domingo, fevereiro 19, 2017


No espelho que quebraste bailam esta manhã borboletas bêbadas de sol. Pedaço a pedaço também me fixo, me acho entre o assombro e a vergonha, enquanto se cobrem bruscamente de flores e bichos os muros, cor e descanso na trégua de uma adoração cheirosa. Sem dinheiro, os miúdos espertam, sacanas-fantasiosos, vêm vender pombas aos turistas, mostram-se prestáveis, fogem-lhes com as máquinas. O de sempre e o demais: as raparigas e os cafés, os velhos bebendo o álcool silencioso dos demónios, e eu, olhando, anotando, com a alma balbuciada e a tarde espreguiçando-se no meu colo. Semanas sem nada. Dor. Cansaço. Aos poucos volta uma espessura aflita à voz, pulsação e canto, linguagem cardíaca onde as coisas se acham alucinadas. Apertar o copo, um gole de agoniada cerveja, defender o que me resta entre chuva e versos. De lado, caído, um desses bilhetes: não-me-deixes… E falas baixo, de tão longe, rimas discretamente e não sabes das horas, fechas-te. Esse quarto obsessivo, imundo, a lâmpada mordendo-te o ombro, a sua insistência louca contra as noites. Já só um rádio velho, este coração que, entre ruído e canções estrangeiras, não deixa esse teu nome. Puta, putinha desgraçada, com a tua lista de impossíveis, esse teu vício de morte, deixaste-me nos lábios um gosto de fruta caída, um vasto suspiro envenenado.

sábado, fevereiro 18, 2017


Retirados ao sonho, os olhos doem-me terrivelmente. As pálpebras descosidas nas manhãs insípidas. A casa já desperta, atenta à prece das cortinas. Voz fraca de uma luz mortiça que entra reordenando o seu cortejo de tímidas figuras de dança entregues à melodia pressentida na intimidade de certos objectos. Ela ergueu-se, fez o café, pôs ordem às linhas do corpo e desapareceu. Os bilhetes acabaram, os simples recados cheios da doce inabilidade e dos infindáveis rodeios que o desejo e o amor usam para se fazerem entender, acabaram. Nestas primeiras horas sou uma mera imagem desfocada, vagueando nua, cigarro ao peito entregue a explicações. O absurdo simples. Sono e confusão, esta frase gaga que vai repetindo o mundo, baixinho, numa prosa como tinta derramada. Estas mãos escuras, tremem demais e coçam-se devorando a espera. Um pouco de céu que retenho sempre por baixo das unhas e um eco ganhando distância das coisas que li. Prodígios de luz encobrindo rastos, o esqueleto dos bichos formando pequenas jaulas de sombra, ninhadas de animais invisíveis, enxames de abelhas ansiosas, os lábios partidos dos canteiros, as flores iniciais e aquelas cicatrizando os muros. Uma lagartixa horas, fixada sobre o hieróglifo da sua sombra. Que equilíbrio fascinante. Difícil saber o que sustém o quê, mas nada é trivial. A árvore estende a todo este largo uma estranha dignidade. Confiante, só, bebendo no tempero da aurora o seu grito mudo. Dias que não deixam de ser breves, sua frágil exaltação de pequenos incidentes, quase despropositados. Uma brisa desata a memória dos frutos nos ramos onde engordam pássaros de cinza. Quedas musicais, um nervoso bailado. Cantam em louvor dos idosos, ali dobrados sobre o leme dessas naus de pedra, entranhando-se-lhes na roupa e na pele o cheiro marítimo, a distância. Falsas todas as partidas, todas as tardes, sedentárias odisseias entre parêntesis de náusea e desafecto, pensamentos tenebrosos dentro e fora de sombras. Tudo o que lhes resta é esse resignado afastamento do mundo. A infindável pose desta cidade que já não avança nem recua no tempo, assiste indiferente ao seu velório.

sexta-feira, fevereiro 17, 2017


Já ninguém foge e não tenho sequer quem me acorde, sendo dos que sofre mais de noite entre sonhos já fracos, que se arrastam de muletas puxando para si a realidade, magoados de tanto absurdo e de uma gente que só existe por lhes faltar a coragem. Tenho este quarto e uma garrafa de soro, lâmpada que pinga e espalha lentidão sem romper nem queimar. Levanto-me quantas vezes? Sinto vidro no sangue e cada gesto destrói o seu alcance. De barriga para o alto, no chão, as latas de cerveja e o rádio perdidos de riso. Livros e cadernos. Tinta entornada e uma juventude fedendo a suicídio e glória. Esta narrativa ofegante, um caos com pormenores líricos. A única música que ainda suporto. Os pardais agora tossem e a tardes sentam-se entre tudo o que se vê corrigido para caber num alexandrino. Uma delicadeza tão forçada. Caçando o azar, os velhos lançam dados no meio da praça, migalhas de pão e as unhas do diabo. Uma revoada de pombos estala em torno do meu pensamento, mas eu juro que não se passou nada digno de nota. Atrás da cabeça rola um sol esquivo, frio, e esta luz avessa põe-se a fazer as partilhas entre o que lá está e o que vive nas aguarelas da memória. Jardins choramingando, solidões tão renhidas. Contemplar o impossível enlouquece, olhar o escuro comove-nos. Não é que um homem se importe de chorar, mas um dia até isso lhe falta. Tudo o que o leva são assobios bem vagos, soluços desses que arrastam a noite para um fim qualquer, sem consequência nem moral.


Contra as distâncias a que dou vigor, sou a conta perdida por toalhas de papel entre tantos passos frios no rumo desastrado de astros parasitas, tudo somado enquanto a chuva sossega o escuro e a terra inteira balança numa melodia de cinzas. Mais um pouco e serei o cão de cada rua, revirando o lixo derramado no vento, os olhos brilhando de febre. Falo sozinho como sozinhos falam os príncipes dementes escondidos em celas e torres. Despeço-me entre o ruído maravilhoso que nos desfaz o nome e a presença, até não restar em nós mais ninguém. Poderosas linhas pontuadas a néon lançam um clarão agudo que serve de farol ao bando de ébrios detectives esquadrinhando a noite atrás de pistas quanto às vítimas do romance. Descansam nos cafés tirando sentido de anotações de um vago lirismo. Os dedos finíssimos e sujos de tinta apertando vidros que sonham, uma luz absorta entre gestos lendo outros gestos, e o calão sorvido ou a rima ancestral que confunde o silêncio sobre o século em que estamos. O longo ritmo da sede e a flor rouca do sangue aberta no meio de um bailado imóvel: noite embalsamada de perfumes; olhares cuidadosos tacteando o mel desses sinais que nos transformam para sempre. Repara nesta miúda desinteressada de nós, no jeito como protege nas mãos a chama que lhe canta os traços mais doces do rosto. Uns restos azuis, o corpo repetido, habituado à voz cega das canções que a empurram para a carne indecisa de outros. Corpos inacabados que mudam de forma no escuro, e se beijam como anjos canibais. Assim, como frascos de perfume, entornamo-nos em todos os sentidos e somos arrastados para outra noite. O sangue apertado, esse vazio em que sopramos prazer e sombra, caídos lado a lado, sem passado algum. Apenas um sonho cru onde a luz respira em ritmos de vitral, lenta e sensível, tocando o ombro de um deus perdido. Vontade viva de doer, filmados uns pelos outros num eco redondo, na perfeita leitura de um manifesto que deixe claro como de todas as horas do mundo não engolimos uma só. Mas se o guizo da loucura se anima dentro de nós, não cala a voz das coisas reais. Com bastante tempo e solidão, estas deliram como nós, imitam-nos, e ficam depois para assombrar os demais.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

língua morta 071


 
TÃO BELA COMO QUALQUER RAPAZ,
de Andreia C. Faria,
capa a partir de pintura de Rik Lina

[200 exemplares, 84 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com
 
 

quarta-feira, fevereiro 15, 2017


Não comeces, por favor, diz, pregando-me esse reflexo sempre uns palmos abaixo da minha altura, mal pressente um vento a esgravatar a terra, a torcer os caules, arrepiar as sebes, põe-se na defensiva, eu ensaiava melhores modos, na minha cabeça ia bem, só havia uns graus a corrigir na trajectória, mas ela revira as mãos como se me fizesse um açaime, espumo, deito fora as maneiras, alguma frase pega como faísca em campo seco, o gosto da língua na boca é o de uma fera em cativeiro, a sombra sarnenta de tanto se coçar abre feridas, a carne em torno de uma vaga dor como de um osso, sou substituído por um gesto para o qual não tenho a menor utilidade, começo a vestir roupa, camadas como se lá fora fosse enfrentar um período glacial, detesto-a no outro quarto a deixar-se ouvir, encher-se de cães, a prescrever-lhes o meu cheiro, o esforço absurdo para me pôr do outro lado da porta faz de mim um foragido, o lance de escadas aponta tudo, a madeira anota no caderninho a hora de saída, o rangido das tábuas deita uma mão, rasga as roupas da alma, cá fora sabe-se o caminho cegamente, cada passo pressiona a rua, seguem-se uns aos outros numa elipse doentia, e ela lê-te os direitos entredentes, passagens bíblicas como se te ameaçasse, antes que a voz suba de volume, traga os personagens do costume, calculas a distância que poderás ganhar até cresceres feito uma imensa nuvem de gafanhotos, o receio de que não haja deserto suficiente para isto, ouves o sino da torre absurda martelar o ar, estiveste aqui mil vezes e ainda nada te é familiar, a loucura perde-se no próprio rasto, incapaz de apagá-lo, depressa, seu palhaço, eu digo-te, imagino que precises de duas horas antes que o cansaço tenha forças para sufocar a luz que enche e te atravessa em vagas, o apito desse comboio metido nos carris do sangue para te apanhar de frente, a cada volta cerro os punhos e junto a raiva para esmagar contra os ossos até ao último passageiro, do mundo inteiro quero deixar só lata, cinza e penas, apanhar alguns anjos se puder, e aguentar-me por um fio, buscar o mesmo banco de jardim e escrever a data 1848 numa folha após outra, como quem diz a todo este tempo que não precisava ter-se dado a tanto trabalho, e tenho a certeza que faço sentido noutra língua, esta só me deixa ficar sentado junto à linha, ser duro com quem passa, cuspir-lhes em cima, culpado e sem remorsos, só me interessam sentimentos que duram toda uma vida, e de todas as minhas voltas sobre este tempo só tenho a reconhecer-lhe a qualidade do ódio.

segunda-feira, fevereiro 13, 2017


A água no copo apodreceu, criou o seu cardume a partir do pó, às vezes reabsorvia nervosamente o crepúsculo, tinha um gole de infinito ali a fazer tempo, atenta à música das esferas, tomou raiz nela uma profunda sensação de asco celeste, a lâmpada atravessando-lhe a substância indefinida punha a rodar nas paredes do quarto um cosmos próprio, outras vezes tinha roncos de fundo do mar, a linguagem lentíssima e consoladora das espécies com milhões de anos, o coro das vozes caladas, minha cabeça bebe chuva, lançado do cavalo, a estação abandonada, primavera, se não me falha a memória, tudo me tinha uma certa repulsa, depois até me cresceram entre os ossos flores de um monstruoso viço, antes mal tinha com que me distrair, hoje oiço vir o vento cheio de universo, a escuridão toda quebrada, partes respirando, e mais alguém aqui treme, tudo cá fora como se copiado de um sonho, dá-me noites dessas em que fica fácil dormirmos fora das nossas cabeças, um barco desce devagarinho por uma canção, no ar da noite passam falando estranhamente, mesmo cortado pelo som dos remos dá-me a impressão de que falam a minha antiga língua, se tropeçassem nos restos mutilados já não haveria nada para ver, talvez o anel ao pescoço daquela rosa, mas pode ser que o destino fosse uma loja de penhores, e sobre o caderno que posso dizer, se até para nós as coisas que escrevemos se tornam desconhecidas, mas é possível, às vezes digo-me, viver sem forças, confiar no vento para voltar a casa, ter só a memória suficiente para os mesmos gestos, puxar as calças, esfregar a mancha da realidade, ficar no sinal, ter em vista esse furo nas coisas, o troco que não lhes faça diferença, para o café barato que leve à boca o sabor da rua depois de tê-la visto virar e perder-se, estar do lado do tempo só porque passa e para quem não quer muito isso basta, um corpo obediente e vão para ir pelos entardeceres prolongados pela sede até aos poços, a terra húmida a fazer dos teus passos algo mais, das coisas pisadas um nome, saber que mesmo o infinito tem um nome terrestre e que simplesmente demora a dizer, o que dói é o quanto, de certos pontos, dá a sensação que Deus chega ao fim, tinha ouvido dizer que era obsceno, não sei, parece-me também um começo, e se o vejo ali caído, gostava de saber em que batalha?, e o corpo Dele então a ser destroçado e a alimentar que flores?

domingo, fevereiro 12, 2017

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

"Arquivo e Democracia", José Maçãs de Carvalho, no MAAT



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, fevereiro 07, 2017

Adélia Prado, "Tudo Que Existe Louvará" (Assírio & Alvim)



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Almada Negreiros na Gulbenkian (Lado B)



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sábado, fevereiro 04, 2017



El sonido es la muerte que todavía resiste
y levanta, sin manos, un gesto hacia lo vivo.

Juan Eduardo Cirlot


De um perfume de flor surge toda
uma época, de uma certa cadência
na chuva, algumas ruas debaixo
da luz certa despertam de novo
aquela sombra que nos deu nome.

Talvez o som volte, memória ou eco,
um fruto mordido algumas vezes,
e o caroço depois deixado a perfumar
o quarto, como a carcaça de um fauno
entre a transparência e a cintilação
na hora em que muda a luz.
Então, podem ler-se outras coisas,
palácios reflectidos na água de um verso,
o ar que passa pela boca capta essas
coisas invisíveis que, mal se dizem,
estão perdidas para sempre.

Há ruídos que tomo como indicações
para cegos. Ao lado ouço-lhe os passos
sem nenhuma ordem particular.
A água então já sobe as escadas.
Os pássaros que lhe serviram de voo
tem-nos agora nos bolsos, mortos.
Lá em cima o gato cobre
o telhado inteiro, nada passa por ele.
A noite, que foi ágil, aparece hoje
abandonada e de mãos vazias.

A carne é um espelho e uma estrela.
Onde o vidro cresce e rasga a carne
rente ao reflexo, a tinta
perde luz, escama, o osso cede.
Escreves palavras calmas,
cada vez mais frias.
Como se em lábios suaves recuperasse
os contornos, puxando até aos ombros
aquele vestido de terra adolescente,
esse murmúrio de tantas flores.
Se te disser que as oiço ainda.

Mas eu conhecia a descrição.
Se alguma coisa fosse mudada de lugar
já não seria o mesmo mundo.
Ali a corrente afrouxa, o rio deixou
de ser fresco, digere incansavelmente
o pássaro amarelo que roubaste
há muito tempo de um quadro.

Talvez sonhes com isto, disse-me.
As moscas sobre a cama, tantos livros
abertos carregando o ar, a presença
infame daquele que vive das peças
de um milagre destruído.
Incapaz de ficar dentro de si,
sinto-lhe o cansaço, os olhos
com linhas a mais. Levanta-se,
apanha os óculos do chão e
limpando-os na camisa, pergunta-me:
Como se desvia o olhar de um morto?