para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Jaime Gil Biedma
Juntar um pouco do corpo, da morte
a que sabe, a este estupor doméstico,
roçando-se nas arestas e sílabas,
os móveis, as paredes antes
comidas por posters, agora quase
nuas. Algumas estantes, livros
e poetas – inevitavelmente também
hão-de arder algum dia.
A voz enchendo, às tantas
rompe num gemido, um golpe
de ar que não chega a agarrar-se
a nada. Um primeiro verso
daí a pouco, muito por baixo,
começa mal e nem sabe bem
para onde ir. Põe-se a olhar
em volta – o aparelho de som:
um batido de punk com rock
molhado em pop, assim muito
pós-uma-porra-qualquer,
a música quebrando-se toda
com uma guitarra aguentando-se para ali
e uma gaja num nhanhanha
que não se entende,
mas tu não mudas
porque até estás a gostar.
O candeeiro, próximo, cospe
uma luz morna que vem coxeando
e se cansa antes de dar com os limites
do quarto. Deixas os óculos, pões
as mãos sobre os olhos
e esforças a vista:
a imagem dela vem de há
uns meses e pesa-te
sobre a colcha, secando o cabelo
escuro numa toalha, lento
como um fogo que sopras e
se reacende. No rosto torce-se
um sorriso, menos até que isso,
solta uns estalidos com a língua
e diz-te que não, antes ainda
de teres escolhido as palavras
para perguntar-lhe.
A noite vai assoreando
naquela boca mal pintada, suja
e desejável,
mordendo os lábios, rasgando
pedacinhos de pele.
É uma forma de dizer,
a cor regressando às coisas, rendidas
à recordação de um velho hábito.
Ficas-te com uns gestos
que vão até onde podem e depois
alagam, enquanto ela se serve
de um cigarro. Fuma rápido
para outro, como dantes,
mas não bebe contigo.
Disse-te certa vez que preferia não,
que lhe estragava a timidez.
Alguma coisa se estoura,
um silêncio que se aborrece de estar ali
no meio. Sangras do nariz, a princípio
nem dás por isso, depois escorre-te
sobre uma frase que tinhas
para dizer-lhe. Não dizes, vês-te
só, as mãos nervosas
como as da criança que se sentava
no sonho de há umas noites,
puxando a própria sombra
para dentro da boca, tossindo
meio aflita, e continuava.
Um sonho que (já é costume)
não quer dizer nada, mas a criança
não parava com aquilo.
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