sábado, abril 04, 2020


Odeio as viagens e os exploradores
mas coço e remordo-me, esmago na pele parasitas
coleccionados sem querer
em tão remotas ou exóticas paragens,
sítios onde nunca pus os pés,
sinto que deixei lá noites mal dormidas
perseguido entre escritos esparsos e fragmentários
tanto cuspo, cordel, o colibri necessário ao quinto acto
candeeiros que persistem num subtil tremular
a rosa que devora tudo antes de se deixar
desfazer num suspiro quente,
a rosa ávida que se serviu do pior de mim,
dos sonhos de que saí aos gritos
e em troca expira esplendor e eclipse
Hoje, que gestos te servem de remendo?
Deixa a água correr, faz a barba
a todos esses tipos que fazem fila
quando te olhas no espelho
Juntos, afastam-se de um mundo envelhecido
das mulheres que de dia nos mordem
nos perturbam o sangue como de noite
o fazem os percevejos. Ilhado,
sou um estudo frio de tantos outros
educando ciúmes, a balouçar-me num breve olhar,
regressando de uma ira imensa com que colhi
do jardim perdido entre as antigas pragas
esta flor que do teu cheiro tirou a receita
para um final tão inclemente que se ri


sábado, março 28, 2020


Fiz um órgão vital de um mosquito que selei
numa gota de mel, enviei-to como carta,
O poema tresandava do cheiro de ter estado preso
tê-lo lido aos ratos e às estações, ter escondido riquezas
nele, quadros, retratos, lenços
de bolso, bandolins e metáforas,
Sabes o que é, caprichos de ladrão,
de um bom gosto sagrado
Que árdua é a ingenuidade, ter-se um talento
que te perdoe quantos crimes sejam necessários
A noite movendo-se aflita em torno:
O que foste fazer?
Estórias, senhas, segredos, leituras da posição
dos astros, espreitando no buraco
entre quartos, camas desfraldadas, jardins abertos
depois do sexo,
O pincel pousado, o fauno vendo morrer o seu
labirinto, a beleza que alguma vez posou
para mim, dói-me de todas, cresce, volta-se
Deixou que perdesse família, posição,
bom nome; e o que lhe fiz
É um monstro, a musa,
mas que coisas sabe, e me diz,
O chamar-me tão tarde
quando ninguém no mundo tem nada,
Como te levanta te põe um dedo nos lábios,
E te diz aqui, ali, não, frio, morno, sim
Desce, esquivo, faz-te intruso, adoece e muda
Tem-me vivo, atento, pronto
Atreito à errância, bom para recados
A seguir a lua, bebê-la, levar a cara às fossas,
lavar-me como faziam os santos,
ver-me nu, passando fome, de uma brancura
que cintile, cabra, tudo o que queiras, onde
e como queiras.


sexta-feira, março 27, 2020

língua morta 102




MORADA NÓMADA
reunião da obra poética
de Luís Carlos Patraquim

capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[300 exemplares, 340 pp., 14€]


quinta-feira, março 26, 2020


Não sei se já pensaram nisso, mas se o negócio dos livros for com os porcos, só vão poder contar com uns poucos editores perdulários. Mas quantos? O que pareciam migalhas... Acaba-se a mama e aí se vai ver o que fica. Dê por onde der, nos próximos meses, vai ser uma limpeza. E por uns tempos, os que aí estão afadigados, cheios, hão-de saudar esta suspensão, o tremor inquietante depois de se recolher sem aviso uma tremenda agitação, deixando aí largadas tantas coisas, cegas e estranhamente sigilosas, como tácitos escravos. Entre elas livros possuídos da frivolidade de uma hora que se evaporou, expostos agora na sua absurda necedade, como testemunhas de acusação que nos falam de tudo o que se fez sem razão, gravidezes que se aproveitaram do tesão do mijo. Um império de abcessos, de ridicularias. Não demorará muito para que tudo isso nos cause arrepios. Ruínas que estão prestes a fazer troça de nós. Nas livrarias pilhas desses livrecos para aqueles a quem não basta a televisão, as sessões de idiotice patrocinada... Pois esperem até se ouvir os pássaros no idioma, não nas margens, piando, mas na própria mancha de texto, repovoarem-lhe áleas e recantos, virem indagar que treco nos deu, que silêncio todo é este, os lugares desertos rezando para que não voltemos tão cedo, até vir à tona o burburinho dos mortos, enquanto quem se recolheu inspira através deste delírio comum entre as filas de secretárias nesta sala virtual, e no abandono que vai lá fora se pressinta um desejo de ocupação. Não está difícil acreditar noutras subtis calamidades. Neste intervalo dão-se outras tentativas. Notas que serão trocadas a uma outra luz, enquanto as nossas próprias vidas não parecem senão aspectos de uma ficção confusa, um primeiro esboço abandonado a meio na década de 60 do século passado por um escritor de ficção científica que decidiu dedicar o seu tempo a coisas melhores, coisas como tratar melhor das roseiras, e puf, lá se foi esta porcaria em que estávamos tão investidos, a última frase incompleta engasgada à espera de um impulso na fita da máquina descorada, e ninguém que nos valha, só um estúpido final, um vírus quase informático, um bloqueio dos sistemas e aqui estamos, nem anjo exterminador nem juízo de espécie nenhuma, nunca mais os deuses perderão o seu tempo connosco. As nossas queixas, os gritos e depois os soluços, à distância, serão como uma ténue vibração ou música, quase prazerosa... E já não vos posso dizer mais nada, o que vi depois era mais do que até eu podia suportar.

segunda-feira, março 09, 2020

Calasso


Os grupos não são uma expressão de espontaneidade democrática. A sua origem é muito mais antiga. Formam-se sempre grupos em redor de um cadáver. Quando não existe cadáver, esse espaço vazio evoca os muitos cadáveres que aí estiveram e os muitos que ainda hão-de estar. É o último rito que mantém coesa a sociedade civil. O grupo é um “cristal de massa”. Aqueles que o compõem obedecem a uma vocação, revelando de súbito a sua pertença a uma vasta seita: seguidores devotados de um poder oficialmente inócuo, essencialmente persecutório: a Opinião. Empurram-se e acotovelam-se sem disso se aperceberem; todos convergem para o mesmo ponto, que é o círculo vazio no centro do grupo. Aí, como fez notar René Girard, puderam ver certa vez o corpo mutilado da vítima do linchamento original.

Kraus


No café, entre amigos, no trabalho ou no restaurante, não há perigo em protestar contra a “insanidade da guerra”. E quantos se embeveceram com aquela horrenda pomba da paz que Picasso ofereceu a Estaline? Kraus disse algo de muito diferente: disse que a paz se funda no massacre e que a guerra é o baile de beneficência no qual a humanidade encena o que normalmente faz, mas de que não fala, de modo a que o público se entusiasme e faça pequenos donativos em número suficiente para que o massacre continue. Ao contrário de muitos, Kraus não retratou os horrores da guerra. Limitou‑se a anunciar a definitiva impossibilidade da paz: 
O OTIMISTA: Mas todas as guerras até hoje acabaram com uma paz. 
O ETERNO DESCONTENTE: Esta não. Esta não se desenrolou à superfície da vida, destroçou a própria vida. A frente de batalha expandiu‑se para o interior do país. Vai aí permanecer. E a velha atitude mental vai juntar‑se à vida transformada, se ainda houver vida. O mundo desmorona‑se e ninguém se vai dar conta. Ninguém se lembrará do que aconteceu ontem; ninguém verá o que está a acontecer hoje; ninguém receará o que vai suceder amanhã. Todos esquecerão que se perdeu a guerra, esquecerão que se começou a guerra, esquecerão que se levou a cabo a guerra. É por isso que ela não vai acabar.


Antes um velho chalupa resmungando com as estrelas, ou até, na falta delas, dirigindo-se directamente ao breu. Vendo à sua frente o campo de batalha, frio, as crateras já sem qualquer sinal de vida, a imensa noite abandonada. Antes uma desilusão de todo o tamanho, sem saída. Antes esse que se põe numa estrondosa aleivosia, cuspindo impropérios sem um destinatário certo, antes isso do que esses jovens farejando trufas entre as ruínas, servindo-se dos despojos, ansiosos por consertar as mais inúteis convicções, vir em socorro do passado, animando-se com algo tão instintivo ou tacanho como o desejo de auto-preservação. Antes um velhadas de cajado num lar a levantar a última saia antes do fim do mundo, a rir-se desdentado, e a tentar retirar do escuro umas formas que dêem uma ideia do que Deus tinha em mente, do que estes jovens pestíferos que apenas alimentam o fluxo contínuo e obstinado das mais taralhoucas ficções, essas que suplantam a vida, tanto no seu aspecto mais absurdo e desgovernado como na grande beleza e nos momentos em que se decanta como música ou silêncio. Antes o raio que nos parta de uma vez do que este som de realejo a produzir o cansaço das velhas noções de esperança, de uma decência desoladora, de uma moral sufocante que não é senão outra patranha. 
Assisti há pouco a um curioso diálogo entre um velho albino, cabelo e barbas ralas, bastante gordo, e um jovem desses demasiado etéreos até para se discernir o sexo, desta nova raça de anjos enfastiados que circulam entre nós, sem que pareça haver alguma coisa neste mundo que os espante ou seduza. E diante de uma cena digna de assombro, que se passava num ecrã, o velho babava uma espécie de piropo casto; sem luxúria, só mesmo encanto. E a miuda - presumo apesar de tudo que fosse uma ela -, desculpava-se por ele a uma amiga, dizendo que é o tipo de coisas que profere estando de acordo com a sua era: "A Era dele não sabe fazer melhor." A isto ele retrucava: "Diz lá outra vez?". E ela: "Tu és da Era que não faz ideia... Essa que diz coisas estúpidas e troca tudo." E agora é a vez do velho: "Tu é que és a Era que não faz a menor ideia. A tua Era não sabe porra nenhuma. Todos tão políticos, tão despertos... Mas, na verdade, não sabem puto de história, não sabem puto de arte, nem de música. Por isso, não sabem nada de política. E não estão despertos, estão simplesmente comatosos." E ela: "Eu não sei nada de música? Por favor..." Ele: "O que é? Tens ouvido Bach, tens passado muito tempo a ouvir Coltrane?" Ela: "Não." E ele conclui: "Então, fecha-me essa matraca."


quarta-feira, março 04, 2020


Há-de ser madrugada por aí. Com que diferentes idades te vejo acordando aos tombos entre os degraus que se aclaram entre nós... Tomei boleia de um bote fantasma, um tipo alto seco que oiço cantarolar no seu zelo ébrio e que me levou aonde são deixados em branco os mapas, não levei uma só muda de roupa, só versos incompletos à espera de um rasgo, um volte-face, um gole de mar gemendo de tudo, num assalto ao eterno tom, esse que viu o azul tornar-se um clássico, e disse porra, isso não, tapou-se, fugiu daqui, isso e impensáveis tesouros, a herança de corsários nascidos em berço de ouro, náufragos como pérolas em galeões afundados, as obras completas desses que haveriam de ter escrito passagens para outro mundo mas acabaram incompreensíveis na memória frágil dos peixes, e chego aqui deslumbrado com todo o esquecimento, redigindo à pressa estas crónicas, como um naturalista lançado no Além, por vezes sinto que nem escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer, passar a limpo a peste, os nomes como são ouvidos cuspindo, manchados, urrando, a série completa das doenças, a epidemia dançando no meio das cidades, a canção das mil moscas em torno do dedo que apontou a única direcção, escrever com os olhos comidos, com a morte com receio de se chegar, piscar o olho à bibliotecária, contar-lhe as lendas de embalar com que se entretêm os mortos na sua noite sem fundo, recitar-lhe o poema copiado à mão, escrito nas bainhas de uma flor, para que a belisque o cheiro, a siga, com a calma compenetração de um sedutor, e mesmo que lhe rechace os avanços, acabe traindo-se, decorando-o, e cada verso lhe vibre atrás das têmporas, nos jardins que traz suspensos, e enfim regresse um dia mesmo que desfeita em pó, grãos ou pedrinhas, trazida por caminhos de formigas, e ali passe, se desnude, viva, costurada na intimidade deles.


quinta-feira, fevereiro 20, 2020

língua morta 101



CLAVICÓRDIO
de Andreia C. Faria

capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[400 exemplares, 94 pp., 9€]


quarta-feira, fevereiro 19, 2020


O escritor olha à sua volta, não gosta, mais: até torce o nariz. Com alguma propriedade, vem e resmunga, logo afina, satiriza, faz troça. Nalguns o talento para a má disposição dá por si só um bico-de-obra. Coisa espantosa! Parecia que se ia fazer uma agitação. Lá em cima, as copas ficaram desertas. O passario mandou-se antecipando o pior. Mas eis que a fila à frente do autor de súbito se encurta, dão-lhe prioridade, faça favor: lá lhe cai outro prémio na tola. Acontece que, ao invés de um galo lhe nascer ali, fica ele obrigado a cantar de galo, vir para a cerimónia da sua coroação. Já sabemos como, por mais que lhe custe, ficaria muito mal fazer a fita do mal agradecido. Isso hoje não se perdoa ao artista. Assim, as galinhas tratam de orientar a gala, enchem-no de mimos, envergonham-no o mais que podem, com essa admiração-lixívia, e a paz é restaurada no galinheiro. Nestas voltas, o problema maior é o talento do drama para se disfarçar de comédia, sair por cima: quanto mais a realidade parece troçar de si mesma, mais curto fica o regime mental, a guerra parece de todo inconcebível, só o trabalho de desempacotar os fuzis, abrir fogo sobre as galinhas, o chiqueiro, a balbúrdia, e amanhã como era? Não havia ovos para o pequeno-almoço?

David Berman, ACTUAL AIR

ÁGUA CLÁSSICA

Lembro-me da Kitty dizer que partilhávamos uma ânsia profunda
pelo prémio de consolação, e ríamo-nos enquanto lavávamos o autocarro escolar.

Lembro-me da noite em que fomos acampar
                e a ouvi sussurar
"pensa em mim como um lugar" de dentro do seu saco-cama
                com o símbolo do centauro.

Lembro-me de estar na oficina do pai dela na cave
quando apanhámos um velho desconhecido a soluçar
no rádio de ondas curtas

e a noite em que ficámos tão pedrados que nos convencemos
de que a estrada era um holograma projectado pelos faróis dos carros.

Lembro-me que ela obrigava sempre toda a gente a votar
naquilo que devíamos fazer a seguir e da vez em que disse
"toda a água é água clássica" e timidamente virou a cara.

Nos jogos de volley os pais dela sentavam-se em cadeiras desdobráveis
como embaixadores do Indiana com o panache próprio do midwestern.

Ela ficou desolada quando eles foram de cana por operarem
um sistema judicial privado dentro das fronteiras dos EUA.


Às vezes sou despertado a meio da noite
pelo barulho de um carrinho do serviço de quarto e penso na Kitty.

Aquelas noites de verão junto ao lago municipal,
a discutirmos o paradoxo dos múltiplos Pais Natal
ou a sensação que é ser-se abandonado numa relação.

Ainda fico com aquele peso cá dentro no Labor Day quando o verão acaba

e lembro-me de como me referia aos namorados dela
por o não-sei-quantos, o que era manhoso da minha parte e queria
pedir desculpa a cada um deles, agora, onde quer que estejam:

Ninguém merece ser chamado por o não-sei-quantos.


David Berman, ACTUAL AIR

NEVE

Caminhando por um campo com o meu irmão mais novo Seth

Apontei para um canto onde os miúdos tinham feito anjos na neve.
Por alguma razão, disse-lhe que um batalhão de anjos
tinha sido abatido e se haviam dissolvido ao cair no chão.

Ele quis saber quem os abateu e eu disse que um agricultor.



Depois estávamos na superfície gelada do lago.
O gelo parecia uma fotografia da água.

Porquê perguntou ele. Porque é que os abateu.

Eu não sabia onde é que ia com aquilo.

Eles estavam na propriedade dele, disse-lhe.



Quando neva, os exteriores parecem-se com um quarto.

Hoje troquei cumprimentos com o meu vizinho.
As nossas vozes encostaram-se nessa nova acústica.
Um quarto com as paredes desfeitas em pedaços e a cair.

Retomámos o retirar da neve, lado a lado a trabalhar em silêncio.



Mas porque é que eles estavam na propriedade dele, perguntou.


sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Paulo Leminski, depoimento


O conto democratizou a literatura no Brasil.
É o volkswagen dos gêneros, aquele que pôs a classe média sobre quatro rodas.
Com o triunfo do conto, todos podem pensar em ser escritores, entrar na literatura, ingressar nessa carreira com mais passado que futuro.
A poesia é muito rara, muito difícil, muito sacrificada.
O romance é muito longo, exige capacidade de orquestração, domínio do todo e das partes, fôlego de mergulhador, paciência de beneditino, coisas difíceis de encontrar por aí.
O conto é a solução.
Contar uma história é a maneira mais óbvia de estruturar um texto.
Mas há um infinito de maneiras.
Por que preferir o óbvio ao infinito?
O nascente e crescente público consumidor de textos não-práticos assim o quer.
O tempo anda tão caro e tão escasso, para que complicar a vida das pessoas?
Entendo que muitas coisas estejam se passando sob as espécies de conto: política, conquistas de linguagem, ampliação de mercado.
Mas acredito, com Décio Pignatari, que, no conto, interessa o que não é conto.
Interessa o que é outra coisa: signo, violação, flagrante delito.
A fordiana produção em série de contos obedecendo a uma mesma programação (com variantes insignificantes) que vemos hoje deverá crescer até o processo produzir, por extrema redundância, contradição interna e arrebentar em nova síntese, imediatamente canonizada como a nova ordem.
Fundamental o papel que o conto está desempenhando no sentido de firmar o nome de escritores brasileiros, movimentar o mercado editorial e livreiro.
Nesse sentido, o conto merece o que está acontecendo com ele: está em vias de se transformar em sinônimo de literatura, no Brasil.
Calculo que, para cada vinte novos contistas que surgem, surge um poeta.
Vocações para romancista também são mais raras.
Mas essa nossa emergente prosa de ficção apresenta nível de redundância e banalidade estrutural só comparável ao do soneto no passado.
O conto é o soneto de hoje.
O soneto também foi veículo cômodo e portátil para divulgar e generalizar a prática e o consumo da poesia.
Afora isso, está sendo muito pequeno o contributo do conto para o progresso do texto de imaginação entre nós.
Nossa prosa não aguenta confronto com os latino-americanos, mais atrevidos na concepção e na realização, mais surpreendentes, mais corajosos na inovação.
E a vida, que vocês tanto falam?
Quem escreve como se escrevia há vinte anos atrás sai de livros de literatura, não da vida. Inovar! Aprendam com a vida, que é a mãe inesgotável de processos, formas e estruturas.
Parte da resistência da inteligência letrada ao nosso estado de coisas está se fazendo sob a pele do conto.
Pena que essa resistência se dê, na maior parte, através de conteúdos muito previsíveis, por intermédio de recursos, soluções e efeitos herdados passivamente e não questionados.
Quase não se vê ninguém nas trincheiras da linguagem.
E a cerração da redundância torna mais escura esta noite que sabe Deus quanto tempo ainda temos que sofrer.


Décio Pignatari:


letras de merda! cagas pra cima ( uÓdio ) onde outras toneladas-de
creto de concreto de bosta soltam o barro para baixo o bairro e se
alatrinam na justiça ( uÓdio ) ou bem cagas no campo e adubas o im
pulso de tôdas as raivas contra tôdas as covardias? o ódio ( uÓdio )
letrasdemerda ( uÓdio ) o ódio ( uÓdio ) não a paciência que se ca
rcome na subserviência e escancara as duas abas da bunda malemolen
te ao subôrno em forma de salário legal! os intestinos dêste povo
iletrado estão cheios de ar bombado à fôrça de êmbolos de açúcar e
o seu dedo lê tartamudo meia coluna de jornal em meia-hora ( uÓdio )
ao fim da qual êle decifra a sua escravidão! pois hão de preparar
lhe um texto que ( uÓdio ) ao decifrar-se ( uÓdio ) exploda ( uÓdi
o ) arrebente no outubro bastilhondo de um peido vulcânico e subte
rrâneo que vire pelo avêsso as tenras terras-carnes de brasilville
( uÓdio ) a vil ( uÓdio ) desde interlagos até à rue de la boétie e d
esde copacabana até à avenue montaigne! as letras & artes se trans
formaram na solitária punheta do mêdo. ninguém tem pulso para dize
r uma verdade fora da hierarquia ( uÓdio ) contra todos ( uÓdio )
de preferência contra os probos magistrados à daumier ( uÓdio ) qu
ando não fôsse só para ver até onde vão as suas lições de democrac
ia e as suas citações de voltaire. letrasdemerda ( uÓdio ) enquant
o os bons alunos preparam as suas teses acadêmicas para garantir u
m emprêgo de assistentes nas faculdades ( uÓdio ) enquanto as pédi
bundas filhas das puras eminências de alto nome vão galinhando até
que a morte as descabace ( uÓdio ) enquanto os poetas de pele bran
ca como barriga de sapo empoeirado compõem nas repartições - horas
vagas ( uÓdio ) vago chefe - poemas sensuais de imagens levantinas
e as suas bonitas espôsas os esperam em casa atrás da porta para e
strangulá-los com suas calcinhas de nylon ( uÓdio ) enquanto os ge
nerais sentem pruridos quinquenais de restaurar as pás sociais e o
país sem alegria cada vêz mais ( uÓdio ) puritano e bárbaro cada v
êz mais ( uÓdio ) enquanto os que podem fogem para citera e os que
não [f]podem planejam [f]poder ( uÓdio ) enquanto a burrice velhaca enra
ba a supersticiosa ignorância popular ( uÓdio ) enquanto isso ( uÓ
dio ) tu ( uÓdio ) letrasdemerda ( uÓdio ) o teu barulho não dá pa
ra encher nem um supositório que provoque um riso goyesco pela cul
atra! quanto mais uma revolução social ( uÓdio ) ou uma reforma cu
ltural ( uÓdio ) quanto mais! Mas por via das dúvidas ou por via an
al ( uÓdio ) considera que só o ódio ( uÓdio ) letrasdemerda ( uÓd
io ) o ódio e nada mais: encherá a barriga do pobre ( uÓdio ) aleg
remente.

terça-feira, fevereiro 11, 2020

sábado, fevereiro 01, 2020

língua morta 100



FAZER O TRABALHO SUJO
Uma antologia de Roger Wolfe

selecção, tradução e prólogo
de Luís Pedroso

capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[400 exemplares, 224 pp., 12€]