E à poesia, para Montale "la più discreta delle arti", qual o lugar que poderemos confiar-lhe? Um lugar de excepção (último) e de encontro, se preservar no meio de tanta afronta a diferença, a alegria dos valores vitais. Se for uma respiração oposta à de nidificar, uma arte de repugnância, uma moral pura e simples de salvar o cerne das palavras - a presença mortal da vida sobre e sob a terra - como devem outros salvar os sons, as cores e a própria forma, desabitada, do homem. Um ofício tão antigo, humilde e preciso quanto o de um vedor, poceiro, operador da pedra da loucura. Ofício que começa pelo deslumbramento por cada palavra, observar letra a letra o que comportam de exaltante e frustrado, debruçar-se sobre as gerações de sílabas como se fossem as longas vísceras de um animal jovem, ainda fumegantes, e juntá-las, pedras de uma muralha, na edificação do corpo poético, suma de tudo - poesia que é irrepetível e, no entanto, assenta com mão de oleiro no barro húmido e comum do mundo.
(Parágrafo final de "A desgraçada máquina", do livro "Décima aurora", incluído em A luz fraterna - poesia reunida (1965-2009), Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, p. 211).
Sem comentários:
Enviar um comentário