sobre a forma que me apeteça 
vivida a sua breve estação, resta
deitar-se como a outro, e conchegá-lo
com algum veneno no ouvido,
estar a sós, ruindo, num gozo indecente
como o degolado que arrastasse pelos cabelos
a própria cabeça, e esta lhe fosse
lambendo da mão, chupando-lhe dos dedos
o sangue ainda quente leitoso doce

sábado, janeiro 12, 2019


Escrevem poemas em que falam contra a poesia; desgraçam-na com todos os pormenores, deliciados com a mais baixa biografia. E como exigem pouco da realidade! Logo, queixam-se que hoje não se lê poesia. Mas ler o quê? Esse tímido namoro à morte? Essa que a cada dia morrem como gado atropelado, fugindo do menor prenúncio de guerra. Assim, também as estações fogem umas pelas outras, as folhas caindo e, depois, nem um barulho. Juntam-se, enterram-se a si mesmas, outras enegrecem, viram barcos, e de cada tanque fazem um porto mendigando um rumo às estrelas. Mas nós já nem com o mar contamos, lemos no seu silêncio um final terrível: os navios não zarparão... as ilhas remotas não existem... Para não se ser arrastado para lá de si, um tipo arma-se daquilo que lê. Contra o mundo, esse tráfico de nuvens injuriosas num céu que sobre nós se partiu. O dia é ganho marcando uma página, alguma frase que nos sirva de apoio mesmo depois de mortos. Os dias encurtam, o sol larga os ossos pelo caminho, a tarde vem-se desabotoando, as noites já chegam de joelhos e abatem-se nos nossos quartos. Fico no escuro com um gesto e dois olhos ou mais. A respiração silenciosa, atenta, devorando fantasmas. Guardo sons que trabalho, racho o meu sino devagar. Nunca mais verei um beijo de perder o rosto a voz e o nome. Sinto apenas de longe o cheiro a sabão, uma vela reabrindo o corredor com um cuidado descalço, vertendo o silêncio de um cântaro para outro. Coisas que se repetem de uma ponta à outra da alma; a distância que nos cabe segurar para que deste mundo não se diga que não houve mais quem lhe escapasse vivo.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

"Escape at Dannemora"



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


"Com a Língua nos Dentes", de Miguel Filipe Mochila, ed. Artefacto



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

terça-feira, janeiro 08, 2019

Larva


Que velha tão dura e que sombria arte
a de quem desossa a mais mísera ou sublime
carcaça deixa limpo cada osso arranca-lhe
o último som começando lá no nascimento
com os dentes lascados chegando à flor
de todas as vezes que o ergueu mais alto
ou num sopro só desfez o que antes pulsava.
E com tudo que febre chegará a dar-te razão
das tantas voltas e o quarto reduzido ao caroço
trepando à árvore raspada no chão
dos anos que o repetiste como um ditado
um uivo levando aos astros a sua alta posição
tendo à larva como a um mestre?
Porque assim também a alma apodrece lentamente
e surgem-nos uma a uma as imagens à luz
de uma consciência que se tornou sonora
como na antiga tinta cada ruído se lia solto
e na janela os ramos riscavam os graves frutos
que se desprendiam com a noite
armando um aroma quase carnal.
Cabelos soltos e que belo o ser
que em cada um de nós se compõe
crescendo das mais rasas notas
como o terror esculpindo tão paciente
a voz exacta que desfere o mais rude golpe
atinge-a no flanco a flecha à presa
deita-a de lado respirando a terra inteira
e eis-nos diante do mais ancestral rumor
ali tombado em cada respiro
um espantoso animal
com o próprio nome tremido de tão virgem
das raras vezes que sequer foi admirado.
Nas folhas um lume pinga e foge-te
luta então como por fraqueza fazes
como de um sonho se espera
ou de um reflexo que nos mura
de uma água outra vez bebida
aquele gosto que passa pela boca
e não nos deixa mais nada.
Sem remorsos, sem desejo de retorno
como se deixa pela última vez a cama
agarrando alguém num susto ou resplandor
para sufocá-lo com tantos mais dedos
e das pontas lamber o ouro inquieto
já depois de arrastá-lo suavemente
para o bosque no seu interior.

domingo, janeiro 06, 2019

O desejo do «realismo»


O desejo do «realismo» procura cada vez mais os poderosos meios de «reprodução».
A reprodução leva à técnica.
A técnica leva à classificação e à ordem.
A ordem leva ao sistemático, à exploração completa do emprego mais generoso de todos os recursos, a sua maior liberdade, acima de qualquer coisa por realizar.
E ao tomar por base a reprodução exacta de algum facto concreto chegar-se-á a uma espécie de ginástica que inclui o «falso» e o «verdadeiro». 

- Paul Valéry

quinta-feira, janeiro 03, 2019

Bruno Vieira Amaral e a mentira na reconstituição parcial dos factos


"A longo prazo, impor uma história acaba por não satisfazer, no final é como se cada um só a contasse para si mesmo e isto não tem graça: se é apenas corroborada pelos correligionários, pelos acólitos e pelos temerosos servos, é como jogar xadrez sem adversário."
Javier Marías
"Assim começa o mal..."


A melhor ideia que possa fazer-se da ficção não a deixará enxovalhada ao ponto de se poder confundi-la com uma mera arte de produzir histórias, artifícios para nos arrancar ao tédio. Não serão ficções desdentadas como não será um sacrifício ritual que irá “encher os grandes buracos do mundo”. Contudo, é certo que há simetrias esplendorosas entre as trevas exteriores e interiores, e o homem muitas vezes não precisa de aventurar-se tão longinquamente quanto isso para arrancar ecos ao desconhecido. Alguns já o experimentámos, e estaremos só em alguma medida capazes de confessar até que ponto nos foram úteis esses actos aparentemente dementados, essas pesquisas tantas vezes cruéis, os modos de se debruçar sobre as zonas mais escuras de si, urrando para o interior de si mesmo como para um poço de onde se suspeita que possa ascender um ar estranho, que tome conta de nós, que, como possuídos, nos incline a agir terrivelmente, a experimentar esses processos de transfiguração que escandalizam a maior parte das pessoas. Essas pessoas que tomam a sua inocência por uma forma de sanidade. Lembre-se, a este respeito, as palavras de Herberto: “Os inocentes são por assim dizer as musas dos criminosos”. Curiosamente, e como ele mesmo nota, “há poucos inocentes, não conheço nenhum, e não se busque sobretudo entre as crianças: as crianças são monstruosas, eu sei, fui criança muito tempo, e o meu talento era monstruoso”. Também vos diria algo assim, tendo sido miúdo e praticado actos desses que tantos teriam como pavorosos, desses que fazem adivinhar um criminoso em potência, e agora, rindo, talvez se perguntem se não me tornei um. Mas seguindo adiante, podemos concordar que a realidade é irredutível a um organismo narrativo, por mais complexo, melhor afinado que seja, até porque a ficção não está fora, mas participa, e produzi-la não é obrigar a imaginação a olear essa máquina brutal, como não é fazê-la ajoelhar-se diante dela, correspondendo ao que vulgarmente se entende como os limites do real, pois então só iria “criar bolor e dormir, amontoar-se e depositar-se nas vidraças bem ajustadas dos livros”, mas antes, como contrapôs Artaud, a propósito do que devia esperar-se do surrealismo, esse espírito de invenção deverá “elevar materialmente o real até esse ponto em que a alma deve brotar dentro do corpo e não parar de amotinar o corpo”.

No texto que publica na última edição do "Jornal de Letras" (esse defunto que, se tem ainda alguma serventia, é justamente o de nele se fazer a defesa da virtude das nossas madames) defendendo a presuntiva abordagem ficcional que Afonso Reis Cabral fez do homicídio de Gisberta Salce Júnior, no livro “Pão de Açúcar”, Bruno Vieira Amaral monta um tal circuito de disparates que só poderemos responder-lhe indo ponto por ponto. Antes, porém, não fingirei que respeito este ofício de um fiel capanga das manobras de concertação por que opera o nosso meio editorial, e que apesar de organizada em diferentes legiões, promovem essa pax romana, uma paz bastante podre, por sinal, com base numa noção abrangente da cultura, interessada em tudo o que sejam paradas, demonstrações de força e vitalidade, desde que isso não passe por pôr-se em causa, contrariando, assim, aquela experiência da literatura de que fala Blanchot, a tal experiência total: “uma questão que não suporta limites, não consente ser estabilizada ou reduzida a, por exemplo, uma questão de linguagem (a não ser que este ponto de vista baste para abalar tudo). É a paixão de se questionar a si própria, e obriga aquele a quem atrai a colocar-se inteiramente nessa questão”. 
Ora, este consórcio ocorre já da forma mais leviana e obscena, enquanto aplana o terreno, mobiliza todos os esforços e canais para as suas campanhas de ordem mais comercial ou publicitária, num concerto em que diferentes órgãos de um mesmo grupo trocam favores e em que, amatilhados, os escritores se divulgam entre si. E se um cai sob a mira da crítica, organiza-se um esforço solidário para resgatá-lo, e assim se vai instituindo uma agência de seguros ad hoc, em que se acciona a apólice no caso de o escritor ter um azar, expor-se além da conta, tornando-se alvo de uma perseguição por parte desses maliciosos caçadores furtivos que põe em risco este tão delicado ecossistema. E para quem se lembre de puxar para si a metáfora e travesti-la ao seu gosto, vindo falar na importância de proteger a biodiversidade no campo literário, e lembrando que o exercício da crítica não pode dar azo a que se abatam elefantes (sim, também temos direito aos nossos escribas de grande porte, e ainda que não o sejam mais vale fingir que sim) na ânsia de lhes sacar as presas como troféus, e que, por isso, é imperativo protegê-los, é sempre útil lembrar o diagnóstico feito por Silvina Rodrigues Lopes (e perdoem-nos a pipa de massa que vamos encaixar ao usar, como referência, um título que reeditámos) em “Literatura, Defesa do Atrito: 
“Há uma tendência daquilo que se apresenta como pós-modernismo que é importante indagar de perto: trata-se da adaptação de grande parte daqueles que se apresentam como escritores às condições institucionais dominantes e ao mercado, o que significa que não produzem senão simples objectos de consumo, ao nível de qualquer outro artigo de supermercado. Essa adaptação vem negar a anti-institucionalidade (que não é apenas característica do modernismo, mas daquilo que, na sequência de Baudelaire, se designa como modernidade literária) em nome da acessibilidade da literatura, e de outros tipos de discurso, ao grande público, o que corresponde à negação máxima de qualquer dimensão inconformista. Aquilo a que se chama “grande público” só pode ser composto por gostos esclerosados, pelo que há de mais resistente à mudança, e por conseguinte pelo que há de mais anti-artístico, a negação do movimento. Aquilo que se destina ao grande público é a espectacularização, que esteriliza ao colocar a diversão como substituta da estranheza, tornando-se eficaz na relegação do humano para o nível mais triste da vida animal - a domesticação. Quem colabora nesta desvitalização da literatura fá-lo em proveito de uma posição de poder pessoal e de grupo que vai contra a memória e a dignidade daqueles que não usaram, e não usam, a literatura, aqueles que a retiraram, retiram, ao capo de poder, que é sempre o da fixação. A anti-experimentalidade declarada e a revalorização da noção de autor são dois sintomas de um processo reactivo que procura na pré-modernidade uma legitimação para o sacrifício do desejo às mãos do poder. Em muitos aspectos, o que é hoje uma vulgata pós-modernista repete o horror ao vazio -aquilo que vai contra a homogeneidade do ideal sem anular a universalização -, em nome das distinções marcadas no interior de um universal estável.”

Mas vamos então a esse atamancado refúgio que o nosso mestre de obras (BVA) construiu apressadamente para que o aprendiz não passasse a noite ao relento, sujeito a receber no lombo o chumbo, já nem digo da crítica, mas de qualquer leitor que tenha suficiente discernimento e se dê ao gozo de ler armado com uma pressão de ar, sabendo que não falta também à ficção portuguesa uma carrada de pombos lerdos, desses em que se pode afinar a pontaria antes de ir medir forças com algum Golias. Vou poupar-me, no entanto, e depois de ter deixado já sem pio uma tal de Ana Bárbara Pedrosa (que não teve o menor pejo em servir-se do seu tacho no site esquerda.net para vir fazer o servicinho de promoção do livro do amigo, numa recensão bem jucunda, acompanhada de entrevista, tudo como é próprio de alguém que se propõe a agente imobiliário das nossas Remax da edição), a ter de me sujeitar a nova reunião de provas no sentido de mostrar que, ao invés de uma verdadeira obra de ficção que constrói “uma realidade autónoma” a partir do caso Gisberta, aquele é um exemplo da aselhice com que os nossos escribas se mandam à ficção. Não vou também repetir o que já ali se disse quanto à premência de “contra-ficções” face ao tão liso, tão regular terreno da literatura portuguesa contemporânea, o qual raramente nos provoca um sobressalto. E, neste aspecto, até partilho com BVA a irritação diante dessas propostas de ficção que “me oferecem um mundo demasiado arrumado e polido quando sei que cá fora tudo é selvagem, caótico e imprevisível”. A questão é que “Pão de Açúcar” subiria, precisamente, ao topo da lista dos exemplos recentes de ficções nas quais se entra como “num quarto arrumado com uma organização artificial”. E não me parece tão importante que o “titereiro” elida o seu rastro no dispositivo que constrói como julgo necessário que nos force a deixar à porta tantas das nossas convenções sobre a realidade, e aja como um verdadeiro transgressor em face delas. Não lhe peço, portanto, que observe nenhuma outra moral além da que ele mesmo possa sustentar, e prefiro sentir-me arrastado pela sua tenebrosa relatividade, pelos exacerbados sentimentos que dão ao leitor a sensação de pender sobre o abismo, do que provar a sua habilidade na repetição de fórmulas narrativas que apenas nos conduzem através de um certo arranjo dos eventos. O Afonso sabe, de resto, que a minha primeira reacção ao livro foi de entusiasmo, vislumbrei nele um risco imenso, e achei que só podia tomá-lo um escritor que, apesar de jovem, se dispusesse a subir desta daninha realidade que conhecemos dos romances a algum outro inferno. Tendo lido as primeiras páginas, cometi até a imprudência de lhe pedir uma entrevista, e foi só depois que me dei conta de que não havia ali senão uma narrativa que extirpava o caso real das suas angulosidades, dos seus aspectos mais melindrosos (já lá iremos, prometo). Antes fosse uma obra imoral, realmente perversa, antes tivesse dado com um “profanador de túmulos”, alguém que se deleitasse em traduzir de forma melíflua o sofrimento para o leitor, um desnaturado que viesse sacrificar uma segunda vez Gisberta, e se gratificasse com a violência, agora servindo-se do cadáver dos factos para os influir de um vibrante terror estético. Antes isso do que outra distorção juvenil, uma narrativa que facilmente se adaptaria a guião de uma longa de estudantes de cinema, e que talvez conseguisse a proeza de obter a classificação PG-13. 
Não deixo, no entanto, de apreciar a cadeia de distorções que aqui se encena, sendo a última, e não menos apreciável, esta defesa de BVA. E nisto, faltando-lhe a autoridade e também o talento que justifique a comparação, lembro-me vagamente de Bártolo, uma das poucas figuras que me ficou das aulas de Direito. Aquele que terá sido o expoente máximo desta forma de aldrabice intelectual, foi o maior jurista da Idade Média, e se a celebridade deste genial comentador do Direito Romano persiste até aos nossos dias é porque este homem, segundo reza a lenda, quando lhe era pedido um parecer sobre um caso, não auscultava primeiro o sentido das leis, mas confiava de tal modo no seu poder persuasivo que tratava de orientar a sua argumentação de modo a contorná-las, se preciso, e assim parecia ser capaz de mudar a própria natureza do mundo para arrancar outra orientação das mesmas leis. Para este fim, e na medida dos seus parcos dotes, BVA foi desencantar o romance de José Cardoso Pires, “A Balada da Praia dos Cães” – assim, trata logo de confundir coisas de natureza totalmente diversa, segundo aquele princípio de que a analogia caberá sempre que esteja em causa realizar uma obra de ficção a partir de elementos de um crime real. Mas já antes no seu argumento – cujo curiosíssimo título, “A verdade imaterial dos factos”, o aproxima de uma peça de um jurisconsulto desses de trazer por casa para efeitos da promoção dos nossos emergentes valores literários –, nos tinha exposto o seu calcanhar de Aquiles. E isto porque, mesmo que o fio que depois estende estivesse perfeitamente tenso, a premissa sobre a qual assenta é tudo menos firme. “Se já conhecemos todos os pormenores de um caso, se o mesmo esteve em todos os jornais, se até já foi julgado em tribunal, se não restam dúvidas quanto às vítimas e aos culpados, o que é que o romance ainda tem para fazer ali?” Esta falsa pergunta coloca-a BVA na boca dos críticos de “Pão de Açúcar”, para depois atribuir à acusação o retardo de uma mera censura de ordem moral, “como se o romance, pelo facto de explorar um caso concreto e público, conspurcasse a realidade em que toca, como se violasse o espaço sagrado do real”. Quanto a isto, e uma vez que o arguente anda ocupado com a sua própria carreira de literato, cumulando prémios e tratando dos vistos para a expedita internacionalização, valerá a pena pô-lo a par da nossa posição no que toca a essa mistificação que também na poesia tem provocado tantos equívocos: Quanto ao real, quotidiano ou nem tanto, e à sua reabilitação hoje ou ontem, com recurso às mais exigentes técnicas, e à tecnologia de ponta ao nosso dispor, bem, só temos isto a dizer: que se foda. Não servirá mais de horizonte, desde logo porque a criação, em nosso entender, vai ainda a meio, e a rainha de todas as virtudes, como bem explicou Baudelaire, será sempre a imaginação. Estamos sempre a tempo de acrescentar à realidade novos planos, dotá-la de outros valores ou perspectivas, profundidades, e a ficção, tal como a poesia, ou a crítica, e todos os raios que ainda nos partam ou inflamem, são úteis nisto. E de resto, como aquele lá de cima bem notou, “a terra extravasa do real feito à imagem da merda”, e se fosse para isso, então também nós já nos teríamos mandado daqui, e nem Pasárgada seria longe o suficiente. Portanto, venha daí o romance, venham todas as obras do espírito, seja completando ou destruindo, tudo isso nos parece da maior utilidade. Com isto, espero que fique de uma vez por todas pelo caminho esse puritanismo que BVA nos tenta colar, como se nos houvéssemos proposto a guardiões dos “claustros solenes do caso real”. O que há é algo de natureza muito diversa entre explorar o real para se chegar à tal “verdade imaterial dos factos” e o ser-se exposto a uma reconstituição sumamente prosaica dos factos, por via de uma tosca reprodução ficcional. De resto, e a haver alguma crueldade em “Pão de Açúcar”, aquilo que digo é que esta está ligada ao golpe parasitário de um romance que precisa de conservar o elo às notícias de jornal, ao frenesim que rodeou o caso, e que só assim o seu artifício funciona, e depende, portanto, de uma extensão do crédito dessa imperfeita narrativa difusa, depende de uma extensão do luto, do horror, e funciona, por isso, como uma reunião de um público que vivenciou um pequeno trauma, e que se associa para efeitos de tráfico de boa consciência, a qual é ministrada pelo Afonso e os seus acólitos, terminando tudo numa sessão de autógrafos. 
É aqui que vale a pena dar a palavra às reservas expressas por Javier Marías, esse romancista que talvez até BVA esteja disposto a louvar, do mesmo modo que o fizeram alguns comparsas seus, que se alinharam como tontos, participando como substitutos dos membros da Academia Sueca numa apressada reunião de condóminos, honrando o espanhol ao elevá-lo ao topo das suas listinhas de supermercado enquanto Nobel não-oficial de 2018. Então, façam o favor de espreitar a crónica que publicou Marías a 14 de Outubro no El País, com o título “Literatura de penalidades o de naderías”.
Estou a ficar agastado e, por isso, perdoem-me se não vos mastigo a coisa para um português minimamente justo, mas, dada a desenvoltura com que os nossos literatos trocam a sua pátria linguística por essa fronteiriça expressão que é o portunhol (uma vala que terá sido tão útil em Guadalajara), não creio que vá perder muita gente se me limitar a citar no original: 
«Sí, todas son historias tristes o terribles, a menudo indignantes. Millares de individuos las han padecido (en el pasado, mucho peores) desde que el mundo es mundo. Yo comprendo que algunos de estos sufridores necesiten poner por escrito sus experiencias, para objetivarlas y asimilarlas, para desahogarse. Lo que ya entiendo menos es que ansíen publicarlas sin falta, que los editores se las acepten y aun las busquen, que los lectores las pidan y aun las devoren. Quien más quien menos las conoce por la prensa, por reportajes y documentales. A mí, lo confieso, en principio me aburren soberanamente, con alguna excepción si la calidad literaria es sobresaliente (Thomas Bernhard). Que la vida está llena de penalidades ya lo sé. No preciso que cada cual me narre las suyas pormenorizadamente. Soy un caso raro, porque no se escribirían tantos libros así si no hubiera demanda. Creo que ello es debido a la necesidad imperiosa y constante de muchos contemporáneos —una adicción en regla— de “sentirse bien” consigo mismos, de apiadarse en abstracto, de leer injusticias y agravios y pensar del autor o narrador: “Pobrecillo o pobrecilla, cuánta empatía siento, porque yo soy muy buena persona”; y de quienes les arruinaron la infancia o la existencia: “Qué crueles y qué cerdos”.
(…)
Cada una de estas obras, las de penalidades y las de naderías, suelen ser alabadas por los críticos y por los colegas escritores, que han hecho una regresión monumental y ya sólo se fijan en lo que antes se llamaba “el contenido”. Si esta novela o estas memorias denuncian injusticias, ya son buenas. Si relatan atrocidades, aún mejores. Si dan a conocer lo mal que lo pasan muchos niños, gays, mujeres o discapacitados, entonces son obras maestras. Puede que en algún caso así sea. Pero cada vez que leo sobre la aparición de una nueva maravilla “disfuncional” o de las características descritas, echo de menos a los autores que inventaban historias apasionantes con un estilo ambicioso, no pedante ni lacrimógeno, y además no procuraban dar lástima, sino mostrar las ambigüedades y complejidades de la vida y de las personas: a Conrad, a Faulkner, a Dinesen, a Nabokov, a Flaubert, a Brontë, a Pushkin, a Melville. Y hasta a Shakespeare y a Cervantes, por lejos que vayan quedando.» 
Voltando um pouco atrás, não apontei o calcanhar de Aquiles de BVA, e é aí que está o ponto nevrálgico de toda esta discussão. Porque, se José Cardoso Pires, a partir de um caso cujo desfecho era conhecido do público, chegou a uma verdade de outra ordem, e só o pôde fazer através dos mecanismos da ficção, como BVA refere, o mesmo não sucede em “Pão de Açúcar”. Como recorda BVA, o leitor do romance de Cardoso Pires será levado a concluir que “quem matou o capitão Almeida Santos não foi o indivíduo que apertou o gatilho, mas uma sociedade e uma época inteiras corroídas pelo medo, a grande criação invisível do regime” Acontece que no caso de Gisberta há também uma urdidura bem mais complexa, uma cadeia de factos que precedem aqueles que parecem estar na origem do homicídio de Gisberta Salce Júnior, sendo que em tribunal o que se determinou foi que a causa da morte foi o afogamento, ou seja, os três rapazes que a julgavam morta quando a atiraram, moribunda, ao poço, foram ilibados do derradeiro crime, e até hoje a família de Gisberta não tem como se conformar com aquela sentença. Mas isto, BVA, que julga conhecer os pormenores do caso, provavelmente até desconhece. Mas o seu desconhecimento do caso organiza-se numa forma de cumplicidade em volta de uma investigação que não foi levada até ao fim nem às últimas consequências. A tese aqui é de que o julgamento, que se realizou em 2007, serviu antes de tudo para encobrir as responsabilidades, não dos adolescentes que premiram o gatilho, naquela “dinâmica da violência colectiva” que BVA refere, mas por meio de uma série de actos de acções negligentes do Estado português, e do seu aparelho de acção social. Na sua “reportagem romanceada”, o Afonso não deixa de aludir de forma bastante vaga, como quem receia comprometer-se com algum juízo mais ‘profano’, ao papel que tiveram os agentes ao cuidado de quem o Estado deixou alguns daqueles rapazes, personagens sinistros de cuja presença só vemos a sombra debaixo da porta, e quem tiver seguido o caso com mais atenção pelos jornais saberá casar a alusão com a realidade, a do padre que estava à frente da Oficina de São José, e que aplicava em investimentos na Bolsa uma parte do dinheiro que recebia por acolher cada um dos miúdos. Há também alusões muito vagas às condições miseráveis em que os miúdos coabitavam, alguns deles arrancados às famílias para serem vítimas, já não do desleixo parental, mas dos abusos e agressões físicas e sexuais dos mais velhos ou de alguns predadores que tinham na instituição católica um belo espaço de recreio. Tudo isto são aspectos pantanosos que as reportagens à volta do caso foram trazendo à luz e que o romance de Afonso, com a sua “laboriosa preparação, com indícios semeados pelos capítulos, num mostra-e-esconde irritante, para usar uma expressão do narrador”, tão bem evita. Ou seja, involuntariamente, esta ficção deixa as coisas no mesmíssimo ponto em que estavam antes, não fica em nós a inquietação diante da “grande criação invisível do regime” que permitiu que Gisberta morresse naquela “cave imunda”, mas pior do que isso, pode dizer-se que esta ficção participa no encobrimento de um caso que deveria envergonhar o nosso aparelho judiciário, bem como o nosso sistema de acção social.

Posto isto, quando BVA se serve da sua pesquisa mais aturada enquanto biógrafo de José Cardoso Pires e nos recorda as palavras de um dos envolvidos no crime, condenado a uma pena de prisão e transformado em personagem pelo romancista, para notar o “incrível” que é um cabo da GNR revelar “uma maior lucidez literária do que alguns críticos”, então o nosso ensejo é fazê-lo engolir as suas palavras. É natural que um capataz dos esquemas editoriais, um roedor agenciável que nem soube estudar o porão do qual emergiu, ao analisar as circunstâncias de um crime se fique pela justificação “monstruosa” perdendo de vista tudo o mais. Daí, todo afanoso, saltando dos ombros de Yukio Michima, parte para elocubrações sobre uma ficção que “se alimenta do corpo simbólico de Gisberta”, adiantando-nos que “Gisberta era, acima de tudo, para os rapazes que a mataram e nas narrativas posteriores, esse corpo inacabado, imperfeito, incompleto”, e assim vemos desenhar-se-lhe o sorriso satisfeito de um titereiro de segunda que vê naquele homicídio “um lado de necrofagia, como também há na eucaristia, no consumo ritual do corpo de Cristo”. O que talvez não veja é a evidência terrífica de um corpo num tal estado de degradação que, mais do que ter a morte a actuar sobre ele, era já dela, um corpo como uma visão que nos ulcera, e não vê também o reflexo que os rapazes poderão ter arrancado daquele espelho que lhes dizia o pior sobre o abandono a que eles mesmos foram entregues, como não supõe que ao invés de um acto de necrofagia possa antes ter ocorrido ali um acto de autofagia. E se BVA chega a propor a hipótese da necrofilia, asseverando que o narrador deixa sugerido que “estavam a descobrir em simultâneo o poder da morte e do desejo sexual”, aqui, BVA já está ele mesmo a desejar que o romance fosse outra coisa, e bem se podem ler reservadas sugestões a partir da pobre narrativa que nos foi servida, mas o facto é que a execução é mais do que débil e trapalhona, está sempre “corroída pelo medo”, receosa ou incapaz de compor algo mais do que um sequenciamento das acções de acordo com aquilo que o esqueleto dos factos imediatamente nos sugere. 
BVA bem pode delirar e fingir que leu outra coisa, dizer-nos que “as passagens em que é descrito o homicídio não [são] sobre Gisberta nem sobre o sensacional caso de um transexual assassinado por um grupo de adolescentes num edifício abandonado no Porto, mas sobre a paixão e o calvário de um corpo errado no lugar errado, atingido pela primeira pedra atirada por um pecador”… BVA não é nenhum Bártolo, e até pode ter-se convencido de que talvez possa recobrir aquela mesma narrativa de um novo fulgor, se levar adiante algumas das possibilidades que este truculento drama bebido nas páginas dos jornais nos oferece, acontece que o lado obscuro é tudo o que já supúnhamos sobre os mecanismos do desespero que actuou ali. Ainda que apaixonada, a leitura de BVA seria tão ou até mais válida se nem mesmo houvesse um romance. Poderíamos perfeitamente estar a ensaiar a hipótese de uma ficção sobre o caso, e talvez agora se pudesse retirar dos factos a espontaneidade inconsciente com que a acção se processou. Pois se “cá fora tudo é selvagem, caótico e imprevisível”, depois daquele crime e da gestão de danos, de se terem escamoteado responsabilidades, escondido as suas outras vítimas, não se encontrará uma mais previsível e tranquilizadora narrativa do que a de “Pão de Açúcar”, uma história que vem simular a forma como a “máquina da violência” que vitimou Gisberta funcionou “como um remoinho que se serve de todos os sentimentos à sua volta – a raiva, a confusão, o desprezo, a indiferença, o tédio, o tesão mas também o amor”… Sim, podemos fazer soar todos esses guizos, mas, no fim, ainda estaremos a focar-nos e a tentar explicar as motivações das vítimas para se vitimizarem na hora em que os caudilhos se põem a salvo, muito longe dali. A hora em que toda uma sociedade se escandaliza, se enche de horror e repulsa por aquilo que produz todos os dias, gritando: "Que cruéis e que porcos".


terça-feira, janeiro 01, 2019

Miguel Serras Pereira, valas a céu aberto, margaridas e o manual lírico da devoção (5)


Cheira-vos a fresco? Diz que está por estrear, e um ano novo é já qualquer coisa de se admirar num mundo tão desconchavado. E, nisto, eis-me aqui já de tambor, impregnado de ritmos depois de ouvir-vos os tachos e as panelas, o sangue mexido por essa vaga de resoluções, como se se formasse uma espuma nele, mas antes de depenarmos inteiramente o cisne, merecer-vos-á alguma atenção este texto, e depois, claro, o aplauso de todos os sectores, de tão no ponto, tão de comedimentos condimentado, sem faltar a pimenta de umas perplexidades, o sal pouco que faz justiça às preocupações da época, vigiando a tensão arterial e o resto... Vislumbra-se também pelo fundo uma “luz muito mártir”, o que vem pôr ordem aos abusos de um troca-tintas, assim se infere, e, nas cabeças demasiado fixas ao corpo, soará de novo a inquietação mas para que foi todo este escarcéu, poderia alguma vez ser por umas traduções nem tão más como isso? Se isto começou com uma certa náusea, é natural que acabe por uma debandada de perfumes. Admitida a hipótese de fiasco (mas isso vejam lá entre vocês se por cá é coisa que se admite, se a Cultura aguenta, se em seu nome também se fazem asneiras, ou se vamos de sucesso em sucesso para o buraco que, lá mais à frente, ninguém oculta), se pudermos fazer mais que o luto, reduzir a velocidade para espiar o sinistro, talvez a crítica, na sua tão propalada função positiva, possa retirar outras consequências, e não ter de se ficar pelas lógicas cortesãs, mesmo porque escrever, como já alguém notou, não mostra o que fica mas o que falta, e segundo sei, continuas a faltar tu, como falta que te completem ou destruam, assim, e ao invés da bata, do estetoscópio, do sente-se ali, dispa a camisa e tussa, ainda prefiro o fato macaco, as manchas do óleo, e o calendário com os meses que se seguirão e elas, com tudo de fora, e já iremos às reservas da Margarida, mas antes e ainda, as minhas:

Assim que Rimbaud se tornou negreiro
e começou a lançar as redes
sobre a Abissínia
a caçar o leão negro
e o pelicano negro
abandonou a poesia
Como era leal, esse rapaz
Mais numerosos são esses que permaneceram poetas
e se tornaram negreiros
usurários
sem ainda assim abandonarem a poesia
Tornaram-se representantes de agências de publicidade
vendedores de quadros falsos
sem ainda assim abandonarem a poesia
Nos palácios dos déspotas os seus poemas transformaram-se
em portas e janelas
mesas e tapetes
mas eles não abandonaram a poesia
Dispuseram-se ao louvor
e receberam medalhas e honrarias de todos os potentados do mundo
a taça de ouro, de prata e de pedra
mas não abandonaram a poesia
A chancela dos polícias
as marcas das solas desses polícias cobrem-lhes os poemas
mas eles não abandonaram a poesia
Que nobreza, a de Rimbaud
como era leal, esse rapaz


- Mou'in Bsissou
(versão de Luís Filipe Parrado)


E se hoje é um pouco tarde, pois toda a justiça se fez em nome de Rimbaud contra todos quantos ficaram pelo caminho, ainda poderíamos tomar como sensata a censura de Georges Izambard, o professor que, tendo começado por acicatá-lo, parecia arrepender-se, dando-se conta de que esse que se anunciava como o Outro, com o típico génio insubmisso da adolescência, estava a tornar-se uma peste: “Não quero dizer-lhe que está maluco, isso encantá-lo-ia. Mas se crê verdadeiramente que isso aconteceu, quero provar-lhe pelo contrário, que ser absurdo está ao alcance de qualquer um.” Rimbaud já não comia no prato, havia cuspido nele, e com a maior das insolências clamava: “Desdém para os inconscientes que trapaceiam com o que ignoram completamente!”. E umas linhas antes, na mesma carta: Por agora, avilto-me o mais que posso”... E isto vem antes da célebre conclamação: “Quero ser poeta, e trabalho para ser Vidente”. E até me estou a guiar pela nova tradução, que para estas orientações mais firmes ainda serve. Mas, século e meio depois, era de esperar que também Rimbaud acabasse traficado entre “proprietários, vigaristas, druidas e peraltas”, e também não espanta que sirva de “estandarte aos gloriosos, de trampolim aos cautelosos, de trípode às pitonisas”... É uma espécie de erosão que se serve do bronze, converte em monumento de modo a silenciar, neutralizar a ameaça: deste modo, por mais que os novos execrem os antepassados, por fim acabarão servidos à mesa dos velhos imbecis que cheguem depois, e ainda que tenham varrido milhões de esqueletos, como os produtos acumulados de tanta inteligência zarolha, em seu nome, os velhos não descansarão até reerguer das cinzas as velhas comodidades, restabelecendo o nojo a todo o desafio. Por isso, como sublinhou Cesariny, “deve o poeta contar ainda com a denúncia que é feita à sua solidão pelo acto policíaco dos que não são nenhuns, porém sempre exigiram que o poeta acompanhe, que o poeta não estrague, que o poeta coincida, seja, por um lado, com os termos legais do inferno a que assiste, seja, por outro, com o que lhe apresentam em matéria de infernos para o futuro”.
Assim, e se não nos cabe, nem são admissíveis hoje as indisfarçáveis arrogâncias, se não se pode varrer tantos esqueletos de uma vez, desde logo pelo constrangimento que causa às famílias, resta-nos a “distribuição de morte ao domicílio”, e uma vez que o Serras Pereira se indispôs logo, mas ainda antes da minha tréplica, como supôs a Margarida, isto numa altura em que, escrevendo no jornal sobre a “Obra Completa” de Rimbaud publicada pela Relógio d’Água, usei de toda a cautela que pude perante um trabalho de tradução em que tudo me pareciam tiros bem ao lado, vindo o insigne tradutor queixar-se da imoralidade da minha crítica, além da sua duvidosa assinatura estilística, sem nos rendermos à discrição dos escravos, nem à austeridade das virgens, vamos dar uma volta mais larga, fazendo uma atenção às reservas da Margarida. “Horas intermináveis”, “seguramente”, diz ela, sobre o tempo que passou o outro de volta do osso duríssimo de Rimbaud, e que isso merece respeito, não as hierarquias, mas isso... Seguramente!? Bom, se é assim, vamos para casa e não se fala mais no assunto. Porque eu também tive a maior admiração por essa coisa do optimismo, da boa fé, mas depois vi-lhe o fundo, vi o esquema, como funciona essa presunção da inocência numa sociedade tão falsa, cansou-me, se calhar porque levo mais o ouvido ao chão, não me fico pelo peito, onde tudo, mais ou menos, e lá pelas suas razões, bate tanto como pode, mas depois é o que se vê, tão poucos estão entre os que “sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias”. De ouvido no chão, sentem-se os passos, as aproximações, estima-se o tempo que leva, e como essa coisa da boa fé a toda a hora é outra trapaça, muito conveniente, sim senhora, tão doce, tão de perder a vida com delicadezas, e rezar o terço no intervalo, mas se calhar fui eu que perdi já essas vidas, nem tenho já lembrança, só sonhos bastante maus do tempo em que fui delicado, e peço que me perdoem, pois, se perdi todas as minhas de Gato, suicidado numa ou outra, resta-me esta, quem sabe a última, a de cão, e dá-me para rir diante da sonsice dos que vêm com o ar de quem desconhece todo o mal, sim, porque não há sequer os acomodados, o plano de reforma para ex-anarquistas, não, nunca vimos que, de coser à linha, passam a uma máquina de costura, não os há traduzindo a metro, entregando umas coisas medíocres, toma lá, para o que é está mais que bom. Depois, e ainda mais, não posso deixar de me comover como toda a gente prescreve em relação à função do crítico, um tipo dá por si a ouvir o código deontológico da profissão de tudo o que sobre esta terra tem a veleidade de se proclamar autor, as listas que cada um faz dos mil cuidados a observar, nunca o rácio de polícias por ladrão foi tão alto como sucede na crítica literária, um tipo ainda só sonhou em arrancar uns rabos, já lhe estão a tocar à porta, algemas, correntes, choques eléctricos para os mais persistentes, a coisa de borracha na boca, e toma lá as estrelas que não nos deste, frita devagarinho, em suaves prestações. O que eu amo esta vocação em que cada aprendiz tem dezenas de mestres, todos dando lições, esses mesmos que não estão para se maçar, que o não fizeram senão daquela vez, e o custo foi tal, que chatices se arranja, em que sarilhos um tipo se mete neste pardieiro onde todos os acertos não pagam aquele deslize, é o inferno, a pena capital. E se o ar do inferno não suporta hinos, é bom saber-vos aí, ó educadores. Nem nos tempos de escola, no sétimo ano em que tive mais participações que qualquer outro, fui tantas vezes chamado ao gabinete, até na Gulbenkian, depois da minha desastrosa Índia, me aconteceu. Um tipo não tem do que se queixar no que toca à atenção. Tantos reitores, tantas madres superioras, que lindo colégio de freiras me saiu a vida cá fora, aqui, onde por toda a parte se lê: agora é a hora da nossa morte. Nunca mais se acaba a missa de finados. E não sou totalmente ingrato, não deixo de reconhecer o talento dessa ficção concorrente: façam-me outra vez o sinal da cruz na testa, borrifem-me de água benta, enumerem lá outra vez as vantagens de se viver uma vida de acordo com as vossas virtudes morais. Estou com a idade com que o outro deu o badagaio na cruz, um ladrão de cada lado, só por ter andado por aí a dizer que o pai dele é que era o maior do mundo, e eu, quantas amas tenho, e coitaditas, tão mal pagas, vêm fazer as pazes, fico comovido com isso de quererem reformar-me, quando vos oiço, é pena, ele até faz umas coisas jeitosas, a editora, e agora, diz a Margarida, que são as melhores entrevistas a escritores, obrigadinha, digo eu. Depois insiste nas boas maneiras, diz-me a Margarida que achou “rasteirinho” a forma de depreciar o outro, e o inho é nisto o que mais gosto, é o inho que me não deixa ver nela mais do que essa aia, dama de companhia, útil na hora de deslindar intrigas palacianas, arrevesar, adornar, perfumar as cartinhas que as senhoras trocam com os pretendentes a dizer que sim, que está quase, que insistam um pouco mais, mandem vestidos e flores. Falta-lhe depois o erro próprio que a faça merecer a sua fogueira, e por trás da “d’ama” é mais certo encontrar-se outra corte, as velhas formas de cortesia, mas ficar-se-á sempre aquém de uma guerra, seja em nome de fronteiras ou de outra coisa que o valha. E percebo por isso que me venha falar em erros objectivos, e dos que servem os livros “laboriosamente”, e ainda me fala, como jurista destas coisas, da “elucidação do caso”. Percebo que quem tem a vista afeita ao acerto do ponto de cruz achará que me perco, que não tenho bem a noção das proporções, e talvez vos perca, aos que não percebem como a agressão faz parte de um método, de quem prefere dar por si morto à pedrada nalgum deserto, pedindo às águas que tomassem a inclinação de correr para cima, ao invés de andar nisto à cata de ofensas à língua, à sintaxe, à ortografia. Percebo também que outros prefiram o monólogo interior, que se afinem assim, se respondam sem se dizerem nada que altere o estado das coisas, nem estejam muito interessados nesse “esforço demoníaco para se dormir de maneira diferente”. Marco... clama um. Pólo!, responde o outro. E vão-se buscando, consolando, consorciando, e acham bárbaros esses que chegam do árctico, que preferem temperaturas bem abaixo do zero, para que se vejam as fuças do mar firmemente desenhadas no gelo, aplicando nelas a sua força a golpes de machado. E também, para os que chegam à literatura e a defendem como a compensação para outros fracassos, pode ser que lhes provoque horror, e troquem por infâmia tudo o que sejam actos de violência, de absoluto destempero, e reneguem assim a noção de que talvez mais nada exista, e que a literatura não seja outra coisa além de “uma metáfora incestuosa, agressiva, gloriosa”. Agora, parece-me útil lembrar a leitura que fez Cesariny do exemplo desse tão leal rapaz: “Rimbaud abandona a sua literatura como um daqueles gauleses cuja selvajaria ele mesmo anatematizou e que os manes quiserem ver repetida pelo primeiro bárbaro da consciência poética moderna: ‘Quando se julgam suficientemente preparados, incendeiam todas as suas cidades, em número de doze, todos os seus burgos, em número de quatrocentos, e todas as habitações particulares; e queimam todo o trigo que não podem levar, a fim de que, destruídas as possibilidades de retrocesso, se ofereçam ao perigo com valentia maior’. (Júlio César, Comentário Sobre As Guerras da Gália). E eis, finalmente, o ponto onde quero e me vejo chegar, onde vos falo de uma ficção do contra, de tudo o que, sem se explicar, talvez justifique o desencontro de proporção entre as munições usadas e o erro tão pouco objectivo e com ainda menor propriedade de que vos acuso. E se insistem nas boas maneiras, ainda é maior a vontade de bater. Diz-me a Margarida que o outro traduziu grandes obras, olha só, té o Dom Quixote, deus lhe pague, e eu repito que tudo e tanto dá no mesmo, puxa-se o fio, pega-se por uma pontinha o pano e expõe-se o resto, vê-se a vontade de submeter toda a cultura ao raquitismo, a um género da imobilidade, “o calhau filosofal dos distraídos, a fronda dos tímidos, uma bisca dos preguiçosos”, uma forma de se realizarem as mais grosseiras ambições pessoais, e já que a tradutora vem solidarizar-se com o outro, como seres de uma sub-espécie, e me lê passagens do seu extenso currículo, talvez valha a pena lembrar outros exemplos, com Michaux: “Não tenhamos pontos de vista professorais sobre a arte. Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores? Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência.” Assim, e enquanto a Margarida exalta os falsos moedeiros que, nessa condição, se tornam estimáveis enquanto poetas, figuras auráticas da nossa miserável cultura, eu tenho a pretensão de rejeitar os bons modos que se identificam com literatura, hoje, e no nosso país, prefiro-o a inventar uma terriola, alguma Macondo aonde possa recolher um pequeno povoado e representar uma rábula qualquer, cultivando parábolas e provando o meu talento através de variações com algo de inusitado, num excêntrico desfile de personagens, copiando à vista, transferindo para ali os mesmíssimos crápulas, insuflando tudo, caricaturando sem denunciar nem ofender ninguém, enchendo de tralha e paisagens para deslumbrar os sentidos, acotovelar a imaginação, povoando ainda o cenário de bichezas exóticas, e fazer-vos isto na proporção que vos levasse ao aplauso, sim podia dedicar-me a isso, bulir a novela, alguns contos retribuindo a inspiração, dando-vos os espelhos que buscam para se mirarem discretamente, animados, labirínticos, e, depois, ir convosco lá onde vão quando fingem que se juntam, e se debatem, podia fingir que partia do zero, girando a bengalinha da imaginação, atravessando a rua, transplantando com jeitinho, num fundo suficientemente romanesco, mas, em lugar disso, a sórdida tessitura da novela que se desenrola nos passos que tenho em volta foi o que me sugeriu esta forma da crónica, e se há pessoas, grupos que vejo alegremente e em excursão, numas tais patuscadas, e tudo em nome da cultura, se elogiam, escorrendo como sopa, dizem enormidades, quase brilham inchados e me provocam um desejo de desmembrá-las, desfazer-me delas nalgum rio, pois escolho uma, agarro nela, zumba!, volto a agarrá-la, zás, puxo-a sobre a secretária, amasso-a e abafo-a, cago-lhe, mijo-lhe em cima. Ela renasce. E, no fim, não desando, mas fico aqui, enrijeço, e dá para rir com a forma como se desunham, se unem trepam uns pelos outros nos esforços para retaliar. Faço-vos, portanto, as personagens do meu conto imoral, tipos, caracteres móveis, e o modelo do espaço não é nenhum senão este, e aceito discutir se se pode expiar uma coisa destas, se há exorcismo possível, se não estou condenado a desfalecer sem ter alcançado nada, mas pouco me importa, pois queimei todo o trigo, destruí as possibilidades de retrocesso. Além disso, se houve um conselho que tantas vezes ouvi e sempre levei a peito foi esse: escreve sobre o que conheces. E não me vão dizer que sois um mistério para mim, que estou redondamente enganado, cego por fúrias que lavram numa doideira que tenho de mim para mim. Ignorar tudo isto seria pôr-me, como fazem, a maquinar uns pavores de segunda, a escarafunchar além quando há aqui de que me ocupar. Por isso, e por agora, avilto-me o mais que posso. Pode não ser a crítica mais nobre, mas tentarei ser leal, e se não é certamente a crítica que desejais, a minha arrogância é a de vir a convencer-vos que é a crítica que mereceis.

sábado, dezembro 29, 2018

Miguel Serras Pereira e os chacais (4)


Já vimos o que o tão honrado tradutor fez de Rimbaud, como o empinocou e pôs a dançar num vestidinho de ir à missa, enquanto ele batucava um ritmo frouxo com a sua bengalita, já demos exemplos daquela versice sensaborona, do seu esforço para se safar naquelas águas "como um nadador que perde o fôlego e ao ritmo da respiração bebe golos de água", comparámo-los com as versões e "glosas" de outros, e tudo só serviu para que se desse palmadinhas nas costas, com as suas mãos ou as de uns desmiolados que cedem o seu juízo à direcção para onde sopre o vente, mas se o Serras não podia estar mais satisfeito, e se ainda faz gáudio desse calo de remador em todo o tipo de águas internacionais, mesmo que recolhidas a um chafariz ou bidé, também fizemos o suficiente por uma revisão da matéria no que toca à tradução de poesia, e ainda ontem tropecei em mais uma intervenção esclarecedora, e até me custa chamar mais gente para este disparate em que, a meio do sermão, me acho a afundar os peixes com as carcaças de pão, padruuuum!, e os patos a rirem-se, ainda acho, no entanto, oportuno ler o que escreveu Javier Marías sobre o assunto, num livro, por acaso, editado com o mesmo selo da “Obra Completa”, do chavalo genial. O título do texto do espanhol é “Ausência e memória na tradução poética” (está incluído no volume “Literatura e Fantasma”), e tem uma tese que nos seria bastante útil numa hipotética guerra dos cem anos à volta de questões de tradução... Então, tenham paciência os que só aí estão para ver calhaus a voarem, entretanto desçam sem pressas esta citação: “Com efeito, é coisa de senso comum considerar que a tradução depende, se baseia e tem a sua razão de ser na presença do texto original, que a possibilita e escraviza ao mesmo tempo. Essa presença activa priva-a de uma existência livre; é esmagadora e iniludível; impõe limites, mais ainda, regras, leis, modelos, de que o tradutor não pode nem deve afastar-se (...) Mas, haverá realmente? Ou, melhor dito, aqueles que assim opinam, terão razão ao considerar essa presença como característica essencial da tradução? Eu penso, pelo contrário, que o que é essencial na actividade de traduzir não é a presença do texto original, mas justamente a sua ausência ou carência. Porque a tradução também não é fotografia, cópia. Não pode sê-lo. Um texto, pelo facto de passar de uma língua para outra, sofre já uma transformação objectiva de tal carácter e magnitude que nunca poderia ser idêntico, nem será o mesmo em ambas (...) O tradutor, ao enfrentar a sua tarefa, sente o texto original como uma ausência. O que conta para ele e para o seu trabalho é a ausência desse texto na sua língua, na chamada língua de recepção, e por isso no sistema de pensamento dessa língua. O tradutor não reproduz, não copia, não decalca, entre outras coisas porque não depende de si fazê-lo, porque não se acha capacitado para isso. Plasma sempre pela primeira vez uma experiência única, irrepetível e intransferível; cria na sua língua aquilo que na sua cabeça está noutra língua. E digo ‘na sua cabeça’ em vez de ‘no texto original’ muito conscientemente, pois esse texto por si só, no âmbito da tradução, não é nada: é como um rumor de ondas que nenhum poeta escuta.” Ora aí está, e agora adivinhem quem traduziu este volume de textos de Marías... Não foi o Serras, foi o próprio editor da Relógio d’Água, Francisco Vale, que quando vem para a palheta até diz preferir as morenas... misteriosas e esquivas, difíceis de prever e o raio, mas depois sai com as loiras como toda a gente, para não ter de se maçar. De resto, acaba de publicar a maravilhosa antologia de Marianne Moore, “O Pangolim e Outros Poemas”, esse sim, um encontro predestinado entre autora e tradutora (Margarida Vale de Gato); abrimos aquele livro e estão as duas ali a rir-se, as sombras misturadas que dá aflição, a medirem-se uma à outra, trocar receitas, preparar bruxedos com que fins nem pressentimos, e enchem o caldeirão com víveres das duas línguas, quais batatas, aquilo é a água do banho do demónio, aquilo é que são temperos... Sim, aqui também sabemos admirar, preferimos até, mas com a parcimónia a que nos obriga o que é realmente de excepção. Voltando ao Serras, que diz que não sabe o meu nome, demonstrando a propriedade da crítica que temos feito ao seu Rimbaud bastaria notar as enormes reservas de todo o aparelho coisó-literato face a um marco editorial que, além do moço de recados, esse Pinto que por o não terem comido quando era ovo vive de exaltar todos os Santos, em tudo o que é tasco das letras, lá vai ele, estrelar-se, tu levas cinco estrelas, tu só levas quatro mas aguenta que daqui a nada já lanças outra folha e eu faço-te o convívio todo, reparem como, de resto, o calhamaço se afundou no limbo, não houve cá elogios desses dos taralhoucos a quem nada custa meter a mãozinha, abrindo o livro ao calhas, a ver a redondez da nádega, e dizer que sim, que é do melhor fiambre o que para ali vai, não, por uma vez, edita-se a obra toda de Rimbaud e é como se nada, até os nossos que papam tudo não quiseram nada com esta broa. Mas ainda há tempo; vamos ver se ninguém se lembra de vir pôr o pão na água e dizer que o azeite é do melhor. Mais interessante agora que já perdi a paciência para fazer testes periciais quando depois vêm essas lorpas encomendadas, que perderam o paladar de anos a servir nalgum refeitório, provam aquela insossa sopa, e, porque não caem fulminadas para o lado, mandam dizer que está boa para a cantina da escola, os miúdos que a mandem abaixo. Muito mais instrutivo, no entanto, é o Serras a descrever-me como arruaceiro, é, tudo graçolas malcheirosas, num desvario bruto e petulante, tanta carícia tola com que me vem mais este, sempre com uma reprovação de auxiliar educativo, põe-me falta por mau comportamento, pior educação, ainda me tacha de fascista, não obstante o facto de ser ele quem nem nome me dá, se pudesse calava-me. A culpa, é claro, está no tom, faltam-me as plumas, não comecei por “com licença, vossa excelência...” Interrompe-me: ó seu fedelho, labregote, malcriado, seu porcalhão! Pois, receio bem que o seja, mas repare, excelência, que essas mesmas armas, a mesma grosseria teria aproveitado tanto ao seu Rimbaud, que preferiu numa bata de colégio, não a vossa empáfia, mas as ‘conneries’, uns usos bestiais da língua, e não torça tão cedo o nariz, o uso escatológico também, merda nas fuças se preciso, de tudo isso se serviu o adolescente quando foi saber dos poetas e deu com a fila de pavões do seu tempo, abriu a braguilha, sacou-o e salpicou-os bem. Sim, admito que o tenha feito com maior audácia e risco, também embalado num talento maior, mas aí é como o povo diz: cada um dá o que tem e a mais não é obrigado. Agora, vir chamar-me de fascista, que rima tão pobre e tão gasta! Contando com o Quintais, já é o segundo da nossa distinta linha de pataratas a vir-me com essa este mês. Mas é sempre um empertigado oficial, com ganas de nos calar, que puxa essa treta do fascismo. É como gritar fogo!, e se hoje já ninguém acode, eu cresci com ele nas cuecas, de tanto ouvir que lavrava nas do Diogo. Que mal tem, o fogo? E mesmo que fosse só nas cuecas, antes isso que ser só cinzas à espera de algum ânimo ventoso. Elogiam-me demais. Mais um que mal pode com tantos pergaminhos e vem dar-me lições de etiqueta, primeiro isso, uns sermões sobre a honra e depois, também, a eternidade. Ainda assevera que só digo o que digo porque tenho as costas quentes (seria largas?)... O que me faz pensar que, se fossem outros os tempos, falava com este ou aquele, uns degraus acima na hierarquia, preenchia o formulário, dava o meu número, e, como por magia, os males do mundo seriam purgados, e eu filado por aí, voltando alguma esquina, arranjar-se-ia até uma cerimónia, o imbecil do crítico encostado ao muro e as patentes beijocando os fuzis. Fuzilado! Bem o mereces, ó fascista, gritariam os libertários. Não sendo possível assim do pé para a mão, e enquanto não se arranja alguma emboscada burocrática, um despedimento com muita a gente a pedir ao mesmo tempo, puxa da caneta de sangue, escreve no mural do Facebook, e lança-me aos chacais, infelizmente tão sem dentes, umas dondocas e uns queques, os da cultura-quermesse, uns temperamentos artísticos que gostam muito de rodas, e a quem a poesia interessa como tudo o que é para gostar. Com um bafo individualmente podre, colectivamente nauseabundo, lá vão sabendo uns nomes, que repetem nessa pronúncia de taxidermista, e são sempre a favor de todas as coisas boas e contra a generalidade das más, e aí está resumidamente a nossa vida pública, uma bela moral de cacetete, com a sua constante campanha de silêncio, e os coitadinhos são eles, queixam-se das calúnias que sofrem, da difamação, e quase se esquecem que têm a vantagem dos números, como se esquecem de tantas outras coisas que cansa repetir por serem tão óbvias. Um exemplo: esquecem-se de que “quem espera intensamente mudar, não perde tempo a admirar-se. Nem a tornar-se admirável.” Acusam quem sai da linha de portar-se como um criminoso; confortados com a imobilidade, servem-se da cultura, neutralizando-a, e ainda falam em nome da ordem, da moral, esquecendo que a sua moral é o maior de todos os crimes.

língua morta 088


INDULGÊNCIA PLENÁRIA,
de Alberto Pimenta,
(reedição do livro publicado originalmente
pela &etc, em Maio de 2007)


com capa a partir de esboço
de Henri Moore

[400 exemplares, 64 pp., 8€]

sexta-feira, dezembro 28, 2018

Alguns livros de 2018


Escolhas de Teresa Carvalho, Diogo Martins, João Oliveira Duarte e minhas.


(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quinta-feira, dezembro 27, 2018

Miguel Serras Pereira, a outra aranha, e a espera que as duas fizeram, não por Godot, mas pela tão ansiada mosca-Rimbaud (3)




Duas aranhas esperam a mosca
com radiadores ventiladores rosa-chá
passagem ao estado de amora
alguns coupons
e várias teses de combate moderno

A mosca
passa
ou não passa
é um pouco como todas as coisas
estão mas não aparecem
e podem levar anos nisso

Mas duas aranhas esperam a mosca
com serviço de Turismo Dlão
lume aceso
página de sentença judiciária

Ao fundo
o galo enerva-se e quebra a mobília
numa grande convivência francesa
co'a mosca que foge espavorida no vento


(...)

- Mário Cesariny
in Manual de Prestidigitação

É giro, não é? Como esta rima descabelada saltou lá dos seus preparos e veio aqui, alegrar este insosso drama. Pois já vimos algumas coisas, não passámos o pente tão fino que ficassem à vista todos os piolhos, outros virão, talvez, fazer a sua parte, isto se não se concluir, afinal, que neste caso só raspando. Tenho outro poema-mutilado de Rimbaud, combalido e de muletas, como quem atravessou a fronteira e deu por si com um estranha doença nos ossos, que o impede de dar um passo seguro, firme. Meio zonzo, não se livra do aziado gosto que lhe deixa o descobrir-se em português, um tanto ruço, longe já do mito do adolescente escandoloso, como quem houvesse posto um braço de fora de um sonho para apontar umas coordenadas miraculosas e, na manhã seguinte, se desse conta de que nada do que ali ficou tem encontro com este mundo ou outro. 
A “Obra Completa” de Rimbaud que, este ano, se publicou entre nós, foi claramente assumida como uma iniciativa do editor da Relógio d’Água, Francisco Vale, que para acelerar a coisa até a distribuiu por dois tradutores, os quais, por sua vez, não se conhecendo, nem trocaram notas durante o processo, a ponto de, quando calhou produzirem duas versões do mesmo poema (por se encontrarem nas mesmas ou em anteriores versões na correspondência do poeta) não as terem sequer cotejado, trocado impressões, dialogado... Então, dois tipos traduzem a mesma obra de costas voltadas, porra!? Mas se mesmo assim a iniciativa não deixa de ser louvável, e se pode ter nascido do desejo de dotar finalmente o leitor português desta obra que, depois de descoberta, não pôde mais ignorar-se, e com quem todos os poetas, desde então, consciente ou inconscientemente dialogam, o certo é que a coisa estava torta já na ideia, no plano pré-natal, muito antes de levar o tabefe e desatar neste chorume. Seria coisa de esperar de “um organizador de culturas”, “à patada entre lombo bojadouro e alcatra”. E agora, que fazer se “tudo isto cheira a hera para estátuas líricas”? Não deu um escândalo gigante, ou pequeno; nesta terra nem podia. Resta esperar a oxidação, e que arrumem esta “lata de tinta de borrar a vida” (sim, estamos ainda com o Cesariny, quem sabe se numa glosa, exercício poético, ou simplesmente no osso próprio, que ele entortava como queria)... Isto “enquanto não chega a mão definidora”. Cá estamos, eu e o Ricardo e mais um ou outro, dados como tontos por nos importarmos um pouco, nos zangarmos com coisas destas, este “vento de cinzas”, este “organizado anoitecer geral” com a morte a rondar por perto. Então, vamos “crianças para a cova espigar um rato cinzento”, e vamos, assim, “cessando connosco todo o murmúrio”.

Eis, no original, o poema “L'Éternité”

Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Eternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.

Ame sentinelle,
Murmurons l'aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s'exhale
Sans qu'on dise : enfin.

Là pas d'espérance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi? - L'Eternité.
C'est la mer allée
Avec le soleil.

Agora, e para efeitos de comparação, aqui fica uma versão (ou glosa, eu sei lá o que o Serras Pereira chamaria a isto, e também não me atrevo a perguntar-lhe, que ele a mim não me diz nada, nem comenta... é que nem pia) de Ivo Barroso:

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.

Alma sentinela
Murmura teu rogo
De noite tão nula
E um dia de fogo.

A humanos sufrágios,
E impulsos comuns
Que então te avantajes
E voes segundo...

Pois que apenas delas,
Brasas de cetim,
O Dever se exala
Sem dizer-se: enfim.

Nada de esperança,
E nenhum oriétur.
Ciência em paciência,
Só o suplício é certo.

Achada, é verdade?
Quem? A Eternidade.
É o mar que se evade
Com o sol à tarde.
 

Anterior, a esta, talvez ainda prefira a de Augusto de Campos:

De novo me invade.
Quem? — A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no mar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? — A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
E, finalmente, para os anais, a tradução de Miguel “Mão de Deus” Serras Pereira:

O quê? Reencontrada?
Sim, a eternidade.
É o mar que vai
E com ele o sol.

Alma sentinela,
Confessa o murmúrio
Da noite tão nula
E do dia de lume.

Dos humanos votos,
Dos anseios comuns,
Solta te destolhes:
Tu voas segundo…

Sem esperança sempre.
Nunca orietur.
Ciência e paciência,
Segura, a tortura.

Só de vosso arder,
Brasas de cetim,
Se exala o dever
Sem que se ouça: enfim.

O quê? Reencontrada?
Sim, a eternidade.


O quê? Satisfeitos? Pois devem gostar que vos faça a cama e vos deite, conte uma estórinha, a eternidade… Mas tadinha, com tanto século a ventar na cuca, soa meio gagá… os tremores, a gaguez. Não está aqui a curta distância cheia pelos movimentos de língua que se quebram nos dentes. Mas vá, com bem menos espinhos no que toca a simetrias, vale a pena ir ler também o poema “Âge d'or”. Primeiro no original:

Quelqu'une des voix
Toujours angélique
– Il s'agit de moi, –
Vertement s'explique:

Ces mille questions
Qui se ramifient
N'amènent, au fond,
Qu'ivresse et folie;

Reconnais ce tour
Si gai, si facile:
Ce n'est qu'onde, flore,
Et c'est ta famille!

Puis elle chante. Ô
Si gai, si facile,
Et visible à l'oeil nu...
- Je chante avec elle, -

Reconnais ce tour
Si gai, si facile,
Ce n'est qu'onde, flore,
Et c'est ta famille!

Et puis une voix
– Est-elle angélique! –
Il s'agit de moi,
Vertement s'explique;

Et chante à l'instant
En soeur des haleines:
D'un ton Allemand,
Mais ardente et pleine:

Le monde est vicieux;
Si cela t'étonne!
Vis et laisse au feu
L'obscure infortune.

Ô ! joli château!
Que ta vie est claire!
De quel Âge es-tu,
Nature princière
De notre grand frère ! etc...

Je chante aussi, moi :
Multiples soeurs! voix
Pas du tout publiques!
Environnez-moi
De gloire pudique... etc...


Agora é Ivo Barroso a pôr o remoinho de sons na caixa:

Qualquer voz assim
Angélica e rica
– Trata-se de mim, –
De cara se explica

O mar de questões
E toda procura
Não trazem senão
Ebriez e loucura;

Reconhece o humor
Tão fácil, que brilha,
É tudo onda, flora,
E é tua família!

Pois ela canta. Ó
Tão fácil, tranquila.
Visível a olho nu...
– eu canto com ela, –

Reconhece o humor
Tão fácil, que brilha,
É tudo onda, flora,
E é tua família!

E uma voz enfim
– Angélica e rica! –
Trata-se de mim,
É claro, se explica;

Num hálito irmão
Canta de repente
Em tom alemão
Mas sonora e ardente:

O mundo é vicioso,
Se isso te apavora!
Vive e deita ao fogo
A desgraça obscura.

Ó belo castelo!
Tua vida é pura!
De que idade és tu,
Príncipe natura
Desse irmão mais velho! etc...

Também canto: em voz,
Mil irmãs que sois,
Não de todo pública!
Envolvei-me vós
De uma glória abúlica... etc...
 

E aqui vai a tradução de Serras Pereira:

Entre as vozes uma,
– Angélica a crismo –
Que de mim se ocupa,

Explica-se ríspida:

Essas mil perguntas
multiplicando outras
Mais não são, no fundo,
que embriaguez louca.

Tão viva, tão fácil,
– assume – essa via;
Só flora, só vaga:
É a tua família!

E das vozes uma,
– Angélica a crismo –
Que de mim se ocupa,
Explica-se ríspida;

E assim canta então,
Irmã dos alentos;
Num tom alemão,
Mas cheia e ardente:

O mundo é vicioso,

Mas isso perturba-te?

Vive! E ao fogo cede

O infortúnio escuro...

Ó lindo castelo!
Tua vida tão cândida.

Que idade é a tua,
Principesco sangue
De nosso irmão grande?

Eu, também eu, canto!
Minhas irmãs tantas;

Vozes, nunca públicas,
De uma glória púdica

Ressoai rodeando-me.

Há momentos em que parece um madrigal, outros um trava-línguas… Onde ele diz que se explica ríspida, a Llansol preferiu dizer que o faz “sem papas na língua”, onde ele sentiu a embriaguez à mão da loucura, ela viu êxtase e forrobodó… O confronto de diferentes versões de um poema não tem interesse apenas para escolher uma, preferi-la e riscar as demais, mas cada variação abre um espaço, ventila, deixa que o ar passe entre as palavras e os versos, desafoga-as, é uma forma de leitura crítica altamente empenhada, e que nos ajuda a fugir dessa operação clínica, a deformação profissional que enquista os textos, esses que, incapazes de assumir com propriedade os seus erros, com a ousadia que faz deles desvios inventivos, resgata o poema aos seus ângulos mortos, acha-lhe outras virtudes, segue-o, inspirado, libertando-se. E os que tão certos rejeitam isto, asseguram que não é essa a “tarefa do tradutor”, no fundo, com a sua desconfiança, o que revelam é aquele ressentimento “com a sua própria incompetência cósmica para entender ou criar qualquer coisa de novo” (A. Campos), e então, procuram dourar as suas versões da impostura da seriedade. Todo um grande poema na sua língua não pode deixar de produzir um mesmo desastre, por mais gracioso que seja, na língua à qual adrega. Se a tradução de poesia não for criativa, não sabemos o que será, mas certamente ficará pelo caminho. Campos deixava claro que a sua meta era outra, não esse esforço comissionado, e que faz uma mímica por meio de outras palavras, mas a descoberta poética segundo os mesmos sentidos: “é cor, é com, é fracasso de sucesso”. Trata-se de fazer muito mais do captar o reflexo no espelho da língua de chegada, mas montar a armadilha numa língua nova para que, no vazio aberto pelo poema, se descubra a palavra que lhe faz e desfaz o corpo, essa que Herberto chama palavra encharcada, nestes versos do poema inicial de “Do mundo”:

“Abre-me todo a força da palavra encharcada, abre-me através de abdómen e diafragma, os pulmões, os brônquios, traquéia, a glote,
palato, e dentes, língua,
o côncavo da boca: um canto,
a ventania do corpo.


Mas para quem não se entende com estes modos de tão agitada pronúncia, talvez possamos dizer algo parecido, se chamarmos para a conversa, Borges, que numa resposta a Roger Callois, sobre este assunto disse: “... não creio [que seja possível atingir a exactidão verbal numa tradução]. É mais importante atingir a cadência que convenha ao tema. Penso isso, não somente sobre a tradução, mas também sobre a composição. Uma vez que se tenha encontrado o acento justo, nem muito alto nem muito baixo, nem muito enfático, já se tem o poema.”

Lá em cima, uma vez mais, o tradutor executou a sua honesta versão, mas, por mais que contadas as sílabas, por mais breves os versos, o disparo não se fez, antes ficou um tom pastoso, porque lhe falta outro ângulo sobre as coisas. Como um agente de seguros, Serras Pereira, dá a volta ao animal, tira-lhes as medidas, quer aplicar apólice que o garante contra todos os riscos, mas se enche o seu cantil com a saliva, para os testes de ADN, perde-lhe depois o ritmo da respiração, a armação dos ossos subindo e descendo, o ar passando num silvo pela caixa toda. Tudo isto dispensa, na conta de balelas impressionistas. Mas depois é o seu Rimbaud que se fica por uma diluída aguarela. O Rimbaud que este senhor escuta pouco nos encanta. Na verdade, enfada-nos bastante. Não o descobriu, nem se espantou com aquele modo de desempacotar horizontes, não lhe sentiu o arrepio desconhecido, não se comoveu diante dos instantes divinatórios, mas do génio verbal que foi espiando, apenas nos deu um origami em português, uma pavorosa ave exótica que palra com um distinto sotaque, entretendo as ti-tias pela hora do chá. Era vê-las lá no Facebook de Serras Pereira a dar ao fole nos encómios. Em solidariedade, apareceram outros, como sempre muito janotas, e é fácil fazê-los sair da coelheira, tudo com uns ares de enjoo por causa do desordeiro, desse crítico deslavado que saltou para cima da mesa, manchou de lama a toalha e lhes mijou no serviço de chá. Talvez seja um modo de compensar o torpor dos versos de Serras Pereira. “Com malícia e a rir, este miúdo com cabeça de fuso e olhos de um cinzento verde ou azul, deve ter contemplado coisas que só se dignou contar-nos no pedaço que para aí lhe dava”, escreveu Victor Segalen. Mas isso era o Outro. Este que nos serviram, mais parece uma estola com uns pêlos arrancados da cauda daquele, das tantas vezes que lhes fugia, e das coisas que nos conta fica a sensação de um eco tresmalhado, aquilo que um soluço nos diz de uma verdadeira canção bêbeda. E não nos atrai tanto o mistério de perceber onde terá ele achado a sua tão breve medida tão cheia de contrastes, de tensões deslumbrantes, e aquele poder de choque e fascínio, como nos intriga o podre contentamento desta gente emprestando o ouvido a outra oração dos bocejadores.