quarta-feira, fevereiro 10, 2016


Nelson Rodrigues editado em Portugal




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terça-feira, fevereiro 09, 2016

Vergílio Ferreira, por Miguel Filipe Mochila (jornal Sol)



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Começo assim a “longa história”: — “Eu sou um ex-covarde”. O Marcello ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, sociólogos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a TV. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcello interrompe: — “Somos todos abjetos?”. Acendo outro cigarro: — “Nem todos, claro”. Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salva e só Deus sabe como. “Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.” E por que essa massa de pulhas invade a vida brasileira? Claro que não é de graça, nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são montados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tanto. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as redações, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fomos nós que fabricamos a “Razão da Idade”. Somos autores de impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura como a verdade total.

- Nelson Rodrigues  

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Teatro Griot



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quarta-feira, fevereiro 03, 2016

"Noite do Meu Inverno", de António Barahona, Averno


Versão completa do texto que sairá no próximo Cadernos do Subterrâneo

O ÚLTIMO DOS ÚLTIMOS 

Admitamos que vivemos um tempo menos febril do que o que gosta de se fazer passar, menos dos excessos e das grandes torrentes do que nervoso, espasmódico, algo viscoso. Não é certo, assim, dizer que corra, antes que escorre. Um tempo que falta a si mesmo, como faltasse o chão, em que qualquer convicção é trocada por um humor passageiro, tornando-se tudo temporário. O tempo é a sua própria questão. Mais que o ser, antes o ser em que momento. E o principal sentido é o da ausência, um espírito flutuante, que precisa ser levado em ombros, andar a par, não entre a multidão, mas carregado por ela, a cada passo olhando em redor, esvaziando o risco. Uma era da aceitação contra uma da cultura que levanta no espírito a suspeita e leva um homem a uma atitude de recusa. Nunca o passado nos terá sabido tanto a futuro. E assim, ler as obras dos velhos é um cair da cadeira, cair abaixo de si mesmo, da ilusão de que se estava à frente. Porque o tempo que se entregou a fundo perdido, às maiores insignificâncias parece perdido. O tempo que se entregava todo a uma frase, esse que vive e ergue a sua torre da insistência, de um ranger de dentes que se apura até lhe sair pela boca uma borboleta, o do verso entregue pela luz da lâmpada à do amanhecer e pela do anoitecer de volta àquela, entressonhado, posto sob quarentena, um verso que soa solto, grave como uma interjeição, suave como um partir de casca por uma força que lhe vem de dentro. Um que está ali quieto na página, mas que se desdobra em imensidade a partir do momento em que lhe damos a menor hipótese. Citemos quem sabe: “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas; pode-se dizer que ele é medido pelo número de recusas. A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil, o convencional e o impositivo, ficou à margem e precisa, de quando em vez, ser lembrada para que a sua grandeza essencial avulte sobre o aviltamento dos cosméticos culturais.” (Augusto de Campos, “Poesia da Recusa”). O efeito de se gostar um pouco de tanta coisa, da atenção se multiplicar, leva a que nenhuma das coisas assuma a sua plena intenção. Não há hoje em Portugal outro poeta que sofra uma tão entristecedora desatenção do seu tempo como António Barahona. Com a sua poesia inspirada em chão clássico, não escreve – ele que hoje, sobretudo, se reescreve furiosamente, como quem não tem nada que legar que não as próprias linhas do seu testamento, e as aperfeiçoa afincadamente para que o mundo se deslumbre encadeado no feitiço dos seus ecos – não escreve, dizia, interessado em fazer pasmar os deste tempo, mas o seu é o ofício de quem ombreia com os de todo o tempo. E é tão natural lê-lo ao lado de Cesário, Pessanha ou Camões, como de Rilke ou Goethe. Ora confirmem: “Vou misturar-me aos pastores, / Dessedentar-me em oásis, / Ao andar co’as caravanas, / Vender chales, café e almíscar; / Palmilharei cada atalho / Desde o deserto às cidades. // Por maus caminhos de fragas, / Teus versos, Hafiz, confortam, / Quando o guia, deleitado, / Montado no macho, canta / Para que os astros acordem (...) “Absorvo os meus limites com uma estratégia d’infinito: / recuso o limiar, vou além do livro, continuo a escrever pelo sobrado e pelas paredes acima até ao Céu (…) Escrever é uma súplica sem nenhum pedido: / só a substância do poema recompensa este esforço de manter o rumo do rumor, / rasurado a cada passo / (rasura sobre rasura até rasgar o papel) / rótulo tatuado na pele do mar / a fim de assinalar o ponto da garrafa do corsário / há mil anos afogado a rir e a brincar com peixes”. Antonio Machado, outro poeta com quem Barahona partilha a intensidade do “fluxo de sangue em cada verso”, a dolorosa paciência que serve melhor a alegria e o gosto de fundir poemas e cantares, indicou certa vez que se o obrigassem a eleger, de entre todos, um poeta, Virgílio era a sua escolha. Não por qualquer das obras que o imortalizaram, mas antes de tudo por ter dado “asilo nos seus poemas a tantos belos versos de outros poetas, sem dar-se ao trabalho de desfigurá-los”. Barahona deixa acesas nos seus versos todas as luzes de presença que os atravessam, honra devidamente o sentido de convivência dos espíritos mais afinados que se comunicam ao longo das eras, é um desses cada vez mais raros a quem a poesia não interessa como um rosto contido num reflexo de um determinado tempo, interessa-lhe a própria natureza dos espelhos, essa arte sagaz sobre a qual o tempo não consegue passar.


segunda-feira, fevereiro 01, 2016

domingo, janeiro 31, 2016


Preciso ver, tocar essa estranha cintilação, saber que não me absorve, mas fere pela força que explode saliente, quadro no chão encostado a uma parede, meio descoberto, como uma maldição a dar pelo joelho, a lentíssima inundação de que damos conta, uma torneira aberta num passado dividido com alguém, essa dor muito vaga, cujos contornos nos escapam, um olhar maior, que nos dá a ver, agarra mais cantos, soma melhor as coisas visíveis, tudo isso que nos basta, nos atordoa, encandeia, qualquer sentido é forte de mais, se levado ao extremo, investigado, o estalo violento de uma esplendorosa visão faz-nos cair num apagão, perder os sentidos todos de uma vez, mas há espíritos esquivos, difíceis, mesmo nesses há sempre um flanco desprotegido, é curioso notar como há quem, apunhalado pela agudeza de um cheiro que lhe mete a chave à fechadura, logo cerra os olhos como se quisesse manter-se de pé perante a investida, focando-se, cerrando os punhos, antes de finalmente se recostar perdida e gozosamente. Os sentidos desequilibram-se, debatem-se. O desafio não é o de mantê-los alerta, mas cancelar os que estejam a mais. Subjugá-los na ordem certa. Servirmo-nos. Tornarmo-nos solúveis.

Avô Amaro


Quando o homem pisou a lua no café do meu avô
eu não estava lá [escrevi sobre isto antes por outra
causa mas (montagem, conspiração, solas ufanas de improváveis
galochas de lustro astronómico arrastando um pé retocado
pelo ângulo do vento bafejando ouro azul rubro e branco
e pura Americana forever) nem sempre há-de ser o mesmo
poema; neste o tema serve o desenho de quem era o meu avô:
ele tinha um café e um televisor ainda raro na altura, caixa
cúbica que todos convocou em torno ao espaço, só eu não;
eu era ainda para nascer e por isso lamento quando chegou
o primeiro homem à lua eu não estava lá] em Vendas Novas

e o café ficava em frente ao quartel e os mancebos
treinavam para ir matar no ultramar por causa do senhor
que julgava ainda governar Portugal mas também não esteve
lá e se calhar nem viu nada se calhar nem ouviu se calhar
nem deu por nada mesmo supondo um rouco transístor
seguro pela débil mão junto ao débil coração o enfermo
na cadeira de onde já tinha caído sem ter percebido
nada desconhecendo os mancebos e estes em paga
ignorando por uma vez tudo dele todos olhos e reparo
todos postos no futuro todos sôfregos na respiração
de Neil Armstrong lá longe na lua na televisão do Amaro

preto no branco o dominó em tampo de mármore em câmara
lenta derrubado passado tempo guerra regime ó leve coração
efémero o meu avô no meio do café a serradura era neve
de botas cardadas na lua que ele limpou quando voltou
a tropa ao quartel de fantasia em forma ele só atencioso
ele desperto afã de cuidar de varrer como sempre fazia
ele pepitas semi-acesas eram estrelas fabulosas da alegria
eu não estava lá nem estive quando anos após (eu tinha
dezoito) o coração dele parou eu soube como um soco
a primeira vez que alguém morria a lua não tremeu não se via
o meu avô pela sua fé sem qualquer tecnologia tornou ao céu

- Margarida Vale de Gato

Spotlight (2015)



7/10

quinta-feira, janeiro 28, 2016

terça-feira, janeiro 26, 2016

Under the Cover



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segunda-feira, janeiro 25, 2016

Vanitas vanitatum et omnia vanitas


Foi em locais como Lascaux 
que se deu o achamento ou -
se o dilecto opositor preferir
a deposição em acta
do polegar oponível
e, finalmente
ao fim de vinte mil e tantos anos
a obsessão do alquimista entornou-se
na criação de um material - em absoluto
inoxidável,
imune a angústias geracionais

Perdidas para sempre as Ceutas
encontramo-nos, trist' e ledos 
de volta a estas vidas de ginásio e sifão
antónimos do silêncio
e ventos mornos de outras mitologias,
o luxo tranquilo de observar o recém-nascido
enquanto aprende a dobrar o riso

- Luís Pedroso
(inédito)

Cadernos do Subterrâneo XLV


ALC, acima de qualquer suspeita


Teríamos de começar por perdoar-lhe a veleidade que monta o burro e vai para o desaforo, ela vem, chegada à frente da sua importância, e com os óculos descaindo para a ponta desse nariz que não tem fim (como faz o género dos muito sábios) e decreta: desperdício. É o fim de quem queria ter uma vida nesse jogo de pouca razão. Ela é que sabe, o mundo fez ciência daquele olhar, opá, só o médio oriente deu-lhe uma régua que nos tira o jeito, tira o prato da frente dessa inteligência livresca, ela não, fez das pernas bordão dos caminhos mais inacessíveis, quando ela fala agente deve baixar a vida, servir de carpete, porque vai passar a grandeza urgente do mundo, até porque o jornalismo reportageiro dá para dizer mas eu estive lá, eu vi com estes, tive a minha mão a cavalo na primeiríssima mão, não estou a inventar, é como os olhos que a terra há-de comer e que nisso já se foi antecipando, esses olhos meio que comungam já, já escutam o badalar por cima das nuvens, os anjos conferenciando nas pausas da grande luta, a condição do jornalista que saiu mundo fora, montou serviço de denúncia, lá onde os abusos, a tragédia atingiram um nível tântrico, são puras obras do expressionismo alemão, ó isto aqui é uma brincadeira comparado, eu ia-vos escrever sobre o magrebe, mas este mosquito-espécie-cabrão picou-me a mão com que eu escrevo, agora não vai dar para ignorar, não é que me vem este pirata de bidé com a sua biblioteca-metralhadora carregar sobre a madre-superiora das causas extra-muros, eu que se tivesse poderes tinha o mundo salvo amanhã, e só porque esta tarde já tenho um outro compromisso que não posso adiar, amanhã resolvia isto, então eu que fundei a escola O-Mal-Está-Ali!, eu que das minhas atenções faço consciências, eu que inventei a sandwich do sagrado coração da esquerda, porra, chegou agora a vez do alvo ser eu, como é essa história?, eu dei a vida mais que o resto, e agora, findos estes anos todos, cosido com esta  linha aqui os fins de mundo uns nos outros, agora que eu vinha para rematar, numa de grande escritora, premiada à primeira, porrada no secretário de estadeco, bimbo que se arranjou à última da hora, que dava sins feito cão de tablier, nas horas vagas, ainda servia de cão de guarda, eu que sou EU, essa alegria impoluta, essa convicção deslumbrada, que atravesso o atlântico enquanto tu só tens tempo de atravessar a rua, escafiado aqui no pardieiro, eu que tirei férias e fui a correr para estar em todas as frentes, não fosse napoleão encarnar um dia destes, e agora volto para casa, vou ser a romancista da consciência mais impante desta província de coitados, bandidos e cínicos, e vem-me este, faxineiro de uma arte com os dias contados, vem este biltre arrancar-me a coroa no meio do baile, quando eu estava a anunciar o esquema de evacuação do titanique jornalento, a forma de nos bancarem os cuidados paliativos, vem-me este dizer que não é assim, que estou a ver mal a coisa, se calhar em vez de discutirmos aqui os pontos, mostrarmos as cartas, eu nem dispo o bluff, eu junto os meus, eles partilham no livro-das-fuças, dou cabo de quem resta ainda vivo com o teu nome na boca, eu faço um telefonema, eu acabo com a tua raça, e, no fim, eu vou é sambar, mais os matusquelas, dou um passo à frente, por cima do teu cadáver, até porque, como aprendi pelo mundo, os mais duros agente molha no leite antes de levar de novo à boca. Fui, xox