terça-feira, abril 14, 2015

domingo, abril 12, 2015




Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem


Gerard Manley Hopkins


A lâmpada fraqueja e dá o caminho,
uma atenção endoidecida sobre
os detalhes que a insónia tanto
mastigou. Rompe, logo, esfomeada
a claridade arrastando atrás de si a
brusca narração que tudo empalidece.
Corpulenta manhã que põe a merda
de uns pássaros em sítios altos e cala
o murmúrio dos corredores. O quarto
desmoronado, folhas a meio de um gesto,
um soluço no copo – a mosca que,
antes de se afogar, ainda dança na água
para desenhar o estertor num silêncio
que esqueceu o que implorava.

Fiz tempo com uma gente melhor,
seres removidos, lustrais. Dessa luz
escura criou-se a mesa, flutuando
sobre a corrente, e um leme, rude
lume sobre um velho mapa celeste.
Copiar tornou-se-me, de há uns anos,
uma obsessão: o recorte de sinais só,
o tumulto primeiro, aos poucos
a sua persuasão. Do vício inerente
às coisas que li, dei comigo feito um
possesso e até, mais tarde, um danado.
Avistei o Tigre, sigo-lhe o rastro quente
entre gritos e névoas. Extenuado, rouco,
sinto cada artéria abreviar a sua rota,
o próprio sangue em bicos dos pés.

E se já não escrevo, porque antes filmo,
documento e sei de uma certeza acidental
as coisas, por aproximação. Feras em sequência,
reflexos, perseguidas sob um sol negro. Vocífera
mão que me faz as medidas, a estratégia,
o cerco. Este corpo no seu avanço
indigesto, feito de palavras imprecisas
e rituais, como um louco vulgar dizendo
o inferno aos balcões. Estranho virado
em sonhos, um outro nome por que
me chamam. E o que nos chamam?
Educados maus modos que lhes servem
de razão. Uma volta sem saída, que não
começou nem acabará connosco.
Tenhamos tempo. Não será hoje mas,
olhando melhor, ontem, por um acaso
medonho, lá estava. Falaremos disso
mais tarde. Por agora, no lado da casa
que canta, faz-se um perfume de cuidados,
folhas de chá esvaindo-se, o sabão de ervas,
a luminescência de um verso tocado
pelos sons de uma mulher no banho.
A tarde é prometida a uma sinfonia,
mas isso fica do outro lado da casa.
Deste, os segredos estão cansados.
A hora é dos turistas, há que esperar
que se fartem como se fartam de tudo.
Voltemos assim que a noite os vença.

Cadernos do Subterrâneo IV


quarta-feira, abril 08, 2015

terça-feira, abril 07, 2015

Um canto telegráfico


Este passo encontrado que nos guia entre as mesas
este chegar tão tarde às pontes levadiças
para uma exposição de rosas no nevoeiro
este eterno trabalho de dadores de sangue
é o que mais nos defende do massacre
vá recomecemos
do ocasional gemido do fantasma eriçado
as notas principais:
pendurar numa árvore o rio capitoso de tantas lágrimas
descer de chapéu na cabeça até ao patamar
dizer para sempre aos cabelos da noite
que basta descalçar lentamente um sapato
que basta ter achado atrás do travesseiro o relâmpago azul do contacto com as mãos
ou ter ido seguro por lençois de linho a devastar de arbustos as solidões do teu corpo
do qual recordo ora as mais vivas carícias ora um mar interior de grande obscuridade
feito de todo o mármore do mundo de toda a areia que sobra do mundo erguido para o silêncio que estrutura o dorso de todas as paisagens belas frágeis do mundo
descer depois já a chorar de medo e a tremer de amor todo o lado de cá
chegar de rosto na água a aparecer às janelas
com um capuz no sítio da cabeça

ah um automóvel!

Nós vivemos há muito nesta espécie de caverna bruxa
alta pelo silêncio que nos veste
real pela erosão de um sol peculiar que ilumina o recinto intermitentemente
um sofá que não é para aqui chamado
também podia servir de modelo à ampla descrição do fenómeno a luz
que nos excede e emite nos liberta e sufoca
depois há um que entra a perguntar o que é
e tudo assume um pouco o ar policial
dos cascos em fuga pela realidade fora

Merecemos o nosso passo de bichos de dilúvio
merecemos que nos ceguem todos os dias
merecemos estar sozinhos rodeados de prédios
merecemos ter connosco toda a vontade
fim princípio moleza dos costumes
assassinatos histórias de basílicas
e até porque não dominicais
mas como não gritar à passagem triunfal do Grande Monstro Parado
como sermos bem nós e a localidade
muito bem disfarçada de necessidade
pela subterrânea passagem que é nossa
como não aspirar a um ponto de espírito um ao outro
em que a deflagração cristalize uma rosa ascensional
e como são as palavras para dizer que te amo
fantasma
cidade doida
braço contra as nuvens
alta promessa minha sempre em vão corada

Apetece contar uma história tão estranha que as pessoas saiam aos tropeções de casa
apetece anunciar com voz fanhosa
cronologicamente cruelmente
todas as horas do pasmo
todos os dias do calendário do medo
todas as terças-feiras da angústia de haver rosas
todo o fumo e toda a raiva de um relógio de sol
Tomaram-nos o pulso e ficámos febris
com o amor que não há a inundar-nos a cara
este amor não esquece este amor
não se esquece há um rato
na tua camisa o céu brilha o céu está
os amantes retomam os seus quartos
num plácido e extenuante recolhimento gráfico
mas não basta encostarmo-nos à parede
para que tudo ressurja e vestir de novo as fardas
a imaginação ainda não é
para servir de pedreiro A Imaginação
as radiosas salas superiores
através da cidade nos jardins nas gárgulas
abre-se o leque das mil cenas celestes
com o homem na ponte cor de rosa velho
as mãos na água a cabeça no mar

Onde é esta partilha este verdete
esta limalha que nos sobem à boca
onde é esta verdade que empurra as estrelas
para intranspossíveis mundos transportadores
uma última vez despedaçados amemos
amemos a nossa pedra o nosso olhar de mil cores
o mármore sem remédio das figuras bloqueadas
como são as crianças e os gigantes
uma última vez e mais estranhos
mais desertos de enigmas mais atrozmente firmes
sob a opulenta folhagem dos soluços

Dir-te-ei que os meus dias foram os teus dias o teu leito o meu leito este corpo este mar
dir-te-ei que há uma rosa oculta num jardim e que ela é ma e outra como nós fomos
estas pétalas são os teus olhos fechados
são as ondas por onde sopra o vento e nasce a cor da aurra e o grito gelado das coisas

Dir-te-ei foi agora
cintilante mortal cortado a fogo
e breve
rigoroso

Na sombra repousante
os teus olhos os teus
vãos pensamentos
como um leito avançando sem suporte
ou um navio perdido do dono

Tu partirás primeiro de lado contracenando
e arrastando contigo toda a paisagem
vejo uma águia assustadoramente voando alto
na retina
do vento
vejo o que foi permitido: tocar o horizonte

Amanheceremos fantasmas doutro teatro de sombras
seguiremos imóveis caindo por distracção
de amarra para amarra tomaremos o eléctrico
para o fundo da Terra cidade lúcida e quente
a aí expostos de novo sempre à fúria de curiosos engenhos destruidores
interceptaremos outra vez a vida
digo-te sim faremos girar a Terra
com o polegar nos polos canto telegráfico só captável pelo ar do Karakorum, entre os gelos gigantes do Tibete
e o indicador nos céus realizando o futuro da harmonia
para além de uma lágrima de um adeus com os olhos
numa estação sombria vomitando morte

Dito isto fica um grande espaço vazio
onde o homem está só não já de corpo ou de espírito
mas de todo o murmúrio e todo o espasmo
e então sim contra os vidros
o amor soluça tempestade
deuses cegos assomam às janelas e tombam
sobre o odioso chão que ladra e ladra
uma aurora de cães afivela o teu pulso
e a cobardia responde à cobardia
como a coragem responde à coragem

Um pouco de certo modo por toda a parte
há homens desmaiados ou simplesmente mortos

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles

mas onde está o mundo senão aqui?

- Mário Cesariny

sexta-feira, março 27, 2015

língua morta 056



MISTERIOSAMENTE FELIZ,
de Joan Margarit,
com organização de Miguel Filipe Mochila
[250 exemplares, 386 pp., 16€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


quinta-feira, março 26, 2015

língua morta 055



AS FADAS DO GIGANTE PROIBIDO,
de Filipe J. Batista
[52 pp., 8 euros]

pedidos: edlinguamorta@gmail.com


Cadernos do Subterrâneo I


quarta-feira, março 25, 2015

sexta-feira, março 20, 2015



(...)
Esclareço que não é minha intenção atacar este recital, ou pseudo-recital, de poesia, ou este em especial. De há alguns anos para cá, com a chegada de uma gente nova – que responde, aliás, ao rabo-leva de «novíssima» que está a dar na poesia última em data – que estes recitais (poesia lida) se sucedem com o agrado evidente de quem lê não lhes custa trabalho nenhum, é abrir o livro emprestado e zás, dar à língua e altear a dextra mantendo firme a canhota, e a admiração de quem escuta, que também não dá trabalho; é conservar a cadeira e voltar para casa incólume. Era minha intenção, sim, mas não sei se o faça já, se o faça já aqui, pedir às pessoas idóneas, mas, mais lato e mais forte, se possível, à em principio bela, magnífica juventude por conta da qual corre, na sua maior parte, a organização destas leituras, que se deixem disso, porque estão a ser enganados: por si próprios, pelo público e pela crítica.

- Mário Cesariny
«Saldos do Ano Acabado», Jornal de Letras e Artes, 29 de Janeiro de 1964

quarta-feira, março 18, 2015

ars magna


Devo ter corredores por onde ninguém passe devo ter um mar próprio e olhos cintilantes
devo saber de cor o ceptro e a espada
devo estar sempre pronto para ser rei e lutar
devo ter descobertas privativas implicando viagens ao grande imprevisto
de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do teu peito o animal que inanimado canta
devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis
devo separar bem a alegria das lágrimas
fazer desaparecer e fazer que apareça
dia sim dia não
dia sim dia não
devo ter no meu quarto espelhos mais perfeitos técnicas mais sérias prestígios maiores
devo saber que és forte e amplo transparente e colher-te murmúrio flébil aureolado
que eu arranco da luz que encharca o mundo
dia sim dia não dia sim dia não
devo portar-me bem à saída do teatro
devo dar e tirar as chaves do universo
num passo ágil belo natural
e indiferente ao triunfo aos castigos aos medos
fitar unicamente, sob as luzes da cúpula, o voo tutelar da invisível armada

- Mário Cesariny
in Manual de Prestidigitação

terça-feira, março 17, 2015

quarta-feira, março 11, 2015