sexta-feira, Julho 25, 2014




Estão o teu lugar a tua sede
certos? Localizados no último
verão, apascentando
o tempo? Estão as tuas
coisas perfeitas e imóveis
à espera sobre a mesa
sem ácidos nem gasto?


Nuno Guimarães


Desperto. Um travo dói, de treva que
persiste e enreda a manhã, musical
e estranha. Depois da escrita, o corpo
pouco mais faz que repetir-se numa
segunda língua e em má tradução.
Solitário resto, cinza que se levanta a
sopros curtos neste halo de ressaca; abre
nos ossos um mapa para a memória e
segue uma luz despercebida, de alento
suavemente filtrado. Serves a casa de
canções descarnadas, sombras de vozes
remendando o tempo. Nada resiste,
e as ruas, na sua desilusão afável,
viram-se para o teu lado melhor.

Contenta-te em abrir os olhos pela tarde,
pela sombra
. E menos pelo que vês
do que pelo que sabes. Esta mulher,
calada e obscena, prefere um vazio
com que pode contar. Se alguém
ainda lhe prende a atenção,
com uma súbita ternura, pede-lhe
que fuja. À luz sóbria da leitura, doba
essa réstia de perfume, flor pisada,
e ali fica de colher no tédio, um reflexo
atrás de um rosto que não quer
ser recordado. A própria respiração
é já uma lição de história e nos dedos
roda um copo que traz o mar inteiro
a bordo. Rema a tarde devagarinho
até à margem, entrando na penumbra
e no exílio
, e deixa a sua rosa apontada
a um mundo desviado das rotas.

Um pouco afastado, de leve no escuro,
vem este entregue a uma sorte de
afogado, como um trágico provinciano
que sabe Shakespeare de memória
e vagueia pela cidade, sofrendo
.
A noite é tanta, tão difícil de contornar,
que um tipo a ganha mais cedo
estimando velhos hábitos, uma certa
desmesura, queimando no álcool
a razão e a dor. Há coisa mais perdoável
que uma tristeza delicada e honesta?

Como cintilam de passo em passo,
roídos de beleza. Carne falida e mortal,
puxando do sonho as suas raízes.
Desfeita a esperança, educa-se
melhor uma paciência mortífera.
E com que histórias se destroem,
nesta arte alada e fluida de contar,
de tomar os dias um por um e contra
todos os outros. Tenta acertar
com o erro, este embalo de fim de
estirpe. Ando a escrevê-los, a estes
poucos a quem peço chão, mais
lucidez, um verso que se afunde
e alargue com uma força hereditária.
Que posso dizer que um simples
olhar não entendesse melhor?

segunda-feira, Julho 21, 2014

domingo, Julho 20, 2014


Um tipo vai-se descuidando e envelhece. É um azar acumulado que, com os anos, parece feliz. Mas ao acordar, naquele impreciso instante em que este tipo se sente sovado pela luz e faz um esboço do dia que nesse fio se estenderá, reconhece o quanto é merecido o castigo de mirrar e engelhar, as dores nas cruzes e o diabo a sete, vezes sete e vinte e quatro sobre vinte e quatro. É uma cabronice envelhecer no compasso do mundo. Basta que um tipo levante um dedo diariamente e o aponte sempre na mesma direcção e é quase certo que ganhará um prémio, alguma distinção vazia. Se levantar a mão e escrever, se insistir como um cão mijando sempre os mesmos canteiros, um dia há-de ser chamado de jardineiro. Mas depois o que é realmente espantoso é o momento em que o prémio chega. Esse momento é absurdamente revelador. Quase nunca falha. Quando um autor, um poeta sobretudo, ganha um prémio, não é tanto uma certidão de óbito à obra, é mais o reconhecimento de que entrou no Grande Clube. A maioria envelhece mal e vai subindo na lista dos panteões de segunda. A imortalidade é loteada e dá em pequenos subgéneros manhosos, nas mãos de umas agências que também gerem timeshares entre a lua e toda a latitude de cus de judas. Se o poeta recebe um prémio (e o aceita!) sabemos que o tipo já não está em condições de dar a vida, só lhe resta envelhecer até se desmiolar de todo ou se enrodilhar vermemente no gatilho que finalmente. Gostamos tanto de ver poetas laureados por livros que vêm moderar-lhes o ímpeto das verdadeiras páginas, dos versos que mais que o som e a fúria faziam dobrar os sinos que crescem nas pregas da alma. Vejam como envelhece mal e, esperando, logo o cabrãozeco recebe um prémio. Dizem que vale pela obra-toda, pelo que já fez. Mas vem na hora em que já vai dobrando os papéis, depois de escritos uns agastes, cão amofinado. No tempo que tem ainda para ele o mundo como da mesa caem as sobras, terá o suficiente para ir várias vezes à alfaiataria da morte, tirar medidas, o merdas. Lá vem ele dizer de si, da sua arte, falar de regras, situar a coisa moralmente. O cagão, com a alma toda ratada, sabujo de si mesmo, a deixar testemunhos, como se fizesse dos leitores crianças suas semelhantes, hipócritas, no embalo daquele colo. Caralhos fodam a velhice destes padres eternos. Há que ser sério nalguma merda. Não nos venham agora com a utilidade da poesia e outros franchises, que ela não está de doméstica para vos fazer a cama nem vai ficar de songa a segurar-vos a mão até que venha a tão adiada hora do chute. E, ao cagãozinho-mor da companhia, digo somente isto: a poesia não aproxima ninguém, não serve de balanço nem desculpa, é um sentido profundo a partir do qual não faz mal nenhum nem dá medo ficar nessa imensa conta que soma sempre só um. Num mundinho que gosta de vírgulas, parcelas, e vários zeros, aquela unidade não aceita matemáticas que a diluam, confundam ou sequer multipliquem. Um tipo está só pela natureza violenta que o anima e que por isso lhe permite ser alguém na vida dos outros. Mas a distância é sempre a mesma: infinita. E um gesto vale se é sentido apesar dela. Um verdadeiro leitor não sente pena, não se comove, não adere ao patético tricot das pequenas faltas com que a morte se impõe. Um leitor reconhece a condição que não envelhece no homem, a sensibilidade dinâmica e perversa que não se deixa convencer, conformar, que não mirra nem engelha. O tempo revolve ali como uma mera ficção nas margens da obra, não entra, não acossa por mais que ladre do lado de fora. Fique lá com o prémio, seu merdas, venham mais, venham todas as distinções. Os que o leram funda e fundadamente saberão salvar as verdadeiras páginas dessa fogueirazinha vaidosa onde se fez rodear de outros cães fugidos do canil e da hora marcada para o abate. A aquecer as mãos nuns fogachos e a falar de poezia/ só a azia que restou do que há muito foi uma eloquente declaração de inimizade a um mundo que a cada dia nos convence mais a estender as noites até do escuro não haver mais regresso.


A pedra

 
Não sei se elas sangram, as pedras. Ou se gritam, se uivam sob a roda e a maça ou se a lâmina da faca as fere, profundamente na carne, dilacerando-as.

Eu sei que o barro que por vezes corre delas, apesar de vermelho, não é sangue.

Não direi nada da sua ternura, de pedra para pedra, da água para o ar.

O que eu sei é que o nosso sangue vem da pedra. E a nossa carne vem de outro lugar, vem da pedra, somos pedra, somos pó e fumo do vento.

Que o nosso sangue é sangue da pedra e o nosso calor do sol e o nosso lamento o uivo da pedra, através da qual a nossa alma passa inteira, que somos a alma da pedra-- mas digam-me, a pedra, quem é a pedra e de onde veio?

- Marcela Delpastre  
(versão de Jorge Sousa Braga)


Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ...(o que ele chama decisão!). Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.

Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite actuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas ideias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas consequências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.

Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.

Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?

Fica a loucura. "a loucura que é encarcerada", como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.

Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.


- André Breton
excerto do Manifesto Surrealista

quinta-feira, Julho 17, 2014

língua morta 048


(ou, transigindo, de que lado passarás a morrer, a clarear?),
de Rui Nunes
[250 exemplares, 36 pp., 7€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com

segunda-feira, Julho 14, 2014

Lápide


Quatro túmulos envelhecidos caem sobre o muro
Do teu asilo vitoriano
Além dos limites, ajoelhas-te na erva alta
A decifrar nomes apagados:
Velhos loucos que morreram aqui.

- Ian Hamilton
(tradução de Nuno Vidal)
in Cinquenta poemas, Cotovia

domingo, Julho 13, 2014


Tenho pena. Que mais? Praticamente nada mais. Pena de figuras que nem dão para o encanto do que é realmente triste. Muita pena que se fiquem pela pose, pelo menear burocrático e arrogante do que quer à força dar de si uma firme imagem mesmo se já ninguém está a olhar. Coroam-se a si mesmos, trocam medalhas e distinções de papelão. Ninguém está a olhar. Enfadonhos a um ponto que perdeu já a explicação. Num mimetismo absurdo, nas margens do rio literário, demasiado literais nos seus piqueniques de domingo, florindo sem viço, nem mesmo seguem pelo gosto selvagem do que brota de forma daninha, e consome os passos em volta. Apenas a velha tentação de existir, umas existências desbotando, batendo por achaque mais do que em busca de um sentido, trocam uns registos de afecto delambido, uma poesia de sobrescrito, dedicatórias, vénias-a-torto-e-a-direito, marchar/volver... No fim, nem a César o que é de César, nem para nenhum Deus sabem tirar as mãos dos bolsos. A troco de nada, estas vidas. Mas falam muito de ética e amizade e outros substantivos que fazem à força rimar com morte, mortes e pouco mais que a morte.



Na fina penumbra, resplandece
apenas o teu corpo, arrogante quase
e quase arrependido dos seus dotes.
A tua nudez é como um pouco de água
que repousa no leito da escuridão,
gravidade transparente, ausência quase.
Vagos volumes se ensopam, flutuam
no vago contínuo do espaço;
o silêncio respira, o ar pulsa
e é nua a carne em pensamento,
matéria que arde em expressão, resposta.
Oh nudez, beleza desarmada,
submissão ao espaço, solidão
que evidencia a eterna formosura
como seixos brancos
no fundo da água.

- Tomás Segóvia
(tradução de José Eduardo Simões)

quinta-feira, Julho 10, 2014


DIA TRIUNFAL from rita nunes on Vimeo.

Plano Director Municipal


Sejamos reses, autárquicos,
pescadores de caneiro,
fruto desses bairros mortos construídos a talho e susto,
onde já não se vende avulso o amido do pregão
e os vidros não se partem.

Sejamos as artérias varridas a foice e credo,
perdizes no cinto e no canto,
a ver passar os muito velhos caminhando a custo,
desafiando a morte
e mostrando um dedo ao futuro.

Sol ou sombra,
barba ou cabelo?
A alma trocada por uma rifa,
construindo dente a dente
os novos trânsitos do medo.


- Luís Pedroso
inédito

quarta-feira, Julho 09, 2014


Procurar os gestos calmos, sem ciladas nem excessivos rodeios, voltar aos gestos que nos simplificam e tornam seres naturais, esses que não se bifurcam, mas encavalitam expressivamente, por um gosto mais do que residual. Pousar as ideias junto à voz, palavras como pedras quando se fazem vento, correntes arrastando aromas, sensações mais do que ansiedades: mais do que a vontade, a firmeza limpa de reconhecer em tudo um fim em si mesmo. Toda a previsão se arruma num desgosto. Ter verdadeira visão, no sentido visionário, é menos um talento que apalpa o futuro do que ficar contente por esquecer o tempo, alargar um gesto no espaço, rolar o dado desinteressadamente e dar os passos em volta de si como de nada, furtivamente, como animais de um género indiscernível. É uma ficção que amesquinha, o tempo: fazer dele a medida à cabeça de tudo, envergonha os ombros que nos suportam. O tempo cobra-se juros, vive de uma matemática avarenta, um ritmo em desprezo pela melodia; persuasão sem graça nem eloquência. O espaço e a razão das suas distâncias conserva sempre mais nobreza. As paisagens permanecem, desdobram-se, fluem lentamente, quase imóveis, entretendo-se delicadamente com o movimento que lhes damos nós. Percorrem-nos tolerantemente, não dizem muito, mas prosseguem, disponíveis sempre. A sua atenção generosa, a magnífica reciprocidade de se deixarem olhar por quem olha e não perde tempo com o que não está lá. O inferno é uma colecção de ausências, de lugares condenados ao peso do que não se deixa ver, tocar ou sentir. O inferno é elencar as coisas que faltam, dizer que falta alguém, que faltas tu: falta que te completem ou destruam... Há uma razão para que se ajoelhem quando rezam. Esse gesto prostrado através do qual um corpo presta culto ao espaço que tem em volta. E é tocante o modo sincero como Deus se cala e não tem nunca nada mais a acrescentar.


Esperança contra a esperança, contra um dedo que, de memória, segue no ar as irrecuperáveis notas em que baila ainda um corpo, numa harmonia que envenena, que dobra o tempo como uma roupa deixada e se ressente do cheiro que a guarda num encantamento absurdo, contra o resto do mundo. Esperança contra levar alguma coisa no mundo demasiado a sério, a peito, uma promessa, um gesto ou jeito de falar. Essa insistência que tinha em ficar do teu lado, o mostrar interesse por coisas de nada, numa atenção de primeira fila à última. Senhor professor que sempre acabava a segui-la para o recreio. Uma casa, a giz, deitada no chão. Aberta como fruta, apodrecendo de tanta delicadeza. Há mundo a mais refugiado no acordeão invisível que seguram certas mãos. Uma extrema familiaridade quando não nos mata dá-nos cabo da imaginação. Voltamos sempre às mesmas cenas: duas, três, pouco mais. Há uma tristeza nelas misteriosamente feliz. Já ninguém nos salva, não porque seja tarde, mas por uma questão de espaço, profundidade. Ser tocado muito fundo ensina as distâncias a segurarem-te. O corpo fica ali, de ombro na ombreira, como uma mala sempre feita. Os lugares que te faltam não passam de postais que enviarás a estranhos. Junto a esta porta, nesta esperança envelhecida, és tudo o que te interessa: o último a sair.

terça-feira, Julho 08, 2014



Amo uma mulher de longa cabeleira
Como num lago mergulho em seu rosto suave
Minha fronte voga lentamente em seu ventre
Apalpo mordo afago seus volumes sedosos
Revisto cavidades torno-me a esponja do seu suco
Mulher meu pântano aranha tenebrosa
Labirinto infinito tambor palácio estranho
És minha única irmã de abandono e esquecimento
Teus peitos e tuas nádegas duplos montes gémeos
oferecem-me a brancura de uma pomba gigante
O amor que damos um ao outro é de noite na noite
Em crueldades magníficas reúne-nos a cama
Levantam-se colunas de respiração e odor


Trituro masco sorvo precipito-me
O desejo floresce entre túmulos abertos
Túmulos de beijos bocas ou moluscos
Ando a voar enfermo de venenos
Reinando em tuas membranas pleno de viço e errante
Nada termina nem começa tudo é triunfo
da ternura vigiada de silêncio
O pensamento afastou-se de nós
Nossas mãos juntam-se como pedras felizes
Está a mente quieta qual imóvel palmípede
As horas derretem-se os minutos esgotam-se
Não existe nada mais que agonia e prazer


Prazer tua cara não fala mas cavalga
sobre um mundo de nuvens na caverna do ser
Somos mudos não estamos na vida ridícula
Chegamos a ser terríveis e divinos
Fabricantes secretos de mel em abundância
Ouvem-se os gemidos da carne infatigável
Num instante ouvi metade do meu nome
a sair subitamente de teus dentes cerrados
Na luz consegui ver a expressão da tua face
que parecias outra mulher naquele êxtase


A escuridão põe-me furioso não te vejo
Não encontro tua cabeça e não sei o que toco
Quatro mãos afastam-se com seus dedos dormindo
e longe delas vagueiam também os quatro pés
Já não há donos não há mais que suspenso e vazio
O barco do prazer encalha no alto mar
Onde estás? Onde estou? Quem sou eu? Quem és tu?
Para sempre abandono este interrogatório
Ébrio enfeitiçado louco às portas da doença
grandiosa a paixão espero o turno fálico


Novamente num quarto estamos os dois juntos
Nus esplendorosos cúmplices da Morte.



- Carlos Edmundo de Ory
 (tradução de José Bento)

segunda-feira, Julho 07, 2014

O bluff sem mestre

 
(abre as imagens noutro separador para as ampliares)

quarta-feira, Julho 02, 2014

Nuno Guimarães

fragmento terceiro


I

Campos de ira, tão vasto sentimento

vos afasta. íris morta! Os actos radicais

constroem, em projecto, um frágil

universo – a tinta, o espaço óptico.

Descansam os sentidos sobre pródigas

defesas: os filtros turvos, as precauções

na sua cura. Os nervos tersos

da análise da vida e da matéria.



II

Desviam-se dos livros. Hoje escreve

contra a morte dos olhos, a existência

passível de leitura. Ineptos, os sons

perdem-se na encosta. o vento fere

ainda? Inscrito

na área da cabeça, é esse rastro

ainda vivo. Domino a sua queda, os seus poderes

punitivos, a sua força hereditária.



III

Persistir no imóvel. Preencher

os anos que nos moldam

no vigor da fibra, no duro movimento

interior — a que destino, a que imaturo

ritmo, sem preço? Pois é o caro

prémio deste dorso

de  o cumprir, pensar, até ao fim.

Ou de saber adestrá-lo até que,

exausto, só impulso

vigore — a morte lida

num próximo sentido, ainda vivo.



IV

Como contacto único, a distância

entre as fontes. Solidários, os campos

de visão? Fonte comum, brilho, sintomas

de amizade? Tudo o que, fora,

comovemos. O ar, as linhas variáveis

do horizonte, comuns,

reflectidas. Assim crescemos,

paisagens de uma lógica imprecisa.



V

Uma lógica preside a esta noite.

Expulsa as sílabas, destrói a ilusão

dos livros, é táctil e real. Assisto à

sua composição, perdida a luz

e os reflexos: o breve ritual

da desfocagem, o movimento científico

do sol; os crânios submissos

entrando na penumbra e no exílio.



VI

Nos dias revelados, na posse do que dita

o  pó e as vigílias, nessa lenta

profusão de imagens e de rostos

traídos, roídos de beleza

—um dorso descomposto, deitado

sob a treva. E a cabeça

inclinada

cada vez mais no seu lençol.



VII

Ordem exterior, sentidos renitentes

à aniquilação, ao extermínio. O problema

de uma moral primeira, de sinais.

É o lugar de um movimento, de imutável

fidelidade nos limites.

Suporta-se o silêncio. A crosta

do imóvel. Mas quem exerce

este poder primário e punitivo?



VIII

Descemos para o mar. A economia

dos gestos, da matéria perecível

é árdua e inútil. Os deuses cegos

perderam o seu brilho, sobre as águas.

Rodeiam

a pupila, cansada pelo sol, enfraquecida

pela acção dos nervos e das vagas. Reproduzem

imagens lógicas, construções sólidas

e rígidas. Todo o rigor possível

destas praias.



IX

Mas nada aqui, embora estável,

nos redime do fim e do excesso,

viáveis à demência.

Exíguo, o pensamento constrói

paisagens sóbrias: um rosto

magro, insociável, corrompido

por hábitos marítimos. A sombra

intensa e dura. A exímia

e nítida cegueira.



X

Quem poderá deter a extrema

organização: os nervos dispersivos, os gestos

do saber, os tensos soros

despendidos — a perfeição perdida?

Domina-se o crânio, a pobreza do

espaço, na mais áspera mestria. Junto

aos pulmões descobrem: as formações etílicas,

o pó, a ressonância. Ainda quentes,

os órgãos de um ser vivo.