segunda-feira, julho 22, 2019


Mais que a falta informação, o vazio parece crescer tornando-se respeitoso, talvez porque depreende o quanto ficou por dizer, e sendo os diários desses homens terrivelmente discretos, esgotam o absurdo daqueles dias resumindo tudo a impressões alheadas, algum comentário sobre o modo de soar dos pássaros aqui, algum devaneio um tanto frívolo não fosse a encantadora escolha das palavras, a ordem que assumem nessas tão curtas frases, fechando uma data impossível no fim, esse dia que já não viveremos com eles, embalado pelo ritmo das águas; comprei o jornal para lhos ler e fingir que o mundo, mal ou pior, continua aí, a vida remendada, e se este não chega a ser um dia belo, nada como a luz que lhes é devida, tem nele a sensação do intervalo. As coisas irão certamente agravar-se, mas não para já, e por mais trivial que pareça, as palavras ainda podem ser postas para bom uso, mesmo se os jovens poetas parecem ignorá-lo, se o enfado e o desprezo são o que mais cultivam nos seus versos, as lutas melhores estão aí para ser travadas, toda a gente de um lado e ninguém do outro, e não deixa de ser aliciante não só a quantidade, mas a baixaria, o nível dos imbecis, e essas migalhas por que se debatem tanto... Se insisto em reescrever os diários é porque o pouco que dizem tem mais ouvido, e lembra-me o cuidado de Blas de Otero pra não acordar o rouxinol que dorme no gume do bisturi, parece que oiço um deles falar enquanto apara a barba sobre o tanque, o outro a enrolar com um cuidado musical um cigarro, ando à volta da casa ou entro, tento interrogar os tão casuais objectos deixados no lugar onde se desmoronaram, atlas, herbários, a intimidade que deixa cheiro em roupas tão frias, o zumbido desses restos da história, alguma discussão, posso imaginar os últimos dias como o de prisioneiros de guerra, trocando confissões banais como segredos de Estado, que os reescreva não é para substituir ou alterar alguma coisa, mas para ouvir algo mais, nem que seja a muito custo, mesmo com fezes e sangue, com uma mão e com a outra, esperando que a luz ainda desenterre alguma linha; assim, a pobreza é uma razão, tal como esse desejo de fugir que torna irrelevantes as distâncias, depois dos maus tratos, tentando cansado a loucura, aprende-se como alguém dobrado sobre um piano riscado no soalho, a afinar a fome, com o ritmo cheio de bichos, combativo, brusco, um romance de detalhes, as ideias em pó, ossos quebrados de outras ficções, nacos de um romance que se recusa, até porque o mundo já não se aguenta; depois de tanto se envolver, o cansaço é o génio, aquilo que sai para lá da conta, o sobrante, e julgo que me terão reconciliado com a ideia de que qualquer verdadeira honra que este tempo se disponha a fazer-nos terá de passar por alguma forma de condenação, ainda que rodeando a última, a mais honesta, a morte; por isso, se da vida deles retive a clareza dessas tão límpidas notas, se me parece que vibram sobre a música de lembranças realmente duras, tudo isso me soa mais verdadeiro, apontado ao órgão que em nós suspira, a paisagem torcida como um pano, a pingar, retalhos ínfimos, o equilíbrio de quem aprendeu a esconder-se nas coisas que vê, modelando o infinito amorfo do seu inspirado hálito, afinal, se a vida nos surge por extenso é só porque nos habituámos à conversa, às tantas bocas que o dizem pegado, esses sentimentos exagerados, a forma suja de saudade em que ninguém acredita, uma coisa sem pele, essas baladas sobre o remorso e a redenção, tudo limpo, emocionado, uma humanidade para consumo de quem não viveu nada, nem se apercebe que a dor nunca ajudou a articular qualquer narrativa, antes a deitá-las fora, e assim passemos frio entre os apontamentos que restam, não duvidando de que os mestres morrem pelas costas, esquecidos ou atirados à fossa, e que não te quebre o lábio adolescente, não pouse nele a mosca dessa fala, a deliciar-se com o mel do desastre, se podemos continuar, sentir contra a carne o peso de uma estrela como o da própria respiração, talvez tenhamos ouvido o suficiente e nos seja impossível fingir que tudo não passou de uma brincadeira.

domingo, julho 21, 2019


Um começo natural ainda seria pior, devolvendo um rasto que já lá estivesse, o balanço sentido como vício, como ainda antes de ti o peso do corpo do pai sobre o da mãe, lias a frase com a sensação de que nela os sentidos estão cheios, as imagens fartas, a perspectiva degolada, quando se fala, não uma língua suspensa nem morta, mas acabada. E saber que há países, épocas inteiras assim. E que grande avanço não seria se não déssemos mais voltas, não virar nem à esquerda, seguíssemos adiante, a ir saber dessas últimas consequências, onde as forças para se animarem assobiam, o sopro de um lado ao outro serve de combustível para caminhar dormindo, arrasando os sonhos, num delírio seco, as impressões espremidas até ao osso, recluso de um ritmo, um passo e mais outro implorando, e isso nos roube a presença, numa queda brutal que se veste, em que o estar perdido organiza as coisas segundo uma urgência, assim põe-me sal, põe-me outro norte à frente, faz que o parafuso rode da forma mais lenta, como flor viva por entre a carne, abre-me uma ferida solar esforçando um raio, um dito onde o cuspo de outros séculos conserve alguma atitude, algo mais nobre do que essa arrogância de achar que porque se está vivo se tem algo que aos mortos faz falta, roda-o de forma lenta para irmos um pouco além do tremor, e se aspire um ar que depressa arrefeça, ter uma estrela debaixo e tu a coseres por cima a pele, respirando com uma força tal por cima da dor para que o juízo chocalhe um pouco, para desmontar o labirinto, as ideias se enfrentem, deixem esse ânimo territorial, se esganem, para que a dúvida tenha então a desejada extensão ao seu redor, um belo deserto, ainda serás roído, espera assim que venham os insectos, que o céu se abaixe e o passaredo te use como caixa de ar, que trilos, que modo de se deixar levar, e que isso te faça rir das antigas convicções, e se desembarace do açaimo a fera, então podemos afundar dessa leveza terrível, atravessar por dentro o olhar dos anjos sobre nós, um desastre que dura, que parece ter fome, e pelo qual passas como se cortando flores.

Céline


When you stop to examine the way in which words are formed and uttered, our sentences are hard put to survive the disaster of their slobbery origins. The mechanical effort of conversation is nastier and more complicated than defecation. The corolla of bloated flesh, the mouth which screws itself up to a whistle, which sucks in breath, contorts itself, discharges all manner of viscous sounds across a fetid barrier of decaying teeth—how revolting! Yet that is what we are adjured to sublimate into an ideal. It’s not easy. Since we are nothing but packages of fetid, half-rotted viscera, we shall always have trouble with sentiment … Feces on the other hand make no attempt to endure or to grow. On this score we are far more unfortunate than shit; our frenzy to persist in our present state—that’s the unconscionable torture. (“Journey to the End of the Night”)

sábado, julho 20, 2019

quinta-feira, julho 18, 2019

A Guerra dos Condóminos



Dada a evacuação faz já uns anos de tudo o que fossem altos vultos, com o fim das grandes casas senhoriais e de tão dispersos os ermos casinhotos, o problema da habitação no meio literário português acabou reduzido a um imbróglio ao nível da propriedade horizontal, as reuniões de condóminos que, ou não se fazem de todo, e cada um desrespeita os regulamentos como se lembra ou só para chatear, chafurdando ele mesmo para incomodar menos mas um tanto os demais, ou, se há razões superiores, ameaças de novos invasores, lá se reunem as hostes e acaba tudo numa tremenda zaragata. Faz já uns anos que vim viver para uma palhota, e, antes disso, há uns meses que me vinha baldando às cerimónias, missas, quermesses. Lembro-me de certa vez ter dado por mim protagonista de uma circular saída do punho do mais eminente presbítero em característico tom seco e tosco a queixar-se de que este menino fora apanhado a bocejar na última reunião de trabalhos, e que isso era atentatório da dignidade da missão e coiso. Foi mais tarde que vim a descobrir numa fita qualquer que nas salas de interrogatório uma técnica básica ao confrontar um suspeito de actos tenebrosos é interromper-se e hastear bem alto um magnânimo bocejo, até espreguiçando, e isto porque, se é conhecido o efeito contagiante desse gesto-em-cauda-de-cometa, quem sempre fica imune, quem melhor resiste a esses efeitos é o psicopata. Ora, do que me lembro, na sala só houve um dos que lá estavam que abriu a bocarra e lacrimejou um tanto. Talvez o medo tenha levado ainda um ou outro a disfarçar, esconder os destratos que nos causava aquela cegarrega, mas é sempre bom dar por si folgado, rindo de recordações, assim se goza desbragadamente o gosto de andar cá fora, e de, apesar de uma ou outra mazela, se ter saído do Grande Convívio batendo com as sucessivas portas que se me punham pela frente. Da experiência de mais um ou outro que me antecederam nestas coisas, mesmo que de outras gerações, estava já instruído quanto às condenações que haveriam de seguir-se, mas a situação ainda ganha contornos mais hílares se vos disser como, depois de um período de confusões, acabei dando-me conta de que ao sair os trancara lá dentro. E por estes dias, quando nada tenho que fazer, colo os pedaços quebrados do que vou ouvindo e lendo, sei juntar dois e dois... (mesmo se, às vezes, até por maldade, junto um pontinho e dá cinco, não falho por muito) e se as memórias que guardo chegam a parecer-me um tanto delirantes, logo algum fio vem socorrer-me entretecendo-as, e, pelo intricado da deplorável trama, sei que não podia ser coisa toda ela montada lá nos fundos da oficina da imaginação, pois fede demasiado ao tão triste e cultuado real que lhes servia de programa. O que também agradeço são certos estímulos, presentes que me puxam de volta para os braços do passado, e nem escondo o prazer de lá ir quando as horas me não dão outros espinhos onde aguçar o sangue, pilhando-o assim “como uma enorme rosa em estado de decomposição”. Gosto sempre de me mirar nessa janela empoeirada e ver do outro lado a família a molhar o pão resseco na mesma sopa d’antes. Vez por outra ainda me chegam estilhaços, alguma homenagem por meio de referências cifradas, um retrato aplicado de quem, noutras circunstâncias, me fugiria como as galinhas fazem, armando um berreiro até desaparecerem deixando só as penas, e então lá me obrigam a abrir um tanto ao calhas o canhenho marcial, soprar umas aparas, e ir cheirar o catálogo a ver se me lembro... ah pois, este – diz que é rijote, que é cheio de talento naquelas unhas, um pouco atarantado, da ideia de flanar só lhe ficou a flanela, ou aquela ali, sempre a urdir a sua apertada teia, ensarilhar nas sombras, sabe como ninguém do crochet, tão aplicada nas variações entre essas notas ora doces, ora severas ou melífluas, numa de eterna governanta como as formava o lazarento país do Salazar e da Nossa Senhora, e parece que ainda faz suas malhinhas por escrito sempre que se apanha em trânsito, de resto, e à volta, há os que entoam uns rosnidos em coro, com um ou outro tenor a destacar-se, mostrando a dentuça, e entre labirínticas demandas, versinhos achacados, violências entredentes, sentam-se a assistir ao filme da sua posteridade, mas se passa alguém pela rua e olha, amatilham-se a ver se causam impressão, a dar a ideia de que, se for preciso, afinfam, infelizmente, depois não há um que se faça, ferre o dente. São demasiados colos, e quando aquele além se empina é para mostrar aos outros o que faria na hora, mas chega a hora e cisca os cantos. Quanto aos restantes felinos desesperados, ao que sei ainda se presta culto àquele que ganhou fama como "o gato mais colérico da sua geração", o que revelou como, no fundo, estávamos mesmo era na presença de ratos. E o tempo vai passando, a tão cortejada morte vai chegando por fascículos, os alvos comuns e as raivinhas que em tempos os uniam estão aí como dantes, peruando, e, na verdade, cada vez mais se lhes assemelham. Nem com o ânimo reunido a muitas mãos lá nas reuniões clandestinas da célula celeste, em salas forradas a murmúrios, puetices, bustos de algibeira, e com as letras gordas das graves frases motivacionais em modo de requebro lírico, nem com tudo isso se deixam arrastar para a coragem dum ataque. Entre roncos, suspiros, bater de pés, remexer de nádegas sentadas, etc., gastam-se nessas actuações, numa espécie de concerto minimalista, perpétuo e que (julgam eles) bem merecia ser gravado, deixado aos vindouros... Assim, tentando retribuir o favor, espero homenageá-los se disser que me lembram os amorosos melancólicos, envaidecidos das sombras tantalizadoras que deitam com a luz certa, e como sei que o apreciam, dou-lhes do Camões um eco, vindo do passado, para admirá-los nessa permanência dos que nunca morrem porque são logo substituídos por outros: "Estes, no andar, carregam as pernas para fora, torcem os sapatos para dentro, trazem sempre Boscão na manga, falam pouco e tudo saudades, enfadonhos na conversação pelo que cumpre à gravidade do amor. Nestes fazem as alcoviteiras seus ofícios, como são: palavras doces, esperanças longas, recados falsos. Hoje vos falam pela greta da porta: como vos não falou 'estava mal disposta', 'sentiu-a sua mãe'. Porque esta é a isca com que Celestina apanhava las cien monedas a Calisto."

Espaço Ulmeiro, meio século depois



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

carrega aqui para leres a versão completa


sábado, julho 13, 2019

sexta-feira, julho 12, 2019


Falei baixo um bom tempo como qualquer outro parasita celestial, e hoje é nesses pontos onde começo a desaparecer que encontro margem para algum resgate, como o bom velho que achei num estrago espalhado e me dizia, "Quem me partiu foi o meu espelho." Deus tornara-se já, por esses dias, um assunto obsceno. Podíamos passar fome de outras coisas, a vida incomodava-nos tanto que a havíamos assumido como uma tarefa qualquer, como arrastar-se tendo uma pata em cima, e não por um orgulho imbecil, mas porque depois de um certo ponto é mais fácil ir contra o mundo ajudando à nossa destruição. Como se perde o próprio nome na boca de quem nos olha não como a um ser só mas uma praga. Estar com as sombras, com as marés de tinta, na troça ou nos resmungos, também no grito dos autores desconhecidos, todos esses dons dizimados, vozes por detrás da parede, e flanquear a noite. Depois é o que se sabe, como o raro talento se sente estúpido, pede desculpas e se ausenta quando o seu eco ainda só rodeava a mesa, antes de se sentar e dominar a conversa, ferido por esse peso das frases deixadas pela metade, a prosa que nunca quis nada com a medida justa das coisas, mas se deixa prender ao balanço, a essa escura ferrugem actuando no limite das coisas, algum esbanjador admirável a gastar-se em nome de uma úlcera, a desfraldar-se todo, com o alcance de um marinheiro, cuspindo a voz num seixo sobre a água, e o chape-chape voltando para terra, pedrarias mas sons, desses de nos arrastarem para o fundo com eles, navios fantasmas numa espécie de convalescença melodiosa, uma imagem que te trague e te roa até ao fim do esqueleto, cuspindo no fim uma estrela, eu tenho de devorar-me e cuspir quantos caroços até que o sentido me deixe de vez e possa reclamar-me rei do absurdo. E ainda ler aí outra coisa, o que a mosca ouviu da rosa, e mais, mil bagatelas, entreter-me a dar-lhes razão, inventar uma ordem, esse espanto ao aspirar de uma vez o cheiro de tantos dias em pó. Num idioma em tumulto, como se sabe, cada palavra ouve outra coisa, cada frase tresanda, e ninguém imagina antes de a proferir onde dormiu, bebendo do quê. Entregamo-nos a demonstrações de delicadeza sem nenhum propósito, esse desastre que nos arranca aos cansaços de que o mundo se governa. Depois do fracasso é que as revoltas se tornam boas para música, parecem compor com alguma tempestade rente aos ossos, deixando o velho reino como a um cemitério, o real com as suas batalhas intermináveis e triviais, esses motivos e horizontes intragáveis, e ainda todos esses versos lacónicos apanhando "as beatas da existência", preferindo antes o veneno de ratos, este alimento hoje inadiável.

Homecoming (1ª temporada)



8/10


Temos de fazer o pouco sentido das invenções menores, luzes trepidantes, ideias obsessivas que há muito perderam o rastro até às suas origens, como gestos frios, repetitivos, depenados. Temos os nossos carris, o que seja preciso para transportar num sentido o desprezo por nós e regressarmos frescos, como se lavados, tendo dormido com algum ser encantado, doente de paixões sagazes, e essa sorte que nos comove, mesmo que não seja para nós, porque a eternidade é um desgosto sem fim, e o único prazer é mirar esses corpos breves que queimam com tal intensidade que nos enchem de alegria e pavor. Por isso só se deixam olhar uma única vez. Se nos falta a coragem, se desviamos por um instante os sentidos, escapam-se-nos. Eu persegui uma e, não entendendo a sua natureza, dei por mim a detestá-la. Humilhava-me com o seu talento sobrenatural. E eu fiz-lhe todas as juras que sabia, escrevi votos, desatei-me em solenidades ou a fingir que podia acompanhar os pássaros, fingi que sabia como se faz música, e depois de dias e noites em que era náufrago aos tombos num mar agitado, julguei que podia mostrar-me ofendido, carreguei no amuo, como se quisesse convencê-la de que a esperava uma guerra impossível, um remorso que lhe daria caça onde quer que fosse, mas era eu quem não entendia nada da sua natureza, e imaginei-me a rogar-lhe pragas espantosas, coisas de se recear o sono, a própria noite, mas era o mundo inteiro que parecia abanar a cabeça com pena dos meus esforços, e então começava de súbito a murchar, a enegrecer e a segregar um crepúsculo coxo que contaminava tudo, passando de umas coisas para as outras, e eu mal via um palmo à frente, e julgo que deixei de ser capaz de vê-las, perdi o gosto imenso que tinha de as seguir sem outra intenção do que aproveitar a boleia de um odor tão suave no seu confuso tumulto que recombina melodiosamente o caos à sua passagem. Seria talvez pior se hoje me mostrasse arrependido e procurasse desta vez escapar à danação ao invés de ser-lhe fiel, aproveitar ao menos a sua luz impiedosa para olhar desde este ângulo em que, por se nos esquivar a beleza do mundo, se torna tão mais fácil distinguir esses traços de pureza e de virtude que vão servindo de consolo aos moribundos.

terça-feira, julho 09, 2019

João Gilberto



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, julho 02, 2019

Entrevista a Billy Collins, jornal i



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quinta-feira, junho 27, 2019

quarta-feira, junho 26, 2019

língua morta 096



A MULHER DO MEIO
de Ivone Mendes da Silva

capa a partir de pintura
de Jan Madijn

[300 exemplares, 160 pp., 11€]

segunda-feira, junho 24, 2019

A Antígona é ele


Abrindo o Ipsílon a cada semanae descontando alguma contribuição que surge ali a destoar, como ficções doentias num ambiente de desfile e celebração, este é um instrumento panfletário de uma cultura entendida como esse aberrante modelo que “consegue compendiar tudo de maneira caleidoscópica” (Baudrillard). Um suplemento que vai buscar fora essa letra que lembra uma muleta. Não se pense que a coisa se faz por meio de uma exumação ao português antigo. É antes um efeito de importação, como quem lança uma écharpe em volta do pescoço, um tracinho de afectação cosmopolita. Cada sexta lá vem com a sumptuária banha da cobra, o recital subtil do consumo, para deslumbrar-nos com o lá fora, essa razão furtiva de tudo o que se inventa para produzir em nós a sensação de que algo está em falta, de que o vazio cresce a única resposta é consumir. É uma antecâmara do comércio, uma longa sonata às tantas estações da nossa perpétua primavera mercantilista. Esta sexta, o suplemento traz-nos uma entrevista ao editor da Antígona, que, entre os seus inúmeros aspectos parodiáveis, abre logo com o título “A Antígona sou eu”. É irresistível a ressonância com Flaubert e a sua Bovary. Mas, onde o romancista francês nos surge como um criador, o editor português, cheio de soberba, aparece no papel do traficante de iguarias de força moral. O curioso é que este intermediário, se gaba o produto, parece incapaz de produzir uma frase que provoque um efeito de suspensão, surge até alheado da apaixonante urgência de tantos dos títulos emblemáticos do seu catálogo. Não parece ter cedido ao apelo. Até podemos ser levados a pensar que se trata apenas de uma precaução: o traficante que para não ficar agarrado, resiste à sedução do produto que vende. Não sei como é convosco, mas eu posso admirar um editor que opera em estilo de cavalo de carruagem, mal disfarçando a chula parvulez com o manuseio dos clássicos, e que não quer nada com o género do literato, sempre polvilhado desse genioso pó que se acumula nos livros. Até percebo que possa ser estrategicamente vantajoso ter um editor com pinta de talhante, tratando mal a clientela, desdenhando do mundo desde o seu polé monumental. Fica assim dada uma boa ideia do lorpa que ainda pode levar as coisas para a frente, segurar a barra. E quando se toma sobre a mira um coirão destes, apetece citar Camilo, tal é o nível da pretensão que deixa a gente indecisa entre a piedade e o nojo. Já lhe gabámos o jeito para o negócio, só faltou falar nos aspectos que o tornam único, desde as manhas às tácticas predadoras, e mais do que sobreviver, há o lucro que se faz à custa da vizinhança, o tipo de manobra a que, usando linguagem técnica, se usa chamar ‘dar a banhada’. Raramente duas abordagens frente a um mesmo problema terão traçado de forma mais esclarecedora como um catálogo impecável, quase sem mácula, cheio de grandes autores, pode ser bem menos incitante que um outro, que em vez dos autores certos pode ter preferido muitas vezes os errados, mas o fez por motivos de empenhamento humano, com tal paixão e compromisso, que essas coisas fracas revelavam a sua persuasão, ao passo que as fortes eram enfranquecidas pelas incapacidade de inspirar e produzir uma verdadeira convicção. Assim, nos passos em volta de certos homens estabelece-se um pacto de forças, que individualmente podem ser fracas, e há um florescimento, enquanto outros homens se cercam de ideias enormes apenas para atraiçoá-las como se tudo não passasse de fancaria moral, e o que nos deixam são os escombros de um imenso teatro vazio que uma tensa e patética gravidade por vezes percorre e arrepia. Essas duas abordagens que chegam a repelir-se percebem-se comparando as experiências editoriais da Antígona e da & etc. E é Luís Oliveira quem refere Vitor Silva Tavares, e fá-lo, é claro, sem uma nota de apreço, mas apenas para traçar dele a imagem de um ingénuo, e superiorizar-se, escaqueirando tudo, e a memória, aí sim subvertendo o sentido moral de um gesto praticado mais além das operações de caixa, desses ideais tão elevados que se cagam para os homens, e que lhes oferecem a pistola e as cordas com que abrirem um buraco do peito ao vazio do mundo ou com que se enforcarem. E isto vem de um homem que há-de morrer coroado, tresandando ao mesmo mijo que, por momentos, não só aquece como, à luz certa, detém até um brilho áureo... Na estória muito mal contada por Luís Oliveira, escapa-lhe o facto de se estar a referir a um admirável poeta, de quem VST editou um último livro, isto depois de outros, e que não estava, como diz Oliveira, a manipular ninguém, mas a agarrar-se ao esgarçado fio que lhe restava na hora em que o peso todo do mundo era demais, e tanto não estava a manipular que, se não se matou logo, fê-lo uns tempos depois. “Esses gajos que morram, que desapareçam daqui!”, brada Oliveira, acrescentando: “é preciso ter muita força, e não estou a dizer que a tenho, muita força e muita coragem para fazer face a esta cambada que anda por aí à solta!” Quem assina sentenças de morte com esta leviandade, quem encara um homem no limite do desespero, e apenas vê um acto de manipulação diz-nos tudo o que há para saber sobre si mesmo. Na hora em que a sua morte venha o trabalho estará feito há muito. Na hora deste Oliveira, será apenas uma questão de papelada, de fazer tramitar um desses processos que se arrastam entre nós e dão tantas vezes a sensação de que o reino dos mortos é deste lado. Talvez seja por isso que tantos dos nossos melhores poetas tenham encontrado razões para morrerem pelas próprias mãos. No entender de Oliveira, já sabemos que fizeram muito bem, não estavam cá a fazer nada. Depois disto é fácil entender o resto, perceber a ligeireza na forma como fala das zonas mais fundas e frágeis da condição, enquanto as suas aspirações e o prazer que busca chegam a fazer-nos estremecer pela frivolidade. “Matem todas as bestas”, talvez devesse ser este o último slogan da Antígona de Luís Oliveira. Mas, e recuperando o fio, se esta editora tem sabido recortar o grito claro de uns para os arrumar em slogans, num esforço de recuperar uma ideia de subversão um pouco menos voltada para a cantiguinha de feira, é sempre bom ir a um editor que ligue a coragem a um compromisso com aqueles que tem à sua volta, e cria um catálogo menos preocupado em exercer autoridade, em mostrar-se excepcional, e mais arriscado, um reflexo próprio, onde cabem os erros e as fraquezas, e, também por isso, dando a ler o tempo e as circunstâncias. VST tinha, a par de uma sobrenatural clareza de propósitos, também uma fineza de expressão com que Oliveira nem sonha, e isto sempre foi o que lhe permitiu trocar por miúdos noções que na boca de outros surgem sempre atabalhoadas, deformadas. O complicado fazia-se simples, e esse foi o dom que lhe permitiu explicar-nos o que é isso da subversão: “se a montante e a jusante do fabrico és tu o ‘mercado’, como te fazem, então está na tua mão lixá-lo - ou, em mais fina terminologia sociológica, subvertê-lo. Escolhe e torna a escolher, encontra esconsos, busca luminescências (quase) clandestinas, contribui, pela inércia, para a cubicagem dos sarcófagos de invendidos, nega a lógica vampiresca dos conglomerados editoriais. Não embarques quando ouves ou lês que eles garantem empregos e salários e o equilíbrio da balança de pagamentos e o produto interno bruto... deste embrutecimento programado. Mete na cabeça que a legião de acionistas ‘do setor’ não é de fiar”...
Se se diz que Vitor Silva Tavares era a & etc, começa isto por ele nunca ter precisado de o dizer. Por ter reunido à sua volta um longo rol de autores, paginadores, capistas, tradutores valorizando o seu contributo. Já Oliveira sente necessidade de apagar o nome daqueles que o ajudaram e orientaram, quando diz que a Antígona é ele, não menciona Torcato Sepúlveda nem Júlio Henriques, mas já se lembra de falar num Herberto Helder, e isto porque certa vez recebeu dele uma sugestão. Outra diferença que resulta bem claro da entrevista é o cuidado nenhum deste que parece estar no negócio dos livros como quem se gabaria não menos de ser o rei do fiambre enlatado, um cuidado com as palavras, aquela paciência selvagem que levou o Padre António Vieira a reconhecer isto: “Três dedos com uma pena na mão é o ofício mais arriscado que tem o género humano.” E se há momento na entrevista em que Oliveira chega a raspar a lucidez, é ao admitir que não sabe se o que escreve tem algum interesse. E se as coisas de que enche a boca servem de amostra, a conclusão que há a tirar é de que não tem. Nenhum interesse. Nem é preciso forçá-lo à contradição acriançada, ele enche-se, abusa, arrota ainda se limpa à toalha... Veja-se como a conversada da subversão fica a girar como um disco em volta do ralo, e se numa hora está em campanha, de apito e o resto, na seguinte puxa do azedume, de um pessimismo que toca apenas aos outros, e que, invariavelmente, serve para se exaltar: “Os autores portugueses não gostam muito da Antígona. Disseram-me uma vez que têm medo de mim, que eu intimido.” Oliveira diz-se num país e num meio dado à lamúria, mas se ele tem umas quantas queixas, e se acha alvo de uns ataques, calúnias, tudo invejas, no fim, lá se vai arranjando, qual pavão com penas arrancadas a outros, mas depois, curiosamente, um tão magnífico catálogo orientado pelo desejo altruísta do seu editor de “ajudar a tornar as pessoas mais livres”, ao fim de 40 anos não parece ter um legado senão de boas intenções e sucesso comercial. Como explicar que, depois de um papel formativo tão importante, e quando as tiragens passaram dos mil e quinhentos para os três mil ou até cinco mil exemplares, toda esta farra fica por isso mesmo, e o próprio Oliveira não encontra sinais de fogo ao seu redor, e ainda julga que “há até uma certa falta de inteligência, ou há inteligência limitada” na pretensa automarginalização de certos contestatários da (des)ordem dominante... Aí está o editor sem luzes, e que não vê alternativa diante do ciclo da vertigem de destruição capitalista senão recostar-se numa confortável submissão. E a ironia (genial, diga-se) está em lucrar denunciando-lhe as lógicas, valendo-se delas para produzir mercadoria que reduza a crítica a uma espécie de perfume, uma consciência inútil, no fundo. Ao contrário de VST, Oliveira diz que casou a sua ousadia com o pragmatismo, e gaba-se de um conhecimento do mundo que passa por saber das leis e de como funcionam os bancos. Maso seu desdém diante dos autores portugueses, diz-nos que este editor sempre muito contente consigo mesmo, orgulhoso dos cerca de 350 títulos que editou, não acha que isso tenha servido para grande coisa. Se continua a faltar quem entre nós se dedique ao arriscado ofício, é ele quem assina a sentença do país, e se reforça para isso nas turbas que lhe pejam o escritório, ao afirmar: “não acredito que venha ter aqui um original que eu possa pôr nesta constelação de autores”.
Se há “indisfarçável deleite” para este editor é dar 200 euros por uma garrafa de Barca Velha num restaurante, e isto arrastando alguma “amiga e amante”. O que não chega a perceber-se é se a sua paixão são vinhos caros ou se os vinhos são apenas a desculpa para se pôr a falar de dinheiro, e para dizer da centralidade na sua vida desses “pequenos gestos”, ao ponto de confessar que se lhe faltasse o dinheiro para eles ficaria deprimido. Portanto, fazer um livrinho para salvar um amigo isso é uma grande parolice, importa é que não lhe falte o guito para mandar vir da Holanda o café da Jamaica.
Também é bom ver como este editor com a sua “provocadora transparência” merece a exaltação do jornalista, e assim Mário Santos faz jus à pornográfica lógica de compadrio daquele suplemento, sem nunca sentir necessidade de informar o leitor sobre a amizade de anos que o liga ao seu entrevistado, atestando que o Oliveira não saca do violino para acompanhar as suites do moralismo e da hipocrisia, mas, como é evidente, também não engole os “ataques” que lhe fazem... E é ele (o Santos) que põe aspas na palavra, atribuindo-a ao outro, e nisto criando a confusão na cabeça do leitor sobre se poderá distinguir-se dois níveis de discurso quando o jornalista se espoja em elogios, continuando o discurso de auto-engrandecimento do entrevistado. Aliás, note-se que é o Santos quem nos explica que quem calunia um homem desta grandeza o faz, naturalmente, por não desculpar ao Oliveira “o prestígio e o sucesso comercial da Antígona” (You go girl!) Se Oliveira garante que, há dias, um empregado da Fnac o interrogava sobre se tinha noção da centralidade da sua editora em Portugal (e nesta cena percebemos que o tumulto chegou à senzala, e ficamos na antecipação de que um Spartacus se insurja contra o lixo editorial que domina os escaparates), Santos ainda acentua que esta centralidade se relaciona com “o valor actual da marca no ecossistema editorial e livreiro português”. Aí está o jargão que nos diz dos verdadeiros contornos desta hábil quimera editorial que precisa ver-se rodeada por um destino de catástrofe. E a piscadela de olho ao relambório do martketing é tudo menos acidental, sinalizando essa avidez em conquistar o mercado mais do que defender um entendimento verdadeiramente subversivo, para que o conhecimento das circunstâncias e constrangimentos se aplique a fintá-las, persistir de pé. “Se não te importas, é aqui que entra a ética e, com ela, a sempre possível e sempre desejável negação do capitalismo canibal” (isto escrito por VST, evidentemente, toca mais fundo, produz outra tensão na corda). Ora, este ‘canibal’ será um epíteto que, a seu tempo, assumirá uma propriedade fenomenal quando aplicada a um editor como Luís Oliveira, isto à medida que alguns episódios da construção deste catálogo se forem sabendo e aclarando. Se é o próprio quem admite que subsidiou durante anos o seu catálogo publicando O Banqueiro Anarquista à revelia de quem detinha os direitos da obra (a Ática), e se, na hora em que ameaçaram apreender os livros e processá-lo, o gangsta rapper da nossa edição diz que os demoveu ameaçando ligar ao seu amigo Kadhafi, talvez haja algum papalvo que, lendo esta entrevista, ficou a admirar-lhe justamente a fanfarronice, aceitando, como diz o Santos, que estamos diante de “um homem de recursos”. É uma bela estórinha de desafio ao poder, mas dão licença que a gente se desenfade um tudo-nada dos aborrimentos destas chirla existência? É que a rima irá empobrecer logo que se faça um levantamento de outras trafulhices, ficando claro que estas golpadas se sucederam e muitas vezes no trato, não com os Golias, mas com o pequename da edição... Pulhices, pequenos roubos, lutas por esquinas, com as páginas arrancadas não de A arte da guerra mas do manual de tácticas de um chulo. E aí está Mário Santos novamente a riscar o prato: “A Antígona tem hoje um catálogo invejável, capital simbólico, prestígio cultural, uma marca consolidada”... Com tudo isto, porque raio se sai desta entrevista com a sensação de termos assistido a um daqueles documentários da MTV sobre a ascensão de um bolicau nascido no Bronx? Até o título da novela que o Oliveira tem no prelo soa menos a uma ficção literária e mais a um álbum de rap: “Ela Voltou para Erguer um Monumento ao Seu Amor”. Quase apostaria que a certa altura, nesta “revisitação ficcionada de um episódio de amor sexual incandescente e violento vivido pelo autor” (Mário Santos in da house), o autor há-de encontrar maneira de a miúda lhe gabar o tamanho dos seus ‘recursos’. E antes que a coisa descambe ainda mais, deixem que mande um recado antes de fechar. Há dias, uma destas figurinhas mais entretidas com a morte da bezerra, queria saber que alvos, afinal, tanto nos fazem ferver o sangue nas veias. Mas ao certo, quer dizer quantos? Talvez por espírito científico lhe fosse necessário que lhe declarasse um número, uma entidade por extenso, assim como a Resistência tinha a sua Estrela da Morte, também ele desejava um vilão como nos filmes, um Darth Vader, sem atender a essa derrota larvar dos nossos dias, esta quotidianidade, recorrendo agora não ao Mário Santos mas, para que ele possa descansar, ao Baudrillard, em “A Sociedade do Consumo”, onde nos faz ver como esta é “pobre e residual” e, por outro lado, “mostra-se triunfante e eufórica no esforço de autonomização total e de reinterpretação do mundo ‘para uso interno’”. Assim se percebe a violência desse eco que, ao invés de perder força, se desdobra cada vez com maior ênfase, e que faz do desânimo a sua mecânica. Ora, uma figura como Luís Oliveira não passa de um gestor de expectativas, um gajo que nos serve uma programa de consciência e um ensejo de reforma, senão mesmo de revolução, mas enclausurado, sujeito às dinâmicas pervertidas de uma ordem que se diz libertadora, mas que, no fundo, escraviza. Como dizer que um chulo é um activista da libertação sexual. E, naturalmente, o chulo quer-nos fazer crer que não há saída para o problema do capitalismo, não há outra maneira. Diz ele que “há uma contradição que, desde o Marx nunca foi resolvida, e que é uma pessoa produzir uma mercadoria e criticar a mercadoria.” E continua: “Mas qual é a saída? É não fazer livros? O Guy Debord falava nisso, que esta contradição era insanável enquanto existisse capitalismo. Porque se nós criticamos a sociedade da mercadoria, criticamo-la através de quê? De livros, por exemplo. Fazendo-o, entramos nessa contradição, produzindo mercadoria e vendendo-a. Só podemos atenuar essa contradição fazendo escolhas. Não há outra maneira. Eu não a vejo”. É natural que não esteja a ver outra maneira, sobretudo se, no fim de contas, o que o impede de cair na depressão é ter 200 euros para dar por um tinto num restaurante. Vitor Silva Tavares, que se calhar nem alguma vez molhou os lábios com um vinho desse valor, sendo mais provável que os tenha molhado no tipo de mistelas turbulentas que fariam ao estômago do Oliveira o que um chulo faz a uma mulher que lhe diz que preferia não, no prefácio a “O Negócio dos Livros”, de André Schiffrin, encontrava uma solução para o problema, um princípio de conduta exemplar, em vigoroso desacordo e sem forjar um qualquer álibi no que toca à participação no esquema. E então era assim que ele estabelecia as coordenadas no que toca ao seu posicionamento face a este tão minado território: “praticamente desde a hora inaugural situado num território-outro a que se pode chamar ‘paralelo’, pois que sem ponto de contacto com as envolvências a que o ‘negócio’ obriga. No nítido nulo vocacional (leia-se: sem jeito nem ânsia de tê-lo), alheio também a conhecimentos desses que se intuem ou estudam e, em concomitância, das práticas subsequentes, eis-me algodoado pelo mais descontraído, o mais voluntarioso, o mais irresponsável borrifanço face a tão magna matéria.” Sobre isto, o Oliveira dirá que não vai em cantigas. O seu lema também pode ser declinado nessa frase mantra do rap norte-americano: Keepin it real. É, aliás, mais do que natural que este Kingpin não mostre a menor complacência, e, diante de um moribundo, como vem sendo a edição independente, o Oliveira só se lembre de facilitar os meios da sociedade que tem procurado suicidá-lo.

quinta-feira, junho 20, 2019

Acenar à mãe desde um romance em língua estrangeira


Se não estás com tempo, vai entreter-te com outra coisa. Agora que dei comigo personagem de romance não deixo que retirem o prato sem o ter limpado, gozado e ainda lambido. Não sou eu, mas qualquer coisa inspirada, levada para uma autoficção, coisa rebuscada, e, felizmente, não tão frívola quanto se esperaria, o que já é um ganho. Mas primeiro deixem que vos conte como vim a saber da coisa. Se me tomasse por colecionador de alguma ordem entre as que mais me compelem, para lá das metáforas que vou arrancando como escalpes, aquilo que ainda me anima são as coincidências tão harmoniosamente servidas e a que me agarro como se o verbo e a carne, afinal, tivessem o mesmo balanço. Então, deixem que vos mostre o que li no mesmo dia em que vim a saber que, depois de ter entrevistado Rachel Cusk, ela fez de mim o que quis, levou duas ou três costelas, e vingou-se da velha noção da origem adâmica da mulher. Em “Unicórnio”, Manuel Mujica Lainez tem como protagonista uma fada, que às tantas se sai com esta: “Eu era mui formosa. Perdoa-me a vaidade, leitor, mas como não ceder ao prazer incomparável de falar de mim própria? Falar de nós próprios, analisarmo-nos, explicarmo-nos – e, em consequência, fazer que os outros falem – é uma volúpia tão velha como a história do mundo, e os pequenos progressos que conseguimos na Terra, desde que por ela transitamos, devem muito ao afã ingénuo e ilustre, desesperadamente partilhado por insignificantes e por grandes, de autodifusão perpetuadora. No dia aziago em que deixarmos de falar de nós próprios, ficaremos sem o sentido da nossa eternidade e o mundo desmoronar-se-á por entre cinzas tristes.” Ora, se vim a saber da coisa isso desde já me obriga a recomendar-vos os serviços desta horda de jagunços que não perde uma oportunidade de distorcer seja o que for, aproveitar uns galhos para fazer uma daquelas bonecas à nossa imagem, e desatarem a alfinetá-la. Entre os lucros maiores que se tira com o cultivo de um incontável número de inimizades, destas cujas escrófulas se abrem em exuberantes tons iridescentes, por causa do tanto tédio, da falta de combustível no tanque da vaidade, e que são, pelo menos, assumidas sem o menor pejo num meio em há algo de fosco em todas as superfícies, tanta actividade dissimulada, está não só isto de nos manter alerta, vigilantes, como o de, a partir de certa altura, essa tropa ressentida se tornar útil, instalando-se como uma espécie de pombal num anexo da casa por onde vimos e vamos, e, assim, como pombos-correio trazem e levam tudo o que nos diz respeito. É um serviço de clipping bastante eficaz... Desta vez foi graças à sabujice saloia do João Urbano (se o nome não vos diz puto não se apoquentem, está longe de integrar o elenco central desta nossa novela), mais um galo com o próprio nome atravessado na garganta como um pedaço de comida mal mastigada e que parece sempre prestes a lançar-se numa cantoria a anunciar a aurora de uma nova era, enterrando de vez a actual, mas, se formos a ver, não passa de um escriba menoríssimo, que a par de uns textos insossos a dar traulitada no ar, largou aí duas novelas numa prosa pirralha, num estilo desdentado e sem o mínimo vigor. Lembra um gajo que se pôs a ler um daqueles romances mais bruscos e pornográficos do Henry Miller, deixando-o virado sobre o sofá, enquanto dizia a si mesmo que bem capaz daquilo era ele... E foi este mocetão quem veio para o facebook dar o recado de que a Rachel Cusk, em “Kudos”, livro que encerra uma trilogia, se serviu da sua passagem por Portugal, uma breve temporada passada entre Matosinhos e Lisboa, em 2017, para ir mastigando as coisas numa desatada ficção, colhendo reflexos indiscriminadamente. Nesses dias, além de ter participado num festival literário, deu umas poucas entrevistas; uma deu-ma a mim. Para além da transcrição editada, que saiu na altura no jornal i, ainda tenho o áudio, que comprova que não tivemos mais que uma conversa bastante formal... E fui confirmar que o desvio ficcional, se serviu para enriquecer a trama, evidentemente deu lugar a uma excursão delirante a partir da conversa que tivemos, e em que, na verdade, como era de esperar, a posse de bola foi quase sempre dela. Se fosse para ser levado a sério como relato do que realmente se passou, diríamos que a coisa roça a deselegância, ao fazer com que o personagem levemente inspirado em mim ("era muito alto, completamente calvo e os seus óculos de aros grossos eram tão grandes que pareciam concebidos para ampliar o seu papel de interrogador, ao mesmo tempo que transmitiam a esperança que ninguém o visse") diga isto de si próprio: “Em nome da lealdade, acrescentou, talvez me devesse dizer que era conhecido naquela cidade como um criador e destruidor de reputações: uma crítica negativa que fizesse podia arruinar um livro, e, por isso, uma consequência da sua honestidade era ter muitos inimigos, o que significava que, quando ele próprio publicava um livro — atá àquele momento tinha escrito três volumes de poesia —, havia quem sacasse da faca, como se costuma dizer. O resultado desses ataques era que a sua obra não tinha conseguido o reconhecimento que, de outro modo, teria recebido (...) embora a sua capacidade como crítico não tivesse diminuído; na realidade, não parara de crescer, até ao ponto de ele adquirir renome internacional". Evidentemente, nunca disse tal coisa. Desde logo porque é um disparate, e o tipo de coisa que não se confessa sem se parecer um imbecil. Mas além disso, como é fácil de perceber, trata-se de um retrato bastante untuoso, e o mais plausível é que tenha sido colhido junto da editora (na altura era Quetzal). Isto além do descabido que seria um entrevistador fazer do entrevistado seu refém para o submeter a este tipo de alarvidades narcisistas. É o tipo de coisa sem cabimento neste género de interacções, em que, especialmente quando o autor é estrangeiro e não há, de antemão, grande confiança, não fica margem para um quid pro quo. E se até posso confessar a admiração pelo autor, no fim, nunca peço autógrafos nem me faço fotografar, também não levo livros para oferecer, e nem me esforço muito por ser simpático, tentando apenas mostrar que fiz o trabalho de casa e não disparar perguntas à toa. Não deixo, contudo, de reconhecer que noutros momentos o retrato é até bastante sensível, de uma escritora com uma fina percepção no tocante a esses sinais que transpiram durante uma conversa. A sua ficção assalta e furta-se bem à realidade, manobra-a a seu favor, é bem esgalhada, densa do ponto de vista psicológico, um relato que puxa de uns detritos, cola indícios e safa uma bela intriga de reflexões que se vão justapondo e gerando um certa transe... Do lado de cá do retrato, é como ficar diante de um reflexo nosso que se esgueirou do sonho de outra pessoa. Há algo de disfórico, um desequilíbrio que se comunica, e, ao mesmo tempo, é-se seduzido por esses intuições que parecem recompor-nos, como ler-se a si mesmo numa tradução em que houve excesso de liberdade mas não se pode dizer que a coisa tenha ficado pior, em alguns aspectos até melhorou, e ficamos com vontade de fazer alterações no original. É como ser-se esticado, aqui e ali, ganhámos dimensão além desses ângulos em que nos reconhecemos. Não vou transcrever as passagens mais instigantes, até porque não comprei o livro; li-o de pé, numa livraria de centro comercial. O mais curioso é que, talvez por razões de economia narrativa, a narradora tenha posto o tal crítico a fantasiar a sua importância, quando esse discurso, na verdade, só poderia ser proferido por um outro, alguém que nele só vê um presunçoso, quando a protagonista (sempre recuada, no papel de mera testemunha) desencrava algo mais. Com isto, aproveito para clarificar uma coisa: como crítico, jornalista ou o que quer que me queiram chamar (um safardana investido em derrotar a concorrência desde o seu pequeno púlpito, um caixote de fruta virado ao contrário de onde grito umas aleivosias, e isto no jornal que – se perguntarem ao Paulinho – é do meu pai...) já testei a coisa e sei-me incapaz de vender sequer meia dúzia de exemplares de um livro ainda que me desunhe a tecer-lhe elogios, e se não sou capaz de fazer reputações muito menos sou de as desfazer (perguntem ao Mexia, que anda para aí todo lampeiro, como mestre indisputado, a lambuzar-se com tudo o que é da cultura...). Portanto, não andem a convencer os estrangeiros de que eu estou nisto cheio de tais caganças, convencido de que tenho feito alguma coisa para ganhar renome internacional. Prefiro mil vezes o papel do bobo, do inimputável, prefiro rir-me eu e os dois ou três que me lêem em primeira mão, trocando notas, rindo-nos ainda mais. No fundo, a única ciência nisto é saber que tem de haver alguma compassividade para se ferir de morte alguém, temos de nos colocar no seu lugar ao ensaiar a estocada, senti-la, tem de nos doer a nós primeiro, e toda a gente sabe que as coisas terríveis, as piores que ouvimos ou dizemos, são proferidas com a veemência de, no fundo, toda a gente as saber já, mas em relação a estas coisas sensíveis persistir um estranho pacto de silêncio, mantidas sob reserva. É preciso ser-se o miúdo, o remelento, estronchado, para vir desbroncar-se em relação a eles. E o que dói é o atrevimento, que haja um tipo que se deu ao trabalho de perceber essas relações, ficar a par do esquema e, logo depois, sem o menor pudor, sem receio das consequências, por a boca no trombone, escarrapachar em letra de forma o que só se diz em surdina, essas coisas que tacitamente acertámos em manter ocultas, por causa dos telhados de vidro e o que deixamos entrar em casa pela porta dos fundos, para nos precatarmos, não vão os demónios sair todos à mesma hora para dar caça a estas nossas frioleiras. Ser-se o maluco é mais um estar-se nas tintas. Mas que renome internacional!? Metê-lo no cu é o que me parece certo. Antes preferia ver esses castelinhos a arder, entoar hinos à ruína e celebrar o desastre, como dizia o Panero maluco, poeta a quem todos os louros não chegaram para o convencer a sair do hospício, vir fazer figuras cá para fora, e que, cá mais para o fim, ensinava que devemos contar com a ruína para que meça os homens, nos dê a sua estatura real, não essa que eles supõem e para a qual buscam encher-se de honras.