quinta-feira, setembro 30, 2010

Tal como

Tal como às vezes entramos num quarto, sem saber porquê,
e depois temos de voltar atrás seguindo o rasto da nossa intenção,
tal como conseguimos tirar uma coisa do armário sem tactear
e só depois de a agarrarmos ficamos a saber o que é,
tal como pegamos num embrulho para o levarmos a algum lado
e, ao sairmos, pensamos sempre com um susto
que somos leves demais, tal como, enquanto esperamos
nos apaixonamos loucamente por uma cara nova,
mas somos afinal nós quem mais espera,
tal como sabemos: este lugar lembra-nos algo mas não sabemos o quê,
e nos ocorre um cheiro qualquer, em forma de recordação,
tal como sabemos de quem devemos desconfiar
e em quem podemos confiar, com quem nos podemos deitar,
é assim, acho, como os animais pensam, conhecem o caminho.

- Judith Herzberg
(tradução de Ana Maria Carvalho)
in O que resta do dia, Cavalo de Ferro

Todas as manhãs

Todas as manhãs, entre o enfiar
do sapato esquerdo e do sapato direito
ele vê a vida desfilar-lhe diante dos olhos.
Por vezes só a custo consegue
calçar o sapato direito.

- Judith Herzberg
(Tradução de Ana Maria Carvalho)
in O que resta do dia, Cavalo de Ferro

Sinto saudades daqueles meus gatos

Minhas mãos de aguarela estão agora sem gatos
sentado aqui sozinho na escuridão
minha cabeça como janela está triste com pesadas cortinas
sem gatos estou quase a morrer
atrás de mim meu último gato enforcado na parede
morto por minha ébria mão alcoólica,
e em todas as outras paredes do sótão ao porão
minha triste vida de gatos enforcados

- Gregory Corso

Todos vocês parecem felizes

… e sorriem, às vezes, quando falam.
E dizem, ainda,
palavras
de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com a finalidade de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso eu ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, larga,
cega desolação por qualquer coisa
que – para onde não sei –, lenta, me arrasta.

- Ángel González
(tradução de Daniel Ferreira)

quarta-feira, setembro 29, 2010



CONTAM QUE NASCI COBERTO
DE UMA SÓLIDA CAMADA DE GELO

Oiçam-me com o meu idioma de poema

Carlos Edmundo de Ory

Contam que nasci coberto de uma sólida camada de gelo,
quase mineral; que tiveram que me descongelar à pressa
debaixo da torneira da cozinha para que rebentasse em choro,
que tenho corpo de pirágua dobrada pelo relento desde aí.
Assim, dentro do bosque, o mistério tem a sombra verde:
falo um idioma de lâmina ferida pela fruta mais doce
e o meu corpo é uma jarra se a sede me toma para beber.
Quando cheiro a cintura da rosa a minha cabeça é um jardim,
mas quebro-me se piso uma folha seca ao fundo da tarde.
Entre os livros guardo penas de estranhos pássaros,
dias que perdi debaixo das suas noites, radiografias de anjos.
Tenho matilhas de silêncio a dormir no leito dos meus cabelos
e guardo arqueiros no tacto branco das minhas mãos:
sei esticar o corpo dos dias, amá-los se me deixam.
Esporadicamente escrevo o quanto não sei de mim, levanto um pombal
para cada palavra, apalpo o duro âmbar do crepúsculo
onde durmo como o insecto que aguarda a sua ressurreição.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en negro, DVD Ediciones

Está na gráfica

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjV1kxRYv8VPAF9sbmQk35MjJMxJkcOHk860ZB3iphLPLVhjg8f5dSxx-mDV4-x6SZMh9-uJ9Hhd31msPfMf-z3RdRNXFChDQdkfAAzsZvzW60lDNCVnKJ2LdIvTBk3cwzfnWsf/s1600/white3.jpg

Tesouros de Damiel e Cassiel

Hoje, no passeio Lilienthal, um homem
caminhava cada vez mais devagar e olhou
por cima do seu ombro para o vazio.

A neve que cai e adopta a forma da coisa
tal como o adjectivo vermelho cai sobre a cereja.
A mulher que parte ao meio uma maçã
e se encontra entre dois bosques, dividida.
O sonho que se apaga no obscuridade de um cinzeiro,
a estrela que se extingue ao mesmo tempo
que se diz a palavra ou tosse um estranho.

Num caderno hei-de anotar todas as coisas.

A sombra que foge da noite
como o vento escapa do vento.
O miúdo que tem apenas uma moeda
mas cem mãos para perdê-la.
O insecto que escava galerias no coração
dos livros, que come a carne das árvores,
come palavras, come-as até as ter todas.

Num caderno hei-de anotar todas as coisas.

Os guarda-chuvas que ardem e queimam a tarde
tal como a palavra gelo incendeia uma boca.
O solitário que recorta as ilhas de um mapa e uma noite,
de repente, encalham todas na praia, frente à sua casa.
A bala que procura um homem na lista telefónica,
a bala que silva e irrompe a meio de um pensamento.

Num caderno hei-de anotar todas as coisas.

O homem que olha para o fundo do copo
e encontra a superfície do inferno.
O moribundo que se apaga sobre o leito
tal como um coto de lápis.
O amante a quem visita, como uma tormenta,
a sombra remota de perfume e pensa:
A memória é um leão adormecido entre algodões.

Num caderno hei-de anotar todas as coisas.
Debaixo do céu hei-de ser todas as coisas.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en negro, DVD Ediciones

terça-feira, setembro 28, 2010

Quadro com pássaros

O muro é, deste lado, escuro e triste,
tal como acontecia naquele conto
que um dia te expliquei. Se fosse verdade, hoje
todos os pássaros pintados por ti
estariam à tua espera do outro lado
cantando para ti: a parte clara
de que falava o conto
iria acolher-te como eu e a tua mãe
se pudesses um dia regressar a casa.

Enquanto conto a mim mesmo a história,
vejo os últimos pássaros que pintaste.
Aqui, no lado sombrio deste muro,
de que forma poderia pagar a ilusão
de sentir-te na brisa de um instante?

- Joan Margarit
Joana (Ediciones Hiperíon)
retirado daqui

Contradição

O final da tarde
é um limão com mofo.

Tem um tom esverdeado,
_______________como de infância triste:
A infância do meu pai.

É nisso que penso
enquanto vou de visita ao hospital.

Assustam-me os corredores,
o seu conto de terror por trás de cada porta.

Assusta-me estar aqui:

O quarto,
_______o soro,
as veias dos seus braços como fios de lã.

Acabou de se dar conta de que voltei.
Sorri-me.

Como posso dizer-lhe
que o melhor não está no que já fomos.

- Josep M. Rodríguez
(tradução de Manuel de Freitas)
in Telhados de Vidro n.º14, Averno

Palavras nunca

Sim, posso escrever trigo
e trémulo, e de oiro,
mas uma espiga nunca
brotará do meu verso
como brota de um sulco.
Posso escrever pintassilgo
e trino, mas nunca
soará nos meus poemas
canto algum.
As nossas palavras nunca
cativarão as coisas.
Acercar-se-ão delas,
hão-de rodeá-las
como uma débil brisa...
tornando vazias.
Com um perfume talvez,
com um eco, com uma
memória esvaída...;
mas as coisas sempre
hão-de pertencer
ao seu mundo
e as palavras nunca
serão mais que palavras.

- Miguel D'Ors
in El misterio de la felicidad (antologia)

segunda-feira, setembro 27, 2010

domingo, setembro 26, 2010

Também em Outubro



Cadáver

A rádio acaba de informar-nos
da morte de Octavio Paz;
o chato de serviço puxa da coroa de louros
e pelos ditirambos post mortem da praxe.
E cita -diz ele- o grande poeta
quando afirma
que «os tempos têm limitado
o espaço da poesia»; e que isso
é sinal de como vão mal.

Não. Não é, gostava de responder-lhe,
é sinal apenas do mesmo de sempre:
os poetas -velhos, novos, mortos, vivos,
dá no mesmo-
nunca fizeram a mais pálida ideia
do que se passa à sua volta.

Mas não posso fazê-lo.
E de qualquer modo, quem me escutaria?
A fanfarra funerária já se pôs em marcha
-implacável, obscena, atroadora-
e até que se ache
diante do próximo cadáver
nem Deus poderá pará-la.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

Má consciência

Às vezes
quando o passado regressa
para torturar-me
penso na mulher
de William Burroughs.
Na sua cabeça.
Na maçã
-ou no vaso,
ou no que quer que seja-
que lhe pôs em cima.
Na pistola
que empunhou o seu marido
para mandar tudo
pelos ares.
Apenas li Burroughs.
Mas é estranho,
as muitas maneiras
em que uma pessoa
te pode ajudar.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

Vai dar no mesmo

Dir-te-ão
que vales
aquilo que és
e não aquilo que tens.
E terão
razão:
sem dinheiro
é quando vales
exactamente
aquilo que és:
nada.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

sábado, setembro 25, 2010

Que tás a fazer?

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEghzNgXQX7Qf2GMXAkfxW9YPpBKpKfpLYaeIiXh1GLjR2Xg6CSNW9XJqrsTo1CUPdandEtco2DpfBWnmLrWqEbde0cv0yAcqGmwZLv3PsDij5rzVbGjGUlts_HINElNBBrMkZcd/s1600/mm14.jpg

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhvdHe7YSCWq6t_gsDRmutfqKDWP1giZltBTrZLrvDiTrqXoRh0pCjf9Bhe12mXjA7xE8GQ0M2YftjncnUJMnUQgxUdIXOWfKUEucvOueN-9lVarVxZijsgoJ2JuTWji6Zwn3KL/s1600/kids_and_wolksvagen_4_by_aykanozener.jpg

Contraste

Num balanceio sonolento, a luz
passa os dedos entre urzes
e dedaleiras bravas rompendo-as
em flor, densa
incandescência. Vagueias
melodiosamente neste silêncio
enquanto o pólen te assenta
na garganta.

E quando, olhando para trás,
dizes tudo, a voz enche-se de súbita
doçura. O poema nasce
com essa sombra debruçando-se
sobre o tanque, a afundar-se
no teu reflexo.

Frutos rachados
nas pedras, sua carne doce abrindo
em delicados relevos: a beleza vencida
destes pequenos altares. Uma fé
sem deuses, sem mais ninguém.
E é como uma prece que soa
o manso ruído das cigarras, tricotando
as horas da tarde.

Por entre veigas e outeiros, as cercas
e os arames – vagos limites de um frágil império.
Há aqui só umas poucas casas baixas,
de paredes escalavradas e a perdida brancura
da cal onde o tempo vem, de há muito,
escrevendo as suas memórias.

Como no postal de um sonho:
tufos de erva e ninhos de hera
abraçando a fuselagem de um velho
avião que por ali, no seu repouso,
fixa tristemente os céus.

Uma mulher sentada num pneu.
Olhos deliciosamente
escurecidos que acham os teus.
Suado, o cabelo desenhando-lhe
caracóis imperfeitos na testa – recordações
deixadas pelos anjos. Tem um sinal
ao canto dos lábios e o assobio que neles
demora não é para ti. No colo
tem côdeas para os pássaros.

Mas então despertas nalgum lugar,
qualquer cidade: ruas antigas, estreitas,
imitando a dor, um reino ordinário,
povoado de ecos e murchos
vultos atravessando a noite.
Uma chuva cai por instantes
entre restos de conversas, acompanha
até ao fim uma canção cortada, sem melodia
ou letra a que vinhas seguindo o rastro.

Depois toma conta de ti um perfume
cansado há dias em outra pele. Um timbre
comum no jeito de nos calarmos. Podias
dizer-lhe alguma coisa, mas o quê?
Perdido o mistério, a carne apodrece
tão depressa, e os corpos, como religiões
abandonadas, já nada prometem, fedem
apenas. Cadáveres antes de tempo.

Levando o caminho de memória,
regressamos tão sós a estes minúsculos
quartos onde a insónia espalha
os seus terríveis girassóis e nos entrega
aos jogos desinteressados do tédio,
partilhando versos com as aranhas da casa,
entretecendo ninharias.
4

Devias querer vida em vez de palavras. Devias saber que as palavras não choram, não riem. Devias, sobretudo, aprender que estás só. Nenhuma palavra poderá viver ou morrer no teu lugar. Escreveste na mensagem que me enviaste: eu não vou poder ser feliz. Senti que estavas a trocar vida por poesia e nem a dor consegui ouvir. A violência do erro tudo calava e do grito que desesperado lançavas, nem dor nem poesia restavam.

- Jorge Roque
in Telhados de Vidro n.º14, Averno

Algo mais épico sem dúvida

00.30 e eis-me aqui
fumando até matar-me
diante de uma tela negra
besuntada de manchas
verdes.

Aí fora, em alguma
parte, em todas,
ensaios de cadáver
arrastam-se até ser manhã
na esteira de outra
noite vazia.

Pergunto-me
o que teria dito
Homero.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

Vermeer


Enquanto essa mulher do Rijksmuseum
com essa calma e concentração pintadas
continuar a verter, dia após dia,
leite da jarra para a taça
não merecerá o Mundo
o fim do mundo.

- Wislawa Szymborska
(traduzido do espanhol)

Exemplo

A tempestade
arrancou de noite todas as folhas da árvore,
menos uma delas,
que se baloiça sozinha num ramo despido.

Neste exemplo,
a violência demonstra
que sim,
que às vezes gosta de ter humor.

- Wislawa Szymborska
(traduzido do espanhol)

Wall Street: Money Never Sleeps (2010)


6/10

sexta-feira, setembro 24, 2010

Soneto à minha vida (mau, por sinal, como a vida, muitas vezes)

Sim. Nada sei de um soneto.
Todo o poema que estala, à conta de toda esta dor
É a folha de um libreto
Que não conheceu amor.

E bem visto assim de perto
Este rosto entediado
Só por causa da saudade
Fica logo sitiado.

E por causa dessa frase bem certeira
Corri logo atrás de ti, começando a brincadeira
Mas foi fraco o resultado.

E um dia morrerei sem ter lutado
Neste corpo aniquilado
Que viveu, sem ter vivido.

Democracia

Outra maldita tarde
de domingo, uma destas
tardes que um dia hei-de escolher
para enfim
queimar o último cartucho
da minha angústia.
Na rua
famílias com filhos,
pais e mães
sorrindo satisfeitos
de seu recém cumprido
dever eleitoral;
gente curvada sobre rádios
que cospem dados, percentagens
em bancos.

Cordeiros a caminho do matadouro
dando a escolha da arma
ao carniceiro.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

Para parte nenhuma

Os pensionistas falam de tromboses
nos autocarros
ou aguardam o final
nos bancos dos jardins públicos,
entre excrementos de pomba e seringas
ensanguentadas,
ou param-me na rua
diante de escaparates cheios de electrodomésticos
para me perguntarem as horas
e se interessarem pela raça do meu cão.
São as cinco da tarde e tudo
na cidade cheira a morte.
Sei que é inútil. Chegar a casa,
pôr-me à frente disto e redigir
quinze ou vinte linhas, tanto faz,
esta espécie de salvo conduto
para parte nenhuma.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

A ver

Olho o trânsito
que passa
desde o bar em que espero
já não recordo quem.
Duas mulheres
papagueiam
junto à margem da calçada.
Não seria mau
se por uma vez ocorresse algo.
Que se pusessem a atravessar a rua,
por exemplo,
e um camião as convertesse em picadinho.
Que coisa marada de se pensar.
Digo eu.
Melhor deixar o trânsito
em paz. Pedir outro café.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

quinta-feira, setembro 23, 2010

Amor, louco

______________________Traz-me
novas oferendas e presentes cada dia,
pequenas coisas, lembranças, nimiedades
que com grande esmero arquivo
no baú do coração.
É tudo tão terno
e patético ao mesmo tempo.

Como recusar-lhe
estas pequenas alegrias, esta mania;
como dizer-lhe que não
necessito delas, que não lhes darei uso
jamais?

____________Que nem ela é um Rei Mago
nem eu sou Jesus Cristo
nem estamos em Belém.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

Poetas que sirvam para qualquer outra coisa

"Urgem poetas como Wolfe para recuperar posições. Poetas que sirvam para qualquer outra coisa e, como não, para fazer versos. Extraordinários homens ordinários, para empregar a frase que Goethe dedicou a Napoleão. Poetas que nos salvem por um momento do aborrecimento mortal com que nos deparamos no cinema europeu, no Natal ou nas férias de verão. Ou que não nos salvem em absoluto mas terminem empurrando-nos de uma vez para o abismo de onde nunca devíamos ter saído. Poetas que nos deliciem com a droga divina da desesperança. Poetas que nos façam esquecer o silêncio e a escuridão desses outros poetas que discorrem pelo vazio tentando fazer-nos crer que passeiam com Deus pelos arrabaldes do céu."

- Luis Alberto de Cuenca
(excerto do prólogo da antologia da poesia de Roger Wolfe, Dias sin pan - Renacimiento)

Liga-me

–Lou Reed–

O teu pai anda a meter coca, a tua mãe
não te deixa quieto, logo agora que por fim tinhas
decidido descartar outros vícios que não
o tão condenado tabaco e o café.

Chegas a casa, acendes a T.V.
Transplantes de fígado, o que comemos,
tensão no Paquistão.
As enfermidades do recto.
Tens que o levar com moderação.

Morreu-te um amigo de infância
de algo que nem sequer sabes pronunciar.
O carro avariou-se-te
a meio de um engarrafamento. A semana passada
levaram o telefone, na que vem vão cortar
a luz.
Não podes pagar a renda, trabalhas
para um imbecil, e a tua mulher diz-te que
se calhar vai sendo hora de terem um filho.
Talvez dois.

Mas tu sabes, velho, que te amo.
São cinquenta paus.
Liga-me.

- Roger Wolfe
in Días sin pan (antologia)

A lua cheia

Após receber a carta
de meu pai, minha mãe
começou a vender
os móveis,
queria custear a viagem
deixando intactas as poupanças.
Vinham os compradores
e uma senhora levava o rádio
ou a televisão, outra um tapete,
outra um vaso de flores.
A casa esvaziava-se sem critério.
O meu irmão e eu,
de regresso a casa,
fitávamos a lua
que ia entrando às mãos cheias nos quartos.
Minha mãe já dormia, ou estava quase.
Deixávamos as luzes apagadas
por causa dos mosquitos.
Pouco restava já: um armário,
as nossas camas,
o frigorífico e uns lustres.
A vida agora, sem o nosso pai
e sem os móveis,
era um parêntesis.
Não tínhamos vontade de dormir.
O meu irmão servia-se
da sua limonada e sentava-se
numa das varandas,
e eu na varanda do outro lado.
Fitávamos o mesmo céu.
Era como velar o sonho de minha mãe,
como se sempre tivéssemos sido adultos.
A lua entrava
e não encontrava
obstáculos.
Estávamos de férias
nessa vertigem, tínhamos
entre mãos
uma viagem sem regresso.
O meu irmão agitava
o gelo no seu copo,
eu não sabia ainda o que fazer,
estava inteiramente vivo,
inteiramente inexpressivo.
Não sei se era feliz
ou desgraçado,
mas absorvi
esse verão como se fora o último,
como um resumo
da minha infância,
como a cifra de uma idade
cerrada com estrondo,
e nisso tive sorte:
poder dizer que se acabou,
aqui se corta esta meada,
reunir num lugar
toda uma época,
é enterrar verdadeiramente algo,
ter consciência
do que é estar vivo,
antigo como qualquer pedra.
E então vejo
como continua subindo ao céu
idêntica, invariável,
como se dissesse sou a mesma
e vocês são os mesmos,
tudo é o mesmo para sempre
e o tempo não deu um passo desde aí,
já não acredito nele, e se acredito
já não me aflige como antes.

- Fabio Morábito
in La ola que regressa (poesia reunida)

Emigrantes

Longe morrem os tios,
entre nós o Atlântico,
os primos envelhecem.
Desde há anos
não nos enviamos outras fotos
que não as dos nossos filhos.
Já nada temos a dizer-nos.
Que enorme borracha
se fez o oceano,
mais verdadeiro
que todas as promessas.
Agora, se escrevesse,
escreveria aos que já morreram:
a Ettore, por exemplo,
ou ao meu tio Roberto;
tornaram-se os meus parentes
mais chegados,
tornaram-se transparentes.
Talvez esteja à espera
que os outros morram
para amá-los,
para entendê-los,
para dizer
atravessei finalmente o Atlântico.

- Fabio Morábito
in La ola que regressa (poesia reunida)

Quarteto de Pompeia

Em Pompeia, entre outros corpos petrificados pela lava e as cinzas da erupção do Vesúvio (ano 79), estão conservados os de um homem e uma mulher no acto amoroso.


Despimo-nos tão furiosamente
a ponto de perdemos o sexo
debaixo da cama,

despimo-nos tanto
que as moscas jurariam
que estávamos mortos.

Despi-te por dentro
entrei-te tão fundo
que se extraviou o meu orgasmo.

Despimo-nos tão furiosamente
que cheirávamos a queimado,
e cem vezes a lava
voltou para esconder-nos.


II

Fizeste-me um dano tal
com tua boca, teus dedos,
fazias-me saltar tão alto

que eu era o teu estandarte
mesmo não havendo vento.
Despiste-me tão furiosamente

que pronunciei o meu nome
e doeu-me a língua,
doeu-me a idade.

Despimo-nos tão furiosamente
que os deuses tremeram,
e cem vezes mandaram
as lavas esconder-nos.


III

Esfregavas tão rápido
os seios que por duas vezes
caí nos seus remoinhos,

mexias lentamente o cu,
bem alto, fustigando-me
na sua negra emboscada,

seu perene meio-dia.
Abrias tanto a sua história,
já gritava o seu naufrágio...

Despimo-nos tão furiosamente
que não nos conhecíamos,
que os deuses mandaram
a lava reinventar-nos.


IV

Desmenti-te de cabo
a rabo devolvendo-te
aos teus primeiros actos,

perscrutei-te profundamente
até escutar a história
amarga do teu corpo,

pois só o amor sabe
como chegar tão fundo
sem violar o sangue.

Esta noite a lava
transformou a paisagem em pedra.
Tu e eu fomos a única coisa
que realmente morreu.

- Fabio Morábito
in La ola que regressa (poesia reunida)

Ao fundo da noite

O ar está gelado.
Mesmo o rouxinol guarda silêncio.
Com a testa apoiada no vidro
peço perdão às minhas duas filhas mortas
porque quase já nunca penso nelas.
O tempo vai-se, deixando sobre a cicatriz
a sua poeirenta argila, e mesmo quando
se ama alguém, só nos resta o esquecimento.
A dureza desta luz é a da água
que com o degelo goteja nos ciprestes.
Coloco um tronco, removo as cinzas,
volta a surgir a chama entre as brasas.
Quando sirvo o café,
a vossa mãe, desde o quarto,
sorri com a sua voz: Que cheiro bom.
Levantaste-te muito cedo esta manhã.

- Joan Margarit
in Joana, Hiperión

Lápide

(ANNA -1967-, JOANA -1970-2001-)
A nossa memória guarda os vossos nomes
numa leve praia que jamais
figurará nos mapas dos barcos.



Quão próximas estais aqui, uma e outra,
minhas filhas, depois de tanto tempo.
Tão juntas, atrás dos vossos nomes
que fitam o mar
e que o sol lê a cada amanhecer.

- Joan Margarit
in Joana, Hiperión

quarta-feira, setembro 22, 2010

Um pobre instante

A morte não é mais que isto: o quarto,
a luminosa tarde na janela,
e esta cassete de rádio na mesa
-tão apagada como o teu coração-
com todas as suas canções cantadas para sempre.
Teu último suspiro permanece
dentro de mim em suspenso: não deixo que termine.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves os miúdos
que brincam no pátio da escola?
Quando esta tarde se acabar, como será a noite?
Noite de primavera: Virá gente.
A casa acenderá todas as suas luzes.

2 de junho de 2001

- Joan Margarit
in Joana, Hiperión

Jacques Brel

Em algum cemitério de algum lugar,
alheio às folhas secas que o vento esfrega sobre os azulejos
e à infantil brincadeira dos pardais,
jaz, nesta terra sombria, Jacques Brel. Não saberá
que a sua voz, sussurrando Ne me quitte pas,
nos empurrou esta noite a ti e a mim até esta alcova
na qual agora nos adormece esta tíbia fadiga compartida.

- Miguel D'Ors
in Chrónica

De mistério

Quem sou?
________-Este intervalo de mistério
entre a rosa ardente que colho para ti
e a rosa sombria que a minha mão te estende.

- Miguel D'Ors
in Curso superior de ignorancia

Contraste

Eles que vivem debaixo dos focos clamorosos
do êxito e possuem
suaves descapotáveis e piscinas
de plácido turquesa com roseiras
e cães importantes
e riem entre loiras platinadas
belas como o champanhe,
_________________mas não são felizes,

e eu que sem ter nada mais que estas ruas
gregárias, um horário
escuro e os meus domingos baratos junto ao rio
com uma esposa e filhos que me amam
tampouco sou feliz.

- Miguel D'Ors
in Curso superior de ignorancia

As time goes by

Dizer dele as piores coisas tem, sem dúvida,
um sólido prestígio literário,
-tachá-lo de assassino, por exemplo,
ou compará-lo a
um desses ciclones com nome de corista
que passam e deixam nos telejornais
uma paisagem de grandes palmeiras abatidas
e errantes pedregulhos,
ou simplesmente lamentá-lo à base
de tardes e outonos em pálidos jardins-,
mas agora, com a mão no poema,
confesso-vos: fui sempre eu
quem saiu a ganhar dos nossos tratos.
Em troca desta luz sábia e serena
com que a experiência ilumina as coisas,
de mim levou
apenas a juventude, esse tesouro divino
que não serve para nada
-já Mark Twain o disse- posto nas mãos
insensatas de um jovem.

- Miguel D'Ors
in Hacia otra voz más pura

A bicicleta ausente

Já não existe rancor
Ao chegar ao quintal.

Sob a escuridão
Ainda procuro o teu rosto
Por entre as folhas caídas no calor
Inclinando a cabeça,
Obedecendo à velha tradição
De teres um lugar na minha vida.

.
.

Quando a toutinegra acordava as minhas manhãs,
Eu estava ao teu lado
Com um baloiço
E a escolha de tintas
No estirador da varanda
Acrescentada ao pátio.

Eras tu que celebravas as pequenas derrotas
Quando lavavas a cara
E sentias a aldeia distante
Reunida em massa
Acolhendo o homem desprezível
Que nunca levou qualquer mulher ao clítoris
Na furiosa explosão da maternidade
Ou do prazer.

Agora, já nada temo.
Sou o homem rude
Da voz forte ressoada na montanha.
E nada me impede de estender a pena
E desfiar a história
De uma varanda em estirador.

Não tenho medo da mortal família
Quebrada nos laços perenes da absolvição
E da perfidia.

Mas guardo o receio
De esquecer certos tons de ferrugem
E a majestosa roda de um caminho
Da bicicleta ausente.

terça-feira, setembro 21, 2010

É um estado de espírito

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PROIBIDA A ENTRADA DE ANIMAIS (EXCEPTO CÃES-GUIA)
apresentação de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
-

Noite de ronda

Noutro tempo terias passado a noite
a falar-lhe de livros e de velhos filmes.
Mas estás mais crescido. Agora sabes que a elas
lhes aborrecem tipos que se enchem de nomes próprios,
que o teu bacharelato as deixa indiferentes.
De modo que a deixas tomar a iniciativa,
desligas e finges que escutas as suas histórias,
que invariavelmente -recordas de outras vezes-
versam sobre o amor, as viagens, a dietética,
a sua família, o verão, a boa forma física,
o além, as drogas e a arte pós-moderna.
De quando em vez assentes, cruzando o olhar
com o dela, passando-lhe a mão nas coxas,
e elevas aos céus uma angustiosa súplica
para que esta farsa termine o quanto antes.
Passarão, ainda assim, algumas horas
até que, ébria e afónica, se desmanche nos teus braços
e obtenhas a vitória pírrica do seu corpo,
que, apesar do que dizem três ou quatro amigos,
será muito pouca coisa. E, quando estiver a dormir,
sairás exausto à rua em busca de uma chávena
de café gigantesca, maldizendo as garrafas
que arruinaram o teu fígado na estúpida noite
e pensando que afinal vale mais a pena
não facturar mas falar-lhes dos teus livros,
amargar-lhes a vida com Shakespeare e com Griffith.
Ou arranjar uma surda para que não falte nada.

- Luis Alberto de Cuenca

Epigrama

Dava-me gozo imaginar, como a todos os homens,
que a miúda que amava se deitava com outros,
que o fazia inclusivamente com pessoas do seu sexo,
para acrescentar-lhe tesão e loucura.
Divertia-me sofrer com esses disparates,
pensar que aquelas curvas que tanto me excitavam
teriam sido de gregos e seriam de troianos.
Mas passei os limites. Levei-o tão a sério
que tive que vingar a minha honra nunca ofendida
no plano real, que é aquele que menos conta.
Sim. Matei-a no mesmo leito em que imaginava
que me havia enganado tão deliciosamente,
e a seguir matei-me, para o caso de restarem dúvidas
quanto ao meu amor, silenciando futuras críticas.

Caminhante que passas ao lado desta tumba,
que estas palavras guiem os teus passos na vida.
Por mais que te divirta imaginá-la nos braços
de alguém que não tu, não percas a cabeça.
Mata-a só a ela, rasga em pedaços o seu cadáver
e busca outra miúda para continuares sonhando.

- Luis Alberto de Cuenca

Não posso suportá-lo

É-me indiferente a tua mania de te despires
diante das pessoas. Não me importa
que confundas dever de com dever,
que uses dissestes em vez de disseste
quando te pões doida, ou que durmas
com comprimidos catorze horas por dia.
Posso aguentar a selva do vazio
onde vives, o teu frio e o teu calor
-sempre desmesurados-, as tuas histerias,
essa higiene obsessiva a que te entregas.
Posso esquecer que estejas feita uma drogadita
(quem não o foi certa vez?), as tuas sestas,
o teu narcisismo, as tuas ovulações.
Pouca diferença me faz que me enganes
com a tua cadelita de mala. Mas
há uma coisa que não posso perdoar-te,
e é que uses esse odioso disfarce
de vulgar leitora de manuais de auto-ajuda
e me aconselhes coisas como: «Faz
o que te pareça bem a cada instante»,
«Vive o dia», «Não penses demais
no passado nem no que tens pela frente»,
«Sê independente», «Nunca hipoteques
o teu tempo livre», «Tira o máximo
das relações na tua vida», «Sê feliz.»
Não suporto isto, minha querida.
Horroriza-me. Não o suporto.

- Luis Alberto de Cuenca

Shakespeare e Rita

Ler William Shakespeare e conhecer a Rita
foram os dois feitos cruciais da minha vida.

Agora só me resta Shakespeare. A Rita foi-se
para o país das sombras e não pode voltar.

«Quand on est jeune, on a les matins triomphants.»
Não se pode negar que é um verso genial.

Eu era jovem nesse tempo, e as minhas manhãs
tão vitoriosas como a alergia na primavera.

Como tinha conseguido revalidar a matrícula,
os meus pais compraram-me a tradução de Astrana.

E nela li o velho Will, com o seu papel bíblia,
seus marcadores pintados e demais maravilhas.

De todo o seu teatro o que prefiro é Macbeth.
O do «ruído e a fúria» nunca o esquecerei.

Embora também me agrade muito A tempestade:
e das suas personagens prefira Calibán.

Das mulheres de Shakespeare, escolho Ofélia.
Entre outras coisas, porque a Rita era igual a ela.

De Shakespeare aprendi que tudo são palavras.
Do meu primeiro amor, que tudo vale nada.

- Luis Alberto de Cuenca
-
Se este poema fosse
o último que fizesses,
teria mais valor
do que outro qualquer?
Todo o poema é único
e tua morte escuta-o
com o mesmo deleite,
igual impaciência.

- José Corredor-Matheos
(tradução de A.M.)

segunda-feira, setembro 20, 2010

Ema

para a Ema

Está ali uma criança a desenhar o sol.
Pinta com lápis
No fulgor do retrato
Esses raios luminosos do meu dia.

A criança fez apenas um gesto
De quem iria começar o desenho
Mas não desistiu porque
Sorriu.

Lisnave

Eu era o homem da fábrica verde
E fui feliz na fuligem.
A minha mulher - a patroa - trabalhava
Em casa das senhoras.

Eduquei três filhos
E reformei-me.

Depois, a minha mulher morreu
E eu morri, logo a seguir
Sem nada saber lavrar.
-
Quem sonha com e contra tudo
detém maravilhas e vertigens.
E no casulo do corpo
eis os marinheiros a dormir,
as aves do alto mar,
os viajantes mortos de cansaço.
Baques. Balanços. Passadiços.
Ali está uma criança a desenhar
um coração de vidro
num sol de água clara.


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É na axila que um pássaro se aninha
e toma carne e febre,
cantando o trabalho paciente
do sonho e da melancolia.
Pássaro num outro espaço,
para onde nos vão desejos e poemas...
Eu te saúdo, pássaro de branca neve e papoila viva,
ao pé do bebedouro e do espinheiro.
Pássaro: casa pequena de ossos
espalhados no alvoroço de ventos e marés...

- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994

Para além de bem e mal

Coragem, meus caros.

Quem conheceu o velho major
Que deixou os campos
À luz verde das searas,
Sabe, tem a certeza de ter sido um homem digno.
Não é por causa de um filho natural
Que diante de um castelo reclamava seu pai,
O motivo da desonra.
Essas perdas, esses ganhos não entram neste balanço.
Apenas a satisfação de um abrir de pernas
Da mulher que foi eternamente triste com esse prazer
Junto à praia de Consac.
A mulher cinzenta dos cabelos de importância secundária
Nunca sentada à luz de um candelabro
E desalojada de amor
Na casa esquecida
Do vento seco e gradual
Que nunca arrefeceu
O filho que medrava.

Coragem - diria o major -
Agora que faltam poucos judeus
Deste lado do muro.

A minha mãe
Não tem nariz afilado
Nem sabe negociar o começo da vida.
E o meu pai está no lado dos judeus.

Eu vejo um homem, um major.
Talvez seja ele.

Acaba por me estender a mão
Sem saber quem sou.

Salvou um judeu,
Mas nunca um filho.

A vida transbordou quando fecharam as portas da barragem. Nesse momento, foi possível regar a roseira com o jarro e foi possível existir estio, silêncio e solidão.

Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia)

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Apresentação do novo livro de Miguel Martins
Sábado, dia 25, pelas 18.30h, no Bar do Teatro A Barraca,

Largo de Santos, em Lisboa.
Biografia, David Teles Pereira, Língua Morta, 2010

Não é impunemente que se escreve um livro como Biografia, de David Teles Pereira, e se concebe um conjunto de poemas como corpo vivente, dividido em cinco passos – «O Sangue», «Os Ossos», «A Cinza», «A Terra», «A Lei» – que constituem outros tantos poemas. Ainda que não se queira forçar a nota, ou inquinar leituras, é difícil não pensar num peculiaríssimo pentateuco. De resto, vive nestes versos algo da sombria poesia vetero-testamentária – «De repente, um grito atravessou o céu e senti o seu cheiro agre./ Tomei-o por divino: eu caminhei lado a lado com Enoch.» (p.10) –, um eco da sua fundadora força rítmica – «Senhor, já não sinto o pulso ao meu sangue e era tão imenso/ o meu sonho, mas os seus lábios estão pálidos e quietos.» (p.18) –, lastro obscurecido da sua voz delida – «Nessa mesma noite ensinaram-me/ que Deus desenha o tempo à régua e nunca ao compasso/ e que para Ele os olhos não têm horizonte.» (p.26). Não será, talvez, abusivo pensar em Mallarmé – «um livro que fosse um livro, arquitectural e premeditado, e não recolha das inspirações de acaso» –, ainda que nem de acaso nem de lance de dados aqui se trate. O fortuito não parece ter tomado conta destes versos, nem ter presidido à sua génese; e os trilhos do seu sentido encontram-se a meio caminho entre a pesquisa de uma alegoria e a concretíssima dicção das coisas mais terrestres.

A peste indescritível da história, que preconiza os seus fautores e seus escribas mais ou menos discretos, encontrou neste poeta um registador oblíquo – «O meu sangue andou por bordéis no norte da Europa e participou/ activamente na compra e venda de carne tão branca que,/ no passado, teria sido considerada aristocrática e enferma.» (p.9). O inviável coberto da fábula, incerta ossatura do mito, longe de ciciados, como em mistério de poucos, são esburgados, com laivos de refractário – «Deus já não é aquele Deus despido que o meu avô,/ em segredo, me ensinou a glorificar nas notas/ de um cântico demasiado escuro para ser tido por religioso./ Eu sou uma sombra, tive outro Criador./ Talvez mereça um banho em Auschwitz./ Eu sou aquele que ao fim de tantos séculos/ apenas se consegue definir pelo seu oposto,/ isto é, pelo seu inimigo.» (p.14).

As narrativas – «A minha irmã, de nome grego e impuro, escolheu ser vegetariana,/ em forma de protesto para com esta ascendência judaica,/ bárbara através das mãos, obcecada em sangrar/ pequenos animais peludos até à última gota.» (p.9) –, que os versos não produzem propriamente, mas que acabam por viabilizar – por rasto, por vestígio verbal e humano –, cruzam, a um sol enviesado, afim da trajectória da elipse, os tempos e as suas pregas, os indícios tão breves de uma passagem marcada pela tensão entre finitude e um eco imorredoiro – «É claro que eu sou exactamente assim,/ um paradoxo existencial apenas plausível/ na transição entre séculos: casaco com braçadeira/ envergando uma estrela de seis pontas/ e estados de espírito a fazer lembrar a Jedwabne.» (p.13)

O lugar destes poemas concentra um nódulo particularmente aliciante de onde partem vectores como o tempo, modalizado pelo tratamento das narrativas, pela releitura de esbatidos caracteres, pelo trabalho da linguagem, que não repudia a concisão das suas fórmulas mais cortantes, em que por vezes o premente – «Deve ser genético.» (p.13) – oscila em contraponto com o permanente – «É tradição entre os nossos acreditar que para lá do/ oceano fica uma terra que nos foi prometida,/ onde um rei pode ser encontrado a caçar animais/ cujas peles brilham mais que o exército de Tito/ a marchar passo a passo sobre o deserto.» (p.17). Um labor que permite, por outro lado, que respirem os haustos mais amplos de versos que, se tocam a prosa, iludem, sem remédio, esse curso, essa previsão. É um presente gramatical a podar as incidências de um sujeito que se equaciona, rente aos seus dias – «Há dias em que não penso uma só palavra/ que queira dizer-te, dias em que as fronteiras entre os homens/ se encontram permanentemente abertas ao estreitar de mãos,/ como laços de gravatas a fecharem-se sobre o colarinho da camisa.» (p.21) –, como, aqui, num acesso imagético tão prosaico como eficaz (a lembrar como o estranhamento remove a boçalidade, se for enérgica a luta do poeta). Um presente que parece formular a necessidade de pretérito, pela via dos seus possíveis, honestos, registos – «Admitir maternidade nestas putas de livros, à falta de linhagem feminil/ que justifique a brandura da nossa crónica,/ nunca como um truque, mas como uma tragédia» (p.21). Mas é sobretudo um sujeito que se reequaciona e questiona, sem pompa, nem algazarra, com a tentativa de um dito – «Uma fé inexistente talvez tivesse sido uma fé melhor,/ no extenso bosque do meu peito negro,/ com o meu avô, com o meu pai e com os seus olhos vazios virados para Leste.» (p.26) Alguém para quem a escrita não é apaziguamento nem solução, mas coisa em aberto, sujeita – «Escrever na terra prova uma série de coisas,/ mas provas bem melhores surgem ao apagá-la, porque a terra não se encontra com a terra, nem com o sangue./ Não somos pessoas agradáveis de conhecer.» (p.22)

- Hugo Pinto Santos

Dois haikus assonantes


Já não desenhas
nos muros da alvorada
sóis e luas.



A mesma história.
Pelo sol dos teus olhos
viaja a minha sombra.


- Luis Alberto de Cuenca

domingo, setembro 19, 2010

De segunda a sábado, das 10 às 19:45


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Biografia

O coração é uma arte difícil. Mas tudo o resto é a crédito.

- José Amaro Dionísio
in Telhados de Vidro n.º14, Averno
QUE COMPLACENTE ESTAVAS,
MEU AMOR, NESSE PESADELO

O problema não é ter que abandonar
tudo para ficar contigo.
O problema é ter que abandonar-te a ti
para ficar com um fantasma.
São as coisas que ocorrem quando sonhas que volta
a mulher que nunca há-de voltar.

- Luis Alberto de Cuenca
3

Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.

- Jorge Roque
in Telhados de Vidro n.º14, Averno

sábado, setembro 18, 2010

O Taberneiro, Miguel Martins, Poesia Incompleta, 2010

Há registos, mais do que outros, difíceis – arriscados. Um deles poderá ser aquele que faz da irrisão a sua faísca e seu propulsor, e de um ritmo estudado na respiração escarninha, a pleura que recobre os foles com que inspira e expira. Será preciso desbastar, muito joeirar, ritmar, pelo vocábulo, como pela sua (dis)junção, as quedas que dá o poema – e as que ajuda a dar, como dizia uma lição antiga –, as que dá a prosa. O que O Taberneiro, de Miguel Martins, recusando a caixa estanque do género, da forma, conseguiu fazer. Curiosamente, o que só beneficiou o seu acerado opúsculo, não seguirá propriamente a via do humor, extravasado por seus mais vulgares – e narcóticos – canais. Antes por um trilho bem menos álacre, é certo, mas de muito mais imponderável força e efeitos bem mais interessantes.

Menos incendiário do que fauno por entre silvas, M. Martins revela-se na sua escrita com um manejo da língua que oscila, proveitosamente, entre o espraiamento (aparentemente) desguardado e uma contenção quase epigramática; e o trânsito das suas palavras não parece obedecer ao ludismo que se lhes poderia apontar, mas corresponde a uma inquietação que elas próprias geram. Nas similitudes e ecos de efeito pernicioso, no boicote – «Idem Paz» –, assoma uma concepção mais ciente dos códigos do que poderia pensar-se. Em associações que conseguem ser inesperadas, construções que ousam procurar-se por recantos menos triviais, a arte da elipse – «O Taberneiro é da cintura para cima.» – contraria-a, por vezes, uma espécie de repercussão de sentido, que se contém antes do derrame – «Poderia ser centauro. Centenário. Milenar. E é-o: pereneterno.» –, mantendo-se uma capacidade invulgar de dizer desferindo esse imponderável golpe transfigurador – «Da cintura para cima, rabeja-me a hecatombe: barrilada por ventre e o pior é por dentro, valente par de mamas, tão úteis como o apêndice, barba mal semeada para ajudar à festa, e cloaca tabágica a preceito; o reverso é marreco e os dedos com artrite; por dentro da cabeça, para lá do que vos digo.»

A concisão de certas fórmulas, próximas já do minimalismo – «Lisboa, apesar de ti Lisboa.» –, se não é indício de pressa, muito menos de labor apressado, é o dizer condensado de quem afivela numa expressão tão sóbria o que muitos poderiam fazer render, sem lucro que não o de umbigos prolixos, em platitudes vácuas. Como sucedia num registo como Últimos Cartuchos, desde o título, uma translação de efeitos poderosos, de um dizer, mais do que rente às coisas, assente nos sinais mais evidentes (tornados, aqui, tantas vezes, mais desconcertantes) de um certo dia-a-dia – «Há pica-pau. Tabaco só ao balcão. Os produtos expostos são para consumo na casa. Se bebes para esquecer paga antes de beber. O camelo é o animal que aguenta mais tempo sem beber – não seja camelo. O tabaco é pago no acto de entrega.» –, o que poderia redundar em anedota e banalidade, bem por outras vias, descompõe e canta. Uma atenção que consegue ser precisa sem ser preciosista, atenta sem incorrer no documentário, certeira sem embustes – «Esta segunda moda das polaróides, que é a de uma urgência sem futuro.» –, menos um decalque do que uma denúncia, e menos ainda uma denúncia do que uma constatação a quem passa. Por estas palavras, passa, ainda (sobretudo?), o que a arte do autor consegue decantar, deixando bem no fundo, longe das suas palavras, o depósito, a escória, escolhendo, certeiro – «a morte é a forma do amor e o sexo o conteúdo da vida, mas ao contrário do sexo, a morte tira-nos a vontade de beber. O sexo reergue as colunas de entre o Céu e a Terra. A morte torna-os um só». Há temas (?) que o tempo gastou, mas há a possibilidade de tudo voltar a dizer, de novo.

O Taberneiro é o primeiro título de uma chancela que faz da edição de poesia uma aventura perigosa, tanto quanto aliciante – Poesia Incompleta. A ilha da Rua Cecílio de Sousa tem agora os seus ilhéus – a O Taberneiro seguiu-se já A Nova Poesia Portuguesa, de Manuel de Freitas. Pequeno, este livro, traz, uma vez aberto e lido, as tempestades de ventos que não sabíamos ter semeado, ao passar por estas linhas desfeitas por mão (felizmente) áspera. A obra de um autor que não fez ainda (felizmente) as pazes com o mundo e consigo.

[Versão ampliada de um texto originalmente publicado no «Actual», Expresso, 18 de Setembro, 2010]

- Hugo Pinto Santos

sexta-feira, setembro 17, 2010

Roger Wolfe


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Amigos

Após uns quantos anos de pastagem
sabes enfim quem são
os teus companheiros de curral,
quer dizer de geração:
são poucos, cada vez menos,
mas mais próximos
os poucos que restam.

Mas não se aflijam,
pois não vou nomear-vos, amigos:
temo que se evaporem se o fizer
– como em algumas fórmulas maléficas –
isso é que não me agradaria nada.
Sei quem vocês são, vocês também,
e isso basta-me.

- Àlex Susanna
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)

quinta-feira, setembro 16, 2010

Em Outubro


_________________(clica para aumentar)

Paisagem

O vinho
Tinto
Escuro,
Bem espesso
Levou-me a Lisboa.

De vasilha oca
Recolho o som dos Eléctricos
Que brigam com cães e toiros.

Agora ouço. Agora percebo
Os campos e quem parte deixando apenas isso,

Paisagem.
Não sei se ainda existem cruzamentos
Com placas brancas
E letras pretas
Com os nomes dos lugares.

Digam-me, por favor, o caminho mais certo.
É que tenho trinta anos (30)
Nesta estrada,
E outros tantos - nem sei -
Para talvez parar
E, quem sabe, aí ficar.
Se mentes
À luz desta terra,
Fazes bem mal.
Eu prefiro as
Flores de corte
Ou um cacto do deserto.
Começou a chuva sobre a ponte de Valada.

Tu és o velho magro
De fato rasgado
E chapéu
Que foi de um jovem
Que passava, distraído, no rolar da bicicleta.

Agora,
És velho - canção futura dos lábios de alguém.

E chove muito
Há 60 anos.

Choveu sempre
Nesse rosto molhado

De quem perdeu o chapéu de chuva.

domingo, setembro 12, 2010

O colibri

E a ti, leitor
Que persegues com palavras essa imagem
De uma gaiola
Feita de penas, risos, lamentos
E fogo nos intervalos das coisas banais

E porque não te contentas com este
Bater de asas,

Um forte abraço.

Esquecimento

É ao esquecimento que pergunto as
Palavras violadas por outros chefes
Que verteram o sangue num excesso
Em tirania, e desejaram armas num castelo
Onde a guerra não é moderada, nem prudente
E onde se escreve a odiosa carta
A ferro e fogo, na sombra postiça de um
Porta-estandarte.

É ao esquecimento que pergunto
Pelo enforcado a quem prestei confiança
E lealdade, e que me defendia das posições
Em barricada e de um machado
Jamais usado de arbusto em arbusto
No bosque do terceiro quartel
Deste tempo vermelho.

É ao esquecimento que pergunto
Pelas sombras sitiadas de ameaços e gritos
E onde lanço as mãos brancas
Sem razões,
Continuando este trabalho da urgente
Edificação da memória.

sábado, setembro 11, 2010

Bells

os pássaros morrem sempre
de noite, e os sinos tocam
os seus nomes pela madrugada

nevou durante mais de quarenta horas
sobre as ruas vazias,
cobrindo de branco
o voo nocturno do anjo.

- Renata Correia Botelho
in small song, Averno - 2010

sexta-feira, setembro 10, 2010

Inventário

Há que encostar uma escada para subir. Falta-lhe um degrau.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Há o cheiro a humidade.
O entardecer entra pela casa em lâminas de luz.
As vigas do céu raso estão próximas e o piso está vencido.
Ninguém ousa pôr-se de pé.
Há um velho divã desengonçado.
Há umas ferramentas inúteis.
Ali está a cadeira de rodas do morto.
Há um pé de candeeiro.
Há uma rede de dormir paraguaia, com borlas, a desfiar-se.
Há utensílios e papéis.
Há uma estampa do estado-maior de Aparicio Saravia.
Há um velho grelhador a carvão.
Há um relógio de tempo parado, com o pêndulo partido.
Há uma moldura desdourada, sem tela.
Há um tabuleiro de cartão e umas peças desemparelhadas.
Há uma braseira de dois pés.
Há uma arca de cabedal.
Há um exemplar bolorento do Livro dos Mártires de Foxe, em intrincada escrita gótica.
Há uma fotografia que já pode ser de qualquer pessoa.
Há uma pele já gasta que foi de tigre.
Há uma chave que perdeu a sua porta.
O que podemos procurar no alto
Senão o que a desordem amontoa?
Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de erguer este monumento,
Sem dúvida menos duradouro que o bronze e que se confunde com elas.

- Jorge Luis Borges
(in A Rosa Profunda, 1975 - incluído em
Obras Completas III, editorial Teorema, 1998
tradução de Fernando Pinto do Amaral)

O espião

Na pública luz das batalhas
Outros darão a sua vida à pátria
E recorda-os o mármore.
Eu vagueei, obscuro, por cidades que odeio.
Dei-lhe outras coisas.
Abjurei da minha honra
Traí quem me julgou seu amigo,
Comprei consciências,
Abominei o nome da minha pátria
Resignei-me à infâmia.

- Jorge Luis Borges
in A Rosa Profunda
Obras Completas III, Teorema
tradução de Fernando Pinto do Amaral

Fazenda El Retiro

O tempo joga um xadrez sem peças
No pátio. O estalar de um ramo
Rasga a noite. Lá fora, a planície
Vai espalhando léguas de sono e de pó.
Ambos sombras, copiamos o que ditam
Outras sombras: Heraclito e Gautama.

- Jorge Luis Borges
in A Rosa Profunda
Obras Completas III, Teorema
tradução de Fernando Pinto do Amaral
Um homem não deve ser recordado

Quando chega o momento
de partir para a guerra,
o homem põe a sela no seu cavalo, tem
medo e, para afastá-lo, pensa: "Logo
as minhas filhas hão-de adornar a sua juventude com flores
destes campos, os meus filhos
embriagar-se-ão com vinho destas cepas. E um dia

dar-me-ão netos sãos e robustos
que hão-de pensar que não devem nada a ninguém".

- Juan Carlos Suñén
in Un hombre no debe ser recordado, Vísor

Limites

Ao fim de tantos – e demasiados – anos de exercício da literatura, não professo uma estética. Para quê acrescentar aos limites naturais que nos impõe o hábito os de uma teoria qualquer? As teorias, tal como as convicções de ordem política ou religiosa, não são mais do que estímulos. Variam para cada escritor. Whitman teve razão ao negar a rima; essa negação teria sido uma insensatez no caso de Hugo.

- Jorge Luis Borges
(excerto do prólogo de A Rosa Profunda)

quinta-feira, setembro 09, 2010

O que sopra, o que dorme

Um corta a lúcia-lima
ou agarra sócos e sóis.
Dorme depois no meu alento.
Estão em paz o que respira e o que dorme.
A frase palidíssima
através das grades.
A erva e a língua.
E o jardim do leite
submerge-me os trapos.

O outro dá nome à colher do pedreiro
ou ao papel branco das fadas.
Ei-lo a puxar o fio de lã
das gengivas, dos joelhos.
As pequenas pulsações
abalavam a casa.



Um deles, no mogno,
guardava as vozes mortas.
O vazio assustava
os filhos dos ladrões.
E a sebe do curare
protegia da luz
os voyeurs adormecidos.

O outro encontrara
foices de papel dourado,
bolhas e bagatelas.
Ei-lo a mendigar
uns beijos requentados.
No corpo do escaravelho
desbravo os meus caminhos.



Um armava um laço
de penas e alfinetes.
Mais que morto de cansaço
esperava à saída
os perfeitos funcionários.
E voltava contra mim
a estaca preparada
para o suplício oblíquo.
Assedia-me o duplo do azul.

O outro pusera a mão
no raio por descuido.
E murmura depois:
"Pintem na própria pele
escaravelhos e víboras.
Esfreguem este meu corpo
com esperma e com urtigas".
E juntos construamos
abrigos de campainhas.



Um expunha a sua vida,
projectos clandestinos.
Contar os próprios passos
só conduz à loucura.
Às escuras, num quarto
alguém dizia: " Fala!"
Mas falar, falar, falar
só conduz à loucura.

O outro gostava de unguentos
- untava o corpo todo -,
de pedras furadas e do simples cobre.
Atava um manequim
à proa de um navio.
Ou falava aos coelhos,
apanhava agulhas,
pontas de lã, gravetos.



Um quebrava as amarras.
A escrita do talhante
talha o fio da vida.
Nada perdura seco:
a palma da mão é asa
de uma andorinha de lã.
Riba. Ribeiro. Amor.

O outro corta-se ao fogo.
Crepitam cem mil anões.
A minha magia negra
acolhe o sangue alheio.
Envolvo em casca fina
as mãos, os pés achados.
Quantos calos, falanges...
A árvore, entre as coxas,
dilacera as línguas e os tendões.

- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994

Mãos verdadeiras


_____________só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
__________________não vejo nenhuma diferença de princípio entre
________________________________ um aperto de mão e um poema

Paul Celan _______
-

quarta-feira, setembro 08, 2010

De cara a la pared

foi talvez a nossa última canção.

oiço ainda os corpos a vincar a noite,
um campo minado de corações tristes
explodindo o rosto na parede.

muitas músicas depois
quando as paredes eram já outras
e nas caras se perdiam novos nomes

voltei a ela: ficara-me sempre, afinal,
um terrível verso solitário
e a culpa de a ter levado

a um coração onde as canções
morreriam de frio.

- Renata Correia Botelho
in small song, Averno - 2010

A vida como um livro que se fechou

Apagámos todas as letras
E a afirmação mantêm-se vagamente,
Como uma inscrição sobre a porta de um banco,
Com números romanos difíceis de decifrar,
E que, à sua maneira, talvez digam de mais

Não estávamos a ser surrealistas? E porque é que
No bar estranhos observavam o teu cabelo
E as tuas unhas, como se o corpo
Não procurasse e encontrasse a posição mais confortável,
E a tua cabeça, essa coisa estranha,
Não ficasse cada vez mais problemática de cada vez que alguém fechava a porta?

Falámos um com o outro,
Levámos cada coisa só até onde podíamos,
Mas na ordem certa, e assim ela é música,
Ou qualquer coisa como música falando da distância.
Temos apenas algum saber
E mais que a ambição necessária
Para o transformar num fruto feito de nuvem
Que nos protegerá até desaparecer.

Mas o seu sumo é amargo,
Não temos disso nos nossos jardins,
E tu devias subir até onde mora o saber
Como esse sarcasmo desprendido, para aí alguém
Te dizer de vez: não está aqui.
Só fica o fumo,
E o silêncio, e a velhice
Que fomos construindo como uma passagem,
De alguma maneira, e a paz que bate todos os recordes,
E o cantar no campo, um prazer
Que há-de vir e não nos conhece.

- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991

Dois filmes



Solitary Man (2009) - 7/10




Middle of Nowhere (2008) - 7/10

terça-feira, setembro 07, 2010

Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico


O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.

- Peter Meinke
(tradução de Ricardo Castro Ferreira)
encontrado aqui
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0LA5Sg34kwh1LWmkiYoAm4xaa8tMIJnX0iSvViu5cdqYSo2_gUn_2RI_d2BXw5foa9p3EeTDIBMw66SkkCtdsUIjhIu1xSBu7gsSy-eV1piTi0qxlKtgHRqHhTI71vm1xNFJS/s1600/Lhasa+de+Sela+accueil.jpg


O vento a rondar os dragoeiros


morreu Ulrich Mühe e o seu rosto antigo
que olhara em tempos na minha direcção
enquanto ouvia a Apassionata de Beethoven,
o amor e As Vidas dos Outros. eu vira o filme
sozinha, num teatro vazio como uma igreja

abandonada de Tonino Guerra, com a cerejeira
a erguer-se entre as cadeiras e o palco
que ninguém vê. ficou tudo ligado: aquele olhar
subterrâneo que regressava agora a águas fundas,
a minha avó a ajeitar, com os seus dedos térreos,
a planta que morreu com ela, a resignação
das gaivotas ao longo da praia
e as palavras de Borges sobre
as coisas que morrem em cada agonia.

ouvirá Mühe, nos seus auscultadores,
a nostalgia do vento a rondar os dragoeiros?
és tu que cantas, Lhasa, com os melros negros,
a luz melancólica desta manhã?
quem dormirá no colo da minha tia,
protegido pelas suas mãos de árvore?

o que morrerá comigo, avô, quando eu morrer?

- Renata Correia Botelho
in small song, Averno - 2010



Jardim das Amoreiras

para o José António Almeida


Staci mi vláha jedné kapky vody.
Não era bem isso o que dizia a oliveira, nem
– por razão maior – os que de cerveja em riste
se abrigavam debaixo das amoreiras, fechado o quiosque.
Talvez concordassem, entre risos altos, que
os poetas ou são putas ou executivos.

Ah, os poetas. São tantos – são afinal tão poucos –
que dificilmente caberiam, mesmo traduzidos
em haiku, no banco para dois onde nos sentámos.

Importante foi saber que o castelo de Valtice
não era nada rilkeano, mais propício a churrascos,
escuras vadiagens, maneiras boas de se estar sozinho.

Assim, de mocho para mocho, voltamos a entrar nessa noite.

- Manuel de Freitas
in A Nova Poesia Portuguesa, Poesia Incompleta

segunda-feira, setembro 06, 2010

Miúdos

Decisões loucas

Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.

De noite soltaram-se as amarras,
Ao romper do dia tinham desaparecido,
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.

Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante...
Uma vista do parque de estacionamento.

Algumas frequências
anda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou

A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.

- John Ashberry
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Uma onda e outros poemas, Quetzal - 1991
E como os versos não são pétalas,
Restam folhas caídas
Aos dias deste vendaval
Sereno de 50 à hora
Nas localidades.

Ainda assim - com um pequeno poema -
Cometo suicidio
Nas roseiras
E morro, sem nada demolir.

E a folha
Entretanto

Entre tanto,
Não foi minha.

domingo, setembro 05, 2010

Acho que és tu, avó, que me escutas
Nos momentos menos felizes.
Eu estou sentado na mesma cadeira de menino
Balouçando as tuas agulhas
Que picam o caminho dos teus filhos.

Hoje voltei ao lugar
Onde recolho amoras e figos
E encontro a tua ausência
No sítio onde estou só.

Tão só - tão verdade. Como é tão certo
A solidão rimar com mãos cuidadas de
Quem se despede da vida

Para criar novos frutos.

EL PÁJARO

é de ti, passarinho, que fala
esta música. espero-te à varanda
do meu quarto, num abismo
que se ergue do chão aos meus olhos
ainda baços. encontraste aqui,
como eu, a tua sombra, pajarillo

tú me despertaste, enseñame a vivir
e vamos juntos, por aí, numa voz só,
entoando esta cantiga com os cavalos
bravos, fingindo a vida e logrando
a morte, recolhendo à terra,
passarinho, sem nada a temer,

recolhendo à terra.


- Renata Correia Botelho

in small song, Averno - 2010
-
Começo por citar
palavras dianteiras.
Depois as do paladar
nutrem poemas ou pequenos sóis.
No quarto, sozinho, vou escrevendo.
(Mil fantoches. Mil anões.)
Minha glicínia. Armadilha de flor
sob invisíveis pálpebras.
Língua de areia e de sabor.
Língua de vida que adormece.
Língua de surdo fragor
e carícia que fenece.



Coração ao coração se alia.
Corpo ao corpo se aduna
ao romper da manhã
de delgado gelo e amor-perfeito.
Assim se escoa a vida
pela vida.
E o corpo se esquece
o coração que bate.

- Jacques Izoard
(tradução colectiva - Poetas em Mateus)
in Jardins mínimos e outros poemas, Quetzal - 1994

sábado, setembro 04, 2010

Vou almoçar ao Vasco.
Saio do cabeleireiro e das madeixas (deixas, marido?).
Ao meio dia,
Pego na velha (vivia na Beira Baixa)
E visto as calças de licra
E tatuagem no tornozelo.

Lá vou eu de gasolina à vista no meu opel
De prestações
E filhas mal paridas
De um gajo do carroussel.

E, se um dia encontro a Cátia,
Essa
Finge não me ver
Pois tem reserva
Na Cornucópia
E vai a outro cabeleireiro,

Mas a cepa
No fundo
É a mesma.

sexta-feira, setembro 03, 2010

As Montanhas Mágicas

Os sorrisos
Que esboçaste na mansarda
Fazem parte da definição
Da pequena aldeia dos teus pais.

Com o passar do tempo, vou recordando
O teu olhar
E a rua
É esta visão feliz
De um homem que vendia castanhas
E de um amolador triste,
De filhos galegos e magros.

Essa rua
Com o teu olhar
E os teus pais vivos
Foi, por momentos, a minha vida
E, por isso, não esqueço
Esse momento de luz e sombra nos beirais,
E a escada de pedra,

O dia.

Esse dia, em Boticas.

Tão sólido, como as montanhas.