domingo, março 24, 2019


Gostas de beber das garrafinhas pequenas, e de canções em que miúdos com o dom da velha voz se limitam a contar pássaros, te dão detalhes do céu, esse para o qual não te dás mais ao trabalho de olhar, tens dores mais antigas que tu, bêbeda, de leve, deitada na banheira, reatando os nós dos dedos, quase flutuas lembrando as intimidades que tiveste com um morto, que agora levou segredos teus para o além, as coisas que lhe fizeste, aquele corpo vagaroso, pesado e calmo como um navio, os lugares comuns, inocentes, indiscretos, que já não sabes quem os disse ao outro, e gostas de telefones públicos, chegas a andar quilómetros para usar um, e as cabines, procura-las como a santuários, descrições antigas da vida íntima de civilizações extintas, na cidade não tens nada, todos os jardins são uma decepção, estás magra, ainda há quem se lembre de ti ruiva, mas hoje só restam os olhos, grandes, frios, foste à terra e sentiste que lhe pertencias, mas depois lembrou-te a morte que conheces de menina, se não passasse o comboio duas vezes ao dia não passava nada, são lugares bons para deixar de sentir seja o que for, um vazio que de fora é confundido com tristeza, podes enfim comer o sentido livrando-te das entranhas, bastou a janela acesa esta noite para sentir que me escrevias, depois de dias fora, passei sem o menor sinal, eu gostei de ti quando eras bela, e quis-te, mas era cedo, depois foi a tua vez, e já era tarde quando me voltaste a ver, e tivemos muita pena, tu ias morrer e eu já não tinha nada do rapaz que conheceste, nunca andei no teu carro batido mas lembro-me de imaginar as estradas secundárias por onde o metias, estreitas, de terra, levantando nuvens, para ires com mais alguém, e vejo como puxas a camisola sobre a cabeça e ele te arranca o sutiã por cortesia, pois as tens tão pequenas, mas nunca foste menos que uma mulher, e se te arranjasses menos podias sempre ir com outro tipo de homens, foder com as luzes ao longe, segurar-lho como se o escuro afectasse até o instinto e não fosse claro o que havia a fazer com ele, e assim comparo-te a Eva imaginando o gozo que seria atravessar o desejo sem nenhuma indicação, sem saber como acabar, talvez os anjos te reconheçam, visto daqui, o simples passar dos anos torna-se uma feliz derrota, e quando já não sabemos dormir, adormecemos, e quando já não pensava em ti, tu morres.

quarta-feira, março 20, 2019

UM LANÇAMENTO DE LIVRO FEITO À REVELIA DO EDITOR




E amanhã? As canas estão contadas, faltando o fogo não se poupou no artifício, e garantem-nos que vai ser lindo. É o dia para nos empanzinarmos de rimas, vir mostrar o que, no resto do ano, e até por decoro, a malta esconde... Dia mundial da poesia, ah pois, até fizemos as unhas, e estamos a contar com o sol, aí, refastelado, a chupar sumos de palhinha. Já contávamos com piqueniques e recitais, cada qual com cada um buscando o poente que lhes convenha, e, em chegando a noite, tudo a correr para casa, a família toda a ler, já não Cesário, já não porque hoje o burro tem o cu voltado para o mar, prefere Nuno Júdice, assim, estarão todos em casa a ler-lhe a obra completa, a ver se a morte se esquece deles. Nós estávamos já contando com tudo isso, e irmos dumas cerimónias para as outras, não perder nada, até fazermos boa figura entre o coro de bocejos, mas eis que, de um ângulo mortíssimo, nos apanham desprevenidos: foi o Instituto Cervantes, organização de beneficência que espalha puetas de carreira e espanhóis pelo mundo, essa casa que de bom grado trocaríamos por um tasco a-espanholado, de um gajo de Olivença, que ali servisse tapas e desse refugio a sevilhanas foragidas, chicas saltando para cima das mesas do soalho sujo dos sonhos que vomitassem os bêbados no fim da noite, e a salvo das correntes desse mar grosso, sacudissem a saia, tocando castanholas... Então e como foi que a rataria do Cervantes nos veio ao queijo...? Bem, acabam de comunicar-nos (um tal de Gonzalo Del Puerto) que, numa parceria com a Casa da América Latina (outra digníssima instituição dirigida por Madame Júdice e que mais nos valia se se reformasse, senão em tasco ou cantina, talvez em casa de serviços consonantes com o estatuto delirante e libidinal das literaturas lá mais para baixo), e com o CCB, esse espaventoso antro para o género de programa cultural de se encher a gaiola de cucos, decidiram que, no fim-de-semana a seguir, dia 23, às 19h, e por ocasião do dia mundial da poesia, vão lançar a antologia “A Vida em Chamas”, de Luis Alberto de Cuenca. Então e que mal há nisso? Um detalhe: é que a obra foi publicada por nós. Editamos nós, apresentam-na eles. E o à-vontade é tal que nos comunicam a coisa como facto consumado, em cima da hora. E se o fazem é porque querem livros (dá cá uns exemplares) para oferecer a jornalistas, e que talvez se possa dar um jeito de pôr alguns à venda no CCB. CCB que, todo o dia mundial da poesia, tem lá umas mesas a vender o que parece uma amostra regional, cada ano os mesmos, dessas mesmas editoras, que nem é bem poesia o que editam, antes servem chá. Isto lembrou-me da vez em que a Vitor Silva Tavares chegou notícia, em 2013, de que tinha ganhado um prémio, e esse era mesmo especial, prémio carreira. E era dado pela congregação dos anjos que gostam de mijar e jogar uma cartada a horas trágicas na Madragoa? Não. Então, dava-o quem? Pois, era a revista Ler, mais os consultores editoriais Booktailors. Como toda a gente sabe, gente do melhor que há, amantes seríssimos dos livros (infelizmente gostam é um pouquito mais do negócio do que do ócio), mas é gente que calça maravilhosamente os saltos altos, e quanto a prestígio, têm-no para dar e vender. Nesse caso, o editor ainda teve o especial gozo de anunciar que declinava a honraria, não a recebia, coisa fácil de prever, de resto, não sendo o género de atenção que o comovesse como a outros. Não o aquecia nem arrefecia, e certamente também dispensava ter algum pinchavelho à laia de troféu a atravancar a chafarica... Mas o aspecto que aqui mais nos importa era a nota em que VST informava de que se tratava de um prémio atribuído à revelia. Tanta é a fominha de uns que, já se sabe, quem lança estas campanhas nem pensa uma quanto mais duas vezes, e para espevitar a rotina técnica do elogio-mútuo, também não supõem que haja uns que foram a correr encher-se de alergias ao tipo de gracinhas e medalhas com que esta malta monta o carnaval do beletrismo, praga que provoca o espirro a quem realmente anda nisto pelos livros e até dispensava o ambiente popular e as festividades consagratórias. VST nem contactado foi. Toma lá ó magrizela. Lembrei-me do episódio, que é bem giro, muito mais digno de se contar aos netos do que esta bandalheira de virem uns institutos assenhorear-se de uma edição com a qual não tiverem nada a ver, para a qual até contribuíram zero, manifestando, como é de regra, interesse nenhum por esta como por qualquer outra das obras antologiadas e traduzidas de autores espanhóis. E já são algumas. Estamos, assim, não apenas sujeitos a aturar a azucrinante vizinhança, ficamos a saber que agora estamos também sujeitos a editar livros para vê-los apresentados por outros, e à nossa revelia. O autor, que com toda a probabilidade, está alheado de tudo isto, há-de ser trazido de Madrid, e a apresentação lá se fará, entre outras mil merdices, mas o melhor é que se apresenta uma antologia sem nem um a aviso ao antologiador e tradutor: Miguel Filipe Mochila. Vai-se lá saber, talvez o homem até tivesse interesse em estar lá, dizer alguma coisinha sobre o trabalho que fez, mas não é importante, consideram os institutos. É outro que tem mais é que ficar agradecido. Deve ser isto um modelo novo de defesa da cultura até ao limite, à bruta, até porque a crise e a época estão a exigir medidas drásticas, e se és um desses que têm a veleidade de vir dizer que não comes deste pão, é deixar que enrijeça e atiram-to às fuças, até se te partirem os dentes.

domingo, março 10, 2019

sábado, março 09, 2019

quinta-feira, março 07, 2019

PIDE Piedade Marques


Eis uma tão curiosa quanto reveladora sequência de eventos facebookianos, desses que nos ajudam a expor as manobras pidescas por que procedem alguns dos tão exaltados defensores dos projecto e das figuras que vão furando o bloqueio:



Tu não queres ver que o polícia da moda editorial ficou beliscado com mais esta: ter visto o outro meter-se-lhe no camarim, puxar-lhe os vestidinhos das cruzetas num sacão, e assim, à bruta, deixando tudo num molhe, vejam só: o horror. Mas logo, de capa ao vento, surgiu a grande figura que faz justiça quando o populacho das letras clama Piedade! frente a esses bárbaros, meliantes, críticos e cronistas, com apoio dos chineses, das EDPês, sim, andam todos a encher-se, a ficar ricos, os safados (exige-se justiça) e eis que, gritando Piedade!, lá vem o Marques empurrando o Pedrito, e não há puto mais dono da sua indignação, ele adora gritar lobo por tudo e por nada - como há os casamenteiros, é o nosso funeraleiro (e o tédio que lhe dá quando nenhum vizinho morre de baralhar as linhas debaixo das lentes grossas...) -, mas desta feita o Pedrito encheu-se de pele de galinha e por quê?, veio a correr em defesa de quem? Ó pois, por saber que o outro se meteu aos tabefes na Assírio-salsicharia-Alfim, e, confundindo tudo, trouxe à baila o primeiro calhamaço digno de que se lembrou... Confundir, misturar tudo e voltar a dar é de resto o génio do nosso Pedrito, polícia da moda literata, e logo emborcou a sua latinha de espinafres, arregaçou as mangas, fez músculo ao espelho e lá se foi medir com o Guerreiro... Afinal, que audácia vem a ser essa de vir meter a faca nos vestidos engrinaldados da nossa mais saliente noiva cadáver, e pior, raios o partam, sem nem pedir consultoria ao Doutor Marques! Que rebaldaria vem a ser esta? E agora resta ao crítico ser exemplarmente sovado, levar com as sete pragas infames deste troca-tintas, e que grite Piedade!, a ver se este se apieda. 

P. S. Se tem um editor, livreiro ou coisa que o valha na família, à saída, é favor levantar o panfleto todo catita da Funerária Piedade Marques Ltd. Os melhores serviços na hora de despedir um morto de gafas, desses casos que hoje já não provocam dilúvios nas páginas da imprensa dita cultural. A Piedade Marques honra-se de oferecer o mais expedito serviço entre espetar com o defunto num caixão de cartolina (uma bela edição de capa dura), selar a coisa num instante, organizar o evento de homenagem, aclamação e chorume, logo seguido da devida marcha de protesto e indignação. Ainda providencia carta de pesar para distribuir pela paróquia e a carta de repúdio e repulsa a dirigir às redacções do país e às autoridades competentes e demais instituições do livro. Também oferece serviços de mumificação, e conta no seu staff com um designer que também faz uma perninha como taxidermista. E por uma pequena taxa adicional, também lhe redige um inesquecível necrológio. O próprio presidente da Piedade Marques ainda se oferece para oficiar a missa de sétimo dia em directo no Facebook.





Anda aí um PIDE travestido, falhou na época, chegou um nadinha tarde, mas, neste país, nunca se sabe a volta que a coisa não acaba dando, e se, num abrir e fechar de olhos, não voltamos a ter a pata deles em cima. O PIDE Piedade Marques é na verdade um nostálgico, bem se vê que anda com umas saudades da outra Senhora, e, para passar o tempo, tem a colecção completa dos cromos da resistência, como quem reconstrói a choldra a partir dos uivos, documentando-se junto dos presos, e é assim, como uma espécie de assistente social que vem tratar do registo para memória futura (ó futuro!) que se disfarça, e aparece aí como uma enfermeira de apito, nas reuniões de urgência, é a crise do livro, lá está ele, é uma livraria que fecha, não importa se já não tinha mais que cotão e jornais velhos, é um crime, e lá vem o agente tomar conta da ocorrência, pôr em linha a turba dos fleumáticos da indignação, e anda sempre a puxar pela manga, ó-tio-ó-tio, no género arrumador literato, destorce, a pedir um testemunho com selfie para o arquivo, de resto, tem um faro danado para cadáveres, se ele anda de volta é como ter uma mosca na cola, sinal de que a morte se embeiçou por nós. A dona Piedade é uma espécie de viúva promíscua, dá-lhe para andar pelos cemitérios a trocar as flores de umas campas para as outras, sempre à boleia de uns fantasmas, sempre a azucriná-los, e se abre a bocarra, entre os dentes, baralhando tudo na saliva, toda a frescura logo engarrafada naquele mau hálito de arquivista sonso, puxa sempre d’algum nome, enche o peito, toma balanço na saudosa memória inclinando-a para o lado que lhe der jeito... e isto seja o pobre do Dali de Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello, que já não se livra de ser tido ou achado sem levar com este tipinho como polícia sinaleiro, seja o Abel Manta ou mais algum dos que se vai lembrando na convicção de que nos pode encher o saco com a nossa falta de lembrança... Há-de desenterrar ossadas nos fundos de bibliotecas para vir ele para as suas aventuras de capa e espada (aliás, osso, de osso em riste), qualquer desses raios mais talentosos no modo como afundavam as esporas na sua raiva, gente que tinha pelos mecanismos da Censura um terror intrínseco, porque lhes molestava a alma, e agora têm em comum este comichoso herdeiro presuntivo... lá vem ele com a malinha, os instrumentos de aparar o lápis (azul só pela graça), para catar-lhes umas receitas, deliciado com a história da insubordinação, fica ele como o legítimo e tudo mais são bastardos. A admiração já não pode passar sem ir à revista do PIDE Piedade Marques, ele que tem até um gabinete, desdobra-se nuns funcionários míopes através das redes, parece que sozinho gera uma multidão de tiranetes, em cada guiché, e já de olho na cátedra, aí anda ele, e diz que pica, tem umas grandes lentes, ninguém vai a lado nenhum, e nem sobe para o eléctrico nem desce do comboio sem o ter picando o bilhete, pois ele vai ser o Walt Disney do parque temático da edição refilona, dos sacanas mais ulcerados, os que melhor compunham o vómito em letra de forma, ou desenhavam destartarizando, descompondo tudo, uns tombos que lá os altos, os respeitáveis, suas senhorias, se afogavam espumando das bocas. Ora o Piedade só a tem no nome, é do mais rasteiro, mais mesquinho, de tal modo que vos seguirá entre os lugares mais recônditos da rede, terá espiões até nos vossos sonhos, e ai de vós, rapaziada, que se lembrem de pôr like num comentário ou num texto que o vise. Houve aí mais abaixo num post sobre Piedade-o-estripador um like (um cliquezinho só) feito por uma página de um grupo que se dedica a organizar acções culturais, pois bastou esse gesto mínimo de aprovação ao conteúdo da crítica (um infame ataque ad hominem no entender do agente Piedade) e logo levou a tal plataforma com uma inspecção, terminando a coisa com um relatório (leia-se: o Piedade foi chibar-se/ fazer queixinhas) enviado para tudo o que fossem entidades públicas que apoiam a tal plataforma. Aí está o exemplo como ele nos chega de cima. Eis um cavalheiro devastado na sua honra, que se exalta e exige que lhe seja feita justiça: desata a mandar emails, a ver como nos há-de entalar. Nem mais um tostão para aquela rapaziada! Chegou o bufo. Eis, na verdade, um energúmeno convencido da eficácia dos meios de pressão, repressão e silenciamento que conhece de fora adentro. Eis o PIDE trauliteiro que anda armado com os ossos dos “tios” para andar à bulha com os críticos e os cronistas que lhe mijam no lote, que teme lhe retirem protagonismo, o abafem, isto quando não se mete com a Porto Editora, só para disfarçar, pôr a dentadura e fingir que lhe deu uma súbita larica, de abalar daqui, elevar-se entre o pequename, e qual David, ir às fuças do Golias, dos grandes esquemas, ele, o agente que é, em si mesmo, um regime piramidal, uma instituição do “caluda que aqui quem fala sou eu”, apertando ao peito as flores dos marginais para vir depois naquele mimetismo dos bandalhos, ameaçar quem quer que o ponha em causa. Assim, ficam avisados. Temos um PIDE disfarçado de ovelha disfarçado de lobo disfarçado de ovelha… É cansativo sempre, e desgostante, mas ao menos vamos sabendo com o que contamos.

quarta-feira, março 06, 2019


apanhar no ar aquele grão obscurecido de talentoso silêncio, esses quartos onde a imundície é de outra espécie, com uma jarra de flores de um amarelo narcotizante a inclinar a perspectiva, pinceladas fervorosas, cada emenda que só brutaliza mais ainda o erro, a falha interna, um ambiente que ainda há pouco nos extasiara e agora já declina, começa a contorcê-lo a náusea, e nos lembra estórias que ouvimos há muito, que nos impressionaram tanto que fomos obrigados a esquecê-las, mulheres que ficaram de pé, como se fumassem, que nos olharam de frente, de uma altura indizível, uma vida inteira com o receio de manchar-se o nome, todas essas pulsões sufocadas, a respiração controlada atrás de que boca, um rosto de mulher surpreendida por se ver retratada nesta época com demasiados sabores à escolha e gosto nenhum, resta-me olhá-la demoradamente notando a forma como se lhe pronunciam os seios através de uma camisola antiquada, caindo como um lençol, preso entre os braços, encostada a uma árvore que daria duas dela, imagino que se comova por saber que a Broch lhe bastava a respiração, e que fosse o seu mais profundo vício, e ela, como é próprio dos condenados, lê-o, reconhece-se e sorri, também lhe agrada ficar aquém, não respirar o suficiente, nunca o fazer senão nos consultórios, quando algum médico lho pede, e guardar-se de resto para os momentos a só, para as novelas passionais que não lendo nem se permitindo escrever, a arrastam por meio de breves passagens, outros tratos com a linguagem, uma sensualidade a que se atreveria apenas sob um nom de plume, resta-lhe lamentar as mortes que ainda mais a afastam destes dias, e além disso há um desdém que não chega para uma acusação, tem a sua própria lua, segue-a, entrega o tédio, despeja-o, como se os contos de Tchekhov fossem plantas, exigindo que alguma mulher em cada geração os regasse enquanto vive os seus dias por dentro, e na corda, estendida, a sua roupa interior fosse secando cá fora, sem que o cheiro da ausência descole, e espanta-me tão empenhado desinteresse, esta forma de graça, como se me explicasse os pintores, indo ponto por ponto como por números, imitando a paixão com que nós, os deste tempo, nos detemos perante certo detalhe de um quadro num momento, e logo, no seguinte, somos outra coisa, e não nos lembramos sequer de olhar para trás, e, como dizia a sua avó, não temos o suficiente para esboçar modos elegantes, não somos mais do que seres apressados, a nossa alma um gatafunho, causamos uma certa compaixão observados de perto, mas só isso, seres que "admiravelmente mentem a si mesmos", e talvez ocupássemos melhor os nossos dias de volta de alguma obsessão incompreensível, coleccionando musgos ou borboletas, nesses "ofícios dos vaidosos e dos heróis domésticos", adoro a forma como ela tecia com um aracnídea convicção frases em que lucidez e lirismo se digladiavam tão duramente, como quando nos destina como obra de uma vida o chamado herbário, adiantando que este "absorvia muitas mazelas de carácter em adolescentes invejosos", e nunca fomos outra coisa que uma idade invejosa, tivemos durante um período demasiado breve um encantamento pelos clássicos, os mais velhos, e logo envelhecemos, e a inveja que tínhamos traiu-nos quando se voltou para os jovens, tudo o que havíamos deixado de ser, daí o deslumbramento por figuras quase desleixadas com a sua existência, como estações dando sinais de vida contra restos de civilização, ruínas tão depuradas que parecem finalmente ter atingido a maturidade muito depois de se ter apagado qualquer resquício da sua antiga função

sexta-feira, março 01, 2019


Do bruto acto que tomei por hábito
chegava já soprando o pó num horror do antigo
como se o escutasse por sobre o ombro
dizer-me coisas nas costas, quem sabe à morte
e vinha varado num embalo tal
a levantar pedras, fazer mira ao bando
espalhadas pelo jardim a comer as moscas
como minúsculas aves num relevo de cinzas
e antes que pudesse ter lido mais espirrava
do jeito musical como o ar se arrumava entre elas
perdi tudo, voltava as páginas com pressa
quase rasgando, e mal passava a língua
pelo lábio de outros séculos
e não lhe senti a ferida ou raspei a secura
para escutar fresco o tumulto do sangue
e nem dos suaves gestos desejava a ordem
em que se chega a conhecer por dentro a língua
ou a chave que roda para que o mundo se volte
levei muito para o descobrir, e outro tanto a implorar
que me mostrasse o silêncio o trabalho que lhe deu
ser o mais chegado à boca, atar-se entre os elementos
como um nó, um corpo que possa prometer-se
e onde cresçam as ervas, se mudem as épocas
enquanto se nos gasta esta carne
atravessada pela claridade e por insectos
linhas onde o próprio tempo se ajoelhe
onde o que lento persiste como água corrente
e se aprende de ouvido na gramática eterna
a longa frase que um sino separa e fica
resistindo como osso, a mão que a segura
com um peso capaz de ancorar velhas naus
sem ligar à corrente, encordoando luz e sal
o que se escreve à altura a que o vento toma gosto
tal como se reata essa esquiva memória
no gosto quebrado de uma xícara
ou o mel atento num eco entretece
o golpe de mil corações de abelha
uma imagem que de fome floresça
e de uma doce linha impressa esta gota
que se extrai e amarga e te mata
até um olhar que de calmo quase cante
estudando a noite e a sua cúpula
colhendo no lixo atrás da casa dela
a odorante flor capaz de imitá-la nua
dar-te a provar enfim a madurez estonteante
de um fruto que te respire na boca
e tendo sabido isto que vergonha me fica
da falta de prática, de umas meias-tintas
pintando como os outros a mesma garrafa
umas tantas maçãs, a tijela com flores azuis
e a faca também, mas sempre de fora ficava
o peso da vida arrancada às suas raízes
pois agora que me volto e o mundo se volta
já nem somos os mesmos, e abala-te
e assombra o rosto as coisas que ouves
como de súbito já o distingues
com que cuidados de relojoeiro
se marcam na terra os limites do mundo
pois então arrefeço e espero e tu esperas
por outra vida, para começar do zero
e morro à sede, mas o deserto faço-o a pé
ou venho às minhas costas e assim espero
que escorra a última gota da antiguidade
e caia e me acorde ainda outra e outra vez.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

língua morta 090



CANTO SKIN
Reunião da obra poética
de João Almeida

capa a partir de tapeçaria
de Pasquier Grenier

[400 exemplares, 216 pp., 12€]

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

IR CONTRA AS CORRENTES


Em que medida o público de massa dos ‘grandes eventos’ culturais mudou os próprios comportamentos e as próprias escolhas na sua relação quotidiana com os livros? Consumir uma noite literária pública é mais fácil do que consumir, ou seja, ler e entender, um livro. Os livros são distribuídos triunfalmente pelos jornais. Mas quem distribui o tempo e o hábito para lê-los? Porque é que a venda dos livros de poesia permanece estável em níveis baixíssimos, mesmo que há décadas as leituras públicas de poesia estejam lotadas? É lícito pensar que o como prevaleça sobre o quê. A forma do consumo efémero e rápido, a transformação da mais complexa cultura num espectáculo de uma noite, reduz o chamado património cultural a pó dourado e a vago aroma. Que relação existirá entre a frequência dos estímulos culturais e a capacidade de assimilação? O frigorífico cultural está sempre cheio, mas que nutricionista nos dirá o que realmente necessitamos comer? Ainda existe a hora das refeições. Mas quais serão as horas para ler Tchekhov ou Thomas Hardy e fazer algumas anotações? Ter visto a cara do autor enquanto recita duas páginas de um dos seus livros fará que compremos o livro ou dar-nos-á a impressão de ter lido as suas obras? As manifestações culturais divulgam a cultura. Mas conseguem comunicá-la? 
(...) 
Digam vocês mesmos se este fenómeno não parece actual. Os ‘clubes exclusivos, mas de massa’ estão a multiplicar-se. A multidão precipita-se em busca de distinção, acreditando que está a experimentar emoções secretas, raras, únicas, extremas. Mas, se a cultura quer dizer também imaginação e coragem, capacidade de fazer por si mesmo, de ir contra a corrente e de enfrentar a angústia, nesse caso as praças e os circos não são os melhores lugares para encontrá-la.

- Alfonso Berardinelli
(in Onde foi parar a indústria cultural) 

Entrevista a Manuel Vilas, autor de "Em tudo havia beleza" [Ordesa]


(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

sexta-feira, fevereiro 22, 2019

O vampiruças



O vampiruças da Porto Editora arranjou-se para ali com uma congestão, deu mais outras tantas voltas no imenso caixão onde organiza os saraus com a sua corte de sanguessugas de salão, e se o conde dentinhos tanto se eriçou foi porque lhe foi servido por fim o próprio reflexo. Não é para menos, afinal vai para séculos que não se via ao espelho, e diga-se que isto é bicho que noutra encarnação até deu uma de defensor do proletariado, coisas lindas, utopias e tal, bastou portanto uma espreitadela, mirou-se na pinta de monstrengo mal empalhado, a carcomer-se por aí, e foi o drama que se viu. O golpe só foi possível com uma receita das bruxas, não poupando no alho, mas se o nosfeliterato reuniu com a morcegada lá na torre do castelo transilvano, se a coisa não ficará por aqui, sempre podemos dar conta desse mítico engate a que se aludiu, mas muito levemente, no artigo sobre o Correntes D'Escritas, pois porque se não há habituê dos festivais que não tenha já gramado com a bazófia do drácula da Póvoa, há para aí muito quem vá ficando à margem dos happy few (fiu-fiu) que gozam da honra de privar com a nobre casta das nossas múmias, e assim vá perdendo o que mais interessa, os relatos de paixão tórrida com intervalos de sacanagem que animam os serões dos nossos festivais literários, o que, convenhamos, é uma pena, com tanta campanha, tanta promoção tão tosca, que nos escondam os aspectos suculentos. Pois se a Maria do Rosário Pedreira nos diz que um dos sentidos figurados do festival da Póvoa é "agência de casamentos entre gente das letras", cabe fazer aqui a nota de rodapé para explicar ao leitor com um nariz leigo para estes perfumes que o rei dos sem pinga de sangue e a sua noiva eterna se amantizaram lá atrás, nos séculos um ou dois dC. Era o Valente quem contava isto até com mais graça, mais pormenor, repetia-o a quem quisesse ouvi-lo resfolegar, a sua proeza romântica, como tudo começou, como se punha ao telefone do quarto do hotel a discar para cima e para baixo, a avisar: eu vou aí, dessangro-te toda, moça! E parece que estava uns andares por baixo da Rosário, que tocou primeira vez, e: subo?, reinaremos juntos num inferninho de letras que eu tenho bem catita para nós. E ela, guardando sua virtude: aí não, toda muito winona, e ele, raios!, desligando, ligando, ligando segunda vez, antes de tentar outro quarto, e foi à segunda que a Rosário já não resistiu mais ao encanto gélido daquela voz a cruzar e dar nós nos fios do hotel, a curtocircuitar toda a cidade, e diz-se que a luz falhava pela cidade de excitação, e enfim drácula trepou, tocou à porta, meteu-lhe os dentinhos, e assim ficou selado o pacto, e nasceu o maior power couple do meio literário português.

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Sobre festivais literários


(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

terça-feira, fevereiro 12, 2019


Mais que molhar os lábios, mordê-lo aflito
conta-o como se o bebesses da boca de um afogado
um gole imenso sem pontuação nem nada
e soma o espanto a cada detalhe último
abre outro rombo no casco neste ir ao fundo
arpoar a forma possível, um peso sério
uma fruta que doa amadurecendo em cima da mesa
e que te arraste e vença de todas as vezes
Quantos mais livros até que o rumor te erga
o musgo morno,
bosques mínimos, luz presa em celas
de resina, seiva cantante?
E não, para ti não há, não serão as fadas,
mas um estudo intruso e tantos furtos
quando provocado, lúcido, irado
já renasço do erro
sub clara nuda lucerna
o cabelo dela na água desmanchando a corrente
a descarnar-se, esta vítima que mais amo
a meia altura onde sem reflexo se dorme melhor
como se flutuasse, e o ar tremesse de cada volta
quebra-se nas dobras, car-
come a cor...
Entre os ombros misturei uma luz
que a descia degrau a degrau,
nessa aura amara, admirações estas
de que me arranjo, e cresço mudo
até que não me caiba mais na boca
e depois então que outros ardores miseráveis
que nomes para dizer como fujo na carne
e a um gesto, um toque no ombro me volto,
viro outro
deitando a mão entre séculos desses mais rudes,
duros, ressecos, que gota de um lado ao outro
me acorda
ressoa a medida clássica, um soluço quase
e tomo da bacia o reflexo nas mãos
mas se a violência não ma consente a época
pois tira-me a luz e lança-me ao esterco
ritmos que a encham como os ratos
à velha casa, errabunda urdidura soante
com tudo o que me ensinou...
Anda bem longe o meu, por outras coisas
pois caçarei então pelas fábulas diabólicas
e trago-lhe ventos para que os tranque, abuse deles,
baldes de chuva, sobressaltos, visões rasgadas a relâmpagos
e assim como a imagem que faço do mundo
se balança no gole que trago na boca
pois vou dar que fazer ao médico legista
abram-me e espreitem cá dentro que idade das trevas
que tumultos se alcança amando a fundo a vida
a ponto de se acabar perseguido, mas feliz
de os levar no rastro dessa desgraçada e fugidia beleza


segunda-feira, fevereiro 11, 2019


Aberta a morte do amigo, que coisas temi ver e não vi, que vícios trazia e são próprios de quem se deita a admirar algum mistério sombrio, e mesmo que o faça diabolicamente é vencido, pois o pior ainda foi o que não se deu, o que do mundo sempre nos falta, ausências repugnantes, gente que, estando viva, nos explica a morte, a sua miséria, o lado mais negro disto tudo que se confirma no fim. Havia sonhado de forma atrapalhada as últimas coisas. Soube-o tarde, mas foi cedo afinal. E há aquela hora antes do sono, em que a morte nos visita, essa que víramos juntos, sobre a qual trocámos impressões, andava ela pelos jardins, rindo-se depois de nos fazer um gesto obsceno. Eram grandes as áleas do jardim que eu fiz, rabiscando-o no escuro; sei lá porquê, supus árvores de flores a propósito de uma suave despedida. Mas não, foi uma coisa crua, apressada, como se alguém desse à corda, e sentia-se o nó, não no pescoço, mas sobre a cabeça, um nó num saco que nos apertasse no escuro. Além disso chovia, tínhamos os pés cobertos de lama, e a pressa eu julgo que fosse um certo temor de se ser marcado. Antes, na sala branca, onde o espanto respirava para dentro de um outro saco, nem o fixei receando que se mexesse, mas, pelo canto do olho, vi-o dormindo intacto, ocupando a mesa toda, como quem houvesse escrito a última frase e deixasse às letras o sufoco restante. Já desinteressado deste alvoroço, talvez ficasse indiferente ao nosso contido motim nos porões de uma deriva surda. Antes que a terra o fizesse ouvir o seu íntimo, ou a conversa dos bichos, senti-o como a um cordel preso pelo pulso que umas águas nervosas retesam, e antes que o desamarrasse ainda quis saber se é isto só, que estreito barco o levaria. Que uso frio para o seu nome me restará? Mais ainda, que luz perturbo neste mundo se o chamar? Ou terei apenas a terra à altura da boca, um peso em cima, talvez uns passos por que o oiça, na hora em que também os anjos se aborreçam, busquem umas traseiras, um lugar menos iluminado, docemente imundo, para beberem, denunciarem de Deus os podres, e eu, nisto, imaginando como essa magna questão continuará tão sua, que nas minhas dúvidas estaremos os três, e, sabendo-o de riso fácil, como o dos homens gratos, em silêncio escutando, estudando mais outro ângulo da coisa, vou-lhe perguntando como tantas vezes me obrigava a fazer: "mas está aí?" E se quer saber a diferença que faz, faz alguma, Rui. Agora sim, nesse silêncio que ninguém corta, e nos é devolvido, carregado de veneno, então sim, se percebe a diferença entre o puro nada e esse doloroso embaraço que nos provoca o vazio.


Electra, n.º4, Fundação EDP



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Bebedeiras de perfume


Aqui há dias, estando com uma coceira que não sei nem onde começava, saltei uma cerca, e acabei num jardim discreto, por azar vizinho do matagal homicida que eu deixo crescer no meu lote, e foi lá, encantado com um pouco de sol, refastelado numa cadeirinha de lona, a comer moscas inexistentes, depois de analisar um cadáver de guaxinim que também lá não estava, que armei em Holmes mas dei uma de Watson. Isto é o meu modo, algo trapalhão, e um nadinha sonso, de dizer que errei. Está aí, mais abaixo, um post sob o título "Ácido e peçonha" que não passa de um desatino. Ou por outra, levantei um frasquito de perfume por uma janela aberta, essência da boa, e em vez de uma ou (já abusando) duas pulverizações sobre os cabelos que não tenho, enfrasquei-me, chuchei o álcool dos dedinhos, e pus-me a brigar com uma alucinação. Devo, por isso, um pedido de desculpas à autora do blogue que, por pudor, já não incomodo com nova ligação (podiam sempre ir daqui lá mais alguns dos gandulos de que eu faço [faço?] criação, ir lá tocar-lhe, desalmadamente, à campainha)... Chega dizer que é, bem vistas as coisas, alguém que me merece consideração, e que não esperava que lhe pisasse e descompusesse a sombra... No meu embalo, fui soluçando broncamente a sua fragrância, traduzindo em cantiga de bêbado uma marcha de recolher. Aqui está, assinado e a aguardar as testemunhas, a confissão de mais outra leitura abusiva (sim, também eu, bruto... às vezes só brutamontes).