sexta-feira, julho 22, 2016

A islamização da revolta


A matança – mais uma – perpetrada em Nice há pouco mais de uma semana faz-nos evocar um pequeno livro grandioso de Rui Nunes, publicado este ano. Chama-se A Crisálida (Relógio D’Água) e é um confronto extremo com o que mais difícil é de representar: a cena da violência e do terror como puros actos sem discurso, a morte em massa ou a que remeta para uma arcaica violência divina (as decapitações), sem projecto decifrável. A escrita de Rui Nunes faz-nos ver que não basta dizer “merda” para que um texto cheire mal, nem basta dizer “sangue” e “carne mutilada” para fazer emergir a violência: é preciso também uma sintaxe, proceder à mutilação das frases e do ideal narrativo. Esta escrita é a da experiência dos limites. Do outro lado, nos antípodas, está a lengalenga ciclicamente repetida do “ataque aos nossos valores” e aos lugares simbólicos da nosso “modo de vida”, praticados pelos “inimigos do Ocidente” e até da “humanidade”. Oh, a humanidade! Essa “velha horrível”, como lhe chamou Nietzsche, no momento em que, na Gaia Ciência, proclamava: “Nós não somos humanitários” e “não amamos a humanidade”. Um humanismo a sério, mas isso eles não querem saber, foi o nazismo. Há poucas semanas, o atentado numa discoteca em Orlando veio lançar a suspeita de que o terrorista não queria prolongar a política por outro meios nem tinha um móbil religioso: era apenas alguém em conflito profundo com a sua sexualidade e quis resolver as suas pulsões através do mandamento ascético do terrorismo: “Morre!”. Nada de muito diferente do que fez o piloto alemão em luta contra a depressão. Agora, em Nice, temos novamente um indivíduo do qual não se conhece qualquer ligação ao Islão religioso nem ao Islamismo político radical. E cujo “modo de vida” conhecido parece mais consentâneo com a paixão narcísica do Ocidente do que com a paixão ascética do Islão. A tagarelice do atentado aos nosso valores e aos fundamentos da nossa democracia começa a parecer-se com uma grande ficção – uma ficção que fabrica sentido onde ele não existe (o mais difícil de conceber é que o terrorismo não tenha qualquer objectivo político e ideológico compreensível e seja uma espécie de diletantismo). Mas o que é seguro é que estas ficções informam os actos dos terroristas e os seus actos validam essas ficções. A ficção em que se tornou o conceito de terrorismo – o conceito, não as consequências bem reais dos actos que são creditados em seu nome – levou o filósofo Peter Sloterdijk (que não é de Esquerda e é impermeável aos discursos de legitimação sociológica) a dizer numa entrevista que “na perspectiva da realpolitik, se o terrorismo não existisse teria de ser inventado”. Tal como a guerra contra o terrorismo não tem feito outra coisa do que tomar os efeitos pelas causas e as margens pelo centro, a lengalenga debitada em grossos caudais depois de cada carnificina não faz mais do que ignorar o que é preciso ser pensado: antes de mais, o inconsciente terrorista e aquilo que dá lugar a uma “guerra das subjectividades”. Um importante antropólogo francês, Alain Bertho, já deu um pequeno passo, mas muito importante, para começar a pensar o terrorismo de outra maneira: propondo que há uma figura contemporânea e mortífera da revolta (uma revolta que pode ter apenas a ver com um conflito pessoal) e que, em vez de uma radicalização do Islamismo, estamos antes confrontados com a islamização da revolta radical, uma estranha situação em que o Islamismo se torna uma maneira de exprimir uma recusa do mundo e até um ódio de si (o self-hating diagnosticado no “terrorista” de Orlando).

- António Guerreiro, no Público


Ganância mínima de um corpo ensaiado na velocidade de uma bicicleta, deitada no muro mais à frente, noutra hora dando de comer às roseiras, mais tarde ainda entre as casas feitas de pedra cor de mel, a rua inteira a comer a melancia das mãos dela, os espaços entre vê-la e procurá-la burilados na imaginação, uma rosa deitada fora, fria, incomodando a rua, abelhas de volta de um dente arrancado, a paz que o sangue encontra numa faca, esse sossego selvagem em que parecem mergulhados os instrumentos da vida rústica daquela gente, uma aura de resinoso brilho, um modo dos caminhos levarem a que se fale alto, teorias caminhantes que a natureza vai tendo o cuidado de corrigir, tornando-nos cerimoniosos, a sensação de que uns passos adiante a paisagem ainda estaria por pintar, e, chegando lá, que a tinta mal secara, o folguedo e recreio das cores, num instante tão vivas, berros estendidos, para no seguinte caírem num mal estar, enviuvando para um velório de bichos, fomos perdidos para escalas menores, figuras rupestres um dia, um ramo de tomilho de pés atados dissolvendo a sua cor na água terna, passos calados, a terra mastigada, e o vento cambaleando, pesado, como um museu que arrastasse o eco dos barulhos que fizemos.

domingo, julho 17, 2016


Punham-me de castigo horas que me fizeram torto. Não sei se o sangue perdia o caminho até à cabeça, se tinha outras ofertas. A intenção era que me corrigisse, mas se te prendem contigo quem vais tu ouvir? Não farás de ti um irmão mais velho, más companhias, a pior influência, um degenerado? O que quer o louco senão as oportunidades suficientes para se explicar até ao fim do mundo, quando tudo lhe dará a razão que antes faltava. Que oportunidade melhor que a de partilharem a mesma pele, devolverem-se perfeitamente os gestos nesse infinito perturbado que está preso nos espelhos? De tanto se treinar sozinho comigo, sabia perfeitamente o que puxar. Os caminhos sem regresso são todos por dentro. Eu já tinha brincado tudo o que podia com as mãos. Agarrei e larguei o mundo, rasguei-lhe as asas. Sabia já por esses dias que nada de muito especial consegue sair do território da infância. Que a sua força de antiguidade continuará pelos anos a ressoar, dizendo-nos quando estamos no nosso secreto país e quando estamos a mais. E se a melhor fantasia das que dão balanço à infância é a idade adulta, o que nos podemos dizer quando pondo um pé fora tudo parece igual mas já sem intenção? As coisas e as pessoas são apenas a desculpa quanto a tudo o que lhes falta. Tiram-nos o tédio, esse mal-amado tesouro, entregam-nos à ambição. Melhor seria termos bloqueado as saídas. Nós próprios de guarda, mais velhos, com a carranca de todas as fadigas, e um aviso: podes passar mas só irás encontrar a sucessão de miragens e o deserto que fez de mim isto. O alazão que eu ia ser, as distâncias que se poriam diante de mim de joelhos, e afinal. Morri as nove vidas de um gato e a única conquista foi ter começado a ler. Ter finalmente um encanto pelas paredes onde, como hera, as estantes crescem. Muros abismados. Porque se o mundo é maior que os sonhos todos juntos, nos sonhos é que se vai espreitando pela fechadura, de quarto em quarto, até ao infinito.

sábado, julho 16, 2016


Não acredito na luz do meu tempo, não despe nada, roça como a coçar-se, insiste cheirando como se pudesse inventar o olfacto, a saudade dos sentidos um a um perdidos, uma luz atirada à linha, indecisa, ouvindo vir o comboio, fico debaixo ou vou?, e nisto nem o comboio passa, tudo se antecipa e cancela, luz às colheres de chá, sopa de quantos dias, na paragem aquela luz roendo as unhas, distraída como a estúpida manhã de um dia de escola, luz motorista de autocarro, a pouca vida na moldura do retrovisor, passageiros contados, a crosta dos olhares, só raro da sombra peneirada a essa luz colho algum alimento, trabalho a mão, tiro dedos, multiplico-os, dependo para tudo o que me importa do tacto, porque a esta luz tudo parece virado de costas, do mundo só se vê um rosto remoto, e naturalmente fala-se mais alto, mas nunca ouvi um segredo, boca e ouvido tornaram-se estranhos, cada gesto assume uma largueza publicitária, se ouvi algo realmente controverso foi já na hora perdida, estórias de intimidade desfeita, como dizem, não chove, não há flores, e nesta terra só chove no escuro, suponho que as flores nasçam para dentro da terra, preferindo enredar-se nos cabelos dos mortos.

quinta-feira, julho 14, 2016


Um rato comprou um gato de ar egípcio, ancestral, perigoso, um pêlo fino que fazia confusões à luz e dava ciúmes à noite, mesmo se vinha com a lua cheia brilhando a tiracolo, ele, o herói da valeta, subiu a altura toda da vida só para se mirar de volta no máximo da vertigem, ascendeu pelas traseiras, escalando a mirífica montanha de merda, e um dia pôs o gato à janela, entre gárgula e franco-atirador, vigiando as traseiras, nada lhe escapando, mais nenhum rato subiu a mesma montanha, e a chiadeira lá em baixo causava àquela alma roedora um tal enlevo, só suportava a fineza da sua infinita colecção de música clássica com o marulho da miséria por trás.

segunda-feira, julho 11, 2016

"A Amiga Genial", de Elena Ferrante, por Maria da Conceição Caleiro



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

domingo, julho 10, 2016

Na biblioteca da escola depois da guerra


Ao entrar sinto a cara a arder:
montes de livros, migalhas de cultura e de beleza
juncam o chão como espigas calcadas
após a passagem de um brutal furacão.

A poeira da guerra veio pousar nos lábios
dos homens de génio. Vozes incorruptíveis
a troar por cima do espaço e do tempo.
Mas incapazes de esmagar as botas do fantasma.

Apanho o livro pouco espesso furado
por uma bala. A chaga é horrível.
Todas as folhas estão manchadas de sangue.

Abro. Leio. Não posso reter as lágrimas
quando o título vem dançar diante dos meus olhos:
«Os sonetos sangrentos de Hviezdoslav.»

- Julius Lenko 
(Tradução de Ernesto Sampaio)
retirado daqui 

A guerra pode um dia acabar dependendo do vestido que escolhas, imagino isto, penso na hipótese de estar certo quando te vejo entre lembranças, mais perto uns passos, como se tudo me trouxesse secretas indicações, saber ainda o teu nome, também fui um miserável num comboio há pouco menos de um século, e a nossa promessa foi escrever, as inúmeras cartas que me colavam de volta os pedaços, diz-me outra vez adeus com aqueles olhos de um tamanho que eu juro ser impossível... um dia destes contei todas as nuvens, sem gosto, lembrou-me um chão de barbearia, os pêlos cinza, fios mortos em ninhos, sem forma, sem nenhuma imaginação, Vera eu vi-te tantas vezes na estação e de cada uma não eras tu, não tinhas dito que nada te impediria?, nascesse o sol e lá estarias, mas o sol nasceu, Vera, antes não tivesse, o pior da guerra foi ali mesmo, acordado, escavando uma trincheira só para mim, a lama ressequida depois comendo os meus gestos, um frio de susto indo e voltando em vagas, acordado eu fui capaz de sonhos melhores, voltar a casa foi deitar o casaco na relva, sentado, descalçar-me, não voltei a vestir-me a rigor, a cada inverno passo frio, adoeço, deixo a febre queimar, se me restasse um último desejo, e já pensei muitas vezes nisto, gostava de te ver sempre que te demorasses mais do que os segundos necessários a um espelho, gostava de estar lá com aquele tumulto que se sente quando se escava o reflexo de si, dei-te dois vestidos, de vez em quando podias usar um deles, nem que para ir buscar o pão, ou no dia de tratar do resto da roupa, do amarelo disseste que era preciso conhecer-te para o ter escolhido, era preciso conhecer-me para ter escolhido essa frase, à cabeceira de um homem que não sabe que diferença faz a morte, um pintassilgo imita-lhe a pulsação, anda a estudar para anjo, entra pela janela com o sol, sorrimos, a casa num pandemónio, caçamos moscas juntos, lemos Blake, às vezes Keats, só enquanto nos sabem a receitas de fascínio, inscrições de druidas, o mais difícil é não ignorar as estações, os dias que se aperaltam mais e nos sabem essencialmente ao mesmo, estamos mal se nem a natureza nos serve de distracção, estamos quase a acabar, agora, que guerra agora?

Testament of Youth (2014)



8/10

Dope (2015)



7/10

quinta-feira, julho 07, 2016


Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
(…)
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

- PAGU (Patrícia Galvão) (1910-1962)

retirado daqui

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma extensão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

- Machado de Assis
 retirado daqui

quarta-feira, julho 06, 2016

língua morta 066



A PEDRA-QUE-MATA,
Poesia Japonesa
Uma antologia do «Período Primitivo» ao «Estilo Moderno»,
traduções de Luís Pignatelli,
fixação de texto, introdução e notas de Zetho Cunha Gonçalves 

[200 exemplares, 150 pp., 12€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com



Como se vive a própria voz
e renasce dos papéis onde um homem
é a difusa mitologia das suas selvagens
migalhas de saber

o sangue fica curto, comovido
com as pequenas flores de pó
que se erguem pelos cantos
enche-mo mais, vira o copo, deixa
a mosca molhada arrastando-se
sobre a página, meu pobre anjo
tantas horas, o preço a que paguei
as minhas sementes
retirado nalgum quarto, nos hotéis
com a estrita penúria calculada
silencioso, como o instrumento
de um morto guardado no estojo,
à luz de candeeiro, transforma-se-te o rosto
a sede inteira cabe-nos na concha da mão
no pedaço de espelho quebrado
em que te fechas, e a noite
intensamente de volta, embaciando-o

todos os dias passam e o que fica
senão esta brecha aberta
deixando a palavra à míngua
para que os ossos ganhem leitura,
talvez o caroço de um fruto inventado
de tanto o trazer ao canto da boca
possa vingar nesta terra

escreve-se com as sobras e o que
sobrevive consegue-o só se
nos escapa, nos confins da tarde
esse poderoso olor, de costas
para ti, para mim, fuma velhas águias
voando baixo de roda do cachimbo
uma figura que se confunde
com essa infância aproximativa
onde vi o mar levantando-se a cavalo
e antigas estrelas serem baixadas
como cartazes publicitários
baldios onde um sapato guarda
as ovelhas de sombra

na cabeça vivem-me hoje mais descrições
do que propriamente memórias
cinzas: do chão apanho as próprias mãos
debaixo de chuva colhendo
a sua dispersa lição
ali, destapado um frasco de paisagem
num só postal todas aquelas tardes
de calor medíocre, formigas avivando
contornos onde se derramou
a breve idade, a rede deitada no chão arfando
e as borboletas como fósforos ardidos
ainda coladas ao vestido

medes o ritmo dos minutos
para deixar passar o tempo do mistério
essa luz, a doce putrefacção do sol
revira as cascas do horizonte
tantos anos depois
a palavra só é suficiente para ver, 
no mais, abres os olhos vazios
a roupa interior molhada
desfazendo-te o corpo, só tens
para sonho os detalhes
do teu próprio esquecimento

domingo, julho 03, 2016


Terra de bichos, frutos rolados com brincos perdidos, a glória da geral indistinção das coisas, os cuidados de tudo para nada. O terreno vestindo-se, puxando o lençol. Eu que fiz, faço escuro com as duas mãos, perto do peito chego-me, microscópico, com meu olho lerdo, o outro de vidro, vazado numas páginas amarelecidas com piratas, tiros de canhão. Vou sumindo na lente. Mudo, fiz um século sozinho, uma fila de pedras no escuro, travesti-me dos modos ora brutais ora miúdos da natureza. Além, vivo mortificado a doce e lenta, musical gangrena. Dei por mim sem recreio, só já uma silhueta. Magoado com as minhas dúvidas, recortei a minha figura, de costas, em ponto cada vez mais pequeno. Sei o que vais dizer: oiço-te como um rádio que trago, às vezes tiro as pilhas. (Melhor que esmagar o grilo.) Irado, logo vou responder com os horrores todos que puder invocar, de seguida vamos passar uns dias sem pôr uma só frase direita, nem um grão de sentido que nos denuncie, desabafo nem pôrra nenhuma. Até que comece a passar por nós o movimento das coisas, sem desvio, a sua rotação, a água insistindo, querendo fazer curso. Como se estivéssemos no caminho, siderados, ouvindo bichanar esse vastíssimo mecanismo que parasitamos. É o que sei de pior, como se ganha balanço dentro das próprias ilusões, e perdendo o pé se vem correndo lá do fundo, para ultrapassar-se, pior, trespassar-se, o que derrota toda a perspectiva. Os outros parecem restos frios de nós, pelo reflexo tão conotado que nos devolvem, e não pedimos segundas chances, convencidos de que se formos adiante poderemos fazer-nos sair. Como pondo fogo no bosque onde nos cercámos. Um tratamento desesperado para essa praga imensa da nossa criação, e, no fim, num gesto último de decência, só queremos ser o anjo mandado lá de cima para se exterminar e à obra monumental dos seus erros raivosos, ressentidos, delirando com quantos dentes lhes armam a boca.