ressentidas travestis e invejosas.
Baixa remuneração
noites de amor intenso
e livros como filhos.
- Cristina Peri Rossi
(achado aqui)
- Cristina Peri Rossi
(achado aqui)
- Federico Gallego Ripoll
(versão de L.P.)
ré menor, Patrícia Baltazar, Língua Morta, Outubro, 2010
O pior que se pode dizer é que, desde o título, se joga, em Ré Menor, com os sentidos da expressão contida no título, com a forma como se podem interpolar os campos judicial – «A ternura é a minha pena capital.» (p.23) – e musical – «Blindar os dias com música. Cada um, um por um.» (p.14). Porque nada aqui joga. Nada aqui é entretém. Rasga, sim, um percurso, pela música, em que alguém se põe em cheque, em severo juízo, e traga, sem remédio, um «Veneno vitalício.» (p.24). Trata-se de um juiz inclemente, o que aqui (se) julga, e será pesada a sua pena – «Não mais darei de beber.» (p.7) Cumpre-lhe o cárcere aberto e ínvio de uma «queda para um abismo de urgência» (p.24). Sem bálsamos, sem recursos, sobra-lhe a ventilação de um toque, que torne digno um corpo, numa proveitosa inflexão de sentido habitual, da, habitual, esfera do religioso para, diríamos, o profano dos sentidos, o outro domínio sacro, o do sentir.
A crise instaurada pelos versos, desmedida por dois pólos opostos, «Febre e fastio.» (p.10), cumpre o propósito que neles parece firmado, de levar à arena mais nua um corpo exposto a golpes tão difíceis de precisar – «Eu/ escondendo o meu corpo/ por baixo/ do meu próprio cadáver» (p.8). A poesia deste livro não se perde – e em não perder-se está parte do seu feito, já que os caminhos por ele percorridos levam geralmente a que se perca o pé, a que se perca a mão – no langor por que acaba por passar. Sabe servir-se dele para lamber feridas preservando o necessário sal, sem doçuras excessivas, deletérias, o mais das vezes, para o poema – apesar do mel, apesar da cedência, aqui e ali, a um vezo mais melancólico, que chega, como o fim de uma madrugada, antes que a rasgue a primeira luz. Embora nunca se deva procurar comodidade na poesia, algo nos interstícios dela, antes ou depois da sua detonação, consegue confortar-nos de tantos golpes que imitam já a morte. Um dos tónicos desta poesia acaba por ser a constatação que ela permite de que há quem não tema atiçar o lume do afecto – «A minha pele está exausta do percurso da tua boca. Exercício turvo. Cansaço de voz.» (p.23) –, ainda que sobre cinzas, a vulnerabilidade de uma «mão no peito» (p.18). Não devem, todavia, estas notas fazer pensar em enfraquecimento, seja ele expressivo ou de construção – «tenho um pacto com a água:/ deixo que seja ela a beber-me nos dias em que tremo de medo.» (p.12) Uma escrita do desconhecimento para o desconhecimento – «Escrevo-te porque não sei de ti» (p.27)- Hugo Pinto Santos
- León Felipe
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim
- Juan Ramón Jiménez
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim
- Juan Ramón Jiménez
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim
- Antonio Machado
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim
Estende-se magra pelo seco, escava-se como se a si mesma, acrescenta-se desse contínuo roubar-se. Se o ouvido pudesse aproximar-se suficientemente perto, ouvir-se-ia provavelmente estalar (o som da sua progressão em ínfimas linhas quebradas).
Sob o arco da lupa um rasto de sal, um risco de luz. Pulsa a cada inclinação do olhar. Guarda a memória de rostos amados, glórias perdidas, o suor nos corpos, confundidos, trocados, esse mar que cresce dentro da tua cabeça, o dia em que acreditaste serias feliz, o dia em que descobriste já tinhas sido, o tempo que passou, a morte que cresceu, a ferida que na carne se fez cicatriz, triste sobre triste a correr para o fim, a cada instante a correr para o fim.
- Jorge Roque
in Broto Sofro, Averno
- Ángel Crespo
(tradução de José Bento)
in A Realidade Inteira, Teorema
- W.H. Auden
(tradução de Hugo Pinto Santos)
A cor no mundo real parece cada vez mais irreal, mais consumida. A cor no espaço virtual é luminosa e portanto irresistível. Um excesso de tele-realidade transformou-nos em vigilantes aficionados que monitorizam um Universo-lixo… Desde os seios animados da violinista clássica, até à barba incipiente do desenhador do proscrito Big Brother, à pedofilia contextual do ex-revolucionário, às dependências rotineiras das estrelas, à maquilhagem derretida do evangelista, à robótica linguagem corporal do apresentador, aos duvidosos benefícios dos maratonistas para recolha de fundos, às fúteis explicações do político: a descida súbita da câmara de televisão suspensa de uma grua – uma águia sem bico, nem garras, só com um estômago óptico – devora imagens e confissões indiscriminadamente, como um saco de lixo, para as propulsar para o espaço em forma de ciber-vómito. Os estúdios de televisão – estridentemente monumentais – são tanto o culminar como o final do espaço perspectivo, tal como o conhecemos; restos angulares e geométricos que invadem infinitos estrelados; espaço real editado para transmissões fáceis no espaço virtual, eixo crucial de uma espiral infernal de reacções… a imensidão do espaço-lixo estendida até aos limites do Big Bang. Porque passamos a vida no interior – como animais num jardim zoológico – estamos obcecados com o clima: 40% de tudo o que se emite em televisão consiste em apresentadores pouco atractivos fazendo gestos impotentes frente a formações açoitadas pelo vento, através das quais podemos reconhecer, por vezes, o nosso próprio destino ou posição actual. Conceptualmente, cada monitor, cada ecrã de televisão é o substituto de uma janela; a vida real está lá dentro, o ciberespaço transformou-se nos grandes exteriores… A Humanidade está sempre a falar de arquitectura. O que aconteceria se o espaço começasse a olhar para a Humanidade? Invadiria o espaço-lixo o nosso corpo? Através das vibrações do telemóvel? Já o fez? Através de injecções de Botox? De colagénio? De implantes de silicone? Da lipoaspiração? Do alongamento do pénis? Será que a terapia genética anuncia uma remodelação total de acordo com o espaço-lixo? Somos cada um de nós um estaleiro em miniatura? Será a Humanidade a soma de 3 a 5 mil milhões de actualizações individuais? Será por acaso o repertório de uma reconfiguração que facilitará a intromissão de uma nova espécie nessa esfera-lixo que ela própria criou? O cosmético é agora o novo cósmico…- Rem Koolhas
(excerto final do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)
- António Barahona
in Relâmpago n.º26, Fundação Luís Miguel Nava
O espaço-lixo é político: depende da eliminação da capacidade crítica em nome do conforto e do prazer. A política tornou-se num manifesto graças ao Photoshop, projectos contínuos do que mutuamente se exclui, arbitrados por opacas ONG. O conforto é a nova Justiça. Países diminutos inteiros adoptam agora o espaço-lixo como programa político, estabelecem regimes de desorientação planificada, instigam uma política de desorganização sistemática. Não é exactamente o «vale tudo»; na realidade o segredo do espaço-lixo é ser promíscuo e ao mesmo tempo repressivo: à medida que prolifera o informe, o formal atrofia-se e com ele todas as regras, os regulamentos, os recursos…- Rem Koolhas
(excerto do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)
O coelho é a nova carne de vaca… Porque detestamos o utilitário, condenámo-nos a uma imersão por toda a vida no arbitrário… LAX [Aeroporto de Los Angeles]: orquídeas de boas-vindas – possivelmente carnívoras – no balcão do check-in… A «identidade» é a nova comida lixo dos deserdados, o pasto da globalização para os privados de direitos… Se o lixo espacial são os resíduos humanos que conspurcam o universo, o espaço lixo é o resíduo que a Humanidade deixa sobre o planeta. O produto construído (voltaremos a este caso mais adiante) da modernização não é a arquitectura moderna, mas antes o espaço-lixo. O espaço-lixo é o que resta depois da modernização seguir o seu curso, ou mais concretamente o que se coagula enquanto a modernização está em marcha, o seu resíduo. A modernização tinha um programa racional: partilhar as bênçãos da ciência, universalmente. O espaço-lixo é a sua apoteose ou a sua fusão. Embora cada uma das suas partes seja o resultado de inventos brilhantes, lucidamente planeados pela inteligência e potenciados por computação infinita, a sua soma augura o fim do Iluminismo, a sua ressurreição como uma farsa, um purgatório desvalorizado… O espaço-lixo é a soma total do nosso êxito actual; construímos mais do que todas as gerações anteriores juntas, mas de certo modo não nos registamos nas mesmas escalas. Nós não deixamos pirâmides. De acordo com o novo Evangelho da fealdade, há já mais espaço-lixo em construção no século XXI do que o que sobreviveu no século XX… Foi um equívoco inventar a arquitectura moderna para o século XX. A arquitectura desapareceu no século XX; temos estado a ler uma nota de pé de página com um microscópio, na esperança que se transforme num romance; a nossa preocupação com as massas impediu-nos de ver a Arquitectura do Povo.
- Rem Koolhaas
(excerto inicial do texto Espaço-lixo, traduzido por Luís Santiago Baptista para a Editorial Gustavo Gili – Rem Koolhas, Três textos sobre a cidade, 2010)
- Blaise Cendrars
(tradução de Liberto Cruz)
in Poesia em Viagem, Assírio & Alvim
- Manuel Gusmão
in migrações do fogo, Caminho
I
Se vejo o meu ser compelido — gemo. E oro a um deus de coragem e destino. A terra oferece-me o que quero — o seu corpo, os seus rios, e tenho de encerrar o meu destino, aquele destino, empurrar o braço no gesto que o alcance, dizê-lo.
Rainha do céu, minha terra em ti me contenho, tu limitas-me, és um mundo, esfera que brilha no rosário, semente de consolação. Não me alonges, leva-me (chega-me) ao teu seio, deixa, deixa contaminar-te do meu suor, queria renegar mas volto de novo a habitar-te.
II
Que morte apetecida, que boca soluçante pela manhã. Flores a corolar a caveira de cristal e azul. Flores de laranja e metal. Garganta golpeada no canto. Leque de madeira rara e marfim flamejando na cabeça negra, branco, cinza.
O acto de dizer, de não querer a minha vergonha. Trago o meu destino — um sal que me consome — em invenções de mal, sentado no meu trono, despedaçando o reino.
Anavalhe-se o que sobra, em fenda alastrada pelos tecidos, cante-se com coragem e sangue contraindo a vocalidade, os destinos mais estranhos da nossa condição: o que nasce no corpo, o que amamenta a imaginação, célula cerebral, leite da terra — logo, um minério hoje descoberto, a aberração da memória. A morte.- Carlos Eurico da Costa
in Colóquio letras n.º 12 (Março 1973)
- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio D'Água
"Como princípio e quando falamos de arte raras vezes me interessa, e independentemente da base em que é apresentado, o documento social. Principalmente se for realizado com esse único objectivo: o da denúncia ou da atitude ferozmente crítica, muitas vezes lamentavelmente segmentada, enviesada, e que busca fazer valer um entendimento fechado. O documento social é algo encerrado porque sob a capa da denúncia o que procura é a boa consciência do autor. É um documento fechado porque ao público nada é acrescentado, perante a evidência da bondade do autor na «revelação» da maldade externa, ao público só resta acompanhar o autor na indignação, e muitas vezes com boa oportunidade. Depois também apresenta a descoberta da pólvora hoje, isto é, a constatação da violência, da maldade ou do feio, que apresentadas isoladas não servem para nada, o alerta serve para assustar e o susto passa depressa. Como se não estivéssemos fartos de saber que existem 300 coisas péssimas. O que não sabemos é como completar o objecto deslocado que tem o quadro. Isso é que é preciso descobrir. Lembrarmo-nos dos nossos particulares acidentes íntimos."- Samuel Filipe
- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim
- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio D'Água
- José Mateos
(tradução de Rui Pires Cabral)
in Reunión, La Veleta, Granada, 2006
- João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real
- João Miguel Fernandes Jorge
in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real
- Margarida Vale de Gato
in Relâmpago n.º26, Fundação Luís Miguel Nava
- Manuel António Pina
in Os livros, Assírio & Alvim
- Boris Vian
- Manuel António Pina
in Os livros, Assírio & Alvim
- Gonçalo Mira
- Miguel Serras Pereira
in O mar a bordo do último navio, Fenda
- Sam Shepard
(tradução de José Vieira de Lima)
in Crónicas Americanas, Difel
- Philip Larkin
(tradução de Hugo Pinto Santos)
- Wilfred Owen
- Philip Larkin
(tradução de Hugo Pinto Santos)
- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Why Brownlee Left, 1980
- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Why Brownlee Left, 1980
____Versos de arame ligados, gaiolas ridículas que suspendem de manhã nas varandas para impressionar a vizinhança. Saem exibindo penas arrancadas a galinhas nas frívolas, orgulhosas cabeças, mostram arranhões auto-infligidos e falam de terríveis travessias nocturnas, chamam-lhe insónia. Mas de tarde a besta passa com o seu sorriso de sombra e, devorando-lhes os periquitos, devolve-nos o silêncio.
-
- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Quoof, 1983
- Paul Muldoon
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Meeting the British, 1987
O nome. Procurava nomes e sentia-me infeliz. O nome: valor fora do tempo, e de larga experiência.
Só os há para os pintores no primeiro contacto com o estrangeiro; o desenho, a cor, que todo tão imediato! Esse borrão de não se sabe o quê sabemos que se chama natureza, mas quanto a objectos nada, nada de nada. Só depois de exames de pormenor muito ponderados, decidido um ponto de vista, é que se chega ao nome. Um nome é um objecto a desprender.
Ter de desprendê-los.
Ao passo que os pintores (refiro-me aos fiéis copistas das coisas exteriores), são pessoas que se encontram de bem com a Natureza e o seu mimetismo.
Ouça-se o público num salão de pintura. De súbito, depois de haver insistentemente procurado, alguém aponta o dedo para o quadro e diz: "É uma macieira". Sentimo-lo aliviado.
Desprendeu uma macieira da pintura! Eis um homem feliz.- Henri Michaux
(tradução de Ernesto Sampaio)
in Equador, Fenda
- Stephen Crane
(mudado por Herberto Helder)
in Magias, Assírio & Alvim
- Thomas Wolfe
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A insónia é um vento que nos acentua.*
As minhas pestanas, cargueiros deixados sem âncora a transportar a noite.*
À minha vida já só lhe resta o calão.*
Sofro o desejo de uma droga cuja flor ardeu. Não existe mais, não há substitutos. Resta-me tremer.- Vasco Gato
in Rusga, Trama
- Hans-Ulrich Treichel
(tradução colectiva)
in Como se fosse a minha vida, Quetzal
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Vasco Graça Moura)
- Henri Michaux
(mudado por Herberto Helder)
in Doze nós numa corda, Assírio & Alvim
A Escrita, Paulo da Costa Domingos &etc, 2010
Aqui, o cuidar da palavra e o rigor da escrita (marcado no emblema fugitivo dos fac-símiles autógrafos de Paulo da Costa Domingos) não são descurados em função do desgosto e da raiva – «É insano/ calar em silêncio» (p.31). Não será talvez por acaso que nos lembramos do Juvenal de «Deverei eu sempre ouvir, sem retaliar?» Contrariando uma tendência arreigada nas práticas consuetudinárias, esta poesia fortalece-se por entre o aumento da temperatura emocional – «Cadáveres/ de chapéus-de-chuva retorciam-se/ no empedrado; e os cães uivavam/ manhã cedo/ porque têm sede e os donos,/ derreados, dormiam: baixinho.» (p.31) –, rés da praga e do lixo, vizinha da náusea de uma brutal modernidade – «a pensão da falsa invalidez, a metadona,/ vestuário usado embebido no perfume// da usura e no grito bipolar do tédio» (p.23). Se toda a poesia política, como queria Goethe, é necessariamente má poesia, poderá ser fútil discutir, mas, por uma atenção impenitente ao concreto e ao que, nele, revolta e desagrada, o chamamento da torpeza e da injustiça é trespassado por estes versos – «Virulenta é a crise/ de programada que foi/ e orquestrada/ para um tempo de expurgo e razia,/ uma limpeza nos locais de trabalho.» (p.42) –, produzindo alguma da poesia mais poderosa e mais inteligentemente lírica dos últimos tempos.
Não são bem memórias, estes versos; não o são, de todo. A memória é como o rastilho para mais poderosa, bem mais letal, pólvora – uma leitura impiedosa e denodada, rigorosíssima, das coisas e dos seres – «Jamais tão alto e tão perto/ do Sol se voou e tão distante/ do cerne de todas as quedas.» (p.41). A evocação de um passado a que se chega «subindo às escamas das palmeiras/ do passado/ a muitos mil quilómetros de distância» (como se lia na reunião Carmina) não se produz em detrimento da perda de tensão, como em tantas luminárias – «Na Idade do Bibe/ já um íntimo teclado/ piano se formava por baixo/ dos tampos das carteiras/ em louvor de alguma mestra/ mais descuidada e/ disponível à linha melódica,/ ao contorno erótico/ dos problemas. Na idade/ em que entornados os tinteiros/ nos escorriam pelas pernas.» (p.7) Antes se recua no tempo – «Depressa, consumido todo o prodígio/ que foi o despautério da infância/ num mundo somente dado ao trabalho,/ sobreveio um dia de cão/ cheio de abuso e maldades…» (p.8) – com uma poesia que se abeira dos incandescentes materiais do lembrado para os transformar em versos de inteira justeza, num cuidado de timbre e sentido que vai sendo raro – «o ardor não escolhe idades» (p.8). De resto, esta poesia repete a sua disposição de se conter – «Mais não digo,/ a estupidez e a maldade escrevem-se/ em papel contínuo, e o poema vai longo/ e, depois, ninguém o lê.» (p.26).
Eis, portanto, uma poesia, mais que tudo, consciente, uma poesia em que alguém está a par de que se vive «Aprisionado, sim,/ num istmo entre istmos num/ irrevogável ditado universal.» (p.37). Uma escrita que não cairá no narcótico versejar das cortinas de fumo em que se entretém, ainda, muito poeta, sabedora como é de uma impositiva «subvivência crónica» (p.53). Se põe em cena, em quadros que o não são – antes se erguem como flagrantes rasgões do que possa ser um quotidiano que nos sobra –, fá-lo com tal dignidade de expressão que o que está em causa é menos uma representação apenas literária e mais o canto dorido da própria vida – «Até lá, muito semáforo existe/ onde esmolar» (p.29). «O fim da arte é o Canto», se lia, em anterior registo. Por esse mesmo caminho, ficam de fora os que não sabem, não querem ou não podem saber, o cisco de mundo em que nos é dado durar – «o deserto inominável sem fuga, eis a/ actual actividade dos intelectuais,/ coitados… Tudo, mas tudo, nos cansa,/ principalmente espúrias apostas/ no promissor cavalo errado.» (p.37). Do mesmo golpe, esta poesia – não poderia deixar de ser – é uma rígida instância de contra-poder. Felizmente, porém – para ela, mas, sobretudo, para quem a lê –, não cola cartazes, nem passa panfletos: apenas, sibilina, exprime o mundo que nos calha, com o rigor de uma inscrição, dura e derradeira, abertura para o devir – «A fina película que aparta/ da Igreja o Estado, propícia/ aos líquidos conteúdos, ao alívio/ do tenso músculo, às/ ideias feitas, rompeu/ e o verbo se fez carne/ e a carne, apetecível, encheu-se de um pó/ e friccionou-se com/ os santos óleos, e…/ a Humanidade é aquilo que hoje sabemos.» (p.40) O que possa ser o real concreto é, mais do que tratado poeticamente, interpelado, posto em causa, nas suas incidências e fugas – «Tanto, que o real se afasta, fantasmagoria, diferido, para jamais/ voltar à ceia dos indivíduos, perdidos/ em definitivo na urbana floresta.» (p.41) A sua presença, nos versos, rejeita a liturgia, repudia a cega concreção: é crítica, dinâmica, transformadora – «Mas o lençol/ de urina do real tem/ uma lucidez doo instante/ seu único optimismo.» (p.54). Mostra-se, também aí, cônscia da lassitude desse real, da sua falibilidade, «quando o real se pauta pelos tablóides,/ quando o trambolhão está aí» (p.42).
Uma nota, marginal (?), para relevar o suporte gráfico, da responsabilidade de P.C.D., pela elegante sobriedade de tipos, caracteres e de composição, apoiada pelo registo fac-similar dos versos.- Hugo Pinto Santos
Poesia, Cristovam Pavia, 2010
Parecia talhado para o esquecimento, este fazer. Tem quase trinta anos, a última edição de Cristovam Pavia, que, em vida, apenas vira publicado o livro 35 Poemas, de 1959. A sua produção, precoce, ficaria essencialmente disseminada em revistas, ou permaneceria inédita – dela se resgatam aqui oito poemas. O diagnóstico de Joaquim Manuel Magalhães (in Os Dois Crepúsculos) mantém total pertinência: «Um dos esquecidos dentre os poetas portugueses do pós-guerra.» Uma poesia, como esta, tão pouco afeita ao caminho mais amplamente rasgado de uma modernidade que grite, que lugar poderá ter, num panorama da poesia de cá? Por certo, marginal, longe da vigia mais atenta – «Sem dúvida», diz ainda J.M.M., «assim é por a sua poesia ser, o mais fundamente, anti-moderna. Ignora o rocambole da experimentação sintáctica, do desregramento imaginístico». Resta reler a poesia de Pavia. A dúbia simpleza do seu dizer recupera a toada musical de um lirismo que tendemos a dizer tradicional. Pela cadência, a espaços linear, melopeia bastas vezes dolente, na sua queda breve, mercê de um cuidado rítmico, visível, por exemplo, nas frequentes elisões e na respiração comedida e temperada do metro, como nas suas opções estilísticas e vocabulares. Há algo de cantilena de embalar, de canto fúnebre, enganadoramente pueril, nestas cadências – «Grão de areia, remo esguio…/ Minha infância reavida// Tão sossegada à janela/ Prostitutinha de branco…» (p.175)
É sensível a herança de um Campos, na sua letargia auto-imune – «Dizem que não tenho idade para estar cansado» (p.67) –, na lassa disposição de nem ler o livro sepultado na sua cabeceira – «E nem leio o meu Baudelaire» (id.) –, a repercussão de um Sá-Carneiro, um Régio – «Lá em baixo há manchas douradas,/ Nuvens em fogo» (p.72). Mas também a memória transfiguradora de tradições mais recuadas, como a medieval – «Ó ondas do mar de Vigo/ Ó girassóis de Alcoentre» (p.194).
Há, em certos pontos, um arrojo metafórico – «Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas/ Com os olhos fitos e os peitos esmagados» (p.57) –, uma força imagética – «Tudo colas e vinagres sobre mim» (p.127) –, que marcam de forma proveitosa os proventos desta poesia. A derrisão – «Shelley e Keats/ Estão em Roma/ Fazem manguites.» (p.197) –, a auto-depreciação – «Escrevo em papel de retrete/ Os meus ditos poemáticos» (p.198) – formam o contraponto forte da placidez versejada de Pavia. Note-se, ainda, que, a par das florações mais rentes a um certo uso tradicional dos modos da poesia, a presente reunião recolhe um conjunto de esparsos, já coligidos na edição da Moraes – além de poemas que conhecem agora a primeira publicação –, em que assoma algum desvirtuamento de processos e dissolução de formas e modos que poderia ter conduzido a uma inflexão eventualmente proveitosa.
- Hugo Pinto Santos
[Versão ampliada de um texto originalmente publicado no «Actual», Expresso, 30 de Outubro, 2010]
.
Também os gritos são feitos
de palavras, isto é
de uma grande ausência
de palavras, isto é
de silêncio carregado
de veneno
_____
Palavras como rostos, como histórias
por contar
Alheamento, abandono, esquecimento
quem pode viver disso?- Rui Caeiro
in Baba de Caracol
O que sobretudo faltou à minha vida, até agora, foi a simplicidade. Começo a mudar, a pouco e pouco.
Agora, por exemplo, saio sempre de casa com a minha cama, e quando uma mulher me agrada, pego-lhe e vou para a cama com ela de seguida.
Se tem orelhas feias e grandes, ou então o nariz, tiro-lhos com a roupa e meto-os debaixo da cama; depois ela encontra-os ao sair. Só fico com o que me agrada.
Se eu vir que ela fica melhor com outra roupa interior, mudo-a logo. Será o presente que lhe ofereço. Se, no entanto, vejo outra mulher mais interessante a passar, peço desculpa à primeira e faço-a desaparecer imediatamente.
Pessoas que me conhecem acham que não sou capaz de fazer o que aqui deixo escrito, que não tenho suficiente temperamento. Eu também pensava assim, mas isso era por causa de não fazer
tudo tal como me agradava.
Agora, passo sempre umas tardes agradáveis. De manhã, trabalho.
- Henri Michaux
(tradução de José Carlos González)
in As Minhas Propriedades, Fenda