sexta-feira, Outubro 31, 2014

O feitiço do glaciar


Gelo — ilhas arquipélagos continentes
vastidões de gelo
prolongando-se para norte e fazendo o mar refém
torcendo-se agitadamente na hipnose da lua
— e o degelo vai escoando da parte sul do glaciar
onde um mar mais pequeno reflecte o seu monstruoso pai
a oriente e ocidente um fogo-de-santelmo azul
alarga-se pela escuridão adentro
E ano após ano o gelo retrocede
um centímetro ou dez pela medida do sol
gerando criaturas sepultadas que derretem devagar
até que o gelo as solta
e elas tombam da beira-culatra
recuperada a terra tremem e estremecem
parecem dar um passo para então caírem de joelhos
sofrendo uma dupla vida e uma dupla morte
enquanto o gelo vai ressoando com um cântico mudo

À medida que o sol se intensifica uma faixa esguia de verde
pinta-se arrevesadamente ao fundo do glaciar
e os rostos vegetais desviam-se do frio
— quando chegam as chuvas cem quilómetros de gelo
e mil quilómetros de céu aliam-se
nesse ruidoso escoar para um rio que segue para sul
um som que ninguém escuta
— apenas um caçador errante
escorraçado da sua tribo
um homem com demónios no coração
que inesperadamente não se sente em casa
nas grandes divisões celestes da terra

O tempo acelera e abranda
avança no vulto cambiante da quietude
acelerando para plantar uma floresta
abrandando para acolher um pássaro
à espera do primeiro animal
enquanto o glaciar finge que não está ali
embora vá cagando morenas laterais
— um homem trigueiro e uma mulher trigueira
olhos diurnos a espreitar olhos nocturnos
dos animais lá fora
a gruta ígnea de luz vermelha
por entre a porta a preto e branco
onde o medo aguarda

Não chegues palavras ao que não possui nome
nem sintas com os olhos o lugar das pedras errantes
o animal que caçamos não deve ser pronunciado
o seu cheiro flutua sob o vento
o seu rosto recorda os nossos rostos

- Al Purdy
(tradução de Vasco Gato)



É ainda a dor esmagada que vos prende
Que em nós torna saudável a loucura.


Ruy Cinatti

Quando já não importe nem nos
oiça a voz o tempo que temos,
no sangue frio se instale essa distância
segredada, tão perto, débeis flores
submersas e nós sempre no mesmo passo
derramados como água no chão. Vivos
de quê? Um gosto ainda, apesar de
triste, calma de chuva que cai certinho,
em rondas sucessivas. Abandonada
a subtileza, vem uma elegância
desgraçada, encantados só como
perdidos, e o ar que treme ouvindo
algum ditado. Porque os caminhos
são longos, fazes-te também viajante
de silêncios e águas perdidas, enquanto
a luz da tarde fere, inclina as sílabas,
o corpo serve de mastro, ossos pobres
assentes na simples mesa. Os cinco,
primeiros dedos, decifrando sombras.
Com a flor morta do tabaco, lenta,
dissolvida na garganta, a mão treme
da reescrita do seu gasto provérbio.
Já a boca fede a verso, fechas o caderno,
trazes só a garrafa de virar marés.

Metido com as ruas, atrás de um hálito
de música ou de sonho que faça mais
por esta vulnerável coisa de carne.
A escala que aproveitamos dos cafés
que já meio inventamos ou
trazemos lidos, portos ausentes destas
cidades que sobram de um tempo
sem vontade. E assim ainda por vezes
alguém há que nos olha e desfaz
nas tantas personagens a que servimos
de abrigo. Toda a fauna dos banidos e dos
desamparados, marcados pelos vestígios
de outros mundos, os aborígenes no fundo
de nós. Druidas, sátiros, mártires,
e anjos gastos, adolescentes retardados,
os brutos dos velhos, tão sensíveis.
Castelos doidos erguidos à pressa
antes que a tarde se acabe. Como o sol
acende os ombros deste aguarelista alcoólico,
como depois ele serve a luz na sua cópia
de pássaros e de aromas, mexendo os lábios
como se estivesse a ler o passado. Estamos
do lado que mais se lixa, como um público
que se fixou na sala depois do espectáculo
ter terminado há muito.


terça-feira, Outubro 28, 2014

língua morta 051



RIO TORTO,
de Rui Lage
[200 exemplares, 54 pp., 8€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com

domingo, Outubro 26, 2014

sexta-feira, Outubro 24, 2014

De morte


I

É de morte. Essa é de morte.
E mijavam-se a rir pelas pernas abaixo.
Anedota portuguesa e depois outro
excesso, mágoas profundas, luto
e gritaria. Um culto, mal pressente
a morte iminente, abre os seus grossos
braços de homenagem e exibe
a voracidade peganhenta do unto
e da vergonha. Estátua verde
ou cinza, o poeta à beira da morte.
Enchem-se as montras das livrarias,
atoardas de ocasião, umas mais
domésticas do que outras, gastam
papel estupidamente, sempre eram
mais umas árvores que se salvavam.
Pior do que isso só aqueles poetas
que escrevem com a morte à porta
para exibição de uma lucidez especial
que julgam ter adquirido. Para isso
é que não há paciência. A sério.
Mas talvez fosse de esperar, porque
ainda mal tínhamos nascido e já
morrer e matar vinha na canção
do gato. O gato não morreu, mas podia
muito bem ter morrido. Assim, como
se tivesse voz, deu só um berro e foi-se
embora. Sim, a palavra morte ocupa
a mente dos homens, nasceu
com os homens e nunca há-de morrer.
E a arte, do sol à treva, tudo mostra,
os homens insistem na arte
perpétua de fazer e na desgraça.

- Helder Moura Pereira
in Relâmpago, nº34 - Poesia e morte

quinta-feira, Outubro 23, 2014

Pequenos exercícios civilizacionais


Ler outro livro rememorar como quem
leva o unicórnio à rua um verso sem
o pão de mais nenhum verso (Ruy Belo não
se importa) ouvir uma sinfonia de ponta
a ponta (foge António da pobreza das
equivalências: nem as onomatopeias
equivalem os sons que escrevem) uma vez
em linha não partilhar a frase merdosa
de Gabriel García Márquez mesmo que
ainda não a saiba apócrifa sabendo
porém que Gabriel García Márquez nunca
escreveria semelhante merda não
apoucar a contemporaneidade que
me calhou pelo que dela vai para lá
da cerca triste do meu quintal e sobre a
televisão estou há muito conversado.

- António Gregório

José Carlos Barros e Frederico Pedreira, na TSF








quarta-feira, Outubro 22, 2014

Ter um nome diferente





2014 trouxe-nos uma das mais importantes publicações das últimas décadas em Portugal, selecção da poesia de Manuel de Castro, elemento precocemente desaparecido do anti-grupo do Café Gelo pelo qual passaram com maior ou menor regularidade nomes como António Barahona, João Rodrigues, Saldanha da Gama, Raul Leal, Ernesto Sampaio e Herberto Helder, na sequência da dissidência surrealista e em torno da figura de Cesariny.

Encontramos aqui a reprodução de Paralelo W (1958) e Estrela Rutilante (1960), bem como de uma série de textos dispersos em publicações diversas que se integraram num território editorial avulso e marginal. Os livros de Manuel de Castro aqui reunidos, publicados a expensas do autor, com tiragens limitadas, “dádivas à balda pelos cafés e tascas, publicidade nenhuma”, como a propósito dos mesmos recordava Luiz Pacheco em número do jornal «República» de Outubro de 1972, recusam assim submeter-se ao mercado da literatralha proliferante, assumindo-se como autêntica poesia underground, condição que infeliz ou felizmente continuarão a merecer mesmo após esta edição.

É na propensão tóxica do movimento de contra-cultura que o surrealismo afinal constitui que compreendemos a decisão desta atitude de permanente dinamitação dos discursos vigentes, de questionamento dos centros de emanação desse mesmo discurso relativo às linhas epistémicas de leituras estética e ideológica. São traços próprios daquilo a que com perdão dos próprios surrealistas designaríamos por carácter civilizacional da sua literatura, a qual postula decisivamente uma demarcação do locus de enunciação dominante: “este é o tempo em que morrem os príncipes/ao sol-posto num final sereno/e se iniciam os ritos bárbaros/da Grande Velocidade”. Esta demarcação pressupõe, evidentemente, uma refundação do fazer poético por uma geração com pretensão, desde logo, de produzir uma simbiose da multiplicidade humana que concentre um esforço de relação primária com a existência, no cumprimento de um absoluto quotidianamente negado: “Sobre os cadáveres assim incorruptíveis/dos velhos príncipes desagregados no mar/passam os navios/e a geração angélica e terrível/talha o seu destino sobre-humano/onde a noite vai expulsar os astros/iniciar-se, e ter um nome diferente”.

A conotação mística dos versos citados sublinha uma adesão a uma espécie de condição mágica da poesia e da palavra como propulsoras de uma iniciação a um absoluto ou a uma supra-realidade que Manuel de Castro enuncia na sequência daquela “febre de Além” que afirma consumi-lo. O acesso ao supra-real justamente preconiza de novo uma relação total e primária do sujeito consigo mesmo, relação essa alicerçada numa concepção afim de um certo cratilismo constitutivo da linguagem, para cuja realização é urgente, de uma urgência moral, desbastar a palavra feita superficial pela sua subordinação aos sistemas de enunciação a que a mesma é votada diariamente: “Falo-vos exemplarmente do éter/nenhum homem será glorioso na morte/enquanto não se tornar total/e não possuir seu nome exactamente”. A relação com o eu total e genésico ancora numa inclinação para uma atenção aos elementos não meramente toleráveis do ser humano, numa prática ostensiva da recusa da normalidade como vício de um sistema de vida afinado de acordo com os discursos da superficialidade da relação no domínio do espaço social, ecoando a concepção de um génio em rebeldia que exerce uma liderança espiritual de remanescência romântica: “Nós os intocáveis, os imundos, recusamos/nossa vida à condição comum./Porque é imortal a rosa que nos leva/entre o dia e a noite./Nós os derrotados, impuros, oferecemos/nossa miséria a um significado/oculto e diferente/…/ Nós os últimos dos últimos coroamos/impérios e jardins”.

Não surpreende, por conseguinte, o hermetismo declarado desta poesia, de foro orientalizante, e que é estritamente técnico, fundamentando uma prática do estranhamento literário que projecta uma estética da velocidade e da intensidade como mecanismos de irrupção da tencionada relação em profundidade do sujeito consigo mesmo. “Asteróide em fuga”, uma das composições mais explicitamente metapoéticas de Manuel de Castro, dá conta da posição técnica aqui enunciada: “Cada centímetro cúbico da noite/ se adquire no precipício do jogo/ com as palavras decompostas livres propulsoras/ lubrificadoras de ossos vorazes/ no ritmo largo das muralhas vencidas.// No tempo permanente/ o exercício de extremo limite/ amplifica os ângulos/ destrói as máquinas antigas/ propõe a celeridade como estilo/ no regresso possível à pureza dos nomes// Deixa correr célere a pena sobre o papel branco e gelado/ semeado de gotículas azuis que são as palavras/ umas a seguir às outras velozmente”. Eis a reincidência da defesa de um novo paradigma assente num certo cratilismo (a pureza dos nomes) revelacional do eu para o qual a estética da “celeridade” contribuirá na medida em que permitirá a libertação das relações profundas entre imagens e palavras contra o discurso das “máquinas antigas” que se cristalizaram numa superficialidade enunciativa que despoja as palavras da verdade que enunciariam. Uma aproximação a um êxtase verbal promoverá, assim, uma relação mais sensorial com o mundo (“nudez-carícia/ o corpo inclina luz sobre a cidade/ luz imóvel/ extensa/ musical”), relação essa em que emerge pelo menos uma apropriação de um supra-real em que a convencionalidade é minimizada e em que o sujeito se revele em toda a sua ambígua natureza, em que contacte consigo mesmo a partir de uma comoção verbal que promova uma relação estésica com o mundo.


terça-feira, Outubro 21, 2014

Bonsoir, Madame


Amigo e discípulo de Manuel de Castro, António Barahona foi o responsável pela orientação e pelas sucessivas revisões de Bonsoir, Madame título escolhido pelo editor Nuno Franco (Alexandria) , que contara antes com um trabalho de ordenação dos inéditos e rastreio da publicação original de alguns deles em jornais e suplementos culturais realizado por Zetho da Cunha Gonçalves, que, por sua vez, trabalhou a partir de um acervo organizado pelo autor, com indicações sobre a reunião e publicação dos poemas. O reconhecimento de um outro companheiro de Manuel de Castro, Helder Macedo, de que a colectânea que foi conseguida se trata de "uma espécie de edição de autor ainda que de um autor defunto fantasmaticamente recuperado por outros", vem lançar luz sobre um esforço que terá agora de esperar pela justiça dos verdadeiros leitores. Entretanto, depois de deixarmos os últimos exemplares nas três livrarias de Lisboa que temos como referência  Letra Livre, Pó dos Livros e Guilherme Cossoul a edição está esgotada. Para nós foi uma honra colaborar neste esforço para recuperar um dos nossos preferidos, fazendo reemergir os dois livros editados em vida pelo autor (Paralelo W e Estrela Rutilante) e publicando pela primeira vez dois que permaneciam inéditos (Chuva no Dia de Finados e Hiperacusia). Estamos confiantes de que foi só o início de uma segunda e mais longa vida.

Enough Said (2013)



8/10

segunda-feira, Outubro 20, 2014

quinta-feira, Outubro 16, 2014



PRETEXTOS

 

A morte é sem mestre

  Nas artes e na literatura, há várias formas de marginalização. A mais frequente é a desatenção. A mais perversa é a mitificação. Felizmente, de vez em quando, também há sacudidelas a acordar os sonolentos arrumadores das almas canónicas. Nem sempre funcionam (o sono é profundo) mas, pelo menos, deixa de haver as desculpas que nunca houve. Foram publicados recentemente dois livros de dois incomparáveis poetas que acontece terem sido companheiros um do outro (e, já agora, meus) nos seus  (nossos) anos formativos, na segunda metade da década de 1950: Bonsoir, Madame, de Manuel de Castro, e A Morte Sem Mestre, de Herberto Helder. O Manuel  de Castro deixou-se morrer aos trinta e seis anos. O Herberto Helder permite-se continuar a estar vivo aos oitenta e três anos. Não sei qual dos dois terá escolhido a via mais difícil. A colectânea dos magníficos poemas do Manuel de Castro, de quase 250 páginas, foi publicada por benvinda iniciativa de jovens poetas numa edição de 300 exemplares sob a chancela conjunta de duas pequenas editoras, a Alexandria e a Língua Morta.  É uma espécie de “edição de autor”, portanto, ainda que de um autor defunto fantasmaticamente recuperado por outros perto da idade que ele tinha quando morreu e que porventura nele se reflectem. Para a maior parte do público leitor, no entanto, Manuel de Castro é um desconhecido. E mal conhecido continuará a ser se, agora, os poucos que notaram a publicação dos seus poemas, mesmo com as melhores intenções continuarem a rotulá-lo como o surrealista tardío que ele nunca foi. Como também o Herberto Helder não é nem nunca foi, é claro. “Surrealista” é um rótulo preguiçoso que serve para meter nas prateleiras quem não pode ser facilmente arrumado, como esses dois poetas não podem. Os seus temas comuns são os de sempre, mas como se encontrados pela primeira vez por cada um deles: o amor, a morte, a perplexidade de existir. Se alguma coisa, o Herberto Helder é um moderno clássico e o Manuel de Castro é um clássico moderno. Ambos são poetas metafísicos. Ambos reinventam a imagem da vida numa paisagem de deuses mortos. “Vamos brincar aos mortos perfumados / com braçados de flores à luz nocturna / dum lago profundo e claro de verão”, escreveu o Manuel de Castro há muito tempo, com característica auto-ironia. E o Herberto Helder escreve agora, com inusitado sarcasmo contra si próprio: “lá está o cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo, / que nem o Diabo ousa / ouvi-lo / quanto mais os anjos do Senhor, os pintaínhos!”Em contraste com o generalizado desconhecimento do Manuel de Castro (vejam no entanto o próximo volume da revista Ideia e o próximo número da Colóquio/Letras), o Herberto Helder é consensualmente considerado o nosso maior poeta vivo. E se a poesia fosse uma instituição hierárquica, a dar direito a  um ceptro lá em cima, também eu diria que é sim senhor e que é muito bem feito para ver se aprende a ter juizo. As edições dos seus livros esgotam-se em poucos dias, são vendidas clandestinamente, os seus versos são imitados em sucessivas hipóstases descendentes pelos pequenos e médios poetas da nossa praça, e até o seu uso de pontuação é capaz de provocar delíquios orgásticos. Como, por exemplo, num afogueado comentário que alguém escreveu (juro que vi) quando da publicação do seu livro anterior, Servidões: “ai, aquele ponto e vírgula!...”
Deve ser por essas e por outras que o Herberto Helder – o sempre afável  e outrora sociável Herberto – para sobreviver como gente, e portanto como poeta, se tornou a certa altura num recluso. Se é que se tornou mesmo, e o malandro não anda disfarçado pelas noites em secretas vidas paralelas, a fazer das suas, de ceptro em riste. Que é como quem diz (cf. p. 36 de A Morte Sem Mestre), ou antes, como ele diz falando de si como se fosse outro:  [...] “só lhe falta saber tudo, / só lhe falta a mulher para morrer com ele, / a mulher que há nele, no fundo, / a morta nele que de noite ressuscita, / e pelo dia todo de cada dia da terra / lhe rouba a alma / o ceptro / o segredo de ser senhor de tudo [...]”. A Morte Sem Mestre é um livro de dilacerante poesia e de extraordinária coragem. É o testemunho de uma alma que se recusa ser roubada, mesmo pela morte que não pode estar longe, escrito quando a morte já não pode ser disfarçada na linguagem em que se oculta por ser uma realidade cronologicamente próxima que é o fim de toda a linguagem e de toda a poesia. Mais ainda, é o livro de um poeta que recusa imitar-se a si próprio. Que desnuda a sordidamente gloriosa matéria humana que sustenta o mito em que o pretenderam neutralizar. É carne viva arremessada a canibais desdentados. Para imitar a poesia do justamente glorificado poeta que até agora julgavam ser todo o Herberto Helder, há por aí mais do que muitos proficientes praticantes. Aliás estão no seu direito e se calhar ainda bem. Imagine-se o que escreveriam se não o imitassem. Mas ele não se dá esse direito. O novo Herberto Helder é um mestre que começa de novo na velhice. Que inaugura uma nova linguagem num livro brutalmente jovem forjado pela morte em celebração da vida. Por isso é também um aviso aos incautos que vivem por empréstimo, aos cautelosos poetas que escrevem por imitação. A morte é sem mestre. O nosso amigo Manuel de Castro já tinha prevenido: “É perigoso dormir com rosas. Corram os estores.”
 
 - Helder Macedo 
(texto publicado no Jornal de Letras, edição de 1 a 14 de Outubro)

«Deus tem caspa», de Júlio Henriques, Antígona




(abre a imagem noutro separador para a ampliares)

quarta-feira, Outubro 15, 2014

S. Tomé e Príncipe


Isto é uma imensa marginal. O mar a coçar as costas no escuro. A luz dos faróis que me abre e fecha o caminho. Um verão ininterrupto, com a graça de um postal carcomido, como se a visitar a infância de um estranho. Faz um bom caminho, sem grandes ideias, de uma infinitude bichada, tudo a tocar as suas punhetas musicais e a serenar a noite. Se um gajo não se deixa morder por estas variações fica só uma soma de passos ocos, de um ponto A a um B, tudo mais ou menos recto. Parou-me o pensamento e o mais ali, um cão num guardanapo aberto, junto à estrada, a dormir-se. Sem mais que dias contados, talvez só horas, para distinguir alguma coisa no escuro, ouviu-me. Chamei para nada, com vontade de o levar na mão, mas para o deixar onde? Mais tarde ou mais cedo morremos todos por afogamento. Não foi poupado a nada. Pensei em ti, como se tu soubesses mais do que fazer às coisas pequenas assim e vivas. Ando aqui quase por escrito, só a vontade de apanhar uma frase que dê sentido à anterior. Junto aos trinta, andar muito a sós e às voltas parece-me a coisa mais natural do mundo. Depois de um certo ponto, só a falta de direcção conta com ventos a favor.
3-Out  

A viagem é questão de uns dias sumidos num desvio inseguro entre coisas que estão ali só para as perdermos a cada olhar. É uma questão de não fazer vida delas mas só entendê-las de passagem, delirar com os sentidos num nó absurdo. Isto é pobre como tudo devia ser. As coisas organizam-se apenas para prestarem a sua servidão. Casinhotos muito provisórios, num atamancado de pedras, madeiras, chapas, plásticos, a cuspo e pregos, tudo na medida e para o peso com que podem duas mãos. Para segurar um tecto entre o céu e eles. Claro que por vezes se sente o fio que lhes prende a vida. Não o escondem, não mostram vergonha de espécie nenhuma. A natureza é a primeira educação, e a que mais esforça a liberdade. As outras são reduções perversas. Seguem constantes, as ruas daqui, sem ansiedades, pulsam de uma intimidade desconcertante, tudo à vista e não menos precioso por isso. As nossas cidades, a esta luz, mostram-se cheias de vergonha. Cada linha uma dificuldade, um limite ou muro. Para não ver, não cheirar ou ouvir. Sentir o menos possível a intimidade de que o outro se lava e em que se apaga. A nossa atenção magoa, a deles apazigua. Olho-os brutalmente, sem nenhuma reserva. Como aí quando por vezes ainda me distraio. Desfizemos o interesse e o desejo em sórdidos acessórios da atenção. Somos todos os esforços para não fazer nenhum gesto que possa ser mal interpretado, desconfiando sempre, alimentando o desespero de quem nos procura. E aqui, como na Índia, quando os putos me estendem a mão, só para me tocarem, ainda me pergunto o que quererão eles. A resposta é nada, seus caralhos, só isso: tocar-vos.
6-Out  

É isso que o Carlos Edmundo de Ory quer dizer quando fala de amor por viajar descalço. Viajar por capricho, beber dos ventos a música, o contacto, este perigo milagroso espreguiçando-se. Temos vocação para andar perdidos. Ou então somos animais de pequenas certezas e logo se cheira em nós a nenhuma distância em que nos iremos enterrar, essa descida previsível pela economia de gestos, uma frieza onde já se adivinha a putrefacção. É preciso ir um pouco mais longe, até que nos seja fundo, sem pé mas reganhando instintos, essa febre de quem súbito se vê dependente de um inteiro esquema de circunstâncias, até do favor de estranhos. Não pela aventura, ou outra purga idiota, mas arrastar o nosso hábito de dor até não senti-la mais, porque o que nos cerca, nos dá a volta, enlouquece e cresce connosco, até lhe rendermos os sentidos e ficarmos só um cântico leve-leve, debaixo, suportando-se, confuso com tudo, vibrante: uma trémula luz de presença. O João Cabral também dizia que não há melhor resposta que o espectáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida (...) mesmo quando é uma explosão de vida severina. Estamos muito especialistas em iludir distâncias, atrapalhá-las. Tudo se sacrifica a uma menoridade de esforços, depois nada nos sabe, e por revolta deprimimo-nos; de outro modo seguiríamos, mecânicos, atarefados em ínfimos consertos, melhoramentos inúteis. A perfeição é um alvo sinistro, insensível. Seria preferível abandoná-la, deixá-la à obsolescência, a sua verdadeira natureza. Não é uma máquina mas uma vontade, e não nos serve mas coordena rítmica e animicamente. Em torno de um órgão central. Alarvemente esgotante. E um dia passas por uma gente muita quedada em si, sem propósito especial, num imenso recreio, miserável, claro, aos nossos olhos miseráveis, mas onde ninguém exibe alegremente um sonho desesperado de se afogar em luxos. O que a boca pede a terra, com um puxão de nada, entrega. E com uma linha paciente como um verso puxa-se do mar uma carne que, com um tico de sal, deixa qualquer apetite todo emocionado. Mas claro, falta aqui o Colombo, o Vasco da Gama, os nossos centros comerciais baptizados em homenagem aos navegadores para esconder o ridículo naufrágio que está no imo da nossa [superior] cultura.
7-Out  

Lugares de uma vez só. Acidentalmente, uma benção de um sítio que parece desdobrar-se como um eco aos nossos olhos, vertigem e náusea, ora pesada ora leve. Um eco que se suspende, carregado não pelo ar, mas na própria aura deste ínfimo mundo do fim. Cada brisa leva um fio, passa-o pela menor fissura em nós, e começa a puxar, atar-nos. Os detalhes animados de uma virtude furiosa, quase barroca, tudo singularmente rude, mas combinado espantosa e delicadamente. Que bons modos, ou será apenas destreza do espírito? O tempo quebrado num mosaico de infindas distracções. Tudo se coça, vira, mexe, espreguiça, rasteja e voa sob a batuta de um coreógrafo pacientíssimo. Conduzida de todos os lados, todos os ângulos, da mais miúda perspectiva, uma gigantesca gala que retoma os seus ensaios assim que a luz sangra e abre com o seu pé-de-cabra o vinco entre terra e céu. Um vício monumental, este número do dia a destruir a noite, da noite que volta e o divide. Estamos na roça Terreiro Velho, ilha do Príncipe. Uma das fontes de cacau do chocolateiro italiano Claudio Corallo. Trabalham com a mística de quem esconde um segredo. Uma dúzia de homens, rapazes e crianças a jogar esta paciência feita de rituais morosos, partindo o fruto, tirando-lhe o rebuçado gosmento, que vai fermentar, depois é secado. Leva dias. Deve ser bom o chocolate. Melhor é que serve de desculpa a isto.
10-Out