sexta-feira, dezembro 06, 2019

Nota geral sobre o problema da autoridade


A autoridade suprema, para um tradutor, deveria ser o estilo pessoal do autor. Mas a maior parte dos tradutores obedecem a uma outra autoridade: à do estilo comum do «bom francês» (do bom alemão, do bom inglês, etc.), a saber, do francês (do alemão, etc.) como é aprendido no liceu. O tradutor considera-se como o embaixador dessa autoridade junto do autor estrangeiro. Tal é o erro: todo o autor de certo valor transgride o «belo estilo» e é nessa transgressão que se encontra a originalidade (e, portanto, a razão de ser) da sua arte. O primeiro esforço do tradutor deveria ser a compreensão desta transgressão. O que não é difícil quando ela é evidente, como, por exemplo, em Rabelais, em Joyce, em Céline. Mas há autores cuja transgressão do «belo estilo» é delicada, pouco visível, oculta, discreta; neste caso, não é fácil apreendê-la. O que não impede que ela seja ainda mais importante por isso.

- Milan Kundera 
in Os Testamentos Traídos, ed. Dom Quixote

quinta-feira, dezembro 05, 2019

Compagnon de Route


O comboio-lata em sono-cinza abranda na estação
espanta o bronze das folhas, embarco na hinterland
alemã, salto o carril da história direta ao milagre
da paisagem comparada. O inverno levanta céus
cobre rios de gaze verdes ervas renova seu lume
estarrece

somente pela direita: do lado sinistro o companheiro
tendeu o estore, treliça da manhã, rede mosquiteira
da luz — vaga indefinição que não chega
a ser feia mas me põe sobranceira em guarda:
à sonolência do anódino meu solene desdém a quem
ignora

que “mortos são os que não aprenderam a cair” disse
a jovem debruçada no meu poema entendendo como
queria raspando a taluda na verdade sem rimar
na terminação, cheia de empatia para com as folhas
impreventivas da poesia. Não mais
cantar

Ele veste um blusão, tatuagens inscritas por baixo
há pele, uma origem operária que somos nos arrabaldes.
E o lanche ao lado no estofo: ratos cor de rosa, brancos
doces, densos, de esponja, com sumo de fluorescência
edulcorada, descartável, incompaginável com
ele, dorme

eu meço meu risco e ilusão: na lira das pálpebras
alheias porventura um pantone mais amplo gira
a visão inimaginada... daqui quem sabe a aventura
é irrazoável.

- Margarida Vale de Gato 
ICE Hamburgo-Berlim, 29/11/2019

quarta-feira, novembro 20, 2019

língua morta 098




ACHO QUE VOU MORRER DE POESIA
uma antologia de Nicanor Parra

selecção, tradução e prólogo
de Miguel Filipe Mochila

segunda edição, muitíssimo aumentada

capa a partir de pintura
de Piero di Cosimo

[300 exemplares, 272 pp., 13€]


domingo, novembro 17, 2019

quinta-feira, novembro 14, 2019

Amor depois do amor


Chegará o tempo
em que, com alegria,
te saudarás a ti mesmo ao tocares
à tua porta, ao olhares-te no espelho,
e cada um dará ao outro as boas-vindas com um sorriso,

e dirás, senta-te aqui e come.
Amarás de novo o estranho que há em ti.
Oferece-lhe vinho. E pão. Devolve o teu coração,
ao estranho que te amou

toda a tua vida, aquele a quem trocaste
por outro, aquele para quem não tens segredos.
Varre as cartas de amor da estante,

as fotografias, os bilhetes desesperados.
Arranca a pele à tua imagem no espelho.
Senta-te. Festeja contigo a tua vida.


- Derek Walcott
(trad. Jorge Sousa Braga)

sábado, novembro 02, 2019


Canta o início das coisas criadas, ouvimos nós
o nome mais vasto, canta-o por meio de enigmas
vazos, flores ínfimas, raízes com pores do sol agarrados
uma desesperada canção de luz e sentidos balouçando
nasce e cresce acalmando algum desastre
e as aranhas a que me dei, e que me pesam
entre a sombra e o rastro dos que viveram antes
assobiam-nos aos nervos
figuras a imitar-se nas águas, e anos depois
morro de sede ouvindo a canção refazer a fonte
a beldade sonhada voltando o rosto
e nos quartos, no ar a mais oiço este ressoar
de cordas ocultas, os aromas vivos
a nuvem que formam os insectos dançando
sigo a noite de perto, os grilos dispersam-na
o passario arruma-se nos ramos do antigo texto
que vou lendo pelo canto do olho
ilumina-se a ponte que transporta os bêbados
de um poema de Lezama Lima até este
e a beleza altera-se, vagueia, rouba fruta
apodrece como ela, decompondo-se entre as ervas
como um sino há um som que nos rói dentro
algum sabor vivo que se debate entre a boca e o prato
levanto o copo aos condenados
cada um dos reis destronados servindo chá de urtigas
entre pobres pragas, insultos comoventes
na ensarilhada fábula em que ninguém sobreviveu
passeiam no jardim nas suas armaduras cor de mel
ensinam-me a pedir emprestado as armas e a fé
mas também o perigo da saliva trocada
num beijo de língua sem aquele estrondo da água
acendem-me estes fogos pálidos e trémulos
e há um tambor para o barulho sobrante dos sonhos
que talvez ainda venha a reunir os exércitos
mas seria tão difícil hoje reconhecer a guerra
lutar ao lado de seja quem for com a antiga paixão
dividimos os restos, as maleitas
os periquitos a ralhar entre a cama e a janela
jogamos mal às cartas, a chuva toca Debussy para nós
e de tão sensíveis, vai-nos chegando ao nariz
o cheiro a ranço da eternidade
assim, dissolvidos no copo
à cabeceira uns dos outros, ali estamos
como um veneno, velando e rindo


sexta-feira, novembro 01, 2019


Enterra um chapéu até aos olhos, já não para que te dê um certo ar, distinto, mas como um princípio de desaparecimento, e até para que, de lá de cima, não se possa seguir esse pobre remoinho, seria mesmo bom apagar-se dentro de um sobretudo cinza, acabam-se as desilusões, o resto é triste, e aborrecido, mas sem importância, tudo é um filme que já se viu, e ainda que não consiga recordar quase nada, o cansaço toma conta, está tudo confuso, põe lá algum sentido nessa merda, não tens feito mais do que esconder as tripas num dicionário, enrolar de volta as mesmas noções imundas, a olhar para o copo que tens na mão como se tivesses escolha, dissolvido como veneno, aí estás, tremes, suas, um só trago inútil não irá devolver-te a clareza, emborca lá isso se, por um segundo, te fizer duvidar de que temos mais alguém lá fora, se tivesses condições, se alguém se importasse, talvez tivesses algum para estoirar, e tenho umas sugestões, quero um historiador aqui, a garantir que a coisa bate certo, fazer o levantamento, meter alguns calhaus a ressoar sobre a linha do tempo, isto pode bem não ir a lugar nenhum, mas não te faz mal teres algum respeito por ti, fazeres vozes, aprenderes alguma coisa nas legendas, esta porra toda ficou demasiado cínica, nem o Joyce com aquele infinito braço-de-ferro, aqueles parágrafos cheios de histeria e nervo seria capaz de trazer vida nova, espetar uma vez mais a cabeça do leitor na mesa, cuspir-lhe pragas no ouvido, o leitor é um escroque, de todo incapaz de formar um juízo por si, tão contente por ter o seu papel numa fraude, e a tempestade não quer saber disto para nada, mais valia que escrevêssemos com os nós dos dedos, burilando, ritmos rituais com deuses em fundo, fizeram disto mais outra profissão, e até nos livros estamos uma vida inteira à espera que o autor se decida a começar, que trate de uma vez o assunto, não estique, não se ponha com vocalizações, andando à volta, puxando cadeiras, fazendo prólogos, e deste lado, "onde é que já li isto?, como raio é que ainda não nos vimos livres desta gente, não desertámos de uma vez por todas, atraídos sabe-se lá com que pretexto, porquê toda esta benevolência numa hora em que se avista o fim e o que nos serve de terraço é uma pobre e tão triste coisa, talvez explique esta busca de alcoóis dissimulados, tretas licorosas, umas pífias ebriedades, pequenas vinganças, mexericos grotescos, apontamentos de viagens absurdas, as mesmas terras de sempre misturadas pela demência, e, como acompanhamos o último acto já sem a menor paciência, um rumor indiferente, como se fôssemos pedra, sujeitos só a infiltrações, ritmos que fazem esquecer a carne, vamos acabar com isto, já vamos, estamos sempre a ameaçar, como virgens mexendo em frascos de comprimidos, e é tudo, às vezes com uma música melhor, com a distância entre as coisas e nós próprios a crescer, esperando que o poema afogue os sentidos, dilua nessa água friíssima alguma coisa com vida e luz, até talvez uma estrela menor.

segunda-feira, outubro 28, 2019

PCD e a bomba que fará tremer todo o meio literário


Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal Wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away.
 
Constou-nos que vem aí, do nosso jarreta favorito, profeta badameco, Barão Von Teorias da Conspiração à Balda, PCD (Maria Rodrigues para os fregueses, nom de plume dessa Marilyn desnalgada, com ratos por damas de companhia, estrela das matinês nas boîtes transformistas, circa 1970s), uma bomba que, não faltará muito, está prestes a desprender-se como maçã maduríssima, de deixar os dentes podres, fazer piratas do pé para a mão, e o ramo da árvore do conhecimento já mal aguenta o peso, milhares de anos depois da Queda, vem aí esse fruto gémeo daquele que era proibido e que vai deixar o meio literário de gatas. Garantem os seus sequazes que não vai ficar pedra sobre pedra, e deste lado só nos resta tremer de antecipação, com tonturas e vómitos, como se estivéramos grávidas da nossa própria ruína. Nas copas mais altas já se agita o passaredo, o que nos diz que vem daí uma berlaitada em três actos, a toda a pressa, com a fúria dos grandes desígnios, e aquele ímpeto meia bola e força. A literatura dinamite contará com uma derradeira entrada, seccionada em capítulos que irão soprar pó e pedacinhos do trabalho lento da lepra, revelações terríficas, pragas que farão do antigo testamento literatura infanto-juvenil. Uma grande produção, segundo atestam os sabidões, os do círculo íntimo, rataria distintíssima, PIDES, broncos de capacete e babete, tudo a guinchar num frenesi, enquanto se fazem os preparativos para essa magnífica missa negra. Soubemos de um director de casting que dormiu com alguém, que, por sua vez, tem uns papelinhos sujos para sair num selo afim, que já se reservou um papel de protagonista para nós, mais alguns de figuração para quem queira juntar-se à festa, levar umas taponas em letra de forma. Os vis actos e inclinações ruins serão expostos, a baixaria será sujeita à lupa do inquisidor-mor, ver-se-á desmascarada uma rede de interesses e influências ao mais alto nível do aparelho e que se organizam para beneficiar-nos, e ficará preto n branco a glutonice em que assenta esta editora e outras, apostadas em dominar o meio da edição, enxovalhar a concorrência e asfixiar a cultura portuguesa. A cama está feita. E dê por onde der, vai ser a polémica para acabar com todas as polémicas. Até o Senhor já mandou os anjinhos para uma formação intensiva, para aprenderem com o mestre, tirarem notas para o Juízo Final, porque o Paulinho (ainda que ninguém se lembre do mundo antes nem o imagine depois dele) não dura para sempre.

domingo, outubro 27, 2019

Morreu José Bento


Morreu José Bento. E se o mais certo é que o saibas já, seremos poupados à costumeira debandada estéril, às participações de porta a porta, à notícia acotovelando-se a si mesma, sem esconder uma certa euforia necrófaga. Não se verá a habitual agitação dos que se apressam a vir dar o ombro ao caixão sem peso que logo segue, como adereço da farândola. Não vai desfilar a grande caixa de sapatos vazia, como um estranho peditório. Assim, o mais discreto dos lutos é já o único que nos esmaga, como uma noite lentíssima que se põe em todos os fusos horários entre uma família afastada, arruinada face à nobreza de outrora, cultivando, assim mesmo, essa apreciação pela língua, pelos usos que lhe extraem a diferença que é o verdadeiro ouro dos dias, esses ângulos inacessíveis que fazem rodar o mundo e plantam a discórdia e a variação entre as leis que o entregam à repetição. Afinal, como explicar a quem não distingue do barulho essa arte de música, que mesmo calada impõe a sua distinção? É evidente que a escolha de guardar silêncio só está ao alcance de quem, querendo, pudesse ter falado, e assim alguma outra coisa se visse, alguma impressão mais funda se adiantasse à nossa compreensão. Eis o dia em que nos despedimos de um mestre que nos foi corrigindo a postura sobre essa montada de que só alguns estamos conscientes, enquanto outros lhe fincam a espora e castigam o animal na estúpida tentativa de o apressar e à vida. Antes e depois do tradutor (que desaparece deixando alguns títulos encravados em editoras dessas seríssimas e que, afinal de contas, se borram para toda a grandeza que está já lá muito alto, e que ainda procura subir mais algum degrau sem apoios, sem garantias ao nível do saldo de tesouraria), antes, depois e durante a tradução de todo esse rol de aventuras e testemunhos ao longo de épocas da língua espanhola, estava um poeta de uma tranquilidade e persuasão clássicas, desses que não maçam, antes reservam a gota bastante numa tão estimada e velha garrafa, um raro tesouro que se abre só quando a companhia o exige. Era desses que escrevem como se mortos há dois ou três séculos, sem a pressa de vir causar espanto numa paisagem que se cobriu de espantalhos, os quais fizeram já o seu trabalho de tal modo que “Não há ninguém para ouvir, se acaso cantam/ a chuva, pássaros, ausências vibrantes/ na cozinha de outrora” (já vamos ler o resto do poema mais abaixo). E isto com o benefício de poderem acompanhar o que se fez depois, o que hoje se faz contra a boçal monotonia e mesquinha mitomania característica da época. Quando o que por aí anda nas incessantes investiduras da puesia, entre o incontido orgulho e o ressentimento, a impingir os livros de versos onde não fazem mais que engarrafar o próprio ego, estes sem mesmo o quererem, sem nem se mexerem, vão-se transformando numa aristocracia das nossas letras, uns que esquivando-se, não parecem muito interessados em ser descobertos por aqueles incapazes de descobrir seja o que for por si mesmos; não se pavoneiam nem são vistos entre a tropa bisonha que aguarda a sua vez para desfilar em trajes menores nas praias da literaturrice, mas espremem a hora, esgotam-na, matam-na à pancada ou atraem-na sussurrando admiráveis venenos ao ouvido. Cozinham-na requintadamente em autênticas liturgias ou esfolam a presa sem cerimónias e com o que quer que tenham à mão. De qualquer modo, sabem que não há condimento que mais faça pelo sabor de um prato do que a fome. Em vez de fazer criação de umas pobres espécies a que se pode dar morte sem grandes trabalhos, torcendo um pescoço que nem luta dá, dedicam-se aos sentidos da falta, a razão que descobre a sua lucidez na perseguição só dessas coisas sem as quais não se vive. José Bento era protagonista de uma admiração sem igual. Desde logo, sem tempo a perder. Parecia misturar às competências de um bibliotecário as de um alquimista, dominando as propriedades do idioma a um tal ponto que sobre ele podia elaborar fórmulas como se se tratasse de química. Num tempo que já não precisa de proibir e nem de queimar livros, e quando basta criar todo o tipo de divertimentos e distracções para que a atenção se consuma e perca, sem chegar a reconhecer-se como uma disciplina, estes tradutores que não se confundem com os mercenários ao sabor do esquema editorial, desenham a própria clandestinidade, abrem um mapa de pontos de contacto, refúgios, acessos e saídas face a um tempo em que quantos mais se reúnem menos ali se encontram. Neste tempo, um homem que, a sós, se debruça sobre a verdade que tem em comum com outro, vertendo para a sua língua uma mesma intenção, desejo ou respiro, ajudando-o a dar mais alguns passos na direcção que já levava, há nisto mais humanidade do que em todas essas arenas lotadas em que a histeria exprime a paixão miserável em que toda a nuance se dissolve como em ácido. Eis o poema prometido, e que José Bento dedica a Joaquim Manuel Magalhães, em Sítios (ed. Assírio & Alvim, 2011):

Não há ninguém para ouvir, se acaso cantam
a chuva, pássaros, ausências vibrantes
na cozinha de outrora,
– no telhado onde a noite repousa de seus astros,
nas ramagens transidas mais que por raízes
sôfregas dos passos enterrados:
pelo vazio talhado por quantos se apagaram
sem poder acenar-lhes sequer o olhar restante. 
Do fumo, nem névoa nem olor,
(aquele extenso olor de lembranças e pinho)
só a sua escrita viva nas lajes, nas madeiras
aqui, diz a caruma a espertar o café;
ali, que ateiam lenha mãos tão anafosas
que sob a terra inda me acalentam;
e leio mais além as ceias, os serões
de sabores e conversas fluindo sonolentos. 
Há a porta fechada por uma chave perra
sem haver quem recorde onde ela está guardada;
e a lareira e a mesa, já não pedra e castanho:
rostos sob a poeira sem lábios para a voz;
e o cântaro, a soleira, as janelas, o cesto,
sem água nem pegadas, sem cortinas e pão. 
Longínquo, desconheço o que aí sobrevive:
houve palavras, gestos, achas nem cinza hoje,
calor e não apenas de sol e labaredas,
em redor soltou-se a aura de pólen e trinados;
isto me chama e abriga como as paredes trémulas,
mais de vestígios plenos que de cal e adobes,
onde busco quem fui sem me importar se o encontro,
entre rastos de sombras e de asas já sem voo.

quinta-feira, outubro 24, 2019

língua morta 097



ESTÃO PODRES AS PALAVRAS
uma antologia de Jorge de Sena

Organização de Teresa Carvalho
e José Manuel de Vasconcelos

capa a partir de pintura
de Jan Madijn

[400 exemplares, 208 pp., 12€]

quarta-feira, outubro 16, 2019


uma orelha e um dedo, restos que ficaram na cama, ao lado do corpo que se esvaíra, que triste e estranho terrorista, chegara a enviar uns embrulhos, o correio entregou-os nos dias que se seguiram, numa ordem pouco clara, e todos ficaram na expectativa, as pequenas porções mutiladas de que se separou antes que se tornasse fatal, com a precisão de um rito selvagem, para que soubessem o peso de cada frase, o lado irremediável, que preço pagava com o que escrevia, e todo esse cansaço, as múmias alinhadas, os rodeios, os modos de se perder tempo, que paciência para os protocolos, que estória e que enjoo, essas estórias gastam-nos como má cerveja, o sabor a mijo, a circularidade que tanto nos castra, mais vale abrir a navalha, cortar uma orelha, entre uma mão e a outra desfazer alguma coisa, estrangular uma sombra, damos o gargarejo no copo de cólera de uns poucos, peregrinos que se cantam, espreitam-se, apagam a vela uns dos outros, sabem que a morte é uma fantasia que não exige grandes cuidados, não seca, uma pouca água a cada cem anos, e estes tipos acabam criando à sua volta um cenário de cadeira eléctrica, a mesma corrente que os anima acabará por fritá-los, que diferença lhes faz a afinação, o verbo arranca as suas penas, galga escalas, trepa qualquer baixeza, e afunda nela as esporas, que atropelo de assonâncias, que protagonismo dá aos ventos nas suas peças, como deixa para os estalido a pontuação, e nenhuma imagem parece intacta, mas está ali, toda cosida, remendada depois de que escaramuça, e quanto ao bom gosto parece que foi de alguma ajuda a casa ter desabado sobre nós, vamos arrumando à medida que nos dá jeito, fazendo um tecto como manda a chuva, e a velha máquina de costura que ali está provou ser bem mais calmante, a sua rima é mais desaforada, tem mais vigor, maior alcance do que os poemas que se escrevem, esses infelizes grupos de caça que formam os escritores, às dezenas, se deitam abaixo uma lebre já ficam exultantes, nada pior do que a vida nas composições de um bando de cretinos prolongando os tempos de escola, criançolas envaidecidos, prefiro desenhar as letras com tanta força e tão devagar que todo o sentido fuja, no escuro, calada e a brilhar, a televisão é a minha fada, sorri de tantos modos, faz o corredor do desespero com uma graça que me anima, passo pelo café no caminho para o inferno, bebo a bica, faço caretas no espelho atrás do balcão, quase me faço rir, fico satisfeito com as pequenas dores espalhadas pelo corpo, como se o recosessem depois do péssimo trabalho que foi feito originalmente, tudo está pior, range, assobia a despropósito, eu assombro-me, e na minha pele está-se cada vez melhor, mesmo o horror, como me fizeste notar, não funciona sem o sonho e sem a música, nada haveria a aproveitar de todo este desastre, mas assim é outra coisa, oiço o concerto dos cães à lua, tudo me fica a caminho, uma orelha e um dedo num banco de jardim, com um bilhete, assinado:

either way i lose




quarta-feira, outubro 09, 2019


Dobradas no bolso em linhas difíceis
as cinzas calmas
o lume escrito e gasto de um roedor lento
depois de muito terem ocupado os lábios
mas de boca encostada à própria mudez
que vozes se perdeu?
Vamos voltando sobre si as coisas
como ondas, se a luz recolhe na treva
algumas impressões, a desfasada razão
de tudo o que longamente se perde
ganho uma ciência de uso para a morte
por capricho, alguma revolta
carne e sangue e mais de tudo e do tanto
que aos versos se tem prometido
como se a voz mais que nada nos engrandecesse
e que riquezas, tesouros, que mágica
a de abrir-se a música, eviscerá-la
mas em que mesas deste mundo?
E cortar desde onde... até que fim desolado?
A colher escura e o horizonte queimado
por raiva amorosa talvez, oiço então
o que mal vejo, muito a custo a vida
estende longe a sua sombra, e que animal
arrasta o canto, que doce assobio selvagem
com que dobram as canas até quebrar
um sentido perdido em algum outro
e na retirada que sonhos enchem a cabeça
a um soldado, deserta covarde cantor
em troca de umas noites ao relento e a sós
arrisca a honra e o nome
e virão a encontrá-lo morto afogado
de tanta respiração e das tão esquecidas
notas caindo da memória à melodia
estilhas, soluços secos, o mais curto
o que o temporal ritma
a bruta canção ameaçando tudo
largar o seu fósforo, e se por absurdo cantasse
enquanto a história se apaga
em qualquer parte da noite se ouvisse
amarrado às coisas que vês
o feroz encanto de tudo o que te prometeste.


terça-feira, outubro 08, 2019

Esfarelar o Saramago


Que bando de caquéticos! O meio literário português é realmente invencível na sua cretinice. Estão a desfazer o Saramago em porções a tal ponto ínfimas que, do velho prestígio, parece ter sobrado só o suficiente para a anual carcaça de que se arrancam os pedacitos para causar estardalhaço entre os pombos. No que respeita às letras, há muito se dissipou o seu assombroso apelo. É próprio de gente à míngua de um destino, uma fé mais robusta, que se defenda do mundo cingindo-o a narrativas que não perturbam nada, não atazanam a consciência. É natural, se levarmos em conta aquilo que nos espera, que esta seja uma época toda ela jogando à defesa. Dentro de dez, talvez vinte anos, não só não se falará mais destas porcarias, como ninguém pode esperar que a literatura, nesta degeneração das últimas décadas, tenha a menor hipótese de se aguentar. Esta bimbalhice supérflua vai toda pelo ralo. Toda esta barulheira ficará soterrada. E ainda bem. Talvez restem alguns testemunhos, papéis chagados, linhas escrufulosas, mas não certamente este género de literatura-calmante. Sobre este “Pão de Açúcar”, não posso dizer muito mais do que já disse (aqui está: um, dois, três textos desenvolvidos sobre o assunto). Não bastou que eu tivesse um pouco de razão, fizeram o favor de dar-me uma razão absurda, cheia de hilaridade. E ainda que tenha previsto o prémio, não imaginava que dessem cabo deste, desbaratando a pouca dignidade que lhe restava. Se os que se estão nas tintas nem foram ler, ou tomaram tudo à conta da rabujice sacana deste vosso fiel sacripanta, talvez não se possa descartar de todo a ideia de que ainda há alguns espíritos não de todo amodorrados, alguns que se importam, e que talvez tenham tido curiosidade suficiente para ir saber mais qualquer coisa sobre um caso que, para lá do registo mais sensacional (esse que convenceu o Afonso de que podia esmifrar a coisa) se esconde algo realmente perturbador, um episódio escabroso e que deixa a descoberto um sarilho de todo o tamanho envolvendo as nossas instituições de acção social e, também, o sistema judicial. Assim, e passados anos, o encobrimento de tudo o que falhou e conduziu à morte de Gisberta Salce Júnior é coroado por uma narrativa de uma ingenuidade espantosa, tão edulcorada quanto imbecil, e que revela bem o tipo de produtos que saem das nossas indústrias de consolação cultural. Não vou mais longe aqui porque já fiz o que podia naquela sequência de textos, os quais não podiam simplesmente ser ignorados. Mas foram. O Afonso, os seus editores e os promotores deste sucesso das nossas letras estão-se nas tintas para o que aconteceu com a Gisberta ou com os rapazes. Esta obra é o exemplo acabado da inépcia absoluta daquilo que nos é vendido como ficção. Mas lá se arranjou um jeito de que o triste pão-de-ló ganhasse a cobertura glacé de um “grande” (leia-se: espalhafatoso) prémio. E logo se verá se este caso fica enterrado, ou se os bonzos das letras ainda haverão de sentir umas comichões caso alguém tenha a coragem de fazer uma exumação deste episódio. Quanto à literatura, vamos continuar a assistir a este um-dois-três-macaquinho-do-chinês, com a ficção a virar as costas quando a coisa fica feia ou exige outro empenho, e mais trabalho. Não podemos, hoje, contar com ela para desenterrar seja o que for, traçar um olhar mais fundo nem duro de tal modo que a vida nas suas linhas pareça aumentada. Nem esperamos já deparar nesta livralhada com uma frase que nos doa, nos siga até casa, se nos meta dentro, firmemente, a escarafunchar como uma terrível dúvida. É sempre um cauteloso pouco-a-pouco aquele que serve de processo a estes temperamentos regulares. Um uso da gramática para fins de tráfico de bijuteria melodramática. E gemem sangues de alguns milréis fracos. Sempiternamente as mesmices convencionais. Como me dizia o velho há dias: “A dúvida está a desaparecer do mundo. Matamo-la ao mesmo tempo que matamos os homens que duvidam. É mais seguro.” E esta nossa elite pindérica, as damas com lugar cativo nos júris de prémios, as viúvas de cera, os críticos oficiais, consolam-se com as suas certezas tão pobres e confrangedoras. E renovam-nas indo buscar algum rapaz ao molhe. De tal modo convertidos ao esquema publicitário, a bazófia leva-os a agacharem-se para catar novos valores, como se o futuro viesse numa apanha da conquilha. Uns elogios vagos, umas banalidades preguiçosas, limitando-se a carimbar a caderneta de mais um pacóvio que dê garantias de que vai sempre portar-se bem. É tão fraco o sustento das palavras. Não há mais veneno lúcido nos textos. Só ficou esta literatura de repouso, andando para trás e para diante de pantufas a tentar lembrar o que buscava e se lhe varreu. Estórinhas para essas senhoras cheirando a religião, mas uma religião que não crê em Deus nenhum. Senhoras que têm para anjo, para velar os seus dias, a pobre mosca que lhes assenta sobre a caca moral estrafegando-lhes o juízo. E nisto, quantos hoje escrevem ainda desde alguma outra parte, sem andar nesta procissão entoando as estafadas e tolas cançonetas? O que fica claro é que, para afastar a hipótese de um crime, todas as linhas foram entregues ao tédio, à conversinha mole, a uns enredos de entreter, a um modo de liofilizar a vida, e mesmo o horror com que esta tenta sacudir-nos. Assim, na nossa literatura, e especialmente na da chamada ficção, não se vê ninguém trepar, gritar nos telhados, uivar nas esquinas... Nada. A ofensa capital por estes dias é atentar contra o decoro, o bom senso, a escrita escorreita, que não dá trabalho, não desassossega, não range os dentes nas trevas. O homem já parece estar fora das suas próprias criações. Não há a menor vertigem, não se sente aquela tontura que nos provocam os aspectos trágicos e irremediáveis à medida que penetramos no seu destino. E quem paga por tudo isto são as palavras. Restos. Nem a música resiste, e já só vivemos de velhas gravações que vão perdendo alcance até serem ecos sem pujança. Já não acreditamos em deuses literários. Só capelães, acólitos, beatas. De algum modo, mesmo aqueles de nós que se esforçam, e que vão mordendo o limão, estamos todos sujeitos a esta carência, esta espécie de escorbuto que se generalizou entre a tripulação da nau encalacrada num baixio, e que deixa para o fim os piores, estes moluscos, lambe-botas. Parabéns ao Afonso, que deve estar muito feliz, e que celebrará o prémio sem vergonha nenhuma da atitude parasitária que fez dele a mais segura das apostas entre todos esses novos escribas inofensivos que revelam grande promessa.

quinta-feira, setembro 26, 2019

Soldados gratuitos


Prosseguimos as buscas, e estas exigem-nos, na verdade, um combate, um exercício desesperado para arrancar a página escabrosa, um crime inesquecível, que impressione, mas, mais que isso, macere, convulsione, degrade a imagem que fazemos de nós próprios, uns dos outros, rancorosos ou dóceis, imbecis sempre, muito ou pouco, pois não passamos de um amontoado de miseráveis, e o que é preciso é dar cabo de toda a confiança, essa ilusão malcheirosa que está em toda a produção da época. Mais valia que rastejássemos, sem dignidade nenhuma, talvez até um pouco menos emproados. Mas como notava o mais maduro, “nós nunca mudamos: nem de peúgas, nem de donos, nem de opiniões, ou fazemo-lo tão tarde que já não nos vale a pena”. E depois, quando se tenta tocar esse fundo sensível, ainda há a carreira dos malentendidos, essas leituras apressadas, e não chega uma vida inteira para que um tipo se liberte das acusações mais vulgares, as que primeiro vos sobem à boca, como o escarro que subjaz a almas sem treino nenhum. Neste vosso inferno, chapinha-se, não há profundidade nenhuma mesmo que passasse pela cabeça de alguém afogar-se. Essa ideia que de mim fazem, não me parece que esteja errada, apenas peca por ser simplória; um mal que se esforça, e não essa sujidade que resulta das vossas tão fracas convicções e ainda mais débil talento, assim, o que aborrece em tudo o que me chega desse monte de carcaças é como recusam olhar-me mais fundo, pelo receio de se encontrarem a si mesmos, verem-se espezinhados. Tem de se destruir o outro tendo-se abismado nos limites de si próprio. Como avisava Valéry, temos de entrar em nós próprios armados até aos dentes. Pois de mim eu sei bem o quão magoado estou, e resulta disto que sei magoar. Mas que me venham com ofensas cheias de mofo, em tão maçadoras redacções escolares... e o que custa mais ainda é ver como lêem livros, documentam-se. Armados, que vontade de rir, se a ponta que cospe fogo parece levantar-lhes dúvidas, e se estão mais à-vontade com as trombetas de que logo puxam a rolha, a única ameaça é a facilidade deste em render aquele, como se diluem uns nos outros, repetem as mesmas queixas, com idêntico estrépito, e se algum perigo resulta disto é o seu prolongado cerco, fastidioso, pois não há sítio onde não estejam. Depois, e mesmo que sigam admiravelmente a marcha do pelotão, que tiros nos pés, que barracadas, que sucessão de falhanços nos servem estes “soldados gratuitos, heróis perante todos e macacos falantes”. Atacam violentamente no coro, e a sua estupidez soa cortando o avanço até a um incêndio num campo seco com a chocarreira música da sua secção de cordas, dominada pelas cigarras. Estão na mais perfeita sintonia com a impostura, e, por isso, as suas consciências parece-lhes que rimam com tudo o que têm à sua volta. É tão fácil ir buscar outro, revezarem-se nos seus postos, como um corpo que se deixa sacudir pelas suas pulgas, e se chega à frente, qual moribundo disposto a ser estripado, como se nada fosse. No fim, como se recarregassem, continuam todos a admirar-se mutuamente e isso basta-lhes. Trepam a esse céu onde nada brilha. Lá vem este grunhidor que mal se distingue do último, lá vem com a conversa do moralista, do que se julga impoluto, quando há muito que o que aqui se foi dizendo é que só me orgulha ser bem pior do que possam imaginar. Lá vem o chinfrim de frases que, de tão buriladas, se recortam e abrem como grinaldas, enfeites de festa, bandeirolas, e fazem as suas caretas, cumprem o serviço obrigatório em nome de um destino do qual há muito me desembaracei. De Ponta Delgada mandam-me um sicário zarolho, mais outro que me vai fazer a folha, e lá vem ele com umas considerações muito gerais, uns planos de prevenção, cuspinhando umas sentenças que qualquer um podia ter baixado a escrito numa sebenta, mas sem nada que se sinta ou resolva interiormente, uma só gota de veneno certeiro, e logo fica claro que é mais um que puxa o lustro, faz entrar o processo com uma lista de provérbios inúteis, mas sem uma só linha admirável a impor-se-lhe, quase a estrangulá-lo. E, então, contamos com mais este aguarelista insular, contente por ser incluído nos turnos, vir “fortalecer muralhas”, como diz o imbecil que afixa o calendário e trata da rotação do pessoal. “Gritando de cio, desabam os telhados”, assegura-nos aquele redundante magarefe. O certo é que cada vez mais os ecos mais furiosos de qualquer razão inventiva não têm já cabimento se zurzidos contra este quadro mental em que chafurdamos. A literatura é, entre nós, um resto. Uma coisa tremendamente desolada. Tantas vezes saqueada... Tudo o que se quis evitar culminou nos nossos dias e o vazio encharca-nos. Faz um frio que nos deixa tiritantes, e, mais do que quaisquer outros, parecemos ser nós os filhos daqueles que quiseram fugir e não puderam ir mais longe porque o mar não os deixou. Sobrou uma hipótese: a fuga da própria vida. Escapar-se aos sentidos, até ao último. Assim se explica esta espécie de bebedeira, o estupor geral: “Para o alcoólico a água pura é um veneno. Odeia-a com todas as forças... não a quer ver à mesa... ele quer bosta engarrafada. Em filmes, em livros, em tiradas, em canções de amor, em mijo...” E, nestas condições, mesmo aquele que aspira a um acto infame é tomado por um “moralista”, alguém que ambiciona tornar-se o senhorio na morada da salvação. Ora, este género de confusões e inanidades são próprias de um tipo de escriba para quem já nem as palavras prendem o menor sentido, e não passam de gases modulados por um instrumento que se toca de forma sofrível apenas para entreter os beiços. Estamos, assim, muito para lá do bem e do mal, num território onde esses velhos conceitos são esgrimidos da forma mais ociosa, e chegamos a sentir nostalgia de tempos em que se falava do meio literário como um campo propício a esses espíritos capazes de ordinarices espantosas, de uma “maledicência absoluta, fanática, máxima, do mexerico furioso, mesquinho, da bisbilhotice delirante”. Apenas temos para nos coçarmos fantasmagorias sórdidas, ausências pesadas e que ressoam nos nossos espíritos como uma maldição. Nem somos já essas tristes coisas vis que provocam o nojo, mas apenas existências desnecessárias, e que se agarram, não propriamente à vida, mas a isto, sendo que, intimamente, reconhecem o favor que se lhes faria pondo fim à sua miséria. Neste estado de coisas, é de uma perfídia assombrosa alfinetar essas ilusões, expor esta enorme e permanente velhacaria. Pois é esse, no fim de contas, o fio que vos prende à vida.

terça-feira, setembro 24, 2019


"No nosso país de estetocracia – não sei o que se passa noutros lados, com certeza a mesma coisa, embora me pareça que não no mesmo grau – tudo quanto faz gala em pertencer à casta dominante se afirma, antes de mais, adepto do bom gosto, do discernimento estético, da fala elegante, da boa escrita. O lado belas-artes, boas maneiras e belas letras é o lado do mais forte. A casta instalada proclama-se conservatório cultural, e assenta nisso a sua legitimidade. É o seu argumento de reserva, o seu salvo-conduto. A senhora – a senhora Não Me Toques, a senhora Alta Costura, a senhora Pancada Alta – sabe que aplicando verbos no conjuntivo consegue mergulhar numa reverência assombrada o canalizador que conserta a torneira. Mesmo nos casos em que a senhora não tem dinheiro para pagar o conserto. Não é a riqueza que fundamenta os galões, mas o emprego do conjuntivo. Já se reparou nisto? Já se reparou o bastante? Julgo que não. O mito da boa escrita é uma peça capital da defesa burguesa. Se quisermos falar ao coração da casta que por aí lavra, impressionemo-la com os conjuntivos, com o cerimonial do bem-falar oco, com os seus tiques de esteta. Aquele que estragar de uma vez para sempre os santos relicários que ela costuma brandir, como os feiticeiros negros brandem os seus fetiches – os seus grandes autores, a sua Gioconda, as suas cadeiras Luís XV, a sua bela gramática, a sua língua morta esterilizada, toda a sua confusão de conservas de osso que faz passar por arte e cultura –, aquele que conseguir fazer entrar na cabeça do fim da fila que a verdadeira arte viva, a única, e a verdadeira criação inventiva estão do seu lado e não do lado do mascarado patrocinado pelos ministérios, fará tocar a despedida da casta que por aí lavra. Mas, quanto à casta que por aí lavra, teremos de contar que vai defender-se. Ela depende do seu mito e do seu estilo: todos os meios são bons, todos os golpes permitidos." 
- Jean Dubuffet

segunda-feira, setembro 23, 2019


Numa linha só, desperto, o nó desfeito, a corda na boca, e para escapar falavas a língua deles, dores que combinam com a subtil emboscada de uma paisagem, até gostares, pela hipótese de vingança e por ser mais fiel ao terror que agora te alimenta, admirá-la como apenas um estrangeiro pode, entreter-se com a descrição de mapas (as descrições em geral são uma forma de hipnose), valas, serras ásperas, dunas, os espaços retorcendo-se com a indisposição própria da gramática, o gole de um copo deixado algures com travo de navio afundado, os corpos a dançar lentos com os peixes... Ouves-me? Cheio de uma culpa apaixonada. E que água escura, tão densa de reflexos, que rostos nos espantam, que frases, a escrita que se arranca, sem cortes, sem truques, esgotando cada pedaço de papel, numa página corrigida de forma insana ao longo de anos, quase ilegível a cada linha, de tão fria, tão pesada. Que importa se nada canta tão claro, deixemos-lhe mesmo essa tapeçaria de escombros, e que lhe custe tanto a ele, pague o mesmo preço, levante com a própria carne estes ossos. Por mim, já me acabo aqui, e imagino que te cubra com o seu pó um tempo meditado, um tiro dividido por quantas bocas. O que muda, perguntas-me, ou de que vale? Agora, encolho os ombros; mais tarde talvez me ocorra que o sangue acaba por mostrar-se mais atento. Mas não vejo nada de recomendável. Nunca aconselharia porra nenhuma a quem não estivesse já perdido pelo mesmo caminho. Detestável essa coisa de tomar os jovens por outra coisa que não um eventual inimigo. O formidável antagonista que te obriga a rever tudo, a desejar ardentemente a razão de quem regressa ao zero. Qualquer outra razão é um desastre. Disseram-me outra coisa. Fizeram-me as recomendações mais firmes, desde o não te distraias, e, é claro, o não percas o tino, não te deixes encantar pelo ódio, não te desvies por coisas sem importância, mas ouvi-os dizer quase o contrário: acende tudo o que possas, usa a luz toda, a que se integra e se alastra rangendo; de cada nesga, candeeiro de rua, do ínfimo fôlego de um fósforo, enche-te o mais que possas porque, se lhes trazes o susto, invariavelmente, apagam-te a luz. Não esperava era que se metesse pelo sono, um raio estremecendo tudo, sob a pele, onde a carne assume expressão contra o mundo, os sentidos desfeitos por essa intermitência desoladora, até que a cabeça te seja um peso oscilante, estranho – dê vontade de te livrares dela. Quieto. Emudecido e subalimentado, que figura se faz, tomamos nota então das parecenças com todo o pobre diabo, e o que ouvimos contar regressa com as sombras do avesso. Nestas horas, se a distância nos medisse em seixos, galhos, unhas, cada caroço roído pelas voltas do sangue. Se lhes tocasse a noite como a mim, que atalhos, que modo de se sentar sozinho à mesa, deixar vir as marés, comer-se o defunto que se abriu em gomos, esta árvore caída que te deu a tangerina mais escura. Nas unhas, o gosto amargo que torna a mão próxima de outros ciclos. Que outro mundo assim debaixo das unhas. Mais acima, junto das mulheres, dobrar o rio sobre o joelho, ouvi-lo escorrer, secar-se numa toalha, escolher um quarto, segui-la. É uma pena que tenham limitado tanto a lista dos amantes. Que crimes te chamam a ponto de sentires o nome sujo, inspirado, o tocam como de um violino podre se raspa uma nota viva, cheia de intimidade dolorosa, o oco, o infinito sonoro, esse ritmo revolvendo-te o juízo, como um livro onde uma rosa deixou o seu murmúrio, e, porque não me deixa ouvi-lo, dou veneno ao cão e ladro eu pela vida inteira.