segunda-feira, junho 29, 2015

"Um Bárbaro em Casa", uma leitura de Miguel Filipe Mochila


 Texto originalmente publicado na revista "Suroeste"

Os sete contos que compõem Um bárbaro em casa, de Frederico Pedreira, resolvem-se na verdade como capítulos de um pequeno romance, sem cuja percepção de uma unidade narrativa, a qual tem na focalização narrativa o seu esteio, dificilmente faríamos justiça ao seu fulgor. Sejam então sete capítulos, numa sucessão de episódios vinculados a sete mulheres – Tota, Hanna, Jasmine, Ivanna, Martina, Mel e Filipa –, dissecadas às vezes com uma assertiva ferocidade raramente vista no tratamento da figura feminina na narrativa portuguesa, através de um olhar que faz do masculino um estilo, no qual não apenas encontramos os ecos de um Lobo Antunes, de um Céline, de um certo Junot Díaz, com menos teor irónico, exclamativo ou rocambolesco, mas ainda uma acidez e um despudor perspectivo que rasura as marcas de uma doçura contemplativa só raras vezes – e significativas – adoptada.
            Este é um discurso de uma errância existencial no seu sentido mais exacto, isto é, no sentido em que dispensa o predicado da alienação que faria com que o não fora, e descobre uma ideia aventureira da narrativa numa base de um estar projectivo que desbobina sempre um fracasso. A voz masculina, pertença de um narrador autodiegético e profundamente subjectivo, encontra-se guiada por este mal-estar provocado por um ser numa deriva engasgada de uma realidade que o atropela velozmente, fracasso após fracasso, porque “o corpo já não nos atira as bóias da salvação moral, optando antes pela deriva”, nos intentos da conexão erótica sempre só momentaneamente redentora, ou já nem isso, com uma figura feminina que se desdobra em frustrantes hipóstases até à própria anulação da expectativa.
            Começando pela trilogia islandesa dos capítulos iniciais, radicada num bar onde um narrador tolhido pelo entorpecimento alcoólico encontra a frouxa euforia do engate, pontuada de laivos de consciência de uma auto-comiseração que orquestra aqui uma honestidade existencial flagrante e eivada de nostalgia – “entre os fantasmas que a memória travestida nos traz” –, o romance passa ainda por Londres ou por Lisboa, entre a congénita resistência – nunca moral, nunca patológica nem política – ao negócio de se ser ao modo de um empregado de loja de roupa, por uma pontada de ócio onde a libido oscila entre o nojo e o encanto sub-nutrido, e a intersecção violenta da notícia da morte do avô na nauseada narrativa de um engate acidulado. Culmina-se finalmente com a ruína da projecção forçadamente salvífica da relação com a alteridade feminina congeminada pelo último capítulo, narrativa da dependência, da submissão e do desgaste do protagonista no seio de uma relação sem feedback e onde ele por uma vez primeira depositara de facto alguma energia, o que lhe permite concluir que o amor é imperdoável.
            São histórias de mulheres deterioradas por um olhar acentuadamente urbano, ébrias, drogadas, prostituídas, desesperadas, frustradas, enfadonhas, desleixadas, mulheres essas, na verdade, secundarizadas, interessando antes o conflito permanente em que se acham com o protagonista, que tem real primazia temática, o qual se resolve quase sempre na arena – entre o enjoo e a volúpia – do sexo degradado, que vai servindo de um cinto de segurança cada vez mais inerme para uma viagem vital anestesiada, à medida que a rotina destrói o seu efeito letárgico, até que o amor se converte na última e mortal saída, onde o fracasso erótico é total e descamba num abandono do espaço feminino como espaço de uma projecção salvífica.
            Uma pretensa misoginia germinante no olhar do narrador não deixa de estar condicionada pela memória fundadora de uma narrativa selectiva que discrimina uma sucessão de eventos nos quais se originaria um eu humilhado e vazio de um sentido dado, para o qual a finalidade da vida é o in fieri e não um factum, das cruéis aleatoriedades de um balneário de adolescência ao vexame da calvície, passando por marasmos físicos copiosos na perpetuação da adolescência como processo onde o adolescere se confunde com o dolere. Encontrá-lo-emos por isso em viagem, num percurso que implica a anulação da familiaridade com um espaço originário do qual se terá alheado, vivendo em plena despertença, como um bárbaro que aprende a fazer dessa condição a sua casa, entre bebedeiras, engates fracassados, frustrações sexuais, o nojo dos dias ensaboados, ressacas, triunfos menores, fait divers de uma urbanização nos meios de uma intelligentsia juvenil grosseiramente incauta. Chega-nos tudo isto através de uma escrita vertiginosa, torrencial, desbragada, angulosa, travada aqui e ali de um furtivo lirismo que é o do poeta que também há em Frederico Pedreira, o qual recusa ceder à tentação do colorido.
            O que o livro de Frederico Pedreira nos oferece é assim fundamentalmente uma narrativa disposicional, radicada na perspectivação do acesso do protagonista à realidade mediado por um estado existencial que ora apresenta um pendor melancólico, ora é próprio do tédio. Aquele mal-estar profundo, uma espécie de tristeza congénita que entorpece a relação do sujeito com a vida, fazendo com que ele perca as coisas antes mesmo de as ter aprofundado, próprio da melancolia que assim espelha nas suas relações, vai-se convertendo, na sucessão desgastante das experiências sexuais sob o signo da frustração, no tédio profundo que Heidegger descrevia como uma névoa silenciosa que nivela todas as coisas, numa estranha indiferença. É difícil não nos espantarmos com a precisão dos relatos dessa indiferença, à medida que a projecção se vai gorando num aqui e agora cada vez mais anestesiantes na perda de um ensejo de saciação de uma sede que o é cada vez menos, num comportamento de predação sexual progressivamente mecanizado.
            Às portas da angústia, onde se eclipsaria qualquer relação de causalidade com a frustração existencial, angústia essa que coroaria a expressão assombrosa, do unheimliche onde a condição da barbárie se ajustaria definitivamente, emerge ainda o último capítulo, “Filipa”, no qual uma inversão da relação com a figura feminina, que surge proprietária dos domínios da relação, faz com que o narrador descubra pela primeira vez o seu papel instrumental, objectual e não agencial no seio do erotismo, numa aguda consciencialização da ineficácia do amor. Aquilo que seria o pressuposto da sua liminar abertura para a angústia é no entanto travado pela descoberta de um papel inédito na sua vida, ao se ver confrontado com a urgência de tomar para si a responsabilidade do cuidado do filho órfão da amada toxicodependente, perante a qual se assume como educador: “não deixes que o amor te escangalhe o voo, as mulheres jogam em planos ínfimos para nos foderem a vida, cheira-lhes só o perfume e afasta-te, a tua mãe morreu e eu estou aqui contigo”. A lição que o protagonista assim oferece à criança abandonada é a lição da sua própria vida, onde o amor é tanático e o sexo um soporífero afinal incapaz, uma ilusão inutilizada. O que ele lhe não diz é que, afinal, ao tomá-la pela mão, também ele a aceita como um esteio de uma vida que se não deixa mergulhar na angústia. Ao cuidar dele está também, evidentemente, a cuidar de si.

sexta-feira, junho 26, 2015

segunda-feira, junho 22, 2015


Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida. 

- Clarice Lispector
in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

- Cecília Meireles.

terça-feira, junho 16, 2015

segunda-feira, junho 15, 2015

Silêncio


Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

No peito
uma voz estranha despertou
e uma canção canta em mim longínquas lembranças.

Diz-se que os antepassados mortos antes de tempo,
com sangue ainda jovem nas veias,
com paixões intensas no sangue,
com sol ardendo nas paixões
retornam,
retornam para continuar
em nós
a vida não vivida.


Há tanto silêncio à volta que pareço ouvir
como os raios da lua esbarram nos vidros.

Ó, quem sabe, alma, em que peito cantarás
também tu mais além dos tempos
– nas doces cordas do silêncio,
em harpas de treva – a nostalgia afogada
e a frágil alegria de viver? Quem sabe? Quem sabe?

- Lucian Blaga

domingo, junho 07, 2015

Cadernos do Subterrâneo XII



Alguém que morreu e não queria, não queria
mesmo. O que chorava e de nós fez traidores.
Saber que ficaríamos como ficámos, e ter
de lidar com o peso que nos fora retirado
de cima, o alívio de não a ouvirmos mais.
A não ser de noite, misturado no silêncio,
o horror de nós próprios talvez também
não querermos, de se ter tornado necessário
encará-la, estarmos preparados para ela.
Que espécie de desgosto começou a fazer
o seu caminho dentro de nós? Contra a vida
que nos restava, e a que tínhamos levado
até ali? Que afastamento, que espaço criámos
que nos separasse, para que não ficasse uma
linha que nos pudesse puxar àquele ponto?
Só os desprevenidos morrem. Com ela
tornámo-nos atentos, reservados, um tanto
frios. A sua memória ficou, o modo como
se agarrava, a profundidade desesperada
como nos olhava, como quem cai e pede
uma mão. Um terror que não percebíamos,
de ser arrastados por ela. A sua memória
continua. O inferno é a conta que nos deixou,
uma dívida por cada coisa que lhe tenha
sobrevivido, e o alívio por cada derrota,
cada tristeza e momento de luz que sem peso
apagaríamos. Que nos dá o descanso de saber
que ela juntou e levou daqui a parte melhor.


sábado, junho 06, 2015

Roma, cidade aberta


Um dia de Março, as árvores despidas ainda, simples árvores pacientemente
aguardando o calor verde das folhas,
igrejas cobertas de pó, vermelhão, ocre, siena, e bordô,
largas manchas de canela.
Porque é que deixámos de falar?
Na feira do Palácio Barberini, Narciso demora-se sobre o seu rosto,
sem vida.
Castanha cidade repetindo incessantemente: mi dispiace.
Castanha cidade, invadida por exaustos deuses gregos
como funcionários de escritório da província.
Hoje quero olhar os teus olhos sem me enfurecer.
Castanha cidade, crescendo nas colinas.
Os poemas são curtas tragédias, portáteis, como rádios a pilhas.
Paulo estendeu-se no chão, é noite, uma tocha, o cheiro do campo.
Impacientes olhares nos cafés, alguém grita, uma pequena quantia em moedas
fica sobre a mesa,
Porquê? Porque não?
O rugido de carros e scooters, o burburinho das coisas.
A poesia certas vezes desaparece, deixando apenas fósforos ardidos.
As crianças correm sobre o Tibre em curiosas batas escolares
do início do século:
perto, câmaras e holofotes. Estão a correr para um filme, não para ti.
David sente vergonha de ter morto Golias.
Perdoa o meu silêncio. Perdoa o teu silêncio.
Cidade cheia de estátuas; só a fonte canta.
Falta pouco para as férias, quando os pagãos vão à igreja.
Via Giulia: as magnólias guardam o seu segredo.
Umj momento de luz custa apenas quinhentas liras, que atiras
para uma caixa negra.
Podemos encontrar-nos na Piazz Navona, se quiseres.
Mateus não deixa de se questionar: fui realmente
convocado para me tornar humano?


- Adam Zagajewski
in Eternal Enemies

terça-feira, junho 02, 2015

segunda-feira, junho 01, 2015

Il bene è l’infrazione, il male è norma
nella nostra esistenza.

Vincenzo Cardarelli

Dependurados, caídos, acordamos sempre
estranhos, como quem dormiu ao relento,
pasto de estrelas, e demora mais a fazer
a infeliz conta. À volta, coisas longínquas,
mordo o reflexo na maçã, sabor que diz
à carne o que apodreceu. Pesado e medido
aqui há dias pelo mais extremo e o raio,
o que me tocou do derradeiro fôlego,
da ira senil que no fim traía o bardo?
(Nunca ninguém te escondeu aquilo
que os deuses se ofendem, lá nas alturas.)
Pobre génio obcecado, deu mais norte
ao sul que busco. Todos os dias,
algo diferente, dar corpo a outro erro,
nome também, para que um não se acabe
à sombra disto ou de outro vício absurdo.
No lugar de outra palavra, um passo, mas um
cheio desse cansaço maravilhoso, supremo,
como uma serenidade – o último orgulho
de um homem –, escutando as distâncias,
apanhando-as. Caroços de violino, dentes
dos grandes, a roupa usada pelas silvas,
um hálito imenso, uma outra idade.
O que da infância a colher susteve,
como um gesto para explicar a boca.
Curiosidade desatenta, um interesse
por outra gente. A mesa que segura
o canto de um café onde venham e falem
como no sono, façam a vida parecer algo
menos ordinária por uma hora ou duas.
Aprender a dispor da luz num poema
para estudantes de arquitectura, revendo
lições de intimidade. Perceber por que
a noite vê mais que o dia, como no vidro
dos corpos cada um escolhe e protege
o seu reflexo. E nada tem de acontecer.
Alguém já se contenta, dedo na boca, rindo.
O resto tu podes imaginar. Fábula generosa que
nos deixa à vontade, fazendo de umas poucas
ruas de encanto duvidoso o que Kavafis
fez de Alexandria. Febre dos lugares cegos,
pura espera: com tempo, toda a fome
nos ensina como matá-la. Foi fácil
alguma vez? Para mim foi. Tinha outras
armas, outra inocência. Tenho a certeza hoje
que viemos buscar aqui coisas diferentes.
Entendo-me com o silêncio e a eterna
demora. Não quis o inferno na gaiola
e à janela, para assustar ou comover a
vizinhança. Prefiro o passo à palavra,
e ter-me perdido, agarrado um erro,
estúpido e doce, grosseiro do seu bem,
sua escusada graça, como uma doida
bendição entre estes talentos.
Ficai, senhores, com o outro mundo,
eu sirvo-me deste.