sábado, maio 19, 2018

8º episódio



Com este episódio, o Arquipélago chega ao fim. A última de oito ilhas. Todas tão fora da corrente.

sexta-feira, maio 18, 2018

Cortes de um leitor [Diogo Martins]


“Consideramos hoje normal encontrar nas nossas revistas – quase como num velho teatro do mundo – todos os domínios justapostos de uma forma contrastada: narrativas sobre a morte de massas no Terceiro Mundo entrecortadas por anúncios ao champanhe, reportagens sobre catástrofes ecológicas lado a lado com o último salão do automóvel. Os nossos cérebros estão treinados a sobrevoar com o olhar um campo de indiferenças de uma amplidão enciclopédica – em que o assunto tratado não é indiferente em si mesmo mas pela sua integração no fluxo de informações dos media. Sem se treinar durante muitos anos a embrutecer-se e a amolecer, nenhuma consciência humana poderia lidar com o que lhe impõem imagens e textos de uma única revista volumosa; e sem um exercício intenso, nenhum homem suportaria, sem arriscar a aparição de sintomas de desintegração mental, essa constante oscilação de acontecimentos importantes e de acontecimentos insignificantes, essas marés cheias e vazas das notícias que tanto pedem uma atenção extrema para, logo depois, estarem totalmente desactualizadas.
[…]
Uma tremenda simultaneidade alastra na nossa consciência informe: aqui come-se; ali morre-se. Aqui tortura-se; ali, amantes célebres separam-se. Aqui fala-se da segunda viatura; ali, de uma catástrofe de seca que afecta países inteiros. Aqui, dão-se dicas para pagar menos impostos; ali, há a teoria económica da Escola de Chicago. Aqui milhares de pessoas fazem alvoroço num concerto pop; ali, uma mulher morta jaz no seu apartamento durante anos sem ser descoberta. Aqui dá-se o prémio Nobel da química, da física e da paz; ali, um comboio cai num rio com duas mil pessoas. Aqui nasce a filha de um ator; ali, as avaliações sobre o custo de uma experiência política cifram-se entre meio milhão e dois milhões (de homens). – Such is life. Tudo pode tornar-se notícia, tudo está disponível. O que está no primeiro plano, o que está em pano de fundo, o que é importante, o que não tem importância, o que é tendência, o que é episódico; tudo se integra numa linha uniforme, em que a uniformidade produz também a equivalência e a indiferença.
[…]
Assim, quando, de manhã, saio para a rua e os jornais do quiosque me interpelam, só tenho praticamente de escolher a indiferença preferida do dia. A minha escolha recairá neste homicídio ou naquela violação, neste terramoto ou naquele rapto? Todos os dias temos de reivindicar de novo o direito natural de não aprender milhões de coisas. Os media velam por que eu não tenha de recorrer a isso; e, simultaneamente, velam também por que milhões de notícias estejam prestes a atingir-me e eu não tenha de olhar para um título mais do que um instante sem que outra indiferença tenha conseguido atingir a minha consciência. Se conseguir atingir a minha consciência, leva-me também a ter de marcar em mim uma indiferença cínica relativamente à informação que me chegou. Hiperinformado, registo que só posso encolher os ombros ante a maior parte das coisas, pois a minha capacidade de participação, de revolta ou de co-reflexão é mínima relativamente ao que se me propõe e me lança apelo.” 
(Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, 2011, pp. 387, 388 e 394).

-------

«Aquele que fracassa na sociedade neoliberal do rendimento responsabiliza-se a si próprio e envergonha-se, em vez de pôr em questão a sociedade ou o sistema. É aqui que reside a inteligência característica do regime neoliberal. Não permite que surja resistência alguma frente ao sistema. No regime da exploração de outrem, pelo contrário, é possível que os explorados se solidarizem e se levantem unidos contra o explorador. É precisamente nesta lógica que se baseia a ideia de Marx da “ditadura do proletariado”. Todavia, trata-se de uma lógica que pressupõe relações de dominação repressivas. No regime neoliberal da autoexploração, cada um orienta a agressão em direção a si próprio. Esta autoagressão transforma o explorado, não em revolucionário, mas em depressivo. Já não trabalhamos para as nossas necessidades, mas para o capital. O capital engendra as suas próprias necessidades, que, erradamente, percebemos como próprias. O capital representa uma nova transcendência, uma nova forma de subjetivação. […]
Queremos ser realmente livres? Não teremos talvez inventado Deus para não termos de ser livres? Perante Deus, todos somos devedores em falta. Mas a dívida (die Schuld) elimina a liberdade. Hoje os políticos acusam o endividamento como causa que limita em enorme medida a sua liberdade de ação. Se estivermos livres da dívida, quer dizer, se formos plenamente livres, teremos de agir deveras. É até possível que nos endividemos permanentemente para não termos de agir – quer dizer para não termos de ser livres nem responsáveis. Não serão talvez as dívidas elevadas uma prova de que não temos em nosso poder ser livres? Não será o capital um novo Deus que nos torna de novo devedores em falta? Walter Benjamin concebe o capitalismo como uma religião. Trata-se do “primeiro caso de um culto que não é expiatório, mas culpabilizante”. O estado de falta de liberdade perpetua-se porque não é possível liquidar as dívidas: “Uma terrível consciência de culpa que não sabe como expiar-se, recorre ao culto, não para expiar a culpa, mas para a tornar universal”.» 
(Byung-Chul Han, Psicopolítica – Neoliberalismo e novas técnicas de poder, trad. Miguel Serras Pereira, 2015)


Um gajo hoje vê-se aflito se quer pôr os olhos no rasto de suor e tinta dalgum autor malcriado, seja dos que puxam da caneta como duma espingarda ou por que outros meios se arme para arrear no mundo, faça a sua fita, calibre o seu raio-qu'os-parta, assoberbe vulcânico o espaço em volta. Um escritor que não ponha a frase segundo a corrente comum, nos erice o juízo assim que lhe passamos os olhos pela linha, ainda a ferver, de tal modo que se tenha a sensação das paisagens dos dois lados da linha correndo por nós, num certo pânico, e seja impossível desmontar de tamanha fúria lançada. Mailer diz que estilo e carácter são uma e a mesma coisa. Já os que entregam a bobine e se deixam projectar na tela segundo os ritmos gerais, esses que estão bem para muitos, merecem-nos a maior das desconfianças. Afinal, em nome do quê vem um gajo meter-se em agastes destes se lhe bastava dar um recadinho. O que avilta é o quanto por aí vai de belfos dando-se uns ares homéricos, correndo pelos holofotes, que, numa época destas, mais não são que os candeeiros de umas quantas mesas apontados na mesma direcção, e lá vem o engraçadito do escriba com aquele ar de mal-nutrido roedor, a farda comichosa, como se para as letras houvesse ainda projecto, alguma coisa além das dores de cabeça dos mortos, o saber como tudo foi em vão. Que lhes tenha dado gozado, coçarem o rabo com a mão de deus, essa que deu por si a escrever páginas tremendas, e a glória que resta é ficar até tarde, uma dessas horas em que o mundo quase inteiro dorme, discutindo questões de articulação com uns poucos raivosos, sabendo, quanto ao mais, que chegou o tempo dos vermes, o tempo em que ser esquecido é um favor que se faz aos melhores, e depressa, antes que algum dos impiedosos imbecis se lembre de enfiar com eles no asilo dos papers, esse bando infernal de dentistas que continuam escavacando a carcaça, profanamente de roda do que não interessa, mandam-se aos ossos como a um mina em busca de indícios de oiro, e logo comparam-nos com um troglodita como esse porque se cruzaram com ele na cantina da faculdade, na festa de anos da Bárbara, um destes que se sentam a escrever romances, repetindo a miséria como a lêem nas revistas, carregando a frase a ver se a coisa soa, como se se tratasse de uma questão de cheiro, não tomando banho, refazer o coração com as matérias que parecem muito ricas noutra língua mas que logo murcham nesse coiboiinho de foscas impressões, os ventos outonais dedilhando as folhas secas, entoando uma música humana feita de suspiros, e depois que põem o livro cá fora, ficam-se a chocá-lo, mas o frio que faz, por mais que o aqueçam, só isso lhes resta, a longa espera, e pôr outro, e outro, fábricas de ovos, e ninguém tem o atrevimento, ninguém se arrisca a sugerir que talvez se o cozessem, talvez frito o ovo... Zangam-se muito, saem irados para baterem eles mesmos nas latas, e isto depois de tanto se queixarem de que o pior de tudo por estes dias é que já não se pode com tanto barulho.

quarta-feira, maio 16, 2018

Fogo cruzado


Queria escrever com ódio o teu desaparecimento
erguer fúrias e avanços como fazem
a lava, os tsunamis e os delirantes.
No entanto mandei outro e-mail
falando do vermelho dos pássaros do Índico
como no jazz o drible da constância é a própria duração
de umas gotas de chuva na nuca
região fadada à incorporação de entidades
às tensões musculares, aos arrepios
à necessidade da cabeça se curvar
coisas talvez que te lembrem na vida
do que gostas é tudo movimento
e é importante que tu não desapareças de vez.
Ter um anzol, um ponto de regresso, farol
esquecer que, no fundo, os suicidas têm sempre razão.
Quando você foi visto há 150 quilômetros de casa
rumo à Moldávia, Botswana, Brasil
ou qualquer um desses lugares que só existem nas aventuras
dos teus livros lidos desde menino
percorrendo a eletricidade do teu corpo
— disseram os que te viram —
cacos de vidro, arames retorcidos no lugar das ideias
uma grande incapacidade de ser insensível
somada ao egoísmo que todos temos
que tornou argamassa o horizonte?
Antolhos é o nome do acessório de tapar a visão
dos animais a carregar fardos maiores do que eles.
Ou qualquer coisa assim na tua face
os 150 corpos mutilados
mortos estampados nas capas dos jornais
eu espero que você não tenha visto
no longo caminho pra longe de si
as notícias dos últimos dias.

- Júlia de Carvalho Hansen 
(retirado daqui)

"Poemas Escolhidos", de William Wordsworth, tradução de Daniel Jonas (Assírio & Alvim)




(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


sábado, maio 12, 2018

sexta-feira, maio 11, 2018


a fome tão junto do ouvido e logo
tão chegada à boca que mal respiramos
dormimos mais tarde
em quartos para lá de escuros
e há raros lugares que despertam colando
as partes fundas da memória
como o tendão se enreda nesse tom perdido
das coisas que nos contamos
quando mal se ouve já a terra que vimos
fracos por uma toada que os sons cosem
lentamente, o vento nas árvores
cortes de luz e a queda dos frutos
que outras bocas possam saborear
o ar mudado, afectados da voz ao sangue
as pontas negras dos dedos
e as impressões queimadas por um astro sôfrego
movimentando-se entre elas

de um rastro selvagem aspira o perfume inteiro
o peso justo, o corpo imenso, o luxo
e a morte às mãos de quem?
que admiração terrível, e o remorso
contra mim, contra esta mão perfumada
pelo velho gesto
que um golpe tão curto pudesse ir tão fundo
eu não supunha e agora que a música cresce
e este chão que não me chega, falta-me
o degrau certo, não desço nem subo
pago creio eu o inferno antecipado
soprando estátuas de cinza nas ruas quietas
onde fede a morto
sinto um tremor, as letras movem-se e o vento
parece que as lê como se eu fora cego

há uma dor conhecida de quantos homens
a de ter-se menos que um rosto por cada cem
entre os próprios passos sentir
noutro lugar a harpa
das formas que nascem insistindo
os grandes espaços entre as palavras
emprestam outra sensação às mesmas coisas
outro tempo começa, e nós de fora

derrubássemos mil árvores
e nenhum fruto tocaria mais fundo
esta fome, mas esperámos tanto
e por fim chega uma hora possessa
em que a beleza se despe
deitando-se nua na cama
e do desejo nasce o horror quando
a sua estranha carne se furta ao nosso gesto

Cultura como contrafacção


"Morre-se e não se faz grande barulho" (Saint-Exupéry). E isto por mais ruidosa que a época seja. Sentença que aos condenados há-de soar doce como um consolo em face das terríveis expectativas que estalam sobre as nossas cabeças. O assobio desse chicote impondo a ordem no circo. Entre habilidades e aplausos, o que houvesse de selvagem degradou-se entre o gozo e o bocejo da plateia. Incapazes de andar a par da nossa consciência, abre-se esta dolorosa bifurcação entre actos e protestos. Cooperamos com tudo o que nos amestra. Numas poucas linhas e em letras pequenas são incendiadas bibliotecas, e os melhores tratados nada podem frente aos sinais devastadores que pesam toda uma época. Que mais senão um riso escarninho se ouve quando, por estes dias, em vésperas da Feira do Livro, a APEL lança de novo a sua desavergonhada campanha em busca de voluntários? Um rito sacrificial dirigido a jovens e desempregados, modalidades actuais do desespero. Não se antecipa assim a derrota de qualquer valor que eleve a actividade do espírito quando a hipocrisia impregna tudo? Por mais livros que se vendam naqueles dias (e mesmo se não nos fosse lícito supor como só uma ínfima parte será assimilada), o que podem as melhores criações do espírito contra algo tão infame se não provocam qualquer insurreição? Numa época em que todo o conteúdo ético, no plano prático, é dispensado como uma ingenuidade, os grandes valores mais não são que ecos desfasados de toda a realidade, uma contrafacção irónica que faz de nós fantasmas habitando a sombra dos nossos ideais.

A sátira de Karl Kraus


FERNANDO SOBRAL, Jornal de Negócios 11 Maio de 2018 
Karl Kraus foi, na viragem do século XIX para o XX, uma das principais vozes de Viena. A forma como via o fim do império e a maneira como criticava a política e a imprensa impressionam pela lucidez.

Na Viena do “fin de siècle”, a política tinha-se tornado na menos convincente das artes. Talvez por isso Karl Kraus considerava que a vida merecia uma causa melhor. Na viragem do século XIX para o XX, não eram os políticos que conquistavam a atenção das classes altas: eram os actores, os músicos, os escritores e os pintores. O Império Habsburgo desintegrava-se a olhos vistos e, para Kraus, era evidente que a vida já não imitava a arte: parodiava-a. Por isso, devastando severamente a imprensa (meio utilizado pelo poder político para se afirmar), encontrava o alvo perfeito para ilustrar a decadência reinante. Estes notáveis “Aforismos”, agora editados entre nós, ilustram perfeitamente este estado de alma: “A missão da imprensa consiste em divulgar o espírito e, ao mesmo tempo, destruir a capacidade de assimilação”. Dizia que os jornalistas escreviam porque não tinham nada para dizer, e só tinham algo para dizer porque escreviam. Kraus editava e escrevia grande parte do seu jornal Die Fackel e utilizava a sátira para mostrar o colapso do Império e o caminho para a guerra. E, por isso, ligava a arte da representação a tudo o que se passava no universo social ou po- lítico. Segundo Kraus, era necessário alguma vigilância para se entender melhor a “mascarada” da vida moderna. Para o autor, o excesso de ideologias e de opiniões estava a transformar as pessoas: estas sofriam com as ideias dos outros e nunca mais recuperavam. As pessoas deixavam de ter uma ideia própria, contaminada por clamores sem fim. O fim dos consensos era, para Kraus, o sinal de que o ideal de “mundo partilhado” estava a acabar. No seu lugar, estaria a ser imposto pela imprensa um mundo que os seus donos, os homens de negócios, desejavam. As “frases vazias” tornaram-se, a partir de certa altura, o seu maior alvo. E, por isso, os seus aforismos tentavam dar a volta a estas frases vazias, sem conteúdo. Escreve ele: “O império está edificado ao estilo das suas casas: inabitável, mas belo. Fez-se pela existência de arcadas, mas pode dizer-se com orgulho que se esqueceu das casas de banho. Somos finos: na nossa terra, é nas arcadas que cheira mal”. A sátira era por isso uma força determinante para Kraus tentar lutar contra o evoluir de tudo aquilo que via corroer a vida e a alma das pessoas. Com o tempo e com a situação a piorar cada vez mais, Kraus acabaria por enveredar por um caminho ainda mais perigoso: o de ver os sinais do fim do mundo. Talvez por isso, se tinha amigos, Kraus também tinha muitos inimigos. Mas isso era óbvio: a provocação era o seu meio para agitar as consciências e para descrever tudo o que de mal via à sua volta, em Viena, no Império e no mundo. Até a misoginia patente nestes aforismos acaba por ser divertida, porque é antiquada e inteligente. Kraus gostava de coleccionar inimigos, a começar pelo seu país de origem, a Áustria, e isso está espelhado neste volume, que fala de política, filosofia, imprensa e do papel do artista na sociedade. São frases pequenas e cirúrgicas. E, muitas vezes, mortais.

quinta-feira, maio 10, 2018

domingo, maio 06, 2018

"O Homem Pykante - Diálogos com Pimenta", de Edgar Pêra



(abre a imagem noutro separador para a ampliares)


quinta-feira, maio 03, 2018

Adiante


Vi que ele sabia morrer - mas não estava sozinho, e é de facto pouco próprio morrer-se junto dum amigo. Sei também o preço daquela fala: muito silêncio perdido, a falcatrua aos melhores anos da nossa vida, alguma, digamos a palavra, solidão. Deslocam-se em cardumes os salteadores de estrada - nenhum é perigoso, mas o drama, justamente, vem disso. Também nunca me falaste dessa história dos bares do sul, em qualquer lugar há uma garrafa de Deus quando à luz da noite bancos de pedra filtram a voz que se quer. E no entanto, é verdade, a única coisa que em todos os lados do mundo falta é sempre o derradeiro canto. Não faz mal, porque assim temos todo o tempo para morrer, e a distância entre dois códigos acaba por ser um tropel estritamente individual. Neste preciso instante a sombra imóvel desfigurando-te o corpo - é preciso amar muito as ruas para perdoar o mundo. Já não podes falar? Bebes o sangue? Adiante. Finalmente tudo o que fazemos é viver a morte, essa ficção inofensa e terna. «Ser livre é simplesmente conservar o poder de em qualquer altura mandar um filho da puta para a puta que o pariu». Há sempre muito pouca gente em cada geração capaz de dizer uma coisa assim. 

- José Amaro Dionísio

Vasco Santos Editor


(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


Entrevista a António Sousa Ribeiro / Jornal i



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

Clica aqui para uma versão alargada da entrevista