quinta-feira, outubro 22, 2009

John Updike (1)

Náutilo-imperador


Quantos quartos usamos para viver uma vida! -
a pequena cela de uma criança, ao alcance do ouvido
dos gemidos abafados dos seus pais; o quarto
de universidade numerado, posto avançado de liberdade
forrado a posters; o quarto de homem casado,
cena exígua de feliz domínio e mágoa furtiva;
o aluguer de férias, a cheirar a sal e a sol
e aos dias já passados pelos outros; a mansão
majestosa com cortinados e pompa; o hotel
do empresário, aventura de uma noite,
de limpas camas duplas e televisão, desenhando
um sonho de lar logo esquecido; o quarto de hóspedes
frio; o espaço branco e caro do hospital
onde agora o gemido aproximou a calma.



(de Ponto último e outros poemas, tradução de Ana Luísa Amaral, Civilização, Porto, 2009, p. 86).

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