quinta-feira, agosto 17, 2017

Roberto Bolaño, "Putas Assassinas", Quetzal



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sexta-feira, agosto 04, 2017


Alexander Seach



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quinta-feira, agosto 03, 2017

DA FIBRA LASSA DA CARNE INIMIGA



dedicado à Cantinho e ao Cabrita, Cortez e cercante comitiva cagona 

Andamos a juntar para um inimigo que se veja, fazer um antagonista a sério de uns restos de gente, pontas, piriscas e cantinhos, do rebotalho que para aí vai nas letras, de umas fonsecas e uns amarais, da grã-finesse às faxineiras repimpadas com os doutoramentos magna cum laudas, reunir isso tudo, reciclar em frankenstein, num processo paciente de colagem, uni-los num monte, já não digo um que se veja do espaço, tanto não é preciso, não queremos godzillas, mas a gente já se contentava se o visse a uns passos de distância, o que desse para um duelo daqueles à antiga, assim pegamo-los um a um e atiramos tudo num saco, empina-se com um pau a ver se ganha forma, altura, leva farinha a ver se engrossa essa massa de poetas secundaríssimos ou figurantes, ensaístinhas de merda, dizia-me hoje um comparsa que temos o azar de ter para a esgrima destes dias um génio odioso mas tão badameco, umas inimizades que não dão orgulho sequer para um gajo se imaginar a arrancar-lhes a cabeça para enfeitar as paredes, ficariam aquelas carantonhas ainda babando umas para as outras, imortalizadas naquele espanto estúpido à pesca de um elogio, não dá o menor ânimo de lhes acertar um bem nos queixos, quais queixos, não passam de foles, um longo e tortuoso intestino, um serpentário que parece uma ala de almas leprosas, é aquela que foi buscar este ano o prémio tendo no ano passado estado no júri, uma bruxa chata metida em tudo o que é chá, rifas, bolinhos da fortuna, pelo caminho apresenta o livro deste, génio, do outro, génio, e daquele que em tempos teve a fúria dos trezentos traques de júpiter e hoje não passa de um peido velho, que num bar se vem sentar no teu lugar e, quando voltas de uma mija, faz-se apresentar, mete logo a quinta mudança e vem com prelecções de grande pai tutelar, ursa maior, a ensaiar leituras frias de cartomante parola, e que, ao ser ignorado, levanta-se pobremente e vai-se a outra caneca de cerveja cofiar a barba de espuma e a divisar a crónica que irá escrever no dia seguinte, no primeiro buraco de jornal, a ajustar contas contigo, a gabar as miúdas como nozes para as quais lhe faltam há muito os dentes, e a ti, derramando a rara palavra que lhe deste, nem te dando o nome e logo enfiando-te outras javardices na boca para dar certo com o delirium tremens lá do sermão constante para a sua paróquia, ainda chamando alguns mortos para tos atirar em cima, te dar com eles nos cornos, como bom demónio que és nas mãos destes padrecas exorcistas, já vai alinhada uma série tal de fabulosos talentos que te tomaram de ponta, deves ser tu o bicho que vão esfolar para a carpete à entrada da academia das letras que hão-de fundar, uma série tão notável mas a que é tão fácil perder a conta, lista de números para bingo no esquema das ordinarices promocionais, festivais, marias indo, vindo, fantasistas da sua própria reputação, gente imensamente respeitável, génios numa tal quantidade que mais uns anos e o panteão terá de ser alargado pelo menos até ao algarve, uma gente que toma grandes ofensas lá no bom nome, mandam vir as mães e os notários, os tios, as primas, as sobrinhas que precisam de bênção lá na faculdade, no pardieiro da editora, e nós cá estamos, ainda a amealhar, a encher o porco antes de o partir, ainda longe de o retalharmos com a faca de trinchar, esta porcaria de gente formando o seu cartel, declarando-te as suas guerras e prometendo linchamentos, gente que se diz reformista, grandes espíritos que acham que o mundo vai muito mal, tadinho, mas não vêm a ligação de nada com nada, no que lhes diz respeito ou os envolve: tudo perfeito, mil maravilhas, aliás, milhões, para estes isto anda tudo é desligado, e o facto de andarem a entrar e a sair uns dos cus dos outros, isso é besides the point, não tem nada a ver a fraude, os compadrios permanentes, as repetições inanes de elogios dos mesmos aos mesmos, de manhã cobre este aquele, de tarde trocam, e de noite todos os gatos têm de passar por parvos e tirar os ratos da ementa, porque estes, afinal, têm grandes planos para sair juntos do subterrâneo e render a guarda, manter o nível das águas, do lodo, se não gostam do que escreves ligam para o jornal a exigir despedimentos, querem cabeças os da liberdade, querem a forca, a cadeira eléctrica para quem escrever uma linha a dizer: atenção, isto aqui cheira mal, não é só lá no reino da dinamarca, cá também a temos, essa podridão das infinitas alianças, essa paz construída com a argamassa do nojo, gente muito contente de se lavar na merda da indiferença, quando ser um pouco melhor custa uma vida, e às vezes não chega, um pouco melhor, e só isso já faria grandes diferenças, já dava para começar por algum lado a revolução, seja em que sentido for, sem aproveitar de imediato a ninguém, puxar o pé atrás e assestar um chuto no cu desta mula parada no caminho, a provocar filas só para depois se atribuir funções de sinaleiro.


"Ubu Rei", de Alfred Jarry, pelo Teatro do Bairro



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sexta-feira, julho 28, 2017

Rui Knopfli, "Uso Particular", Do lado esquerdo



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quarta-feira, julho 26, 2017


Um tiro algures por aqui, como uma velha sensação que se tornou mais clara, mais próxima, ter sido um covarde tantos anos e ver a coragem chegar toda de uma vez, encostar a testa à parede, dar esta e depois a outra face, sentir o frio da carne e depois o dos ossos, se houvesse um jardim aqui perto, até onde iria?, há os dois ou três postais cansados do banco junto ao rio, só me lembro de ter amado as cidades de alguns escritores, sem visitá-las para não estragar, hoje fazem-me falta, ruas com ouvido para passos indecisos, capazes de fazer alguma coisa disto, a luz acesa a noite inteira, sem saber onde se deixou o que se leu ainda vivo, o que nos comprou mais uma estação, o gosto de falar a alguém, e hoje não passa de magoada erudição, morrer depois de acordar sozinho como quase a vida inteira, não ter nem a bengala de um gato para levantar-se, encher-lhe o prato, olhar o relógio com um veneno no sangue a apagar as velas uma a uma, duas palavras com os retratos, enfim a ternura que parecia perdida, que pena dos mortos por não ficar quem os ajude a atravessar o vazio, arrastar o copo, beber desde há uma semana o último gole, como a mão se torna a coisa menos certa, ser incapaz de um bilhete, ficar-se pelo verso de outro, não acordem o rouxinol que dorme no gume do bisturi, tão doce que traz uma presença à casa, ameaçador também, ao lado das dores de estômago que vão e voltam, o pêssego pousado sobre o jornal, ler alguma notícia até que o sumo cole o sentido das frases, adoce as entrelinhas, a coisa já não diga respeito a ninguém, um acaso caindo à margem deste zodíaco, esse lugar para onde se apanham comboios a qualquer hora, levantantando-se de qualquer banco e.

Entrevista a João Pedro George



segunda-feira, julho 24, 2017

domingo, julho 23, 2017

língua morta 078




DANO E VIRTUDE,
de Ivone Mendes da Silva,
capa a partir de pintura de Pieter Bruegel

[300 exemplares, 156 pp., 11€]


sexta-feira, julho 21, 2017


Uma vez em cem tiro os cães todos, os cartuchos, a espingarda podre e vou atrás da linha final para um início sem a menor hipótese, como fazem os doidos que não conseguem saltar do cavalo de um pensamento e tudo se ri deles como ribanceiras, alturas de onde se mandar e vir fazer em mil cacos, um gargarejo é o suficiente para subir de tom, firmar uma ordem, mandá-los atirarem-se debaixo de um carro, se algo nos separa é subir as escadas, vou ensacando um mal estar ao longo de dias, raspo, faço ferida enquanto não me atiro lá dentro eu próprio, tiro a lupa, foco o sol num ponto, cozo formigas, escalo um detalhe até gelar debaixo das neves dos himalais, concentro-me num pormenor até que me dê vertigens, como se lhe puxasse as tripas, sempre para pior, parece que os oiço acusarem-me de ter ido até ao fim, feito o pior a alguém, e não faço puta de ideia, o advogado manda calar, o mais aconselhado, e eu legítima-defesa, eu juro, juro, mas não sei afastar-me, detesto sabendo que alcanço essa expansão de sentidos de um tísico, e além dos ratos que oiço por trás das belas manifestações da época, consigo inspirar de uma golfada o cheiro que de certos seres se liberta ofensivamente e nos revela o futuro que os espera, detesto e assim oiço os passos com que se chega o amor, a distância de que se põe a espiar-nos, nessa sombra herdada de um velho jogo de paciência, pondo em ordem as mais descamisadas das nossas suspeitas, como vem narrar até esbater o ritmo que nos dobra o pulso, esse jeito cardíaco de se cair de joelhos, cair sobre o som que se faz, bam-bam, um tiro suave entre paredes, uma bala agora, a outra mais tarde, as duas escavando para se encontrarem dentro de nós, isto, pôr a peste nas coisas simples, quando ninguém estava a contar, quando em quartos poluídos um destino mais nobre se recusa a ouvir-nos, os planos todos, o discurso frente aos juízes, tiram-nos até esse gosto de perdão nas coisas de que nos servimos ritualmente, a escova, as lâminas de barbear, "uma máquina de costura, um ferro de engomar, um dado, uma luva, um sapato, um copo de leite", depois o corpo ainda tem a confusão dos gestos, sinais de si a si mesmo, como às vezes se fica tão quieto repetindo uma ou duas sílabas com a cabeça entre as mãos, a ouvir passar o comboio dos sinónimos para uma coisa que não queremos dizer, eu vi-me dias de costas, lavava as mãos com gestos firmes, uma vez e outra, demorando, como se segurasse alguém debaixo de água, tinha alugado um quarto de estudante, tinha a secretária contra a parede, um maço de folhas, e era no branco que me punha a trabalhar na máquina, a tirar-lhe peças, um texto em revisões, as confusões de quem quer limpar e já não se entende no meio dos ecos todos, o que deu foi para servir o reflexo mais sujo, tomar o pó das coisas, as próprias emendas à mão punham sela umas às outras, uma candeia balouçando onde devias ter o ponto de final, impondo uma ordem de recolher, mas se algum verso alguma vez se deixou segurar isso foi depois de teres perdido a fala, a respiração, depois de estrangular um canário para arrepiar o estilo, levámos a coisa a tal ponto que no lugar de qualquer pacto tínhamos feito um corte na língua para que cada frase viesse mais cedo, atalhando, e apressasse também os rios e os sóis, era necessário explicar de novo a inquietação às paisagens, tomar à queima-roupa tudo, vir reclamar as posições cedidas pelo turno de bandalhos que nos antecedeu, puxar de volta o fogo, "engolir água do mar como cerveja", engolir o balanço disto tudo, conhecer o risco dessas idades fatais, essas tristes coisas que se dizem, e como depois delas se apodrece com o balanço dos próprios passos, ter alguma intenção criminosa ao invés de uma preferência quanto à hora da morte, isto antes que a mosca tenha mais com o nosso destino do que as abelhas, levantar a pedra do pensamento, e ir colocá-la bem lá à frente, a limitar só a vida eterna.


Tenho na cabeça as linhas gerais de uma esplendorosa diatribe. Isso e alguns garfos espetados em sítios estranhos. Levo a mão onde me dói e sempre, com surpresa, lá encontro outro. De todos os feitios, diferentes tamanhos. Alguns ferrugentos, de lata ou pobres metais, alguns quase de pau, outros de ligas nobres, com incrustações, autênticas relíquias. Alguns muito à superfície, outros em busca de órgãos vitais. Onde me dói percebo que alguma coisa está fora do lugar, pressinto uma fome inimiga. Não posso fazer outra coisa senão levar as suspeitas a passear, distribuí-las, deixá-las farejar, fazer um mapa ciscando os cantos, e ladrar quando temos diante de nós um ajuntamento qualquer. Dá-me a impressão de que se vê cada vez pior o mundo daqui. Eu vejo-o mal ao perto e ao longe, tenho necessidade de ir lá com as mãos. Aos poucos vamos pondo fogo, Neros tristes olhando da janela de cada quarto enquanto tudo arde. A sensação que tenho de há uns anos a esta parte, andando para cima e para baixo, atravessando-vos, e depois de ter posto as mãos em muita gente (podia dizer nomes; o mais certo era que dissesse o teu), de ter amassado alguns, é que todo este carnaval a entupir a avenida é uma forma de contornar o assunto. Pode-se fazer contas dentro de uma fantasia tal como fora, mas nenhuma equação ergue uma só coluna nos territórios da imaginação. A toda a hora a poesia é um martírio para os que se passaram para o lado do cinismo. Ela orienta contra a inclinação das coisas. A sua natureza é a do atrito, põe bombas nas partes íntimas da autoridade. Diz-nos sempre que está tudo errado, a começar pela sensibilidade, o bom senso. Alguém só está ao seu serviço enquanto for capaz de detectar essas cadeias de relação espantosas e que, estando erradas, alargam a realidade. É contra-intuitiva a ideia de que a própria aceleração produza uma colisão que não acaba, um desastre de proporções que não chegamos nunca a poder admirar porque estamos imersos nessa debandada, num ritmo frenético que copiamos com o sangue. Esta besta locomotora agrega os nossos impulsos, consome-os no seu fôlego, tornando-nos uma espécie com as emoções atreladas a uma bateria ansiosa, só vindo à tona do cansaço para respirar assustadamente para logo mergulhar de novo e tomar o lugar nesta corrente incansável. Uma composição que atravessa as paisagens e as mistura, dissolve umas nas outras, criando uma vertigem que coloca a atenção de joelhos, encadeada, comungando aflitivamente dos fenómenos de que participa com a incredulidade e o encanto das vítimas. Não há desembarque, tudo muscula esta mecânica delirante. Das janelas observamos uma explosão serena. Como nunca ficamos para trás, o rumor da destruição não nos convence. Receando falhar uma batida, empregamos inteiramente as pulsações, timoratos, registando tudo, incapazes de conservar mais que a sensação de uma constante descolagem, uma ausência ou atraso exasperante. Este comboio fugitivo deixa a própria vida para trás. Humilha todos os horizontes.


Antes de sair, a fantasia vestiu o fato de gente ordinária, deixou as pétalas descendo as escadas, fim de tarde fisgado, os passos todos antevistos, dava um pulo à mercearia, duas mãos cheias de cerejas, para adocicar o tom da conversa de si para si, um restinho de tabaco caso a brisa lhe viesse com novas e valesse a pena tomar nota, fumando, mais comum era sentir perro o alcance do bairro, cuspia os caroços, se estivesse a sentir-se maldosa cegava um pombo, mas sensação em relação às coisas gerais, só a de que o mundo encravou, puf, ralo com as existências inspiradas, mandou um postal a pôr por ordem as suas razões, a ela restava-lhe a varanda, a linha dos pássaros magicando novelas de duas notas que ficam para sempre no ouvido, terceiro andar de um prédio aflito de coceiras, ameaçando desabar, os gatos conversando com as alturas, espiando sem interesse nenhum a vizinhança, dali também ela deixava o rádio sintonizado noutra década, canções de protesto e utopias lo-fi, o passado amarelecido com um gosto a adolescência mesmo para quem nem era então nascido, foi a idade mais bonita, o desejo resumia-se agora a que coubesse tudo no quarto, esses gestos sórdidos de tão íntimos, o corpo era um luxo e isso foi antes de meterem nele os fantasmas que vêm depois de se pôr a dizer "eu", hoje que até a garrafa esmoreceu, o álcool recosta-se na cabeça, põe-se a insultar-nos, o que fica lá em baixo, ao nível comum, são ruas militares, a tal prisão descomunal, sem portas, não se consegue passar, e então a fantasia prefere o espelho, a possibilidade de passar um estranho e a levar é maior.

quarta-feira, julho 19, 2017

sábado, julho 15, 2017

língua morta 077




PANGOLIM,
de Narciso Pinto,
com desenhos de Marta Silva

[150 exemplares, 120 pp., 11€]

sexta-feira, julho 14, 2017

Girassol


Desalento
é beber o copo d’água
esquecido na véspera
sobre a fórmica rachada
e merecer o seu fénico
discurso

Desalento
não é vê-lo meio vazio
mas ser indiferente estar cheio,
duvidosa estrela d’alba
que nos dá os primeiros, raios!,
da manhã

Como os girassóis,
apenas numa fase inicial da vida
a seguimos ao longo do dia –
o tempo que resta será dedicado,
como fez Vincent, a pintá-los
sobre um fundo de desespero

Doze numa jarra,
a deixar passar de propósito
a nossa estação -
se isto parece exagero, considera
as pétalas e depois
multiplica pelas raízes

- Luís Pedroso 
(inédito)