sexta-feira, janeiro 30, 2015

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Moi-même, la mort


No mais, o mundo é sem retorno.
Mas manifestamente
não queria saber.
Já tinha protestado, já tinham respondido, já tinha
contestado as objecções.
Via-se a si própria
do lado errado da saúde pública. Nem corpo, nem alma
lhe davam garantias de robustez. Sentia o coração,
algures, disperso pela pele,
e di-lo-ia dotado de movimentos intermitentes.
Media os tempos, interrompidos,
e entre um e outro
parecia apagar-se como uma luz perante um foco mais forte.
Preferia desligá-las.
Subia o estore e ficava à janela a adivinhar ao longe
a massa húmida do hospital. Já desistira
de correr para as urgências.
Tinha aprendido a medir os passos.
Desde há dois anos que avançava só o suficiente 
para poder recuar sem cair.
Não o lamentava.

 (D’ailleurs, depuis longtemps, elle ne se croyait plus
 l’enfant perdue de Marcel Duchamp.)

- Madalena de Castro Campos

A palavra final


A palavra final pertence ao editor
ele tem um secretário da cultura
o secretário tem um primeiro-ministro
o primeiro-ministro tem um governo
o governo tem uma polícia
a polícia tem armas

Eu tenho um poema
o poema é um tirano
recusa assumir compromissos
no sentido estrito da palavra
é a palavra final

a neve é azul como uma laranja

- Elemér Horváth

terça-feira, janeiro 27, 2015

língua morta 054


EQUINÓCIO,
de Francisco Tario,
com selecção, tradução e posfácio
de Rui Manuel Amaral
[48 pp., 8 euros]

pedidos: edlinguamorta@gmail.com

sábado, janeiro 24, 2015

sexta-feira, janeiro 23, 2015

quinta-feira, janeiro 22, 2015

quarta-feira, janeiro 21, 2015

língua morta 053




ACHO QUE VOU MORRER DE POESIA,
de Nicanor Parra,
com selecção e tradução 
de Miguel Filipe Mochila
[60 pp., 8 euros, só para encomendas]



pedidos: edlinguamorta@gmail.com

domingo, janeiro 18, 2015


“O Manuel de Castro tinha a lucidez do demónio, a crueldade (para os outros e para si mesmo) de um carnívoro e a secreta fragilidade de alguém que anda perdido pelo escuro. Os poemas dele mostram, a quem sabe ler, toda esta movimentação interior”

- Herberto Helder
in “Eu que apareci acidentalmente vivo”, Revista Notícia, Luanda, nº 615, 18 de Setembro de 1971

sábado, janeiro 17, 2015

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Franco-Atirador


Estou abrigado aqui e longe da vista. Estou abrigado aqui em cima
na torre sineira de Nossa Senhora da Vingança: aqui é o meu lugar,
bem provido e com tudo em ordem. Esta torre foi erguida no ano de
tal e tal, o ano do corvo, ano da nossa desgraça.
Estou abrigado aqui em cima à sombra da cruz,
com abafos para os ouvidos, tenho a minha manta e um colchão de palha,
ajoelhado, mas olho para baixo, como um homem a rezar.

Uma mulher atravessa a praça levando água.
Corre lenta, corre para não verter. Depois uma criança, à vista
desarmada, segue numa diagonal e corre como uma lebre
numa esquiva. Estou aqui ao abrigo, certinho, com uma salsicha e uma cerveja,
um fogareiro para me deixar os dedos livres. Passam os dias.
Estou perfeitamente aqui neste aconchego, a minha toca;
tenho onde pousar a cabeça, lugar onde mijar
e, como contraditório cómico, as aves dos ares.

Com um olho sobre a mira, o mundo fica por perto,
particular: este avô que abraça uma sobra, cabelo a cabelo
na cabeça, olhos orvalhados, no bolso a moeda
de antes da guerra, presa a uma corrente, o tecer do casaco. Além,
junto ao meu amigo, o Homem da Marlboro, é onde
me sentava a beber um café de manhã: o café do Arno,
uma máquina de flíperes, a jukebox, a rapariga com a cara da Madonna
até lhe vermos os dentes; inclinava-me na cadeira
contra a parede a apanhar sol. Vão a medo. Vão com medo
de mim. E aonde vão, vão com as minhas boas graças.

Estou aqui em cima com muita coisa de reserva.
O céu da noite inunda-se, depois clareia, desfralda uma só estrela,
e a cidade recolhe ao silêncio debaixo da minha arma.
A mulher, a criança, o avô, não são coisa nenhuma, ou nada mais
do que a história pode ignorar, ou o amor apagar.

- David Harsent
(tradução de Hugo Pinto Santos)

quinta-feira, janeiro 15, 2015


Luz vermelho-infecto nesse fundo de susto, o corpo esperto de tanta porrada, suando, braço reteso para um caminho de formigas, a alucinar, um dedo aponta, conta, perde-se, a mão toda coça a costura sobre vertigens, baloiço de músculos como um sino distante. Faz tanto frio. Redobra a dose, a noite e a perseguição: lenta subida. Olha que lugar... Que tipo de gente se esconde assim? A ler na noite, sozinhos ou em grupos, em volta dos candeeiros, de roda de algum veneno. Alguma coisa sobrará escrita, num estertor, uma troca de sinais, como se toda a dor fosse um eco de outra coisa. Resolver esse corpo de restos de horas mortas, pedaços de histórias entreouvidas, frias, conversas sem caminho e gestos de despedida, tantos estranhos, uma ou outra cama. A noite acaba, corpo-franco, visto a varrer os corredores, as salas suspensas em ecos contemplativos, um mundo depois, quando o sentido já não reclama ninguém, apenas alguma companhia prudentemente calada. Lembro-me que a tinha sobre mim, deitados, a cabeça dela no sono inquieto do meu peito, e enquanto ela já flutuava eu ia e voltava de divagações entre ontens e amanhãs, quando já muita noite começo a ouvir umas pancadas seguidas na parede. Um ritmo a crescer e a morrer depois, nós de uns dedos noutra divisão, num morse obtuso que me irritou pelo nervosismo e insistência. Comecei a imaginar que fosse para ela. Alta noite, um antigo amante regressado para lhe dar sinal de arrependimento. Coso e descoso-me nestas vigílias absurdas. Conto os meus carneiros em pânico. Um sono que não o nosso, olhado de tão perto, é uma assustadora conspiração. Que sabe ela disto? Como os leva a este ponto? E a mim, que sou por natureza um desesperado, onde me levará ela? O pequeno relógio à cabeceira abala o quarto só de ir fixamente na sua conta de segundos. Maldade das pequenas coisas; os instrumentos do tempo à cabeça. Segue-la confuso, apagas, e com a manhã estás de volta, sem a teres visto sair. Desnecessariamente intrigado, vês como o lençol foi deixado a trabalhar luz e sombras, revolvendo-se quieto, a perder o calor. Perder manhãs de quarto e cama, esta luz que se mete entre os dentes da persiana e vem rolando, dispondo nos lençóis um tabuleiro entre casas brancas e negras, peças de sombra e hálito, o corpo entre sonho, memória e despertar. Foste deixado em xeque, ainda podes mexer para aqui ou para ali o rei, mas faças o que fizeres, mais uns passos e mate.

quarta-feira, janeiro 14, 2015

terça-feira, janeiro 13, 2015

LIBERDADE EXPRESSIVA



I

Liberdade de expressão, menos pôr a ridículo a religião, o que tem como consequência atentar contra a liberdade espiritual do próximo.
A sátira não deve, não pode ser aplicada à religião, ao contrário do que proclama o autor de Os Versículos Satânicos, verdadeiro lacaio do diabo não só para os Muçulmanos, como para todos os homens religiosos do mundo inteiro.
O que hoje aconteceu em Paris é mais um exemplo da liberdade sem autoridade e da autoridade sem liberdade, e da falsa e hipócrita harmonia que resulta da conciliação da liberdade com direito à blasfémia, ferindo profundamente os sentimentos mais íntimos e sagrados de milhões de crentes.
Ao persistir nesta teimosia de constantemente caricaturar e atacar o Profeta, que, na perspectiva dos seus fiéis é inatacável e associado à mais respeitosa veneração, o que hoje aconteceu em Paris, de outras maneiras, ou idênticas, precisas e cirúrgicas, vai acontecer por toda a Europa e América do Norte, até que o Ocidente se civilize e saiba usar a liberdade com autoridade, não permitindo insultar e satirizar qualquer religião, ou os seus Profetas.
Depara-se-nos, efectivamente, uma guerra (terrorismo contra terrorismo), que o Ocidente não quer perder, nem tão-pouco, o que é mais grave, quer ver.
O seu orgulho de ex-colonizador, escravizador e explorador de muitos povos africanos e asiáticos, ainda se mantém arrogantemente de pé. Chegou a altura de cair de joelhos e pedir perdão.
Os vencedores desta guerra, temos a certeza, serão clementes, imitadores do Profeta que, ao entrar vitorioso em Meca, a todos quantos esperavam a morte, deu a vida.

§

O que afirmamos aqui não significa a nossa concordância com a trágica e sangrenta realidade desta guerra, mas apenas dolorosa compreensão, e explicação da sua inevitável existência, desenvolvimento e desejável epílogo de paz.
Não há liberdade sem autoridade, nem autoridade sem liberdade.

II

Enquanto, no meu quarto,
do alto duma estante, um pombo
branco me olha
pronto a levantar vôo
e a pousar no meu ombro,
dois guerreiros
com corações de pedra
erguem suas mãos ao Paraíso
com orações e metralhadora.

Querem morrer como mártyres
porque a sua fé
friamente medonha
não lhes permite uma falha
nesta guerra de cálculo e espada.
Entretanto, o meu pombo branco
pousa-me no ombro.

Ligo a rádio pra ouvir as notícias.
Dois guerreiros
desafiam um país inteiro
(com a sua polícia e exército)
que simboliza, nesta circunstância,
todo o Ocidente produtor de morte e esterco.

Dois guerreiros,
serenos e metálicos
(loucos de Deus sem raiva na voz)
morrem martyrizados.

O meu pombo branco
regressa ao alto da estante
com as asas manchadas de sangue.

09.I.015


III

A minha atenção é desviada do interior de Deus
para o Seu exterior,
onde os symbolos se humanizam
e as sombras da Grande Catástrofe
pairam num amontoado de nuvens de cimento.
Oriente e Ocidente dão-se as mãos secretamente
no meu coração hindu, judeu, cristão e muçulmano,
mas, às claras, não se entendem
e transformam clarões em trevas
e as trevas numa guerra tremenda,
pérfida, traiçoeira e sem tréguas,
talvez provocadora da Última Hora
e da Segunda Vinda de Jesus
com seu látego e misericórdia.

O exterior de Deus nestes dias:
Movimentos cósmicos, vôos de borboletas que ocasionam abalos psíquicos e terramotos, doenças espiritualmente incuráveis, destinos malditos de uma beleza terrível, o amor que mata, a morte que dá vida a sós com o nosso espírito na vida eterna,
o profano a apropriar-se do espaço vital do sagrado,
a presença de Deus reduzida à sombra de uma Sombra,
o império dos ateus e dos ladrões do petróleo
bem iluminado pelas labaredas do inferno!

O som mais antigo de Deus ecoou na Índia,
Mãe de todas as religiões e dos 36.000 aspectos de Deus;
o som do Sânscrito da Índia
tornou-se voz de Deus
no som do Hebraico, língua que Moisés falou com Deus
de Quem recebeu a Thora;
e o som do Hebraico de Israel
tornou-se voz de Deus
no som do Aramaico, língua que Jesus falou com Deus
inspirador dos Evangelhos;
e o som do Aramaico de Nazareth
tornou-se voz de Deus
no som do Árabe, língua que Muhammad falou com Deus
que lhe ditou o Alcorão,
a Última Escritura até ao Último Dia, que se avizinha no Som de Deus.

O exterior de Deus consiste na Sua Palavra e no Lugar que ocupa no Livro e na Pedra,
superfície d’Escripta profunda
na qual se penetra descalço e sóbrio
com theológico turbante negro.

Qualquer religião é tão verdadeira
como este poema,
de um pobre murid de mãos em concha.


10.I.015

António Barahona, islamólogo.


segunda-feira, janeiro 12, 2015


Do sol ao fundo há cabos esticados
Congelados de sal sem nós no fim
São paus assim mais do que cabos
São remos paralisados jardim.
À tona ali há duas nuvens
Úteis para distinguir cima e baixo
Há um plástico estendido porém
Há chuva em redor do grande plástico.
Há um flácido cheiro tépido ar
Que faz ressoar o dia inteiro
E uma roda de oleiro no sistema solar
Acordar
Como ondas num cinzeiro cheio.

O mar como duas pontas e uma faísca no meio.


- Sebastião Belfort Cerqueira
in O Pequeno Mal, Edições Sempre-em-pé

Base para copos – poema para Azeitão


Sopa só e fruta
A passo de elefante
E enrola-me o cabo aí a um canto.

Há uma nódoa de vinho no levante
Uma luz que se entornou dum copo
Quando alguém tentou chegar ao pão.

Os loucos estão a lamber o convés
Outra vez e diz que o fazem por gosto.
Nas mãos sujas o mesmo sabor a pés

A que no transístor velho chamam mosto
Mas que toda a gente sabe que é da chuva
E o vigia toca muito mal a gaita.

Parece que o fim do dia é canção
Par' esses que bem ou mal sempre estão
Debaixo da rosa velha do sol

Há uma nódoa de vinho no levante
E muito mar pra galgar esta noite.
No balde há água fria e sonasol.

- Sebastião Belfort Cerqueira
in O Pequeno Mal, Edições Sempre-em-pé