Domingo, Janeiro 29, 2012

E o verso fez-se homem

1

Ando em busca de um verso que saiba
parar um homem a meio da rua,
um verso que se tenha de pé – aí está a diferença –
que até estenda a mão ou cuspa.

Poetas: persegui esse verso,
insistam, brandindo-o, e que estale
rente ao homem – arado, e foice, e gadanha –,
aconteça o que acontecer, sim!, doa a quem doer.

Somos a escória, o carnaval do vento,
ridícula terraplenagem, com o cu
de fora e a camisa aberta, agitando-se.

Ando em busca de um verso que se sente
entre os homens. Que se meta à besta,
se ponha a olhar Tachia descaradamente.


e 2

Falo do que vejo: do balcão
e do copo; do varão e das suas duas mortes;
escrevo aos gritos, digo coisas duras que
se interessam até por Deus. Assim se fala.

Venham ver o meu verso descer a rua.
A minha voz em pelota debaixo da canícula.
Poetas chatinhos, gente ridícula.
Todos tão convencidos. Calem-se!

Falo do meu cárcere: uma língua
desavergonhada, com as mãos no alto-falante:
«Tachia!, que me dizes, como, onde, quando?»

Escrevo como cuspo. Contra o solo
(ah esses reles poetas, falando baixinho,
os filhinhos dos papás) e contra o gelo.

- Blas de Otero
in Ancia, Visor

Sombras deram o aviso

Cada beijo que dou, como se arranhasse
o vazio, sinto o cheiro da carne
de Deus, fome de Deus, sede abrasada
na trança de fogo de um abraço.

Agarro-me a ti, estendo-me no teu regaço
como um náufrago atroz que geme e nada,
engulo porções de mar e água rosada:
as ondas, seios, suaves solavancos.

Se te quebram os olhos e a vida
choras o sangue de Deus por uma ferida
que faz nascer, para o amor, a morte.

E é inútil sonhar que nos unimos.
É loucura acreditar que pude ver-te,
Deus, abrindo, entre a sombra, limos.

- Blas de Otero
in Ancia, Visor

Cegamente

Porque quero o teu corpo cegamente.
Porque desejo a tua beleza plena.
Porque busco esse horror, essa cadência
mortal, que arrasta inconsolavelmente.

Inconsolavelmente. Dente a dente,
eu bebo do teu amor, da tua noite cheia.
Dente a dente, Senhor, e veia a veia
vais sorvendo a minha morte. Lentamente.

Porque quero o teu corpo e o persigo
através do sangue e do vazio.
Porque busco a tua noite toda, inteira.

Porque quero morrer, viver contigo
esta horrível tristeza enamorada
que hás-de abraçar, Deus, quando eu morrer.

- Blas de Otero
in Ancia, Visor

-
«Já fiz isso.» – «Isso já foi feito», frases estúpidas; leit-motiv do mundo artístico desde 1912.
Detesto a originalidade. Evito-a o mais possível. É preciso empregar uma ideia original com as maiores precauções, para não se ter o ar de usar um fato novo.

*

Após a morte de meu avô, ao esquadrinhar o seu quarto-maravilha, espécie de bric-à-brac científico-artístico, encontrei um maço intacto de cigarros Nazir e uma boquilha de cerejeira. Embolsei o tesouro.
Na Primavera, encontro-me uma manhã em Maisons-Laffitte, entre ervas altas e cravos selvagens, abrindo o maço e fumando um dos cigarros. A sensação de liberdade, de luxo, de futuro, foi tão forte, que nunca, aconteça o que acontecer, nunca sentirei nada de análogo. Poderão nomear-me rei ou guilhotinar-me: a surpresa, a estranheza, não seriam mais intensas do que esta entrada interdita no universo das pessoas grandes; universo de lutos e amargura.
Uma coisa ainda me encanta, me transporta instantaneamente à infância: a tempestade. Mal ela ribomba, mal ela solta a sua vasta claridade malva, inunda-me uma doçura, uma calma. Eu detestava tanto a nossa casa de campo, vazia, uns e outros partindo (para ocupações fora), como detesto que leiam o jornal defronte de mim. A tempestade assegurava-me uma casa cheia, lume, jogos, um dia íntimo e sem desertores. Sem dúvida é esta a antiga sensação de intimidade que comanda esta alegria logo que escuto a tempestade.

- Jean Cocteau
(tradução de Maria Teresa Horta)
in Ópio, Ulisseia

-
LOVER COME BACK TO ME


Na cama do hotel, em Tulsa, limitava-se
a trautear a canção em que prometera
dar o seu melhor, num esboço de epitáfio.

Percebia agora que há temas
que cantamos melhor deitados,
longe de qualquer palco.
Bebeu um copo de Woodford,
para trazer um pouco mais de sombra à voz.

Não podia adivinhar, em Tulsa, que
a volúpia em breve se tornaria uma súplica,
o género de coisas que só dizemos a ninguém.

- Manuel de Freitas
in Marilyn Moore, Assírio & Alvim

Sábado, Janeiro 28, 2012

O livro no mercado


(clica para aumentar)

As seis cordas

A guitarra
faz chorar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas,
evade-se p'la sua boca
redonda.
E como a tarântula
tece uma grande estrela
para caçar suspiros,
que flutuam no seu negro
poço de madeira.

- Federico García Lorca
(tradução de J. E. Simões)

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

A vida não me interessa.

A vida não me interessa. Algumas florentinas esbeltas, de xale escuro pela cabeça, alguns tipos de homens fortes – e mais nada. De ilha a ilha – Corvo e Flores – vão quinze milhas – mas que distância as separa!... Aqui há escrivães de fazenda – empregados públicos – senhores e plebe. Compreendo o Corvo, não compreendo os interesses mesquinhos, moídos e remoídos numa pequena vila isolada a cem léguas do mundo. Vejo às janelas, por dentro das vidraças, fisionomias tristes de velhos que estão desde que se conhecem à espera de quem passa – e não passa ninguém. É aqui que o hábito deita raízes de ferro. Oh, meu Deus! descubro que a gente enterrada há cinquenta anos se encontra outra vez nas Flores, viva e aferrada às mesmas palavras e às mesmas manias do passado, numa meia-sombra em que se cria bolor. Estou talvez no Purgatório – o Inferno é mais ao norte... Certos seres mortos na minha mocidade, e que eu não sabia onde se tinham metido, foram desterrados para as Flores. Até personagens de romance! Até a D. Felicidade do Eça aqui habita e exala os seus gases, e outras damas antediluvianas com broches ao pescoço e barrigas tão grandes como já hoje não existem barrigas no mundo! Visitei uma senhora de idade que nunca saiu de casa e até a paisagem da ilha desconhece. Quem não trabalha só pode fazer uma coisa: sentar-se nos bancos de pedra da Misericórdia e esperar a morte. E na verdade aqui tanto faz estar vivo como morto e sepultado num jazigo de família.

- Raul Brandão
in As Ilhas Desconhecidas

Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Criatura n.º6, por Osvaldo Manuel Silvestre



Ao número 6, a “Criatura” ficou verde, deixando-se das habituais tonalidades soturnas. Se o gesto é de afirmação, saúda-se, tanto mais que só lhe podemos reconhecer razões e razão, pois, no concerto escasso das revistas portuguesas de poesia, “Criatura” é aquela a que mais confiamos a hipótese de uma renovação geracional. A revista merece a nossa confiança, cabendo neste número o papel de revelação a Ana Duarte. Uma geração depois, reconhece-se o impacto produtivo do imaginário de Adília Lopes, ainda que “por outras palavras”: “Gosto de escutar às portas / quanto os outros fazem amor / (ou lá como se diz). / Gosto de pensar que fazem / o que eu também já fiz, / embora / por outras palavras”.

A diferença de “Criatura” começa por ser gráfica. A revista consiste em “poemas na página”, em composição legível e sóbria, sem índice, apenas com um separador com o nome do poeta que, no caso de ser estrangeiro, beneficia de breve apresentação. A abrir e a fechar dois textos, sempre: o “prefácio” em prosa, o “posfácio” em verso, ambos anónimos. “Criatura” responde, pois, a um ideal de “poesia, apenas”. Que, contudo, prefácio e posfácio põem em causa, na medida em que jogam a poesia para fora de si mesma, lançando-a contra as razões de um mundo desencantado. Do “prefácio”: “A escrita serve o encanto. A si, serve-se de uma furiosa atenção e recompõe melodiosamente o mundo, encontra nele uma cadência pessoal”. Uma mudança de tom é contudo perceptível neste nº 6, e essa mudança é reconhecível na “substituição” das considerações metapoéticas do “posfácio” do nº 5 pelas muito diversas que agora encontramos no texto final deste número: “muito cedo se fez / tarde demais neste país / tão dado à esgotada / encenação das suas memórias / senil adorando ruínas / seu império / d''exílios”. O poema queixa-se da “falta de tesão” nacional e termina mesmo em modo perigosamente citacional: “tudo nos chama e uns passos / perdidos aos outros dirão / que é hora”.

A mudança de tom parece imperiosa, e é isso que reconhecemos na forma como David Teles Pereira estraga um poema, até aí excelente, em torno do suicídio de Celan - “Morte pela água (Ciclo)” -, com um terceto final que introduz abruptamente o paroquial contexto português: “Este país é um lugar perfeito e, por isso, inóspito. / Portugal é um cemitério, / há séculos que todos andamos a caminhar descalços sobre corpos”. O mesmo autor não consegue, em dois poemas magníficos - “Tractatus Theologico-Politicus (Capítulo XVI)” e “Leviathan (Capítulo XVII)” -, deixar de oscilar entre uma tematização do largo espectro do teológico-político e um retorno ao pequeno contexto d''“esta merda de pátria”, no segundo poema, que aliás começa, sem pátrias, por uma pergunta fundamental: “''Sabias que as palavras eslavo e escravo / têm a mesma origem?'', pergunta-me Krystof”. Como fundamental, e sem pátria, é ainda a resposta: “''Sabes'', respondo-lhe, ''somos todos eslavos''”.

Podemos talvez ler este número como o registo poético de uma oscilação entre o não-nacional e formas várias de manifestação do “pequeno mundo” da nação, na era da troika, e da poesia. António Gregório seria um caso extremo dessa resistência da pequena escala (da memória e da comunidade, aferidas pelo pessoal e pelo anedótico, em poemas pequenos e perfeitos, ambas as coisas em demasia), um caso próximo do do espanhol Ángel Mendoza. No outro extremo, os textos em prosa de Clara Pinto Caldeira sobre os campos de extermínio, “lugares áridos, sem possibilidade de mapa”, lugares enormes “em vazio” e que suscitam o desejo de um “corpo universal”: “Estico os braços no meio de tudo e não toco nada. Quero um corpo universal. Em vez disso, alcanço vagamente um americano que pergunta: porque não fugiram?” Por seu turno, Golgona Anghel, em mais um impressivo conjunto de poemas, manifesta quer um gosto pela incisão e nitidez cortante de coisas como “nomes e camas”, quer uma capacidade rara para saltar disso para a escala maior do “desastre civilizacional”: “Não gosto de contar os desastres em detalhe / mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas. // Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, / condecorar o medo, / cortar-me a mão com que limpo as feridas / de uma civilização em queda”.

Em Luís Filipe Parrado, um poeta a seguir, a figura do todo surge partida, como no poema “Partes de um todo”, em que a tentativa de ler um livro difícil num banco de jardim é substituída pela contemplação: “Então levantei os olhos das páginas, / pousei o livro, vi um homem novo / aproximar-se e passar à minha frente / com um saco de plástico / com maçãs vermelhas numa das mãos / e uma caixa de cartão, com ovos, na outra. / O saco de plástico era transparente / e revelava nitidamente o esplendor e a forma / perfeita das maçãs, todas muito juntas / como partes de um todo”. Uma notável alegoria do estético enquanto membrana de um todo aproximativo, cujo “esplendor e forma” seria o de coisas “todas muito juntas” num saco de compras, ou no hipermercado de que elas poderiam provir - essa versão também aproximativa do teológico-político no capitalismo tardio.

Diogo Vaz Pinto, por fim, exibe de novo a sua capacidade para extrair consequências da narrativa da modernidade: “Sou arraçado. Vadio, / pela parte em nós que é de cão, nobre, / pela parte que é de lobo. Entre o quotidiano / e o mito, coleccionamos debaixo da língua / as unhas de deus”. No campo da poesia, tal narrativa coloca o poeta numa posição tardia, posição que uma figura tão clínica como a do “pior leitor” traduz, numa espécie de leitura a um tempo literal e paródica da “ansiedade da influência”: “Leio, pior cada vez, cada vez / mais tarde, tão depois de tudo, / e desentendo-me com todos eles, / cada um dos meus autores. Fico ali / meio na provocação, faço-lhes as traduções / mais abusadas. O pior leitor”. Nas palavras do poeta espanhol José Ángel Valente, “Dissolvida no conteúdo da tradição, a experiência pessoal é anónima (é a de todos os homens)”. Fiquemos com a lição do “pior leitor”, “essa inclinação maligna”: não pessoas mas versos. Criaturas.


texto publicado no Ípsilon, dia 20 de Janeiro de 2012

Amanhã



4º Encontro: Crítica em ensaio

Moderador: David Teles Pereira

Convidados:
Gustavo Rubim
João Barrento
Rosa Maria Martelo
Silvina Rodrigues Lopes

27 de Janeiro / 18h-20h

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Edifício ID, r/c

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Chuva estival

Na solitária noite sem vivalma,
tíbia, agitada, leve cai a chuva,
só para si só.

Íntima bailarina pela noite,
misteriosa, enlouquecida,
acolá chora, voa, sustém aqui o riso,
resmoneia caprichosa, suspende-se,
brincalhona, inquietante,
chega e parte, cala-se, regressa de longe
com sorridas lágrimas,
intenta dizer algo que em suspiro morre.

E escapando-se entre sussurros
e vozes de sereia,
deixa no ar um mórbido perfume
de amor defunto em memória lancinante,

e na alma o errático, incurável,
secreto amor de todas as derivas...

- Tomás Segovia
(tradução de J. E. Simões)

A sombra

Como todos os homens sou estranho
a mim mesmo e me estranho quando vejo
no meu espelho alguém que não conheço
e contudo jamais sai do meu pêlo.

Que cara é este? (ou: quem é este gajo?
caso a pergunta fosse em Portugal).
Meu caminho é um atalho, e nele topo
os despojos da aurora boreal.

Valho o que vale a minha própria sombra
– a jocosa espiã que se contunde
a rastejar nos paralelepípedos,

E a ela digo: Sombra, és como eu,
tão alheia de mim e não me largas,
e tão colada a mim que não me assombras.

- Lêdo Ivo
in Poesia Completa, Braskem

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

CAFÉ DE SUBÚRBIO (23)


Dezasseis anos, talvez.
Vejo-a, no café, cada manhã,
A folhear, atenta, um compêndio de inglês,
Com um perfume a Escola e a maçã.

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha
(Um velho!), num desvio de atenção,
E logo volta a folha,
Enquanto molha
O bolo no «galão».

Eu saio, com pesar, bebida a «bica».
Ela é a minha manhã,
Tão natural, tão clara… que ali fica.

– Que saudades da Escola! Que fome de maçã!


- António Manuel Couto Viana
retirado daqui

Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

O desconforto

O dia está cheio de palavras.
Elas escorrem como a água das sarjetas ou a saliva da boca dos demagogos.
Espalham-se no chão como as folhas de um outono excessivo.
Transbordam das lixeiras junto com as latas de coca-cola e restos de comida.
São piolhos que avançam na selva da tarde.

Ninguém pode viver sem as palavras.
Isto explica o desconforto dos passageiros do metrô.
Condenados a um silêncio temporário
eles se entreolham suspeitosamente na plataforma da estação
e estremecem quando as portas do trem se fecham.

Embalados pêlos solavancos de uma viagem sem paisagem
ouvem os vagões rangerem nos trilhos taciturnos
na escuridão que sustenta o clamor da cidade.
É o que sobra do rumor do mundo. Mas eles querem o instante
em que, devolvidos ao dia loquaz, voltarão a falar.

- Lêdo Ivo
in Poesia Completa, Braskem