sábado, janeiro 16, 2021


Aprende-se contra o que somos
uma língua para mais dentes do que cabem
na boca humana, com mais alcance 
que o das vozes e são precisas gerações,
o hálito que se regenera sem sílabas e sem sopro,
uma fúria que se segue de corda nos dedos
sem desistir da força de um som e
como cheio de vida te puxa
inclina a atenção toda sobre as águas, 
o mesmo para que os astros se criem
depois de esculpidos sopradas as aparas
se elevem entregues a uma música
um ritmo fundo mais firme que os ossos
esse que faz rodar a flor da aorta
sangue ressoando de uma bebedeira antiga
apanhando lumes, visões detidas,
a minha vela lendo no mapa que se move
onde foste, entre os pontos cardeais onde
se acha, quando se foi? ontem, anteontem
já não sei, e nem se volta
a beleza se persiste é da mais difícil,
cumpre o seu dever, faz a ronda
despe-se nas mesas e camas dos decapitados
nos asilos iluminados nas prisões e fábricas
faz-se esperar, e não te prefere
nem trata melhor, não te paga as contas
não te dará família, antes te obriga a buscá-la
entre todos os vícios, os dados, a garrafa
a pôr sempre entre aspas vida e morte
não te deixa sequer um eco
furta-se ao contorno que lhe lanças
e não serve se te tocas tentando fixá-la
só deixa que a falem entre si
aqueles que sabem, e viram
como o mundo amadurecia, rasgando-se
contra o nosso fôlego,
os que partilham o olhar inquieto
as marcas da espera que nos despedaça.


terça-feira, janeiro 12, 2021


Como nos cansa o que existe, 
de roda de um prego parece que assobia
o velho quadro e o cordame estrangula o quarto
no alto a espuma e nuvens desgarradas
um cinema desmembrando o bairro
ou o rumor de extensões de trigo
depois da chuva, pedras das que devoram
a imaginação, certa passagem enredante
de um caderno, descrições vivas
contra a luz certa capaz de estalar as paredes,
impressões que raros puderam cercar
com o sono leve que têm,
como aguardam passos que cantem
pondo ordem na respiração entre as tuas ervas
silencioso tudo isto, expectante
na distância e no frio que faz
de umas coisas para as outras, 
um cântaro de barro em pedaços
recompondo o passado, 
é o arrepio do que se reconhece, 
aquilo que antigamente nos fez homens
aquela canção como uma febre era o mar então
ainda jovem, o seu sal riscava-nos a pele
íamos às ordens de algum desses anjos irados
sentado na escarpa diante de um céu
tão azul como uma lâmina, inspirando-nos terror.
Só por ser iletrado a sua vida era uma espécie
de poesia, mas ouve-o tu por um bocado
fugindo da história, da lei, limpo de toda a culpa
e vê como canta arrasta bosques cheira o sol
em rastos tão frios, sabe ler
as existências dos desaparecidos,
separa-lhes os ossos num murmúrio, 
e reza ou olha as coisas demoradamente
como um animal ferido,
diz-nos o que veríamos se bebêssemos a escuridão
e se não faz ideia como conjugar os verbos,
na profundidade dos seus gestos
ouvimos o golpe na raiz da língua, 
nomes que nos resistiam há muito
por nos faltar o ritmo a entoação certa
o modo como o seu velho sangue zumbe
e faz a preferência das abelhas,
como as flores se erguem num mesmo som
e inquietam a nossa morte, 
dão-nos novas das vidas todas que perdemos,
dos actos irresponsáveis, brutais e dos amores
de finais mais certos, mais rudes, em grito
em vez desta luz de vela
que se consome até um final inodoro
só porque ninguém se deu ao trabalho
ou teve a cortesia de a apagar.


quinta-feira, janeiro 07, 2021


Acordas, ou não, quem o distinguiria?
A mesma tempestade a balançar nos ossos, 
colhes o sol filtrado, toma-lo nas mãos como
uma chávena de café acabado de fazer,
as formas tremem perto de ti,
"despejas terras de memória", imagens
presas na retina, soltas na mesa,
abertas ao meio no papel,
o que vivemos e o que não, sombras
que regressaram ao estado selvagem,
a luz subtraída a si mesma e dentro dela
a terra suspensa, sem raízes,
sem mais voltas que dar.
No pó secaram os mares e os rios,
o timbre dos sinos, as cores, até o olhar,
cobriu tudo de vez, o pó alongou-se até à morte
e dentro do idioma ficaram ecos, vozes
ressoando no espaço morto entre as estrelas,
assim um sussurro que encontre a carne
é já difícil e precioso, um toque de consciência,
disso só já se cria uma abelha,
um desenho vivo como uma chama fria
a desdobrar-se numa busca frágil,
eterna mesmo se infrutífera,
para além disto
sentes a melancolia das máquinas 
lendo de noite a Ilha do Tesouro
como nós em tempos líamos a bíblia ou assim,
há ainda um pouco de whisky e Sinatra,
o gozo de nos embebedarmos de memórias,
sentes esse zumbido unindo as células
e com o dedo traças as constelações nas águas
de um sono sem profundidade,
incapaz de produzir mel ou outra coisa,
tocando no copo deixas-te arrastar 
por alguma maré, beber de um trago
o gosto aflito do teu afogamento.
A verdade é um atalho, tudo bem,
mas por esta hora o que nos domina
é uma avidez tal de caminhos,
dos velhos motivos de errância...
O amor tornou-se um talento discreto,
um sentimento entre estranhos,
não ilude nem tem como se ferir neste mundo,
e o sexo é um pretexto demasiado fraco
para repetirmos os erros do passado.
Mais longínquos do que antes,
somos da raça que vem desaparecendo
num silêncio sem mapas. 
O que resta é para os loucos.
Eles que vos digam porque isto
vale ainda a pena.


sábado, janeiro 02, 2021


Não posso fazer tanto sentido como gostava,
com a tinta traço a linha entre o inferno
e o resto, desço esse degrau, a terra geme
do corpo a voz em flecha armei
e a paisagem toda ao redor cedeu
lá em baixo, na cratera, no salão de baile
algo se atravessa, mas ninguém aguenta o frio
e porque o público não quer ouvir
não há poetas que se atrevam,
sombras debicam as vértebras da epopeia,
eles fixam-no, esse estranho vazio,
e emudecem. Menos que o pó,
menos que a luz tocada, 
não há uma árvore ou pássaros
que amparem o golpe, ausências sim
o jardim que apenas se ouve
gorjeios, afinações, a tensão dos músicos
antes do concerto. É a música que sobrou
ou alguma memória preservando em nós
a sua frescura. E um gole impossível
de engolir toma de vez a boca
como se nos afogasse.
Esmagaste o corpo do tempo,
e ao abrires a mão ainda mudava
de forma, de vida. A crónica soará a falso,
não há mais volta porque não há curva
nesta terra, tudo o que há
é um mesmo lugar parado,
a rotação morta das coisas em torno de si.
Meio vazia, a cidade, a pobre presença
os sinais que deixamos uns para os outros,
os uivos de quem ouviu morrer o mar,
vozes mais vivas do que nós
despem-se num dos mil quartos
incapazes de um gesto que seja em honra
das paixões antigas dos homens,
nem um sorriso antes de se exporem,
e o sexo lembra um órgão arrancado.
Mulheres irreconhecíveis, estas
têm mais graus além dos trezentos e sessenta,
cobram horas absurdas, dizem-nos nomes
que nos seguem e envenenam os sonhos.
Valem bem cada coroa gasta.
Por isso, por podermos decorar
a velha imponência do mundo com os lábios
cingir-lhe o peito, o fôlego, as coxas
tudo a arder na colcha sem idioma
nem ironia, num padrão gasto,
nessa mistura de beatitude e dor.
Deixam-nos ouvir o desejo de outros,
e a guerra dispersa entre tantos momentos,
tantos corpos que não se acham,
retoma o balanço e o sentido
neste pobre acto humano,
e a manhã rola até aqui  como se caída
ou colhida, fruto breve que nos traz
o gosto amargo da nossa transformação.


domingo, dezembro 27, 2020


As manhãs nascidas na casa dela
tinham um ritmo próprio, estranho, forçoso
fazia um café demasiado forte
era impossível aguentá-lo, ouvia-me
a respirar fundo, como se desafiado
por um adversário tenaz
a imaginação expunha-se,
tornava-se física, e tinha secções
como uma orquestra, sopro, cordas
diz lá que bebedeira soa a isto, explode
os seus canhões numa batalha que não se vê
perdoa, não me quero sentar
prefiro que não soe como o resto
gosto que se sinta a trepidação, o balanço
o que têm de melhor os poemas
é o para cá e para lá das linhas apagadas
as que se lêem mesmo assim
como um pó soprado deixa o pigmento suave
da flor ao fantasma, um soluço
as tais músicas a cem braças de profundidade
o que é preciso para que o verso assente
e te deixe sem fôlego
a mão enredada nas linhas de um mapa
como numa cicatriz antiga
tenho aprendido a ler como os miúdos
especialmente se o fazem em coro
cada nome é um anúncio, cada ser causa espanto
aos pássaros sinto-os pousar-me nas costelas
um eco despe outro, marcamos as posições
de tudo, relâmpagos, algum novo furo
nesse corpo de navio, 
como se fôssemos esquecer logo de seguida,
como se a memória se deixasse esmagar
incapaz de conter algo mais
que um contorno na escassa luz, pois
já vês que mesmo quando não te importa mais
uma mulher é ainda um cerco, 
parece que baixa a voz, encosta a boca
ao ouvido de algum anjo e repete
as mentiras que lhe contaste.


sexta-feira, dezembro 25, 2020

Poema do último Natal


Walser morreu há pouco, uns passos mais,
um pouco de tinta na neve, o casaco aberto
tentando cobrir o frio do mundo,
e o chapéu ali como se o tivesse tirado
para cumprimentar ninguém uma última vez
roupa coçada, dedos sujos, aquele apreço
celestial pelas coisas deste mundo, os lábios
no beijo arrastado de um bebedor nocturno,
esse modo clandestino de se raspar nos muros.
A sua obra é o suave asilo que nos espera
a paixão fria que toma distância de tudo
e ensaia um recomeço saindo para caminhadas
sob qualquer luz, paisagens que não nos
importam muito, aqueles nomes que não
pronunciamos, o vagar lento, a carência
um sabor que se demora na boca, as cerejas
e os fungos, a aguardente e as lendas,
as poucas estrelas que contam,
esses mosquitos bêbedos do nosso sangue
e que estimamos como a filhos,
o caderno onde fomos retendo um enxame 
de precários apontamentos, corpos, rimas
essas coisas simples que não querem morrer
nem se entregam ao bárbaro furor do tempo.
Quando nos calamos é ele quem temos a nosso lado,
quando entre nós e o fim apenas está
um candeeiro, e se ouve o suspiro
das moribundas gerações de aves
presas nos poemas, os ossos dos marinheiros
despedaçados, alguma voz trémula ainda
cantando, o pó de uma igreja que sopramos,
que cai despindo formas frescas, 
impressões que nos mordem os lábios,
essa árdua prosa de que se gosta
quando quase tudo perdeu o gosto,
esse triunfo cavalheiresco quando
nem do nosso nome estamos certos,
pedimos desculpas, sorrimos e vamo-nos.



Diante de nós, o fantasma de um futuro que não veio, sinais de um trânsito colapsado, ecos perturbadores, a própria avaria dos instintos à medida que a fome abandona os corpos e uma leve curiosidade os inspeciona numa apressada autópsia. Ao redor, globos planetários de luz fundida, museus de coisas que já ninguém quer, o próprio desejo ferido de morte parece um rádio que só capta frequências extintas, o último calendário impresso com as páginas embolorecidas, revistas de moda, modelos em poses que, hoje, nos parecem ao mesmo tempo absurdas e fantásticas, a devastação patética de uma cultura que ruiu em menos de nada, toda a sua exuberância denotando problemas de respiração, e, depois desse soluço que engoliu tudo, a arte que nos resta é uma forma de profanação, uma sátira de que o antigo mundo estava grávido sem o saber, desatando-se dos escombros, somos as vítimas e, no entanto, temos pena dos nossos carrascos, ninguém imaginou o fim como uma suspensão drástica do sentido, da capacidade de narrar, todas as histórias deixadas a meio sem que ninguém tivesse para com elas uma réstia de comoção, o suficiente para lhes dar um pouco de corda, algum gesto que pusesse fim ao seu sofrimento, uma morte piedosa. Quem adivinharia como os próprios poemas funcionavam na base de um mecanismo qualquer que podia avariar como um banal electrodoméstico. E os relógios parecem ter fixado o mesmo segundo por toda a parte, no seu acerto cego, deram um último passo não suspeitando de nada, e depois só esse espanto parado, este súbito estupor diante de tudo o que até há pouco nos tinha entretidos, a própria História perdeu repentinamente toda a profundidade, a grandeza e o pavor, a realidade resumiu-se a duas dimensões, umas poucas cores, e depois, algo pior, é a sensação de se estar num corpo que é em si mesmo uma forma de asfixia, tendo-se generalizado esse distúrbio dos que se livram da vida como de uma doença, dos que se ferem ou auto-mutilam, dos que não acreditam nem na dor, e, tomados de uma ressaca brutal, é como se tivéssemos perdido o sentido da fala, ou até da tradução, tudo fica pelo caminho, misturado ao arrepio de atravessar assombrações ilegíveis para nós, pôr os dedos sobre sinais que sabemos dirigidos a vindouras presenças, uma reserva ameaçadora de signos, paisagens que pretendem livrar-se de nós, sombras meditando corpos em falta, a sensação de que estivemos a criar um mundo de obsolescência, até o horizonte ceder, tornando-se ele mesmo outra carcaça, um cemitério de estradas sem regresso. Para lá de um certo ponto, o futuro já não tem em conta o homem, mas o mais estranho é como o passado também se recusa, impede-nos a passagem. Entre nós e as palavras, entre nós e o mundo esta fractura: do tempo e da razão. Ou da urgência. E nós, os que por fim herdámos a terra, vemos toda esse pele largada, os lugares de onde se sumiu toda a graça, todo o encanto e ilusão, deixando-nos emparedados.


domingo, dezembro 20, 2020


A minha voz começou já a morrer,
sente-se o corpo num curso de água
encalhado, a soluçar na corrente,
vivendo a morte de outros,
preso por um murmúrio
à extremidade de um galho
mal toco as coisas, posso pedir-lhes
que se partam, que ouçam também elas
a melodia devorada pelas escalas
mas então, como nos faremos entender
de ora em diante? Os dentes
estragam-se-nos, apaga-se 
o contorno, movem-se margens
ouve-se respirar o afogado
e à luz desse vislumbre prolongam-se
desafiadoras as sombras,
flores assobiam a opereta do caos, e nós
não sabemos em que mundo vamos morrer
não sabemos quantos irão engolir
o último gole, ali onde nem as pedras
saberão já ser pedras. Ah Michaux
se a loucura se tornou um descanso
comparada com a lucidez,
como se mede esta frieza
se não podemos fazer força?
nem com a língua nos dentes e
tudo o que passa/ passa sem parar
os nomes chamam pelo avesso, arrepiam
começamos a perder a paciência, e tu
que nunca te fazes vista, nem contas
maldita seja a terra por tua causa.
Gostaríamos de recompor o firmamento
como um romance, páginas cheias de vento
mas com um cheiro sinistro
sem dizer a quê, a que absurdo, que morte,
meio corpo, metade flor, metade cinza
os insectos passam-na uns aos outros
uma ideia do que lhe ia na cabeça,
era já nesses dias alguém sem regresso
vagueando inquieto recreando-se
para nada, para criar um trovão
por uma escrita que ouvisse,
mais das vozes que se retiram, 
se perdem ou calam para sempre
do que das que continuam
tão detestáveis as que ainda
e mesmo depois, até ao fim, falam.


quinta-feira, dezembro 17, 2020


Não há um raio que bata nos poemas hoje
meta o ferro quente na carne,
espicace a escuridão a toda a volta,
que revire a terra amarga
faça brilhar os frutos mais altos
não há um corpo vivo que cause pavor
uma tempestade vinda de longe
que dure uma semana inteira
só desculpas, atrevimentos ingénuos
confessam-nos coisas de nada, 
quase lhes escapa: a benção, padre...
mas nada disto canta, aborrece-nos tanto
em vez de canários oiço o universo reduzido
ao pingar no lava-loiças,
e até o preferia
se levado às últimas consequências
deixávamos de lado toda a beleza
e toda a glória,
com todo este desencanto
a derrota sabe a mais, tem muito mais gosto
bebêmo-la de uma taça nem quente nem fria
um silêncio com tempo para amadurecer
confuso primeiro, estúpido até, mas
depois melhora, acalma, pressinto então
que existiu aqui em tempos uma cidade
ou existirá, o melhor é que ninguém
ainda lhe deu nome,
e precisamos de vazios destes
imensos, criando ecos que voltem
para nos caçar,
eu rezo pelo pior,
aquela urgência que voltará a zumbir
entre nós depois da passagem dos exércitos,
as lições do pó e do frio,
dos passos dados com grande custo
na terra húmida,
se me perguntares acho que o paraíso
é só um alívio
e que tem de ser buscado no inferno
e que os melhores entre nós querem apenas
deitar-se uma vez mais com alguém
os melhores têm uma só ideia fixa
chega-lhes para uma vida inteira
e morrem de olhos postos numa alegria
que não vem,
mas que olhos os deles
só ali parece que toda a luz se perde
e a morte por fim merece a fama que tem


quarta-feira, dezembro 09, 2020


Carta do achamento daquelas ilhas lá
onde deliram por ordem os teus náufragos
lendo alto a mesma história o gole de água
salgada passando por tantas bocas,
consertam uma só rede de ecos ritmos
prendendo a ela um nada puxam de volta
o mundo tombado como canção
flor de sangue num lenço, memória brisa
indícios arvorando, pontas soltas, pássaros
a oração em cortejo das primeiras noites 
ainda trémulas, e o corpo que desde lá
perdeu sentido contra a carne aberta
do vento. Do desejo ficou o caroço,
chupa-o fingindo alcançar o sabor
e toca um enjoo a que pôs cordas, 
imita que faz e fuma um cigarro,
coroando-o a nuvem mais chegada e
muito ao fundo sons como se gente
algum ronco no estômago da alma,
até que estar só faz de deus uma dor
plausível, verão desfeito porque não lhe
demos corda, e o mar, o pior dos álcoois
fazendo-nos a cabeça, amadurando
o fruto a ver se cai e adoça o chão.


domingo, dezembro 06, 2020


Há outros quartos aqui, em volta
oiço rombos, caem de um piso a outro
objectos cortantes, absurdos,
e os canos explicam-se, ouve-se mastigar
ouvem-se cochichos atrás da porta
passos que nos sacodem como visões
há um brilho mais doce que a aurora
algum deus vivo amarrado, colérico
que lâmpada!
os insectos sempre de volta
bêbedos do seu sangue, mas a fuga
se houvesse, se à terra não a tivessem
dobrado como a um mapa,
recolhido os mares numa garrafa,
e as estrelas, se não as apagaram
onde caíram? Levantamos ferro
e logo a quilha rebenta
o juízo desfaz-se em espuma
os ventos não guiam a coisa nenhuma
não se vende nem um livro, 
tão ousados que não há quem nos aguente
ou queira saber, uma lástima na verdade
é o que somos, e as ambições piores
o rasgo malicioso, tudo isso trocado
por um mediatismo sonso,
já nem o prazer, a alegria de mentir
com quantos dentes
essa música dos dias de miséria
exageros fenomenais, a ironia sagrada
na melhor das hipóteses, hoje
traem-nos as nossas mãos, viram-nos
do avesso ainda velhos e admiráveis ecos
mas é terrível cair nestas linhas
de que ninguém sabe, uma senha inútil
diz-se: aqui o mundo já acabou, 
carris abandonados, soldados
que nem os seus nomes ouviram
ou sequer os disparos, sons cobrindo
distâncias frias, glaciais,
a história reduzida a algum cadáver,
talvez a sua memória ou música se aguente,
ressoe infinitamente num par de versos,
a imagem vulgar de flores num vaso
mas um perfume que encanta e inquieta
como uma língua estranha
espécies que vivem só entre o pó
dos livros, perecendo numa mancha de tinta
a intriga dolorosa das nossas noites,
- sombras devorando sombras -,
a inocência que se perde falando alto
revendo os dias
o agrado com que a morte nos olha
desde um texto antigo,
perde-se o juízo por tão pouco
uma recordação que não nos larga, 
a mulher que, afinal, nem existiu,
uma vida em que nunca te encontravas,
coisas que entram na distância que somos,
e por fim escreve-se um poema
como quem abre outra cova.


terça-feira, dezembro 01, 2020

Mais um caso resolvido pelo nosso Sherloca de serviço

 

Ainda sobre a invejável e inspiradora confusão que esteve na origem desta antologia, em que boa parte dos suicidas (oito pelas últimas contas) não passam de uma nebulosa ficção de Eliseo González, o que sobre esta podia depor, à laia de esclarecimentos, já ficou ali, e só me resta agora virar-me para a parede, deixar que me afastem as pernas numa inspecção vigorosa, enquanto me revistam os bolsos. Ficaria muito feliz se ouvisse passos do lado de fora da porta de casa, que me viessem pela noite, sobressaltando os vizinhos com uma farra dessas à filme americano, alguma brigada de narcóticos e outras substâncias ilícitas que apreendesse a meia dúzia de exemplares da obra que me restam. E ainda que me sacassem a mais delirante das confissões, com ranho e o raio, admitindo que sabia de tudo, que tramámos a coisa assim mesmo, eu e o Melícias (quem dera!)... Mas com muita pena minha, além de uma excelente antologia de poemas, com algumas campas para mostrar e, pelo meio, uma vala comum que, se aberta, espreitando bem no fundo, nem um ossinho se verá, o que temos são uns desesperos fingidos (sentir sinta quem lê, porra!), numa façanha que o Henrique garante que não é nada de especial, ele que nunca tem lente para coisas que não sejam chocadas lá na capoeira das suas conveniências. Mas tenho pena, dizia, pois acho que vai ficar por isto mesmo. Aqueles taralhoucos que ele junta pouco contribuem além de colarem os cartazes ("vivo ou morto"), revezando-se nos apupos, apensando mais um capítulo ao meu longo processo, cadastro que só não merece antologia porque do lado de lá são todos tão sonsos e tão chatos, tão fraquinhos no acusatório que uma só frase basta para se ficar com o torpor de quem cumpriu já a perpétua. Mas, de literário, não se espere nada. E que condenação poderia doer-nos mais fundo que a suspeita de que a geração em que demos por nós trancafiados é o pior dos castigos. Olhai em volta. O que se vê? “Movemo-nos numa atmosfera confusa e não nos distinguimos com nitidez”, dizia o Artur Portela Filho. Para o mal dos pecados dos raros espíritos a quem reste algum sentido de humor, pior ainda é que vão dizer que fomos contemporâneos destes, esta rataria que se aflige com tudo por igual. Quem sabe só ficarão os guinchos e depois a vontade de atirar um fósforo, queimar a montanha, enterrar a época toda por junto. De resto, que género de súplicas poderíamos dirigir aos vindouros, a esses que darão por si nauseados com a banalidade do enredo que nos tinha distraídos neste can-can de pernas muito feias em cima da mais grotesca das catástrofes. Talvez ao regime balofo desta intriga queixosa reajam com mais pena de nós do que deles mesmos, se sobrar testemunho das coisas em volta das quais se organizavam os nossos ódios, só eles infatigáveis, e como ninguém parecia admirar senão com fita métrica, garantindo que ninguém era mais alto. Como todos eram guias, uns mais cães que outros, “roendo a legítima ambição de soterrar os demais com obras devastadoras”, ou, nos momentos piores, perseguindo a própria cauda, supondo sempre que se dirigiam a cegos ou à turistagem, e com aquele espalhafato auto-publicitário, gestos cheios de uma tola enfâse, típica de personagens que se julgam autores, e que buscam um autor que não se envergonhe de os chamar, como faziam as mães, à porta de casa como de uma obrinha digna de memória. Eis o drama que por último vai restando, esse de não terem quem lhes dê um arco narrativo, quem faça o favor de lhes explicar o seu papel, o móbil por trás das suas exasperações, por isso se agarram a emoções dessas que não passam do esfarelar do ego, do seu desgaste natural quando faltam até aquelas paixões descabidas, as obsessões desvairadas, Capuletos e Montéquios, moinhos soprando uns para os outros nos dias em que o vento não arranja a moral de pôr um pé nesta terra que nem a honra tem de ser devastada, ficando apenas esquecida, e nem um crimezinho que expiar se arranja, nada para o escândalo, o que provoca estas tão sovinas e áridas existências, tão sem afecto, fingindo bebedeiras em torno de garrafas bebidas por uns vagos ancestrais, ficam aí, fuçando o esterco, a juntar os trocos a ver se dá para uma polémica que encha a tarde de uns rubores, lá se vão apeando nos inter-regionais do mediatismo, agastando-se com inúteis querelas, e há sempre algum que recapitula, lembra que foi sempre coerente, que sempre defendeu isto, vejam-me na entrevista que dei, saibam que fui convidado para uma formação, amanhã mesmo vou explicar como se cozinha uma geração, consultem-na na agenda, e ninguém tem mãos a medir, não faltam colóquios, convénios para ociosos basbaques, e para justificá-lo não hesitam em apontar graves altercações, falsos problemas e ainda mais falsas soluções, compadecem-se de tudo e mais alguma coisa, numa hora são contra a rede de regras, de cláusulas e de proibições, na hora seguinte são os maiores legalistas, querem-se na companhia de piratas, bruxas, diabretes de toda a espécie, mas aparecem commumente em cena puxando um bófia pela manga, a chibar alguém com escândalos de côdeas roubadas. É o caso do nosso Sherloca de serviço: cá espreitou um furo, ele que, como qualquer adolescente literário, faz a fita do coca-bichinhos, sempre à cata de algum processo de desmistificação, como se isso fosse fazer pela sua reputação (não se espantem, ele julga que tem uma) o que não fizeram as duas décadas, mais coisa menos coisa, que já por aí anda, com a sua banquinha de postais de outono, acorrendo a jogos florais, artiguinhos a dizer atenção, juntem-se que isto sim, agora vai, como o provedor desses talentos estropiados, génios arrancados do lixo, tropeçando neles em qualquer província mental, sempre com aquela forma de pensamento mágico, em que faz o número de circo de vir dizer que achou mais um para o lote, leva já um elenco a perder de vista, o que daria para trazer à luz numa década as galerias de séculos de ouro soterrados, um bando que tem por um cordel, e leva atrás de si, expondo-os nas feiras, como maravilhosas aberrações líricas, uma trupe absurdamente injustiçada, só que, tão cedo quanto lhes exibe uns pormenores, tratando-os como fósseis vivos para uma qualquer teoria maluca, revela demasiada pressa em abandoná-los, chutá-los de volta para os bastidores, dando a tese de uma estirpe alternativa e fabulosa da evolução poética lusa, e logo se atira àqueles que vê como os protagonistas da época fazendo deles bustos de jardim, a desprezá-los nuns excessos maníacos, aponta lá para trás, diz que nas suas costas é que estão os grandes valores, e ele é que sabe, até nos explica como as coisas devem ser feitas em termos de testes de laboratório, que antologias é que merecem crédito, que ensaios estão revestidos do devido mérito probatório, ele que tem essa ciência de dizer é como eu digo, passando muito depressa a desmerecer os demais, em textos que tresandam a um ressentimento em que se percebe que são os nomes que faltam aqueles que verdadeiramente importam, pois esses é que lhe motivam aquele alvoroço de praça, umas indignações em que vai juntando a sua turba de lesados cá do DVP, como antes os havia do Guerreiro ou do outro, todos com créditos a haver, as poupanças de uma vida, certificados de aforro, colecções em tantos tomos de versos agora dados como sucata, essas arcas que iam alimentar rixas sangrentas na academia, e é assim, praticando a sua chantagem intelectual, tomando para si o encargo de compensador-mor, de enfermeiro na primeira linha, a prestar pronto-socorro às sumidades gravemente feridas, batendo-se pelos deveres de solidariedade nessa fila da sopa para servir os mendicantes do ego, é com isto que nos vem com as suas baldrocas, e já nem quer saber do organizador da antologia, já até abandona as suas convicções sobre autoria, está indignado em nome do poeta que nos pregou uma partida, coitadinho do Eliseo que não recebeu os seus direitos, nem direito teve ao prestígio de, décadas depois, ter visto vingar a sua desconcertante golpada além fronteiras, o que lhe interessa é vir para cima de mim, ele mais os seus bandalhos semi-anónimos, pela ausência de assinatura, de estilo ou até de juízo autónomo. E desmerece a antologia! Coitado. Ele que não tem um verso para a troca. Que se faz valer da sanha de uns sujeitinhos sem estatura, e que, não fosse por entreter este seu show da caverna, esta parede onde faz projectar sombras ampliadas, a ver se inquieta alguém, nem a carteira tinha, não podia andar, com a sua errónea e mínima erudição, a produzir estes ludíbrios, estas confusões que só duram enquanto não chegar aquela idade em que as ilusões adolescentes se cansam, e dão por si velhos, com menos pena de não terem sido poetas do que de não terem aprendido sequer a apreciar a vida ou os poemas, o que vai dar no mesmo.

 

segunda-feira, novembro 30, 2020

língua morta 112


LÂMPADAS ACESAS PARA AUMENTAR O DIA,
Uma Antologia de Raul de Carvalho

Apresentação e selecção de Diogo Martins

capa a partir de pintura de Francisco de Goya

[300 exemplares, 256 pp., 12€]
 

língua morta 111

 

 

MISTERIOSAMENTE FELIZ,
Uma Antologia de Joan Margarit

Selecção, tradução, posfácio e notas
de Miguel Filipe Mochila
(reedição revista e aumentada)

capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[300 exemplares, 438 pp., 16€]


língua morta 110

 


AO OUVIDO DE UM MORIBUNDO,
Uma Antologia Desesperada da Poesia Portuguesa

Organização de Nuno dos Santos Sousa

capa a partir de pintura de Francisco de Goya

[300 exemplares, 560 pp., 18€]

 

 

Abrir os olhos chega,
ler o jornal, arrancar-lhe as pétalas
meio animado, emparvecido
cheio de tremores, rindo alto, suando
tocando certas zonas frias, o canalha,
brutamontes, anjo, vagabundo, ah
se me ouvissem, que balanço na cadeira,
e logo dá a hora que me apetece, ei-la
toda revolvida, e lanço-lhe a mais pura pedra
atenta
, algures sinto-a quebrar coisas,
o rosto do vento, a distância deixa-me um
cheiro, ofendida, com a roupa
dela passa-se o mesmo, ora se ofende
e amua, ora dança para mim,
aborrece e encanta-me
a minha vida mudou inteiramente desde então,
não me imaginarias, o que faço sozinho
a cama faço-a cada vez mais fundo
sujeita aos temporais, e a lâmpada à cabeceira
é o meu aceno a lobos e navios
acordo inexplicavelmente para escrever isto
torno-me transparente e geométrico, estou bom
para música, risadas que não sei a que
vêm, de onde, nem o que querem,
e sou feio hoje como o Cendrars,
calvo também, em breve
cair-me-á o nariz pelas mesmas razões,
mais outra benção, e que espalhafato
com a boca bem aberta, a glândula do espanto
inchada, só me falta que a luz dela
firme um porto, naus a atracar
a velha conversa e as canções, luas
por aí, velando o cadáver da noite,
e que cheguem por fim
das margens da página aqueles que tanto
nos inquietam, águas entrando
pelas fendas, batendo, rebentando tudo isto,
águas cheias de sombras
que nos virem de vez, e tudo acabe
como na lembrança mais alta,
miúdos trepando pelo aroma às árvores,
o sentido imundo que isto faz
na outra margem, o que já se mostra
quando espreitamos,
estibordo, bombordo, entre essas estrelas
pouco importa se chegamos ou partimos
contando que perturbe as nossas imagens,
espuma, rosa avessa, indisposta,
os enjoos normais, visões que balançam
e alguns livros, a mesa, os velhos nós
na madeira para te guiarem no escuro
a cerveja destilada pelas marés
as próprias palavras, lívidas,
vomitando as entranhas,
dentes sujos, lábios salgados
e depois cada pormenor medido em meses,
cada trago mil vezes bochechado e cuspido
o polimento que se consegue no vazio
nesse mais nada que se dá à vista,
as vozes correndo de lado a lado,
fome, impaciência e a chuva sobretudo,
que tudo isso te encha a garrafa,
que esta música nos leve.

 

 

domingo, novembro 29, 2020

Editores de textos

 


Chegou-me à atenção, por via de umas trocas de email em que não participei mas de que me foi dado conhecimento, de que paira sobre uma das nossas edições (língua morta) uma mais do que legítima suspeita envolvendo questões de autoria. Estou a falar da antologia “O meu livro de cabeceira é um revólver – dezassete suicidas”, o qual foi organizado e traduzido por Jorge Melícias e conta com uma nota de apresentação da minha responsabilidade. Segundo parece, todos aqueles poetas (ou uma boa parte, pelo menos) são uma elaborada ficção de Eliseo González, responsável pela antologia “Galería de Suicidas”, que, ao contrário do que comecei por entender, não foi uma mera influência para Melícias, mas foi a influência capital no desenho desta obra. Caberá a Melícias justificar porque foi que isso não ficou mais claro, embora numa das notas “biográficas”, na de um poeta (Tomás González) que sabíamos ser uma espécie de heterónimo, seja mencionada a obra de Eliseo González. Pela minha parte, reconheço que, quando tentei confirmar as datas de nascimento e morte destes poetas estava sempre a ser remetido para aquela antologia. Mas só me foi possível consultá-la parcialmente através do Google Books, e, estando esgotada, não tive sorte quando tentei adquirir um exemplar em alfarrabistas espanhóis. Devo assumir que tenho alguma culpa no cartório no que parece ser um mal dissimulado ‘embuste’? Alguma terei. Podia ter levado mais longe as minhas averiguações. E o que se deu não foi que tenha confiado inteiramente na “idoneidade” (perdoai o palavrão) do Jorge Melícias. Para falar a verdade, estava-me um pouco nas tintas. Este ofereceu-me a oportunidade de publicar uma das melhores antologias de poesia que tenho lido nos últimos anos e eu nem hesitei. E adianto que voltaria a fazê-lo, tendo apenas o cuidado de insistir para que fosse dado outro relevo a Eliseu González, mesmo que sem destruir a sua genial farsa. Mas esta situação permite-me ir um pouco mais longe, esclarecer outros aspectos sobre o trabalho que eu e outros vimos fazendo por trás do selo “língua morta”. O que sou eu, o que somos nós, os que nos aproveitamos desta possibilidade de fazer livros como um modo de reencantamento, desde logo contra todas essas realizações seríssimas de um meio editorial enfadonho, e que não nos traz nada de mais encorajante, o que somos nós contra tudo o que diariamente nos abate? Somos editores de textos. Literários ou outros, peças avulsas de um museu do espanto, de uma casa assombrada, de um teatro agressivo, de causar arrepios, de espancar almas, essas que estão tão necessitadas de levar porrada, de ficarem por um triz, e, honestamente, pela minha parte estou-me nas tintas para o aspecto social, a menos que se me apresenta, o contexto à volta, que abomino, e só não me alheio se vir uma aberta, um flanco mais exposto, uma oportunidade de puxar bem atrás a manápula a escorrer de tinta e aplicar o luso-bofetão, porque isso, confessada mente, me anima. De resto, se amanhã me aparecer o Sr. Asdrúbal dizendo que tem uma obrinha que gostava de ver editada na língua morta, se a coisa me deixar siderado, ou apenas levemente maravilhado, não tenho grande escolha. Não vou perguntar ao Asdrúbal se ele existe, se tem uma biografia verificável, se me pode apresentar cartas de recomendação. O próprio Jorge Melícias poderá atestar que a nossa relação nunca foi amigável, e que mesmo durante a feitura desta edição apenas procurámos seguir pelos mínimos no que toca à cordialidade. Diria até que fiz questão de não lhe dar a ideia de que tinha a porta escancarada para virar as suas gavetas sobre as nossas cabeças. Simplesmente, face aos poemas que me apresentou, não tinha escolha. Mal lhes pus os olhos em cima tive de dizer que sim, que os editava com todo o gosto. A coisa fez-se em pouco mais de um mês, entre ter-me chegado às mãos, o processo de paginação, a revisão feita com o apoio do Miguel Mochila, e o ir para a gráfica. Editaria estes textos fosse como fosse. Enganado eu ou, até certo ponto, enganando o leitor. Mas sim, admito que não fazia puto de ideia de que se tratava tudo de uma esplendorosa ficção de um só autor. Ainda mais me admira a obra. E acho até que é uma felicidade que está ficção tenha sido encarada como algo que realmente se passou, ou seja, que aqueles poetas suicidas de facto existiram. Mas, para um editor que deixa para um segundo lugar a autoria em face do deslumbramento diante de um texto de cujas origens nada se sabe, este percalço não me amofina. Até me deleita. Por alguma razão os nossos livros não tem qualquer informação biográfica sobre os autores nem na contracapa nem na badana. Não é só desmazelo. Muitas vezes é preferível não complicar as coisas dando margem à realidade para que desfaça as nossas ilusões, a ingenuidade que nos resta. Sou um editor de textos. Editaria um bom poema de um inimigo figadal. Mais: adoraria ter essa oportunidade. Até do Jorge Melícias ou do Henrique Fialho teria muito gosto em apresentar textos que me parecessem excepcionais, admiráveis. Mesmo que não me dessem a oportunidades de os editar estou a torcer para que um dia me seja dado ler textos dessa categoria assinados por eles. Quanto a essas questões sobre autoria, acho que Foucault tinha alguma razão quando defendeu que “a única solução e a única lei sobre a edição, a única lei sobre o livro que gostaria de ver instaurada seria a da proibição de utilizar duas vezes o nome de autor, para que cada livro seja lido por si mesmo”. Com isto, não quer ser mal agradecido. Por isso, quero expressar o meu agradecimento ao Henrique o serviço prestado, o esclarecimento que era devido, ainda que a custo da nossa ingenuidade. Não deixa de ser igualmente apaixonante a ideia de que todos estes poemas possam ter sido criações de um único autor, um Shakespeare com os pulsos ratados, e até humilha os nossos pretensos suicidas de plantão, que envelhecem por, adiando a perspectiva cada vez mais mixuruca de que um dia, por fim, nos compensem com um verdadeiro acto desesperado. De resto, a melhor coisa que podia ter acontecido a alguns poetas portugueses seria terem morrido há uns dez anos. Talvez vinte. Estou a pensar numa meia dúzia. Não resisto a nomear dois: Luís Quintais, Manuel de Freitas. Sempre que anunciam um novo livro, não consigo deixar de sentir que nos estão a dever mais qualquer coisa.