Sexta-feira, Setembro 30, 2011
Quinta-feira, Setembro 29, 2011
DAS RAPARIGAS
Outros devem ir por longos caminhos
até aos obscuros poetas;
perguntam sempre a alguém
se não terão visto algum cantando
ou de mãos pousadas em cordas.
Só as raparigas não perguntam
que ponte leva às imagens;
sorriem só, mais luminosas que fiadas de pérolas
guardadas em conchas de prata.
Cada porta das suas vidas abre
para um poeta
e para o mundo.- Rainer Maria Rilke
Sou já o refrão mais repetido
destas horas e seus influentes signos.
Nas costas sinto o suspiro da cama,
a luz que resta, como uma louca,
desenterrando lembranças, bilhetes,
fotografias devastadas. Deixo os óculos
e admiro o ressurgir de teu belo
rosto frívolo, olhos da cor de um mês
que nunca mais verei. A camisa larga,
aberta, um copo ridente de vinho e um
pé sobre o outro, mastigando o nervo.
Acordado, à superfície do sonho, repito-me
e abro uma afta, um nome confuso.
Apalpando as paredes, passos roucos
tropeçando pelo quarto, caindo de lado
junto à caixinha de música,
estragada. E a velha bailarina ainda vem,
vagueando, sombria e fascinante, numa
órbita esquisita, agarrada a um relâmpago.
Embalados pela tempestade mecânica.
Todas as noites, comigo, repetindo
esse número sinistro e entretendo
a pequena distância que eu sou.
As mãos caem-me
como presas e de seu delicado tremor
nasce meu verso imperfeito. Pairando
sobre isto, só a mosca que tenho
na alma, raspando. Recortes
rítmicos, um som brincando baixinho,
escutando-se a si mesmo, vira-me
a respiração do avesso.
Bebo da torneira. A dois passos
chego o cigarro e subo a flor do gás:
as pétalas fremindo esse perfume
morto, bailado de sombras e ausências.
Da altura imensa da janela em que mais
fumo, vejo a cidade, esse céu escasso,
a letal impaciência das ruas, os navios
ancorados nos seus jardins, suaves comboios
descarrilando nesta paisagem obscena.
Sempre pontuais, todos esses enfraquecidos
regressos aos lugares que fiz por esquecer.
Lá está a velha árvore, quase nua. Alguns
pardais bocejantes, flores de arame
chorando abelhas em pequenas gotas
de âmbar e a rotação surda dos frutos.
Arranco um, mordo-o e guardo na boca
o seu sabor a grito.
Cães seguem-me em delírio pelos
jardins da raiva, entre noites sem graça,
bares onde os corpos são uma confusão
de tédio e desejo. Bandeiras a meia haste.
Ombros destruídos. Impulsos enferrujados.
Gestos leprosos sem nenhum alcance.
A pele cansa-se. Eu estou cansado demais.
Não há nesta terra um só ouvido.
Nem sei porque canto, talvez
seja só fraqueza. Pássaro da dor,
benjamim negro.
LONDRES, DEDICATÓRIAS NOS BANCOS DOS JARDINS
Por aqui outro alguém muito passava, deixou poucas palavras
Sentava-se nestas sombras, exactamente como
Mrs. Dalloway, que foi ficando, folha após folha?
Abandonar assim a memória mais suave
cada instante de vida em debandada
inocente oscilação de galhos sobre galhos
Que só com alheia distracção
atentem nas palavras que ficaram
e se perdem assobiando para os pássaros
Um desejo eternamente confundido
no enleio sussurrante do jardim
A vida ou o salto infindo dos esquilos
apenas o modo brusco como toda a árvore
cai para sempre em cada folha
Iam e vinham das torres sobre torres
cruzavam-se no nevoeiro, brilhantes de memória
Iluminem agora outros as sua mágoas
na transparência obscura dos nenúfares
respirem a íntima vastidão dos relvados
feridos de estrelas um dia pressentidas
Como um livro, veloz memória
que o esquecimento variamente desfolhasse
numa história de chuvas entranhadas
e perfumes sabiamente evanescentes
- José Manuel Teixeira da Silva
in As Súbitas Permanências, Quasi
Quarta-feira, Setembro 28, 2011
Escreves, a contragosto, a contravoz, mão contra mão contra o papel, sólido, irrespirável (difícil engolir o coração com a garganta, mais fácil fazê-lo com as palavras), corpo dor, cego dor, contravida que te insiste viver (escavafunda, cegafunda, terrinsiste, ceguinsiste). Diverges, distrais, sabes que se te calasses a dor seria ensurdecedora. Prossegues, escutas com atenção, medes as palavras uma a uma, esculpes o seu rosto sem perdão (no fundo, talvez acredites mais do que acreditas, talvez esperes mais do que a esperança nenhuma que trazes). Minuto a minuto não morres. Palavra a palavra não morres. Por vezes parece que apazigua, como se o nó afrouxasse e o ar se tornasse um pouco mais claro ou (outra imagem) um intervalo se abrisse entre muro e muro (ouves a chegada do camião do lixo, o ruído das bombas hidráulicas a movimentarem os braços mecânicos, sobem, descem, voltam a subir, voltam a descer, sentes-te menos só, consegues já respirar, talvez até consigas sossegar, apagar a luz, adormecer). E é só por isso.
- Jorge Roque
in Broto Sofro, Averno
Terça-feira, Setembro 27, 2011
Sexta-feira
POÉTICAS CONTEMPORÂNEAS
1º Encontro:
Revistas literárias do século XXI
Moderador: António Guerreiro
Com a participação de:
Ana Salomé (GOLPE D’ASA)
André Simões (ÍTACA)
Fernando Guerreiro (PIOLHO)
Gastão Cruz (RELÂMPAGO)
Luís Henriques (OFICINA DO CEGO)
Manuel de Freitas (TELHADOS DE VIDRO)
Mariana Pinto dos Santos (INTERVALO)
Paulo Tavares (ARTEFACTO)
30 de Setembro • 18H00
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Edifício ID (Lisboa)
Domingo, Setembro 25, 2011
José Emilio Pacheco
TERRA
A abismal Terra é
a soma dos mortos.
Carne unânime
das gerações consumidas.
Pisamos ossos,
sangue seco, restos,
invisíveis feridas.
O pó
que nos mancha a cara
é o vestígio
de um insaciável crime.
CONTRA A KODAK
Coisa terrível a fotografia.
Pensar que nesses objectos quadrangulares
jaz um instante de 1959.
Rostos que não são já,
ar que já não existe.
Porque o tempo se vinga
de quem rompe a ordem natural detendo-o,
as fotos fendem-se, amarelecem.
Não são a música do passado:
são o estrondo
das ruínas internas que desabam.
Não são o verso mas o rangido
da nossa irremediável cacofonia.
ANTIGOS COMPANHEIROS REÚNEM-SE
Já somos tudo aquilo
contra que lutámos aos vinte anos.
VIDAS DOS POETAS
Na poesia não há final feliz.
Os poetas acabam
vivendo a sua loucura.
E são esquartejados como gado
(aconteceu a Darío).
Ou bem que os apedrejam e terminam
atirando-se ao mar ou com cristais
de cianeto na boa.
Ou mortos de alcoolismo, viciados em droga, miséria.
Ou o que é pior: poetas oficiais,
amargos povoadores de um sarcófago
chamado Obras Completas.
OUTRO
Entrará com sangue o eme de morte
naqueles marcados a fogo,
não para o Dia do Juízo Final
mas para os fuzilamentos em massa,
a Limpeza Étnica, o campo de extermínio,
a Solução Final que de uma vez por todas resolva
o problema do Outro.
Ideias
Agrupadas em ideias, as palavras andam no ar, passam de homem em homem como parasitas, habitam no interior de cada um, absorvem toda a sua vida espiritual e transformam-na em nada: a ideia sai do seu homem sempre mais impessoal, mas dotada de um poder corrosivo cada vez maior. Saltam assim de homem para homem sem que nenhum deles participe na sua vida espiritual. Como o mais venenoso dos micróbios, «arrumam-nos» e depois atacam outros. Por vezes, espalham-se com a rapidez das epidemias e invadem os indivíduos em massa, mas estes, em vez de se sentirem doentes, ficam entusiasmados, exaltados, até dizem que têm ideias. Não vêem que não são os homens que possuem as ideias, mas as ideias que possuem os homens — dissimulados verdugos que se apresentam para dar um sentido à vida, e em vez disso a destroem. E o destruído vive com exaltação o seu próprio martírio; quando a ideia o abandona, sente-se vazio, aniquilado, pois ela devorou tudo quanto havia de vivo no seu espírito.
- Ernesto Sampaio
in O Sal Vertido, Hiena
Sábado, Setembro 24, 2011
Romeu no Internato
Amava a inocência dele, o seu cálido contacto
casual durante o jogo,
o sorriso radiante que também cativara
desde o primeiro instante o Superior.
Os rapazes mais rudes ofereciam-lhe doces
e todos o escolhíamos para formar equipas.
Eu amava como um louco a preguiça dele nas tardes
de calor quando, meio adormecido,
a postura indolente, parecia perder-se
no quintal, tão longe detrás da janela enorme,
e o professor de Ciências era um adorno inútil.
Amava-o se a camisola lhe caía
da cintura quase aos tornozelos
ou se declarava muito sério detestar a sopa
ou não percebia uma piada das frescas.
Amava sobretudo a sua falta de defesa, as lágrimas
que tanto embelezaram o seu rosto certa vez
que se aleijou numa perna no recreio, e levá-lo
apoiado ao meu ombro para arranjar uma ligadura.
E no instante glorioso em que lhe deram
— pela sua cara bonita — o papel de Julieta
e pude por fim dizer-lhe quanto o amava, o amava
em voz alta, olhando-o nos olhos,
diante de todo o colégio, diante dos meus pais.
- José Luis Piquero
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in hífen n.º9
Sexta-feira, Setembro 23, 2011
Teu mundo
Irredutíveis sombras habitaram-no
desde o dia em que abriste o primeiro livro
ou choraste num cinema. Fantasmas de
soldados invadiram-no, quando ouviste,
pela primeira vez, relatar costumes
e guerras de um país desconhecido.
Piratas, assassinos e assaltantes
deram-lhe a sua precária fama
(os seus vícios e as suas armas são os teus
desde então). Também as vozes de névoa
e o amor que do tempo te protege
o complicaram e tornaram uma cela fria.
Não é estranho que, agora, desse mundo
já não possas regressar: o caminho
de volta vai directo para a loucura.
- José Mateos
in Una extraña ciudad, Renacimiento
Náufragos
Repara bem em ti. Com o inverno
apenas te restou conhaque na garrafa
e tens por tesouro
alguns cigarros no bolso
que hás-de partilhar com os rapazes.
Apagou-se o caminho que conduz,
entre mares incertos, ao lar,
e já faz mais de dois anos que no penhasco
resistes à inclemência da paisagem.
(Os anos que se medem pelo fumo
e o barco que não adverte da tua presença, os anos
deram-te este aspecto e esse mau hábito
de falar pouco, de estar triste).
Convidam ao suicídio os escolhos
e apenas te sustém o desencanto, a obsessiva
rotina de talhar na madeira
o rosto daquele que foste e já não és.
- José Mateos
in Una extraña ciudad, Renacimiento
A palavra
De nada te hão-de servir os versos que agora escrevas.
A emoção que pões neles torna-te digno,
mas não te salva, pois ficarão sem resposta.
Será que não entendes que o silêncio é mais claro
e que com a palavra ofereces distância e concluis
o que foi sempre começo, final, ou nunca chegou ser?
Olha para lá da tormenta o dia amanhecendo.
Nas janelas a alba deixa uma luz dourada.
Tremem, sobre os charcos, as últimas estrelas.
Serve-te de alguma coisa suplantar a sua beleza?
- José Mateos
in Una extraña ciudad, Renacimiento
pelos caminhos; folhas de jornais
atrasados; silêncio de consulta
oftalmológica; estação de metro
à meia-noite; um prato de menu
barato; um romance que vendia muito
há dois anos; um alexandrino
escrito numa agenda; a monotonia
de uma escala num piano; aquelas sombras
que as noites deixam sempre pelos cantos.
- José Ángel Cilleruelo
in Maleza, Huacanamo
frio; frio o seu gesto ao despir-se
as mãos de um desconhecido
frias como o vazio,
uma voz íntima.
Um descampado,
os carros contra o muro,
as luzes desses blocos, longe,
tão breve o gesto do amor, tão seco,
esta noite de março, este março, esta noite.
- José Ángel Cilleruelo
in Maleza, Huacanamo
Quinta-feira, Setembro 22, 2011
Um dia em Magic Kingdom
Na lata — waste paper — de alumínio
limpa — aqui de fora — com reflexos
do sol do verão da Flórida
guardanapos, cascas de sorvetes
Devorados
garrafas e maços de cigarros,
containers e sacolas de plástico,
sacos de celofane amassados
Em homenagem a Mickey Mouse,
objectos depois do êxtase
num exílio organizado
- Régis Bonvicino
in Lindero Nuevo Vedado, Quasi
Quarta-feira, Setembro 21, 2011
O vôo dos pássaros
Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.
Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.
Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.
Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.
Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sôbre nenhum pássaro.
Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.
Em vôo, como os anos, a vida, o tempo...
Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.
- Lêdo Ivo
in Cântico, Orfeu
Pequena elegia
Paro diante de teu túmulo no cemitério de Penedo
e lembro os dias em que teu riso desviava a lua
e o sol cobria tua cabeça.
Vejo-te vestida de azul, na casa malassombrada,
quando esperavas multiplicar a infância.
Sei que amavas a solidão das canoas.
Agora, venho chorar a ausência de teu corpo dissoluto
jogando no silêncio humildes flôres de retórica,
e diante da terra em que te converteste
imagino que esta noite dançarás no alpendre
do sobrado em que vivemos.
- Lêdo Ivo
in Cântico, Orfeu
Os frutos da imobilidade
Entre a tarde e a arquitetura,
a oclusão e a consonlância,
canto-me dormido no horizonte
na viagem de olhos cerrados
para as catástrofes do sono.
E meu coração que é sombrio
como um sol visto às avessas
tem canção ininterrupta,
fanal de sino acordado
ou os instantes plantados
no dia do dia seguinte.
Canto o tráfico do que sou
diante da luz da aurora,
a mulher do meu amor
e eu sempre seguro e calmo.
Luz no caminho noturno
que cheira a mato pisado.
O romper do dia sustenta-me
com seus címbalos de mármore.
Não entôo o desencontro
no amor da tarde, ou a cadeia
que nasce de tuas palavras.
Canto a canção que me envolve
com os teus textos cruzados
como o trânsito na chuva
em uma rua chanfrada.
Não me inclino às harmonias
descobertas no tédio, elipses
de vôos incomunicáveis.
No vasto chão do acaso
eu lúcido apanho a rosa.
Ei melodia! e o mar
ao meu lado comparece
com todos os seus navios
inclusive os naufragados
que retornam com seus mastros
aos preâmbulos das nuvens.
Guardando um sol no meu peito,
falo de amor, compareço
aos espelhos dos instantes
onde a vida se reflete
em termos de diamante.
E aos torvelinhos de outubro
- momentos que são pirâmides -
canto a vida em que pereço
entre dois pavimentos.
- Lêdo Ivo
in Cântico, Orfeu
Advento
Março, com o seu vento, parte-me os lábios
que não te beijaram, e devora as mãos
que não te percorreram na tarde do festejo.
Talvez as horas ocultem séculos sem história.
Meu silêncio ao cair da tarde te recompõe
como se fôsses estátua. E sinto-me isolado
na paisagem desperdiçada, à espera
do advento de um tempo em que tudo aconteça.
- Lêdo Ivo
in Cântico, Orfeu
Terça-feira, Setembro 20, 2011
Força de Vontade
Então um dia, tomado de um impulso irresistível, pus-me a recriar a mulher com quem contraíra a blenorragia. Criei-a desde o início do nosso primeiro encontro, com os momentos mais insignificantes da nossa conversa e, passando pelas fases da paixão mais sincera, levei-a até ao instante prestes a concretizar-se da união dos corpos e, nessa altura, bati-lhe com o meu sapato, expulsei-a inexoravelmente da cama, abri a porta e atirei-a lá para fora.
Como a verdade histórica tem uma tendência natural para se reconstituir, essa mulher começou a renascer a pouco e pouco com tudo o que era necessário para que a cena se produzisse normalmente. Mas eu expulsava-a com regularidade. Combati dessa forma durante quinze dias; ao décimo sexto, vendo que tudo era inútil, e cansada de todas as suas humilhações, ela foi-se embora antes de eu lhe bater.
Nessa mesma tarde fiquei curado. O corrimento parou, e também não houve mais recaídas.
- Henri Michaux
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Antologia, Relógio d'Água
Segunda-feira, Setembro 19, 2011
A cada século a sua missa. De que é que este está à espera para instituir uma grandiosa cerimónia do fastio?
- Michaux
Canção da torre mais alta
Juventude ociosa
Escrava e submissa,
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Com corações que se apaixonam.
Disse a mim mesmo: abandona,
E que ninguém te veja:
Nem mesmo a promessa
De alegrias mais altas.
Que nada te prenda, ou pare
Sublime retirada.
Dei tantas mostras de paciência
Que tudo eu para sempre olvide;
Temores e dores
Volatizaram-se nos céus.
Mesmo se uma sede doentia
Me obscurece as veias.
Assim o Prado
Deixado ao abandono,
Maturado e enflorido,
De cores-odores e ervas daninhas,
Entregue ao zumbido ensurdecedor
De sem moscas nojentas.
Ah! Mil vezes viúvo
Da trist'alma nua
Sem outra imagem
Que a da Senhora Mãe!
Será que se ora
À Virgem Maria?
Juventude ociosa
Escrava e submissa,
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Com corações que se apaixonam.
- Arthur Rimbaud
(tradução de Maria Gabriela Llansol)
in O Rapaz Raro, Relógio d'Água
XLVI
Inexpugnável sob a sua tenda de ciprestes, o poeta, para seu convencimento e orientação, não deve ter medo de servir-se de todas as chaves que acorrem à sua mão. Todavia, não deve confundir uma escaramuça de fronteiras com um horizonte revolucionário.
- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
defesa dos lobos contra os cordeiros
querem que o abutre devore malmequeres?
que pretendem do chacal,
que se esfole, e do lobo? que
arranque os dentes?
o que detestam
nos politruks e nos papas,
porque olham como carneiros malmortos
para o televisor mentiroso?
quem cose então ao general
a tira de sangue nas calças? quem
trincha o capão diante do usurário?
quem se enfeita orgulhosamente com a cruz de lata
em cima do umbigo faminto? quem
aceita a gorjeta, a moeda de judas,
o óbolo do silêncio? muitos
são os roubados, poucos os ladrões; quem
contudo os aplaude, quem
põe as insígnias, quem
é sedento de mentira?
vejam-se no espelho: cobardes,
evitando a fadiga da verdade,
avessos ao aprender, ao pensar,
responsabilizando os lobos,
o anel no nariz é a vossa jóia mais cara,
nenhuma ilusão demasiado estúpida, nenhuma consolação
demasiado barata, toda a chantagem
é para vocês branda demais.
carneiros, são irmãs,
comparadas convosco, as gralhas:
cegam-se uns aos outros.
a fraternidade reina
entre os lobos:
movem-se em alcateias.
louvados sejam os ladrões: vocês,
e vossos convites à violação,
deitam-se no leito indolente
da obediência. mesmo choramingando
mentem. despedaçados
desejam ser. vocês
não mudam o mundo.
- Hans Magnus Enzensberger
(tradução de Almeida Faria)
in Poemas Políticos, Dom Quixote
Domingo, Setembro 18, 2011
- Michaux
XXV
Recusar a gota de imaginação que falta ao Nada é dedicar-se pacientemente a devolver ao eterno o mal que ele nos fez.
Ó urna de loureiro num ventre de áspide!
- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
XVII
Heraclito sublinha a aliança exaltante dos contrários. Vê nelas em primeiro lugar a condição perfeita e o motor indispensável à produção da harmonia. Já aconteceu, em poesia, surgir no momento da fusão desses contrários um impacto sem origem definida cuja acção dissolvente e solitária provoca o deslizar de abismos que conduzem o poema de um modo bastante anti-físico. Cabe ao poeta cercear esse perigo, fazendo intervir um elemento que seja tradicional, de razão comprovada, ou o fogo de uma demiurgia tão miraculosa que anule o trajecto da causa ao efeito. O poeta pode então ver os contrários - essas miragens pontuais e tumultuosas - completar-se, a sua linhagem imanente personificar-se, pois, como se sabe, poesia e verdade são sinónimos.
- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
43
Boca que decidíeis se isto seria himeneu ou luto, veneno ou poção medicinal, beleza ou doença, que aconteceu ao rancor e à sua aurora, a doçura?
Cabeça hedionda que se exaspera e se corrompe!
- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
Êxtases, viscosidade, a casca vazia da pele.
O que se esvai no universo, curvo, pulverizado,
Caminhou em tempos direito, sorridente, de porte ligeiro.
Aquilo que te espera, vê-lo-ás cedo nos outros.
Assustadoramente claro... futuro, substituído pelo Nada.
O jogo da vida é para ganhar e perder... No final
Nem sequer a tua própria morte fica na memória.
- Durs Grünbein
(tradução de Fernando Matos Oliveira)
in Aos Queridos Mortos, Angelus Novus
Sábado, Setembro 17, 2011
Outra mão
- Tiago Roldão
Hirto frente ao televisor, ainda ligado, o olhar
Quebrado. Na televisão um cozinheiro de TV dava
A dica certa para a boa cozinha.
______Putrefacção e mau cheiro no quarto,
Detrás das cortinas um cintilar azul, depois
Os ossos secos.
_______________Silêncio
Dos vizinhos, que o espreitavam a medo, pois
Todos eles à muito pensavam o mesmo: «Já me
cheirava».
_____Um morto estava sentado há treze semanas...
Foi sem dúvida um belo fim.
Uma passagem de século assim.
- Durs Grünbein
(tradução de Fernando Matos Oliveira)
in Aos Queridos Mortos, Angelus Novus
Sexta-feira, Setembro 16, 2011
Poema em Louvor do Meu Marido (Taos)
Suponho que também não tenha sido fácil viveres comigo,
com os meus melindres, altos e baixos, precisão de privacidade
orgulho feroz e choro na cama ao tentares dormir
e tu, interrompendo-me a meio de mil poemas
telefonei à companhia de seguros? quando interrompeste um poema
a meio da nossa viagem pelas montanhas do nebraska até
ao colorado, odetta cantando, todo o mundo cantando em mim
o triunfo da nossa revolução no ar
eu prestes a escrevê-lo, e tu
tu a dizeres algo sobre o carburador
de modo que tudo se esvaiu
mas mantivemo-nos juntos
como se cada um pensasse que o outro era a jangada
e ele só, à deriva, neste casebre
demasiado pequeno, as paredes caindo sobre nós numa chuva miudinha
contrariando o ar límpido, poluindo-nos as narinas
pendurámos imagens dos nossos muitos mundos:
posters da universidade de nova york, de são francisco,
pusemos os pratos japoneses, as facas chinesas,
cravámos pequenos panos festivos dos índios no adobe
tropeçámos no silêncio para dentro um do outro
errando de um sítio errado para outro
como miúdos que se esgueiram de noite para brincarem num barco
e o barco solta-se das suas amarras, e olham para as estrelas
de que nada sabem, para descobrir
onde vão
- Diane Di Prima
(tradução de Miguel Martins)
Caricatura do atormentador de si mesmo
Que se passa comigo?
Estou doente, doente de mim mesmo.
Não sei antes, mas
desde que o mundo é mundo comigo
os dias são escuros, de tempestade
ou fustiga o sol sinistro.
Os outros dias,
os dias intermédios,
nem os sinto, são neutros, são esquecimento.
Pelas noites encho-me
da melancolia do nada,
a transbordar, como um cinema barato,
onde passam filmes sem ritmo,
sem acção, lentos e de pouco
talento, sem a graça
sequer do horrível.
A minha vida é um fracasso.
Senti a companhia
por vezes do verso e de uma qualquer
rapariga de quarenta
anos com propensão para os rapazes
propensos ao afecto de uma mãe.
Agora as senhoras
foram-se, é natural pois, dizia,
gostam dos jovens indefesos
e falhos de afecto, mas evitam
os rostos lacerados.
E com elas, pelas mesmas razões,
fugiu a poesia
com a sua música para outra parte.
Eu continuo condenado pela vida
e só, ou pior, pois não estou só,
estou comigo.
- Marcos Tramón
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in Poesia Espanhola, Anos 90, Relógio d'Água
-Tinha onze ou doze anos, quando aquilo a que chamava o grandíssimo relâmpago se abateu sobre mim pela primeira vez; tudo o resto deixou de ter importância. O dia não ilumina, só existem a noite e a claridade, mas essa claridade vem da noite, é o grandíssimo relâmpago. Só cintila de tempos a tempos, um número restrito de vezes durante uma vida, mas em cada relâmpago vislumbramos algo mais do que aqueles que só vêem durante o dia. Mesmo que depois o relâmpago ainda torne mais obscura a obscuridade que lhe sucede.
- René Char
(tradução Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
Quinta-feira, Setembro 15, 2011
1Conheces a angústia, amigo, o modo como vagarosamente se infiltra até doer nos ossos como se o frio pela janela aberta do coração vazio. Conheces essa viagem que desemboca em portos de países longínquos, cidades de pedra sob céus de fim, ruas de solidão e morte que o sol nunca visita. E mesmo ao lado, os tubos recurvos da loucura, a o labirinto transparente por onde te moves sem peso, longe, muito londe, dos pés. Quando dói demais endoidece-se, é uma forma de desviar a dor para os olhos que não nos pertencem. Como se num filme em que fossemos o lado de fora e por dentro a dor a cansar. Não sei se sabes do que falo (o mais que recebi de ti foi um silêncio em que acreditei me ouvisses). Escrevo dirigindo-me a ti. Escrevo depondo nas tuas mãos o último grão de vida que resta nesta terra triste.
4Músculos tensos, grito parado, a inquirição prossegue por entre camadas de angústica cerrada. Fura, brita, escava, alonga túneis por onde avança o corpo cercado. Por vezes tem a espessura de montanhas, muros sobre muros que não acabam. Outras abre-se inesperadamente em naves onde o eco é mais largo e o som ampliado vibra a ilusão da interminável viagem. Uma a uma, as palavras emergem da pedra informe, brilham contra o aço quente das brocas. Agarra-as com as mãos feridas, confunde-as com o tacto, mistura-as com o sangue, enquanto a tinta regista a negro o seu traçado. Há quem lhe chame poesia. Eu só lhe posso chamar combate.in Telhados de Vidro n.º15, Averno- Jorge Roque
(segundo poema retirado daqui)
Obeissez à vos porcs qui existent.
Je me soumets à mes dieux qui n’existent pas.
René CharPara os meus elefantes
Lá fora os candeeiros mancham
a pesada névoa avolumando
difíceis contornos, distâncias tão
sensíveis. Perco-as e bruscamente a janela
recorda-me que tenho um rosto. Levo-lhe
a mão e sinto nele a incrível ausência
daquele puto estúpido e doce que
esperava o melhor de mim.
Escuto o corpo, escrevo algumas linhas,
sentado, a cama absolutamente desfeita.
Na jarra da inspiração agoniza uma só flor,
largando um cheiro odioso. Tremo, a chuva
amolece-me os ossos, a noite pesa-me
e eu erro por aí, horas e horas caindo.
Depois não sei o que é, se acordo se
simplesmente se acaba o filme
deste repetitivo pesadelo. Regresso.
Nas ruas assisto à grosseria
das manhãs de aqui. O vazio imitando o melhor
que sabe (do que se lembra e pelo que ouviu)
a ordem mágica do despertar. A região
não tem pássaros, é de uma frieza
inquietante. Servida de ecos, gritos
abafados. Sempre um mau tempo que
não se explica. Se ao menos as árvores
se calassem, gerassem frutos, mas não.
E o vento arrasta-se eriçadamente,
esfomeado, geme. Parece às vezes
falar sozinho. Umas ideias estranhíssimas.
As laranjas chupam-nas ainda uns garotos
no nosso lugar. Já não recordava era estes sorrisos
rasgados de violência, os olhares queimando
a distância. Sempre um houve melhor
assobiando o desconsolo, mas entre estes
é o mais novo que fica de um lado para o outro,
triste, cantarolando uns horrores.
Nos charcos é fácil perceber o olhar frio
dos deuses. Habituamo-nos, desligamos.
As flores ardem num instante, apagam-se,
deixam-se pisar. Uma luz extenuada
prossegue os trabalhos da tarde, compõe
as suas lentas simetrias. Eu
tento recuperar os nomes às iniciais
entre a ágil retórica dos muros nesse desvio
face aos dias em que jurámos nunca
crescer. Não restam agora quaisquer
dúvidas: Crescemos.
Uma melodia vai e vem coxeando pelo
parque – a velha orquestra de três ciganos
adivinhando a chorosa sinfonia
do caos. Ali mesmo, onde me apanhaste,
quieto, olhando. «Desculpa,
lembras-me muito de alguém.»
Era o sangue trepando de novo
esse desejo imenso de misturar-se,
extrair um sol à carne, um mel sombrio
à voz. Com que palavras depois de
tanto tempo?... Recolher pedaço
a pedaço essa fantasia adormecida:
o cheiro do sal, o cabelo negro, sardas,
dois olhos como se o verde fosse a
medida certa e o embalo do mundo.
Os copos, no meio caminho, disfarçam
braços partidos, gestos incompletos
coçando uns restos de alma.
É evidente a influência de Goya
nas suas sombras. Estendem-se, magoadas,
como se vissem frustradas as suas intenções.
Há nelas mais força que nestes corpos.
Mártires da idade, lembram tudo
tão mal, mas tornam-se quase proféticos
nas poucas palavras que dirigem ao futuro,
e o inferno, esse que se segredam, parece
tão próximo. Como se um urro ou mesmo
um suspiro mais forte pudesse apagar
a luz que sustém essa frágil fronteira,
murmuram baixinho este hino áspero
de um país que é cada vez mais
um antro de putéfias e escroques.
Sabemos todos o que nos espera.
Quarta-feira, Setembro 14, 2011
O que peço ao dia
O que peço ao dia já não é
que se cumpram os sonhos, que me entregue
cumpridos os desejos de outros dias,
porque enfim aprendi que os sonhos
são como as asas de um insecto,
quando lhes tocamos desfazem-se;
quando um sonho se realiza torna-se outra coisa
que não ajuda a voar.
O que peço ao dia começa a ser, aliás,
mais difícil ainda de alcançar
que sonhos realizados, porque exige
a antiga fé nos sonhos.
O que peço ao dia é simplesmente
um pouco de esperança, essa forma modesta
de felicidade.
- Vicente Gallego
in El sueño verdadero, Visor
Terça-feira, Setembro 13, 2011
Epístola sobre o suicídio
Matar-se a si mesmo
É uma coisa insulsa.
Pode-se cavaquear sobre isso com a lavadeira.
Discutir com o amigo os prós e os contras.
Um certo patético, que atrai,
É de evitar.
Embora isto não tenha de ser nenhum dogma.
Mas melhor parece-me no entanto
Uma pequena aldrabice como de costume:
Que se está farto de mudar de roupa, melhor ainda:
Que a mulher nos foi infiel
(Isto resulta naqueles que ainda se espantam com coisas destas
E não tem lá muito de grandioso.
Em qualquer caso
Não deve parecer
Que a gente se tinha
Em grande conta.
- Bertolt Brecht
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Asa
Argumento
Como viver sem desconhecido diante de nós?
Os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.
Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perdem, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome.
Nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.- René Char
(tradução de Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
Um pássaro...
Um pássaro canta sobre um fio
Essa vida simples, à flor da terra.
Com isso se alegra o nosso Inferno.
Depois o vento começa a sofrer
E as estrelas dão-se conta.
Ó loucas, por percorrerem
Uma tão profunda fatalidade!
- René Char
(tradução de Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
175
Encanta-me o povo dos prados. A sua beleza frágil e desprovida de veneno, não me canso de cantá-la. O arganaz, a toupeira, crianças sombrias perdidas na quimera da erva, a anguinha, filha do vidro, o grilo, imitador como não há outro, o gafanhoto que crepita e contabiliza o enxoval, a borboleta que se finge bêbeda e irrita as flores com os seus soluços silenciosos, as formigas instruídas na sensatez pela grande extensão de verde, e imediatamente em cima as andorinhas meteoros...
Pradaria, sois a boceta do dia.- René Char
(tradução de Margarida Vale de Gato)
in Furor e Mistério, Relógio d'Água
O comunista de teatro
Um jacinto na lapela
Na Kurfürstendamm
O jovem sente
O vazio do mundo.
Na retrete
Parece-lhe bem claro: ele
Caga para o vazio.
Cansado do trabalho
Do seu pai
Mancha os cafés,
Sorri perigosamente
Por trás dos jornais.
É ele quem
Há-de esmagar este mundo
Como um montão de bosta.
Por 3.000 Marcos por mês
Está pronto
A encenar a miséria das massas,
Por 100 Marcos por dia
Mostra ele
A injustiça do mundo.
- Bertolt Brecht
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Asa
Segunda-feira, Setembro 12, 2011
Domingo, Setembro 11, 2011
São marcas suaves, um pouco de mim que se modela
nas coisas, meu alucinado desejo de permanecer...
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Sábado, Setembro 10, 2011
Dente por dente
meu amor
por aqui tem se ido continuo
o mesmo e você
já
continua a mesma?
________apesar
de tudo
demônio te
amo
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Substância
a fazenda retira poemas do bolso
vida no rio é vida de barro
se a pedra mais bicuda se arredonda
vai mudando
Igarimã está igual há anos
séculos tupiniquins americanos
ainda não encamparam
Igarimã a poesia explícita
vida mansa
________ócio do ofício
desce o rio provocando a criança
tem tempo presa no peito
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Sexta-feira, Setembro 09, 2011
Lar doce lar
para Maurício Maestro
Por isso vivo no exílio
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Passando
Passado o caminho o encontro o pássaro ouvido
Dentre os lençóis envelhecidos
Durante a noite
- Alberto de Lacerda
in Oferenda II, Imprensa Nacional
Quarta-feira, Setembro 07, 2011
The words are fighting each other to get out
I hear via a couple of attractive grapevines, that you are having trouble writing. God! I know this feeling so well. I think it is never coming back—but it does—one morning, there it is again.
About a year ago, Bob Anderson [the playwright] asked me for help in the same problem. I told him to write poetry—not for selling—not even for seeing—poetry to throw away. For poetry is the mathematics of writing and closely kin to music. And it is also the best therapy because sometimes the troubles come tumbling out.
Well, he did. For six months he did. And I have three joyous letters from him saying it worked. Just poetry—anything and not designed for a reader. It’s a great and valuable privacy.
I only offer this if your dryness goes on too long and makes you too miserable. You may come out of it any day. I have. The words are fighting each other to get out.- John Steinbeck
(post retirado daqui)
A perspectiva mente
Por querer pra este tempo alguma luz,
distraindo o tédio de sua obscura tarefa,
pus-me a pensar em dias de outro agosto
que na memória brilham como um farol:
esse agosto em que um miúdo foi feliz.
Ou é pelo menos o que imagina este homem
que é agora aquele miúdo,
porque compreendeu que essa luz
não lhe chega desse tempo, e que é a memória
quem a põe em cena quando os anos passam.
Numa terra pequena, debaixo do céu
inexplicável e alto dos velhos verões,
os garotos aborrecem-se: esse mundo,
com horas para regressar e proibições,
parece-lhes pequeno. Para matar as horas
escondem-se dos pais, fumam, dizem
que fumar às escondidas já cansa,
que estão fartos da terra, dos pais,
de esperar que a vida, a verdadeira vida,
comece.
Sim, naquelas cenas
tudo era a preto e branco, é é apenas a memória
perita em adornar velhas películas
quem lhes dá o seu pigmento de alba pura.
A experiência ensina-me que estas tardes de tédio,
quando esqueço as suas sombras
e me envolvo nas sombras de outras tardes
ainda que mais negras, ficarão registadas
como um tempo feliz nas minhas recordações,
e hão-de consolar-me nas horas mais difíceis.
Deve haver certa luz nas tardes de agora,
a experiência ensina-o.
O que não nos ensina a maldita experiência
é onde se esconde, de que modo gozá-la no presente,
nem porque cruel motivo qualquer tempo que logo
brilhará como um sol na memória
terá que ser vivido à luz de uma vela.
- Vicente Gallego
in El sueño verdadero, Visor
As quatro estações
O outono e essas ruas
douradas pelas folhas dos livros.
O inverno de neve
tal como um longo e triste hendecassílabo.
Segue-se a primavera enamorada
lendo algum poema de Virgílio.
Não tarda chega o verão e, como sempre,
um gajo manda os versinhos pró caralho.
- Fernando López de Artieta
in Nadie Parecía, nº1, Primavera de 1999, Sevilla
Terça-feira, Setembro 06, 2011
Estatística
De todas as maneiras que o amor
é capaz de inventar para matar-se,
são as mais compassivas as que muitos
consideram mais cruéis: a traição,
a mentira, qualquer suicídio rápido
que certifique o fim com muito sangue
e permita lavá-lo com o choro.
Mas o amor é cruel consigo mesmo,
ou então é lerdo, pois costuma
escolher uma morte sem nobreza
através de uma arma lenta e triste:
esse gás repulsivo e venenoso
que acaba dando lugar aos bocejos.
- Vicente Gallego
in El sueño verdadero, Visor
Segunda-feira, Setembro 05, 2011
Fraquezas
Pelas fraquezas é que uma obra nos toca e é copiada. Quanto mais as tiver, mais ar de pedra caída de um astro. Strindberg maravilha-nos porque não saberia andar de mão em mão. Cai da lua. Está rodeado de vazio, eriçado de espinhos, eriçado de luz dura. Não lhe pega quem quer. No seu contacto não nos é consentido agarrar, apenas conhecer. Nenhum segredo conseguiremos devassar-lhe.
- Jean Cocteau
Táxi
O poeta passa de táxi em qualquer canto e lá vê
o amante da empregada doméstica sussurrar
em seu pescoço qualquer podridão deste universo.
Como será o amor das pessoas rudes?
O poeta não se conforma de não conhecer
todas as formas da delicadeza.
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Domingo, Setembro 04, 2011
Postal
______________Nenhum mar
Um domingo. Um tridente.
Dois cavalos. Meu coração segue cego e feliz
_____________________como
____________carta
extraviada
- Cacaso
in lero-lero, Cosac & Naify
Sábado, Setembro 03, 2011
à memória de Gregório de Freitas, meu tio
Vejo-o sempre de chapéu, foice
sobre o ombro, adivinhadas ceroulas.
Foi um dos meus primeiros medos,
e não tanto pela incúria com que
o velho Opel descia do Estreito
a São Martinho, arrogando
como prioridade a aguardente,
depois das infalíveis espetadas.
Dizia que os livros só faziam mal
e talvez tivesse razão, nessa casa
onde nem uma Bíblia havia.
Era feroz e bruto como a terra
ou os escuros animais que encarcerava
entre as vinhas e bananeiras.
Dizia também o preço de todos os fatos
que vestia, com a alegria sumptuária
de quem nasceu pobre e não ignora
que na morte ficará mais pobre ainda.
A morte, para ele, era deixar de comer
carne, não ter já o corpo pesado
que pudesse trazer à rua os fatos.
Obrigava-me, na penumbra da tarde,
a cortar-lhe as unhas sujas de guano
que atestavam décadas de fazenda
e regavam a desoras, por contrato.
Nunca lhe perdoei tanta coisa;
ia ficando cada vez mais longe do riso
e do rancor da bisca, do terço com que
na rádio aplacava as superstições e o tédio.
Preferia, contudo, que não tivesse morrido.
- Manuel de Freitas
in A última porta, Assírio & Alvim


















