domingo, Novembro 23, 2014

Vasco Gato, "Fera Oculta", Douda Correria



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quinta-feira, Novembro 20, 2014

quarta-feira, Novembro 19, 2014

Que


Que ao cair morto um homem, ninguém
prossiga vivo.
Ponhamo-nos todos a morrer,
ainda que lentamente,
até que seja reparada a injustiça.

- Roberto Fernández Retamar

Do além


Numa das últimas noites, um grupo de rapazes
disparou de um carro e mataram-lhe o gato.
Matar um gato não é nenhuma façanha, os jornais nem dão nota,
mas esta notícia destinada a uma só pessoa,
no máximo a duas ou três pessoas, é também um idioma
para se dizerem coisas importantes. Um gato
pode contemplar, com os olhos fosforescentes que já se sabe,
como uma rapariga se despe para fazer amor, e se deita para esquecer
(se esquecer fosse possível) na penumbra e num olor indelével.
Matar essa estranha testemunha
assim, a partir de um carro ébrio, é também escrever
um insignificante capítulo, mas um capítulo no fim de contas,
na história de um país, na história de um amor
onde se confundem batalhas e carícias, datas e suspiros,
como se além do amor e além da história
houvesse outro amor, houvesse outra história que fosse englobando com igual indiferença
ou com igual paixão gatos e países, raparigas e povoados,
e os contemplasse a todos com impassíveis olhos fosforescentes.

- Roberto Fernández Retamar

Hoje és menos


Alguém que andava a ver se te esquecia
e a cuja memória, por isso mesmo,
regressavas como a melodia de uma canção da moda
que todos trauteiam sem querer,
ou como a frase de um anúncio ou um lema;
alguém assim, agora,
provavelmente
(seguramente) sem o saber,
começou, finalmente, a esquecer-te.

Hoje és menos.

- Roberto Fernández Retamar

Le preguntaron por los persas


a la imaginación del pintor Matta y, desde luego, a Darío

Su territorio dicen que es enorme, con mares por muchos sitios, desiertos, grandes lagos, el oro y el trigo.
Sus hombres, numerosos, son manchas monótonas y abundantes que se extienden sobre la tierra con mirada de vidrio y ropajes chillones.
Pesan como un fardo sobre la salpicadura de nuestras poblaciones pintorescas y vivaces,
Echadas junto al mar: junto al mar rememorando un pasado en que hablaban con los dioses y les veían las túnicas y las barbas olorosas a ambrosía.
Los persas son potentes y grandes: cuando ellos se estremecen, hay un hondo temblor, un temblor que recorre las vértebras del mundo.
Llevan por todas partes sus carros ruidosos y nue­vos, sus tropas intercambiables, sus barcos ates­tados cuyos velámenes hemos visto en el ho­rizonte.
Arrancan pueblos enteros como si fueran árboles, o los desmigajan con los dedos de una mano, mientras con la otra hacen señas de que pro­siga el festín;
O compran hombres nuestros, hombres que eran libres, y los hacen sus siervos, aunque puedan marchar por calles extrañas y adquirir un pa­lacio, vinos y adolescentes:
Porque ¿qué puede ser sino siervo el que ofrece su idioma fragante, y los gestos que sus padres preservaron para él en las entrañas, al bárbaro graznador, como quien entrega el cuello, el flanco de la caricia a un grasiento mercader?

Y nosotros aquí, bajo la luz inteligente hasta el dolor de este cielo en que lo exacto se hace azul y la música de las islas lo envuelve todo;
Frente al mar de olas repetidas que alarmado nos trae noticias de barcos sucios;
Mirando el horizonte alguna vez, pero sobre todo mirando la tierra dura y arbolada, enteramente nuestra,
Aprendiendo unos de otros en la conversación de la plaza pública el lujo necesario de la verdad que salta del diálogo,
Y conocedores de que las cosas todas tienen un orden, y ha sido dado al hombre el privile­gio de descubrirlo y exponerlo por la sorpren­dente palabra,
Conocedores, porque nos lo han enseñado con sus vidas los hombres más altos, de que existen la justicia y el honor, la bondad y la belleza, de los cuales somos a la vez esclavos y custodios,
Sabemos que no sólo nosotros, estos pocos rodeados de un agua enorme y una gloria aún más enorme,
Sino tantos millones de hombres, no hablaremos ese idioma que no es el nuestro, que no puede ser el nuestro.
Y escribimos nuestra protesta —¡oh padre del idio­ma!— en las alas de las grandes aves que un día dieron cuerpo a Zeus,
Pero además y sobre todo en el bosque de las armas y en la decisión profunda de quedar siempre en esta tierra en que nacimos:
O para contar con nuestra propia boca, de aquí a muchos años, cómo el frágil hombre que ven­c¡ó al león y a la serpiente, y construyó ciuda des y cantos, pudo vencer también las fuerzas de criaturas codiciosas y torpes,
O para que otros cuenten, sobre nuestra huesa convertida en cimiento, cómo aquellos antecesores que gustaban de la risa y el baile, hicieron buenas sus palabras y preservaron con su pecho la flor de la vida.

A fin de que los dioses se fijen bien en nosotros, voy a derramar vino y a colocar manjares preciosos en el campo: por ejemplo, frente a la isla de Salamina.

- Roberto Fernández Retamar

terça-feira, Novembro 18, 2014


A poesia não é nenhuma panaceia. Não tem resposta para a cambada que vê os dias todos repetidos nesse cinema de projecção solar, fatiados pelo bater da pálpebra nocturna. Mas agora fez-se moda andar à cata de versos como de cogumelos e fazer deles uns cozidos ao serviço da ocasião como se um subsídio para o vazio d'alma. Não caem muito longe dos mantras e mezinhas verbais que cospem os guruzecos da auto-ajuda. A paulócoelhização dos fóruns é forçada por uma comunicação obcecada com a empatia mais básica, moldada a virose, espirrinho que segue por tweet ou posta de facebook, e todos os dias surgem estes ciber-conselheiros a cagar sentenças para uma consciência hipersensível mas absolutamente impotente. Fizeram moda de sentar esse bicho-livro no colo, escamá-lo, arrancar o verso ancorado nas suas profundezas e fazer dele bóia de sinalização para as naufragas vidinhas que vão levando sem coragem para a correcta dose de manguito necessária para pôr este trânsito de merda na ordem. Está muito triste andar no meio de tanta alegria frouxa, falsa, lampeira. Gentinha-a-like, dando-se corda nesta troca de cliques, sorrisos feitos de ponto e vírgula e parêntesis que ficam por fechar. É toda uma relojoaria do desastre, uma convivência que zera os impulsos, percutindo sensações em sinais cada vez menos expressivos, nivelando tudo tão por baixo. Para colmatar este vazio tapam-no com versos, citações, a língua que falavam aqueles que foram de um tempo em que havia tempo para pensar e depois exprimir perfeitamente uma ideia. ("Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.") Passar com os olhos pela parede, ler os pequenos cartazes e anúncios que vão cruzando estas vidas, e perceber um código frenético, nauseante de tão repetitivo, apostando numa corrida de cães, numa luta de galos, grilos, ou qualquer outra porra que estrebuche num conflito frente ao espelho. Na ala dos egos estropiados, além do caldinho servido p'los "amigos" (feitos todos enfermeiras uns dos outros), dos constantes reforços e palmadinhas nas costas, vem a poesia servir de sustento, colunas maciças erguendo uma palhota. Tudo contentíssimo, a parafrasear os últimos exemplares realmente vivos da espécie, sem se darem conta de que não passam de ecos, de pequenas rugas na superfície líquida do tempo provocadas por pedradas vindas de muito longe. Vemos esta gente sempre tresandando a uma efusividade inútil, cansando o sentido original para arrancar dele algum slogan e seguirem com as suas vias em curva constante. E não passam de campanhas de marketing para o produto que são, modos diferentes de se venderem iguais. A poesia não serve de sopa para este género de pobreza. O sentido precisa ser arrancado à vida, contra ela, não é algo que simplesmente se descobre. É preciso lembrar que "embora seja profundo, este buraco é informe. Não o encontram as palavras, chapinham à volta. Sempre admirei as pessoas que por acreditarem ser revolucionárias acreditavam ser fraternas. Falavam com emoção umas das outras: escorriam como sopa." Sopa somos nós. E tudo à volta é uma assustadora pobreza.

domingo, Novembro 16, 2014

João César Monteiro, Obra Escrita, Letra Livre




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sexta-feira, Novembro 14, 2014

quinta-feira, Novembro 13, 2014

Estações


O inverno
nos pensamentos que temos um do outro
e eu recordo
a forma como uma outra mulher me
olhou como se eu fosse a coisa
mais insignificante à face da terra
e eu era de certa forma era
a minha própria existência terminada
e o verão a aproximar-se aos poucos
para preencher na cabeça dela o meu vazio
Para o fim do inverno
antes da altura do degelo
o açafrão bulia ao preparar
o subterrâneo para a sua entrada primaveril em cena
Eu diminuía e crescia mais:
todas as coisas insignificantes me afectam na época própria
todos esses resquícios de memória
puídos pelo vento e transparentes
vistos do outro lado do agora
como se eu estivesse a olhar para ti
para lá de uma espécie de cortinado
e tu estivesses a olhar para mim
de um outro cortinado
à medida que tudo diminuía
e crescia mais

O verão chegou tarde nesse ano
os pássaros pareciam desnorteados
perguntando-se pela neve
que alguns nunca tinham visto
o gelo atapetava o litoral
produzindo tinidos ínfimos
como que a dar as boas-vindas
mas o vento soprava mais frio
e eles enviavam recados
a parentes mais a sul
a dizer "Não venham"
Não fez diferença
o olho vermelho da doninha tremeluzia
as raposas caçavam e os caçadores humanos
sopravam as mãos tremendo
Encolhíamo-nos junto do aquecedor
sem falarmos
Eu poderia ter dito
"Porque é que me odeias?"
mas seria inútil
resmungávamos com os olhos

Que eu caia num grande esquecimento
e pensando bem
desejo ser
anónimo como um pingo de chuva
ligeiramente desviado a afastar-se
do sol na queda talvez
ao encontro dos ossos magros
das asas de um pássaro entre os cedros
um pássaro que poderá ter pensado
"ai ai — ai ai — ai ai"
antes de morrer
que eu caia num grande esquecimento
enquanto a neve vai descendo do sol vermelho
como mil milhares de flores
até que as nossas pegadas se cubram

- Al Purdy 
(tradução de Vasco Gato)


Tento subtrair-me ao frio
dos dias, pequenos golpes
impronunciáveis, outrora
carícias, coisas antigas.

Pondero a misteriosa
engrenagem de tudo
o que sempre pareceu
estanque na alvorada:

o nevoeiro com o teu riso,
o copo num soluço de pó,
deixado à cabeceira, o meu
corpo apagado a um canto.

- Frederico Pedreira

terça-feira, Novembro 11, 2014

Duas antologias de Ruy Cinatti, Averno




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