sábado, setembro 16, 2017





Talvez seja só a ressaca de descer
de uma tão alta criatura,
o que de um homem fica para rastro
– ligaduras, a casca de um fruto –,
tendo descoberto pela manhã o ensaio
de seda no quarto dela, a metade
de uma maçã no espelho, e deste lado
nada. O copo no chão, um peixe
deitado na carpete, e, se a boca mexe,
a cauda já faz parte do padrão.

Empurrar portas, avançar pela idade
essa invasão musicada e o álcool
de que se erguem lentamente
suaves vultos cruzando a tua história.
Queimado na roupa, nos papéis,
esse buraco de perfume vivo ou a simples
atenção ao mundo, o olhar animal
que tudo volta sobre nós, e como
as flores se dispõem em itálico,
vergadas por esta luz.

Atravessamos a terra, vistos de longe
pelos nossos sonhos.
Temos vinte anos, uma mão perdida,
outra voltando as páginas do jornal,
comendo uma estrela apagada.
As descrições abalaram-nos,
tremíamos com o rosto encantado
pelos simples factos, luzes fortes
no meio das frases, certas variações
abrindo sulcos na circulação do sangue.

Há dias um homem foi morto ali, em frente
aos pássaros. Estão calados, a tarde no meio
e o segredo a roê-los; tão distraídos
agora que dá para agarrá-los à mão.

Corta a flor escura e o pulso erra,
mas volta pelo caminho que fizeste
virando as sombras com um pau.
O necessário antes do mais é dominar
a arte de adivinhar, quando bêbado,
o caminho para casa; por doçura.

A hora perde-se e tu num ramo,
o retrato de pássaro escutando
esses sons vertebrando o escuro
nalgum bosque solene, carnívoro,
onde a rosa de um mundo acabado
se abre, sorri e desfaz.

Do aroma que desloca as paisagens,
colhes as ervas, levas ao lume
e a cozinha torna-se rumorosa.
Levantas a pedra daquilo que escreves,
as linhas tremem como se um comboio
fosse passar, e perguntas-te quantos passos
nos separam das noites naturais
a essa visão de um território bêbado.
Talvez não passe mesmo de ressaca,
meu vinho atento e os cães que
não voltam do cheiro dela.



domingo, setembro 10, 2017

"Os Idiotas da Objectividade", crónica actualíssima de Nelson Rodrigues


“Sou da imprensa anterior ao  copy desk.  Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria  vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.
Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o  copy desk  não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o  copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação. Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do  copy desk.  Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação. Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime  passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk.
Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o  Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”.
Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro.
E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva  via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o  Diário Carioca  o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina.
Era, repito, a implacável objetividade. E, depois,  Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca?. A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdida-mente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”.
O  Diário Carioca  não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade.  As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua  cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa  emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil.  A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre  o Jornal do Brasil  e a tragédia, entre  o Jornal do Brasil  e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete.
O Jornal do Brasil,  sob o reinado do  copy desk,  lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira  que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do  Jornal do Brasil  tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas. E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk  vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem,falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o  clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude  copy desk, talvez.
Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem. ”

[22/2/1968]

Miró em Lisboa / Sol



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


Le livre est sur la Table


All beauty, resonance, integrity,
Exist by deprivation or logic
Of strange position. This being so,

We can only imagine a world in which a woman
Walks and wears her hair and knows
All that she does not know. Yet we know

What her breasts are. And we give fullness
To the dream. The table supports the book,
The plume leaps in the hand. But what

Dismal scene is this? the old man pouting
At a black cloud, the woman gone
Into the house, from which the wailing starts?

- John Ashbery

sexta-feira, setembro 08, 2017

Miró no Palácio da Ajuda



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quarta-feira, setembro 06, 2017

Charles Baudelaire, 150 anos depois



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)


terça-feira, setembro 05, 2017


Visitar-lhe o corpo, as mãos às paredes, atento a irregularidades, o golpe de faca na respiração, um silvo, um comboio ou uma doença vindo nesta direcção, ter-lhe pedido um prazo, retirado os cartazes da campanha, as luas que desci, com um vinho brando, coisas de amante, metendo o escadote para o primeiro andar, nessa zona frágil da cidade onde se pode ser visto contra tudo o que se é, reescrito a partir de antigos textos destruídos, e cartas, visitas de outros homens, e ver o pensamento nocturno de meses exposto, o fósforo aceso nos seus ombros, lendo-lhe Rilke, imaginando que se possa pegar fogo a isto tudo, no fim de um verão violento, quase desesperado, tendo escrito os sons para que a língua se perdesse do que já sabia, levando às costas o sino que só ela oiça quando for tarde para dizermos a verdade, e nada se veja, nos guie apenas "o som do sol desfeito nas colinas", e saiba então que já estava morto, era setembro, e para distrair-nos eu continuava a falar.


Ia contar-te os dias e as noites de um ladrão de estradas, tinha uma lista feita para o que te havia de parecer uma balbúrdia, era importante que abrisses muito os olhos, nem respirasses, começo por me lembrar de detalhes como roupa largada, dispor as coisas ardentemente, extrair fórmulas de algum livro de magia, incompletas, sem efeito, e puxar aragens medievais, fingir que sei ler mãos, deitar cartas, ver o céu cair-te na pele, os sinais como pontos de referência para as constelações, de tal modo que me pudesse meter de noite num barco com um isqueiro, pôr-to junto à pele e ler o caminho sem olhar para cima, ouvir enfim uma canção que te escutasse, a mão deixada para trás, enquanto me conduzes nua, o apartamento exactamente do teu tamanho, sentir as cuecas descer pelas pernas da noite, assistir de cima aos raides de bar em bar. Gosto da forma como tens a cama feita sobre o clamor daquelas ruas aonde os outros juntam a noite toda inteira, e como ter as mãos no teu corpo é como estar em cima de uma árvore, ser verão, ser puto, ter uma vontade danada, ter ficado com a miúda, ser um herói para os pássaros. Antes disto, tinha concordado com coisas terríveis, ia acabar por me juntar ao bando que se formou para me dar uma sova, merecida, sem dúvida. Oiço-os afiar a faca da sua moral intermitente, mas o que me importa? O desejo cansara-me muito, havia "emagrecido de olhos presos a uma túlipa", depois de ter provado o corpo na abertura de um relâmpago, ia arrancando aos sonhos pormenores tantas vezes falsos para o meu relatório: o que a língua se proíbe, de onde a memória, por cautela, vai fazendo a sua retirada, para que não nos petrifiquem certas visões. A imaginação tece o seu consolo, e de algum modo proibi-me de te ter, mas de noite o meu quarto tornava-se irreconhecível, de tanto te trazer nos braços, como àquele vestido em que te achei um assombro, dei a volta ao prédio, puxei-o do estendal, trouxe para dentro e fiz dessas coisas que imaginais e depois também das outras. Quando calha entrar de rompante, encontro-o junto à cama, de joelhos, rezando, não quero saber o que seja, a que alturas se dirige, meio descosidas já as pétalas caídas das flores estampadas, trago-o para dançar, digo-lhe o teu nome e sinto-me pisar as ruínas de Tróia dando a volta ao quarto.

Valhalla


Não são bárbaros -
falta-lhes o tempo imóvel, o relato
de proezas tão rafeiras como o assalto nocturno
a uma plantação de melões, o beber sem tropeços
um copo cheio do uísque mais rasca da xafarica,
ou somente o não responder pelo nome,
deixá-lo ao abandono nas reverberações da sala

Falta-lhes o desprendimento do pequeno sabre
que invade o sobrescrito e não precisa
- para quê??? - de conhecer o seu conteúdo:
não será verso que perturbe a sua existência aguçada

Falta o lento armar das ratoeiras
e a posterior, sempre atrasada,
evolução da teoria dos venenos
e falta o violento arremesso do pião,
xamânico gesto de quem se propõe furar a Terra

Só não faltam o simulacro e a didascália -
quis o acaso que se encontrassem
na peça errada

- Luís Pedroso 
(inédito)

John Ashbery 1927-2017



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segunda-feira, setembro 04, 2017

Chico Buarque, o escritor e o letrista

No Sol


No Jornal i


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Herberto Helder, "Servidões" (Maio de 2013)



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quarta-feira, agosto 30, 2017

segunda-feira, agosto 28, 2017

Caim/Lilith, de Sandra Andrade, Douda Correria



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I'm dying up here, 1ª temporada



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