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Uma gota desliza pela face do anjo
que vigia os sinos
Que rajada de chuva e de metralha
alertou os seus olhos desde o céu?
Que branco véu cobre agora a sua têmpora?
Que coração entrincheirado
detrás do muro de artifício
renega a mão que o cria?
Algo se quebra debaixo da pele escura da terra
entre as ruínas o sangue inventa novos leitos
a tempestade de areia apaga dos campos
a coragem
nos escombros o frio clama por raízes abissais...
Alguém guardou a espada
para voltar a brandi-la sobre o nosso pescoço
alguém sem rosto pretende que todos esejamos
à medida da angústia quando ao longe
soam de novo as sirenes
quando as pedras morrem pelo ruído
quando a dor dos nossos pés
emudece os sinos
quando o nosso olhar
correndo planícies impensáveis
morde o pó
quebra a face do anjo
faz em pedaços os badalos na hora sinistra
e torna impossível a palavra.
lágrima amputada.
***
Porque ainda me resta
um ponto de vista inquebrantável
para desbaratá-lo à minha maneira
posso sentar-me em qualquer esquina
a trçar ou desfazer os meus planos
sobre as velhas tábuas de madeira
que fazem parte dessa carroça
sem uma cadeira para estes olhos alheios
sem uma desculpa para dois pés cansados
hoje que por fim ultrapassei
tantos relógios e lugares
e corpos de delito.
Janet Nuñez Marroquín
(tradução de José Manuel de Vasconcelos)
in Foro das Letras - Julho 2009
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