terça-feira, setembro 17, 2019

DA EDIÇÃO LITERÁRIA E DOS EDITORES


Quem está na edição sabe como a regra que vai valendo nos tira sempre o chão, a cada passo estremecemos, anda-se aos trambolhões, entre uma série de desastres, alguns tremendamente felizes, e mesmo que se esteja quase sempre em perda, mesmo das piores enrascadas, sai-se com estórias, não nos falta matéria para elaborar perfis, comparar-se e fugir de si mesmo cultivando relações entre este “género desarranjado”, não perder nunca o encalço dessa sarabanda alucinante, quase todos, com a ocasional excepção, são fabulosamente ingratos, às vezes ao ponto da crueldade, e isto sejam eles radiantes safardanas entre tantos soldadinhos de plástico, oportunistas com um certo brilho, membros de uma incerta realeza, príncipes disto e daquilo que, com os seus modos impecáveis, até solenes, querem saber se estamos à altura da honra de nos tomarem para seus secretários pessoais, e há os fatigantes funcionários que aturamos pelo talento que, inesperadamente, lhes assoma nos escritos, ou esses outros párias bafejados por uma glória discretíssima, que não incomoda ninguém a não ser os próprios. Ser editor é gostar de espreitar a coisa no antes, crua, ainda tremendo de possibilidades, ler por cima do ombro, rezar em voz alta e ser atendido por um deus andrajoso e atoleimado, apreciar a pureza de uma impressão que salvou de se afogar, rodeada de borrões e linhas riscadas com uma fúria que há muito parece ter caído em desuso nos ambientes literários, e é o privilégio de seguir esse esforço comprometido até à loucura, o de quem vai desatando os nós de uma corda e se revolta contra a terra inteira, devido a não sei que afronta infligida por um ser invisível. É um gosto, afinal, de se dar ânimo a essas subtilezas tão ferozes, tão desacompanhadas, dar pelo mecanismo, a música dessa ocupação absurda, uma fornalha em que se queima a vida para dar força às vezes a umas poucas linhas. É abissal a margem para o erro, e, de algum modo, todos se deixam iludir por cintilações de oiro, um pó espalhado, dançando. Colhem-se pistas, firmando esse retrato do desgrenhado detective a cozer uma eterna ressaca, com gestos ingénuos, os dedos gastos, fumados e ardidos de insónia, com a memória como papéis flutuando num minúsculo apartamento inundado. Sem nada de seu, orgulhoso apenas do seu rasto, este tipo de editor ama o descalabro das suas pacatas ilusões, não há nele nenhum rigor, mesmo o seu reflexo parece efeito de uma longa colagem, as coisas sucedem-se com o azar deixando o troco para um resto de sorte. Prossegue nesse modo cambaleante, de quem apenas se guia por uma luz bem fraca, que já nem bruxuleia. Seria uma tristeza, uma canalhice, na verdade, fingir que há algum charme na edição literária, é uma vocação desesperada, em nome de um mundo que há muito levantou as âncoras e descolou deste, tendo deixado apenas o cheiro a despegado, esses traiçoeiros ecos de ordens às tripulações, e ainda temos de aturar esses marinheiros de água doce, enchendo a toda a hora a boca com os ó céu ó mar ó clã ó destino, e temos as enfadonhas canções de bêbados, as mais desconchavadas meretrizes com a sua entrega desoladora, e, nisto, no máximo pode aspirar-se àquela noção romântica que Leminski cunhou para o poema que não se entende, e por isso é digno de nota, com a dignidade suprema de um navio perdendo a rota, assim, editar seria como escrever algo em busca de um desentendimento imensamente desafiante e animador, essa conversa que o escritor israelita Etgar Keret disse ser longa como um túnel debaixo de uma prisão, escavada pelo editor – paciente e dolorosamente – com uma colher, para que possamos sair do lugar onde estamos. A edição está a meio caminho entre a utopia e o pão com margarina servido a um faminto. Há, por tanto, muita margem não só para erros audaciosos, mas para aldrabices, e é uma paisagem que se apresenta hoje cheia de lacraus e vigaristas, desses que não apenas acreditam mas, mais, até se deixam embalar nas próprias lérias. Isto digo-vos eu que, como sabem, me alegro e compadeço tendo-me oferecido para fazer o trabalho sujo, quando todos se enchem e ninguém lava um prato, nem há o mínimo asseio, vejo-me tão desacompanhado, pobre diabo de mim com tantos rabos por esfolar. Os editores emergem entre o desgraçado lote e, põem as gafas como quem veste uma capa, e comportam-se como heróis em ficções ameaçadas, falando como predestinados. Alguns vão editando como quem organiza um coro, numa peça tão gritada e tão mecânica que lembra a cantoria da tabuada, esse eco amolecido que parece ser tudo quanto ficou de uma infância corrompida. Se os mais esforçados vão cultivando um oficio que se quer insustentável, e misturam um insano desprendimento com um impiedoso faro em relação às grandes causas, os outros dedicam-se a acções publicitárias acompanhadas da reivindicação de um prestígio que se acabou. De resto, estão-se nas tintas para os leitores. Mal passam a margarina pela carcaça, e o chá que servem azeda a água. Montam estes serviços de acção social e vão-se safando com ajudas de custo, subsídios de inserção, sacudindo tudo o que haja para aí de entidades culturais. E se um paquiderme se enfia numa ilha e diz que faz livros só porque esgota tinteiros, sabemos como estamos submersos nesta forma de contrafacção literata. “Fazemos livros”, diz-nos o badameco ilhado. E acrescenta: “Não fazemos objectos para nutrir aqueles que apenas se servem dos livros para inchar egos e panças.” Mas é precisamente esse o modelo de negócio: egos & panças. E depois ajuda ter certas características, como baixeza, cobiça, temperamento de chacal. Este tem sido o signo de uma geração que já se sabe perdida e, ao invés de se rebelar no interior dessa angústia, distinguindo obras singularíssimas, que encorajem o leitor a comprar cada vez menos livros, a percorrer as galerias escavadas à colher debaixo desta prisão com uma vela junto ao peito, antes contribui para que fiquemos encarcerados entre estas muralhas de lixo a que, desde há algumas décadas, vieram juntar-se os livros. Com toda a sua estéril agitação, a acção destes editores é menos corrosiva do que é complacente, e não faz mais do que cantar a tabuada. Ao mesmo tempo desarmada e prevaricadora, é uma acção que se faz valer de uma ideia do livro que ela mesma desonra, e todos esses editores que se dizem independentes são piores do que os outros. Se estes são meros jagunços que servem a inclinação, já aqueles são os tarados deste inferno degenerado a que só restam formas de pequeno poder burocrático, e que se fazem valer de certos ideais já bastante maltratados, para se tornarem controladores do tráfego do ego, esse tráfego rastejante que paga portagem sob a forma de bajulação.

sábado, setembro 14, 2019


Era de esperar que se escavasse abaixo do zero. Há gerações que não produzem um só protagonista, nem um personagem delicioso. Não acham nas suas reservas um anjo irado, um escaravelho que empurre a sua bola de esterco por uma distância que canse os céus. Pior é como a época se compensa e o disfarça, vem-nos com a infindável lista de candidatos. Currículos e recomendações. Como cada um se nos mete pela frente, enumera os tantos dotes, e, rejeitado, lembra o gafanhoto a dizer que isto não fica assim, que volta, que da próxima nos traz as pragas bíblicas. Maldição da fraca presença, empregados de mesa desse tristíssimo cabaret que não fecha por nada deste mundo. Repara no seu dilúvio pingado, reuniões da comissão taralhouca. Hoje o diletante é todo um circo arrasando as províncias com o seu mesquinho fabulário, sem sinceras distracções de bicho, a consciência atazana-o com ideias de grandeza mesmo ao limpar o cu; se prende um assobio com alguma vivacidade logo se imagina a compor sonatas, liderar óperas, e aborrece os amigos com a dor das imensas possibilidades que o acossam ao longo de uma hora só. Não aguenta todo o talento desperdiçado. Mira-se nas montras, cospe no pente, acachapa o cabelo, acha-se despencado de um mito dos antigos, e ainda que não deixe de cumprir com todas as obrigações desde que se levanta até se lançar à cama, entrelaçando os dedos como uma adolescente prometida, se tira quartos de hora para aliviar-se nas murtas, dar uma volta entre os campos, logo se põe a fumar um caule de flor e a imaginar-se um admirável andarilho, um sujeito de uma insubmissão exemplar. A maior banalidade merece-lhe um grande temor. Ensaia-o como se a natureza lhe imitasse a expressão, lhe fosse um espelho portátil, fluído, e se calha ter audiência, lá vem o relincho moral, a macaqueação e imitação das posições doutrinais. Diz-se um pastor de riachos e tempestades, numa charlatanice de ganâncias irrisórias, um usurário do ego, tudo por uns trocos de ilusão. Vai lendo como um catador de piriscas, tentando saborear a inspiração na saliva já seca do outro. Órfão de musa, só lhe resta desdenhar a deste ou daquele. Compara-se e o seu desânimo com o das páginas mais encharcadas da literatura, os urros dos grandes amotinadores da consciência, trocando-os em personagens de inquietação canalha entregues a alcoolismos coceguentos, sem vertigem nem uma sede raspada mais fundo, só essa figura que se ouve rouca e aos tabefes no fundo da cantina a exigir outro mezcalito, por favor. Mediúnico cronista, xamã emparvecido, furioso aforista, notário da pequena edição, pregador da fé que se puser ao dispor, relojoeiro deste tempo alheio e de feitio turvo e nebuloso, marchetador da via do comércio piolhento, especialista de inventários, orgulhoso gato pingado a enterrar carne morta convencido do seu tesouro, pevideiro, comentador de tudo na mesma hora, filósofo ou bruxo e, porque não, poeta também.

domingo, setembro 08, 2019


I am in blood/ Stepp'd in so far that, should I wade no more,/ Returning were as tedious as go o'er.

Comprar um pedaço de alho e pão, caçar pombos à pedrada, o que torna possível comer-se a si mesmo vivo, essa lista de vinhos para se encher de sede, os pobres prazeres da penúria, este desejo corrosivo que nos tira algo mais cada noite, apanhas o teu próprio nome, o som inteiro, de costas, à bulha, bruto, indefeso, numa longa e emaranhada história, e que memórias de um quarto partilhado com outros três, obrigado a dispor como loiça quebrada umas palavras sobre a linha abrupta do velho que, a meu lado, quase sufoca de tanto ressonar, ou deste, à minha frente, pele e osso, um moribundo praguejando no sono, já naquele estado em que o último sonho se gastou, não sobra mais nada, e além, o mais novo está imerso, calado, como quem mexe uma sopa que nunca mais arrefece e de cada vez lhe queima os lábios. Não tenho aqui o menor apoio, nada me segredam estas horas, os mosquitos esmagados na pele, essa perna que parece ter ficado debaixo de alguém, e que, por mais que me esforce, não o convenço a virar-se para o outro lado. Vamos estar dias nisto. É como dizias: Ninguém nos salva desta porra triste. Nem a luz suave desses mestres inconscientes se deixa ligar, nem um fósforo junto à boca, se se ouve roncar desta maneira a meio de um poema, começas a perceber o argumento que a noite vai prolongando até quebrar um a um os ossos da tua moralidade, e seria pouco complicado empurrar a cama até à dele, pôr-lhe a almofada sobre a cara, e pressionar como se fazia aos imperadores romanos. Se ninguém despertasse, voltaria a pô-la debaixo da cabeça, para dormir um par de horas. Isto aqui é como estar no mar com as piores estrelas em cima, como golpes deixando-te zonzo, vomita e acabas atraindo algum monstro. A cama de ferro, os peixinhos a lamber a ferrugem. Cuspo e por momentos vejo uma ilha. Assobio a espinha de uma melodia, frágil, bem trabalhada. De entre o descalabro da memória retiro uma das minhas poucas, boca como cereja, loura, capaz de dar cabo da saúde de todas as vezes em que nos fazíamos, como um sacrifício. Imaginem isto: que ela pagasse realmente um preço, imaginem que já se habituara a que, depois do coito, depois de eu sair, as queimaduras eram certas, e a febre. O que eu vi da paixão pareceu-me improvável, uma coisa muita antiga, demasiado bela. Não se consegue acordar ao lado daquilo. A intensidade humilha-nos na nossa baixeza. No fim estás farto desse mundo antigo. Queres as coisas diluídas da tua época. Mas imagino ter percebido como será. Ter a quem se ame. Outra carne onde embalar a mesma doença. Não pude, eu, mas se tu queres, sabe isto: deves destruir a vida de mais alguém, o que seguramente irá entrançar os vossos destinos. Depois, nunca mais foges.

quarta-feira, agosto 21, 2019


Talvez tudo seja sinal da fome que passámos. É de imaginar que até a carne das gaivotas se tenha comido, e a dos corvos, porque não? Nem essa seria de desaproveitar. O bico destes terá sido usado para se inscrever o nome na pedra até se lhe esquecer as letras. Que dores no juízo nos dá ainda. São comuns as doenças raras nas vidas encostadas ao mar. E o que foi das garrafas, de todas as súplicas que nunca ninguém leu? Ter ensinado um povo destes a escrever, uma língua que sempre se falou mal e se escreve ainda pior, não podia dar outra coisa que um desastre grosso. Ao francês foi-se buscar uma certa finura de modos que disfarçava, mas a rudez tem algo de implacável. A vida literária portuguesa, quando se passa além dessas alas iniciais dos maluquinhos de entreter, essas vaidades mecânicas que parecem funcionar a moedas, é uma insânia. Aí sim começam a ouvir-se os gemidos nos fundos de um hospício que se criou por inércia. Uns tipos amarrados a camas de ferro, exorcismos abandonados a meio, sombras de pé em quartos podres, salas cheias de troféus e carcaças mal empalhadas, diplomas cobrindo as paredes. O talento é uma péssima desculpa, a convicção esse piano a giz desenhado no soalho. Cada um trepa pela imaginação para ouvir soar mais qualquer coisa, grandes concertos se dão por aqui, como no jardinzito pardo os heróis do guelas, os deuses do pião, de bolsos rasgados andam numa agitação estéril, pobres tarados de roda de si mesmos. A nossa obra capital há-de ser uma enciclopédia de todas estas disfunções que se fingem tão encantadoras, nobres, para depois se instalar essa épica mesquinha, as incuráveis doenças inventadas, o teatro sórdido e infinito. Na cantina, até os ratos participam, em troca de miolo de pão, nas recriações dos episódios mais negros, a própria história atacada pela peste. Os rapazes aborrecem-se com as longas cartas da amada que eles mesmos pagam a um, com um pouco mais de astúcia pornográfica, para que as escreva e lhes enderece, e há o vento que não nos deixa, como uma consciência comum, tão ressentida. Despedem-se uns, vidas inteiras a agitar um lenço sujo, e outros perdem-se em eternos preparativos, formam-se tripulações; ao leme temos sempre um sujeitinho cadaveroso que finge avistar índias e brasis, recitando algum salmo ulceroso a um papagaio de cera, ao lado um retardado ora pára a benzer-se ora toca insistentemente as duas notas que sabe num órgão de igreja como se fosse lembrar-se do resto, outro desenha nuns papelinhos a sua ilha, e não tarda volta a insistir que tem lá escondido um grande tesouro. Sobre as cabeças, a esparvoar, o urubu-vigilante, tirando medidas à vista grossa, vai calculando a ordem em que poderá reclamar-nos os ossos para se enfeitar, e há cada historiador mais taralhouco e aldrabão, como este, coitado, arrastando a sua saca com livros, empobrecendo-os com a sua leitura gaguejante. E ninguém se lembra de melhor fim do que dizer que a coisa continua e que a morte tem muita pena, mas que nem ela quer ter nada a ver com isto.

terça-feira, agosto 20, 2019

O Livro e o Digital



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

segunda-feira, agosto 19, 2019

Contra los nuevos poetas


Berardinelli lo tiene claro: ya no hay poetas publicables. Dice que la lástima es que se abran colecciones de poesía que después no saben con qué llenarse. Entonces llega el amigo, y el amigo del amigo, después el que tiene poder; más tarde el que insiste, el que te lo hará pagar muy caro y el que amenaza con suicidarse. Mientras, la crítica de poesía o bien se lo traga todo, o bien guarda silencio. "Para escribir el 90% de los poemas italianos que circulan hoy en día, no se requiere ninguna cualidad". 
Por eso todos somos poetas. "El pueblo ha tomado el poder poético, ¡hurra!", ironiza de nuevo. "Todos somos libres de crear, de expresarnos y de publicar. Además tenemos derecho a ser considerados poetas si lo deseamos con mucha fuerza, si estamos firmemente convencidos de serlo (...) independientemente de la calidad, el valor o el interés de lo que hayamos escrito". Lo llama "populismo poético": un inocente lector perseguido por veinte poetas que reclaman el "derecho a que se los lea". 
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Hans Magnus Enzensberger determinó que la poesía moderna “no sólo hay que conocerla, sino también criticarla: ya no es posible separar la creación de la crítica”. 
Los motivos de esta necesaria y continua lectura crítica poética son producto de un gravísimo problema actual. Nos advierte Berardinelli: “Si en la actualidad hay tantos poetas, se debe sobre todo al hecho de que creen que la poesía es un género literario sin reglas que no requiere que nadie tenga algo que decir (…) tanta libertad mal entendida ha liberado la poesía de un público de lectores y del juicio crítico, transformando en una tierra de nadie de libre acceso a un género que antes era considerado arduo hasta el ascetismo”.
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“El enemigo más temible e insidioso de la poesía es la propia poesía, o más bien, su idea, su mito, su tradicional nobleza: un valor que, sin razón aparente, continúa garantizado per se como excelente. Mejor aún: creo que en la actualidad los poetas se han convertido en los verdaderos enemigos de la poesía, escribiendo lo que escriben y poniéndose bajo el amparo y la protección de la nobleza de este género literario”.
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“hoy el acceso a la poesía se ha liberalizado y democratizado. No hay maestros más que nada porque no se los tolera (…) A todo aquel que osa emitir juicios críticos y hacer comparaciones con el pasado se le mira mal, se le considera inoportuno, envidioso, rencoroso, enemigo de la vida y de la creación”
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“ser amable con todos los poetas pone en peligro a muchas personas que no consiguen ni leer ni hacerse leer. Es el mal público, o la carencia de público, lo que vuelve mala o insignificante a la poesía”.

Querem um debate alargado?


Os poetas têm infortúnios muito seus, parece que caem por uns buracos que se abrem especialmente para eles. Depois é ver os cartazes afixados lugubremente pela cidade: desaparecido este no mês de tantos, àquele ninguém põe os olhos em cima faz anos, e os respeitáveis que ainda restam vivem fugidos, e, como aparições, pôr-lhes em cima os olhos é já notícia. Alguns distraem-se como podem da selvagem parolice e da praga de literatos espremendo o pus dos seus abcessos, vão "remexendo baldadamente nas cinzas geladas do Além", mas nisto, e até com a melhor das intenções, serve-se a oportunidade, nesta época carnavalesca, para o triunfo do pendor folclórico, e logo vem por aí o desfile dos xéxés babando sobre a memória, os soturnos sobreviventes, dando-se ares, a riscar tudo e recompor, em golpes de revisionismo em que assumem grandes protagonismos por terem guardado as migalhas que caíam da grande mesa. E, nos últimos tempos, tão chocha e desanimadora anda a coisa que se ganhou o hábito, seja truque retórico ou tique nervoso, de coçar o desgosto clamando por um debate. Venha daí essa razão controvertida, vá, como que uma insurgência das tropas na reserva, essas milícias ociosas... Só que, mal o debate é proposto, logo se vê uns pegar nas próprias fezes, e o tipo que o exigia arrepende-se quase de imediato da sua lírica entoação. Constata que o silêncio tem, afinal, uma danada razão de ser. Porque nesta terra ou se está a uma mesa com um número reservado de cadeiras à volta, e quem mastiga consegue organizar umas ideias sem estar a cuspir no prato do da frente ou do lado, ou a posição geralmente assumida é ficar de quatro, afocinhando na manjedoura. Não há grande conversa ali, mas a confusa deglutição de uma rançosa mistela farta brutos, e não se trocam informações nem noções mais profundas sobre nada. É a ceva para a fulanada, uma engorda das hipóteses que julgam ter. Assim, conspira-se fátua e inutilmente, acirram-se ódios, elevando o lume no tacho onde se adensa aquela sopa que empanturra e emburrece os estômagos. Qualquer discussão só amesquinha essa consciência minimamente dramática que cada um entretém, de si para si, nas suas ruminações. Falar alto, com verdadeiro empenho, e mesmo por escrito, é um acto masoquista. Os ecos gelam-nos. Tudo só piora a desolação. Por isso, sobre os poetas e a sua natural propensão para o sumiço, para desastres que tardam em explicar-se, só resta saudar que o destino continue a preservá-los das honrarias terrenas, dessas atenções em tudo frívolas, e de se verem festejados em tristíssimas orgias. Contando que não esteja por uma unha negra, com a exalação da morte a cercá-lo, a despertar a larica nos vermes, o poeta dá-se melhor ficando na sua, e afina mais seu canto raspando a voz na pedra das contrariedades. E depois, até o mais galaró, logo se farta desses mimos grosseiros e furta-se ao castigo de ter de se misturar, emprestar-se à ladainha dessa caterva de egos leprosos. Comece-se pelo que vai aí de raro talento abespinhado e que se pisga para não acabar na promoção pague um, leve quantos quiser dessa malta medíocre. Veja-se como se ergueu essa igreja para os desamparados das letras, onde algum pároco gemebundo dá a sua missa num atropelo de crendices e patacoadas, armado em milagreiro, a fazer bailar e saracotearem os comichosos fingidores que vêm à esmola e se ficam pelos fundos a roer os próprios ossos. E tudo isto em nome do quê? Pois de Nossa Senhora da Inspiração, é claro. Só no meio literato é que todo o pelintra dá por si a ter visões e vira um místico do real quotidiano, desata a walsar e a esfarelar uma broa prosaica em versinhos. Depois vem reclamar o seu quinhão entre os imortais. Face a isto, todo o crítico é um herege, e a sua palavra sacrílega. Que margem fica, assim, para um debate minimamente sério se o ego se sobrepõe a tudo? A partir do momento em que este serve de esteio e se enreda na obra, os dois partilham um mesmo destino, a afirmação literária torna-se uma questão de sobrevivência. O valor de um texto hoje já parece desejar ser lido menos segundo critérios literários do que à luz da declaração universal dos direitos do homem. Assim, a partir de que ângulo se pode atacá-lo? E se na poesia são mais os que sujam os papéis do que aqueles que os lêem, todo o crítico que se embrenhe com uma faca de mato por essa selva acabará apodado de facínora.

sábado, agosto 10, 2019


Não o reconhecerias mais num espelho
se já te contentas com as estrelas
o rosto enfiado numa fresta
a alimentar-se do cheiro, das voltas do ar

riem-se as regiões selvagens lá
onde a noite se mistura, e ganham forma
afiam em silêncio as armas as velhas hostes
depois do vento se quedar, ecoam incrivelmente
as dores de estômago
e tanto do que não passa nem se sacia
chupando os dedos da imaginação

ao lado uma cabeça de mármore no chão
com a voz roída retoma os disparates
e sentes a migração das forças, do encanto

detrás do nada um ofegar tão-só
as ossadas de um cavalo adoçam o pavor
da vista que nos resta
e se tivéssemos papel
arrastaríamos a descrição por vários tomos

lutamos pelo perdão de coisas que nem fizemos
e do modo como nos mastiga a solidão
aceitamos as piores visitas
descemos de ouvido o rio
enquanto no odre se enredam os cabelos de afogados

olha lá fora o que perseguem as árvores
de uma folha que chegue, um velho impresso,
a pétala de um jornal 
tiras mais que de uma boa vingança
das delicadas anotações de um tipógrafo
ou do gotejo de uma água desprezada
impressões suaves que nos quebram os ossos

a carne chegou ao peso das palavras
o idioma é um delírio atravessado por moscas
perde-se a boca encostada a um ouvido
na extrema prece de um nome
e responde um riso desde o fundo de si
a sensação de que a vida acabou
mas nos falta a convicção que a morte exige


sexta-feira, julho 26, 2019

O Paraíso dos Loucos - sobre a viagem, os viajantes e os turistas





(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

segunda-feira, julho 22, 2019


Mais que a falta de informação, o vazio parece crescer tornando-se respeitoso, talvez porque depreende o quanto ficou por dizer, e sendo os diários desses homens terrivelmente discretos, esgotam o absurdo daqueles dias resumindo tudo a impressões alheadas, algum comentário sobre o modo de soar dos pássaros aqui, algum devaneio um tanto frívolo não fosse a encantadora escolha das palavras, a ordem que assumem nessas tão curtas frases, com uma data impossível posta no fim, esse dia que já não viveremos com eles, embalado pelo ritmo das águas; comprei o jornal para lhos ler e fingir que o mundo, mal ou pior, continua aí, a vida remendada, e se este não chega a ser um dia belo (não há nada como a luz que lhes é devida), tem nele a sensação de um intervalo. As coisas irão certamente agravar-se, mas não para já, e por mais trivial que pareça, as palavras ainda podem ser postas para bom uso, mesmo se os jovens poetas parecem ignorá-lo, se o enfado e o desprezo são o que mais cultivam nos seus versos. As lutas melhores estão aí para ser travadas, toda a gente de um lado e ninguém do outro, e não deixa de ser aliciante não só a quantidade, mas a baixaria, o nível dos imbecis, e essas migalhas por que se debatem tanto... Se insisto em reescrever os diários é porque o pouco que dizem tem mais ouvido, e lembra-me o cuidado de Blas de Otero pra não acordar o rouxinol que dorme no gume do bisturi. Parece que oiço um deles falar enquanto apara a barba sobre o tanque, o outro a enrolar com um cuidado musical um cigarro, ando à volta da casa ou entro, tento interrogar os tão casuais objectos deixados no lugar onde se desmoronaram, atlas, herbários, a intimidade que deixa cheiro em roupas tão frias, o zumbido desses restos da história, alguma discussão, posso imaginar os últimos dias como o de prisioneiros de guerra, trocando confissões banais como segredos de Estado, que os reescreva não é para substituir ou alterar alguma coisa, mas para ouvir algo mais, nem que seja a muito custo, mesmo com fezes e sangue, com uma mão e com a outra, esperando que a luz ainda desenterre alguma linha; assim, a pobreza é uma razão, tal como esse desejo de fugir que torna irrelevantes as distâncias, depois dos maus tratos, tentando cansado a loucura, aprende-se como alguém dobrado sobre um piano riscado no soalho, a afinar a fome, com o ritmo cheio de bichos, combativo, brusco, um romance de detalhes, as ideias em pó, ossos quebrados de outras ficções, nacos de um romance que se recusa, até porque o mundo já não se aguenta; depois de tanto se envolver, o cansaço é o génio, aquilo que sai para lá da conta, o sobrante, e julgo que me terão reconciliado com a ideia de que qualquer verdadeira honra que este tempo se disponha a fazer-nos terá de passar por alguma forma de condenação, ainda que rodeando a última, a mais honesta, a morte; por isso, se da vida deles retive a clareza dessas tão límpidas notas, se me parece que vibram sobre a música de lembranças realmente duras, tudo isso me soa mais verdadeiro, apontado ao órgão que em nós suspira, a paisagem torcida como um pano, a pingar, retalhos ínfimos, o equilíbrio de quem aprendeu a esconder-se nas coisas que vê, modelando o infinito amorfo do seu inspirado hálito, afinal, se a vida nos surge por extenso é só porque nos habituámos à conversa, às tantas bocas que o dizem pegado, esses sentimentos exagerados, a forma suja de saudade em que ninguém acredita, uma coisa sem pele, essas baladas sobre o remorso e a redenção, tudo limpo, emocionado, uma humanidade para consumo de quem não viveu nada, nem se apercebe que a dor nunca ajudou a articular qualquer narrativa, antes a deitá-las fora, e assim passemos frio entre os apontamentos que restam, não duvidando de que os mestres morrem pelas costas, esquecidos ou atirados à fossa, e que não te quebre o lábio adolescente, não pouse nele a mosca dessa fala, a deliciar-se com o mel do desastre, se podemos continuar, sentir contra a carne o peso de uma estrela como o da própria respiração, talvez tenhamos ouvido o suficiente e nos seja impossível fingir que tudo não passou de uma brincadeira.

domingo, julho 21, 2019


Um começo natural ainda seria pior, devolvendo um rasto que já lá estivesse, o balanço sentido como vício, como ainda antes de ti o peso do corpo do pai sobre o da mãe, lias a frase com a sensação de que nela os sentidos estão cheios, as imagens fartas, a perspectiva degolada, quando se fala, não uma língua suspensa nem morta, mas acabada. E saber que há países, épocas inteiras assim. E que grande avanço não seria se não déssemos mais voltas, não virar nem à esquerda, seguíssemos adiante, a ir saber dessas últimas consequências, onde as forças para se animarem assobiam, o sopro de um lado ao outro serve de combustível para caminhar dormindo, arrasando os sonhos, num delírio seco, as impressões espremidas até ao osso, recluso de um ritmo, um passo e mais outro implorando, e isso nos roube a presença, numa queda brutal que se veste, em que o estar perdido organiza as coisas segundo uma urgência, assim põe-me sal, põe-me outro norte à frente, faz que o parafuso rode da forma mais lenta, como flor viva por entre a carne, abre-me uma ferida solar esforçando um raio, um dito onde o cuspo de outros séculos conserve alguma atitude, algo mais nobre do que essa arrogância de achar que porque se está vivo se tem algo que aos mortos faz falta, roda-o de forma lenta para irmos um pouco além do tremor, e se aspire um ar que depressa arrefeça, ter uma estrela debaixo e tu a coseres por cima a pele, respirando com uma força tal por cima da dor para que o juízo chocalhe um pouco, para desmontar o labirinto, as ideias se enfrentem, deixem esse ânimo territorial, se esganem, para que a dúvida tenha então a desejada extensão ao seu redor, um belo deserto, ainda serás roído, espera assim que venham os insectos, que o céu se abaixe e o passaredo te use como caixa de ar, que trilos, que modo de se deixar levar, e que isso te faça rir das antigas convicções, e se desembarace do açaimo a fera, então podemos afundar dessa leveza terrível, atravessar por dentro o olhar dos anjos sobre nós, um desastre que dura, que parece ter fome, e pelo qual passas como se cortando flores.

Céline


When you stop to examine the way in which words are formed and uttered, our sentences are hard put to survive the disaster of their slobbery origins. The mechanical effort of conversation is nastier and more complicated than defecation. The corolla of bloated flesh, the mouth which screws itself up to a whistle, which sucks in breath, contorts itself, discharges all manner of viscous sounds across a fetid barrier of decaying teeth—how revolting! Yet that is what we are adjured to sublimate into an ideal. It’s not easy. Since we are nothing but packages of fetid, half-rotted viscera, we shall always have trouble with sentiment … Feces on the other hand make no attempt to endure or to grow. On this score we are far more unfortunate than shit; our frenzy to persist in our present state—that’s the unconscionable torture. (“Journey to the End of the Night”)

sábado, julho 20, 2019

quinta-feira, julho 18, 2019

A Guerra dos Condóminos



Dada a evacuação faz já uns anos de tudo o que fossem altos vultos, com o fim das grandes casas senhoriais e de tão dispersos os ermos casinhotos, o problema da habitação no meio literário português acabou reduzido a um imbróglio ao nível da propriedade horizontal, as reuniões de condóminos que, ou não se fazem de todo, e cada um desrespeita os regulamentos como se lembra ou só para chatear, chafurdando ele mesmo para incomodar menos mas um tanto os demais, ou, se há razões superiores, ameaças de novos invasores, lá se reunem as hostes e acaba tudo numa tremenda zaragata. Faz já uns anos que vim viver para uma palhota, e, antes disso, há uns meses que me vinha baldando às cerimónias, missas, quermesses. Lembro-me de certa vez ter dado por mim protagonista de uma circular saída do punho do mais eminente presbítero em característico tom seco e tosco a queixar-se de que este menino fora apanhado a bocejar na última reunião de trabalhos, e que isso era atentatório da dignidade da missão e coiso. Foi mais tarde que vim a descobrir numa fita qualquer que nas salas de interrogatório uma técnica básica ao confrontar um suspeito de actos tenebrosos é interromper-se e hastear bem alto um magnânimo bocejo, até espreguiçando, e isto porque, se é conhecido o efeito contagiante desse gesto-em-cauda-de-cometa, quem sempre fica imune, quem melhor resiste a esses efeitos é o psicopata. Ora, do que me lembro, na sala só houve um dos que lá estavam que abriu a bocarra e lacrimejou um tanto. Talvez o medo tenha levado ainda um ou outro a disfarçar, esconder os destratos que nos causava aquela cegarrega, mas é sempre bom dar por si folgado, rindo de recordações, assim se goza desbragadamente o gosto de andar cá fora, e de, apesar de uma ou outra mazela, se ter saído do Grande Convívio batendo com as sucessivas portas que se me punham pela frente. Da experiência de mais um ou outro que me antecederam nestas coisas, mesmo que de outras gerações, estava já instruído quanto às condenações que haveriam de seguir-se, mas a situação ainda ganha contornos mais hílares se vos disser como, depois de um período de confusões, acabei dando-me conta de que ao sair os trancara lá dentro. E por estes dias, quando nada tenho que fazer, colo os pedaços quebrados do que vou ouvindo e lendo, sei juntar dois e dois... (mesmo se, às vezes, até por maldade, junto um pontinho e dá cinco, não falho por muito) e se as memórias que guardo chegam a parecer-me um tanto delirantes, logo algum fio vem socorrer-me entretecendo-as, e, pelo intricado da deplorável trama, sei que não podia ser coisa toda ela montada lá nos fundos da oficina da imaginação, pois fede demasiado ao tão triste e cultuado real que lhes servia de programa. O que também agradeço são certos estímulos, presentes que me puxam de volta para os braços do passado, e nem escondo o prazer de lá ir quando as horas me não dão outros espinhos onde aguçar o sangue, pilhando-o assim “como uma enorme rosa em estado de decomposição”. Gosto sempre de me mirar nessa janela empoeirada e ver do outro lado a família a molhar o pão resseco na mesma sopa d’antes. Vez por outra ainda me chegam estilhaços, alguma homenagem por meio de referências cifradas, um retrato aplicado de quem, noutras circunstâncias, me fugiria como as galinhas fazem, armando um berreiro até desaparecerem deixando só as penas, e então lá me obrigam a abrir um tanto ao calhas o canhenho marcial, soprar umas aparas, e ir cheirar o catálogo a ver se me lembro... ah pois, este – diz que é rijote, que é cheio de talento naquelas unhas, um pouco atarantado, da ideia de flanar só lhe ficou a flanela, ou aquela ali, sempre a urdir a sua apertada teia, ensarilhar nas sombras, sabe como ninguém do crochet, tão aplicada nas variações entre essas notas ora doces, ora severas ou melífluas, numa de eterna governanta como as formava o lazarento país do Salazar e da Nossa Senhora, e parece que ainda faz suas malhinhas por escrito sempre que se apanha em trânsito, de resto, e à volta, há os que entoam uns rosnidos em coro, com um ou outro tenor a destacar-se, mostrando a dentuça, e entre labirínticas demandas, versinhos achacados, violências entredentes, sentam-se a assistir ao filme da sua posteridade, mas se passa alguém pela rua e olha, amatilham-se a ver se causam impressão, a dar a ideia de que, se for preciso, afinfam, infelizmente, depois não há um que se faça, ferre o dente. São demasiados colos, e quando aquele além se empina é para mostrar aos outros o que faria na hora, mas chega a hora e cisca os cantos. Quanto aos restantes felinos desesperados, ao que sei ainda se presta culto àquele que ganhou fama como "o gato mais colérico da sua geração", o que revelou como, no fundo, estávamos mesmo era na presença de ratos. E o tempo vai passando, a tão cortejada morte vai chegando por fascículos, os alvos comuns e as raivinhas que em tempos os uniam estão aí como dantes, peruando, e, na verdade, cada vez mais se lhes assemelham. Nem com o ânimo reunido a muitas mãos lá nas reuniões clandestinas da célula celeste, em salas forradas a murmúrios, puetices, bustos de algibeira, e com as letras gordas das graves frases motivacionais em modo de requebro lírico, nem com tudo isso se deixam arrastar para a coragem dum ataque. Entre roncos, suspiros, bater de pés, remexer de nádegas sentadas, etc., gastam-se nessas actuações, numa espécie de concerto minimalista, perpétuo e que (julgam eles) bem merecia ser gravado, deixado aos vindouros... Assim, tentando retribuir o favor, espero homenageá-los se disser que me lembram os amorosos melancólicos, envaidecidos das sombras tantalizadoras que deitam com a luz certa, e como sei que o apreciam, dou-lhes do Camões um eco, vindo do passado, para admirá-los nessa permanência dos que nunca morrem porque são logo substituídos por outros: "Estes, no andar, carregam as pernas para fora, torcem os sapatos para dentro, trazem sempre Boscão na manga, falam pouco e tudo saudades, enfadonhos na conversação pelo que cumpre à gravidade do amor. Nestes fazem as alcoviteiras seus ofícios, como são: palavras doces, esperanças longas, recados falsos. Hoje vos falam pela greta da porta: como vos não falou 'estava mal disposta', 'sentiu-a sua mãe'. Porque esta é a isca com que Celestina apanhava las cien monedas a Calisto."

Espaço Ulmeiro, meio século depois



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

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sábado, julho 13, 2019