Terça-feira, Novembro 30, 2010

Anúncio publicitário

Musa procura-se. Abstenham-se fracas
ressentidas travestis e invejosas.
Baixa remuneração
noites de amor intenso
e livros como filhos.


- Cristina Peri Rossi
(achado aqui)

Sismo-gravura 2

A terra faz uma sismo-gravura de um golfo que se há de formar, da convulsão do planeta, do amor do planeta, a tua pulseira – dobrar as sombras (ver os sargaceiros a apanharem o mar inteiro e a porem o mar noutro lugar) a injectarem o mar na terra: os sargaceiros a dobrarem as sombras dos prédios, a metê-las numa mala cheia de arranha-céus e conchas de beijinhos, alguém na Coreia do Norte com um dedo indicador muito comprido, abrir a mala e desdobrar um salão de dança, dois ou três ditadores africanos com os seus calções apertados, alguém na Coreia do Norte com um dedo muito comprido – Não sou o tempo que demoram as ametistas a chegar ao fundo do mar – um botão? Dançar sobre um golfo que se há de formar, cheio de helicópteros a voar em direcção ao sol, os condutores dos helicópteros com as suas lancheiras na cabine, com as suas sandes de queijo, à espera do aviso, a história dos ouriços faz-me rir, a selecção natural deu-lhes a Defesa mas também a auto-mutilação quando os espinhos entram para dentro e magoam, não é placebo a perda, a dor, a alegria, é verdadeira em tudo verdadeira, Amo-te – Alguém na Coreia do norte com um anel de noivado a carregar num botão, a lembrar-se da sua primeira ida à escola, a selecção natural deu-lhe um dedo comprido – três chávenas de chá, os helicópetros a sobrevoarem um golfo que ainda não foi formado, há de se formar por uma placa tectónica futura, uma sismogravura do planeta, um beijo futuro em tudo futuro e pré-hispânico e etrusco e eterno, os teus pulsos, o bater do coração – Não sou o tempo que as ametistas demoram a chegar ao fundo do mar, estamos à espera que se forme esse golfo e que as suas margens sejam povoadas de dinossauros e delírio, e que o sangue dos dinossauros e a seiva das árvores, quê? Forme petróleo cristalizado, e depois sim, que se invente a gasolina, os helicópetros, se tracem fronteiras e aí sim, pode-se entrar em guerra, com um dinossauro estrábico a rir-se do seu próprio sangue negro correr nos aviões e fazer avançar a humanidade, à espera de uma metonímia presente, que abarque tudo, o líquido pré-seminal, o bater do coração, Santa Cecília com os seus phones cor de rosa, muitos fluidos. Adoro-te, Adoro-te Adoro-te: Rechear os canos dos canhões do Rio de Janeiro de cravos cobertos de leite condensado, como aconteceu onde? Revitalizar uma guerra de fronteira, em todas as favelas da cidade do México se acendem de um desejo Novo, injectar leite condensado na veia, um dedo comprido, para que é que serve a literatura senão para unir, Rechear de vento quente e chuva tropical o olhar carregado de cada norte coreano, fazer rir as estrelas, ser só ponta e união, anémona que se divide, hermafrodita na espera e no aviso nuclear, o mar do Japão iluminado à noite por uma carga eléctrica e salgada. Não sou o tempo que as ametistas demoram a chegar ao fundo do mar, sou a procura de Artur Thompson, a espera na loja de próteses, por algo que faça caminhar: um serão literário inoportuno. A espera doce e condensada do leite que azeda, gordo e da serra, por várias mãos, a espera das pantufas quentes da serra, as estrelas que lhe caem em cima, a água que desce e que sobe, o pão que amassam, o adocicar do palato. A espera de Artur Thompson numa praça de Andorra: Santa Úrsula com uma pen de 40 gigas, que informática é o nosso deus, em tudo binário mas único, que caminho industrial é ele, senão espera aflita e aguda, adoro ouvir a história dos ouriços do mar.

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

À conversa com a autora, este Sábado



(clica para aumentar)
-

-
São os pássaros que levantam o dia para o cego.
Ouve-se a luz pendurada das árvores
e uma transfusão de sangue acelerado que acumula nos tímpanos
os latidos roubados à noite.

Amanhece.

Tíbias gotas de azul salpicam de manhã
os párabrisas dos carros.
Alguém, equivocado,
abriu o guarda-chuva pensando que chove.

- Federico Gallego Ripoll
(versão de L.P.)

Domingo, Novembro 28, 2010


ré menor, Patrícia Baltazar, Língua Morta, Outubro, 2010

O pior que se pode dizer é que, desde o título, se joga, em Ré Menor, com os sentidos da expressão contida no título, com a forma como se podem interpolar os campos judicial – «A ternura é a minha pena capital.» (p.23) – e musical – «Blindar os dias com música. Cada um, um por um.» (p.14). Porque nada aqui joga. Nada aqui é entretém. Rasga, sim, um percurso, pela música, em que alguém se põe em cheque, em severo juízo, e traga, sem remédio, um «Veneno vitalício.» (p.24). Trata-se de um juiz inclemente, o que aqui (se) julga, e será pesada a sua pena – «Não mais darei de beber.» (p.7) Cumpre-lhe o cárcere aberto e ínvio de uma «queda para um abismo de urgência» (p.24). Sem bálsamos, sem recursos, sobra-lhe a ventilação de um toque, que torne digno um corpo, numa proveitosa inflexão de sentido habitual, da, habitual, esfera do religioso para, diríamos, o profano dos sentidos, o outro domínio sacro, o do sentir.

A crise instaurada pelos versos, desmedida por dois pólos opostos, «Febre e fastio.» (p.10), cumpre o propósito que neles parece firmado, de levar à arena mais nua um corpo exposto a golpes tão difíceis de precisar – «Eu/ escondendo o meu corpo/ por baixo/ do meu próprio cadáver» (p.8). A poesia deste livro não se perde – e em não perder-se está parte do seu feito, já que os caminhos por ele percorridos levam geralmente a que se perca o pé, a que se perca a mão – no langor por que acaba por passar. Sabe servir-se dele para lamber feridas preservando o necessário sal, sem doçuras excessivas, deletérias, o mais das vezes, para o poema – apesar do mel, apesar da cedência, aqui e ali, a um vezo mais melancólico, que chega, como o fim de uma madrugada, antes que a rasgue a primeira luz. Embora nunca se deva procurar comodidade na poesia, algo nos interstícios dela, antes ou depois da sua detonação, consegue confortar-nos de tantos golpes que imitam já a morte. Um dos tónicos desta poesia acaba por ser a constatação que ela permite de que há quem não tema atiçar o lume do afecto – «A minha pele está exausta do percurso da tua boca. Exercício turvo. Cansaço de voz.» (p.23) –, ainda que sobre cinzas, a vulnerabilidade de uma «mão no peito» (p.18). Não devem, todavia, estas notas fazer pensar em enfraquecimento, seja ele expressivo ou de construção – «tenho um pacto com a água:/ deixo que seja ela a beber-me nos dias em que tremo de medo.» (p.12) Uma escrita do desconhecimento para o desconhecimento – «Escrevo-te porque não sei de ti» (p.27)

- Hugo Pinto Santos

-

http://1.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TPIZNuEaYDI/AAAAAAAAGts/eG5Gp4MlCwQ/s1600/follow_by_m0thyyku-d3208am.jpg
-

Sábado, Novembro 27, 2010

Sei todas as histórias

Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Apenas falo do que tenho visto.
E já vi:
que o berço do homem o embalam com histórias,
que os gritos de angústia do homem os afogam com histórias,
que o pranto do homem o tapam com histórias,
que os ossos do homem os enterram com histórias,
e que o medo do homem...
inventou todas as histórias.
Sei muito poucas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as histórias...
e sei todas as histórias.


- León Felipe
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim

-
Como aprendemos a morrer
em ti, sono!
Com que beleza magistral
nos vais levando – por jardins,
que nos parecem cada vez mais nossos –
ao conhecimento profundíssimo da sombra!

- Juan Ramón Jiménez
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim

Quarto

Que quietas estão as coisas
e que bem se está com elas!
Por toda a parte, suas mãos
com as nossas mãos se encontram.

Quantas discretas carícias,
que respeito pela ideia;
como olham, extasiadas,
o sonho que sonha alguém!

Como gostam do que outrem
gosta; como se esperam,
e, à nossa volta, que doces
nos sorriem, entreabertas!

Coisas – amigas, irmãs,
mulheres –, alegre verdade,
que nos devolveis, zelosas,
as mais fugazes estrelas!

- Juan Ramón Jiménez
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim

Sexta-feira, Novembro 26, 2010

-
O limoeiro lânguido suspende
uma rama pálida, poeirenta
sobre o encanto dessa fonte límpida
e submersos sonham nela
os frutos de ouro...
_____________É uma tarde clara,
quase de primavera,
morna tarde de março
que o hálito de abril próximo leva:
estou sozinho no pátio silencioso,
buscando uma ilusão cândida e velha,
alguma sombra sobre o branco muro,
uma lembrança no peitoril de pedra
da fonte adormecida, ou, no espaço,
o vaguear de uma túnica ligeira.

Flutua no ambiente dessa tarde
esse aroma de ausência,
que diz à alma luminosa: nunca,
e ao coração: espera.

Esse aroma evocativo dos fantasmas
das fragrâncias virginais e já desfeitas.

Oh, sim, recordo-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera,
tarde sem flores, quando me trazias
o bom perfume da hortelã-pimenta
e da boa alfavaca
que em vasos minha mãe tinha à nossa beira.
Que viste eu mergulhar minhas mãos puras
nessa água serena,
para alcançar os frutos encantados
que hoje sonham na fonte que os espelha...

Sim, conheço-te, tarde alegre e clara,
quase de primavera.


- Antonio Machado
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim

Lágrima

Estende-se magra pelo seco, escava-se como se a si mesma, acrescenta-se desse contínuo roubar-se. Se o ouvido pudesse aproximar-se suficientemente perto, ouvir-se-ia provavelmente estalar (o som da sua progressão em ínfimas linhas quebradas).
Sob o arco da lupa um rasto de sal, um risco de luz. Pulsa a cada inclinação do olhar. Guarda a memória de rostos amados, glórias perdidas, o suor nos corpos, confundidos, trocados, esse mar que cresce dentro da tua cabeça, o dia em que acreditaste serias feliz, o dia em que descobriste já tinhas sido, o tempo que passou, a morte que cresceu, a ferida que na carne se fez cicatriz, triste sobre triste a correr para o fim, a cada instante a correr para o fim.

- Jorge Roque
in Broto Sofro, Averno

Quinta-feira, Novembro 25, 2010

Margens do Meno

Quando Goethe punha a mão
direita – com a pena –
sobre uma página, os deuses
olhavam-no, receando
que, ao escrever, acaso
lhes roubasse a língua,
na qual cada coisa tem um nome
proibido aos mortais.

E quando se punha
de pé, com a cabeça
inclinada, as deusas
costumavam despojar-se das túnicas
e dos compridos brincos
para que ele as cantasse por seus nomes.

- Ángel Crespo
(tradução de José Bento)
in A Realidade Inteira, Teorema

Em Memória de W. B. Yeats

I

Deixou-nos no pico do Inverno:
Os ribeiros gelavam, os aeroportos quase desertos,
E a neve desfigurava as estátuas;
O mercúrio mergulhava fundo no poço do dia que se fechava.
Os instrumentos que temos concordam
O dia da sua morte foi um longo dia de frio.

Longe da sua doença,
Os lobos corriam sem parar por florestas perenes,
O rio campestre não se deixava tentar pelos mais elegantes cais;
Por línguas lutuosas,
A morte do poeta foi afastada dos seus poemas.

Mas para ele era a última tarde como ele próprio,
Uma tarde de enfermeiras e rumores;
As províncias do seu corpo revoltadas,
Os ângulos da sua mente vazios,
O silêncio invadia os subúrbios,
A corrente dos seus sentidos falhava; tornou-se os seus admiradores.

Agora está espalhado por centenas de cidades
E totalmente abandonado a afectos desconhecidos,
Para encontrar a felicidade noutro tipo de madeira
E ser castigado por um código de consciência estranho.
As palavras de um morto
São mudadas nas vísceras dos vivos.

Mas na importância e ruído de amanhã,
Quando os corretores roncarem como animais no chão da bolsa,
E aos pobres couber o sofrimento a que estão razoavelmente habituados,
E cada um na sua cela estiver quase convencido da sua liberdade,
Uns milhares vão lembrar-se deste dia
Como se recorda um dia em que se fez qualquer coisa de ligeiramente invulgar.

Os instrumentos que temos concordam
O dia da sua morte foi um longo dia de frio.


II

Eras tolo como nós; o teu dom sobreviveu a tudo:
A paróquia das mulheres ricas, a decadência física,
Tu próprio. Essa louca Irlanda levou-te pela dor à poesia.
Agora, a Irlanda ainda tem a sua loucura, o mau tempo,
Porque a poesia não faz acontecer nada: sobrevive
No vale do seu fazer, aonde os executivos
Nunca se atreveriam a ir, segue para sul
De ranchos de isolamento e de atarefadas dores,
Cidades cruas em que acreditamos, em que morremos; sobrevive,
Um modo de acontecer, uma boca.


III

Terra, recebe um convidado de honra:
William Yeats descansa deitado.
Deixa a barca irlandesa vogar
Despojada sua poesia.

No pesadelo do escuro,
Todos os cães da Europa ladram,
E as nações vivas aguardam,
Cada uma sequestrada no seu ódio;

Em cada face humana,
A desgraça intelectual olha,
Os mares da piedade
Restam, fechados, congelados em cada olhar.

Segue, poeta, segue a direito
Até ao fundo da noite,
A tua voz ilimitada
Ainda nos exorta a rejubilar;

Com a lavoura de um verso
Formas a vinha da maldição,
Cantas o insucesso humano
No arrebatamento da angústia;

Nos desertos do coração,
Deixas brotar a fonte da cura,
Na prisão dos seus dias
Ensina ao homem livre o louvor.


- W.H. Auden
(tradução de Hugo Pinto Santos)

Junkspace (3)

A cor no mundo real parece cada vez mais irreal, mais consumida. A cor no espaço virtual é luminosa e portanto irresistível. Um excesso de tele-realidade transformou-nos em vigilantes aficionados que monitorizam um Universo-lixo… Desde os seios animados da violinista clássica, até à barba incipiente do desenhador do proscrito Big Brother, à pedofilia contextual do ex-revolucionário, às dependências rotineiras das estrelas, à maquilhagem derretida do evangelista, à robótica linguagem corporal do apresentador, aos duvidosos benefícios dos maratonistas para recolha de fundos, às fúteis explicações do político: a descida súbita da câmara de televisão suspensa de uma grua – uma águia sem bico, nem garras, só com um estômago óptico – devora imagens e confissões indiscriminadamente, como um saco de lixo, para as propulsar para o espaço em forma de ciber-vómito. Os estúdios de televisão – estridentemente monumentais – são tanto o culminar como o final do espaço perspectivo, tal como o conhecemos; restos angulares e geométricos que invadem infinitos estrelados; espaço real editado para transmissões fáceis no espaço virtual, eixo crucial de uma espiral infernal de reacções… a imensidão do espaço-lixo estendida até aos limites do Big Bang. Porque passamos a vida no interior – como animais num jardim zoológico – estamos obcecados com o clima: 40% de tudo o que se emite em televisão consiste em apresentadores pouco atractivos fazendo gestos impotentes frente a formações açoitadas pelo vento, através das quais podemos reconhecer, por vezes, o nosso próprio destino ou posição actual. Conceptualmente, cada monitor, cada ecrã de televisão é o substituto de uma janela; a vida real está lá dentro, o ciberespaço transformou-se nos grandes exteriores… A Humanidade está sempre a falar de arquitectura. O que aconteceria se o espaço começasse a olhar para a Humanidade? Invadiria o espaço-lixo o nosso corpo? Através das vibrações do telemóvel? Já o fez? Através de injecções de Botox? De colagénio? De implantes de silicone? Da lipoaspiração? Do alongamento do pénis? Será que a terapia genética anuncia uma remodelação total de acordo com o espaço-lixo? Somos cada um de nós um estaleiro em miniatura? Será a Humanidade a soma de 3 a 5 mil milhões de actualizações individuais? Será por acaso o repertório de uma reconfiguração que facilitará a intromissão de uma nova espécie nessa esfera-lixo que ela própria criou? O cosmético é agora o novo cósmico…

- Rem Koolhas
(excerto final do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)

Quarta-feira, Novembro 24, 2010

Memória do Café Gelo

à memória de Mário Cesariny de Vasconcelos

No Café Gelo, um grupo de poetas
demanda o elixir de vida curta,
de longa morte lenta e absoluta
___e sílabas secretas.

Mesas de mármore, cadeiras sépia;
eis um café à beira do abismo:
conversas incendidas, sismo a sismo,
___no desabar da época.

Revolta, ódio, fome, febre atroz:
no riso pode haver isto e tristeza
e grande amor do sonho, e da beleza
___a que o grupo dá voz.

Não morreu este grupo: é perene
seu eco que deixou alto-relevo
numa parede-mestra, aonde subo
___a pulso e tão solene!

De cima da parede espreito e vejo
uma mesa ocupada por nós todos:
assembleia de pássaros ignotos
___em ilhas de desejo.

Vejo o corpo de glória de Lisboa
reclinado no ombro do Ernesto
para ler bem o seu ensaio honesto
___dedicado a Pessoa.

Vejo o Herberto a discutir mui louco
com o Gonçalo Duarte e o D'Assumpção;
o Forte tem o coração na mão
___esquerda e fala pouco.

Vejo o perfil do Saldanha da Gama,
o Vergílio em tríptico esboçado,
Raul Leal, d'Orpheu, Henoch irado
___com lucidez de flama.

Vejo um adolescente que sou eu
e que aspirava tanto a morrer jovem,
sentado, entre nós outros, quase à margem
___numa fresta de céu.

Manuel de Castro bebe o seu bagaço,
João Rodrigues faz desenho à pena
e Mário Cesariny põe em cena
___a sua luz no espaço.

Passaram para mais de cinquenta anos
e uma tal luz persiste, não esmorece:
ilumina a leitura até ao vértice,
___em versos soberanos.

Poeta engalanado de galfarros,
noctívago andador com pés de jade
e poesia, amor e liberdade,
___e mais de mil cigarros.

Nas nuvens, que se formam ao redor,
repousam borboletas d'asas pandas,
inebriadas pelo fumo às ondas
___e cada vez maior.

Rio de fumo espesso que atravessa
o jovem mágico, o das mãos de oiro,
esse que a remar não se cansa muito
___e olha tão depressa

tal se fosse de moto a singrar
no Tejo até à foz, do céu suspenso
por um fio de voz, vindo do imenso
___cintil azul do mar.

Na sombra, Cesariny d'alto porte,
agora dá mais luz, arde a cidade,
em poesia, amor e liberdade,
___até matar a morte.

- António Barahona
in Relâmpago n.º26, Fundação Luís Miguel Nava

Junkspace (2)

O espaço-lixo é político: depende da eliminação da capacidade crítica em nome do conforto e do prazer. A política tornou-se num manifesto graças ao Photoshop, projectos contínuos do que mutuamente se exclui, arbitrados por opacas ONG. O conforto é a nova Justiça. Países diminutos inteiros adoptam agora o espaço-lixo como programa político, estabelecem regimes de desorientação planificada, instigam uma política de desorganização sistemática. Não é exactamente o «vale tudo»; na realidade o segredo do espaço-lixo é ser promíscuo e ao mesmo tempo repressivo: à medida que prolifera o informe, o formal atrofia-se e com ele todas as regras, os regulamentos, os recursos…

- Rem Koolhas
(excerto do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)

Junkspace

O coelho é a nova carne de vaca… Porque detestamos o utilitário, condenámo-nos a uma imersão por toda a vida no arbitrário… LAX [Aeroporto de Los Angeles]: orquídeas de boas-vindas – possivelmente carnívoras – no balcão do check-in… A «identidade» é a nova comida lixo dos deserdados, o pasto da globalização para os privados de direitos… Se o lixo espacial são os resíduos humanos que conspurcam o universo, o espaço lixo é o resíduo que a Humanidade deixa sobre o planeta. O produto construído (voltaremos a este caso mais adiante) da modernização não é a arquitectura moderna, mas antes o espaço-lixo. O espaço-lixo é o que resta depois da modernização seguir o seu curso, ou mais concretamente o que se coagula enquanto a modernização está em marcha, o seu resíduo. A modernização tinha um programa racional: partilhar as bênçãos da ciência, universalmente. O espaço-lixo é a sua apoteose ou a sua fusão. Embora cada uma das suas partes seja o resultado de inventos brilhantes, lucidamente planeados pela inteligência e potenciados por computação infinita, a sua soma augura o fim do Iluminismo, a sua ressurreição como uma farsa, um purgatório desvalorizado… O espaço-lixo é a soma total do nosso êxito actual; construímos mais do que todas as gerações anteriores juntas, mas de certo modo não nos registamos nas mesmas escalas. Nós não deixamos pirâmides. De acordo com o novo Evangelho da fealdade, há já mais espaço-lixo em construção no século XXI do que o que sobreviveu no século XX… Foi um equívoco inventar a arquitectura moderna para o século XX. A arquitectura desapareceu no século XX; temos estado a ler uma nota de pé de página com um microscópio, na esperança que se transforme num romance; a nossa preocupação com as massas impediu-nos de ver a Arquitectura do Povo.

- Rem Koolhas
(excerto inicial do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)

24 de Novembro 2008-10

POESIA INCOMPLETA

dois anos dedicados
a uma grande razão
-

Terça-feira, Novembro 23, 2010

-
Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
autocarros em movimento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Couer
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
das portas
A Companhia internacional das Carruagem-Camas
e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
um prospecto
É a mais bela Igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte

Todas as mulheres que conheci erguem-se
nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
de França.
Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema
em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa


- Blaise Cendrars
(tradução de Liberto Cruz)
in Poesia em Viagem, Assírio & Alvim

Estas traições

Temos um pequeno mundo
de coisas tristes para dizer,
mas as palavras traem-nos
___________deliciosamente.

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

Um dilúvio que subisse

Há muito que este homem aprendera
a perder coisas pelo caminho. Sabia agora
que perder era uma incisão na pele,
e então uma coisa por aí caía com o som veloz
de um crepitar eléctrico: um pássaro voando
raso sobre o fio de um rio. – Perder é uma falha
na ordem do mundo contíguo ao meu corpo
à mão que escreve a minha voz.

Essas coisas caem como coisas caindo, porque é
da natureza das coisas o caírem na estação antepenúltima
e ardente, naquela sazão que ardendo se enfria.
Ou como um braço – antebraço – e mão: assim.
Assim abandonado no fim a mão que esquece.
caem com a tarde unhas e dedos, os dentes frios
descem a sua queda até aos pulmões que explodem.

Essas coisas do mundo, no mundo as perdia;
porque só há o mundo: os mundos – isso que nos faz
e nos sonha e por vezes nos perde. Isso que é feito
do que de nós cai e assim regressa ao lugar onde nascemos.
Isso que declinando é como se partisse em voo. E no ar
se dissolvesse como um pequeno fogo frio; um simulacro
que voa escrevendo-te na pele mais um sulco, um vinco,
a linha da vida: uma inscrição ou

a rápida queimadura de uma asa trémula.

É assim: perdes uma coisa – ela cai de ti
e caindo como uma pedra numa página de água
o mundo estremece acende-se e ressoa como
se fosse uma caixa de música, um pouco grande
um pouco antiga. Uma caixa de música que fosse
a verdadeira fórmula do mundo, a pequena forma
como em sonhos ele a si próprio se vê, e não a ti.
Tu que de facto o ouves como se ele fosse

essa caixa de música: uma imagem da tua
da nossa infância de todos,
já um pouco tarde demais pelo século XX dentro.
Pelo século XX fora. – Fora! Fora!
Se fosse hoje um século e trinta anos antes; ou
depois de hoje o tempo que for; tivesses agora 20 anos
e a alma grande e livre de um carregador de pianos
tu: eu plantaríamos essa caixa de música no cimo dos Alpes.

E então ela soaria só para ti e para os bárbaros deles:
os migrantes que acampando invadem submergem
e conspurcam os jardins suspensos da Europa:
os antigos e magnificentes hipermercados.
Mas ao cimo da colina chegaram já os novos deuses
e os quatro cavaleiros que a estrela de urânio guiou.
Isso é mais uma coisa que perdeste: distraído
não viste de Europa o emocionante rapto.

Não o raptus em que ela seria um arco de som
um acidente da voz que vibrasse e entrançaria
a curvatura dos mundos. Não o grande salto em altura
sobre a irisação solar e a tez escura e misturada das gentes
nas duas margens do Mediterrâneo. Não, é apenas
o velho ardil do espírito absoluto que ascende de elevador
e abençoa a imagem do mundo que a lepra devora:
a falsa Eurídice, Cassandra a escrava e a perdida Dinamene.

Folhas caducas, órgãos de nada, as coisas deiscentes
caem segundo o seu nome. Afundam-se como vermes
saciados no leito dos rios que secaram e são agora riscos
nas mãos desertas de onde a invenção emigrou.
Perdeste a caixa-de-música, perdeste a terra e a dança.
Assim um homem se desmorona: palavra
por palavra. E é então a surda ruína de uma árvore
uma árvore arruinada: um realejo de palavras roucas.


- Manuel Gusmão
in migrações do fogo, Caminho

Próximo Sábado

http://3.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TOL1kgcMtpI/AAAAAAAAGsc/7RJHdufWV3M/s1600/CONVITE%25282%2529.jpg

I

Se vejo o meu ser compelido — gemo. E oro a um deus de coragem e destino. A terra oferece-me o que quero — o seu corpo, os seus rios, e tenho de encerrar o meu destino, aquele destino, empurrar o braço no gesto que o alcance, dizê-lo.
Rainha do céu, minha terra em ti me contenho, tu limitas-me, és um mundo, esfera que brilha no rosário, semente de consolação. Não me alonges, leva-me (chega-me) ao teu seio, deixa, deixa contaminar-te do meu suor, queria renegar mas volto de novo a habitar-te.


II

Que morte apetecida, que boca soluçante pela manhã. Flores a corolar a caveira de cristal e azul. Flores de laranja e metal. Garganta golpeada no canto. Leque de madeira rara e marfim flamejando na cabeça negra, branco, cinza.
O acto de dizer, de não querer a minha vergonha. Trago o meu destino — um sal que me consome — em invenções de mal, sentado no meu trono, despedaçando o reino.
Anavalhe-se o que sobra, em fenda alastrada pelos tecidos, cante-se com coragem e sangue contraindo a vocalidade, os destinos mais estranhos da nossa condição: o que nasce no corpo, o que amamenta a imaginação, célula cerebral, leite da terra — logo, um minério hoje descoberto, a aberração da memória. A morte.

- Carlos Eurico da Costa
in Colóquio letras n.º 12 (Março 1973)

Domingo, Novembro 21, 2010

Zapping generation ou a queima das fitas

Sacudidos pelo urro
de batuques hormonais,
em demónico torpor,
dançam toda a treva
os aziagos engenheiros
do futuro Portugal.
Injecções de adrenalina
sob a túnica de Nesso.

Perseguem-nos anúncios,
adulam-nos doutores,
perguntam-lhes as horas.
Todos lhes invejam
a leveza com que saltam
nos estádios, nas manifes
indolentes, nos concertos
em que perdem o Verão.

Tufados de gritinhos
e de sáfio mal-estar,
amontoam-se em vazio,
comunicam por farrapos,
reinvindicam o direito
a liberdades consumíveis,
deixam lixo e desperdício
nos lugares por onde passam.

(Um dia iremos vê-los,
cotovelos levantados,
a correr pelos empregos:
decididos na lisonja,
na virtude nem por isso,
condenando quem não trepa
pelo mesmo precipício
de cristão capitalismo.)

Na cal dos soporíferos
desabam os melhores
um oriente tumular.
Acabam sepultados
no calão de sentimentos
irrisórios, deformados,
refutando o faz-de-conta
do progresso social.

(Vemo-los, a estes,
no declínio da cidade,
servidores de duras drogas,
a fazerem-nos sinal
de que têm um lugar
para as nossas viaturas
alegóricas do bem
e dedutíveis nos impostos.)

Juventude, cefaleia
sem cabeça, rebuçado
de beleza para bocas
de cartaz publicitário,
alvorada do desastre
que se espera, no capítulo
farpado, derradeiro,
deste conto de terror.

Não me preguem, por favor,
o cantar da juventude,
tenho gelo nas orelhas,
já não ouço mais que sono.

- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio D'Água

Sábado, Novembro 20, 2010

A boa consciência do autor

"Como princípio e quando falamos de arte raras vezes me interessa, e independentemente da base em que é apresentado, o documento social. Principalmente se for realizado com esse único objectivo: o da denúncia ou da atitude ferozmente crítica, muitas vezes lamentavelmente segmentada, enviesada, e que busca fazer valer um entendimento fechado. O documento social é algo encerrado porque sob a capa da denúncia o que procura é a boa consciência do autor. É um documento fechado porque ao público nada é acrescentado, perante a evidência da bondade do autor na «revelação» da maldade externa, ao público só resta acompanhar o autor na indignação, e muitas vezes com boa oportunidade. Depois também apresenta a descoberta da pólvora hoje, isto é, a constatação da violência, da maldade ou do feio, que apresentadas isoladas não servem para nada, o alerta serve para assustar e o susto passa depressa. Como se não estivéssemos fartos de saber que existem 300 coisas péssimas. O que não sabemos é como completar o objecto deslocado que tem o quadro. Isso é que é preciso descobrir. Lembrarmo-nos dos nossos particulares acidentes íntimos."

- Samuel Filipe

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim

http://3.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TOfzEsXvBXI/AAAAAAAAGtU/AZXJAuka4uM/s1600/sense2.jpg

Vadiagens melódicas

Espremes e esfregas nas mãos a bizarra
flor sem nome que aqui te perfuma
as manhãs, as cores
de um vestido vazio caído aí,
na erva que dele bebe a ausência e o inverno.
Com a luz empurrando o amargo
contorno das casas
numa exalação respiratória.

Quartos de uma noite só,
alugada, perpétua. Nas paredes vão-lhes
crescendo rosas de musgo à luz suja
de antigos candeeiros, e a escrita
chega mais depressa à dor: algum
cavalo esquecido, fantasma
de um cadáver que já só às sombras
que o sublinham serve de alimento.

Apagando-se num eco entre as
ruas de ontem, o rumor de impérios
perdidos, velhos leões deitados
junto a calcanhares de pedra
nesse jardim de mitos
levado por um suspiro. E depois
desta janela baixa resta
uma única árvore, e como vestígio
do sonho, purpúrea e madura,
cada romã rebenta e de abelhas murmura
nos seus ramos.

Em baixo afaga a cabeça esvaída
um rapaz levando atrás de si
a tarde. De uma idade
que não se sabe, mas não pode
andar longe da tua.
O bafo morto de álcool, o rosto
enterrado numa espécie de oração
com os lábios rasgados marcando a brisa
enquanto da pele queimada descasca mapas
que enrola distraído entre o indicador
e o polegar. Mais velhas,

as mulheres, esfinges sonolentas
apoiando-se silenciosamente nas suas
sombras, que longas
se erguem como mastros. Ficam-se
a sonhar exílios nestes cafés vazios,
com as suas cortinas de contas pendendo
como rosários.

E faz truques com o tempo, esquece-se
dos nomes esta gente, e aponta
para as coisas num silêncio
sem ênfase revirando os olhos,
doces de cansaço:
fulgor do que tantas vezes foi e voltou
de promessas feitas e pagas ao mar.

Uma menina espera sozinha
à porta. Os cabelos de mel, encaracolados,
numa das mãos as sandálias, a outra,
leve, brincando na tensa corda
do teu olhar – essa distância toda
que puxavas para ti. Tudo

tão quieto, soprando uma mesma
ferida. A torre meio arruinada no limite
de tanta hesitação.
Fumaste nos degraus e lias o nome invertido
dos barcos, suas étereas silhuetas
sobre um púrpuro rio em perfume a dormir.
Aí, esse sono onde enches
a voz, ganhas vontades e não queres
fazer sentido, mas apenas ser
destas vadiagens melódicas, subir às
costelas do vento, gritar como louco
às tempestades.

Frase de engate (ou haiku à portuguesa)

Esse teu corpo foi o mar de uma
inteira geração de marinheiros
que preferiu ficar em terra.

Profissão de pé

Na ausência duma razão para estar aqui,
podemos sempre contar com o corpo,
o algodão das palavras, este copo de vinho,
o desafio da virtude no asilo das artes.

Ou, se quiseres, um cibo de erva
na mortalha para melhor contemplação
dos limites, da caca de pombo estrelada
nas telhas, abaixo de nós.

Que nos falta para viver uma festa?
Quase nada, reconhece. Talvez companhia,
um pouco menos de ruído, não sei,
cancelar de vez a assinatura do mundo.

- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio D'Água

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

http://1.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TOcdgTECL0I/AAAAAAAAGtM/T2XLVldNm4w/s1600/Maria.jpg

a cidra e leite

*
cidra e leite água clara a sílaba
cingida por muros a sílaba a prumo uma voz
que contorna a sombra dos rios
e os pés dos anjos
sepultados nos estuários

todas as imagens confirmam uma ausência dizem
a respiração dos poços dentro
do verão pó pura elevação sonora e os pássaros

como mel como favos de silêncio
em chão de mármore os olhos


*
a cerca cercada pelo sal em demasia
é sempre a voz que assinala onde a morte tece
o seu veio esmeraldado
em redor dos dedos é um mapa
de nomes absorto na sua própria concupiscência

é a cegueira semeada entre cidra e leite o sangue fundo
nos ataúdes

Os países distantes

Os países distantes são sonhos impossíveis,
...estampas onde a vida a custo se insinua,
serena e delicada, em portos e mesquitas.
Os rapazes que sofrem ante gelados espelhos
ou em versos que guardam a brisa de um verão,
tentam e em vão esperam alcançar essas costas,
enquanto gritam os obscenos marujos de Trípoli
e se deitam bêbadas as prostitutas gregas.

Quando a noite avança e os rapazes dormem,
os países distantes são exóticas aves
que no atlas fechado dos seus olhos pousam.

- José Mateos
(tradução de Rui Pires Cabral)
in Reunión, La Veleta, Granada, 2006

RED (2010)


7/10

Quinta-feira, Novembro 18, 2010

Castelo de Agromonte

À distância da alta janela
era uma mulher sem idade. Estou em crer
era ainda rapariga
sob a trovoada e a chuva
seguia por entre os jazigos – góticas
capelas imperfeitas –
ia pelo caminho de saibro
ao encontro dos amados mortos. Abriu a torneira, a água
correu, lavou a jarra,
água para amarelos crisântemos. Água
límpida para os seus amados mortos
em véspera de todos-os-santos (amanhã é feriado,
reclamam-na os vivos
bem menos amados – dos vivos não pode dizer seus não
pode pousar
sobre a pedra branda dos leitos
a jarra, roxos crisântemos amarelos)

– Como se chama o cemitério, além
– Agromonte, senhor


- João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real

Foi no dia em que morreu Cesariny

Foi no dia em que morreu Cesariny e era
sobre ele um dos poemas que me faltava
neste corpo de pedras que quero inteiro
trazer da minha parte à exígua chama deste

poço. Estava na montra de uma livraria
de Madrid, fotografia e notícia. Um claro e
mínimo espelho –
sombra projectada sobre as vidas nossas (há quantos

anos?) quando ele, Mário, pediu um copo
de água e dentro a dentadura desceu (quem
não guarda da sua presença um eco de raízes,
doce imagem que se multiplica e flui?)

e leu, em voz de alma, negror e riso,

o navio dos seus dez mil capitães. Nesse dia
dos anos sessenta, na Estefânea, eram ligeiras
as mãos dos remadores, hoje
a barca está vazia, os remos suspensos, que

importam cores da manhã a anunciarem
favorável vento? A voz repete
uma e outra vez em voz muito baixa
___Nenhum cais o abriga/ O seu porão traz
__nada/ nada leva à partida/ Vozes e ar pesado/
_________é tudo o que transporta


- João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real

Já falta pouco

http://3.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TOR8PD1YlZI/AAAAAAAAGs0/rkYEQgoJOBA/s1600/avulsos3.jpg
-

Condições mínimas

Esta sarça é interdita a matilhas;
há que mudar a pele para comer
o fogo. Não que eu faça render
qualquer talento, ou tenha em vasilhas

semi-intactas ilustres maravilhas:
uma lista de coisas a fazer,
solidão, pedra de isqueiro, um revólver,
e um aparelho já com pouca pilha

e que só uso eu; a nós vontade
basta – e alguma luz: pede-se intensa,
mas sem que obste o brilho à entrega cega,

aceitas? compreendes? aguentas?

no nervo negro desta densidade
penetra só sentindo que sustentas
e me conténs quando eu me desintegro.


- Margarida Vale de Gato
in Relâmpago n.º26, Fundação Luís Miguel Nava

Separação do corpo

O corpo tem abóbadas onde soam os
sentidos, se tocados de leve, ecoando longamente
como memórias de outra vida
em frios desertos ou praias de lama.
O passado não está ainda preparado para nós,
para não falar do futuro; é certo que
temos um corpo, mas é um corpo inerte,
feito mais de coisas como esperança e desejo
do que de carne, sangue, cabelo,
e desabitado de línguas e de astros
e de noites escuras, e nenhuma beleza o tortura
mas a morte, a dor e a certeza de que
não está aqui nem tem para onde ir.

Lemos de mais e escrevemos de mais,
e afastámo-nos de mais – pois o preço era
muito alto para o que podíamos pagar –
da alegria das línguas. Ficaram estreitas
passagens entre frio e calor
e entre certo e errado
por onde entramos como num quarto de pensão
com um nome suposto; e quanto a
tragédia, e mesmo quanto a drama moral,
foi o melhor que conseguimos.

A beleza do corpo amado é
(agora sabemo-lo) lixo orgânico.
O mármore que pudemos foi o das casas de banho
e o dos balcões dos bancos,
e grandes gestos nem nos romances,
quanto mais nos versos! E do amor
melhor é nem falar porque as línguas
tornaram-se objecto de estudo médico
e nenhuma palavra é já suficientemente secreta.

Corpo, corpo, porque me abandonaste?
“Tomai, comei”, pois sim, mas quando
a química não chega para adormecermos,
a que divindades havemos de nos acolher
senão àquelas últimas do passado soterradas
sob tanta chuva ácida e tanta investigação histórica,
tanta psicologia e tanta antropologia?
A memória, sem o corpo, não é ascensão nem recomeço,
e, sem ela, o corpo é incapaz de nudez
e de amor. Agora podemos calar-nos
sem temer o silêncio nem a culpa
porque já não há tais palavras.

- Manuel António Pina
in Os livros, Assírio & Alvim

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

Inside Job (2010)

http://2.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TONEQkH-XmI/AAAAAAAAGss/FfV2SrDigTo/s1600/inside-job-movie-poster.jpg

Terça-feira, Novembro 16, 2010

-
De tanto se verem
Há palavras que vos poriam doentes
Palavras conhecidas mas muito perigosas de manejar
A não ser que sejam rodeadas de música
Também há quem meta açúcar nas amêndoas amargas
Palavras como areia, erva
Como sol, como deitados lado a lado
Como pele dourada, como cabelos louros
Como dentes brilhantes e lábios salgados
E depois outras palavras, ainda mais perigosas
«Ninguém à vista, podemos seguir»
E as mais perigosas de todas:
«É ainda melhor à quinta vez.»
Felizmente, que há carradas de aeronaves
A fabricarem fenomenologia a granel
E a meterem-vos bombas atómicas de atravesso pela goela...
Peço desculpa… o sopro da inspiração...
Não é todos os dias que a musa nos visita.

- Boris Vian

Os mortos

Eu sei, é preciso esquecer,
desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los,
os nossos mortos anseiam por morrer
e só a nossa dor pode matá-los.

Tanta memória! O frenesim
escuro das suas palavras comendo-me a boca,
a minha voz numerosa e rouca
de todos eles desprendendo-se de mim.

Porém como esquecer? Com que palavras e sem que palavras?
Tudo isto (eu sei) é antigo e repetido; fez-se tarde
no que pode ser dito. Onde estavas
quando chamei por ti, literalidade?

E todavia em certos dias materiais
quase posso tocar os meus sentidos,
tão perto estou, e morrer nos meus sentidos,
os meus sentidos sentindo-me com mãos primeiras, terminais.

- Manuel António Pina
in Os livros, Assírio & Alvim

-
Não marquei nenhum golo no meu
regresso à competição. Joguei só
os sete minutos finais, mais
quatro de descontos.
Há um lado perverso qualquer nisto
de pegar na caneta quando
o jogo já está resolvido.
A vontade que tenho é de enfiar
os pitons na tromba do primeiro que
me aparecer à frente e
passar mais uns meses a ver jogos
da bancada.
É que esta merda vê-se muito
melhor ao longe.


- Gonçalo Mira

Frente a frente

Para o Nuno Júdice

Em toda a parte
frente a frente eis-te com o tempo

e frente a frente
com o vento do tempo vagabundo
despertando
entre líquenes e musgos
o rio tremendo
das grandes praias vazas

ou o que pulsa
égua a égua dos pântanos
nas noites que se matam

De novo aos pés dos juncos
da tua cama paira o mundo

e o vento paira
no tempo como um obscuro
fruto de água alada
onde em si própria
a cada pássaro
a face da divindade se estilhaça

pois face a face
contigo morre porque tal
é todo o tempo como tu
mortal

e como nasces

- Miguel Serras Pereira
in O mar a bordo do último navio, Fenda

-
Estava capaz de fazer uma fogueira. Apetece-te uma fogueira?
Vou fazer uma fogueira.

Estava capaz de rasgar o jornal de domingo aos bocadinhos
e tentar não ligar aos anúncios.

Estava capaz de acabar de cavar o buraco
que estive a abrir no quintal.

Estava capaz de fazer chá e tomar vitamina C.
Apetece-te uma chávena de chá?

Estava capaz de dar muito simplesmente um passeio,
Sem destino nenhum.

Estava capaz de ficar muito sossegadinho a um canto, parando de inventar motivos
para andar de um lado para outro.

Estava capaz de ter uma conversa contigo.
Apetece-te uma conversa?

- Sam Shepard
(tradução de José Vieira de Lima)
in Crónicas Americanas, Difel

Segunda-feira, Novembro 15, 2010

Sr. Bleaney

Este era o quarto do Sr. Bleaney. Ficou aqui
Todo o tempo que passou na fábrica, até
Que o levaram. Cortinas às flores, finas e puídas,
Caem uns centímetros abaixo do beiral,

Cuja janela mostra uma faixa de terreno construído?
Relva por tratar, lixo. «O Sr. Bleaney
Tomou bem conta do meu jardim.»
Cama, cadeira de espaldar, lâmpada de sessenta watts,

A porta sem cabide. Não há lugar para livros, malas.
«Fico com ele.» Portanto, estou deitado
Onde o Sr. Bleaney se deitava e apago os meus cigarros
No mesmo pires evocativo, tento

Encher os ouvidos de algodão, para abafar
O ruído incessante do rádio que ele a consumiu para comprar.
Conheço os seus hábitos – a que horas descia,
Que preferia um molho a outro, por que razão

Labutava com denodo nas quatro linhas –
Cercadura exacta como um ano: a gente de Frinton
Que o recebia nas férias de Verão,
O Natal na casa da irmã, em Stoke.

Mas se ele se punha a observar o vento frio
A descompor as nuvens, ou se deitava no mofo da cama,
Dizendo-se que estava em casa, sorriso rasgado,
Tremendo, sem conseguir afastar o temor:

O modo como vivemos revela a nossa natureza,
E, com a idade dele, sem nada, a não ser
Um caixote arrendado, isso devia assegurar-lhe
Que não precisava de mais. Não sei.


- Philip Larkin
(tradução de Hugo Pinto Santos)

On my songs

Though unseen Poets, many and many a time,
Have answered me as if they knew my woe,
And it might seem have fashioned so their rime
To be my own soul's cry; easing the flow
Of my dumb tears with language sweet as sobs,
Yet are there days when all these hoards of thought
Hold nothing for me. Not one verse that throbs
Throbs with my heart, or as my brain is fraught.
'Tis then I voice mine own weird reveries:
Low croonings of a motherless child, in gloom
Singing his frightened self to sleep, are these.
One night, if thou shouldst lie in this Sick Room,
Dreading the Dark thou darest not illumine,
Listen; my voice may haply lend thee ease.


- Wilfred Owen

Domingo, Novembro 14, 2010

http://3.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TOAhf9x19KI/AAAAAAAAGsU/ivHWA1w0A9U/s1600/putos.jpg

Ter Vinte e Seis Anos

Tive medo destes anos,
Os vinte e tal,
Quando desaparece a destreza,
E cada acontecimento,
Voltado para a seca,
É expedido com uma dúvida
Que se incrusta na raiz.

Julgava que este impulso imaculado
Por certo cessasse
Aos vinte e quatro, vinte cinco;
E agora as escórias
Do que ardeu na infância
provam que eu tinha razão.
O que incandesceu

Depressa se extinguiu em mim,
Como eu previra.
Talento, felicidade,
Estas coisas recuaram,
Dão lugar a uma colheita torpe,
Chegam a um termo;

Por certo desaparecidas,
Talvez o resto,
corroído, permaneça,
Como segunda escolha.
É lixo, o edifício ruído de minaretes.
E na cinza

Do que agradou e é passado
Não é mais do que
Uma trave de ganância, último
Sorriso carbonizado, enclavinhado ódio
Crustáceo, orgulho enegrecido — esses
De quem tanto fiz.

Se nunca mais pudesse
Voltar a alcançar
A pura posição despercebida,
Extenuaria
As propriedades erradas,
Viveria daquilo que é.

Mas é difícil escapar a esse mundo.
Já morto,
Perlado de putrefacção.
Já que eu, ludibriado,
Cavo na minha mente a mais funda das feridas:
Penso lembrar,

A qualquer momento, estados
Há muito dispersados.
Se o acaso dissipar
O melhor, o pior,
Pode propagar-se por um só toque.
Beijo, detenho,

Como estúpida mãe, a pútrida
Infância,
Que pode e vai impedir-me
Toda a vantagem, menos
Dicotomias desvalorizadas:
Nada, o paraíso.


- Philip Larkin
(tradução de Hugo Pinto Santos)

Sábado, Novembro 13, 2010

Anseo

Quando o professor fazia a chamada,
Na escola primária em Collegelands,
Tinha de se responder «Anseo»
E levantar a mão,
À medida que o nosso nome surgia.
Sendo que, aqui, «Anseo» significava, «aqui e agora,
Todos presentes, correctos».
Foi a primeira palavra que disse em irlandês.
O último nome no beiral
Cabia a Joseph Mary Plunkett Ward
E era seguido, o mais das vezes,
De silêncio, olhares de reconhecimento,
Um aceno, um piscar de olhos, a facécia do professor:
«E onde está o nosso jovem protegido?»

Lembro-me da primeira vez que ele voltou,
O professor tinha-o mandado para a rua,
Junto às sebes,
Pesar ele próprio e cortar
Um pau para ser açoitado.
Passado um bocado, tudo calado,
Chegava ele, como se nada fosse,
Com um varapau de freixo, de salgueiro.
Ou, por fim, o ramo de aveleira,
Que ele tinha lascado até formar uma chibata,
Com torcidos lacados, vermelho e amarelo,
Liso e polido,
E por todo tão delicadamente trabalhado
Que nele gravara as iniciais.

A última vez que encontrei Joseph Mary Plunkett Ward
Foi num bar, na fronteira irlandesa.
Vivia ao largo,
Num acampamento secreto
Do outro lado da montanha.
Lutava pela Irlanda,
Estava em acção.
E contou-me, Joe Ward,
Como tinha subido nas fileiras
Até oficial de manutenção, comandante,
E que todas as manhãs, na parada,
Os seus voluntários respondiam «Anseo»
E erguiam as mãos,
À medida que os seus nomes ocorriam.


- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Why Brownlee Left, 1980

Quinta-Feira Santa

Estão aqui, simpáticos, e deixam-nos cá ficar até tão tarde,
Bem depois de subidos os estores.
Um empregado desliza da cozinha com um prato
De guisado, ou uma sopa grossa,

E instala-se duas mesas ao lado.
Tu e eu sabemos que acabou,
Que isto ou aquilo se intrometeu
Entre nós, o que quer que nós sejamos, ou fôssemos.

O empregado rapa o prato com pão
E escorre o que resta do vinho,
Depois reordena, um a um,
A faca, o garfo, a colher, o guardanapo,
A própria mesa, a cadeira simplesmente emprestada,
E sorri, faz vénias à sua própria ausência.

- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Why Brownlee Left, 1980

Sexta-feira, Novembro 12, 2010

Desfile

____Versos de arame ligados, gaiolas ridículas que suspendem de manhã nas varandas para impressionar a vizinhança. Saem exibindo penas arrancadas a galinhas nas frívolas, orgulhosas cabeças, mostram arranhões auto-infligidos e falam de terríveis travessias nocturnas, chamam-lhe insónia. Mas de tarde a besta passa com o seu sorriso de sombra e, devorando-lhes os periquitos, devolve-nos o silêncio.
-

O Sapo

Vem à ideia como qualquer outro
leve alvoroço
por entre escombros.
O olho é exactamente como a bolha
no nível do meu espírito.
Ponho de lado martelo, formão,
recolho-o na espátula.

Toda a população da Irlanda
provém de um par deixado
numa noite junto a uma lagoa
nos jardins do Trinity College,
duas garrafas de vinho a arrefecer
após o Acto de União.

Há, por certo, nesta história,
qualquer moralidade. Moralidade para o nosso tempo.
E se eu o pusesse à cabeça
e o apertasse,
como sumo de limas acabadas de espremer,
ou um gelado de limão?

- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Quoof, 1983

Conhecer os Britânicos

Conhecemos os Britânicos no pico do Inverno.
O céu de lavanda,

a neve de um azul de alfazema.
Ouvia, muito ao fundo,

o murmúrio de dois regatos que se uniam
(os dois totalmente congelados)

e, não menos estranho,
eu próprio, a clamar em francês,

por toda a clareira.
Nem o General Jeffrey Amherst

nem o Coronel Henry Bouquet tinham estômago
para o fumo da nossa casca de salgueiro.

Quanto ao invulgar
odor do Coronel ao agitar o seu lenço

de mão, «C'est la lavande,
une fleur mauve comme le ciel.»
Deram-nos seis anzóis
e duas mantas bordadas a varíola.

- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Meeting the British, 1987

Quinta-feira, Novembro 11, 2010

Mimetismo

O nome. Procurava nomes e sentia-me infeliz. O nome: valor fora do tempo, e de larga experiência.
Só os há para os pintores no primeiro contacto com o estrangeiro; o desenho, a cor, que todo tão imediato! Esse borrão de não se sabe o quê sabemos que se chama natureza, mas quanto a objectos nada, nada de nada. Só depois de exames de pormenor muito ponderados, decidido um ponto de vista, é que se chega ao nome. Um nome é um objecto a desprender.
Ter de desprendê-los.
Ao passo que os pintores (refiro-me aos fiéis copistas das coisas exteriores), são pessoas que se encontram de bem com a Natureza e o seu mimetismo.
Ouça-se o público num salão de pintura. De súbito, depois de haver insistentemente procurado, alguém aponta o dedo para o quadro e diz: "É uma macieira". Sentimo-lo aliviado.
Desprendeu uma macieira da pintura! Eis um homem feliz.

- Henri Michaux
(tradução de Ernesto Sampaio)
in Equador, Fenda

Quarta-feira, Novembro 10, 2010

O coração

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo – respondeu –,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.»


- Stephen Crane
(mudado por Herberto Helder)
in Magias, Assírio & Alvim

Magia

E quem dirá
– seja qual for o desencanto futuro –
que esquecemos a magia,
ou que pudemos atraiçoar
na terra amarga
a macieira, a canção
e o ouro?


- Thomas Wolfe

|
A insónia é um vento que nos acentua.

*

As minhas pestanas, cargueiros deixados sem âncora a transportar a noite.

*

À minha vida já só lhe resta o calão.

*

Sofro o desejo de uma droga cuja flor ardeu. Não existe mais, não há substitutos. Resta-me tremer.

- Vasco Gato
in Rusga, Trama

Terça-feira, Novembro 09, 2010

Dia 15


_____________(clica para aumentar)

-

Segunda-feira, Novembro 08, 2010

Don't leave no smell on me

Recaída

De vez em quando uma recaída
na fumarada dos blues,
nos uivos do safoxone
de não sei quem.
De quando em quando um dos livros
que estão em cima do guarda-
-fato. Há dias Camus
caiu-me aos pés. Meu Deus,
que belos tempos, quando tudo
era ainda sem sentido e não
me doíam as cruzes.

- Hans-Ulrich Treichel
(tradução colectiva)
in Como se fosse a minha vida, Quetzal

Dia de Outono

Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.


- Rainer Maria Rilke
(tradução de Vasco Graça Moura)

Domingo, Novembro 07, 2010

Nós outros

Na nossa vida nunca nada esteve certo.
Certo como destinado a nós próprios.
Nada na nossa vida se consumou profundamente.
O triunfo, a perfeição,
Não, não, isso não nos é concedido.

Mas agarrar nas mãos o vazio,
Caçar a lebre, deparar com o urso,
Corajosamente atacar o urso, tocar no rinoceronte.
Ficar despido de tudo, suando o seu próprio coração.
Atirados para o deserto, obrigados a fazer rebanho,
Um osso aqui, um dente acolá, um corno além.
Isto sim, isto é nosso.

Dizer que nascem neste momento as sete vacas gordas.
Nascem, mas não somos nós quem as há-de ordenhar.
Acabaram de nascer os quatro cavalos alados.
Nasceram. Só pensam em voar.
É difícil refreá-los. Irão quase até aos astros, estes cavalos alados.
Mas não somos nós quem os cavalgará.
Caminhos de toupeira, isso é nosso, caminhos de ralo.
Chegámos às portas da Cidade.
Da Cidade-que-interessa.
Não há dúvidas, cá estamos. É ela. É mesmo ela.
Quanto penámos para chegar… para partir.
Arrancar-se lentamente, clandestinamente, arrancar os
braços que ficaram lá atrás…

Mas não seremos nós quem há-de entrar.
Serão jovens com muita pinta, jovens muito jovens,
muito violentos, muito orgulhosos, sim,
esses é que hão-de entrar.
Mas nós, não, nós não entraremos.
Não passaremos daqui. Stop. Nem mais um passo.
Entrar, cantar, triunfar, não, não, isso não é nosso.

- Henri Michaux
(mudado por Herberto Helder)
in Doze nós numa corda, Assírio & Alvim

A Escrita, Paulo da Costa Domingos &etc, 2010

Aqui, o cuidar da palavra e o rigor da escrita (marcado no emblema fugitivo dos fac-símiles autógrafos de Paulo da Costa Domingos) não são descurados em função do desgosto e da raiva – «É insano/ calar em silêncio» (p.31). Não será talvez por acaso que nos lembramos do Juvenal de «Deverei eu sempre ouvir, sem retaliar?» Contrariando uma tendência arreigada nas práticas consuetudinárias, esta poesia fortalece-se por entre o aumento da temperatura emocional – «Cadáveres/ de chapéus-de-chuva retorciam-se/ no empedrado; e os cães uivavam/ manhã cedo/ porque têm sede e os donos,/ derreados, dormiam: baixinho.» (p.31) –, rés da praga e do lixo, vizinha da náusea de uma brutal modernidade – «a pensão da falsa invalidez, a metadona,/ vestuário usado embebido no perfume// da usura e no grito bipolar do tédio» (p.23). Se toda a poesia política, como queria Goethe, é necessariamente má poesia, poderá ser fútil discutir, mas, por uma atenção impenitente ao concreto e ao que, nele, revolta e desagrada, o chamamento da torpeza e da injustiça é trespassado por estes versos – «Virulenta é a crise/ de programada que foi/ e orquestrada/ para um tempo de expurgo e razia,/ uma limpeza nos locais de trabalho.» (p.42) –, produzindo alguma da poesia mais poderosa e mais inteligentemente lírica dos últimos tempos.

Não são bem memórias, estes versos; não o são, de todo. A memória é como o rastilho para mais poderosa, bem mais letal, pólvora – uma leitura impiedosa e denodada, rigorosíssima, das coisas e dos seres – «Jamais tão alto e tão perto/ do Sol se voou e tão distante/ do cerne de todas as quedas.» (p.41). A evocação de um passado a que se chega «subindo às escamas das palmeiras/ do passado/ a muitos mil quilómetros de distância» (como se lia na reunião Carmina) não se produz em detrimento da perda de tensão, como em tantas luminárias – «Na Idade do Bibe/ já um íntimo teclado/ piano se formava por baixo/ dos tampos das carteiras/ em louvor de alguma mestra/ mais descuidada e/ disponível à linha melódica,/ ao contorno erótico/ dos problemas. Na idade/ em que entornados os tinteiros/ nos escorriam pelas pernas.» (p.7) Antes se recua no tempo – «Depressa, consumido todo o prodígio/ que foi o despautério da infância/ num mundo somente dado ao trabalho,/ sobreveio um dia de cão/ cheio de abuso e maldades…» (p.8) – com uma poesia que se abeira dos incandescentes materiais do lembrado para os transformar em versos de inteira justeza, num cuidado de timbre e sentido que vai sendo raro – «o ardor não escolhe idades» (p.8). De resto, esta poesia repete a sua disposição de se conter – «Mais não digo,/ a estupidez e a maldade escrevem-se/ em papel contínuo, e o poema vai longo/ e, depois, ninguém o lê.» (p.26).

Eis, portanto, uma poesia, mais que tudo, consciente, uma poesia em que alguém está a par de que se vive «Aprisionado, sim,/ num istmo entre istmos num/ irrevogável ditado universal.» (p.37). Uma escrita que não cairá no narcótico versejar das cortinas de fumo em que se entretém, ainda, muito poeta, sabedora como é de uma impositiva «subvivência crónica» (p.53). Se põe em cena, em quadros que o não são – antes se erguem como flagrantes rasgões do que possa ser um quotidiano que nos sobra –, fá-lo com tal dignidade de expressão que o que está em causa é menos uma representação apenas literária e mais o canto dorido da própria vida – «Até lá, muito semáforo existe/ onde esmolar» (p.29). «O fim da arte é o Canto», se lia, em anterior registo. Por esse mesmo caminho, ficam de fora os que não sabem, não querem ou não podem saber, o cisco de mundo em que nos é dado durar – «o deserto inominável sem fuga, eis a/ actual actividade dos intelectuais,/ coitados… Tudo, mas tudo, nos cansa,/ principalmente espúrias apostas/ no promissor cavalo errado.» (p.37). Do mesmo golpe, esta poesia – não poderia deixar de ser – é uma rígida instância de contra-poder. Felizmente, porém – para ela, mas, sobretudo, para quem a lê –, não cola cartazes, nem passa panfletos: apenas, sibilina, exprime o mundo que nos calha, com o rigor de uma inscrição, dura e derradeira, abertura para o devir – «A fina película que aparta/ da Igreja o Estado, propícia/ aos líquidos conteúdos, ao alívio/ do tenso músculo, às/ ideias feitas, rompeu/ e o verbo se fez carne/ e a carne, apetecível, encheu-se de um pó/ e friccionou-se com/ os santos óleos, e…/ a Humanidade é aquilo que hoje sabemos.» (p.40) O que possa ser o real concreto é, mais do que tratado poeticamente, interpelado, posto em causa, nas suas incidências e fugas – «Tanto, que o real se afasta, fantasmagoria, diferido, para jamais/ voltar à ceia dos indivíduos, perdidos/ em definitivo na urbana floresta.» (p.41) A sua presença, nos versos, rejeita a liturgia, repudia a cega concreção: é crítica, dinâmica, transformadora – «Mas o lençol/ de urina do real tem/ uma lucidez doo instante/ seu único optimismo.» (p.54). Mostra-se, também aí, cônscia da lassitude desse real, da sua falibilidade, «quando o real se pauta pelos tablóides,/ quando o trambolhão está aí» (p.42).

Uma nota, marginal (?), para relevar o suporte gráfico, da responsabilidade de P.C.D., pela elegante sobriedade de tipos, caracteres e de composição, apoiada pelo registo fac-similar dos versos.

- Hugo Pinto Santos

Poesia, Cristovam Pavia, 2010

Parecia talhado para o esquecimento, este fazer. Tem quase trinta anos, a última edição de Cristovam Pavia, que, em vida, apenas vira publicado o livro 35 Poemas, de 1959. A sua produção, precoce, ficaria essencialmente disseminada em revistas, ou permaneceria inédita – dela se resgatam aqui oito poemas. O diagnóstico de Joaquim Manuel Magalhães (in Os Dois Crepúsculos) mantém total pertinência: «Um dos esquecidos dentre os poetas portugueses do pós-guerra.» Uma poesia, como esta, tão pouco afeita ao caminho mais amplamente rasgado de uma modernidade que grite, que lugar poderá ter, num panorama da poesia de cá? Por certo, marginal, longe da vigia mais atenta – «Sem dúvida», diz ainda J.M.M., «assim é por a sua poesia ser, o mais fundamente, anti-moderna. Ignora o rocambole da experimentação sintáctica, do desregramento imaginístico». Resta reler a poesia de Pavia. A dúbia simpleza do seu dizer recupera a toada musical de um lirismo que tendemos a dizer tradicional. Pela cadência, a espaços linear, melopeia bastas vezes dolente, na sua queda breve, mercê de um cuidado rítmico, visível, por exemplo, nas frequentes elisões e na respiração comedida e temperada do metro, como nas suas opções estilísticas e vocabulares. Há algo de cantilena de embalar, de canto fúnebre, enganadoramente pueril, nestas cadências – «Grão de areia, remo esguio…/ Minha infância reavida// Tão sossegada à janela/ Prostitutinha de branco…» (p.175)

É sensível a herança de um Campos, na sua letargia auto-imune – «Dizem que não tenho idade para estar cansado» (p.67) –, na lassa disposição de nem ler o livro sepultado na sua cabeceira – «E nem leio o meu Baudelaire» (id.) –, a repercussão de um Sá-Carneiro, um Régio – «Lá em baixo há manchas douradas,/ Nuvens em fogo» (p.72). Mas também a memória transfiguradora de tradições mais recuadas, como a medieval – «Ó ondas do mar de Vigo/ Ó girassóis de Alcoentre» (p.194).

Há, em certos pontos, um arrojo metafórico – «Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas/ Com os olhos fitos e os peitos esmagados» (p.57) –, uma força imagética – «Tudo colas e vinagres sobre mim» (p.127) –, que marcam de forma proveitosa os proventos desta poesia. A derrisão – «Shelley e Keats/ Estão em Roma/ Fazem manguites.» (p.197) –, a auto-depreciação – «Escrevo em papel de retrete/ Os meus ditos poemáticos» (p.198) – formam o contraponto forte da placidez versejada de Pavia. Note-se, ainda, que, a par das florações mais rentes a um certo uso tradicional dos modos da poesia, a presente reunião recolhe um conjunto de esparsos, já coligidos na edição da Moraes – além de poemas que conhecem agora a primeira publicação –, em que assoma algum desvirtuamento de processos e dissolução de formas e modos que poderia ter conduzido a uma inflexão eventualmente proveitosa.

- Hugo Pinto Santos

[Versão ampliada de um texto originalmente publicado no «Actual», Expresso, 30 de Outubro, 2010]

Sábado, Novembro 06, 2010

http://1.bp.blogspot.com/_vFWuREDhpa4/TNTeOimMcPI/AAAAAAAAGrY/kqdBDZlryHM/s1600/df6e1d33f8b50cb55bcfe135b1c8c740.jpg

Sexta-feira, Novembro 05, 2010

.
Também os gritos são feitos
de palavras, isto é

de uma grande ausência
de palavras, isto é

de silêncio carregado
de veneno

_____


Palavras como rostos, como histórias
por contar

Alheamento, abandono, esquecimento
quem pode viver disso?


- Rui Caeiro
in Baba de Caracol

Amanhã


________________(clica para aumentar)
-

A Simplicidade

O que sobretudo faltou à minha vida, até agora, foi a simplicidade. Começo a mudar, a pouco e pouco.
Agora, por exemplo, saio sempre de casa com a minha cama, e quando uma mulher me agrada, pego-lhe e vou para a cama com ela de seguida.
Se tem orelhas feias e grandes, ou então o nariz, tiro-lhos com a roupa e meto-os debaixo da cama; depois ela encontra-os ao sair. Só fico com o que me agrada.
Se eu vir que ela fica melhor com outra roupa interior, mudo-a logo. Será o presente que lhe ofereço. Se, no entanto, vejo outra mulher mais interessante a passar, peço desculpa à primeira e faço-a desaparecer imediatamente.
Pessoas que me conhecem acham que não sou capaz de fazer o que aqui deixo escrito, que não tenho suficiente temperamento. Eu também pensava assim, mas isso era por causa de não fazer
tudo tal como me agradava.
Agora, passo sempre umas tardes agradáveis. De manhã, trabalho.

- Henri Michaux
(tradução de José Carlos González)
in As Minhas Propriedades, Fenda

The Social Network (2010)


7/10

Quinta-feira, Novembro 04, 2010

Uma vida de cão

Deito-me sempre muito cedo, e estafado, e no entanto não é visível, no meu dia de trabalho, nada de cansativo.
É possível que não se dê mesmo por nada.
Mas a mim, o que me espanta, é poder aguentar até à noite, e não ser obrigado a ir-me deitar logo às quatro da tarde.
O que me cansa são as minhas contínuas intervenções.
Já disse que na rua andava à pancada com toda a gente. Dou bofetadas num tipo, apalpo as mamas às mulheres, e servindo-me do meu pé como dum tentáculo, semeio o pânico nas carruagens do Metropolitano.
Quanto aos livros, são os que mais me dão cabo da cabeça. Não deixo uma palavra com o seu sentido, nem sequer com a sua forma.
Agarro-a e, após alguns esforços, arranco-lhe a raiz e desvio-a definitivamente da manada do autor.
Num capítulo há logo milhares de frases, e lá tenho eu que as sabotar todas. Isso é-me necessário.
Às vezes, algumas palavras resistem como torres. Tenho que atacá-las várias vezes e, já bem lançado nas minhas devastações, subitamente, na esquina de uma ideia, revejo a torre. Por conseguinte, não a tinha suficientemente demolido. Tenho que voltar ao princípio e encontrar o veneno para ela, e nisto passo tempos infinitos.
E uma vez lido o livro inteiro, lamento-me, pois não percebi nada... naturalmente. Não consegui engordar nada. Continuo magro e seco.
Eu pensava (não era?) que quando tivesse destruído tudo, encontraria o equilíbrio. Possivelmente. Mas o que isso demora, quanto demora!

- Henri Michaux
(tradução de José Carlos González)
in As Minhas Propriedades, Fenda

Males necessários e o ruído mediático

A Klopstock

Se eu não quisesse o
que é real, este dizer
rio e floresta,
mas atei aos meus
sentidos a escuridão,
voz do pássaro célere, o golpe de flecha
da luz pela encosta

e as águas cheias de ecos —
como eu diria
o teu nome
se uma ínfima fama sobre
mim descesse —
fui guardando aquilo por que passei,
a fábula ensombrada das culpas
e da expiação:
tal como nas acções
confio — tu as usaste — confio
na linguagem dos que esquecem,
digo para o fundo dos invernos,
sem asas, a sua palavra feita
de juncos.

- Johannes Bobrowski
(tradução de João Barrento)
in Como um respirar, Cotovia