quarta-feira, setembro 19, 2018

"Teatro", de Pascal Rambert, no TNDMII



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sexta-feira, setembro 14, 2018


Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.

- Clarice Lispector 
in Perto do Coração Selvagem

quinta-feira, setembro 13, 2018

É como se usa dizer: são pontos de vista


José Mário Silva, na revista E 


Jorge Reis-Sá. Hagiografia para totós 

Dedicado a António Lobo Antunes, o mais recente volume da colecção Grandes Vidas Portuguesas – uma parceria da Imprensa Nacional com a Pato Lógico –, dirigida ao público juvenil, inadvertidamente resulta numa selvagem paródia dos textos encomiásticos que são encomendados a intelectuais menoríssimos em honra dos grandes vultos 

A saúde da leitura vai como se sabe. Há uns anos, deu-lhe um fanico, uma perturbação ao nível dos índices com a queda do meteorito das novas tecnologias, que acabou submergindo a terra numa imensa nuvem de cinzas, depois veio o tsunami, desde aí, a mundanidade tem reinado sem oposição. Então vieram os doutores com os kits de socorro, bombas de oxigénio e receituários. Internada de urgência, sinais vitais soletrados por máquinas, respiração assistida e o raio. Depois do pânico, o quadro foi estabilizando mas, uma vez por outra, a meio da noite, uma das máquinas apita e monta-se de novo um estardalhaço. Entubada, escapa do coma por um triz. Mas do inferno das consultas, do tom pesaroso e do diagnóstico reservado, para onde quer que se vire, disso já não se livra. E nem de ir pelos corredores na humilhante bata, arrastando o balão de soro com o pandeiro a espreitar pelo rasgão. 
Entre consultas da especialidade, baterias de exames, cuidados intensivos, o que resulta claro é que, no que toca a dar cabo da paciência dos leitores, não há política mais eficaz do que a arenga dos incentivos, os planos nacionais para isto e para aquilo, linhas de socorro, os prémios com aquela pontaria danada que vai dar sempre a uns e umas, revezando-se na sua evidente nulidade. Tudo o que vai aí de campanha e promoção para excitar o consumo dos livros parece favorecido por uma lei da gravidade própria. A ordem é impingir, baralhar as estatísticas e voltar a dar. Já se os livros se lêem, se deles se retira outro mundo das coisas, isso nem é secundário; não interessa nada. 
Se já aqui houve – nestas páginas – oportunidade de saudar a reaparição da editora do Estado, o ter sido arrancada à narcose, tão satisfeita só a assentar placas de mármore comemorativas sobre os mais sumptuosos túmulos... E se nos mereceu elogios o impulso, sob a direcção de Duarte Azinheira, ao descongelar as colecções que mais notabilizaram a Imprensa Nacional, o alargamento da sua intervenção editorial não tinha como ser impermeável à actual polulância que se impôs ao meio literário. Pois isto só pode obrigar-nos a um estado de alerta para o mais que provável assalto de tudo quanto seja roedor e parasita, os ovos que são postos justamente quando se abrem brechas para arejar uma instituição que celebra em breve 250 anos.
Eram 13 os volumes editados, a colecção Grandes Vidas Portuguesas – uma parceria entre a editora Pato Lógico e a INCM com o intuito de publicar “biografias de nomes da história e da cultura portuguesa escritas e ilustradas para o público juvenil” –, e já por ali se perfilava uma bela trupe de suspeitos, os do costume, esses que nem somam nem subtraem, mas só empatam. Há semanas surgiu mais um volume, agora dedicado a António Lobo Antunes, com ilustração a cargo de Nicolau e texto de Jorge Reis-Sá, e é sobre o “manancial descocado” que nos oferece este título – “O Amor das Coisas Belas (ou pelo menos das que eu considero belas)” – que aqui vamos debruçar-nos. 
Entre os que se acham familiarizados com os bastidores do nosso meio editorial, o último dos intervenientes acima referidos é o que chega para accionar as sirenes. É difícil pensar numa figura mais elástica, um maior especialista em infiltrações que o ex-editor das Quasi. Com uma carreira onde se sucedem títulos e distinções a perder de vista, sempre bulindo acertos faustianos, Reis-Sá é um desses nomes que soam a legião. Dá vertigens, urticária, suores frios... Falida a sua editorial, que chegou a ter uma loja, género nave futurista, andou pela Babel, criou a Glaciar – cujo catálogo melhor será descrito como o rastro de um caçador-colector de chorudos apoios institucionais –, e mantém agora uma “consultoria editorial” com a INCM. Depois da passagem pelas tribunas solertes que nos servem de mapa para as trocas de favores neste meio, mantém actualmente uma crónica mensal (“Edição Nacional”) no site da editora do Estado, onde continua a aditar novas entradas naquela que, um dia, será justamente reconhecida como a grande obra da sua vida: um “Dicionário das ideias feitas”, superando Flaubert no seu esforço para recolher um autêntico compêndio da banalidade, da mediocridade e da ignorância pretensiosa. 
Em tudo quanto escreve, seja quando corta em versos, arredonda em crónicas, ou enchouriça em romances, tal como nas horas em que empresta o seu “Dom” para abordar os feitos de líderes como o Papa Francisco ou Paulo Bento (ex-seleccionador nacional), de quem escreveu uma biografia, Reis-Sá encarna, inadvertidamente, aquela apoteose das trivialidades que gozam de uma aprovação geral. Como veremos, seria muito fácil condensar uma série de apontamentos como tomos centrais da tal “enciclopédia da estupidez humana”. Desta vez, sem o menor travo de ironia, e com o empolamento próprio do arrivista, esse signo dominante nesta grande época. 
Se a ideia desta nova colecção é apresentar a um público mais jovem algumas figuras centrais da história e da cultura nacionais, e se, em princípio, este será o tipo de iniciativas que raramente se contestam, já veremos o perigo de se dar rédea solta a tão comoventes programas. O que logo ressalta neste volume é a estranha ideia que o escriba faz do seu público-alvo, dando-se as maiores liberdades, um cheque em branco passado de si a si mesmo, decidindo tratar o leitor como se fora um retardado. E este livro que acaba por funcionar como uma paródia alarve do modo como, entre nós, muitos autores menoríssimos, de tudo o que experimentam a ver se dá, fazem também perninhas no terreno do infanto-juvenil, começa assim: “Era uma vez um menino chamado António./ O António não tem nome, só verbo: escrever.” 
O arranque basta para nos sacudir o pressentimento de que vem aí um festival de disparates. E não é preciso esperar muito para nos vermos diante de um chorrilho de zigues e zagues à toa, repetições à bruta, contradições e frases de gosto bem mais do que duvidoso, mas que o leitor ou perdoará ou nem há-de notar, até porque é um niquinho tantã. 
“O António não escreve. Ele diz sempre que é a mão que lhe guia o raciocínio. Já pensaste na beleza desta coisa tão simples? Termos uma mão que nos obriga a escrever como os pés nos obrigam a caminhar. As mãos são os pés do escritor, ele anda sempre a fazer quarenta quilómetros de maratona. O António corre maratonas e chama-lhe um livro.” 
Esta homenagem taralhouca nem se chega ao dom perverso que faz do leitor mais jovem um especialista de corta-mato, lenhador de árvores que só dão bocejos, que as sacode em busca da arritmia dos frutos crescidos ao sol das melhores invenções verbais e visuais, jogos de palavras e arroubos da imaginação. Gaguejando frasezinhas soltas numa criancice pegada, Reis-Sá aparece-nos perdido diante do maná de todos os lugares-comuns, daquele “tom mimalho” e da afectação a que Lobo Antunes nos habituou nas declarações feitas à margem (normalmente) da sua literatura. 
“O António nasceu para escrever, mas cresceu para ser médico. O pai do António era médico e o irmão João também. O irmão Nuno ainda é. Mas o António era um médico diferente – aos olhos do pai – porque não curava pessoas com gesso, antes a infelicidade com livros. O António era psiquiatra. E mesmo como médico, só se queria e queria curar os outros com livros. Cuidar da solidão? Do medo? Do tédio? Da felicidade? Cada livro do António tem a posologia necessária para todos os momentos da nossa vida.” 
Este modelo sumamente redundante da hagiografia passa por transformar a história do escritor em destino. Lobo Antunes é, assim, um predestinado. E numa homenagem em que tudo, está de bom ver, escorre, tudo acaba elaborado numa indistinta baba. E toda a estratégia discursiva parece assentar sobre uns episódios de epilepsia metafórica, com o texto a acumular, um tanto ao acaso, dados biográficos de Lobo Antunes penteados à tigela e sentados no meio desses ditos ensebados que o romancista lança em tom de provérbio a ver se fazem escola. 
“O António tem inveja dos poetas, diz. Acha que só escreve ficção, narrativa, romances (chamemos-lhe o quisermos, mas são os textos cujas frases chegam ao fim da linha) porque não consegue escrever poesia. O António também erra – ele é muito humano. E o António está errado: ele é um poeta. A poesia é que tem a mania de ser preguiçosa, com os versos a não chegarem ao fim da linha.” 
Pérolas há que fazem de quem com elas se regozija autênticos porcos. E neste livrinho não há página de texto que não as sirva em abundância. A página 16, então, merecia figurar nas antologias da parvoíce literata. Começa com este primor da fraseologia oca: “O António nunca terá um fim triste, porque nunca terá um fim. Os livros do António existirão para sempre.” E mais abaixo esta: “O António não sabe se acredita em Deus. Mas acredita nos livros – o que é o mesmo.” 
Como está em pleno vigor a paz podre que confere a cada literato cem anos de perdão, contando que não se ponha a chamar a atenção para a bandalheira que por aí vai, encaixai lá a frase seguinte: “O António escrevia às escondidas de todos, como se fosse pecado. E era – não se deve tentar chegar demasiado perto do Sol, ensinou-nos Ícaro. E o António queria tanto ser escritor que só imaginava o brilho das palavras a fazerem a sua Obra.” 
Saídos desta, só uma coisa fica claro: quem aqui tanto quis ser escritor, tão deslumbrado ficou com a ideia, ao ponto de confundi-lo com um traficante de brilhos, foi o lorpa que se sentiu à altura de homenagear um colosso das nossas letras. E tão embalado vai que já não há quem o impeça de passar as maiores vergonhas. A frase seguinte diz isto: “A letra do António é tão pequenina, tão pequenina, tão pequenina que parece que não existe. Desde sempre. Depois, quando revê o livro, a letra do António é tão grande, tão grande, tão grande, mas continua a parecer que não existe, de tão feita de curvas e contracurvas. Como o coração, não é?” 
Em termos de pesquisa, Reis-Sá parece ter-se embrenhado realmente na obra de ALA, ao ponto de ter lido os títulos de todos os romances – o que já não é pouca coisa, pois já vai nas três dezenas. Ora, por mais veleidades que tenha o escriba, não deixa de ser também um pouco preguiçoso, e consegue encher uma página inteira do livrinho elencando os títulos dos romances, com a desculpa de que “o nome do António não é António”, mas é o dos títulos da sua “Obra”. E adianta que todos são “longos e veros versos”. 
É curioso como um livro tão curto vai tão longe na sua desarmada estultice: “O António é um poço sem fundo de contradições. Por isso este livro é uma ficção tão grande como qualquer um dos seus livros. Não há como dizer-vos quem é o António porque o António não é. Ou se é, é apenas nas páginas de cada livro que escreveu, nas sílabas de cada palavra que a mão lhe ditou para, tão pequena como um átomo, a fazer estacionar nas folhas do Hospital Miguel Bombarda”. 
No meio de tudo isto, da tão grande vergonha alheia que o livro nos provoca, nem é de Lobo Antunes que mais nos compadecemos – sendo certo que, mesmo ele, com toda a sua queda para o sentimentalismo e os bailes da rêverie, não merecia isto –, mas do ilustrador, Nicolau. É no silêncio das suas dignas imagens, acompanhando à distância, e como que abanando a cabeça, o banzé do texto de Reis-Sá, que se retira o melhor do retrato de Lobo Antunes. Um escritor que provou já tantas vezes a sua grandeza, mesmo se o homem a quem esse vício se agarrou tantas vezes não sabe evitar a petulância e as birras que nele denunciam o que tem de menor.



António Lobo Antunes
O amor das coisas belas (ou pelo menos das que eu considero belas)
texto de Jorge Reis-Sá; Ilustração de Nicolau 
Edição: INCM – Imprensa Nacional Casa da Moeda / Pato Lógico, maio de 2018
Páginas: 42 | Preço: 11€

quarta-feira, setembro 12, 2018


“Todo poema autêntico é uma aventura – uma aventura planificada. Um poema não quer dizer isto ou aquilo, mas diz-se a si próprio, é idêntico a si mesmo e a dessemelhança do autor, no sentido do mito conhecido dos mortais que foram amados por deusas imortais e por isso sacrificados. Em cada poema ingressa-se e é-se expulso do paraíso. Um poema é feito de palavras e silêncios. Um poema é difícil.”

Extraído do livro “Teoria da Poesia Concreta”. Depoimento de Décio Pignatari

terça-feira, setembro 11, 2018

língua morta 086




A ÁRVORE DERRUBADA PELOS FRUTOS,
Uma antologia de Roberto Juarroz,
selecção e tradução de Rui Caeiro, Duarte Pereira e Diogo Vaz Pinto,
com capa a partir de pintura de Henri Rousseau 

[400 exemplares, 140 pp., 11€]


segunda-feira, setembro 10, 2018

Zetho


O pouco cuidado com os poetas que mais seriamente encaram o seu trabalho diz-nos tudo o que precisamos de saber quanto à situação da poesia portuguesa contemporânea. Na lista dos ignorados, quando não mesmo silenciados, a par dos inúmeros casos negligenciáveis, constam alguns desses que, no desalinho da tradição, nos lembram que a poesia é uma das mais elevadas formas da crítica, aquela que submete a linguagem aos maiores destratos para o reforço da língua, estômago que repetidamente digere e vomita o mundo, para compreendê-lo e alargá-lo, participar na sua constante transformação. Alguns poetas (poucos) aí estão, pagando diariamente a renda por um quarto de servente na torre da canção, e são estes os que mais facilmente (e a contragosto) se vêem postos à margem. Tanto empenho quanto a sua intervenção lhes exija, arando até à demência uma terra que protege com as unhas e os dentes dos seus medíocres agentes culturais a sua infertilidade, todo esse esforço, e até o andar à bulha com porcos, é o exacto preço que se paga por se ser poeta neste país. E por isso deve ressalvar-se esta homenagem de Valter Hugo Mãe a Zetho Cunha Gonçalves, sendo que, como aquele diz, seja enquanto poeta, seja como editor, estudioso e divulgador, aos 58 anos, a sua participação no teatro da literatura em português tem mostrado ser hoje imprescindível. E destaque-se aqui também a ideia de teatro, quando a larga maioria dos literatos vestem a gabardine dos intocáveis ao invés de estarem comprometidos com a dimensão performática que deveria fazer deles actores num espaço que, não apenas não acompanha a obediência aos consumos, mas rompe com ela, quebra, estilhaça, devolvendo em labirinto os reflexos que do mundo usa, trabalhando a crítica pela via da invenção, envergonhando a soberba dos contentinhos e aguilhoando a audácia dos insatisfeitos.

Autobiografia imaginária, crónica de Valter Hugo Mãe no Jornal de Letras (n.º1250, 29 de Agosto a 11 de Setembro)


Noite acima 
Saiu em 2017, na Língua Morta, a antologia avara de Zetho Cunha Gonçalves, "Noite Vertical". Digo avara porque é uma rarefacção de uma obra já de si escassa, uma escolha de pouco de entre algo que nunca foi abundante, nunca foi demasiado. A poesia é um juízo que propende para o silêncio, e esta antologia não deixa de ser um aceno ao silêncio, um certo abuso consciente porque, se o ruído é leviano, a leviandade é condição sine qua non de existir. 
A figura de Zetho Cunha Gonçalves é ímpar e julgo que chega agora a uma participação imprescindível no teatro da literatura em português. Os volumes que tem organizado para a Antígona ("Fernando Pessoa - Um retrato fora da arca" e "Notícia do maior escândalo erótico-sexual do Sec. XX em Portugal"), garimpando textos de inscrição histórica que, as mais das vezes, se viram perdidos, não lidos, treslidos, mal editados ou censurados de alguma maneira pelos costumes ou pela ignorância, abrem pistas para detalhar, por exemplo, Fernando Pessoa de outro modo ou com maior rigor. O seu trabalho tem algo de súbita resistência contra a massificação de ideias pre-concebidas, ideias fáceis ou simplificadas acerca de autores e temas ricos que importam a crise constante, importam a dúvida insanável. 
Foi na Lourinhã, durante o evento Livros a Oeste, que ouvi o Zetho Cunha Gonçalves a falar. Percebi que se expressa de um modo desabrido, apaixonado, a perder completamente a noção do tempo, não numa gula de aparecer mas numa certa fúria de depurar conceitos, de expor as ideias como essenciais e revolucionárias. Uma certa fúria de testemunhar, isso, sim. Noção clara de que ler e escrever são exercício de seriedade e necessitam da ciência possível acompanhando todas as intuições e sentimentos. Os que estávamos à mesa com ele calámo-nos essencialmente. Não é grave. É excelente quando em alguma oportunidade entendemos que nos aproveita ouvir. Assim, ouvi. 
Na Lourinhã pude considerar as afinidades do autor com alguns dos melhores, sua aproximação pessoal num quase pacto de admiração de eminência crítica, de amizade sempre confrontacional. A citação de António Ramos Rosa, Ruy Duarte de Carvalho (esse sublime) ou de Herberto Helder, bastam largamente para aludir a uma grata posição, tanto quanto a uma delicada responsabilidade. Algumas amizades requerem bravura, estas, seguramente, não serviriam aos covardes. 
Faltou-me, naquele instante, com toda a evocação e curiosidade, a poesia, ela própria. E eu bem que auscultei alguns amigos presentes, mas ninguém parecia deter mais informação do que eu. Nunca me viera à mão algum livro dos poemas do angolano Zetho Cunha Gonçalves, coisa que agora se tornava uma falha obscena. Sobravam-me nos ouvidos pedaços de versos, palavras, fugazes memórias de leituras em alguma revista, em alguma noite do café Pinguim. Subitamente, era fundamental materializar aquela conversa inteira no ofício do verso, esse primeiro e último assunto. Esse assunto mais importante do que sabermos da vida e mais importante do que suspeitarmos da morte. 
Pedindo a uma amiga atenta, explicando que não dormiria em sossego sem um poema que me acudisse ao impacto daquela conversa, recebi às três da manhã, por email, isto de maravilha, com que o autor fecha o rol dos versos contidos em "Noite Vertical": "Tens agora o coração deposto / e em chamas / sobre as crateras e o silêncio do mundo. // Chegarás dançando / à entrada de Deus. / E, apontando / o lado fulminado do peito, / perguntarás: / - Estás contente, Senhor, / com o trabalho que fizeste? // Vejo-te a vasculhar - atento e atónito: / a cegueira vazia / das estantes de Deus. / E nenhum livro ali estará, / nenhum poema / - com seu dom, / sua ponte de precipício e salto, / sua voz de árvore rejubilante - / para te aproximarem ou te levarem pela mão / a uma nova / e cultivada / Amizade. // Saberás, então, / como o tempo do poema e o tempo / da morte / não coincidem no privilégio dos afectos. / Mas quem te dirá / quanto a tua ausência / é agora um rio / de águas para sempre intransponíveis?" (pags. 79 e 80).

Roberto Juarroz



...

sábado, setembro 08, 2018


"Quem disse as melhores coisas sobre mim foram os meus inimigos" 
Vicente Huidobro


Que seja verdade tudo o que dizem... em algum momento e a ponto de tremer de vergonha, ao mesmo tempo fascinado, mirando essas ficções - um reflexo apurando o gosto ao lume do ódio. Já não podemos transformar-nos em animais como dantes, mas em bestas sem nome talvez, anunciados por uma trepidação que chegue de outras terras, e o que mais se dizia dos lugares inexplorados, antes de qualquer decalque dos cartógrafos, ambientes em que os marinheiros sentiam as entranhas gemer supondo que aí pudessem ver-se dragões. Eis toda a magia que nos resta: como os inimigos se rezam uns aos outros - dores misturadas, rogando-se um acto de absoluta vileza, a roçar o indescritível, nesse limite contra o qual nos abatemos. Depois da conquista dos pólos, faz mais de um século, pelos mais geniais e desonestos suicidas, hoje, com a extinção em curso do que nos aterrorizou no escuro durante milénios, só no terreno da inimizade resta margem para riscar a superfície das lendas. Entre estas gerações definhando antes que tenha início o assalto ao cosmos, olhamos os céus nocturnos e essa vertigem como quem escava em vão a terra, resignados com os cacos de antigas civilizações, um astro fóssil que ao invés de iluminar nos cega... Mas o que temos para expedição onde ensaiar um estilo? O zumbido dos canos atrás da parede desta época só nos sufoca, temos ratos neste pardieiro, superfícies mofadas, barulhos inexplicáveis; o tempo passa por uma assombração, a decadência consome-nos, em vez de uma candeia deve andar-se pelos corredores de faca na mão, a chamar como a um gato, aqui bicho, anda que te fodo; tresvariados da cabeça, a milénios de distância das presas mais notáveis, essas de tão fabuloso porte que as sonhamos em fascículos, ao longo de uma série de noites. Vamos cercá-las nalgum museu, a voz abafada do guia a trautear qualquer coisa sobre a pré-história, a apreciar a perícia do taxidermista que falsificou esse assombro, tacteando no escuro das suas suposições, cosendo as partes de animais da mesma família, dá-nos essa montagem de uma coisa que ainda há pouco estava viva. Fora isso, é a mesma humilhação diária dos nossos instintos em toda a parte pela afamada era da técnica. Temos ainda no vocabulário as marcas de uma terrível refrega, os traumas mais fundos na gramática, um resíduo mágico que pelas palavras nos liga ao prazer de se estar algumas posições abaixo na cadeia alimentar, e, se os versos parecem armas toscas, mantêm a fiabilidade do que poderemos sempre retomar: uma perícia essencial que separava quem viveria, quem fala por frases verdadeiras, ainda que caminhe alucinado, com o ar demencial que toma um arcanjo quando se avizinha de um bairro terrestre. A arrancar a pele do que se diz para que o sentido dê alguns passos por nós, os mais difíceis. Temos noites para essas coisas: estrangular os débeis que só fazem número e atrasam toda a geração, mantendo debaixo de olho as nossas imperfeições, com a ajuda desses formidáveis inimigos que se querem por perto. Tiro o rosto do caminho, procuro dividir-me em sete dias como ensinam os mais velhos, vigiando os avanços da catástrofe enquanto cronista meliante destes estados gerais da javardeira, e, nisto, tiro o pulso a todos esses sonhos de merda, com gente a mais, ponho um espelho frente à fraca respiração da musa, doente, arrastada, exposta como uma triste aberração de feira. Os pássaros cantando pior do que em qualquer outro período da história, ela a tossir e eles a caírem-lhe mortos à cabeceira.

sexta-feira, setembro 07, 2018

língua morta 085




UM PASSO SOBRE A TERRA,
de Vasco Gato,
com fotografias de Vitorino Coragem  

[300 exemplares, 100 pp., 10€]

quarta-feira, setembro 05, 2018


Também a voz nos inferniza, põe-nos na boca palavras que não podíamos ter dito, magoando esse personagem cultivado num fútil e ocioso protesto diante da pequena moral que nos servem. Intervalos, nesgas é o que resta quando não se pode mais conspirar. Em letal minoria, isolamo-nos para fazer lume, nos apaixonarmos por mortos, dar-lhes mais filhos doidos. E estamos nisto, o mesmo uns séculos depois, e o tempo sem melhor que fazer, atirando-se à cara palavras, ditos, impropérios em papéis de acaso, e o que somos nós? Uma gente que encarnamos por desfastio, debruçados sobre livros onde se desmentem uma a uma as brandas ficções de que se cose a vida. Temos um bar nos bastidores de onde nos vemos como um jogo de uma liga secundária no televisor; ao balcão, a garrafa a meio caminho de uma miséria total, e em Seide ou aqui, com Camilo ou algum outro cabrão a assegurar-nos que nem o génio nos salvaria. Linhas frias, sem o menor rasto de emoção, tremendo frente a um monstro de sensações: só osso e nervos, antigas migalhas na caixa de uma bússola e aquela prosa como um continente selvagem e inexplorado, a voz sustida a golpes de catana, avançando a custo, esmagando os mosquitos na pele, numa sopa de humidade e alucinação, fervendo com os gaguejos de miragens. Ágil, estuporado inferno a toda a volta, a vegetação rogando-te pragas, uma loucura incapaz de estreitar-se à conformidade das narrativas. O plano era cruamente simples: aguentar, progredir numa linha minimamente recta contra uma paisagem capaz (finalmente!) de devorar-nos. Passados uns dias nem nomes tínhamos, e a memória atabalhoada punha-se diante de nós confundindo o sonho com as horas acordadas. Como bêbados de nascença, sentíamos os pés entre gengivas e dentes, o chão engolindo o que pudesse, mastigava ou cuspia, montando outro desses lugares onde cada passo que avanças te mete medo. O nosso próprio cheiro adquire uma estranheza fenomenal. Estamos connosco e somos arrastados, perseguidos. A vontade nunca nos convenceu tão pouco. Incapazes de dominar o que quer que seja, a asfixia não nos inquieta mais do que o tomarmos o fôlego e sentirmos entranhar-se-nos na consciência a dimensão de tudo isto. A febre, ao menos, ajuda: ritma delírio e realidade, distancia-nos um pouco. Vamos fracamente, de nervos em franja como tambores blasfemos, a boca amarga, o debate minucioso que nos impõe tudo; apertando a garganta ao desespero, vamos. É o vinho que se bebe nos odres do terror, o riso que se escapa de um e exprime perfeita e consoladoramente o escárnio entre nós, por nós mesmos. Rimos o que podemos, e é como se o destino nos fizesse vibrar. Desfaz-se a culpa - ao menos isso - e tudo nos sabe como uma bala nos miolos, para logo depois termos de limpar a sujeira desse acto derradeiro, rindo alto, de como o absurdo assobia despedindo-se de nós, e do quanto a vista do nosso túmulo nos apazigua.

terça-feira, setembro 04, 2018




Dois anos já que espero me arrefeça o café
frente a lentíssimas cenas de caça
a rotina dos astros sobre umas poucas vidas
o laranjal incendiado e toda essa dança corrosiva
um fio de pesca nas mãos para que esquecido peixe?
e a frase com ela no meio indo à fonte
encher-se até cima
trabalhada como por um sonho

por ser doloroso o seu nome
vi-o espalhado, séculos antes lia-se em cântaros
neste vi-o marcado nas árvores
ali estava como um vestido a florir na corda
e o sol cheio de vagar a compor os ossos debaixo
tigres atravessando o selvagem estampado
a frágil fúria colorida num suave impasse
enquanto eu amestrava todos os tiques da solidão
e a escrita como uma forma de modéstia
o sentido estrito das aventuras
os mais ínfimos relatos e de costas
a antiguidade abanando a cabeça

a vida mal nos toca no meio dos bocejadores
desluzida mão-de-obra em transe
com as insistentes dívidas aos gatos
pássaros, cinzas assim
cansados uniformes adormecidos nos telhados
aquele mar moribundo atrás da casa
para quem gosta de afogar-se escutando os remadores
toda essa água ajuda-os lá com as coisas deles
uma última intimidade com o mundo
uma cobardia, uma fábula
algum outro assunto

mas ainda há um caroço poisado
sobre o muro, sobre o pior dos cansaços
há quem sopre a poeira dos colibris de biblioteca
quem exume corpos entre o veneno das gavetas
quem atravesse a manhã peneirando a neblina
e com passos iguais outros
tiram as medidas ao inferno

então perdoa-me, velho, se te deixo
se me falta o pudor e antes prefiro
o carnívoro talento mais sem vergonha
sorrindo sujo da mão ao cotovelo
entre as mais baixas das partes, quentes
eu a inspiro, esteja fresca ou podre
carne com um cheiro a tangerinas ao fundo
da língua faço um teatro romano
entrego o pescoço, deixo rolar a cabeça
por um enredo escabroso, do céu às fossas
que sangre e chame a si os elementos

e se das maiores inanidades esperei muito
dobrado hoje sinto-o nas costas
como se uma estrela pudesse esculpir ombros brutais
a pupila dilatada de assombro à sua luz
atiro a pedra arfante
e cruzo a vida breve das paisagens
o som de um coração trepando um susto
até à morte, o frescor silencioso que está lá
no início de todas as histórias

sábado, agosto 25, 2018

"Obra Completa", de Arthur Rimbaud, Relógio D'Água



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quarta-feira, agosto 22, 2018

O livro infantil



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TEXTO COMPLETO



O livro infantil enfrentou sempre alguma desconsideração entre os géneros literários. Mas se seguirmos o coelho branco, é bem possível que sejam essas noções tão caras aos adultos a sofrer um abalo na estrutura. E aquilo que se destinou às mentes imaturas, pode provar um rasgo rebelde bem mais inquietante do que se esperava

Desmedida e imensurável, a infância é um poço sem fundo que, se alguns tapam, outros vão bebendo dele pela vida fora com maior ou menor moderação. Peixes e estrelas vivem lá numa conta perdida junto com os trocos da imaginação; caindo de todos os bolsos, acumulam-se ali somas fabulosas. O poeta chileno Vicente Huidobro via nela um dom da ebriedade: “O sol nasce em meu olho direito e põe-se em meu olho esquerdo/ Na minha infância uma infância ardente como um álcool/ Sentava-me nos caminhos da noite/ a escutar a eloquência das estrelas/ E a oratória da árvore (...)” Nem sempre é fácil retomá-la mais tarde na vida, quando mais falta faz. É preciso uma ascensão, como dizia o poeta Manoel de Barros: “Depois que iniciei minha ascensão para a infância,/ Foi que vi como o adulto é sensato!/ Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?/ Como não furar lona de circo para ver os palhaços?/ Como não ascender ainda mais até na ausência da voz?/ (Ausência da voz é infantia, com t, em latim.)/ Pois como não ascender até a ausência da voz -/ Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo -/ ainda sem movimento.” 
Vamos aos poetas se estamos com fome de desaforos, os que ao invés de ir ansiosos ver as caixas de correio, sobem às árvores para saber o que há nos ninhos dos pássaros. Para Ruy Belo “a infância é o elemento da criança como a água/ é o elemento próprio do peixe”. E podemos aproveitar também a lição que Manoel de Barros tirou desse quinto elemento para ganhar a sua voz de poeta, “que é a voz de fazer nascimentos”. Ele nota que “O delírio do verbo estava no começo, lá onde a/ criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos./ A criança não sabe que o verbo escutar não funciona/ para cor, mas para som./ Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira.” 
Já fomos longe o suficiente no delírio, mas para não ficarmos só pelo verbo mais coçado por essa outra razão, vamos ao nosso tema: o livro infanto-juvenil e a sua edição no nosso país. É uma área em que, desde o início desta década, pelo menos, “se edita muito e bem”, como assinala Vladimiro Nunes, editor da Ponto de Fuga, que publicou recentemente o extraordinário “Contos de Encantar”, do poeta e.e. cummings. Com um catálogo ainda breve, este tem revelado um notável empenho na erosão da fronteira entre os segmentos adulto e infantojuvenil. E há casos em que os autores que publica  estão tão distraídos dessa linha na areia que marcam pontos dos dois lados. Vladimiro oferece o exemplo de Gertrude Stein, “de quem publicámos “A Autobiografia de Alice B. Toklas” e “O Mundo É Redondo”. O que nos pode trazer à ideia de que a literatura é literatura é literatura, independentemente do público a que supostamente se destina”. Comprovando a ideia de que “o verbo tem de pegar delírio” (Barros), esta pequena editora independente arriscou também na publicação dos livros infantojuvenis de Ted Hughes, que “continua a ser um grande poeta na prosa de “O Homem de Ferro”. Originalmente publicado em 1968, trata-se de uma aventura de ficção científica, que inspirou Brad Bird a realizar, em 1999, a animação “O Gigante de Ferro”, hoje um filme de culto. Um quarto de século depois, mereceu uma sequela, “A Mulher de Ferro”, que, à semelhança do primeiro é uma narrativa ambientada num mundo desolador, ameaçado de destruição - “já não pelos arsenais nucleares e pela Guerra Fria, mas pela industrialização desenfreada que consome os recursos naturais e ameaça os ecossistemas”. 
A Portugal, estes dois títulos, que beneficiam grandemente das poderosas ilustrações em xilogravura do artista britânico Andrew Davidson, chegaram em simultâneo, trocando o atraso de décadas da sua clarividente mensagem por uma urgência tocante. E o faro que se apura perseguindo, antes de tudo, a literatura é uma preferência que Vladimiro justifica em contracorrente face à abordagem das outras editoras nesta área e que, “quase hegemonicamente, nos parecia dar mais primazia à ilustração”. 
Vladimiro confessa que foi já adulto que começou a olhar com mais atenção para a literatura para a infância, e isto por influência da mulher, Fátima Fonseca, com quem dirige a Ponto de Fuga.  “Como professora primária e boa leitora, a Fátima estava bastante atenta a essa área”, e se nunca esteve em causa a importância da expressão visual, outro título que exigiria melhor atenção é “A Árvore dos Desejos”, de Faulkner, “um concentrado de ‘O Som e a Fúria’ com essência de ‘Alice no País das Maravilhas’, servido com ilustrações que pontuam o texto no tom e na medida certos”, como o editor resume ao i. Mas Vladimiro não hesita em assumir que “o nosso grande orgulho são os ‘Contos de Encantar’”. E adianta: “Esse é um daqueles livros mágicos em que o todo vai muito para além da soma das partes. A Hélia Correia, que em boa hora os traduziu, diz que são ‘textos jubilosos sobre o amor, o nascimento e o desfazer da solidão’, e eu acho que não há maneira melhor de os descrever nem de explicar a escolha de tradutora, que os abordou com a sensibilidade, o saber e a modéstia necessários para que valha a pena lê-los em português”. E em sinal do apreço pela componente visual, o editor refere que as ilustrações de Rachel Caiano, “além de lindíssimas por direito próprio, são a expressão de quem compreendeu, sentiu e respeitou profundamente o texto”. 
É muito difícil, senão mesmo impossível, escapar hoje ao império da adolescência, aos sucessivos marcos da literatura dirigida a um público mais jovem, e que tem produzido títulos, personagens e universos que são como marcas fundas nas ombreiras das portas ou em algumas paredes, assinalando a altura que fomos ganhando na casa onde crescemos. Há os infelizes nomes com que se baptiza cada geração, mas talvez mais nevrálgico seja apontar esses personagens como Harry Potter ou Katniss Everdeen, que, como referia a revista “Time”, simbolizam conceitos que se tornam a moeda corrente da cultura pop. 
E, no entanto, se ninguém discute que estamos a viver numa era de ouro no que toca à importância da ficção dirigida ao público infanto-juvenil, como referiu a investigadora britânica e autora de livros para a infância, Catherine Butler, tem sido difícil afastar a noção de que a perspectiva dos adultos é que está em linha com a realidade, e que, por isso, é esta que importa, ao passo que a das crianças não passa de uma aproximação. “Quando aplicado à literatura infantil, isto reforça a crença de que os livros infantis são literatura com rodinhas”, que servem aos petizes para se iniciarem no terreno sério e exigente que cativa os adultos. 
Por outro lado, a docente da Universidade de Cardiff, aponta o dilema que se apresenta ao escritor que se dirige a um público mais jovem: “Se criam um espaço vigiado e seguro, à margem da mais ampla vivência do mundo, são alvo do paternalismo dos outros escritores, que veem no seu trabalho uma forma de chuchar no dedo. Mas se cortam com essa noção de uma literatura confortável e acolhedora, então estão a corromper os mais jovens, que precisam de ser protegidos”. 
Maurice Sendak, um dos mais celebrados autores da literatura infantil, que deu ao mundo o magistral “O Sítio das Coisas Selvagens” (1963) - um marco deste género que chegou a gerar polémica pelo tratamento nada exemplar para com as crianças, colocando-o na companhia das obras de outros heróis do imaginário da infância como Lewis Carroll, J.M. Barrie e Antoine de Saint-Exupéry -, sempre mostrou pouca paciência e até desprezo por aqueles que lhe vinham com a conversa de que o seu trabalho ficava numa posição secundária face à ‘verdadeira literatura’, essa que não toma reféns, que criva de balas a perspectiva que os adultos formam do mundo. “Eu não acredito nisso das crianças”, disse Sendak, sinalizando o seu desdém por estas fronteiras às vezes tão ténues, outras simplesmente artificiais: “Eu não acredito na infância. Não acredito que haja uma demarcação. ‘Ó, tu não deves dizer-lhes isso. Não podes dizer essas coisas’. Diz-lhes o que que quer que te apeteça. Diz-lhes se for verdade. Se for verdade tens de dizer-lhes.” 
Nascido de judeus polacos e marcado pela morte de muitos dos seus familiares durante o Holocausto, Sendak rejeitava de todo a visão idílica que publicistas e tontos vão espalhando da infância. “A infância é uma coisa muito, mesmo muito complicada no que toca a sobreviver-lhe. Porque se uma coisa corre mal, se alguma coisa foge ao previsto - e normalmente alguma coisa sempre corre mal -, então estás tramado enquanto ser humano. Não deixarás de tropeçar nessa coisa ao longo de boa parte da tua vida.” 
Rejeitando a tendência mais básica que impõe uma visão pedagógica no discurso que se dirige à infância, o poeta Manoel de Barros foi um acérrimo defensor de que o entendimento mais ingénuo era o do adulto. A sua sensatez era, afinal, uma grosseria, uma evidente forma de prepotência. Ora, ao invés de tentar sobrepor-se às faculdades do seu leitor, ele tenta seduzir um leitor emancipado, apontando a infância como um terreno desimpedido, onde é mais fácil desencadear um olhar sensível sobre o mundo, um que não veja nele a inércia, mas ultrapasse a mesmidade, renovando-o pela sensação, numa perspectiva das coisas que é um parto constante. 
Nisto, o poeta brasileiro está em linha com Jacques Rancière quando este ataca a pedagogia e o seu imperioso e arrogante preceituário: “A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender. É, ao contrário, essa incapacidade, a ficção estruturante da concepção explicadora de mundo. É o explicador que tem necessidade do incapaz, e não o contrário. É ele que constitui o incapaz como tal. Explicar alguma coisa a alguém é, antes de mais nada, demonstrar-lhe que não pode compreendê-la por si só. Antes de ser o ato do pedagogo, a explicação é o mito da pedagogia, a parábola de um mundo dividido em espíritos sábios e espíritos ignorantes, espíritos maduros e imaturos, capazes e incapazes, inteligentes e tontos.” 
É o próprio livro infantil quem vai sabotar essa pedagogia barata, pois trabalha com a imensa disponibilidade de um leitor que não está colonizado ainda pelos limites dessa fabricação que surge tantas vezes na sua versão mais austera e vil, mais pobre e triste: o real na sua histeria de facto consumado. O que mais se ouve dos arautos desse beco é que não há alternativa. Mas há. E para deitar por terra esse “Sítio das Coisas Banais”, temos muito a ganhar se não encararmos a infância como um tempo regulado simplesmente pela ilusão, mas antes um tempo em que ilusão e facto convivem num mesmo nível de consciência, num lugar onde a fábula e o mundo trocam inspiração, animam-se mutuamente, e assim alargam os seus horizontes.  
De resto, como aponta o filósofo Giorgio Agamben, é a idade adulta que se mostra uma degenerescência perigosa, e que é bem clara na imagem desse “homem moderno que volta para casa à noitinha, extenuado por uma mixórdia de eventos – divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes”. Mas, “entretanto, nenhum deles se tornou experiência”. Ora, se há uma coisa que separa a criança do adulto é a sua fome de experiência, que faz a sua competência na hora de atribuir à menor das suas descobertas uma importância decisiva, uma importância vital e capaz de alterar a relação entre todas as suas verdades. 
E, a este respeito, as palavras de Sendak ganham a clareza atroadora de um relâmpago, quando diz: “Acredito que não há nenhuma altura das nossas vidas, seja a adulta ou a infantil, em que não estejamos a fantasiar. Simplesmente, preferimos relegar a fantasia para as crianças, como se não fosse mais do que uma tolice que só é adequada às imaturas mentes dos mais jovens.” E conclui com este fenomenal remate: “As crianças vivem mesmo na fantasia e na realidade; andam de trás para a frente com uma habilidade que a nós já se nos foi esquecendo.” 
Afonso Cruz, que não deixou nunca a fila dos miúdos que fazem um ato de socialização traçando a mijo nos muros os arabescos e hieróglifos da infância, é também um dos nossos romancistas mais destacados. Mas há sempre uma marca desviante, uma queda pelo onírico que marca a sua ficção, que põe tração no desfasamento lírico com que inflige golpes no mundo adulto. E quando lhe perguntamos se o campo infanto-juvenil funciona como uma abre-latas dos horizontes editoriais, diz-nos o seguinte: “Sim, acho que o livro infantil-juvenil, paradoxalmente - paradoxalmente, porque aquilo que é dirigido às crianças tem normalmente regras muito rígidas - permite liberdades e uma exploração que noutros casos não são aceites pacificamente. De resto, os adultos reagem a qualquer factor de estranheza, não se limitando aos livros que lhes são dirigidos. Os leitores adultos, que deveriam ser experientes e com plasticidade, têm especial dificuldade em compreender inovações nos livros infantis-juvenis, criticando cores (quando comecei a ilustrar, o preto era uma cor proibida ou a evitar), vocabulário e temas tratados como sendo inadequados. Em alguns contextos, é uma atitude compreensível, noutros é simplesmente falta de visão.” 
Quanto ao que o atraiu para este género, o escritor vinca essa relação, não apenas dialogal, entre texto e imagem, mas que chega a ser uma transfusão de sangues, de razões singulares “que permite explorar duas linguagens diferentes com potenciais distintos”. 
Para se estar apto à tal ascensão à infância é preciso, antes de mais, absorver aquilo que a mãe de Manoel de Barros lhe disse tinha ele 13 anos, idade em que lhe apareceu o seu primeiro verso: “Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.” Diz o poeta que foi mostrar a obra à mãe, e ela retrucou: “Agora você vai ter que assumir as suas/ irresponsabilidades.” E ele adianta: “Eu assumi: entrei no mundo das imagens.” Assim,  para ganhar margem de manobra no mundo, é bom começar logo com as palavras, fazer delas um brinquedo. E isto acontece de forma bastante natural, como sublinha Giselly dos Santos Peregrino num ensaio sobre o poeta mato-grossense: “Um dia, não sabíamos o significado de determinada palavra e, quando o descobrimos, passamos a usá-la toda hora, mostrando a todos nosso novo brinquedo, nossa infantil descoberta. Um dia, olhamos para certa coisa e não sabíamos nomeá-la e, por isso, inventamos um nome. Isso é sentir a infância. Não significa ter saudades do que vivemos, mas atualizarmos o que vivemos.” 
Na voz do poeta, o mesmo serve para lembrar que, às explicações mais seguras, a infância escapa sempre, não se deixando agrilhoar como objeto de ciência. E neste modo de resistência ao mundo moderno subjugado pelo regime dos tecnocratas, Manoel de Barros sugere “aproximarmo-nos daquilo que em nós são vestígios de crianças, resíduos insistentes e, por vezes, impertinentes sinais pueris daquilo que não conseguimos deixar de ser”. 
O livro infanto-juvenil é um ensaio para a rebelião. Se surge tão constrangido por tudo o que se espera que ele faça, diga e seja, as exigências didáticas e a condição moral que lhe é imposta, ele torna-se hábil no seu modo de evadir-se, sair dessa camisa-de-forças. É por isso que os livros que vão fazendo deste um género selvagem são objectos tão difíceis de definir, como explica ao i André Letria, o editor da Pato Lógico. Com um catálogo também ele bastante desenvolto nesta área, Letria diz-nos que este livro “empurrou e diluiu as fronteiras que de certa forma o oprimiam e catalogavam como género menor e invadiu espaços que não lhe pertenciam até há alguns anos”. E precisa até que “a própria designação ‘infanto-juvenil’ é posta em causa pelos autores e editores que concebem livros que dizem ser ‘para todos’, ‘para quem os quiser ler’, ‘para os mais novos e os menos novos’.  
Este género tem tido um papel significativo no próprio setor editorial, cada vez mais voltado para o lucro imediato, aquele de que os gestores do livro podem orgulhar-se nas avaliações trimestrais com a administração. É o tipo de análise que faz boa figura na folha de Excel, mas que, na sua razão abstémia, deixa escapar e até escorraça tudo o que sejam patinhos feios. Neste desafio, para não frustrar a componente lúdica deste objeto, sem complexos na hora de reforçar a sua dignidade literária, o livro infantil extravasa a sua função, sendo uma leitura e um brinquedo, um jogo e uma construção. 
E a propósito da relação mais profunda que se cria com o leitor, André Letria esclarece um dos princípios norteadores da atividade editorial da Pato Lógico: “Os livros que publicamos encaram o leitor como uma parte integrante do processo criativo, desafiando a curiosidade e apelando à sua vontade de descodificar mensagens que podem ser de interpretação múltipla.” 
E destaca dois títulos do catálogo: 1. “A Nuvem”, de Rita Canas Mendes e João Fazenda, uma alegoria sobre os tempos modernos. Uma nuvem misteriosamente estática provoca reacções desmedidas, como as que vemos e muitas vezes fomentamos no nosso dia a dia. 2. “Sonho”, de Susa Monteiro, o livro mais recente da nossa coleção de livros silenciosos - Imagens Que Contam -, em que convidamos ilustradores a contar uma história apenas com imagens. Este “Sonho” é uma viagem entre um homem e um tigre, personagens improváveis à procura de um destino comum, com todos os finais em aberto. 
Outras editoras que, a este respeito, mais do que a nossa estima merecem admiração e até louvor pelo trabalho que têm feito, são a Orfeu Negro, a Kalandraka, a Jacarandá. Se estas três não chegaram a responder às nossas perguntas, perto da hora de fecho da edição ainda nos chegou o testemunho de Isabel Minhós, responsável da Planeta Tangerina, uma editora que, a nível da expressão visual, nos apresenta tantas vezes álbuns que são verdadeiros livros de artista. E Minhós adensa o argumento do livro infantil como um objeto que assume a sua mais plena identidade numa insubordinação face ao mercado, rejeitando ser mais um objeto descartável, produzido em massa para ser consumido à pressa. “Porque é lido, relido, manuseado, tocado, folheado para trás e para a frente (e mordido, cheirado, dobrado…), o livro infantil é um objeto com o qual o leitor tem uma relação mais física. É um livro ao qual quase sempre se regressa (ao contrário de muitos livros que lemos em adultos) e esse é um lado interessante: por um lado, como autores, sabemos que o leitor não está ali de passagem, a saltar páginas, a ler na diagonal (apesar de ter sempre esse direito) e, nesse sentido, concordo que a relação que os leitores têm com o livro infantil possa ser mais profunda (mas esta não é uma regra universal); por outro lado, essa personalidade mais física abre as portas para uma série de aspetos. Se o livro está tanto tempo nas nossas mãos, se passa tanto tempo debaixo dos nosso olhos, se a ele regressamos tantas vezes, faz sentido jogar também com as suas características materiais (formatos, tipos de papel, tipos de impressão, acabamentos etc). Mas nem sempre é fácil fazê-lo, respeitando uma certa ética de produção. Convém lembrar que muitos acabamentos mais luxuosos ou inventivos que vemos nos livros para crianças (pop up’s, cortes, transparências, etc.) só são viáveis porque feitos em países asiáticos, em condições que nem sempre conhecemos. Portanto há que ser inventivo também de outros modos. E olhar para as etiquetas quando se compra.” 
E, para fecharmos, aproveitando esta visão do livro infantil como um objeto cujo charme se faz da sua insatisfação com os limites que lhe são postos, voltamos ao autor de “O Sítios das Coisas Selvagens”, e a um dos episódios que mais o marcaram nas interações e trocas de correspondência que foi mantendo com os seus leitores mais novos. “Houve um miúdo pequeno que certa vez me enviou um postal tão encantador onde tinha feito um pequeno desenho. Adorei-o. E tenho o hábito de responder a todas as cartas que recebo de crianças - às vezes faço-o é um pouco à pressa -, mas dessa vez demorei-me a fazê-lo. Enviei-lhe um postal onde desenhei um dos Monstros [d’“O Sítio das Coisas Selvagens”]. E escrevi: ‘Querido Jim: adorei o teu postal.’ Depois recebi uma carta da mãe dele, em que dizia: ‘O Jim gostou tanto do seu postal que o comeu.’ E isto para mim foi um dos maiores elogios que alguma vez recebi. Ele pouco se importou que se tratasse de um desenho original de Maurice Sendak ou algo do género. Ele viu-o, adorou-o e comeu-o.”

terça-feira, agosto 21, 2018


Há um sal de tempero, mas não o grão que faz sozinho o seu trabalho, esfola a língua, tira-lhes do sentido o pouco mundo, ritmado, dando aulas de dança. Podia chegar-se a um diário ele mesmo ladrão, que puxasse a cavilha, expondo a calma antecipação de um desastre. Esperando o que vier, dividindo os passos dos lados de um carril já desusado, quando o abandono vem com a sua vegetação, se alça sobre os atrelados, mete ninhos disto e do outro, e é como se o chão mastigasse com todo o vagar essas carcaças sonhando já a nossa extinção. Vejo a electrificação da linha, o outro lado, o exílio desses merdas, tão dedicados onanistas controlando a entrada de ar. E o que acho? Que o esplendor um a um, sim, o mel e o mal, claro; os dois até trocando abelhas, não é coisa que peça explicação. Mas de tudo o que nos põe na boca um gosto abrupto, para aguçar o mínimo, há a mais essa operação suja, insuportável e que serve para espanto de quase todos. O fedor da persistência, motor dessa prosa de coleccionismo, umas rarezas mortas, uns roedores de volta, e o álbum dos insectos, lepidópteros e o raio provando a paciência do carcereiro. Não tenho lume para tudo isto. Estou com o susto que foi ficando, que ficou tarde. A rua vem dizer-me um crime que nem interessa; irá passar despercebido, por mais grotesco: de saco de plástico na mão, catando lixo, os resíduos, com um sabor de coisa artificial, até pomposa. Demasiada inspiração, como se sabe, volatiliza a bruta clareza do autor, isto quando devia ser ele mesmo o aspecto mais sinistro da coisa toda, sem desculpas, sem vir arrumar tudo, talentosamente, numa bela justificação. Eu espero um desses que descansam a cabeça, e os demónios dela, à margem de um disparo: o ar interrompido, buscando-se todo. E depois uns meses num nomadismo sem a menor ênfase, recalcitrante, lembrando-se das intenções que antes tinham um bando. Quando miúdos mijávamos um muro socialmente (medindo-nos a que olhos?), e não havia ainda esta sensação de limite, esta moral que se foi fazendo da nossa indolência. Não sei comparar senão com a fantasia de um passado que colou os cacos, abriu a cova para não ir arrastado. É esta a estória que posso, sem rodas nem trilho. E não é desconsolo. É vidro que trago moído na boca para assim, nem por distracção, acabar engulindo outra.

quinta-feira, agosto 16, 2018

Prosa


Um poema não se vende como música, não se vende como quadro, como canção, ninguém dá um centavo, uma fava, um poema não vive além de suas palavras, sóis às avessas, não se vende como prosa, só como história ou arremedo de poema, não se vende como ferro-velho, pedaços de mangueira de um jardim, tambores de óleo queimado, sequer um pintassilgo, cantando no aterro de lixo ou a língua negra dos esgotos, que floresce algas, não se vende como grafite, não se vende como foto, vídeo ou filme de arte, não se vende como réplica ou post card, mau negociante de inutilidades, me tenha impregnado da praga das palavras

- Régis Bonvicino

A comédia de stand up como a arte quintessencial deste tempo



(abre as imagens noutro separador para as ampliares)