sexta-feira, março 27, 2015

língua morta 056



MISTERIOSAMENTE FELIZ,
de Joan Margarit,
com organização de Miguel Filipe Mochila
[250 exemplares, 386 pp., 16€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com


quinta-feira, março 26, 2015

língua morta 055



AS FADAS DO GIGANTE PROIBIDO,
de Filipe J. Batista
[52 pp., 8 euros]

pedidos: edlinguamorta@gmail.com


Cadernos do Subterrâneo I


quarta-feira, março 25, 2015

sexta-feira, março 20, 2015



(...)
Esclareço que não é minha intenção atacar este recital, ou pseudo-recital, de poesia, ou este em especial. De há alguns anos para cá, com a chegada de uma gente nova – que responde, aliás, ao rabo-leva de «novíssima» que está a dar na poesia última em data – que estes recitais (poesia lida) se sucedem com o agrado evidente de quem lê não lhes custa trabalho nenhum, é abrir o livro emprestado e zás, dar à língua e altear a dextra mantendo firme a canhota, e a admiração de quem escuta, que também não dá trabalho; é conservar a cadeira e voltar para casa incólume. Era minha intenção, sim, mas não sei se o faça já, se o faça já aqui, pedir às pessoas idóneas, mas, mais lato e mais forte, se possível, à em principio bela, magnífica juventude por conta da qual corre, na sua maior parte, a organização destas leituras, que se deixem disso, porque estão a ser enganados: por si próprios, pelo público e pela crítica.

- Mário Cesariny
«Saldos do Ano Acabado», Jornal de Letras e Artes, 29 de Janeiro de 1964

quarta-feira, março 18, 2015

ars magna


Devo ter corredores por onde ninguém passe devo ter um mar próprio e olhos cintilantes
devo saber de cor o ceptro e a espada
devo estar sempre pronto para ser rei e lutar
devo ter descobertas privativas implicando viagens ao grande imprevisto
de um pássaro as ossadas de uma ilha a floresta do teu peito o animal que inanimado canta
devo ser Júlio César e Cleópatra a força do Dniepper e o carmim dos olhos de El-Rei D. Dinis
devo separar bem a alegria das lágrimas
fazer desaparecer e fazer que apareça
dia sim dia não
dia sim dia não
devo ter no meu quarto espelhos mais perfeitos técnicas mais sérias prestígios maiores
devo saber que és forte e amplo transparente e colher-te murmúrio flébil aureolado
que eu arranco da luz que encharca o mundo
dia sim dia não dia sim dia não
devo portar-me bem à saída do teatro
devo dar e tirar as chaves do universo
num passo ágil belo natural
e indiferente ao triunfo aos castigos aos medos
fitar unicamente, sob as luzes da cúpula, o voo tutelar da invisível armada

- Mário Cesariny
in Manual de Prestidigitação

terça-feira, março 17, 2015

quarta-feira, março 11, 2015




Vida interior


Era um desses raros homens para quem o cárcere
se levava com uma perna às costas e a outra pousada
nesse tamborete de ébano que são as costas de Deus

Tinha os ruídos recobertos de orvalho e os silêncios
muito mais a norte do que a morte dos pássaros,
ou algures entre Persépolis e uma Morus nigra

Na cela, havia valsas e banquetes e montanhas escaladas
e imperceptíveis diferenças entre os homens
e os seus avatares na Eucaristia

E experimentara a prisão entre paredes, na cidade,
na penúria, em turbilhões de ausências,
e nos momentos em que o cristal se turva

Mas nenhuma tivera a força das gaivotas
a grasnarem ao pousarem nas gáveas
dos navios do Capitão James Cook

- Miguel Martins

segunda-feira, março 09, 2015


What makes Rasula’s cautionary tale so sobering is that the sheer number of poets now plying their craft inevitably ensures moderation and safety. The national (or even transnational) demand for a certain kind of prize-winning, “well-crafted” poem—a poem that the New Yorker would see fit to print and that would help its author get one of the “good jobs” advertised by the Association of Writers & Writing Programs—has produced an extraordinary uniformity. Whatever the poet’s ostensible subject—and here identity politics has produced a degree of variation, so that we have Latina poetry, Asian American poetry, queer poetry, the poetry of the disabled, and so on—the poems you will read in American Poetry Review or similar publications will, with rare exceptions, exhibit the following characteristics: 1) irregular lines of free verse, with little or no emphasis on the construction of the line itself or on what the Russian Formalists called “the word as such”; 2) prose syntax with lots of prepositional and parenthetical phrases, laced with graphic imagery or even extravagant metaphor (the sign of “poeticity”); 3) the expression of a profound thought or small epiphany, usually based on a particular memory, designating the lyric speaker as a particularly sensitive person who really feels the pain, whether of our imperialist wars in the Middle East or of late capitalism or of some personal tragedy such as the death of a loved one.

But even this formula is not a guarantee of continuing success. “Poets and scholars alike are specialists,” Rasula says, but in one important respect the two factions are rather different. Whereas scholars gain cultural capital as they move up the academic ladder and can—by the time they become full professors—feel relatively comfortable in their careers, poets are always being displaced by younger poets. Whenever I sort out the hundreds of poetry books that come across my desk and rearrange my bookcases, I notice a curious phenomenon. Poet X has produced two or three successful books and keeps on writing in the same vein, but somehow the fourth book, no better or worse than the previous ones, gets much less attention for the simple reason that, in the interim, so many new poets have come on the scene. The newcomers are not necessarily better than their elders, nor do they write in an appreciably different mode, but the spotlight is now on them. Ezra Pound’s “Make it New” has come to refer not to a set of poems, but to the poet who is known to have written them.

Releitura de Maria Zambrano


"O coração pesa; e, é o pior,
pode fazer sentir o seu peso,
que equivale ao universo inteiro,
como se nele pesasse a vida de alguém
que, na vida,
não pôde já vivê-la"

— escreveu a Zambrano, expondo uma aresta
na sombra que não cicatrizava
e por onde errava um novelo
de sangue,
no encalço
de uma luz mais antiga.

O coração pesa enquanto s'entranha
no peito oco que caça,
nas aspas de mim,
o ímpeto do som —

o mesmo que inabarcável, infinito,
nele dita
o maravilhoso estrago
do amor ao passar.

E amanhã cantaremos, ah
sim, ciciaremos juntos...
sob a batida
do coração
que escorre a vida que foi merecida.

- António Cabrita
in Voo Rasante, Mariposa Azual


Must I move to get away from killing you
And carry to Sutton Place in the back of my mind
                           back to San Francisco ants
To get away from you?
I know —
         I’ll starve a hungry cat
         And name it Darwin
Angels
         If I crawled into your crack in the wall
         Four clumsy appendages, too dumb to talk
         What would you & your dynasty do?
         Tickle me to death under your indifferent feet
         Teach me to be a makeshift cockroach
         Live off my flesh & use the bones for cockroach walls
Cockroaches
         Prepare
I’m coming in

- Elise Cowen

quinta-feira, março 05, 2015


só o impossível acontece.
o possível apenas se repete ...
se repete ... se repete ...

- Chacal


Ainda não é o problema de que sempre sejam os mesmos, mas de que os mesmos já não se iludam, não tragam em si um golpe, uma decapitação, uma dinastia prestes a ser estancada. Esta gente não existe. Não se mudam lá dentro, no máximo compram uma planta, mudam-na de lugar. Nunca meteram as malas à porta nem se enfiaram numa agência de viagens com a ideia de, por uns dias que fosse, se porem a milhas de si mesmos. Não descem o rio, não molham os pés no coração das trevas. Cedem às represálias do que deles se esperou sempre, e as suas melhores expectativas estão entre o fazer boa figura e o não desapontar ninguém. Dispensam-se do outro como de um mal estar. Lêem Kafka como quem leva os miúdos ao jardim zoológico. Trazem a lógica feito espingarda ao ombro e não podem ver nada, atiram aos céus para os fazer tombar como caça. Frequentam quermesses, colóquios, gostam de ver o problema ser arrastado à força para o meio e, como num circo, confiam a um domador para que manobre o que resta do animal sob o aviso do chicote. Confiam nos números, na possibilidade da sua pobre palavra passar, de juntar gente suficiente e um dia, quem sabe, pagar as contas do mês.

terça-feira, março 03, 2015


A patusca sabedoria popular engole com gosto e ainda repete a noção de que há males que vêm por bem, mas talvez fosse mais proveitoso aprender com o abuso e o erro disso para retirar-lhe uma norma um pouco menos óbvia: a de que há bens que vêm por mal. Sobretudo quando os benfeitores se aliam e montam colégios de boas intenções. Há aí uma linha de produção desviada que julga estar a lançar novos mundos, para consumo de um qualquer povinho por vir, mas que se mostra redundante e só serve para gerar isolamento. O mundo esse tem cada vez menos público. Deste lado, somos cada vez mais incomodados por uns autores que raramente encontrámos na fila dos leitores. Um pequeno tamborete nas mãos de um qualquer destrambelhado pode produzir muito barulho, e na sua perspectiva é até natural que julgue que está a percutir com o próprio coração do mundo. Não falta por aí gente que se ocupe e festeje com o desconcerto geral das coisas, mas já são raros os instrumentistas que se ligam a um concerto mais atento, capazes de invenção e liberdade sem trair os princípios de harmonia, ritmo e certeza das grandes composições. Para se ser bom músico refere-se frequentemente a importância de se ter um bom ouvido, de treiná-lo. Chega-se hoje à poesia e damos com um colégio histriónico de surdos a espancar os velhos instrumentos da linguagem, e há sempre uns tutores que gostam de se fazer cercar e que atestam o prodígio destas crianças "especiais". Que importa se nenhuma mostra ter uma ideia do que a do lado está a tocar? É mais um quadro para se ver do que para se ouvir. Juntam-se muitos e lá vai a banda alegremente a achincalhar o silêncio cidade fora. Enquanto isso, como sempre, ainda há alguns que estabelecem as suas oficinas pelos cantos, a afinar tudo o que podem e a partilhar com o silêncio sobrevivente umas parcas notas, uns ensaios seguros, deixando nalguma pauta as suas descobertas. Mas o problema é sempre o mesmo. Raramente a música de um tempo toca antes do seu fim. E por isso seria bom não haver tanta pressa em dar palco aos mais insistentes, esses que provaram sempre ser os promotores do estado social de barulheira que produz todo este atraso cultural e poético. E, mais grave, este atraso da consciência.


sexta-feira, fevereiro 27, 2015