quarta-feira, novembro 14, 2018

Fórum do Futuro 2018



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sexta-feira, novembro 09, 2018

língua morta 087



PARA QUE EU ME CHAME ÁNGEL GONZÁLEZ
Uma antologia de Ángel González,
selecção, tradução, prólogo e notas de Miguel Filipe Mochila
capa a partir de pintura sobre painel de Hieronymus Bosch

[400 exemplares, 264 pp., 13€]


terça-feira, novembro 06, 2018

"Obra Poética", de António Ramos Rosa, ed. Assírio & Alvim



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Abaixo, o texto completo:

Consagrou a vida toda à poesia e na sua vastíssima obra deixou-nos a luz ténue mas persistente de um afável mestre que acreditava que, mais do que servir o homem, a poesia se esforça por criá-lo 
Se até a poesia do nosso tempo nos parece cínica, sabemos que nos resta muito pouco para lá da tentativa de negociar os termos de uma capitulação. Quando não nos causa azia a ideia de que o nosso tempo é caracterizado pelo triunfo do cinismo, não deixa ainda assim de causar alguma inquietação a anemia que caracteriza hoje esses discursos e manifestações artísticas que guardaram uma certa desconfiança frente à educada passividade que se governa com as migalhas servidas à cultura. Contudo, a partir do momento em que fique claro como a poesia que se vem publicando desde finais do século passado e já em pleno XXI mais não faz que representar uma “falsa consciência”, então sabemos que os poetas não fazem mais do que tapar o nariz e dançar com os cadáveres dos valores e das ilusões iluministas que animaram os seus antecessores.
É bem fácil perceber como, apesar dos tão exaltados exemplos de alguns selvagens, hoje, ao brandir as velhas insígnias, a poesia mais não faz do que resvalar para uma perpétua auto-celebração, esvaziada de qualquer sentido actuante. Não apenas se revela indolente, incapaz de retaliar, como conformada. Pior, nem parece sovar as mentalidades, marginando-as, apontando para aquilo que se procura esconder, calar, ignorar.
Este cinismo decorrente da modernidade, como o entende Peter Sloterdijk, distingue-se daquele que teve, na Antiguidade, expressão na atitude de Diógenes, cujo exemplo até aos nossos dias ainda tange alguma corda sempre que um mendigo passa por nós ralhando com os seus demónios, e que poderia servir como antídoto para os destratos de quem se demora nas questões do espírito, vestindo a bata dos eternamente enfastiados, que nunca se dispõem a discutir seja o que for, mas aplicam aquele efeito corrosivo sem outra táctica que não passe por destituir as coisas do seu sentido, promovendo o colapso do pensamento crítico.
Para se superar esta terrível ressaca, em “Crítica da Razão Cínica”, Sloterdijk receitava as virtudes do antigo cinismo, aquele praticado pelo mendigo que se passeava, nas horas do dia, levando acesa uma candeia pelas ruas de Atenas, dizendo que buscava um homem honesto. O filósofo alemão preconiza um revigoramento das faculdades que passe pelo riso, a insolência e a invectiva. E isto, ainda que obliquamente, vem a propósito de António Ramos Rosa, da publicação do primeiro de três volumes compreendendo a sua vastíssima “Obra Poética”. É que este poeta, que antes de ter tido a sua tão celebrada estreia, há 60 anos, com o título “O Grito Claro”, assumira já algum relevo através dos textos incluídos nas revistas “Árvore” (1951-53) e “Cassiopeia” (1955), publicações de que fora co-fundador e co-director, poderia dizer, ecoando Novalis, que entendia a poesia como a religião original da humanidade.
Diante do labor de um homem que “foi só, desde a juventude, poeta a tempo inteiro” (Eduardo Lourenço), deve sublinhar-se como o desejo de desertar, desenvencilhando-se de um mundo que destina a maioria de nós a uma vida de funcionário, se compagina com a intensa atividade de um grande leitor, um poeta-crítico decisivo “para a configuração do mapa literário e das grandes linhas programáticas da poesia portuguesa da qual foi contemporâneo”. António Guerreiro ressalvava isto mesmo na reacção à morte do poeta, adiantando que, “enquanto grande leitor de poesia, ele encontrou aí, na obra alheia, a base do seu próprio ‘impulso criativo’”. Por esta razão, a par obra poética, não pode nunca passar-se ao lado dos livros de ensaios “Poesia, Liberdade Livre” (1962) e “A Poesia Moderna e a Interrogação do Real” – dividida em dois volumes, um de 1979 e outro de 1980 –, de forma a traçar o arco da acção que fez de Ramos Rosa, por antonomásia, um dos primeiros nomes que nos vêm à cabeça quando pensamos num poeta.
Tendo consagrado a vida inteira à construção da sua imensa obra - com quase uma centena de títulos publicados -, recorta-se a partir do seu exemplo a imagem de alguém que, na radicalidade com que se entregou à poesia, abdicou de tudo o mais e nos surge assim, em pleno dia, de candeia acesa, buscando um leitor honesto com quem dialogar. Este é um poeta que, alguns anos depois de ter desaparecido, já o recordamos como uma figura antiga, e os seus poemas chegam a soar datados ao fraco ouvido com dificuldade para ir além da lista dos êxitos da rádio.
Em “Poesia, Liberdade Livre”, Ramos Rosa vincava como a lição que se retira de cada verdadeiro poeta “é o contraveneno mais fecundo para todas as formas de degradação que avassalam o ser humano na nossa época”. E onde até aqui se lia “mendigo”, entra a errata que este poeta foi tentando aplicar ao redundante subtexto que procura fazer de todos nós empreendedores: “Isolado, ignorado, alheio às consagrações limitadoras, ridicularizado e vilipendiado quantas vezes, o verdadeiro poeta sabe que não vive à margem da humanidade concreta e viva, pois não ignora que a sua solidão envolve uma forma mais profunda de comunhão e irradiação. Não é a sua finalidade, segundo René Ménard, servir o homem, mas fazê-lo, criá-lo.”
O grande risco que este poeta correu, e de forma muito consciente, foi o de escrever “um livro ilegível pela intensidade”. Ele está entre tantos que não saberiam o que fazer se confrontados com uma geração de leitores de poesia que aderem sem reservas “às comunidades práticas de pregar com pregos/ as partes mais vulneráveis da matéria”, e que mais facilmente rejubilam com aquela noção habitual do poético como algo da ordem do sentimental ou, em guerra com essa vulgaridade, algo que aposte no sarcasmo, na ironia e noutras declinações até darem por si a babar desencantadamente um outro bibe.
Como é próprio de alguém que se investe numa luta obstinada e inquieta com as palavras, escrevendo incessantemente, produzindo uma obra tão vasta que cobre as pulsões de toda a sua vida, Ramos Rosa chega a parecer menos um criador de novos sentidos do que um formidável mediador, alguém que fixa um idioma para o uso comum de um povo que se alforriou servindo-se da abstração na relação com o mundo, chegando ao ponto de desapossá-lo das suas relações causais, para, em seu lugar, dar primazia às relações analógicas, onde, como António Guerreiro aclarou, deixamos de estar perante hierarquias e o que temos são correspondências.
“A Palavra sobre o mundo, a palavra sobre a palavra onde o mundo se diz e se perde, foram sempre a sua obsessão, fascínio e martírio indissociáveis”, notou Eduardo Lourenço. “Poesia da reiteração infinita, alguns a encontrarão monótona ou imóvel, mas esse é o preço da fidelidade à essência mesma de uma visão poética que tem como horizonte uma Palavra que, por definição, é, sem fim, o som e o eco de si mesma.”
Se o efeito de inesperado e o estremecimento podem definhar na continuidade de uma expressão, na quase serena reformulação a que Ramos Rosa sujeita a língua, o que se imprime nesta obra é “um programa de vida, uma necessidade vital e ética que encontra no poema uma estratégia que lhe orienta o sentido e os horizontes”, diz António Guerreiro. E, a par “do caráter órfico da nomeação”, vemos esta poesia deambular nesse “lugar de ‘experiência sem experimentalismo’”. O que se compreende por esta ser “entendida, essencialmente, como medium de reflexão e de especulação sobre si mesma”, sublinhando-se mais “a atividade do que o produto, mais o acontecimento infinito do que aquilo que nele se finaliza”. 
Mesmo Guerreiro, o mais empenhado leitor crítico que encontrou Ramos Rosa, acabaria por perder-lhe o rastro, enquanto o poeta persistia mendigando o verso de cada dia quase em farrapos - “se era mesmo o ministério voltava sempre ao começo,/ exasperado, lúcido,/ o mais música de câmara possível,/ o recôndito,/ o côrrego,/ tão virgem nele se bebia a água,/ e lisa, límpida, ligada”... (Herberto Helder) -, publicando a um ritmo avassalador, e em editoras marginais, títulos de circulação tão restrita, num apuro que foi sentindo o fim como se os versos corressem entre margens  de silêncio: “Onde regresso renasço/ à mesa onde o trabalho/ é uma flor que sopro/ Aqui respiro o tempo/ da madeira e do insecto// Aqui penetro o gosto/ da água lisa e da ânfora/ aqui demoro um momento”.
Depois de uma nova antologia - “Poesia Presente” (2014) - preparada pela filha do poeta, Maria Filipe Ramos Rosa, e publicada no ano que se seguiu à sua morte, a Assírio & Alvim traz-nos o primeiro de três volumes, que reúne “os poemas publicados em livro ou folheto entre 1958 e 1987”, ficando a organização a cargo de Luis Manuel Gaspar. Tão zeloza e discreta figura, possivelmente até há de ser o último dos últimos, apagando a luz antes de sair, fechando a porta do extraordinário período que se viveu na poesia portuguesa contemporânea. Tendo tido um papel privilegiado na convivência com poetas, editores e outros profissionais que souberam dar às palavras o justo relevo, o “Homem-Gato” é artista plástico, poeta, crítico textual, artes que se complementam, numa vigilância sabedora que garante o maior cuidado na fixação deste monumental corpus poético.
A partir de 1976, data do último dos ensaios coligidos nos volumes I e II de “A Poesia Moderna e a Interrogação do Real”, Ramos Rosa começou a pôr de parte a crítica e o ensaísmo literários, uma escolha que certamente o terá libertado da pressão de tantos poetas que, como se adivinhará, lhe vinham pedir caução para os seus versos - coisa a que qualquer crítico benevolente está mais do que habituado. Mas é evidente como a sua poesia tantas vezes é atravessada por uma constante reflexão teórica, como o debate numa câmara que legisla em surdina, sem que dali se retirem códigos penais ou sequer civis, mas relevantes para o processo poético.
E o que Ramos Rosa nos diz sobre a importância deste processo é talvez mais significativo do que os resultados da sua própria pesquisa. Afinal, pratica uma clareza expressiva própria de um educador, alguém que se notabiliza mais sabendo guiar do que roubando o fogo, sacando essas raridades fulgurantes que abalam intimamente a nossa imaginação. Ramos Rosa deita por terra muros, abre o campo, faz as apresentações. Assim, mais do que qualquer outra, a sua obra está dedicada a uma moderna defesa da poesia cuja urgência está patente nestas linhas de “Poesia, Liberdade Livre”: “A consciência poética é a consciência dos valores geradores da mais alta e completa humanidade, a consciência que transcendeu todas as dicotomias da consciência privada, para alcançar o humano na sua dimensão total. Esta consciência deve ser suficientemente lúcida para vencer a aparente frustração social do poeta na nossa sociedade. A poesia é criadora de valores - logo profundamente social. Ela atinge o social, não parte dele; daí a preeminência do poeta como orientador livre, como criador de valores. Logo, o primeiro lugar para a poesia, isto é, para o homem inteiramente humanizado.”
Isto implica que os versos sejam menos fruto de um acaso soberbo, causando um efeito de rapto, do que uma prática de resistência cuja veemência, ao invés de nascer de um efeito de rutura ou de transgressão violenta, ocorre por via de uma lenta harmonia, tirando os objetos do escuro para a contemplação de uma “perpétua aurora”... “Ave minúscula núcleo/ radical obscuro/ caroço dum soluço/ dura sombra do sol// Na garganta redondo/ visível quase nu/ se escrevo e tento só// desmembrá-lo. Soluço.”
Isto leva a que tantos poemas nos pareçam indistintos entre si, poemas sem autor, que podiam estar nesta obra ou noutra, e não provocariam maior desordem ou perturbação, talvez um certo enleio. São cartas anónimas e em que o endereço é como um desejo, uma esperança num mundo em que a poesia não se fique pela “ideia de um vivido que o poeta deve exprimir”, antes se situe “longe de qualquer dramatização psicológica e das asserções subjectivas” (A. Guerreiro). De resto, Ramos Rosa alertou muito a tempo para o perigo em relação às duas tendências opostas que podiam “pulverizar o poema, destruir-lhe o movimento vivo das relações, reduzi-lo a um mero mecanismo verbal”. Muito a tempo, e de qualquer modo em vão, alertou contra os equívocos de uma crítica programática que pudesse restringir-lhe o horizonte, e viu a falência no “automatismo de um eu que se perde na pura auto-reflexão”, e, do outro lado (embora hoje se possa observá-lo numa fórmula cumulativa ao anterior), “a aproximação desmesurada ao real objectivo que faz perder de vista o próprio motor da afirmação poética: o sujeito poético”. Assim, hoje o que mais se vê disseminado (ou dissimulado) entre nós é essa pobre ficção encarcerada entre os ecos de uma rima ainda mais pobre, e que serve ao poeta enquanto pose e máscara no miserável carnaval das letras.
Ramos Rosa persistiu com a sua língua obsessiva, semelhando por vezes a senilidade como, noutras, a pura infância, partindo pedras, atento aos sons, numa espécie de encantamento; desenhando na terra com um pau, contando formigas, olhando em redor... A ouvir o vento das coisas, sem levantar muito a voz, num braço-de-ferro perdido de todas as vezes. Como acontece com um irmão mais novo, sem a força do outro mas seguindo-o de tão perto, maravilhosamente interessado, curioso, adquirindo a experiência das coisas que escuta, e, nisso mesmo, coroado pelo espanto daquilo que se lhe mostra até metade e, quanto ao mais, o faz delirar. Esta poesia persiste assim, sempre grávida, sempre aberta, sem uma ponta de cinismo: “Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.”

sexta-feira, novembro 02, 2018

"Sepulcros de Cowboys", de Roberto Bolaño, ed. Quetzal



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quinta-feira, novembro 01, 2018

Literatura e ressentimento, ficção e farsa / a partir de "Escritor Fracassado", de Roberto Arlt



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Abaixo, o texto completo:


Saiu há semanas um livro de contos do escritor a quem Bolaño se referiu, "modestamente", como Jesus Cristo. Neste prodigioso volume, sobressai aquele que lhe dá título: "Escritor Fracassado". Uma ficção para humilhar tantas outras que não passam da sopa requentada de frívolos egos 
Por duas vezes, Arlt pegou fogo à sua residência nas malogradas tentativas de fazer nome como inventor. Chegou mesmo a patentear uma meia com reforço de borracha no calcanhar, e se foi dar à literatura, não foi tanto por uma devoção à arte, mas do mesmo modo que se meteu em tantas outras empresas insensatas procurando ganhar uns cobres. Passou a vida endividado, e nem é a lenda que o reza, é sabido de toda a gente que começou a escrever aceitando o desafio de um amigo que lhe acenou com uma qualquer soma caso escrevesse um conto. Se outros poderiam ter recuado divisando não só o esforço como o risco, obrigados a despirem-se diante do espelho cruel de uma narrativa, tentando firmar alguma consequência para uma série de frases e páginas de texto, Arlt não só aceitou como não perdeu tempo. E não foi apenas por o amigo se ter surpreendido com o vigor da primeira tentativa, mas a noção de que ali estava uma forma de sacar algum dinheiro à sua imaginação.

Ricardo Piglia traçou de forma mais do que convincente a importância que o dinheiro assume nos textos de Arlt, e conclui a entrevista em volta dele, incluída no volume "Crítica y ficción", notando que para ele, no fundo, a ficção é essa "máquina de fabricar pesos" (a moeda é claro) da qual fala numa das suas "água-fortes" – uma série de textos breves que escrevia para um jornal argentino. "A máquina polifacética de Roberto Arlt" é o nome que lhe dá. E o que está subjacente a esta geringonça é ainda aquele vento frio que nunca cessa de escavar o íntimo de quem passou mal, essas agruras a que antes tantos escritores chegavam a expor-se voluntariamente com o fito de terem depois matéria em que assentar as suas ficções.

De resto, esta inquietação com a matéria deixou-a Arlt expressa noutro dos textos daquela sequência, publicado em 1941, um ano antes de lhe ter falhado o coração, reformando-se precocemente e levando o escritor aos 42 anos. "Enquanto o romance moderno tem procurado determinar os mais subtis movimentos atómicos da alma dos personagens... os físicos, tentando determinar a arquitectura do átomo... vivem aventuras materiais... cujas consequências nenhum romancista até aqui foi capaz de deslindar, ou de transformar em romance... A aventura seria... descobrir o modo de subtrair um electrão de um átomo de hélio ao mesmo tempo que se beija uma mulher".

É fácil hoje, como sempre, aviltar e causar uma forma ou outra de urticária aos leitores que estão mais do que bem servidos pelas ficções que se atêm às convenções literárias e aos lugares comuns ideológicos, que em geral, como sublinha Piglia, costumam andar de mãos dadas. Mas deve ser-nos permitido fazer a defesa de uma literatura que surja como crítica cerrada a todos esses produtos culturais que seguem a trote na linha "da produção imaginária de massas". E nessa forja, tanto cabe o cinema, como esse romance atinadinho que os grupos editoriais mais impingem e que cumpre hoje as funções dos antigos folhetins, como, sobretudo, os novos meios de comunicação, que exponenciam o modelo do jornalismo enquanto meio difusor dessas pragas sociais, as ilusões em larga escala e os modelos limitados da realidade.

Para Piglia um dos aspectos que tornou tão pregnante a literatura argentina do século passado foi o modo como "trabalha a política como conspiração, como guerra; a política como grande máquina paranóica e ficcional". E no caso de Arlt, o carácter dos seus textos emerge da forma como toma "a falsificação e o crime como a essência do poder". E no muito que fez para se virar, Arlt partilha com alguns dos mais fulgurantes génios da literatura mundial – seja Balzac ou Camilo –, aquela visão tão corrosiva quanto esclarecida da forma como as sociedades modernas se organizam e como o dinheiro nela otorga "um poder infinito e é a única lei e a única verdade". Há um ar de denúncia que percorre as "utopias negativas" de Arlt, uma espécie de quixotismo negativo, na definição de Piglia, e isso leva a que os seus textos respirem a haustos de condenado, perturbando o leitor, alimentando as suas piores intuições sobre as ficções sociais em que a nossa sociedade assenta.

Na sua oficina, Arlt tem boa parte dos ideais que traficavam esperança nos seus dias degolados, um trilho nefando espalhado pela sua obra. Como observa Piglia, é um escritor "demasiado excêntrico para os esquemas do realismo social e demasiado realista para os cânones do esteticismo". Assim, não há nenhuma defesa do proletariado, nem muito que aproveite à noção da luta de classes; antes um diagnóstico sem apelo, considerando que "o trabalho só produz miséria e é essa a verdade última da sociedade". Ou seja, que os assalariados não têm outra coisa para contar a não ser o dinheiro que ganham. "Não há ficção possível no mundo do trabalho para Arlt", remata Piglia.

"Escritor Fracassado", o conto que dá título ao volume publicado há algumas semanas com selo da Snob e tradução de Miguel Filipe Mochila, merece ser tratado isoladamente, pois é não só o mais fulgurante momento daquela recolha que, originalmente, tinha o nome de outro conto ("El jorobadito"/ "O corcundinha"), como uma das mais arrasadoras reflexões sobre as pretensões que levam tantos escritores de segunda, terceira (e assim sucessivamente...) a porfiar entre os salões literários buscando consolo para as necessidades do ego. O conto é um massacre exercido pela consciência de um autor que, precocemente revelado, convida os juízos em redor a tomá-lo como uma grande promessa, acontece que, com o passar do tempo, começa a dar-se conta, da forma mais amarga (entre o trágico e o patético, antes de chegar à resignação), de que não tem nem o talento nem a convicção para criar uma obra de génio. É, em certo sentido, um desdobramento – cambaleando entre as profundezas da angústia e a mais selvagem sátira que se possa imaginar – do poema de Leminski, que nos fez rir tanto da primeira vez, mas que, com o passar dos anos, se faz sentir como a mão calorosa sobre um ombro muito em baixo: "um dia/ a gente ia ser homero/ a obra nada menos que uma ilíada// depois/ a barra pesando/ dava pra ser aí um rimbaud/ um ungaretti um fernando pessoa qualquer/ um lorca um eluárd um ginsberg// por fim/ acabamos o pequeno poeta de província/ que sempre fomos/ por trás de tantas máscaras/ que o tempo tratou como a flores".

Do fundo do seu poço, o protagonista do conto de Arlt dá-nos um auto-retrato do artista quando estão mortas já todas as ilusões: "Era evidente que já não despertava interesse em ninguém. Recebiam-me afectuosamente onde quer que me apresentasse, mas recebiam-me com aquela cordialidade que se oferece aos cadáveres vivos. Não sucitava aquele cochicho curioso, aquelas torções de pescoço, aqueles ‘ah!’ sufocados, aqueles olhares insistentemente cravados que outros artistas a sério provocam com a sua presença mesmo quando considerada odiosa e inoportuna."

E este momento prossegue no registo de uma interioridade turbulenta entre o amanhecer e até ao sol se pôr do outro lado do ego. O conto é um esplendoroso manifesto que não se detém no clímax, mas continua e leva as suas ambições e o que têm de farsa até ao fim: "Também eu queria ser odioso para alguém. Escrever páginas malditas que os outros lêem resguardando-se dos seus semelhantes por julgarem ver nelas uma alusão à sua fisionomia espiritual, e depois, raivosos, indignados ou enjoados, deitam ao caixote do lixo, fingindo à frente do autor nunca as terem lido.
À minha frente, o vazio, a tolerância ou a simpatia."

Eis a mais inelutável das calamidades. O escritor que se ficou pelo sonho mas não alcançou a loucura. E é preciso aqui entender a loucura como “ruptura do possível”, já que, "para Arlt, estar louco é cruzar o limite, é escapar do inferno da vida quotidiana”, diz-nos Piglia. “No fundo, a loucura arltiana é uma forma da utopia popular. Sai-se da pobreza também por meio da ficção”, acrescenta.
Mas agora falta o outro lado. Falta perceber como se constituiu este “clássico sem legitimidade”, como foi possível a Arlt ver-se investido nesse contra-senso de um escritor que está mais vivo que nunca e que se furtou à canonização. A leitura de Piglia permite-nos perceber como, mais do que pungente, com todas as suas nódoas, as frases mal escritas, os exageros, o modo como tresanda aos desacertos da vida de Arlt, esta adquire uma força profética. Piglia diz que isto ocorre porque ele não trabalha com elementos conjunturais, mas com as leis de funcionamento da sociedade. Portanto, a raiz não está tanto na genialidade do escritor, mas na sua coragem e desatavio. “Arlt parte de certos núcleos básicos, como as relações entre poder e ficção, entre dinheiro e loucura, entre verdade e complô, e converte-os em forma e estratégia narrativa, converte-os no fundamento da ficção".
Se é certo que a literatura vive normalmente num estado de impasse, há também casos que têm provado à saciedade como os abalos profundos à volta dos quais depois se encasula essa grande e prestigiada malha das figurinhas de segunda ordem, que se deleitam ou esforçam por se fazer notar dando provas de sofisticação, surgem dos fundos da cozinha. É muitas vezes o ajudante que consegue um pequeno soldo a cortar batatas e a fazer outros trabalhos menores quem, alheio às especificidades e ao gosto do palácio, com o seu treino feito ao acaso entre a azafama do restante pessoal no esforço de satisfazer os caprichos do chef, acaba por experimentar às escondidas uma receita que, num desenlace típico de romance, conquista o paladar do rei e das cortes.
E, neste ponto, chegamos ao problema de dolorosa indefinição em que se encontra a ficção portuguesa, desde há algumas décadas, essa água-chirla que não escalda nem nos traz visões proféticas. Com excepções demasiado raras para aqui se lhes dar destaque, deve notar-se que não só os nossos ficionistas não parecem dar-se conta do quanto a sociedade é ela própria uma tremenda ficção, como não sentimos, ao lê-los, esse debate que distingue a literatura dos bordados (por mais criativos e mais úteis na decoração que se mostrem) e que passa por questionar a capacidade que tem a ficção de transmutar a realidade.
Chegados aqui, seja-nos permitido estabelecer um arco deste desfasamento entre a nossa ficção e a das literaturas  de outros países (algumas não menos periféricas) que têm mostrado um outro empenho, no que toca a reafirmar a ficção literária como uma forma avançada, não apenas de denúncia mas de especulação, face às ficções que somos forçados a engolir enquanto membros desta sociedade. Para esse arco, vale a pena também desmontar esse complexo que vê na crítica uma forma literária de segundo plano, assistencial no máximo, quando é evidente que, face ao enfraquecimento do papel social da literatura, a crítica tem a obrigação de criar condições para o reconhecimento das obras de excepção, ao invés de continuarmos neste atraso de vida, muito contentinhos e a celebrar as fórmulas bacocas que representam um estilo médio, e que resultam em obras irmãs da tal “produção imaginária de massas”.
“Não há nada mais terrível dentro de nós e sobre a terra e, talvez até, nos céus, do que aquilo que ainda não foi dito. Só ficaremos de todo tranquilos quando tudo tiver sido dito, dito duma vez para sempre; só então tudo estará em silêncio, ninguém mais terá medo de se calar”, isto afirma a certa altura Ferdinand Bardamu, o protagonista-narrador da “Viagem ao Fim da Noite”, de Céline. E é Luiz Pacheco quem fez o sublinhado em 1966 – ou seja, há mais de meio século –, na página 85 do seu livro “Crítica de Circunstância” (ed. Ulisseia). E, partindo dele, oferece “uma lição que o leitor de romances portugueses decerto gostaria de ver adoptada mais vezes e mais vezes conseguida pelos nossos ficcionistas. Lição árdua, ninguém o duvida; implicando uma coragem firme, uma lucidez sem peias ou, então, aquela dose de folia interior de que o génio caprichosamente se avizinha, e com a qual não poucas vezes clinicamente se confunde e o confundem”.
Se se tem falado aqui do triste estado em que se encontra a nossa crítica, incapaz de guerrear minimamente para impor algum entendimento que não seja a conveniência com o mercado, subjacente a isso está a irrelevância e, até, a frivolidade para a qual caminha cegamente a nossa ficção. “Mas uma literatura regrada, pautada por convenções e limites por de mais nossos conhecidos; uma literatura que se repete, glosando-se, de autor para autor e de época para época, não tem, nem é justo que tenha, grandes possibilidades de influência e de sobrevivência. Daí, a penosa sensação do ‘já lido algures’ quando folheamos uma obra portuguesa recente; daí, também, a quantidade de autores nossos, esquecidos e amortalhados na cinza do tédio que provocam no leitor de hoje e tiveram no seu tempo, quantas vezes por circunstâncias fugazes e alheias ao seu mérito criador, a aura suficiente para os elevar a esses museus da literatura que são os manuais onde ela se aprende e decora como ciência morta, e ali se nos revelam como mero índice de nomes sem nenhum significado nem grandeza, autores de obras afinal inúteis, vazias de qualquer conteúdo humano – sem uma personagem, um tipo, uma intriga, uma anedota, uma moralidade, uma frase feliz ou conceito que valha a pena fixar. Tudo morto, tudo literatice!”

domingo, outubro 28, 2018

Entrevista a Hélia Correia



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sábado, outubro 27, 2018

Barricadas de feira


Il y a la culture qui est de la règle, il ya l’exception qui est de l’art. (...) Il est de la règle que vouloir la mort de l’exception. 

Jean-Luc Godard


Reparem na citação, firme, aí à cabeça, como um chapéu de coco com o furo de uma bala e um buraquinho fumegante, chapéu que se levanta à passagem dos curiosos num gesto malandro de cumprimento. Fanei-a de um texto todo abotoadinho, desses que querem fugir da academia mas que, com aquela ânsia toda, se trancam na despensa. Já lá iremos. Por agora, fixemo-nos nisto: está a decorrer este fim-de-semana a primeira edição da Feira Gráfica, e a coisa diz que é um “evento” e que “procura juntar no espaço do Mercado de Santa Clara, em Lisboa, várias iniciativas micro-editoriais, de diferentes pontos do país, ligadas ao livro (de literatura, ilustração, fotografia) mas também a outros universos da tão vibrante intervenção criativa contemporânea constituídos por revistas/jornais culturais e/ou publicações de autor como as fanzines ou impressões de diverso tipo (em serigrafia, gravura, risografia, etc.)”. É a costumeira sufixação desses modos de resistência prezáveis e que se compensam pavoneando-se como excepção enquanto vão faltando os meios para uma verdadeira projecção cultural. É-nos lembrado que, além da “venda propriamente dita das publicações”, não falta também um programa com lançamentos, conversas, concertos... O de sempre. "E se são muitos – como lembrava Emanuel Cameira, um dos organizadores – os que actualmente fazem do livro um comércio igual aos outros”, depois outros há que se movem à margem disso, até nos "antípodas”, como foi o caso da “heterodoxa & etc”, que foi um modo de “poesia em acto, ‘nas escassas poças de vida que restam’ (Epstein, 1963: 63).” E se Cameira exaltava o exemplo do “abnegado editor” que Vitor Silva Tavares foi, impelido “pela ética missão de editar o livro necessário”, vale a pena também lembrar quando, faz já mais de duas décadas, VST se atreveu a lançar uma moeda à fonte, desejando em voz alta: “estou à espera que a rapaziada nova ponha cá fora algo com o mesmo tipo de vontade de intervenção crítica que existiu na & etc. As condições actuais de treva cultural são mais do que propícias para isso”. E nisto, deve poder dizer-se que estamos todos à espera, e alguns mesmo inquietos, empenhados nisso e actuantes. Mas depois, paralela à noção da cultura de massas como um “instrumento de repressão e não de sublimação”, pode falar-se também de uma torpe tropa enflorada, uns seguranças da intervenção criativa independente que, em nome da pureza da causa, pedem apoios públicos, e logo, não apenas fazem a festa como, pela via da exclusão, determinam quem merece estar e quem não, tornando-se os carrascos de certos ecos. E passo a explicar: Ora, este senhor Cameira determinou que havia espaço para tudo o que fosse projecto editorial desnalgado, menos, é claro, para nós. Na hora em que se determinou que um dos livreiros representaria várias editoras, entre elas a Língua Morta, aí houve um pólen que se instalou nas narinas do rapaz tão evidentemente empenhado em fazer a sua parte para aplicar uns furos na “indústria da cultura”, e logo torceu o nariz. Explicou que infelizmente já eram demais as editoras. Que para as outras ainda dava, mas para esta não. É a tão vibrante intervenção criativa contemporânea que, naturalmente, abalroou a Língua Morta, atirando-a pela borda fora. Um azar do caraças foi o que tivemos. Ou isso ou então já lá estava uma bala com o nosso nome. Pois, é que esse é o outro lado de que se fala menos nestas coisas, o modo como entre a piolharia dos literatiços, os bosquejadores e ratos de pincel na mão, os fazedores de livrinhos, panfletos, tretas, a horda que se entretem entre o roer ou não roer a corda (eis a questão!), damos nós com uma gente muito arregaçada das mangas e que vai dos braços ao juízo, e que se lembra de vir com exclusões a brincar aos Estalines, aos apagamentos sumários. Penalizar todo um catálogo, uma série de autores, em nome de quê? Que mesquinhez... E eu ainda m'espanto, depois dá-me para rir de tudo. Se, por um lado, arreganham muito a dentuça ao grande capital e aos grupos virados para o homem-massa, depois onde vêm dar as mordidas é naqueles que não fazem a Oh-Posição nem marcham como manda o livro de regras deles. E então logo se vê como concebem o esquema contra-cultura como uma festinha de anos: só convido quem eu quero, quem faz anos sou eu! E façam, muitos anos, e que se enterrem de tanto auto-agraciamento, mas que se lembrem de vir boicotar uma editora, excluir uma entre tantas? (A lista é tão longa que seria um disparate reproduzi-la aqui.) E não é que não nos agrade, como noutra ocasião já fizemos notar, o vermo-nos excluídos à partida do rol de distintos marginais. Nem temos muito a coisa de ir às festas de anos, mas é só uma certa apreensão e lástima que nos causa ver que, ao invés da crítica, do ataque directo, vem este alfinete debaixo das mesas, a parolice persecutória de certos actores independentes embiocados e que não resistem a exercer o seu pequeno poder burocrático. Até nos honra sermos lançados borda fora e ficarmos logo à parte desse grupelho de “ratazanas de nau engalanada”. Mas a questão é: para quê tais honrarias? Para quê estas barricadas de feira, estes que se pintam como índios mas, depois, actuam como algozes, e de libertários só têm o brinco e a pose. Uma vez mais, reafirmamos que é uma alegria não ter já perna para os tantos que se atiram a ela a tentar meter o dentinho, mas sempre seria bom ouvir explicações do senhor Emanuel Cameira, que a última vez que se nos dirigiu foi para perguntar se não lhe dispensávamos uns livros por nós editados porque ele estava mal de massas (e não estamos todos?). Não lhe respondemos. Talvez tenha isso sido o bastante para provocar estas atenções especiais. Seria bom receber algum eco, mesmo que uma tapona bem dada aqui nestas nossas fuças. Infelizmente, já começamos a duvidar de que desta rapaziada nova venha mais que a snobeira do seu silêncio, do: “não me rebaixo ao nível deles”. Ai esse Céu na Terra, com toda a sua presunção e água benta, está-se a transformar numa terrível praga e numa condenação à morte da crítica, que é coisa que a esta nova geração de “independentes” deve parecer muito démodé. Mas aqui fica o desafio: será que é desta que vem de Cameira, insigne editor das “Postas de Pescada”, uma lição aqui para a borralheira? Pode ser que seja desta, já que das outras tem sido sempre difícil assacar-lhe uma proposição destemida que não balance entre as aspas ou fique a roçar-se até à indistinção nas palavras de outros, lavradas com outro alcance (é o caso do texto a que pertence a citação que vem à cabeça deste e que integra o livro-homenagem “& etc. Uma editora no subterrâneo”, ed. Letra Livre). No fundo, e para alguém que nos deixa entrever o seu quarto de adolescente forrado de posters com as fuças heróicas de astutos sacanas e sumidades da crítica cultural, e também das frases destacadas ao molde de slogans, é curioso achá-lo depois de gatas, a avançar timidamente, no meio da gente, misturando tudo, numa confusão tal que, no fim, nada se tem de pé.

sexta-feira, outubro 26, 2018

quinta-feira, outubro 25, 2018



Caísse deste a outro chão
a cadeira desfeita onde um rio nascesse
e a cabeça aberta debaixo de um pouco de água
que corra
mais que o amor a sarça digerindo os corpos como dantes
mais que a volta lírica a pressa a encher-te a boca
de dentes de leite, um desejo danado
e nas mãos o mundo
pesando mais entre vírgulas
o dia entrando por falhas, fendas
com o vigor da chaleira a chiar e o aroma
das ervas arrancadas bravamente
num território batido mais além
caçando tranquilo
assobia uma harmonia medieval saindo
dos trilhos e as presas pousam-lhe na espingarda
por ordem
a morte surge com uma simplicidade espantosa
como dentro de um verso o vento muda
e da carne sonora de algumas imagens
se enche a barriga ficando por aí
estendido a ouvir a conversa
e deixar crescer as unhas e o cabelo


Dispo as roupas de mármore que usou outro
noutra cidade, silenciosamente
o odor ofendido e o travo lúcido
vincando as melhores passagens
as pedras do outro lado, os vidros espalhados
e os esparsos ecos que apontam
como foi por ali desrolhando garrafas
e a imortalidade que terá surpreendido
vejo-a, pior que estragada, mancar
abandonando o quarto como uma conquista
dessas que sozinho não podia ter feito
como não pude impedir que escapasse
os jarros sem flores ou mortas há muito
e nem um respiro das traduções
do saque aos antigos só o frio restou
e qualquer vestígio de ambrosia
nem por um corte nos lábios me sabe
também não seria por uma gota
deste sangue tardio
que sobre a terra cairia um relâmpago
e mais que isso parecem todos aliviados
até mesmo contentes insistindo
que os mitos não se voltam mais


"O último soldado de Napoleão", de Charles Simic, ed. Eufeme



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)



Não deixa de ser recompensador ir catando amiúde esses reflexos desavindos que de nós se vão separando, e sacam papéis de vilão nas novelas de uma só nota e samba nenhum que servem de sustento às lamúrias suplicantes do género de descerebrado que tem a candura de vir partilhar como aos quarenta chegou ao texto crítico de Julien Gracq, "A Literatura no Estômago", e como, perante tão poderosa denúncia da podridão do meio literário francês (ainda assim um exuberante zoo quando comparado com a gaiola de rolas e canários atafulhados no que é o nosso), depois de lidas as primeiras páginas, o comentário lacónico que este monumento incendiário lhe provoca é uma pedrita lançada a esta janela. É assim que o Domingos, com aquele português de cabeleireira, aceita o close-up para levantar das ancas as mãos e deitá-las à cara, exclamando ah, então não me queres ver que o sabujo do i me veio beber inspiração para a sua sanha aqui ao Gracq! Mas se me medalha notando o eco deste autor, logo adianta que este se esfalfa em modo de cacarejo. Seria até surpreendente que se desse conta de quanto tudo o que o ultrapassa, defensivamente, é entendido na escala de um som primário, e isto para não ofender tão secundária consciência das coisas. Seja como for, é a homenagem possível, e uma que aceito em nome do furor com que cheguei, algures pelos vinte, ao dito texto, a que espero voltar algumas vezes mais, sendo sempre um exercício para esticar as pernas, espreitar um catálogo mais vasto do que o nosso pobre chiqueiro, uma terra média onde os orcs ainda obrigam a uma certa dose de heroísmo da parte de quem se lhes opõe, ao contrário dos nossos trogloditas acobardados, grunhindo um desconforto sem mais argumentos do que aquela irritação diante da vilania do personagem que mais faz por estragar a grande festa que, com invejoso comedimento, também eles olham de lado. Subjacente a tais acessos de urticária, está a pretensão destas lânguidas penas de publicarem fosse o que fosse, esperando que todo o juízo crítico se suspendesse para que a sopa dos pobres-egos pudesse instalar-se no centro do espaço literário. Sirva a ocasião para relembrar as palavras de Ernesto Sampaio (o tradutor daquele panfleto) quando diz que para Gracq "não há razão de ser para a literatura congelada e cinzenta: o escritor, seguindo o terrível conselho de Céline, deve calar-se 'quando já não tem em si música suficiente para fazer dançar a vida...'." Ora, basta ir descendo pelas entradas daquele blogue para nos darmos conta do quanto este se parece com a arca frigorífica de um triste salsicheiro que, ao sangue pisado dos seus dias, junta uma emulsão de carnes de animais de outro porte e dignidade, fazendo passar por vagido existencial o seu estertor com veleidades estéticas.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Prémio (ou concurso) Leya, e as letras pequeninas



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)