Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012


UM COPO DE ÁGUA PARA A MÃE DE JUAN ALCAIDE



Recordo-te guardando silêncio entre mulheres
enquanto o teu Juan, já hóspede do caixão,
aguardava as pontes da terra.

Eu não o quis ver porque me dava medo.
Não porque estremeça diante da morte
ou porque um morto me cause espanto,
mas porque era Juan com a sua calva e o seu rosto
e com seus lábios gordos e suas mãos gelando.

Então deu-me medo de estar em Valdepeñas,
de ter chegado no comboio da manhã
e ter bebido vinho antes de te ver.
Porque tu estavas, pálida, num banco,
sem pronunciar uma palavra
e com um semblante alheado.
Não sabias
se estavas em tua casa, se de longe
vias o seu telhado, agora negro.

Transitava a gente pelo pátio,
e tu, então, pensavas
em camisas engomadas e em lenços;
em perfumes de flor e de madeiras,
e nada sobre a morte e a sua instância.

Próximo estava o teu filho:
forças tinham outros para o erguer.


- Ángel Crespo
(tradução de J.E. Simões)

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

Fez-se tarde

Durante todo o dia, um cão negro
e silencioso seguiu os meus
passos. Parava
a uma distância prudente, como animal
que quisesse e temesse a minha amizade.
Quando entrava e saía,
esperava-me paciente e sempre
erguido, cão incansável,
teimoso, quieto, ao alcance da minha voz.

Chuviscou, e ali estava
molhando-se. Parou de chover,
e o lustroso pêlo reluzia
como a evocação desses campos
que eu temo e desejo. Fez-se tarde
e quando quis, por fim, estabelecer um pacto
com ele, senti o fedor do lobo.


- Ángel Crespo
Antología poética (1949-1995), Visor

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Bandoneón

O litúrgico harmônio das ruas,
o mais reles órgão alemão,
fez a travessia com os emigrantes
e chegou a um bordel em Buenos Aires.
Como um padre apóstata,
ali se foi arrastando por histórias
de solidão e de melancolia.
Sempre amei os tangos que escutava
em garoto, nas tardes de domingo:
meu pai e minha mãe bailando
para lá e para cá no corredor da casa.
É a voz de uma épica perdida,
com os bandoneones arrastando
letras que falam de um amor culpável.
Os que bailam naquele corredor
hoje já vivem dentro de um tango
que, misteriosamente feliz, canta
um velho que sorri em passe de dança
aproximando-se da Desconhecida.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

A tua rua

Numa manhã luminosa chegas.
Aos quarenta e dois. As andorinhas
voam de uma ponta à outra da rua.
Há uma altura em que o Cálculo
expõe friamente o fim de um limite.
De repente dás contigo só, em casa.
E com o inverno que chega à rua.
Sorriem-te os setenta anos,
e dás-te conta de como tudo é tão perto.
Um autocarro, o metro, e estás junto ao mar.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

A perda da ignorância

Não escrevas as tuas memórias.
Lançarão aos teus pés aquele que foste,
como um cadáver inimigo.
Quando o passado começa a tornar-se mentira
é muito pouco o que há a reter:
uma inútil e indigna convicção,
uma crueldade errónea. Quase nada
te pede que voltes a falar.
A alegria de um velho é o silêncio.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Despedir-se

Retirei os tapetes e as cortinas,
todas as mesas em que há muito
não me alimento nem escrevo.
Tirei os quadros e pintei os muros
para apagar os sinais do tempo.
Guardo uns quantos livros. Sei precisamente quais.
Destruí
cartas de amor que já não me amavam.
Silenciosos, agora, os amores
são icebergues errando no pensamento.
A casa, sem recantos para o medo,
deixa-me a vista mais despida.
Nada, nem a esperança,
poderá perturbar a última morte.
Não há outra casa para aqueles que amo.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Ler poesia

Ao terminar um livro de poemas
de Paul Celan, não sei o que foi que me disse
nem o que quis dizer-me. Nem sei sequer
se pretendeu dizer-me alguma coisa.
Há tanto medo num poeta hermético.
Deixo a mão em cima do livro já fechado,
e juro manter sempre à distância este medo.
A poesia, que pode ser primeiro
uma paisagem a que se chega de noite,
acaba sempre por ser um espelho
onde alguém virá a ler os seus próprios lábios.
E que razão de ser
há no conteúdo se estiver vazio?
Silêncios e vazios foram feitos
apenas para os anjos. Contêm
o medo da vulgaridade. E a vulgaridade do medo.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Forês 2008

Em miúdo passava sozinho muito tempo.
A vida devolve-me a esse lugar
onde sem pressas posso, como os pássaros,
sentir que a distância está nos olhos.
Por fim a solidão, que partilha comigo
uma mulher, maior, enamorada
na sua noite, onde também não há mais ninguém.
Os jornais, sobre a poltrona,
são como um animal de companhia
que jaz, indiferente, dormitando.
A solidão é uma geografia.
Não comemora nada.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Sonata

Escuto-a e a chuva cai,
e penso naquele cão solitário
que ia atrás do ataúde de Mozart.
Sigo-o nos compassos deste piano
e nos caminhos que a água desenha
deslizando nas janelas.
Vou, misteriosamente feliz, atrás de um cão
composto a meias entre a música e a chuva.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Outro oráculo

Diante dos brancos,
reluzentes, metálicos moinhos,
no ar limpíssimo do inverno,
vai-se pondo o sol.
Penso nos tempos em que não ali estavam.
Pouco a pouco compreendo que aqueles foram dias
de um horizonte mais amplo. Hoje erguem-se
no seu lugar, brutais, os moinhos
orientados para uma época difícil.
Chego perto de um deles: sinto a sua indiferença.
Acaricio o enorme mastro frio,
sinto a manhã nessa poderosa
linguagem de gadanha que vai segando o ar
com grandes aspas que giram furiosas
assistindo ao poente.
Como alguém que falasse a verdade.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Bem-estar

A chuva vai caindo sobre os girassóis
que inclinam para a terra as suas cabeças escuras.
São campos de palavras que conservam,
empapados de chuva,
os abatidos pássaros do futuro.
No rosto do tempo permanece
um sorriso de agradecimento.
De pé junto à janela
está um velho despido: olha os girassóis
e sente o frio do copo
onde, com um rumor de bateria,
a chuva golpeou a noite inteira.
Também sorri: não deseja nada
porque, com a manhã, também morre o passado.
É mais um entre os girassóis
que inclinam para a terra as suas cabeças escuras.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

O frio na praia

As gaivotas levantam
numa lentidão de cinzas
crepusculares.
E é ainda meio-dia.
Sobre a areia
vejo as miúdas,
velhas bandeiras
com as quais,
obstinadamente,
a minha própria vida
me faz sinais.
As ilusões:
que cansaço.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Victória

Escuto o vento com o rádio ligado.
Oiço uma mulher ainda jovem que se queixa
de uma avaria eléctrica: ficou
sem electrodomésticos. Como faz séculos, diz.
Como faz séculos.
É pouco o que sei do meu lugar de origem,
é pouco o que sei do mar brutal
onde os pescadores da fome levantavam
com ganchos os atuns de um mar ensanguentado
para que uma mulher ainda jovem mas dura,
que mais tarde foi minha mãe, se tornasse professora.

Oiço o vento golpear a terra seca.
O que nos espera. Moscas. Como faz séculos.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Paisagem

Chegámos ao último refúgio.
Aqui começa
isso a que talvez tu chames solidão.
O primeiro passo para que esqueçamos
quem somos e nos façamos companhia
debaixo da pedra que, gelada, nos cobre.
Está tudo nos nossos olhos.
E o desencanto, um rio daqui até à morte.
Faltou muito pouco para que fôssemos felizes.

- Joan Margarit
in Misteriosamente feliz, Visor

Segunda-feira, Janeiro 30, 2012

A Dante, do seu tradutor

Com um pedaço de carvão dos infernos
e uma rosa
violeta e olorosa
do purgatório – e com a luz ou sombra
dessa outra rosa cândida
do Paraíso,
________purifica-me.

Queima, perfume, sana
meus lábios e minha língua,
___________________ e que minha mão
ponha, ditado por ti, nas minhas palavras
o que as tuas do nada fizeram.


- Ángel Crespo
Antología poética (1949-1995), Visor

Homem

Lutando, corpo a corpo, com a morte,
à beira do abismo, vou chamando
Deus. E o seu silêncio, retumbando,
afoga a minha voz no vazio inerte.

Deus, se tenho de morrer, quero-te
desperto. E, noite a noite, não sei quando
hás-de ouvir a minha voz. Deus, estou a falar
sozinho, arranhando sombras para ver-te.

Estendo a mão, e tu cerceias-me o gesto.
Abro os olhos: arrancas-mos vivos.
Tenho sede, fazem-se em sal as tuas areias.

Ser homem é isto: horror às mãos cheias.
Ser – e não ser – eternos, fugitivos.
Anjo com enormes asas acorrentadas!

- Blas de Otero
in Ancia, Visor

Domingo, Janeiro 29, 2012

E o verso fez-se homem

1

Ando em busca de um verso que saiba
parar um homem a meio da rua,
um verso que se tenha de pé – aí está a diferença –
que até estenda a mão ou cuspa.

Poetas: persegui esse verso,
insistam, brandindo-o, e que estale
rente ao homem – arado, e foice, e gadanha –,
aconteça o que acontecer, sim!, doa a quem doer.

Somos a escória, o carnaval do vento,
ridícula terraplenagem, com o cu
de fora e a camisa aberta, agitando-se.

Ando em busca de um verso que se sente
entre os homens. Que se meta à besta,
se ponha a olhar Tachia descaradamente.


e 2

Falo do que vejo: do balcão
e do copo; do varão e das suas duas mortes;
escrevo aos gritos, digo coisas duras que
se interessam até por Deus. Assim se fala.

Venham ver o meu verso descer a rua.
A minha voz em pelota debaixo da canícula.
Poetas chatinhos, gente ridícula.
Todos tão convencidos. Calem-se!

Falo do meu cárcere: uma língua
desavergonhada, com as mãos no alto-falante:
«Tachia!, que me dizes, como, onde, quando?»

Escrevo como cuspo. Contra o solo
(ah esses reles poetas, falando baixinho,
os filhinhos dos papás) e contra o gelo.

- Blas de Otero
in Ancia, Visor