sexta-feira, junho 24, 2016


Escarro na minha vida. Não me solidarizo.
Quem não faz melhor que a sua vida?


Henri Michaux

Deixa-me apenas isto,
beber a penumbra de um café vazio;

neste balcão onde me inclino
em silêncio
enquanto a sombra de uma recordação
me atravessa o sangue.

Antes que comece a escrever,
que um ritmo me encontre,
me enobreça
e as frases se deleitem, conspirando.

Receio sempre que alguém me veja a tomar nota
destes valiosos segredos de guerra...
Para ajudar a confortar o inimigo.

Mas que inimigo?

A história desleixou-se,
perdeu o gosto e o ardor das batalhas
em que se derramavam
as mais negras sílabas
de sangue. Rebaixou-se a uma era
furiosamente desapaixonada

entre corpos como velhas melodias,
olhares em todas as direcções
e uma saudade estúpida
que só encontra
nomes vazios, a podridão fria dos lugares.

A luz, hoje, demora-se o mais que pode
e deixa-nos a suspeita de que se a apagássemos
o mundo seria exterminado
.

Um anjo abandalhado descreve o fim.
Cem vezes o mesmo discurso incoerente,
mas caça imagens prodigiosas,
de uma ternura tão desolada
que espalha em seu redor
um bando de sombras boquiabertas.

Um louco aplaude-o. E é tudo.

Estamos todos mais empenhados
nas lendas que nos enchem os cadernos,
episódios da nossa outra vida,
mais verdadeira.

Deste lado não erguemos muito
mais que uma figura tímida,
fria, fugaz.

A chuva enche mais silêncios,
toca o fundo
antigo das nossas convicções.

Uma folha de jornal bebe
de um charco
o inebriante reflexo que me detinha ali

e o ziguezagueado dos meus passos
segue por caminhos apagados, quase desertos.

Algumas árvores feridas e fontes exaustas,
este cão que na minha sombra vai
desenterrando ossos.

Os grilos cosem à máquina
como desesperados
,
mas também o seu esforço é vão.

A cidade desagrega-se docemente,
mal iluminada.
Tudo molhado, escuro,
escorregadio – e eu continuo de pé.

Tantas solidões insaciáveis
acabarão certamente por se cruzar nalgum ponto.


Lisboa é ainda o pior dos séculos.
Ensinou-te, assim mesmo, o andar ágil
dos vadios de antigamente
este ritmo
seguindo ileso entre as notas sujas que
o vento arranca a cordas feridas.

Algum café e a sua vulgar eternidade
onde sobram figuras de recortar entre
a sede e o tédio.

Do mesmo prato comem deuses,
homens e bestas
,
numa intimidade incrível.

Sombriamente
debruçados, reproduzimos o morse
burilado nestas mesas.
E nalgum canto soluça um acordeão
que conduz uns gestos cegos
e acenos
ao sinalizarmos um perfume solitário
de não se sabe quem.

Truque das obscenas donzelas
que nos puxam para este ballet parado
entre o amor e o desdém:

juras nocturnas
que a manhã não cobre,
a vida secreta que imploramos.

Tens a tua cercada.
Mas, aqui, a corte
é coisa para levar entre meses,
anos, mesmo décadas.

Ensinas as sombras a puxar-lhe
os fios do vestido, revelar-te mais
desse contorno
que vens copiando à mão:

o desenho lento da boca,
lábios enegrecidos
de tanto discutir preços,
e aqueles dois olhos claros
que te parecem às vezes
frios, cobrindo-se já de formigas.

O mundo tem-te aí de castigo
e ouves como chove ainda
na tua infância,
e um vento sem direcção te devolve,
passados anos, ecos já mortos.

Recolhes os papéis e tomas caminho.

A luz gelada dos candeeiros
recorta uns vultos contra fundos
esbatidos.

Trazes a voz uns passos mais
atrás, a maltratar uma canção
enquanto inventa ruas
e te empurra para debaixo das arcadas
onde os capitães do fim
reerguem o seu hotel de grilos e constelações.

De regresso vens a estudar as janelas,
sinais de presença e do mais.

(Há horas no mundo
que pertencem a tão poucos,

a esta raça infalível,
àqueles de nós que já não somos
apenas os últimos dos últimos
mas os primeiros de um por vir.)

Procuras as chaves, encontras e abres
a doce cela onde, enfim, vens bater
com os ossos.
Teu quarto minúsculo,
a cada noite mais estranho e
inclinado
tudo chegado à tua enorme
janela rasgada.

Aqui e ali, moscas e astros
poisando entre os versos do imenso poema
que cobre estas paredes
onde os sonhos
deixaram as unhas e bizarros abecedários
com raízes fundas que trepam
florescem
e as estalam abrindo passagem.

quinta-feira, junho 23, 2016


A tarde desce com cada
um dos seus pássaros frágeis,
com as mãos cerca
a brisa prisioneira desta dança outonal
num jardim em miniatura.
O corpo, a alagada respiração,
num arrasto comovido,
sente debaixo dos pés
o ressoar de antigas tempestades,
poços de sombra
em que o tempo se escuta.

Maneiras antigas de dizer
o mundo, nesta era
em que é a queda a única flor.

De que caminho se cuida
voltando mais tarde a casa,
aguardando a noite
e o seu eco de cascos de cavalos
desaparecidos

trazendo com eles
o que resta dos contos de fadas.

Dias melhores te lembram
atravessando o corredor com todos
os trejeitos de uma canção,
enxugando o cabelo na toalha,
os lábios entretidos
com uma letra que a esta distância
já não se consegue ler.

Assim, surdos, quase cegos,
somos estranhas lembranças
porque incompletas,
tristes enigmas que não se dão
qualquer resposta.
Esse corpo e a sua história
em que fica
tantas vezes difícil adormecer,
sussurrando a meu lado, alheada,
cheia de reticências,
tristes lugares comuns
para encher o vazio
.

Enfim,
o meu nome escapa-lhe da boca
e de tão ferido nem me reconhece.
De boca aberta deito-me
como se esperasse encontrar
a palavra que desenhe a curva
sobre todo este tempo.


para o João

Digamos que amanhece, que acordas
desses teus pesadelos cheios de talento
e ao redor da cama
dás com um bando de pássaros mortos
(tão mortos, tão imóveis, tão caídos...).

Os gatos também encolhem os ombros.

A casa é um eco que não acaba. Surda,
tem uma memória espantosa, mas já nada
de novo te aceita.

Erguendo-se no meio do tempo
sobre uma raiz secreta,
balança-se, tricotando os dias.

Tem as ranhuras do sol no pátio,
e por toda a parte, ligando as divisões,
fios de aranha e baba cristalina,
o reflexo de sempre na bacia entupida,
as flechas da infância e pedras
tão fundas.

Um relógio caído
a um canto, devorado por formigas,
e as horas fugidas, desmesuradas.

Esse deserto de porcelana, flores imóveis,
tudo petrificado num espelho morto
que dessangra reflexos antigos.

Uma nuvem cobre os espaços a que
a dor se habituou.
Lá fora, o vento já depôs as armas,
resta a chuva, o seu coruscar.

O silêncio bebe-a.

Um sol frio bebe leite nos escombros
da velha casa.
Com os dedos lês os detalhes
de que a luz cuidou, o gesto sombrio
da sua glória consumida.

Outra flecha
perdida entre a tua fragilidade
e o ruído de uma máquina de coser
no quarto, trancado há tanto tempo.

Digamos que anoitece, e no escuro
a tua lâmpada canta só,
põe ordem ao enredo e o seu círculo
alarga, sussurrante, embriagando
os mosquitos.

A máquina em que te bates,
como uma prece
depois de perdida a fé,
soa bem alto pela noite fora.

Face à hesitante ruína da casa,
quase a cair para dentro,
ouvindo o grito das pedras
, lanças-lhe um urro
que devolve o orgulho e a pose
à sua arquitectura.

quarta-feira, junho 22, 2016

Todos vocês parecem felizes…


… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.

- Ángel González
Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Tradução de José Bento
retirado daqui 

Ricardo Aleixo, inéditos

ESTRONDO

para Maria Esther Maciel

Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,

não importa o
modo como os pés
pisem as folhas

ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles

(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros

da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista

como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.




NOITE


O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.




MANHÃ ABERTA


Me infinito, aqui onde começa
a manhã aberta

de azuis, sob o mesmo sol
de sempre que faz sol

em nossa casa.
Alguém canta ao longe,

já não sinto
saudades de nada, outro alguém

luta para dar partida em um carro
velho, um cão dos infernos

late, as formigas ocupam
partes do pão e o vinho de ontem à noite,

estrelas explodem sem que ninguém
perceba, o trânsito

é difícil a esta altura do dia em qualquer
dos dois rumos

que levam ao centro
da cidade, e no entanto

dormes, indiferente a todos
os barulhos deste mundo,

mas não – sei, porque sorris – a
este breve movimento

da minha enorme mão que toca,
com uma desajeitada alegria,

as tuas duas pequenas mãos,
entrecruzadas

sobre teu seio esquerdo.
Estamos vivos.


retirados daqui

Cadernos do Subterrâneo LXXIV


A Girl Walks Home Alone at Night (2014)



9/10

segunda-feira, junho 20, 2016


Bebo-me no copo de água com que atenuo a minha sede.
Escuto-me no final da palavra com que nomeio o mundo.
Aguardo por mim atrás da porta a que bato.
Recordo-me na substância do esquecimento com que me escondo na minha memória.
Soletro-me como um sonho silábico
no olhar com que me lêem os teus olhos.
Reconquisto-me investigando a ciência da perda.
E só reconheço a minha canção e a minha sombra
na arte secreta dos caminhos apagados.

Pude aprender, antes de me ir,
a não me deixar desenhar pela silhueta seca do homem.

- Roberto Juarroz

domingo, junho 19, 2016

sexta-feira, junho 17, 2016

Carlos de Oliveira, por Frederico Pedreira



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quinta-feira, junho 16, 2016

Juan José Saer



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quarta-feira, junho 15, 2016


Falou-se e fala-se muito de poesia para lhe garantir o valor de capital simbólico cuja circulação contribui para o reforço de uma ideologia, quer através da sua identificação com determinados significados, quer através da sua absolutização, rodeando-a de dogmas e de rituais de sujeição. Hoje, qualquer poema pode servir para reforçar a ideologia da cultura, o que importa é que se fale dele no sítio certo – a editora certa, o jornal certo, o programa certo... Há uma tendência crescente para usar a poesia como ornamento do poder económico e político e para identificar esse uso com a própria cultura, o que só pode contribuir para iludir os verdadeiros problemas desta – aqueles que dizem respeito à disponibilidade para aceitar as diferenças (o contrário de toda a codificação rígida) e para participar do movimento diferenciador implicado na temporalidade não determinista.
Falar de um poema como de um objecto apropriável, algo que se pode receber sem que o objecto recebido ponha em causa o sujeito que recebe, só pode contribuir para reforçar no público (os grandes números da estatística) um sentimento de participação na cultura que exacerba os mecanismos de subjugação e competição (...)

- Silvina Rodrigues Lopes 
(in Literatura, Defesa do Atrito) 

Há uma tendência daquilo que se apresenta como pós-modernismo que é importante indagar de perto: trata-se da adaptação de grande parte daqueles que se apresentam como escritores às condições institucionais dominantes e ao mercado, o que significa que não produzem senão simples objectos de consumo, ao nível de qualquer outro artigo de supermercado. Essa adaptação vem negar a anti-institucionalidade (que não é apenas característica do modernismo, mas daquilo que, na sequência de Baudelaire, se designa como modernidade literária) em nome da acessibilidade da literatura, e de outros tipos de discurso, ao grande público, o que corresponde à negação máxima de qualquer dimensão inconformista. Aquilo a que se chama “grande público” só pode ser composto por gostos esclerosados, pelo que há de mais resistente à mudança, e por conseguinte pelo que há de mais anti-artístico, a negação do movimento. Aquilo que se destina ao grande público é a espectacularização, que esteriliza ao colocar a diversão como substituta da estranheza, tornando-se eficaz na relegação do humano para o nível mais triste da vida animal - a domesticação. Quem colabora nesta desvitalização da literatura fá-lo em proveito de uma posição de poder pessoal e de grupo que vai contra a memória e a dignidade daqueles que não usaram, e não usam, a literatura, aqueles que a retiraram, retiram, ao capo de poder, que é sempre o da fixação. A anti-experimentalidade declarada e a revalorização da noção de autor são dois sintomas de um processo reactivo que procura na pré-modernidade uma legitimação para o sacrifício do desejo às mãos do poder. Em muitos aspectos, o que é hoje uma vulgata pós-modernista repete o horror ao vazio -aquilo que vai contra a homogeneidade do ideal sem anular a universalização -, em nome das distinções marcadas no interior de um universal estável. 

- Silvina Rodrigues Lopes 
(in Literatura, Defesa do Atrito)