«Em Portugal toda a gente sonha com dar o cu dos outros como se fora o próprio.»
- Jorge de Sena
Londres, 5 de Fevereiro de 1973
quarta-feira, março 31, 2010
The book of love: Nataly Dawn
The book of love is long and boring
No one can lift the damn thing
It's full of charts and facts and figures
and instructions for dancing
But I...
I love it when you read to me
And you...
You can read me anything
(...)
(original dos Magnetic Fields)
Ah, deixem-me ser simbólico! Deixem-me dizer com ênfase que as azedas eram a liberdade.
Sim, a liberdade! A liberdade conquistada. A liberdade, amarga e doce, obtida, ontem como hoje, como amanhã, como sempre, à custa de sacrifícios sem nome: de zeros, ralhos, incompreensões, quartos escuros, puxões de orelhas, ponteiradas nos dedos, reprovações, descomposturas da família, e caretas, muitas caretas, imensas caretas.
Mas digam-me lá: onde estão as azedas da minha infância que nunca mais as vi? Onde crescem agora? Em que pátios em ruínas? Em que quintais perdidos ao pé de que nespereiras? Onde? Onde? Onde?
Dêem-me azedas! Quero azedas. Tragam-me azedas. Quero morrer a fazer caretas!
- José Gomes Ferreira
in O Mundo dos Outros
«Ya que de algo hay que morir»
e fica do perdulário a traição
sombreando a vidraça do mundo
no entanto
que sabedoria grotesca há no branco
negro dos preguiçosos
- Miguel-Manso
in Santo Subito, edição do autor
A névoa
fica presa dentro da névoa
e os pássaros em silêncio sobre os ramos
olham o céu sujo
como o observas tu
dentro do teu carro.
- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in Histórias para uma Noite de Calmaria, Assírio & Alvim
terça-feira, março 30, 2010
primeira vantagem da escrita: a ininterrupção. a inexistência de um interlocutor imediato parece um sonho tornado realidade. quem escreve conduz uma ideia cujo obstáculo reside na própria escrita. cada paragem é uma estação de serviço - verificar o ar, atestar o depósito, comer uma sandes. o pior que pode acontecer é, perdendo o rumo, não ter um mapa. os mapas são fundamentais para o texto. a capacidade de distanciamento do texto para que sejam pesadas as hipóteses, as estradas alternativas, para que, no fundo, se fuja à elipse, é coisa de camionista experiente ou escritor genial. tudo isto num confronto silencioso (e honesto), claro.
suponho que exista por aí muito taxista da literatura, condutor mais esperto que os outros, que conhece aquele atalho e que está sempre de olho no taxímetro, a única coisa que realmente importa, a cada ultrapassagem perigosa a que o leitor avisado só pode fugir se fechar o livro. [às vezes é mesmo preciso que uma pessoa se atire do livro em andamento]
escrever num blogue é um exercício. juntar ideias, brincar, improvisar. dá gozo quando é indiferente, quando não é para ninguém, quando não se pretende impressionar, dialogar, chegar a. só gosto do blogue quando me estou nas tintas para o leitor. quando venho aqui e arrisco qualquer coisa, experimento (-me). mas não escrevo para ti, nem para ti, nem mesmo para ti. se gostares, claro, há uma espécie de conforto ou cumplicidade. mas se não gostares, leitor, salta deste carro.»- Catarina Barros
(post integralmente roubado daqui)
Alguns filmes em cartaz

5/10 - Grande, grande desilusão. O único aspecto realmente interessante do filme é ver o Tom Waits emprestar charme e elegância à figura do diabo.

6/10

7/10

7/10
segunda-feira, março 29, 2010
*
em noites encosto o ouvido ao coração dos mapas
e só eu sei que homero era cego
(digo) como o sangue circula entre as pedras
como alguém me coloca o fogo pela cintura
e me interrompe os olhos com paisagens
ah alecto dialecto sombrio incrustado
às raízes do chão
entre braços
nunca pronuncio o meu verdadeiro nome
não há nada que eu sinta nas casas
são as filhas da noite
que constroem paisagens
como se fossem barcos
que navegam o vento em gotas de sangue
são as filhas da noite que trazem os alimentos
mais vorazes
depois sentam-me nas casas
e falam-me de anjos e de flores
e não há nada que eu sinta nas casas
E só de pão vive o crítico
que poemas meus só eram bons
quando compridos e de grande
enredo.
De quatro ou cinco versos,
não. Que não passavam de
literatura. Mal
saberá, esse rapaz, quanto o
poema de reduzido verso tem
de persecução do inalterável
e quanto ouro no seu corpo
de luz faz dos versos, quatro
ou cinco, veios da terra;
dilatada memória da nossa
visão, mistério secreto e
oculto que quieta o coração,
como quem
ante o altar queima incenso
o verso de oiro
relâmpago no horizonte do nosso
destino.
- João Miguel Fernandes Jorge
domingo, março 28, 2010
Um rio seco é como a alma
De um poeta que não pode escrever, embora conheça
Quase perfeitamente o tema e as mágoas
Da morte ressequida pelo estio. Mas o que queria,
E foi outrora um mar do mais puro cristal
Recua, torna-se sombrio como arbustos amoniacais, como
___________as folhas antigas do amor,
E abandona o pensamento. Não imagina
Nada que o possa substituir: só no pólo
Da memória oscila uma absurda bússola.
Por isso o rio, entre as lamentáveis árvores sombrias,
É uma agonia de pedras, de horrores submersos
Agora revelados, descoloridos. Por isso existem estas,
Estas pedras, estas ninharias
Quando o rio é uma estrada e a mente um vazio.
- Malcolm Lowry
(tradução de José Agostinho Baptista)
in As cantinas e outros poemas do álcool e do mar, Assírio & Alvim
sábado, março 27, 2010
V
Words move, music moves
Only in time; but that which is only living
Can only die. Words, after speech, reach
Into the silence. Only by the form, the pattern,
Can words or music reach
The stillness, as a Chinese jar still
Moves perpetually in its stillness.
Not the stillness of the violin, while the note lasts,
Not that only, but the co-existence,
Or say that the end precedes the beginning,
And the end and the beginning were always there
Before the beginning and after the end.
And all is always now. Words strain,
Crack and sometimes break, under the burden,
Under the tension, slip, slide, perish,
Decay with imprecision, will not stay in place,
Will not stay still. Shrieking voices
Scolding, mocking, or merely chattering,
Always assail them. The Word in the desert
Is most attacked by voices of temptation,
The crying shadow in the funeral dance,
The loud lament of the disconsolate chimera.
The detail of the pattern is movement,
As in the figure of the ten stairs.
Desire itself is movement
Not in itself desirable;
Love is itself unmoving,
Only the cause and end of movement,
Timeless, and undesiring
Except in the aspect of time
Caught in the form of limitation
Between un-being and being.
Sudden in a shaft of sunlight
Even while the dust moves
There rises the hidden laughter
Of children in the foliage
Quick now, here, now, always—
Ridiculous the waste sad time
Stretching before and after.
- T. S. Eliot
(parte final de Burnt Norton)
sexta-feira, março 26, 2010
Brecht na Califórnia
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
- Paulo Teixeira
in Resumo: a poesia em 2009, Assírio & Alvim
Ao anoitecer
– a lei não me permite casamento.
Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir
logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções
– que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus
é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal
– em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,
nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo.
- José António Almeida
in Resumo: a poesia em 2009, Assírio & Alvim
quinta-feira, março 25, 2010
Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar-se em nós.
Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.
E nossos lábios desejam beijar-se –
Porque hesitas?
Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.
Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.
Há-de uma grande estrela cair no meu colo.
- Else Lasker-Schüler
in Baladas Hebraicas, Assírio & Alvim
Poesia, s. f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com empregos de palavras imagens cores
sons etc. geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas loucos e bêbados
Poeta, s. m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto
Boca, s. f.
Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto
Sol, s. m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém
Árvore, s. f.
Gente que despetala
Possessão de insetos
Aquilo que ensina de chão
diz-se de alguém com resina e falenas
Algumas pessoas em quem o desejo é capaz de irromper
sobre o lábio, como se fosse a raiz de seu canto
Apêndice:
Olho é uma coisa que participa o silêncio dos outros
Coisa é uma pessoa que termina como sílaba
O chão é um ensino.
- Manoel de Barros
quarta-feira, março 24, 2010
Comprei-lhe requeijão durante vários dias.
No último enganou-se nos dinheiros
fez o embrulho num papel errado.
Ri-lhe o primeiro convite. Riu-se em trocos.
Continuei por entre os corredores
do resto do supermercado e via
a cada espaço vazio de caixotes
o seu olhar a seguir as minhas compras.
Quando estava prestes a curvar-se
para pesar um frango, uma morcela,
coelhos bravos, queijos ou fiambre
sorria-lhe de novo. Erguia logo
o corpo alertado turvavam-se-lhe as mãos
hesitava pelo ar refrigerado do balcão
até estender os seus produtos
à primeira mulher e às que se seguiam.
Com a cesta de metal quase já cheia
deve ter visto o adeus dado nas coisas
de comer para muito tempo:
veio pois numa qualquer desculpa
fingir que levava fardos para dentro.
Fui atrás, soube-lhe as horas de sair
vim esperar depois da caixa, à porta.
Os carros iam de regresso às casas,
o ar toldado de novembro em sol
que vem antes da chuva,
nos autocarros iam por detrás dos vidros
rostos que doía ver passar.
Chegou metendo um pente n'algibeira,
a sacola que fora matinal ao ombro,
atravessou comigo o quadrado
da praça quando o trânsito parou.
À última luz do dia via-lhe o cabelo
com o pó das horas de trabalho.
Por agora dizia-me o seu nome
entre dentes rasgados pelas cáries
mas sorrindo tanto sob a pele escura
que eu fechava os olhos para perdurar
até tirar-lhe a camisola, as meias
trocar o meu hálito de dentífricos
pelo seu cansado de erva doutras formas
contra os horários as coisas do dinheiro
outros a dizer-lhe o que devia ser.
De mim havia de ir para uma paragem
à espera do transporte de que sairia
num dos caixotes de arrabalde,
o corpo satisfeito mas fendido
do prazer combinado para outro dia
que podia voltar ou não voltar a haver.
- Joaquim Manuel Magalhães
in Alguns livros reunidos, Contexto
atiro uma pedra à noite
a noite desfaz-se em aros
e há silêncio e solenidade
e trabalho o poema
com nova pedra na mão
mas não acuso tento salvar
aquilo a que me disponho
aquilo a que venho
sem temas nem fios
frente à grande boca da noite
com fome de nomes de coisas
maiores do que nós
que adormecemos sem querermos
na pouca luz que faz.- Ana Salomé

Meditations in an Emergency
Am I to become profligate as if I were a blonde? Or religious
as if I were French?
Each time my heart is broken it makes me feel more adventurous
(and how the same names keep recurring on that interminable
list!), but one of these days there'll be nothing left with
which to venture forth.
Why should I share you? Why don't you get rid of someone else
for a change?
I am the least difficult of men. All I want is boundless love.
Even trees understand me! Good heavens, I lie under them, too,
don't I? I'm just like a pile of leaves.
However, I have never clogged myself with the praises of
pastoral life, nor with nostalgia for an innocent past of
perverted acts in pastures. No. One need never leave the
confines of New York to get all the greenery one wishes--I can't
even enjoy a blade of grass unless i know there's a subway
handy, or a record store or some other sign that people do not
totally _regret_ life. It is more important to affirm the
least sincere; the clouds get enough attention as it is and
even they continue to pass. Do they know what they're missing?
Uh huh.
My eyes are vague blue, like the sky, and change all the time;
they are indiscriminate but fleeting, entirely specific and
disloyal, so that no one trusts me. I am always looking away.
Or again at something after it has given me up. It makes me
restless and that makes me unhappy, but I cannot keep them
still. If only i had grey, green, black, brown, yellow eyes; I
would stay at home and do something. It's not that I'm
curious. On the contrary, I am bored but it's my duty to be
attentive, I am needed by things as the sky must be above the
earth. And lately, so great has _their_ anxiety become, I can
spare myself little sleep.
Now there is only one man I like to kiss when he is unshaven.
Heterosexuality! you are inexorably approaching. (How best
discourage her?)
St. Serapion, I wrap myself in the robes of your whiteness
which is like midnight in Dostoevsky. How I am to become a
legend, my dear? I've tried love, but that holds you in the
bosom of another and I'm always springing forth from it like
the lotus--the ecstasy of always bursting forth! (but one must
not be distracted by it!) or like a hyacinth, "to keep the
filth of life away," yes, even in the heart, where the filth is
pumped in and slanders and pollutes and determines. I will my
will, though I may become famous for a mysterious vacancy in
that department, that greenhouse.
Destroy yourself, if you don't know!
It is easy to be beautiful; it is difficult to appear so. I
admire you, beloved, for the trap you've set. It's like a
final chapter no one reads because the plot is over.
"Fanny Brown is run away--scampered off with a Cornet of Horse;
I do love that little Minx, & hope She may be happy, tho' She
has vexed me by this exploit a little too.--Poor silly
Cecchina! or F:B: as we used to call her.--I wish She had a
good Whipping and 10,000 pounds."--Mrs. Thrale
I've got to get out of here. I choose a piece of shawl and my
dirtiest suntans. I'll be back, I'll re-emerge, defeated, from
the valley; you don't want me to go where you go, so I go where
you don't want me to. It's only afternoon, there's a lot
ahead. There won't be any mail downstairs. Turning, I spit in
the lock and the knob turns.
- Frank O'Hara
À espera do primeiro eléctrico
o planeamento do território,
os crimes urbanos, a droga
que pacifica os estados
aparando sedições virtuais.
Apetecia-me comer, agora,
mas os poemas só têm valor real
(isto é, monetário) na lua
de Bergerac. No Martim Moniz,
em perpétua demolição, nem cheques
aceitam – quanto mais versos
que não rimam com nada.
Tenho à minha frente o futuro,
um futuro de três cervejas
e talvez de um charro,
se encontrar alguém. Um futuro breve
(a redimir ou não nas ruas mais altas),
nenhuma vontade de amor
e os pés acentuadamente azuis
– fétidos, sem dúvida alguma.
Já me propus, em dias de tédio maior,
escrever um poema vário, curar-me
destas ladainhas pouco edificantes.
Não deu, paciência. Consola-me ao menos
a irrefutável pobreza do quotidiano.
Estamos bem um para o outro
(mas uns trocos davam jeito, com real ou sem
ele – e eu não sei arrumar carros).
A noite lá faz o que pode.
De sarjeta em sarjeta
isto podia tornar-se interminável,
se a paciência me quisesse
honrar, tísica como uma musa.
Mas acabo na Cachupa,
corpo & poema num enxovalho mesmo,
à espera da manhã que sinistra
avança e vomita de luz
o primeiro eléctrico
rumo ao desespero.
- Manuel de Freitas
in Infernos artificiais, Frenesi
terça-feira, março 23, 2010
Gostaria de descrever
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol
gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante
gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água
dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele
mas aparentemente isso não é possível
e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto
e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz
tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento
adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas
os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente
- Zbigniew Herbert
in Escolhido pelas estrelas, Assírio & Alvim
Degradação
alguma vez.
Depois nas fezes aparecem
sinais de sangue, ou na urina.
Declaram-se abcessos,
coágulos, tumores.
Passam então a ser uma sombria,
pesada, intransitiva
segunda-feira.
- A.M. Pires Cabral
in Resumo: a poesia em 2009, Assírio & Alvim
segunda-feira, março 22, 2010
"Aqueles que falam de revolução e de luta de classes, sem se referirem explicitamente à vida quotidiana, sem compreenderem o que há de subversivo no amor e de positivo na recusa dos constrangimentos, esses gajos têm um cadáver na boca."- Raoul Vaneigen
domingo, março 21, 2010
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.
Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.
Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.
- Joaquim Manuel Magalhães
in Segredos, Sebes e Aluviões, Presença
Isso até me agrada. Que me deitem fora
Que me deixem livre de compromissos afectivos.
Ficar ligeiro por dentro; ser como casca só.
Não tropeçar nos detritos humanos
Que me cercam,
Não ter altivez nenhuma nisso.
Ser simplesmente um andante.
Ter o caminho livre.- Raul de Carvalho
sábado, março 20, 2010
Rua da Arrábida
a pedra o prédio ao lado
quem passa agora na rua
parece lamber com o olhar
a falta de um dente
- Miguel-Manso
in Santo Subito, edição do autor
21
e amo os portais abertos diante da força da água
tento compreender o meu tempo
e o imponderável intuito do poema
não tenho outros olhos nem outras mãos
já não me mostras imagens
mas eu vejo as heras fazendo lábios
sombrios por interjeição e bafo
sou só boca fremente
e a terra aflita dos vulcões
água rosto incessante
diante das portas repito
os tropos a sonora legibilidade do lugar
sei que alguém espera sempre
o fruto maturado
a véspera da mão a água turva
sei que alguém espera sempre
como se esperasse
de gládio em punho
o florescimento das janelas
sei que alguém espera sempre um poema
Correcção ao anterior post
A versão do poema do António Ramos Pereira publicada na colectânea é fiel à versão que pode ser lida no terceiro número da revista criatura. A escolha dos organizadores, como é óbvio, só poderia incidir sobre os textos na versão deles já publicada.
Fui eu quem enviou o poema Et pas de commissions do António Ramos Pereira, e limitei-me a retirá-lo de entre o conjunto de textos por nós enviados para a gráfica em Abril de 2009. Não há, portanto, qualquer gralha e a opção gráfica com que o poema surge na página da colectânea é ligeiramente diferente e (quanto a mim) preferível, porque o paginador da Assírio é mais talentoso que o da criatura.
sexta-feira, março 19, 2010
Et pas de commissions
Arthur Rimbaud
Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu
quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão:
não aceito nada que me não caiba nos pulsos ou que já me circule no
sangue; o máximo que posso é forrar as paredes e o triunfo da solidão
com reproduções fac-similadas de um mapa desenhado em estalagem incerta
por um galego desencantado que, no ano da graça de mil quinhentos e setenta,
acrescentava porções de terra e mar consoante o estado do seu estômago
ou - fonte bem menos credível - relatos de marinheiros; elidia penínsulas
e arquipélagos para os substituir por extensas áreas azuis de corpos insepulcros,
ou apagava civilizações inteiras para colocar a inscrição “terra incógnita”,
supremo gesto de humildade comparticipado por gravuras de monstros amorosos.
Um mundo redutível a meia dúzia de graças e um vago sentido de partida
eis tudo quanto estou disposto a ceder.
quinta-feira, março 18, 2010
quarta-feira, março 17, 2010
I'm not what's missing from your life now
I could never be the puzzle pieces
They say that god makes problems
Just to see what you can stand
Before you do as the devil pleases
And give up the thing you love
terça-feira, março 16, 2010
até uma cerveja sossegada. O bar
de pequena moral e pior comércio
cobria-nos com a sombra do repouso
e da música furtiva. Os fósforos acesos,
os cigarros gastos, as mãos abandonadas
na frescura da mesa, os risos traziam
a usual selva das mentiras.
«O bonzozinho da crítica anda a fingir que tem
a tua D. Augusta por mulher a dias.» Senti a li
teratura agitar-me a circulação.
«Inventa por ela o que não queres
e rebola-se a biografar à revelia.»
Os teóricos franceses e o dinheirame
dos congressos e das mesas-redondas
estrugem-lhe o mundano das ideias. E depois
da pose já sabida da permissão bem pensante
julga que mulheres e D. Augusta são a dias
com a sagesse das províncias mal traduzidas.
Uma gargalhada entre a freguesia dúbia
trouxe, e ao meu amigo, a súcia dos tótens culturais
ao escárnio do esquecimento. E bebemos
e falámos de coisas felizes e saímos
para a perversa carícia dos passeios.
- Joaquim Manuel Magalhães
in Alguns livros reunidos, Contexto
Os campos cobrem-se de fuligem.
Manhãs rafeiras, semi-industriais, em crosta
nos muros de cimento esboroado.
Fogos do último verão nos giestais,
igrejas de azulejo mestredobra
e os currais a crédito da vasa empreiteira.
Na penúria pró-urbana das aldeias
a alma, essa dor tão aquém das lágrimas,
algodoa-se num verde sevandija.
Colectivos uniformes, infelizes,
escutam a chula do recenseamento,
trauteiam a sinfonia das eleições.
Adeus minha terra em piano-pires.
No milho o ronco trágico dos bois.- Joaquim Manuel Magalhães
in Alguns livros reunidos, Contexto
Chegam quase sempre em fins de Agosto
com bolsas de estudo da Gulbenkian.
Depois de cumprimentos nas Revistas
e a um ou outro de administração
passam aos quiosques da Cultura
na mira de novos subsídios.
De seguida à imprensa de Regime
atordoados de hipóteses de prelo.
Por todo o lado deixam a promessa
de os traduzir na volta do correio
aos poetas nos bons pousos sitiados.
Partem depois para os telefones
arrumados por geração. Até há pouco
findavam na 68. Agora já ronronam
a um punhado da 74. Em setembro
jantam em casa de cada disponível
e tentam insinuar que também são
dados às musas, se não a todas
pelo menos às mais viáveis.
O projecto em fundilho é a difusão
duma poesia tão! injustamente esquecida.
Quer dizer, bolsa de estudo com refeições pagas,
livros à borla que todos lhes mandam
e lá na terra mais uma entrada no currículo
de terceira. Pois os de segunda fincam-se
em países de melhor capitalismo.
E os de primeira, suposta já se vê,
têm há muito cátedra segura.- Joaquim Manuel Magalhães
in Alguns livros reunidos, Contexto
Alugando pássaros, pedaços de pele, povoados,
Que busco eu, alheio ao sossego e à esteira?
Em ondas de ternura bebo afogados
Séculos de murmúrio, ajoelhado na areia.
Que piolho eu beberia noutro rio marata?
– Copo de oiro sem voz, flores de gás, céu alvar! –
Beber por calabaças, fora da minha cubata?
Só se for licor que a terra faz ao mar.
Ergui minha choupana em foz daninha.
– Rosa de areia! Sangue! Jubileus!
A água do rio levou-me oiro e vinha,
(Nos lameiros, passava a mão de Deus)
E eu chorava, eu via – oiros! – nunca sereis meus!- Jean-Arthur Rimbaud / Mário Cesariny
in Uma grande razão, Assírio & Alvim
segunda-feira, março 15, 2010
onde habitaste onde as mulheres perpassam
com domésticos dizeres e as mães oferecem a cabeça
dócil às ciladas de édipo mas não
os teus haveres não se conformam na moldura do poema
o estilo é pouco e magras as certezas que passeias quando
o rapazio te apedreja o sonho helénico e
doente ignoras o interior da casa
o teu pensar desarrumado a viajar nos arredores
ou mesmo dentro à sombra da verdade em que não crês
olhando da janela o teu passado a que chamaram lúcido
e sorrindo respirando o hálito dos deuses
mortos sem um nome que os abrigue
enquanto o corpo te vagueia ainda
pelas veias mas o rosto
o rosto inclina-se pesado sobre o peito como a porta
para a casa não é hörlderlin
é um livro que se fecha
- Diogo Pires Aurélio
in A herança de Hörlderlin, Assírio & Alvim
Palavras na noite
desta noite que agora cai limpando os teus olhos,
mentes e dispões-te a expressar com palavras
aquilo que não encontra forma e escapa ao pensamento:
esta emoção que brota dentro de ti e consome
toda a tua vida, pura como um papel que arde.
E ainda que não ignores ser um trabalho inútil
deixar aqui rendida uma recordação desta noite,
que tudo isto, que agora parece eterno, acaba
sem que um poema, um gesto, o condene ou salve,
continuas igual, não mudas: sem vaidade, com medo,
vais selando a sua morte, até que chegue a alba.
- José Mateos
in Días en claro, Pre-textos
domingo, março 14, 2010
Fragmento de carta para o jovem Codignola
mas não esperes nada desse encontro.
Quando muito, mais uma decepção, mais um
vazio: daqueles que fazem bem
à dignidade narcisista, como uma dor.
Aos quarenta anos sou como era aos dezassete.
Frustrados, o homem de quarenta anos e o rapaz de dezassete
podem, decerto, encontrar-se, balbuciando
ideias convergentes, sobre questões
separadas por dois decénios, uma vida inteira,
mas que aparentemente são as mesmas.
Até que uma palavra, saída das gargantas hesitantes,
paralisada de pranto e vontade de estar só ─
lhes revele a disparidade sem remédio.
E, ao mesmo tempo, terei de fazer de poeta
pai, e refugiar-me na ironia
─ que te embaraçará: porque o homem de quarenta anos
é mais alegre e mais jovem do que o rapaz de dezassete,
sendo já senhor da vida.
Para além desta aparência, deste disfarce,
nada mais tenho a dizer-te.
Sou avarento, o pouco que possuo
está bem fechado neste meu coração diabólico.
E os dois palmos de pele entre a face e o queixo,
por baixo da boca torcida de tanto sorrir
de timidez, e o olhar que perdeu
a sua doçura, como um figo que azedou,
parecer-te-iam o retrato
fiel dessa maturidade que te faz sofrer,
uma maturidade não fraterna. De que pode servir-te
alguém da tua idade ─ mas entristecido
na magreza que lhe devora a carne?
O que ele deu, está dado, o resto
é árida piedade.
- Pier Paolo Pasolini
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
in Poemas, Assírio & Alvim
sábado, março 13, 2010
breve apontamento
e quando por dentro da linfa
acontece a distância
de dois nomes
na terra acabada de lavrar
floresce a sombra dos teus dedos -
é (como se) alguém que semeia o som em leira
de lume
(como se áfricas me aquecessem o sangue) -
levo-te assim incêndio de pálpebras
alguém como alguém que sente
a terra
como alguém/coisa
vertical
de ira ao peito
o nome como
aquele que é pela
a oblíqua primavera da veia
em torno do dorso
nomes animais simplíssimos por singeleza e perfume
como se em áfricas me aquecessem o sangue
digo nomes
como se alguém de terra ao peito
digo a poesia é como se
nunca ninguém soube o que quer dizer
um dedal em flor
como se nos nomes se me adormecesse o sangue
de súbito
Com a cabeça no colo de uma
tarde de março, a mesa e a linha
das garrafas de cerveja, alguma coisa
que me fez esperar o pôr
do sol, um assim-
-assim só, com bandos breves
de pássaros na mancha de luz velha,
tons embrutecidos a meterem-se
com as sombras, brinquedos que
se quebram. Eu e mais uns como
crianças amuadas pelos cantos
dos quintais, quando chegas
do Redondo num corsa uns anos
mais velho que tu. E é engraçado
(eu acho), parece um anúncio
em que não se percebe o que nos
estão a vender.
Entre espinhos e abrolhos, o coto
de um carvalho que dá espaço suficiente
para nos sentarmos os dois. Um beijo rápido,
depois vais contar-me uma história
e eu vou aguentá-la esgueirando o olhar
para o fundo da rua, aquela dor
estreita e simples a subir engolindo
em seco.
Falas e vais enfiando as mãos no interior
das minhas mangas. Ganhou já
borboto a camisola amarelo-vivo
que me deste e que aperta e me pica
no pescoço. Isso e uns começos
de barba agora que tenho vinte e cinco
para fazer. O cabelo é outra coisa,
não chegou a ficar como o queria e continuo
a perdê-lo por aí. Mais um, talvez
dois invernos, depois ninguém se lembra
e vou convencer-me que até fico
mais homem sem ele.
Deixo a um soluço o sorriso
que levei longe demais
e perguntas-me o que foi. Entre
tanta gente que não gosta dos meus versos,
tu também, mesmo os melhores,
esses mais eloquentemente banais.
Nada, só uma ideia que me veio.
Também detesto o que escrevo,
chego a rir-me disso, sobretudo
porque não tenho mais nada.
Soturno deleite, sujo, quase
um vazio coçando-se,
sons inúteis a arranhar a superfície
do cansaço que se afunda num gajo.
Entretanto jantamos.
Levas-me para tua casa. Nunca sei
se vou ter sorte ou ficar só
a olhar as nódoas doces no pijama –
da vez em que te encheste de cerejas
e depois vomitaste uma groselha azeda
a noite toda. Pões o alarme
e a sério que me dói que a porra das manhãs
comecem todas com o cacarejo enervante
do Bob Dylan. E rolamos
para fora da cama. O café, as tuas torradas
com doce de laranja e o Kerouac que enfias
com as chaves na mochila.
Há semanas que o lês aos tropeções,
como se isso te levasse a sítios. Leva?
A cidade cheia de miúdos
como nós, indo para adultos, lendo
aventuras nos metros e autocarros:
os mesmos túneis sem luz, rotundas de
todos os dias. E às vezes cansa-me fixar
o tecto, tiro o braço debaixo da tua cabeça,
puxo as calças das costas da cadeira,
saio para conduzir de madrugada e atravesso
a ponte com vontade de me pisgar.
Da outra margem vejo Lisboa –
lânguido derrame de pontos luminosos
– como se a perdesse. É sempre o mesmo,
o que me faz voltar para ela.
uma asa dos lábios à casa.
Sob a distante duna
o círculo dos seus olhos
a luz
areia pela escrita dos passos e do vento.
Entre a erva e a duna
uma viagem de festa.
Nenhum outro meio
quase morri
por aquele barco tão ao longe
entre tanta coisa
os olhos que desatam a fugir
quando do corpo
a noite tão cerrada a grande alegria.
- João Miguel Fernandes Jorge
in Meridional, Presença
A imagem de qualquer pedra servia bem a desordem
que vai sobre esta mesa
o copo de cerveja
admiráveis modos de viver
o mais mortal amigo é sempre qualquer coisa.
Assim explicava os grandes reinados rituais
o produto da terra
a arte da guerra
a ilusão vindo de muito longe
a única árvore o único poço por fortuna. Hábil
guerreiro e de palavra.
Contra ele os que foram foram inutilmente.
- João Miguel Fernandes Jorge
in Meridional, Presença
Amanhecer
Parece que não existe nenhuma esperança.
Seja o que for que luta pela luz é mortalmente frágil.
E quando o sanguinolento perfil em cruz de uma árvore aparece no céu, surrealmente grande e quase doloroso, não nos podemos esquecer de agradecer o milagre.
- Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhido pelas estrelas, Assírio & Alvim
Paráfrase lunar
Quando, no mais fastidioso fim de Novembro,
A sua velha luz se alonga pelos ramos,
Frágil, lentamente, dependendo deles;
Quando o corpo de Jesus queda num palor,
Humanamente próximo, e a figura de Maria,
Tocada pelo orvalho, se recolhe num abrigo
Feito de folhas, que apodreceram e caíram;
Quando sobre as casas, uma ilusão dourada
Traz de volta uma época primitiva de paz
E sonhos pacificadores às pantufas no escuro –
A lua é a mãe do patético e da piedade.
- Wallace Stevens
(tradução de Jorge Fazenda Lourenço)
in Harmónio, Relógio d'Água
quinta-feira, março 11, 2010
Adam’s Curse
That beautiful mild woman, your close friend,
And you and I, and talked of poetry.
I said, ‘A line will take us hours maybe;
Yet if it does not seem a moment’s thought,
Our stitching and unstitching has been naught.
Better go down upon your marrow-bones
And scrub a kitchen pavement, or break stones
Like an old pauper, in all kinds of weather;
For to articulate sweet sounds together
Is to work harder than all these, and yet
Be thought an idler by the noisy set
Of bankers, schoolmasters, and clergymen
The martyrs call the world.’
And thereupon
That beautiful mild woman for whose sake
There’s many a one shall find out all heartache
On finding that her voice is sweet and low
Replied, ‘To be born woman is to know --
Although they do not talk of it at school --
That we must labour to be beautiful.’
I said, ‘It’s certain there is no fine thing
Since Adam’s fall but needs much labouring.
There have been lovers who thought love should be
So much compounded of high courtesy
That they would sigh and quote with learned looks
Precedents out of beautiful old books;
Yet now it seems an idle trade enough.’
We sat grown quiet at the name of love;
We saw the last embers of daylight die,
And in the trembling blue-green of the sky
A moon, worn as if it had been a shell
Washed by time’s waters as they rose and fell
About the stars and broke in days and years.
I had a thought for no one’s but your ears:
That you were beautiful, and that I strove
To love you in the old high way of love;
That it had all seemed happy, and yet we’d grown
As weary-hearted as that hollow moon.
- William Butler Yeats
Having a coke with you
is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles
and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
.................................................................................I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
.................................................................................as the horse
it seems they were all cheated of some marvellous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it
- Frank O´Hara
Tramontana em Lerici
_Ele desintegrar-se-ia, deflagrando com tal intensidade
Contra a ressonância do frio (os sons
_Duros, separados e distintos, distanciando-se
Em cadência decrescente) que se juraria
_Tratar-se da imitação de vidro a quebrar-se.
Nas folhas acentuam-se os matizes. Estimuladas por esta
________________________________claridade
_As mentes dos artífices tornar-se-iam prismáticas,
Arrebatadas por rendas de arestas afiadas,
_Cortantes como aço. Constituições
Esboçadas sob este frio fecundo, seriam anuladas
_Pelo rigor da sua equidade, pela moderação da sua piedade.
Ao entardecer somos perturbados pela definição
_De tantos tons de verde quantos tentamos vislumbrar,
Quantos ainda a própria paisagem,
_Absorvida pela firme obscuridade, condensa
Desde o verde-mar até esse lento anil escuro
_Onde a luz e o crepúsculo se abandonam.
E o frio aumenta. Aqui, neste ar
_Impróprio para políticos e românticos,
O escuro consolida-se do azul, e apaga as janelas:
_Um bloco tangível, recusará ser acessório
Do que lhe não disser respeito. Somos ignorados
_Por tanto frio suspenso em tanta noite.
- Charles Tomlinson
(Tradução de Gualter Cunha)
in Poemas, Cotovia
terça-feira, março 09, 2010
As cortinas na casa do metafísico
Está cheia de largos movimentos; como o lento
Esvaziar da distância; ou como nuvens
Inseparáveis das suas tardes;
Ou a mudança da luz, o gotejar
Do silêncio, o sono largo e a solidão
Da noite, em que todo o movimento
Está para além de nós, à medida que o firmamento,
Subindo e descendo, desvela
A imensidão final, ousada visão.
- Wallace Stevens
(tradução de Jorge Fazenda Lourenço)
in Harmónio, Relógio d'Água
Não ser marinheiro. Não ser coisa alguma. E, ainda assim, zarpar deste lugar de fama sem proveito. Aportar às quatro estações, simultâneamente, num único cachimbo (milho de cerejeira). Comer mar, beber sal, respirar resina, cobrir a pele de lâminas de vinho. Renegar renegar. (O tempo). Recercir a sinta do silêncio. Derrimir a porca rouquidão. Arrancar às costas a tareia, às pernas o balastro, às mãos as mãos, à voz a recaída. Arrancar o pensamento ao fígado e o fígado ao pensamento. Lamber, ininterruptamente, uma mulata estéril de olhos mais verdes que a maior escuridão. Calar. Sobretudo isso. Calar-me. Escutar o canto sinusoidal, elíptico, dos cactos quando levantam voo para se tornarem homens. Nesses breves segundos, em que os cactos são vermelhos e aveludados, Deus assobia, dizem, velhos ragtimes e eu gosto de ragtimes. Pelo menos tanto quanto gosto de nêsperas, de salivas que não a minha, de bicos-de-lacre, do toque da cortiça. Eu gosto de gostar. E ando esquecido disso.- Miguel Martins
segunda-feira, março 08, 2010
Penúltimos Cartuchos, Miguel Martins (2008)
A dimensão coloquial do título, a um passo do prosaísmo, poderia fazer antever em Penúltimos Cartuchos uma filiação que, confrontados os poemas, se descobre não existir. Poderemos dizer que a ironia que subjaz ao uso de uma expressão de tal modo delida pela usura do mundo une forças com a sombria significação da própria fórmula em causa. O cuidado impresso na linguagem, porém, e o labor inimaginável na depuração do verso, a sua economia verbal – «A minha terra é a maré-baixa.» –, afastam irremediavelmente este livro de qualquer banalidade. Em Penúltimos Cartuchos, o dom de um estilo terso e contido – «Dormir até ao meio-dia é menos mau do que/ não conseguir dormir até ao meio-dia.» – coabita com um ferino sentido de humor – «Condomínio fechado: kevlar, doce lar.» –, que mantém sob rigoroso controlo o tom insidiosamente sulfúrico das suas investidas, pelo qual nunca descai para o desbragamento da sátira (pondo-se mesmo em causa: «O humor não tem graça.»), a invectiva, a crítica de costumes – «Estar vivo é ter dores de tesão.» O seu espectro é demasiado escasso e, simultaneamente, lato em excesso para tal – «Quem sabe do que faz raramente sabe o que faz. E vice-versa.» Os epigramas recolhidos neste brevíssimo volume não procuram, a despeito da sua brevidade, o particular – «essa aberração que é o indivíduo» –, mas uma certa respiração universal, imposta pelas suas duras, incisivas, palavras marcadas por uma impenitente decantação, pela sobriedade de uma dicção de timbre clássico. O pendor frequentemente aforístico dos poemas de Miguel Martins, concretizado amiúde por formulações sentenciosas, assentes em estruturas quiasmáticas – «Quem acha que a vida é para levar a sério deve andar convencido de que a morte é a brincar.» – ou antitéticas – «Sou uma luz que só se acende no escuro» – traduz uma moral tragada com o travo da amargura e de um cepticismo consciente de tempos que fogem, mais do que correm – «As boas ideias e as boas pessoas deram cabo do mundo.»
A rasura impressa à visão do mundo e suas mínimas incidências é sustida por uma escrita depurada, em extensão e intenção. Decantada até à nervura óssea do mínimo expressivo, a poesia de M. Martins contém-se na sua dicção com vista a dizer o breve, intenso relâmpago da sua deflagração verbal «O poema é uma escada que os olhos descem enquanto a alma sobe.»
Atente-se na gestão das epígrafes, que alargam e ampliam a espessura dos poemas, quase excedendo, por vezes, a extensão dos seus versos. Como quando as palavras de Raul Brandão, de forma tão impressiva e orgânica, se constituem como que o perturbante índice para a coda que o poema de Martins forma – «“E agora a morte não existe. Deus não existe, a vida eterna não existe. Uma luzinha e depois a escuridão.” [Raul Brandão]. A arte como masturbação não me interessa; como cópula, pouco; interessa-me, sim, a arte como orgia.»
- Hugo Pinto Santos
domingo, março 07, 2010
*
*
todo o lirismo é coisa de vime
coisa de fome
ladeada coisa de ânforas em mãos
como tu fazias
toda a homofonia é coisa contrária
é sempre o declive mineral
das portas
e depois a,
a boca sitiada de neve
como se fosse oleiro estelar por desmesura
com o nome o corpo pedaço negro
inteiro em volta
do som o credo
os nomes são coisas minerais
coisas que nunca se
dizem, sem
as imagens dizem melhor o centro do odor
o sabor da pele
ao meio do peito
escrevo os teus olhos
sei que a semente é
mais estéril dentro
do leite
sei que mão prepara por cima da boca a monda
dos canteiros
*
outrora já dizias-me
o olor das oliveiras em flor
e ouvia campos nevados
em torno da cerca do peito
e pensava em rios
na inocente caligrafia dos anjos
lavrados sobre muros
e gravava na casca das árvores
o que soçobrava de uma tarde
inteira de silêncio
*
sei que há asas mãos leitos que dizem
como me fazes inteiro e denso
ao meio dos olhos
sobre o poço de enxofre do verão
a roldana de dálias um rosto
que se semeia em canteiros nevados
*
já não te dou um nome ou
digo um rosto água diversa do nome das fontes
agora
é de noite e alguém
segura na mão por cima do cesto de vime
alguém retém também
a inocência cercada no rosto
e nos búzios a incandescência do perfume
é alguém que sabe a cal
respira a sombra dos olhos
nos trilhos
dos animais
alguém que sabe
alguém que me faz
os rumos obsoletos em dias
mitológicos cor de ouro cor de vime
alguém que me segreda à refeição
a trança cor de azeite
alguém que me diz tudo o que não posso ouvir
e as vozes nos jardins à chuva
alguém me faz homófono de
dedo fenda ferida
coisa aberta de lábios em casas
alguém que me faz
canção que conduz ao centro
homófono de certeza
(junto ao peito)
Radiohead, Street spirit (fade out)
...Be a world child, form a circle
Before we all go under
And fade out again and fade out again...
(Gosto de ouvir os teus pesadelos no escuro).
You always played a stonewall game
but I’ll get past you anyway
a flick of the wrist and it’s straight through your heart
when you’re feeling sad
remember how we fell upon an accident of paradise
So drink your fill, pretty baby
drink down that whiskey sea
and drink your fill, my darling
but save the angel’s share for me
If I were drowning, baby
drowning in your deep blue sea
if you want to rescue someone blue…
please don’t rescue me
Galveston, TX
el teléfono es distancia líneas que han perdido
su elástico vaivén
y tu voz al oído es tan dulce que saqué
todo el dinero del banco me compré un ford
y me puse a conducir por las vastas extensiones
- Pablo García Casado
Lembro-me de uma fotografia de Alexandre Herculano
vinda na História de Barcelos. Está sentado num cesto de vindima
um cesto de vime de encontro a uma parede de Vale de Lobos.
E se nos habituamos a sonhar, o sonho
somos nós quem o inventa
a árvore a água o mesmo se dizemos aos amigos «vou morrer»
dia a dia o inventado transforma-se cresce por de dentro dizendo
mal de nós vêm diante todos os sonhos da terra inúteis
sempre pequenos surgidos. Aumentam quando passamos os dedos pelo
pó dos móveis ou se na humidade do inverno escrevemos nomes nos vidros
das janelas.
E a cidade também. Ouve tudo o que lhe quero dizer os defeitos
a utilidade dos outros.- João Miguel Fernandes Jorge
in Alguns círculos, Editorial Presença
sábado, março 06, 2010
sexta-feira, março 05, 2010
1
My heart's aflutter!
I am standing in the bath tub
crying. Mother, mother
who am I? If he
will just come back once
and kiss me on the face
his coarse hair brush
my temple, it's throbbing!
then I can put on my clothes
I guess, and walk the streets.
2
I love you. I love you,
but I'm turning to my verses
and my heart is closing
like a fist.
Words! be
sick as I am sick, swoon,
roll back your eyes, a pool,
and I'll stare down
at my wounded beauty
which at best is only a talent
for poetry.
Cannot please, cannot charm or win
what a poet!
and the clear water is thick
with bloody blows on its head.
I embraced a cloud,
but when I soared
it rained.
3
That's funny! there's blood on my chest
oh yes, I've been carrying bricks
what a funny place to rupture!
and now it is raining on the ailanthus
as I step out onto the window ledge
the tracks below me are smoky and
glistening with a passion for running
I leap into the leaves, green like the sea
4
Now I am quietly waiting for
the catastrophe of my personality
to seem beautiful again,
and interesting, and modern.
The country is grey and
brown and white in trees,
snows and skies of laughter
always diminishing, less funny
not just darker, not just grey.
It may be the coldest day of
the year, what does he think of
that? I mean, what do I? And if I do,
perhaps I am myself again.
- Frank O'Hara
in Meditation in an emergency
quinta-feira, março 04, 2010
quarta-feira, março 03, 2010
Princípio e fim
quero voltar a Itália», ou: «O ano que hoje principia
tenho que aproveitá-lo; com um pouco de sorte
terminarei meu livro», e também: «Quando crescer
meu filho, – que farei sem o dom de sua infância?».
Mas o próximo verão, em verdade, passou;
há muitos anos terminaste aquele livro
em que agora trabalhas; teu filho fez-se um homem
e seguiu seu caminho, longe de ti. Os dias
que virão já vieram. E depois cai a noite.
Em simultâneo respiramos a luz e a cinza.
Princípio e fim habitam no mesmo relâmpago.
- Eloy Sánchez Rosillo
(tradução de José Bento)
in As coisas como foram, Assírio e Alvim
Noite de luar
fora do tempo o meu viver no tempo:
viste morrer outrora o menino que habitava,
confiado, em meu ser; depois, o adolescente
que se rendeu ao feitiço de tua luz misteriosa;
viste morrer em mim também o jovem
que ansiava ser teu e que te celebrava
com fervor em seus versos.
Agora vês este homem cansado que te fita
com a emoção de sempre. E um dia, ao voltares,
hás-de buscar-me em vão.
- Eloy Sánchez Rosillo
(tradução de José Bento)
in As coisas como foram, Assírio e Alvim
terça-feira, março 02, 2010
Este nome...
segunda-feira, março 01, 2010
Parece que...
LAS MANOS
Las manos,
me decían mis padres
antes de sentarme
a la mesa a comer,
lávate bien
las manos.
No alcanzaban
a comprender
que los ninõs
las tenemos siempre
limpias.
Tomo o comprimido,
por uma ladeira química na direcção
do coma, e nisto o despertador
desata a soluçar (Cinco da manhã
que merda),
a porteira remexe-se, incomodada,
ao meu lado, conversando ainda
com os esquisitos animais fantásticos
dos sonhos, protesta, debate-se,
o mau hálito aumenta, o perfume
azedo dos sovacos ocupa o quarto inteiro,
à laia de um par de texugos gémeos
fedendo em uníssono relentos de jazigo,
e logo o candeeiro da mesa de cabeceira
aceso aos apalpões, claridade súbita
que estilhaça os objectos e rebenta
os miolos, e depois o compartimento
a reconstituir-se devagar, penosamente,
roupa no tapete, caixilhos, um pedaço
de estuque lascado junto ao tecto,
o carrapito da mulher a emergir,
povoado de ganchos, dos lençóis,
as míopes pálpebras estremunhadas,
a careta contrariada do costume,
_______________________Tenho de
me ir embora, riqueza,
________________e eu sem entender
se a detestava ou se gostava dela,
se a estimava de facto ou necessitava
somente de uma companhia qualquer,
não importava qual, uma mulher,
um gato siamês, um cachorro, um periquito,
algo de vivo e quente e móvel
_____________________que o fizesse
sentir-se vivo também, a odiá-la e
a querê-la enquanto a beijava à despedida,
encolhido nos cobertores como um bicho
(Tenho de mandar-te sem falta ao dentista
esta semana, tenho de pedir-lhe que
te limpe os dentes),
______________e a fitá-la
desconcertado comigo mesmo enquanto
chinelavas quarto fora para o patamar
a abotoar a camisa, a enfiar o casaco de malha,
a apalpar os ganchos,
_______________a transportar consigo
aquela repugnante soma de odores, a porta
da rua bateu e o eco, rombo, ficou soando
muito tempo pelas salas desertas,
o tenente-coronel colocou o soporífero
na língua, engoliu-o sem água
e sentiu a pastilha descer-lhe, a hesitar,
pela garganta, apagou o candeeiro
e permaneceu muito tempo quieto,
de olhos abertos, como um cachorro
acossado, atento à suave e enervante
textura do silêncio.
- António Lobo Antunes
in Fado Alexandrino, Dom Quixote

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![[resumo.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgmj7pwBuWTM2gYW6KebLeEGU2RQ1o5w4xm2tKVpXW7voj7eRI7swcEtZrozRs3B8eRN1G57jwnbNecG5cz8RblSyefBd1hwAYZqu2E51B-ljPzZ4ia2EyVDc73oJrnDylnkdFq/s1600/resumo.jpg)
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![[Statue_by_the_SHAKE.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFvXvmHyLBwd_NtHSPYEukQEZ6RyFw0QIdvE2ycELi-X-kPpaB8msn_6IVOjD1hqEC6c-PG0wyAMoBSDyvBsZJDVoRU6dMyTg8Fp-of3fYU9Kc5qyg2HOroAnk9HbJ8ErLUit9/s1600/Statue_by_the_SHAKE.jpg)


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