Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Traduzido de Kleist

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos.


- Sophia de Mello Breyner Andresen
in A Perspectiva da Morte: 20 (-2) Poetas Portugueses do Século XX
Selecção e prefácio de Manuel de Freitas, Assírio & Alvim

Regras para a "oficina de poesia" do Capitão Ahab em Provincetown

1. Sois livres de escrever um poema sobre qualquer assunto, desde que diga respeito à Baleia Branca.
2. Será concedido um dobrão de ouro ao primeiro que entre vós aviste num poema a Baleia Branca.
3. O Prémio Chamem-me Ismael será atribuído ao melhor poema sobre a Baleia Branca, o qual será publicado na Revista Baleia Branca.
4. O Piquenique e o Jogo de Beisebol de Homenagem a Herman Melville estarão abertos a todos aqueles que entre vós escrevam um poema sobre seguir o seu Capitão até aos fundos do inferno para matar a Baleia Branca.
5. Haverá um caixão gratuito à deriva para todo o participante na "oficina" que caia borda fora enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
6. Haverá uma perna gratuita, talhada em mandíbula de baleia, para todo o participante na oficina que seja atirado do mastro enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
7. Haverá um funeral gratuito em pleno oceano, que incluirá um coro de aguerridos lobos do mar entoando cânticos marítimos sobre a Baleia Branca, para todo o participante da "oficina" que seja decapitado enquanto escreve um poema sobre a Baleia Branca.
8. Aquele que entre vós não busque a Baleia Branca nos seus poemas será arpoado.

- Martín Espada
(tradução de LP)

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RACINENEMENT

Sinais dos tempos, caro
Fedro; eis-te comezinho
e reles, sexo duvidoso
como em ti quase tudo
un homme pourri et
qui cherche à pourrir,
dir-se-á talvez, enquanto
com as unhas que Cronos roeu
levantas a caspa do afecto.
Deixa lá a condição suburbana,
a dor fresca, nada altissonante,
bagatelas várias em que
te corrompes rindo.

Hipólito e Arícia, teus
fecundos e imortais comparsas,
injectam-se de felicidade.
Trocaram Rameau por tecno japonês
e já não há poeta no mundo
que salve o enredo, uma vez
que o gordo lenhador do Kremlin
ceifou o último que podia.

Sinais dos tempos, sombrios.
O incesto, cansado de romances,
foi relegado para a telenovela
da tarde. Destino semelhante
ao doce & tirano amor,
constantemente em saldo
num abismo pouco virtual
que o Estado, sozinho, cronometra
(e até Luís XIV era um décent
gentilhomme, comparado
com a plebe que nos governa).

Em suma, meu mongolóide azul,
está tudo dito e redito. Reciclam-se
emoções, a literatura possível.

- Manuel de Freitas

Terça-feira, Setembro 29, 2009

Raymond Carver

(...)

Os meus poemas não são, é claro, literalmente verdadeiros - os acontecimentos não aconteceram de facto, ou pelo menos o que acontece no poema não aconteceu do modo como eu digo que aconteceu. No entanto, tal como na maior parte da minha ficção, há um elemento autobiográfico nos poemas. Algo parecido com aquilo que neles acontece aconteceu comigo num certo momento, e a memória disso permanece em mim até encontrar a sua forma de expressão. Dito de outro modo, frequentemente o que vai sendo descrito no poema foi, a um certo nível, um reflexo do meu estado de espírito no momento em que estive a escrever. Julgo assim que, em larga medida, os poemas são mais pessoais do que as minhas histórias e, por essa razão, mais "reveladores".
(versão minha do 3º parágrafo do depoimento do poeta reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, selecção e organização de William Heyen, Ontario Review Press, Princeton, New Jersey, 1984, p. 24).

Um novo ismo

ALTERMODERN*


“O Pós modernismo está morto”. Com esta declaração controversa, o historiador de arte Nicolas Bourriaud inaugura a Atermodern Tate Triennial 2009. Nela, estão agrupados uma série de artistas que, protegidos pela lógica de um manifesto, aderiram a uma corrente que sustenta que a crioulização (fusão étnica, miscigenação da arte europeia, como uma importação artificial de influências de todo o mundo a um epicentro, Londres?) é um acontecimento que está a influenciar as tendências artísticas da actualidade. No entanto, o manifesto que agora apresentamos traduzido para português, deixa muitas perguntas sem respostas. Por exemplo: Qual é o pós-modernismo que segundo eles está morto? O que deriva da condição de uma sociedade pós industrial, talvez unicamente visível em sociedades desenvolvidas, ou o que se manifestou na arte, que nunca foi exactamente localizável?
A discussão não é se a pós-modernidade é um acontecimento teórico ou um princípio estético que nunca ficou claro em que consiste. O pós-modernismo é a forma mais acabada da modernidade? Se a discussão sobre o que é em si a pós-modernidade cria a um grande número de debates, anunciar a sua morte como se fosse uma inteligência que desfruta de vida própria, deixa um ar de suspeita que mais parece um elemento a contribuir para a confusão em si generalizada que nunca a conseguiu definir. É como categorizar e dar impulso a um conceito substituto através de uma declaração determinista e vazia; a altermodernidade não se delimita a si mesma e afirma que o artista deve partir da globalidade. Que globalidade? A imposta pelos meios de comunicação, ou a imposta pelas grandes empresas transnacionais com fins económicos? Este manifesto aqui apresentado, não fala também sobre a situação da arte na sociedade actual. Bourriaud não só declara o início de uma nova época (fundada seguramente na morte de outra, que nunca foi bem reconhecida e que pode nunca ter existido), como também denomina ainda alguns representantes desta Altermodernidade para que possamos reconhecer esta tendência. No campo da música, os franceses Beirut, na literatura, o alemão Antony Sebad e o espanhol Enrique Vila-Matas (pergunte-se ao autor de Bartleby & compañia se é da mesma opinião) são considerados representantes desta corrente. Entre os artistas que expõem obras nesta trienal, estão: Franz Ackermann, Spartacus Chetwynd, Shezad Dawood, David Noonan, Simon Starling, Pascale Marthine, Subodh Gupta e Peter Coffin. Nicolas Bourriaud assinou o manifesto.
Cabe-nos agora fazer uma pergunta que parece pertinente. O nascimento de um novo “ismo” que afirma a morte de outro, não será um começo forçado ou uma fórmula repetida que todos os movimentos auto denominados de vanguarda e ruptura utilizaram?
Seja como for, este novo conceito pode contribuir para a criação de novas teorias, através da refutação/integração deste manifesto inaugural da Tate Triennial 2009, com base num debate saudável sobre arte contemporânea.



MANIFESTO
ALTERMODERN*


O PÓS MODERNISMO ESTÁ MORTO

Uma nova modernidade está a emergir, reconfigurada para uma nova época de globalização - entendida como económica, política e cultural: Uma cultura altermodern.
O aumento das comunicações, viagens e migrações estão a afectar a maneira como vivemos.
A nossa vida é marcada por um caótico e frenético universo.
O Multiculturalismo está a ser ultrapassado pela crioulização: Os artistas estão agora a começar a partir de um estado de cultura global.
O novo universalismo está assente nas traduções, legendas e dobragens generalizadas.
A Arte de Hoje explora os laços que o texto e imagem, tempo e espaço, constroem entre eles.
Os Artistas estão a responder a uma nova perspectiva globalizada. Atravessam uma paisagem cultural saturada de sinais e criam novos percursos entre múltiplos formatos de expressão e comunicação.
A Tate Triennial 2009 na Tate Britain apresenta uma discussão colectiva à volta da ideia que o pós-modernismo está a chegar ao fim, e nós estamos a experimentar a emergência de uma globalidade altermodern.

Nicolas Bourriaud
Altermodern – Tata Triennial 2009-03-09 na Tate Britain
4 de Fevereiro – 26 de Abril 2009



*Manifesto escrito para a Tate Triennial 2009.

__________________________________
- Rober Diaz
in Sin-ismo nº 1 - Junho de 2009

A correcção do mito

Duas irmãs há muito habituadas a corrigir a História entraram num labirinto em tudo parecido com o de Creta. Procuraram uma loba negra, muitas vezes a ouviram uivar, outras vezes ouviram-lhe as pegadas. Sentiam-na perto. Assim que a ouviram aproximar cantaram uma antiga canção arménia e a loba apareceu ensonada de uma estranha vigília. Fizeram-na adormecer. Levaram-na ao colo até ao Lácio para que aí pudesse amamentar os fundadores de Roma. O Minotauro que aí andava à deriva foi conduzido até ao primeiro labirinto.

O hiper-realismo em Pier Paolo Pasolini

“Uma Vida Violenta” foi publicado pela primeira vez em Milão em 1959 e gerou uma torrente de críticas por parte de Organizações católicas e do partido Comunista Italiano. Mas a crítica literária italiana considerou-a desde logo uma obra fundamental da literatura contemporânea. No mesmo ano Pasolini recebeu o “Prémio Literário Città de Crotone”. Do júri, faziam parte, Alberto Morávia, Giuseppe Ungaretti e Carlo Emílio Gadda.
A acção passa-se em Pietrala, um bairro dos subúrbios de Roma. Narra o crescimento: infância, adolescência e início da vida adulta de Tommaso, personagem central e do seu grupo de amigos mais próximos: Lello, Zucabro e o Cagone. No bairro prolifera a prostituição e o roubo. Aí os amigos crescem juntos, roubam e divertem-se juntos. Mas Pasolini não crítica de forma simples a sociedade italiana do pós-guerra, retrata-a sem qualquer interpretação.
O símbolo é usado de uma forma muito concreta num hiper-realismo levado ao extremo que potencia os aspectos de absurdo que a realidade sempre permite que aconteçam. Bom exemplo disso é a cena em que Cagone rouba o azeitoneiro, velhote da província que vende azeitonas numa esquina de Pietrala. Cagone pede que lhe dê azeitonas, o azeitoneiro exige primeiro uma nota. Cagone irrita-se, exige-lhe as azeitonas, todos os outros atrás se riem. O azeitoneiro insiste, Cagone pega numa nota, molha-a bem no balde gorduroso, esfrega-a na cara do azeitoneiro e com uma patada deita-lhe o balde abaixo. Ele fica no chão a queixar-se. É uma história simples de subúrbio ausente de qualquer simbolismo, daí hiper-real.
A alegoria não entra em Pietrala, o mito de uma sociedade desgastada da guerra também não se adequa aqui. Pietrala não chega a ser Roma. Os amigos que a certa altura pertencem a movimentos de extrema-direita vagueiam pelas ruas à toa, metem-se com as prostitutas, às vezes vão a Roma assaltar um ou outro que passe. São de extrema-direita só porque os outros são e isso é um elemento que une, que provoca identificação e pertença a um grupo, a periferia nutre-se e sobrevive desse tipo de relações, necessita de união para sobrevivência.
O trama não é essencial, o essencial é a relação de um grupo de amigos que crescem juntos. Não são a cidade eterna que cai e se levanta, são só um grupo de amigos, muitos entre outros em Roma ou em qualquer grande cidade ocidental.
Pasolini utiliza o calão, a linguagem urbana, a linguagem interna de certos grupos de amigos que noutro contexto deixam de fazer sentido. Lello que cresce com Tommaso, cedo começa a ir para a vida. Aluga um recém-nascido a uma mulher sem dinheiro e com muitos filhos e com ele ao colo pede nas ruas. Tem que recorrer muitas vezes à assistência do Vaticano que oferece sopa quente à noite. Numa das vezes ao comer a sopa depara-se com um preservativo na tigela. Tommaso é preso e passados dois anos regressa a um novo bairro social recentemente construído. Consegue trabalho num mercado de peixe e na apanha da melancia. Fica doente de tuberculose, mas só lhe é descoberto quando faz os exames para o serviço militar. É internado num hospital para doenças pulmonares. A mãe do Cagone, prostituta, é morta pelo chulo depois de uma discussão. No fim há umas grandes cheias num rio perto de Pietrala. Tommaso tenta salvar pessoas em perigo mas é ele que acaba por morrer.
O condicionalismo histórico (Social, Económico e Cultural) é usado por Pasolini com uma grande originalidade, é ele e não Tommaso, a personagem principal. É ele que determina a formação e acção dos grupos. Em Pasolini a vontade individual é um factor ilusório que às vezes parece possível ou se torna possível mas nunca determinante. Pode-se falar num anti-romance em que a trama pode ser muito parecida com a tragédia grega, numa altura em que Roma começa a recuperar da segunda Guerra. “Uma Vida Violenta” é uma alegoria ausente de simbolismo, uma novela hiper-realista em que a ficção não tem lugar, porque também ela existe e porque também ela é suja.



O Bruno Aleixo não me diz muito, já o Jorge Daniel é outra história.

Alejandra Pizarnik

INFÂNCIA

Hora em que a erva cresce
na memória de um cavalo.
O vento pronuncia discursos ingénuos
em honra dos lilases,
e alguém entra na morte
com os olhos abertos
como Alice no país do já visto.


(tradução de Maria Sousa)

Isto é uma guerra

Não há a quem
mostrar estes poemas
Não chames um amigo para testemunhar
o que tens de enfrentar sozinho
Estas são as minhas cinzas
Não tenciono poupar-te qualquer esforço
mantendo-me em silêncio
Não és ainda tão forte como eu
Tu acreditas em mim
mas eu não acredito em ti
Isto é uma guerra
Tu estás aqui para seres destruído

- Leonard Cohen

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Finalmente as coisas esclarecem-se

Eu não estava a perceber bem o enredo, mas assim (em esquema e tudo muito bem explicado), já faz mais sentido. Realmente a mim estava a fazer-me alguma confusão tudo isto, já que eu não queria por nada deste mundo ser levado a acreditar que o Jorge Reis-Sá, essa figura que só posso classificar como "lírica", entre outras propostas sempre entusiasmantes mas pouco claras, estaria agora apostado em contar às criancinhas uma estória de ir dormir sobre a poesia portuguesa contemporânea, trocando o sentido todo a tudo a ver se se safava, a ele e aos amigos, distribuindo por todos um papel na peça, digna aliás e como se vê de um autêntico theatro-circo.

Baloiço

O tempo no baloiço pendulava
e era infindo, dependente, meu.
Sob a latada o tempo eu conduzia,
ele voava segundo a segundo,
rebanho, sem poeira, desfilava.

Quase tocava nos cachos de uva.
Outro tempo infiltrava-se nos bagos,
chamava pardais, abelhas, cestos vindimos,
e embrandecia, adoçava a sua queda.

- António Osório

A memória tripartida

I.
Comprei as memória de Borges e de Shakespeare a um estranho homem que se escondia no Borgo della Morte em Veneza. O seu rosto era diagonal e em tudo se parecia com o sumo de cerejas maduras a pingar no espaço sem gravidade. Trazia na mão uma foice de vidro e fumava de uma agulha comprida algo que me parecia ser todo o cristianismo. Não interessa a escolha do caminho mas a intensidade com que se o percorre.

II.
Ditou-me em dialecto sumério o terceiro segredo de Fátima e contou-me os sonhos dos meninos que dormiam em Pompeia antes da irrupção. Os sonhos sabiam a cereja, o negro transmitiu-mos não por palavras mas num dialecto gustativo. Através de linguagem sensorial ofereceu-me também a memória de Ricardo Piglia e a de um falso moedeiro que se encontra no inferno. Perguntei-lhe se era a minha alma que queria, o homem acendeu os crucifixos que trazia ao peito. Eram de tabaco negro os três Cristos invertidos.
Partiu-se o seu rosto em pequeninos cristais e reconheci neles todas as caras que tinha visto durante a vida. O múltiplo homem que encontrei era todos a olhar para mim. No seu olhar também me reconheci a mim. Sabia também a cerejas a memória de Papini. Por serem uma só as de Abellardo e Heloísa tive-as de imediato.

III.
A ele pedi que me deixasse entrar no seu dicionário ilustrado do psiquismo humano que era uma torre latina de vários andares. O que lhe pedi foi a máxima experiência humana. Se bem que a primeira incorporasse a segunda, evoluí no erro com as três.


Era um tio. Era quase um tio. Nunca
tinhas visto e (o que é pior)
não voltarás a ver ninguém assim.
Esquecia-se das levadas, da água
medida e, por isso mesmo, dolorosa.
As bananeiras, de uma maneira ou doutra,
haveriam de crescer felizes e abandonadas
como as crianças que não quis ter.

Tinha andado pelas europas, polícia
sem gosto de prender, convencido de
que a vida não era um argumento válido
(no que tinha, obviamente, uma razão danada).

Depois cegou, morreu, foi sempre
descalço à cidade. Chamar-lhe-ia, se ele
pudesse saber, Cioran das foices.

Mas chegava-lhe o bagaço, uma
sopa, a doce vontade de morrer.

- Manuel de Freitas
Levadas, Assírio & Alvim

Canção

a beleza é uma concha
do mar
onde triunfante reina
até o amor dela se apoderar

vieiras e
garras de leão
esculpidas ao
som das ondas que se afastam

eternos acentos
repetidos até
olho e ouvido jazerem
juntos na mesma cama

- William Carlos Williams

Domingo, Setembro 27, 2009

A árvore sem folhas

A cerejeira sem folhas
mais alta que o telhado
o ano passado deu
muita fruta. Mas como
falar de fruta perante
tal esqueleto?
Embora possa estar viva
nela não há fruta.
Por isso abatam-na
e usem a lenha
contra este frio cortante.


- William Carlos Williams

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Mazouco (Abril de 2009)

e passar sobre as coisas, sugar-lhes o som até as extirpar do seu nome, desenvolver disso uma flor de raiz sombria, um enfeite de carne intocável, que às tantas deixou até de se ver, mas alguém disse que viu, alguém ouviu falar. e às coisas, ignorá-las, deixá-las de fora e escrever, escrever até à exaustão: erguer os muros de uma prisão livresca, fazer vítimas, reféns, prisioneiros – que belo exercício! – cantar, cantar numa entoação perfeita, levá-los através do esquecimento por uma imaginação alérgica às coisas. encantá-los a todos, numa entoação, oh!, mais que perfeita, assaltando (justamente) até o ritmo em que respiram, ortograficamente sim, gramaticalmente irrepreensível. que exercício devastador!, o mais extremo exercício: a beleza cada vez mais funda no vazio, eco de um eco sem nenhuma outra relação, até vencer Deus, pois que mais?, e completar a desertificação. belíssimo!, e não, claro, obrigado. não bato mais palmas mas é das mãos que as tenho já em sangue. Agora, se me desculpar, gostaria de voltar atrás. tenho saudades do cheiro, sabe?, e da consistência dos pêssegos...


ou (e longe de querer ofender):

passar sobre as coisas, sugar-lhes o som
até as extirpar do seu nome, alimentar disso
uma flor de raiz louca, um enfeite de carne
intocável, que às tantas deixou até de se ver,
mas alguém disse que a viu,
e alguém ouviu falar.

e às coisas, ignorá-las, deixá-las de fora e escrever,
escrever até à exaustão: erguer os muros de uma prisão
livresca, fazer-lhe vítimas, reféns, prisioneiros – que belo
exercício! – cantar, cantando numa entoação perfeita,
levá-los através do esquecimento
por uma imaginação com nojo às coisas.

encantá-los a todos, numa entoação
oh! mais que
perfeita, assaltando (justamente) até o ritmo
em que respiram, ortograficamente sim,
gramaticalmente irrepreensível. que exercício
devastador!, o mais extremo exercício:
a beleza cada vez mais funda no vazio, eco
de um eco sem nenhuma outra relação,
até vencer Deus, sim,
que mais?, e completar a desertificação.

belíssimo!, e não, obrigado claro.
não bato mais palmas mas é das mãos
que as tenho já em sangue.

Agora, se me desculpar, gostaria de
voltar atrás. tenho saudades
da cor, veja só,
e do cheiro das rosas...

Uma espécie de canção

Que a víbora espere sob
as ervas daninhas
e a escrita
se faça de palavras, lentas e rápidas,
prontas ao ataque, aguardando pacientemente,
em vigília.

– e através da metáfora reconciliem
as pessoas e as pedras.
Compões. (Ideias
só nas coisas) Inventa!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.


- William Carlos Williams

Sábado, Setembro 26, 2009

Melvin sits alone, nursing a drink. He's been talking to the bartender.

MELVIN
So then, the next thing I know,
she's sitting right next to me,
and then, well, it's not right to
go into the details, but I screwed
up. I got nervous. I said the
wrong thing and if I hadn't, I
could be in bed now with a woman
who if you could make her smile
you got a life. Instead, I'm here
with you - no offense - a moron
pushing the last legal drug.

As Good as It Gets (1997)

A Diária

Um fósforo aceso no escuro Lisboa
Muito cedo. Passa do muro indigo
às casas; e vai resgatando partes
Do arvoredo. Põe a traqueia em risco
Fedegosa – Sabias? Vamos para o emprego.

A pequena actriz procura trabalho
E deixa-se foder. Entram padrões
De consumo a erguer o riso muito
Mais em baixo: espectáculos de rua.
São argolas de um muro... presas
Onde o rio – bate, farmacopeia sua.

Enquanto dois velhos sonâmbulos
Ptão e Raz, concebem disto – a fundo
Uma nova peça para antigos amos:
Cedo Lisboa raspada num fósforo cheira
Um pouco a terebentina e mar. Um gato

No casco, mija para entrar no segredo.
Por mais folhas que suba o sol
Segura mal velhos observatórios
A templos recentes. Tal como
O país terá de escolher: ou menos
Puta ou melhor actriz.

- Gil de Carvalho

Isto sim,

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está a ser um pequeno milagre entre tantas outras promessas...

É uma estória pequena e triste dessas que quase já ninguém conta, mas aconteceu ali para os lados de Tomar. Um gajo com vinte e poucos mas desses sem sentido nenhum, conheceu uma miúda, mais nova ainda, mas com família. Gente séria a olhar por ela, falando-lhe na importância de construir um futuro, uma coisa em grande. Mas ainda foram a tempo de se conhecerem.
O pai só a deixava vir cá fora e perder uns dez minutos enquanto deixava o lixo, isto antes do velho desatar aos berros, e era só essa a janela de oportunidade deles. Depois ela estudava e fazia tudo como deve ser, já ele não tinha grande educação, trabalhava na construção e vivia nuns arrabaldes a uma hora dali, isto apesar da motorizada vir a acelerar o mais que podia pelos caminhos de cabras, ainda assim duas horas, depois de outras tantas lá nas obras, a acartar com merdas pesadas... Uma hora para ir mais outra para voltar, tudo isso por dez minutos com ela, durante dois anos, dois anos. E foram dois anos porque ela enfim cresceu, ganhou juízo (diz-se que sim), casou com um gajo desses com futuro e um carro que até parecia bem, parado à porta da casa dela. E casou-se com esse, deu-lhe filhos e o resto.
Os encontros com o outro, nas traseiras junto aos caixotes, hão-de ter ficado junto a outras recordações adolescentes, parvoíces dessas de quando éramos novos.

Através de abandonados sonhos faltam
sempre títulos aos poemas, folhas que não
posso esquecer
a vigorosa voz dos cantos, a velocidade
com que no quadro branco do coração se
imprime o traço,
a cor do desejo desenhado.
Através dos abandonados sonhos surge o
conhecimento do nome
de outros nomes a marcada
obscura fala;
o declínio e a queda trazem as casas da
aldeia no mais comum pulsar. Erguem e
sofrem a própria mudança. Estendem-se pela
variada cor, longas escalas gravadas no
vidro e nos prados da manhã
vão lançando limites nos limites do
seu querer.

- João Miguel Fernandes Jorge

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Escrevia a giz nas paredes as obscenidades que
via nas retretes do cais. Cruzava a cidade a partir
de um olhar, mas estava sempre do outro lado de
um inventário, realidades, propósitos escondidos.
Reinava sobre a nossa vida como o campo de acção
envolve o homem comum, o saber dizer na perdida
liquidez de uma cidade.

Escrevia sobre os gestos adivinhados de quem
esquece, sobre a mesa do conhecido na véspera,
nos cafés e nas ruas pelas tão tristes horas do dia.
Estava ali, apanhado; parecia um mecânico, um
amanuense pousando para um retrato
sob o soluçado escrito na parede branca. Depois,
os desejos são tanta vez um número de telefone, as
esboçadas flores das árvores do jardim, um barco
que se viu partir do cais do Tejo para a noite.

Dava voltas e voltas ao largo, círculos cada vez
mais fechados à roda do cruzeiro. Rápido encostava a
bicicleta ao muro onde, por detrás, os seus jardins são
projectos abandonados e parava, assim, como acabara
de o fazer na véspera; muito igual e sem título.


- João Miguel Fernandes Jorge

Um Mito de Devoção

Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.

Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.

Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.

Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?

Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.

Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,

porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -

Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.

Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.

Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.

Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja dizer-lhe amo-te, nada te ferirá

mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá

o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.


- Louise Glück
(tradução de Rui Pires Cabral)
Telhados de Vidro, nº 12, Averno

A mão ao assinar este papel

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende
o seu domínio sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos
mas não acalmam a ferida que está cicatrizada,
nem acariciam a fronte;

há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

- Dylan Thomas

Arte Venatória

As imagens servem quem as caça,
o buraco veloz onde se renovam
as palavras todas, a tarde
entrara com os ombros e ela
cumpria o rito, nas latrinas.
Acordou com o disparo. Fora
um sonho que, cansado de esperar
a noite, atravessara, rápido,
a clareira do céu, tal como a
raposa fugindo da chuva traça,
na lebre, um rasgão sem sombra.

- Gil de Carvalho

Quinta-feira, Setembro 24, 2009


«As lagartixas vivem cercadas pelas crianças. Delas esperam tudo: o alimento e a morte. É um pacto, um comércio tácito cheio de enigmáticas intenções. Uma linguagem de dádiva e crueldade, pela qual pessoas e bichos fascinadamente se conhecem. Porque as crianças são lagartixas fortes que decretam as leis de relação. No silêncio amarelo e saturado da praia, iniciam o jogo ritual da cidadania. Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos, pedacinhos de gordura. Podem afugentá-las de repente com um gesto inimigo. Ou cortar-Ihes as caudas num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão. Ou prender, na mão fechada, os corpos frios e aterrados. Ou matá-las, libertá-las.

Mas as crianças pagam os direitos do poder. Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos. Armam-se então de uma grande paciência animal, uma secreta humildade para com as forças que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.

Todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura oblíqua, uma lírica sumptuosidade, uma pura exaltação. As crianças amam as lagartixas com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizado arrebatamento.

Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas. Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas. Por cima de cada morte urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria a ambígua antecipação que abre portas imediatamente fechadas. E depois possivelmente reabertas. As invenções bebem no gosto da dor, das pequenas catástrofes. A fúria corre silenciosamente para as mãos sábias, uma fúria inteligente e mesquinha. Invenções e mãos que nunca se aplacam. A crueldade inventa sem parar. Aperfeiçoa instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, límpido e tenebroso. Um estilo de propósitos severos, quase místicos.»


- Herberto Helder, Photomaton & Vox

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

Brutinhos

Num artigo a propósito do mais recente livro de Manuel Cintra (Alçapão, &etc., Maio de 2009), Henrique Fialho diz o seguinte:
«há na poesia actual uma tendência algo snob para disfarçar o indisfarçável. Uma imensa maioria dos poemas que por aí se lêem só merece a designação de poemas porque quem os escreveu resolveu partir em verso as pequenas histórias que saltaram para a página. Caso contrário, seriam estórias ou aforismos.»

Este excerto suscita desde logo (e mais uma vez) a velha e talvez dispensável necessidade de tentar entender-se afinal o que se "deve" esperar dessa magna arte que é (será mesmo?) a poesia? Será ainda o absoluto mais o belo, e o sublime já agora...? Qual é a fórmula? Existe uma? Será que é ainda este o nível a que estamos dispostos a descer quando discutimos poesia?

É comum e pode parecer bastante natural que num país que não consegue ser mais do que pequeno, a intelectualidade, também ela, acabe por ser outro meio ou registo para o exercício fútil do ódio e da mesquinhez. Mas não é razão para o desculparmos, nem devemos deixar de notar quando o que é de mais é já demais. Este tipo de invectivas covardes não se nutrem de qualquer ânimo construtivo, são o simples reflexo de uma teimosa idiotice que de algum modo nos castiga a todos no dia-a-dia. Expressão que deriva possivelmente de não haver real vontade entre os que se queixam tanto de adoptarem depois, eles mesmos, uma mentalidade disponível e saudavelmente insegura. Sendo mais fácil ou vulgar a assunção de uma razão tacanha que reduz, a mais das vezes, o universo a afirmações muito firmes e caricatas, a um moralismo provinciano e a pré-concepções radicais sobre a vida e as suas liberdades.
Atenção que se falo aqui de provincianismo não quero que vos passe pela cabeça que é uma pretensão de que a vida urbana seja de algum modo um pré-requisito ou apoio a uma verdadeira ou mais positiva experiência intelectual, simplesmente aquilo que não se coaduna com um espírito que deseja educar-se é esta doentia tendência bairrista, este ensejo de ser-se o "maior do bairro" nisto ou naquilo, e fixar pequenos universos, uma molesta realidade onde tudo é apoucado no sentido de facilitar a vida de quem nunca quis sair de si para o mundo, e estranhar-se.
Não é ainda possível encontrar na maioria das atitudes daqueles que parecem apreciar o confronto de posições quanto a uma determinada matéria ou motivo de interesse comum, um verdadeiro esforço de debate sem que nalgum ponto não venha este a descambar numa feira de vaidades e agressões esmagando a diversidade, como se no fim fosse sempre preferível que sobrevivesse apenas um entendimento. Isto é habitual e é constrangedor, bastante evidente quando ao lermos um artigo de recensão (ou nota de leitura mais desenvolvida) sobre alguma obra, esta não se basta com o que é relevante e nos deparamos invariavelmente com considerações de carácter algo despropositado e genérico, apontando o dedo em direcções muito vagas como para indicar que se dá destaque ou se é a favor do regime e esforços daquele autor, valorizando-o por oposição a uma indeterminada chusma de outros autores que, nos seus esforços criativos, não conseguem deixar de desagradar a este que se coloca agora numa posição de crítico literário. Crítico que parece precisar de constituir equipa, um pequeno exército que lhe aqueça as costas, talvez porque os argumentos que constrói não são o suficiente.

Se a frase atrás citada pode não conter em si um prejuízo evidente, sendo até aceitável dizer-se que muitos textos não ganham mais ritmo ou força por serem cerrados ou divididos em versos, a questão é que não vem ofensa nenhuma à poesia por o autor experimentar criativamente tanto a nível de conteúdo como a nível formal. Seja como for, este é um entre outros exemplos dessa pretensão que é a de um crítico querer definir os moldes de uma arte que afinal significa apenas experiência. Experiência da linguagem e do ritmo. Se serve de veículo a uma estória, a um aforismo ou a qualquer outra noção de conteúdo, isso não interessa. Depois se verá se desperta alguma coisa ou se nos deixa indiferentes. Como em tudo, haverá poemas bons e outros maus, uns melhor conseguidos outros nem tanto. O problema está nesta vontade de conformar, deixar no ar umas sentenças sem o cuidado de lhes oferecer exemplos e trabalhar depois para demonstrar a sua justiça.

Asfixia é isto, é esta tristeza que se vinga nos outros, que não gosta nem é capaz de conviver com outras opções, mesmo que ignorando-as se preciso for. É esta velha necessidade de atazanar a paciência de todos os que habitam o "bairro", este quotidiano de gente brutinha, assediando constantemente, criando uma sensação de mal-estar e disfarçando-a sob a capa de uma atitude de rebeldia e resistência, abusando de símbolos deslocados ou do passado, figuras de uma suposta "contracultura", querendo desesperadamente ombrear com elas. No fundo nada disto constitui denúncia ou sequer uma genuína luta de superação, é algo muito mais elementar: fraqueza, fracasso e uma solidão com muita gente lá metida.


o que utiliza a lâmina
o que utiliza o copo
o que utiliza a veia, a chama
e o coração como boca
que expele
o silêncio dos aflitos
a tristeza das vidas
dentro das jarras,
melhor seriam no campo
donde se avistam as casas
e a ténue luz que as habita




regressaste à primeira pedra
roçada nas paredes, nos portões
na memória,
usada no bolso
apertada contra ti
quando o tempo escasseou
e os outros te consideram mais forte
cravada na besta,
contra os inimigos,
atrás da presa,
sibilante nos ares,
material de troca,
inscrição perpétua,
ícone de protecção,
dentro de ti
como uma casa
fria, muda e fechada

- Ana Paula Inácio

Raymond Carver

Ocasiões



Cada poema que escrevi foi, para mim, uma ocasião de primeira grandeza. Tanto assim que, creio, consigo recordar as circunstâncias emocionais que estavam em jogo quando escrevi o poema, o que me rodeava fisicamente e, até, que tempo fazia. Sob uma certa pressão, penso que poderia quase nomear o dia da semana. Em grande parte dos casos, sou capaz de lembrar-me, pelo menos, de que poemas foram escritos durante a semana ou ao fim-de-semana. Na sua maioria, certamente, posso recordar o momento particular do dia em que os escrevi - de manhã, ao meio-dia, à tarde ou, muito de vez em quando, noite dentro. Este tipo de evocação não se verifica com a ficção que escrevo, especialmente com as histórias que escrevi no início da minha carreira. Quando olho para trás, para o meu primeiro livro de contos, por exemplo, tenho que dar uma olhadela às datas de edição até para ter a certeza do ano em que as histórias foram publicadas, e a partir daí posso conjecturar - acrescentar ou tirar um ano ou dois - sobre quando é que elas terão sido escritas. Só em alguns casos muito específicos sou capaz de me lembrar de alguma coisa em particular, ou fora do comum, relativamente ao período em que escrevi uma ou outra história, ainda que fique de lado aquilo que estava a sentir no momento em que o fiz.
Não sei explicar por que razão me lembro tão claramente do momento e das circunstâncias envolvendo cada poema e, pelo contrário, não recordo grande coisa sobre a escrita dessas histórias. Penso que, em parte, isto tem que ver com o facto de que, na verdade, eu sinto que os poemas me são mais próximos, mais especiais, são mais uma oferta recebida do que o meu outro trabalho, ainda que eu saiba, com toda a certeza, que as histórias também não são senão ofertas que me foram dirigidas. É possível que, no fim de contas, eu atribua um valor mais íntimo aos poemas do que às histórias. (...)
(versão minha dos dois primeiros parágrafos do depoimento do poeta, reproduzido em The generation of 2000 - contemporary american poets, organização de William Heyen, Ontario Rewiew Press, Princeton, New Jersey, 1984, p. 24).

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Litania

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor de um fruto, o peso de uma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

- Eugénio de Andrade

A praça e as laranjeiras encendidas
com as frutas redondas e risonhas.
Alvoroço de pequenos colegiais
que num tropel, ao sair da escola,
enchem o ar da praça sombreada
com a algazarra de suas vozes novas.
Alegria infantil pelos recantos
destas cidades mortas!...
E algo nosso de ontem, que ainda
vemos vaguear pelas ruas ruinosas.

- Antonio Machado

Carta de um náufrago

Com o consentimento da neve
caminharei devagar.

Alguém haverá à espera junto do fogo
e eu, que estarei cega pelo frio,
farei paragens breves,
sacudirei o guarda-chuva e começarei de novo.

O único segredo é não sentir-se
imensamente cheio de verdades.
Não aceitar nunca os convites
que o nevoeiro
sugere ao fazer ninho com os seus disfarces
de paisagem feliz, de grandes sonhos.

Alguém haverá que diga, perdeu-se,
alguém sairá a procurar-me,
e levará o calor de uma garrafa
onde poderei mandar-te esta mensagem.

- Ana Merino

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

[crossing_I_by_andiarsi.jpg]

De manhã
o café derramado sobre a colcha
alarga lentamente à pele, ao sangue.
O vento brinca no terraço, vai
e regressa quebrando o caule dos aloés,
levanta um pouco as cortinas e a luz
entra murmurando como se não visse
o mesmo todos os dias, resfolega,
depois já o dia nos sobe em cima
e nós saímos para almoçar.

Almoçámos e a seguir não foi preciso
perguntar-lhe se íamos a algum lado,
seguimos. Subindo a mesma rua
e aparando as sebes, um desses jardineiros
municipais que lá se deixou alcançar.
Tirou o boné, verde-claro e sujo,
fixou uma extensão imprecisa e não sei
se cantavam pássaros, mas houve ali
alguma sincronia que reparou em nós.
Pequeno atraso cardíaco – das raízes
ao fruto uma palavra que não dissemos
mas que inchou, agitando-se nos ramos.

A sombra da amoreira pulava
um muro baixinho, do outro lado
nós dois tínhamos arranjado
um bom lugar. O rapaz seguiu sozinho.

A espaços, começavam a desprender-se
as primeiras folhas, rasgadas
e seguiam soltas na aragem,
naquele belíssimo vómito de cores
e sons cobrindo o espaço curto
que rodeava um espelho d’água.
Foi apontando, divertida, e deixou
tantas frases a meio
começando outras, como
com o olhar, tenso ou furtivo,
dava a sensação que se perdia.

Mais Rimbaud que Baudelaire, eu é
ao contrário. Como também só dobro
enquanto ela pega e rasga as páginas de
que gosta mais. Têm-nas com ela,
e depois oferece-as se tiver a quem.

Ao pescoço um pequeno cantil,
leite fresco, mel; um bom pedaço de
tempo e um cigarro de menta por acender,
distrai-se de um canto ao outro da boca.
Enche bem as mãos e puxa alguns tufos
de erva tenra, deixa-os à tona da água
e mexe com o pé descalço.

A esta hora não vem mais ninguém.
Estranha isto e aquilo – tudo coisas
muito normais –, depois
quer saber das músicas, cinema,
e não gosta claro, nem concorda. E da poesia
esperas o quê?, e eu nada, é claro, mas

olha, uma fonte meio escondida
e longe (cascos de rolha soa-me bem), onde
parem adolescentes sem interesse por livros,
que entre beijos e apalpões decorem,
sem querer, dois, três versos meus.
Esqueço na imagem um sorriso aparvalhado,
ela balança-se em frente, puxando por um
outro assunto, põe-se de pé e faz-me
correr uns bons metros atrás dela.

Domingo, Setembro 20, 2009

«... Um anjo parece estar-se afastando de algo que contempla fixamente. Tem os olhos abertos, a boca aberta e as asas desfraldadas. Assim imaginamos o anjo da História. Encontra-se de face voltada para o passado. No que vemos uma cadeia de acontecimentos, vê ele uma única catástrofe que continuamente acumula destroço após destroço e os vai amontoando a seus pés. Desejaria ficar, despertar os mortos e reconstituir os pedaços, mas sopra do paraíso uma tempestade que lhe toma as asas com tal violência que o anjo já nem consegue fechá-las e é irresistivelmente impelido para o futuro, que lhe está atrás, enquanto, à sua frente, a pilha de destroços cresce para os céus. A esta tempestade chamamos progresso».

- Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História

Sábado, Setembro 19, 2009

5 haikus da Primavera


Brisa ligeira
A sombra da glicínia
estremece


Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores


Calou-se o sino
O que chega a mim agora é o eco
das flores


Flores de cerejeira no céu escuro
e entre elas a melancolia
quase a florir


Flores queimadas pela geada
Os grãos caídos
semeiam a tristeza


- Matsuo Bashô

Aos dois, três, mais às vezes

É tão poeta tão poeta mas tão que quando levanta a mão do papel os grandes versos não ficam lá, só a ideia deles, uma sombra vazia, a de os ter sonhado. Menos que nada.

Poeta de Alexandria

Ninguém acompanha, quando cai a tarde,
a sua solidão.
Mão alguma empresta fugitivo calor
a quem dele tanto precisa
e que lento caminha, o olhar perdido,
para o lugar onde a luz de agosto
ainda o protege.

Das ruas estreitas
chega um cheiro, elementar e penetrante,
de alimentos e corpos,
noutro tempo apreciados.
Leve, o seu passo
perde-se entre o inquieto murmúrio
de músicas e vozes.

Esta é a cidade que tanto amou,
cujas pedras e árvores,
minaretes e praças,
debaixo do pesado sol do meio-dia
ou à claridade trémula das estrelas
conheceu tal como hoje os seus sonhos.

Continua a avançar,
desconhecido,
ignorado por aqueles
que um dia os seus lábios lhe entregaram,
a sua tristeza, o seu desejo fizeram seus.

O vermelho resplendor, por um momento,
sobre a espuma se detém.
Já cinzento depois,
empalidece no cansaço das rochas,
resvala pelas janelas abertas ao crepúsculo.

Um ligeiro tremor,
a transparente sombra de uma lágrima,
agora que por fim se deteve,
fazem mais vencida,
mais frágil a sua figura.

Não importa
ou talvez importe demasiado.
Konstandinos Kavafis
vê chegar a noite,
a escuridão, diante do mar.

- Juan Luis Panero

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

Martín Espada

A minha poesia assenta em dois pilares: na imagem e na imaginação política.
Ainda que a "imagem", em poesia, remeta para os cinco sentidos, eu fui particularmente influenciado pelo trabalho do meu pai, que é fotógrafo documental. Enquanto escrevo, penso em mim próprio a focar uma lente, esforçando-me por criar uma imagem o mais clara, penetrante e detalhada possível. Acredito na metáfora e no símile como métodos de construção desta imagem. A imagem está para o poema como o vagão está para o comboio. Se ligarmos os vagões necessários, o poema começa a mover-se.
A poesia da imaginação política é uma questão de visão e de linguagem. Qualquer mudança social progressista primeiro tem que ser imaginada, para permitir a passagem da visão à realidade. Qualquer condição social opressiva, antes de ser transformada, tem que ser nomeada e condenada através de palavras que persuadam, agitando as emoções, despertando as mentes. (...) Deve notar-se que os [meus] poemas empenham-se em ir para além do protesto: estou interessado na arte da dissenção. A poesia da imaginação política implica frequentemente a ideia de advocacia: falar em favor de outros que não têm a oportunidade de serem ouvidos (...).
(versão minha da maior parte do depoimento do poeta em The invisible ladder, selecção e organização de LIz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 53).

Réquiem por uma jovem mãe

Acordada na noite pelo antigo costume
nem agora esquecida sob a insígnia húmida
de uma chuva insistente, suportando o silêncio
como um animal ferido que o sofrer afastasse,

com as costas no frio tão extenso da pedra
os olhos abre para onde não há-de ver jamais
as cândidas giestas, as tílias abundantes
entre as quais noutros tempos o júbilo morava:

quando às vezes lhe chegam com o vento as notícias
daqueles que apertava como um pão contra o peito,
ao sentir que não pode sua solidão gritar-lhes,
a garganta desfeita rompe em obscuro pranto.

- María Victoria Atencia

O meu primeiro transfúgio de mãe
aconteceu numa noite de verão
quando um louco pegou em mim
e me deitou na relva
e me fez conceber um filho.
Ó nunca a lua gritou tanto
contra as estrelas ofendidas,
e nunca gritaram tanto as minhas entranhas,
nem o Senhor voltou tanto a cabeça para trás
como naquele exacto momento
vendo a minha virgindade de mãe
ofendida num ludíbrio.
O meu primeiro transfúgio de mulher
aconteceu num canto escuro
sob o calor impetuoso do sexo,
mas nasceu uma menina gentil
com um sorriso tão doce
e tudo se perdoou.
Eu é que nunca irei perdoar
e aquele menino foi-me retirado do ventre
e entregue a mãos mais "santas",
fui eu ultrajada,
eu que subi aos céus
por ter concebido uma génese.

- Alda Merini

A rua solitária

Acabaram as aulas. Está demasiado calor
para passear. Mas elas passeiam
em ligeiras vestes pelas ruas
para matar o tempo.
Cresceram muito. Na mão direita levam
chamas cor-de-rosa.
De branco dos pés à cabeça,
olhando furtivamente ao passar –
de amarelo, roupas soltas,
cinto e meias pretas –
tocando as ávidas bocas
com açucar rosado num pauzinho –
como um cravo que cada uma leva na mão –
sobem a rua solitária.

- William Carlos Williams

The Hurt Locker (2008)


7/10

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

O sertanejo falando

A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.


2.

Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso:
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.

- João Cabral de Melo Neto


Ah se ao menos pudesse
sucitar o amor
como declive certo para o meu destino
E acomodar a respiração
fixa dentro das folhas
e retirar à natureza o seu sentido!
Ó se ao menos pudesse
tocar a luz com dedos trémulos
a galharda que nos brota do peito,
corpo astral do nosso viver só
permanecendo embora pedra, início, margem
tangível aos deuses...
e violar os paraísos mais fechados
com apenas a substância do afecto.

- Alda Merini

Numa estação de Metro

Desventurados os que avistaram
uma rapariga no Metro

e se apaixonaram de repente
e a seguiram enlouquecidos

e a perderam para sempre entre a multidão

Porque serão condenados
a vaguear sem rumo pelas estações

e a chorar com as canções de amor
que os músicos ambulantes cantam nos túneis

E se calhar o amor não é mais do que isso:

uma mulher ou um homem que sai de uma carruagem
numa qualquer estação de Metro

e resplandece por uns segundos
e desaparece na noite sem nome


- Óscar Hahn
(tradução de LP)


[kingsofleon.jpg]


Manicómio é palavra bem maior
do que as obscuras voragens do sonho,
mas vinha por vezes naquele tempo
filamento de azul ou uma canção
distante de rouxinol ou a tua boca
entreabria-se mordendo no azul
a mentira feroz da vida.
Ou uma mão impiedosa de doente
subia devagar à tua janela
silabando o teu nome e finalmente
desfeito o número imundo reencontravas
______________________toda a seriedade da tua vida.

- Alda Merini

Não estou a ver nada disso que dizes, se calhar conforta-te e por aí até entendo, mas depois é só isso, fica pelo desejo: querias vê-los florir sobre um improviso, quase inconsequentes, e belos pois claro. Mas não, não vejo disso, e já me cansa que lhes chames essa palavra grotesca como se pudesse esperar-se mais deles e não fossem todos, os poetas (se é isso que lhes chamas), uns tipos que se arriscam seriamente a ficar sem nada. Pelo que vejo o que fazem é ir de um constante fracasso a qualquer coisa de imprevisível, e que lhes acontece mais a eles do que aos outros, primeiro a eles pelo menos. Nenhum me parece que fique simplesmente à espera de frente para o silêncio como a pedir-lhe (ou a exigir-lhe, se preferes assim) uma explosão. Acho que é mais que isso, uma tensão absurda: entre tantos golpes que vêm de lá, às vezes um vai deste lado, acerta e pronto. Não magoa muito, não, não faz a mínima diferença, mas dá um certo gozo e é isso, só.

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

W.D. Snodgrass

A poesia dá-nos a oportunidade de, por breves instantes, experimentarmos os pensamentos de outros e, assim, pormos em movimento - e talvez desenvolvermos - partes da musculatura da mente que, por falta de uso, se tornariam flácidas. Fazendo-o, isto amplia a gama das nossas possibilidades de escolha para decidirmos que tipo de pessoa nos tornaremos. Nada disto é fácil, mas a maior parte das coisas que nos dão verdadeiro prazer também não o são. Tal como o basquetebol ou os enigmas, a poesia é uma daquelas coisas que definiríamos como "trabalho árduo" - não se desse o caso de ter tanta piada.
(versão minha do depoimento do poeta reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 7).

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Otto Dietrich zur Linde

DEUTSCHES REQUIEM


Ainda que ele me mate, confiarei nele.
Job 13:15


"(…) Homem de olhos memoráveis, de pele citrina, de barba quase negra, David Jerusalém era o protótipo do judeu sefardita, embora pertencesse aos depravados e enfadonhos Ashkenazim. Fui severo com ele; não permiti que a compaixão nem a sua glória me abrandassem. Eu tinha compreendido há muitos anos que não existe nada no mundo que não seja o germe de um inferno possível; um rosto, uma palavra, uma bússola, um anúncio de cigarros, poderiam enlouquecer uma pessoa, se esta não conseguisse esquecê-los. Não estaria louco um homem que continuamente pensasse no mapa da Hungria? Determinei aplicar este principio ao regime disciplinar da nossa casa e… Em fins de 1942, Jerusalém perdeu a razão; no primeiro de Março de 1943, conseguiu matar-se.
Ignoro se Jerusalém compreendeu que, se eu o destrui, foi para destruir a minha piedade. Perante os meus olhos, ele não era um homem, nem sequer um judeu; transformara-se no símbolo de uma detestada área da minha alma. Agonizei com ele, morri com ele, de algum modo me perdi com ele; por essa razão, fui implacável. (…)
Acossado por vastos continentes, morria o Terceiro Reich; a sua mão estava contra todos e as mãos de todos contra ele. Então, algo de singular aconteceu, e creio entendê-lo agora. Eu supunha-me capaz de esgotar o cálice da cólera, mas no último gole deteve-se um sabor inesperado, o misterioso e quase terrível sabor da felicidade. Ensaiei diversas explicações, não me bastou nenhuma. Pensei: A derrota satisfaz-me porque secretamente sei que sou culpado e só o castigo pode redimir-me. Pensei: A derrota satisfaz-me porque é um fim e estou muito cansado. Pensei: A derrota satisfaz-me porque aconteceu, porque está inumeravelmente unida a todos os factos que são, que foram, que serão, porque censurar ou deplorar um só facto real é blasfemar contra o universo. (…)
Ameaça agora o mundo uma época implacável. Fomos nós que a forjámos, nós, que já somos suas vitimas. Que importa que Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, não a servil timidez cristã. Se a vitória e a injustiça e a felicidade não são para a Alemanha, que sejam para outras nações. Que o céu exista, mesmo que o nosso lugar seja o inferno. Olho a minha face no espelho para saber quem sou, para saber como me portarei dentro de algumas horas, quando me defrontar com o fim. A minha carne pode ter medo; eu não. "

Excerto de “Deutsches Requiem” em “O Aleph”, de Jorge Luís Borges.
Editorial Estampa

Último Livro

"É uma nova Bíblia…O Último Livro. Quem não tem nada a dizer, di-lo-á aqui…anonimamente. Esgotaremos a era. Depois de nós, não haverá nem mais um livro…pelo menos durante esta geração. Outrora, cavámos às escuras, guiados apenas pelo instinto. Agora temos um receptáculo onde verter o fluido vital, uma bomba que, quando a arremessarmos, detonará o mundo. Enriqueceremos o livro de tal forma, que os escritores futuros tirarão dele os seus enredos, as suas tragédias, os seus poemas, os seus mitos, as suas Ciências. O mundo poderá alimentar-se dele durante os próximos mil anos. É de um pretensiosismo colossal. Fico abalado só de pensar no livro.
Nos últimos cem anos, ou talvez mais, o mundo, o nosso mundo, tem vindo a definhar. E nem um homem, durante os últimos cento e tal anos, foi maluco o suficiente para enfiar uma bomba no cu da Criação e detoná-la. O mundo apodrece, morrendo aos bocados. Mas precisa do coup de grâce, precisa que o desfaçam. Nenhum de nós está intacto, mas temos cá dentro todos os continentes e mares entre os continentes e as aves do ar. Vamos acabar com isto…com a evolução deste mundo que morreu mas que ainda não foi enterrado. Nadamos na superfície do tempo e tudo o resto afogou-se, ou está a afogar-se, ou vai afogar-se. Será enorme, o Livro. Será vasto como oceanos; poder-se-á caminhar nele, perambular, cantar, dançar, escalar, mergulhar, dar saltos mortais, choramingar, violar, matar. Uma catedral, uma verdadeira catedral, que todos os que perderam a identidade ajudarão a erigir. Haverá missas para os mortos, orações, confissões, hinos de louvor, gemidos e tagarelice, uma espécie de despreocupação assassina; haverá rosáceas e gárgulas e acólitos e quem leve os caixões. Poderão trazer cavalos e galopar pelas naves laterais. Poderão dar cabeçadas nas paredes…estas não cederão. Poderão rezar na língua que quiserem, ou poderão enroscar-se no exterior e adormecer. Durará mil anos, pelo menos, esta catedral e não poderá ser duplicada, pois os seus construtores estarão mortos e a fórmula também. Teremos postais e organizaremos excursões. Construiremos uma cidade em redor e criaremos uma comuna livre. Não precisamos de génio para nada… o génio morreu. Precisamos de mãos fortes, espíritos que estejam dispostos a abandonar a alma e a assumir a carne…”
"Trópico de Câncer", Henry Miller
Editora Presença

Metáfora

As tuas sombras florescem agora ao pé da cama
E desbotam
Os últimos factos irritados.
No teu roupão oriental,
As borboletas douradas, presas às suas folhas de seda,
Sofrem com a súbita escuridão à tua porta.
Falas de borboletas, dos seus luxos, seus engenhos
E do seu cativeiro.
Dizes
«Nós vivemos nestas analogias.»

O rumor da água treme no lábio
Deste copo que estás prestes a esmagar;
As tuas cortinas ardem como ondulados escudos
Por estes campos de neve no fim de Setembro
Que te vão matando.

- Ian Hamilton

Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.


- Ian Hamilton

Fotografia Antiga

Tu vagueias na profundidade do campo
Que vem dar ao quarto onde eu dantes trabalhava
E de tempos em tempos
Olhas para cima para ver se te estou a espreitar.
Até hoje
Os teus braços estão cheios das flores silvestres
De que estavas tão enamorada.

- Ian Hamilton

Os Recrutas

«Nada mexe», dizes, e fitas para além da relva.
«Há sol em todo o lado. Não vai haver uma brisa.»
Pássaros debruam as valetas, e da nossa janela
Vemos uma fila de gatos atravessar cinco jardins
Até à sombra e ficar ali, a olhar o céu.
Voltas a gemer: «Eles sabem.»
As moscas mortas acumulam-se no peitoril.
Tremes com o silêncio que escurece até que perfile
A noite perfeita em ti. E então gritas.

- Ian Hamilton

A um passo de distância

É a minha hora de almoço, por isso vou
passear por entre táxis pintados
de ruído. Primeiro, pelo passeio
onde trabalhadores alimentam os troncos
sujos brilhantes com sanduíches
e Coca-Cola, usando capacetes
amarelos. Acho que os protegem
da queda de tijolos. Depois pela
avenida em que saias rodopiam
nos calcanhares e levantam voo sobre
os gradeamentos. O sol, queima, mas
os táxis agitam o ar. Observo
pechinchas em relógios de pulso. Há
gatos que brincam na serradura.
______________________vPara
Times Square, onde o anúncio
sopra fumo sobre a minha cabeça e no alto
a cascata jorra suavemente. Um
Negro numa portada com um
palito, mexe-se langorosamente.
Uma corista loura faz soar um estalido: ele
sorri e esfrega o queixo. De súbito
tudo buzina: são 12:40 de
uma Quinta-Feira.
_____________Neon de dia é um
grande prazer, como Edwin Denby
escreveria, como são as lâmpadas eléctricas de dia.
Paro para um cheeseburger no JULIET'S
CORNER, Guilietta Masina, mulher de
Federico Fellini, è bell' atrice.
E chocolate com malte. Uma senhora que
em tal dia usa pele de raposa mete o cão d' água
dentro de um táxi.
_____________Há vários Porto
Riquenhos na avenida hoje, o que
a torna bela e quente. Primeiro morreu
Bunny, depois John Latouche,
depois Jackson Pollock. A terra
está tão cheia deles, como a vida esteve?
Comeu-se e passeia-se,
passa-se pelas revistas com nus
e os cartazes de TOURADA e
a Manhattan Storage Warehouse,
que em breve demolirão. Antigamente
pensava que nela se exibia o
Armory Show.
__________Um copo de sumo de papaia
e de volta ao trabalho. O meu coração está no
meu bolso, É poemas de Pierre Réverdy.


- Frank O'Hara

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

A magnólia

para a Ana Teresa Pereira

ágil, estalava a tarde, lá fora,
nos passos seguros de quem não tem
temor aos versos. acabara ali

o verão selvagem dos teus olhos,
aquele lugar fundo de água
e de flores onde um cão zeloso

guarda ainda uma biblioteca
e o segredo maior da tempestade,
sem dizer uma palavra,

fui fechando atrás de mim
as alamedas de Manderley,
e saí para comprar uma magnólia.

- Renata Correia Botelho

What doesn't kill you (2008)

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8/10

Domingo, Setembro 13, 2009

Manuela Moura Guedes

Paisagem com queda de Ícaro

De acordo com Brueghel
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador arava
os seus campos
todo o esplendor

do ano
formigava ali
à

beira do mar
consigo mesmo
preocupado

suando ao sol
que derretia
a cera das asas

perto
da costa
houve

uma pancada quase imperceptível
era Ícaro
que se afogava

- William Carlos Williams

Estas

são as semanas desoladas, sombrias
em que na sua aridez a natureza
rivaliza com a estupidez humana.

O ano despenha-se na noite
e o coração é um abismo
mais fundo que a noite

nesse vazio varrido pelo vento
sem sol, sem lua nem estrelas
apenas uma estranha luz do pensamento

que lança um tenebroso fogo –
rodando sobre si mesma até
no frio incendiar-se

e revelar ao homem algo que ele
desconhece, não a solidão
em si – não um espectro

ainda que o pudesse abraçar - vazio,
desespero – (gemendo
soluçando entre

as chamas e os estrondos da guerra;
casas em cujos aposentos
o frio ultrapassa o imaginável,

aqueles que se foram e que amávamos
vazias as camas, húmidos os
sofás, as cadeiras sem uso –

Oculta-o algures
longe do pensamento, deixa-o criar
raízes e crescer, salvo de olhos e ouvidos

ciosos – por si somente.
A esta mina chegam para escavar – todos.
Será isto o contraponto da música mais

suave? A fronte da poesia que
ao ver o relógio parado, diz:
Parou o relógio

que ontem trabalhava tão bem?
e ouve o som das águas do lago
salpicando – agora petrificadas.

- William Carlos Williams

Creyeron que murió, pero renacerá


Si desapareció
en mi aparecerá
creyeron que murió
pero renacerá
Llovió, paró, llovió
y un chico adivinó
oímos una voz, y desde un tango
rumor de pañuelo blanco
No eran buenas esas épocas
malos eran esos aires
fue hace veinticinco años
y vos existías, sin existir todavía
Si desapareció
en mi aparecerá
creyeron que murió y aquí se nace,
aquí la vida renace
No eran buenas esas épocas
malos eran esos aires
fue hace veintinco años
y vos existías
No eran buenas esas épocas
malos eran esos aires
fue hace veinticinco años
y vos existías, sin existir todavía

Gotan Project - Época

Sábado, Setembro 12, 2009

O Poeta das nuvens e do mar dorme em mim!
E no mamilo do temporal os seus lábios sombrios
e a sua alma sempre com o pontapé do mar
por sobre os pés do monte!
Desarreiga carvalhos e duro desce, o vento da Trácia.
Pequenos barcos dão a volta ao cabo
e de repente voltam-se e afundam-se.
E logo conseguem chegar lá ao cimo às nuvens
do outro lado da fundura marinha.
As algas coladas às âncoras
barbas de santos entristecidos.
Formosos raios rodeando a face
fazem vibrar o halo do mar.
Os velhos em jejum viram os olhos vazios para lá
e as mulheres vestem a sua sombra negra
na cal imaculada.
Junto com eles, movo a mão,
Poeta das nuvens e do mar!
Na humilde lata de tinta mergulho
o pincel junto com eles e pinto:
Os novos estaleiros
os ícones dourados e negros
Ajudai-nos e protegei-nos, São Kanáris!
Ajudai-nos e protegei-nos, São Miaúlis!
Ajudai-nos e protegei-nos, Santa Mantó!

- Odysséas Elytis

A uma velha pobre

mastigando uma ameixa pela
rua com um saco de papel
cheio delas na mão

Sabem-lhe bem
Sabem-lhe
bem. Sabem-lhe
bem.

Vê-se isso
pela maneira como se entrega
à metade já chupada
que tem na mão

Confortada
um gosto de ameixas maduras
parece encher o ar
Sabem-lhe bem

- William Carlos Williams

Nick & Norah's Infinite Playlist (2008)


Coisas boas, previsíveis e adolescentes com miúdos desses que têm sempre tiradas muito giras - 7/10

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Martín Espada

Conselho aos jovens poetas



Nunca finjas
ser um unicórnio
espetando um desentupidor na testa



(versão minha; original aqui).

nine-eleven

É uma questão de tempo, José.

Já não se vê o trigo

Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

- Eugénio de Andrade

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Artaud no "Diário" de Anaïs Nín


«Allendy e Artaud sentados atrás de uma grande secretária. Allendy apresentou Artaud. A sala estava apinhada. O quadro negro era um estranho pano de fundo. Gente de todas as idades. O público das conferências de Allendy sobre as Ideias Novas. (…) Artaud subiu para o estrado e começou a falar: “O Teatro e a Peste”.

Tinha-me pedido para estar na primeira fila. Julguei que só pretendesse intensidade, uma forma mais alta de sentir e viver. Teria querido lembrar-nos que os dias da Peste tinham trazido à luz um grande número de maravilhosas obras de arte e peças de teatro porque o homem, chicoteado pelo medo e pela morte, procura a imortalidade, e a evasão, tenta ultrapassar-se? Mas Artaud, de uma forma quase imperceptível, largou então o fio que seguíamos e começou a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. (…) não há palavras para descrever o que Artaud interpretava no estrado da Sorbonne. Esquecia a conferência, o teatro, as suas ideias, o doutor Allendy ao seu lado, o público, os jovens estudantes, a sua mulher, os professores e os encenadores de teatro.

Tinha o rosto em convulsões de angústia e os cabelos ensopados em suor. Os olhos dilatavam-se, enrijava os músculos, os dedos lutavam para conservar a flexibilidade. Fazia-nos sentir a secura e o ardor na garganta, o sofrimento, a febre, o fogo das suas entranhas. Estava em tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação.

As pessoas começaram por ficar de respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim, as pessoas foram saindo uma a uma, com um grande ruído, a falar, a protestar. (…) Mas Artaud continuava, até ao último suspiro. E lá ficou no chão. Depois quando a sala se esvaziou e só restava um pequeno grupo de amigos, veio direito a mim e beijou-me a mão. Pediu-me para ir com ele a um café.
(…) Artaud e eu saímos debaixo de uma chuva fina. Andámos, andámos ao longo das ruas escuras. Ele ficara ferido, duramente atingido e desconcertado com as vaias. Espumava de cólera: “Só querem ouvir falar de; querem ouvir uma conferência objectiva sobre o teatro e a peste, ao passo que eu quero oferecer-lhes a própria experiência, a própria peste, para ficarem aterrorizados e acordarem. Quero acordá-los. Não compreendem que estão mortos. A sua morte é total, como uma surdez, uma cegueira. Mostrei-lhes a agonia. A minha, sim, e a de todos que vivem.
(…) Esqueceu a conferência. “Nunca encontrei ninguém que sinta como eu. Há quinze anos que me drogo com ópio. Deram-mo a primeira vez, ainda era muito novo, para acalmar as dores terríveis que tinha na cabeça. Por vezes sinto que não escrevo, que descrevo os esforços para escrever, os esforços para nascer”. Recitou-me poemas. Falou-me da forma, do teatro, do seu trabalho.
“Os teus olhos, Anaïs, são verdes, às vezes roxos.”

(…) Para ele, morrer de peste não era mais terrível do que morrer de mediocridade, de espírito mercantil, da corrupção que nos rodeia. Queria que as pessoas tomassem consciência de que estavam a morrer. Metê-las à força num estado poético.
“A hostilidade deles só prova que os perturbou” – disse eu.

"Mas que choque, ver um poeta sensível perante um público hostil. Que brutalidade, que fealdade nesse público!»

In, “Eu, Antonin Artaud
Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes
Assírio & Alvim

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Las cuatro estaciones

El otoño y sus calles
doradas por las hojas de los libros.

El invierno de nieve
igual que un largo y triste endecasílabo.

Después la primavera enamorada
leyendo algún poema de Virgilio.

Luego llega el verano y, como siempre,
uno manda al carajo los versitos.

Fernando López de Artieta
in Nadie Parecía, nº1, Primavera de 1999, Sevilla



when the thorn bush turns white that's when I'll come home
I am going out to see what I can sow
And I don't know where I'll go
And I don't know what I'll see
But I'll try not to bring it back home with me

Onde não estou, tu não existes


A editora TEA FOR ONE tem o prazer de convidar V. Exa. para o lançamento do livro "Onde não estou, tu não existes", de Marta Chaves, que terá lugar no bar do Teatro A Barraca, no Sábado, dia 12 de Setembro, pelas 18h.

Balada da Rua Damasceno Monteiro

ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo

afundava-se numa líquida recordação cardíaca

ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos

braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz

mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída

morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica

dentro do coração antigo
serei breve

- Miguel-Manso

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Anaïs Nín & Henry Miller - Correspondência

Clichy
14 de Agosto de 1932

“Anaïs,

(…) Ainda te ouço a cantar na cozinha – uma leve e negra qualidade na tua voz, uma espécie de gemido cubano inarmónico, monótono. Sei que estás feliz na cozinha e que a refeição que preparas é a melhor que alguma vez comemos juntos. Sei que, se te queimasses, não te queixarias. Sinto a maior paz e alegria sentado na sala de jantar ouvindo-te atarefada, com o teu vestido, como a deusa Indra, ataviado de mil olhos.
Anaïs, eu só achava que te amava antes; não era como esta certeza que está em mim agora. Foi isto tão maravilhoso apenas porque foi breve e roubado? Estávamos a representar um para o outro, até o outro? Era eu menos eu, ou mais eu, e tu menos tu ou mais tu? É loucura pensar que isto pode continuar? Onde e quando os momentos mortos começariam? Estudo-te tanto para descobrir as possíveis falhas, os pontos fracos, as zonas de perigo. Não os encontro – nem eu! Isso significa que estou enamorado, cego, cego. Ser cego para sempre! (Agora cantam “Céu e Mar” de La Gioconda.)
Vejo-te a tocar a tocar discos, um atrás do outro – os discos do Hugo. “Parlez moi d’amour.” Dupla vida, duplo gosto, dupla alegria e infelicidade. (…) Sei agora que os teus olhos estão bem abertos. Há certas coisas em que nunca acreditarás outra vez, certos gestos nunca repetirás, certas dores, suspeitas, nunca mais sentirás. Uma espécie de fervor criminoso e branco na tua ternura e crueldade. Nem remorso, nem vingança; nem dor, nem culpa. Um viver tudo, sem algo que te salve do abismo, a não ser uma esperança maior, uma fé, uma alegria que provaste, que podes repetir à vontade.
Toda a manhã estive nas minhas notas, farejando através dos registos da minha vida, pensando onde começar, como marcar o início, vendo não apenas outro livro defronte de mim mas uma vida de livros. Mas não começo. As paredes estão complemente nuas… Tinha tirado tudo antes de ter ido encontrar-me contigo. É como se me tivesse aprontado para partir de vez. As manchas nas paredes salientam-se…onde as nossas cabeças descansaram. Enquanto troveja e relampeja, estou deitado na cama e atravesso sonhos desvairados. Estamos em Sevilha e depois em Fez e depois em Capri e depois em Havana. Estamos eternamente em viagem, mas existe sempre uma máquina e livros, e o teu corpo está constantemente perto de mim e o teu olhar nunca muda. As pessoas dizem que seremos infelizes, que nos arrependeremos, mas nós somos alegres, estamos sempre a rir, estamos a cantar. Falamos espanhol e francês e árabe e turco. Somos admitidos em toda a parte e atapetam o nosso caminho com flores.
Eu digo que este é um sonho desvairado – mas é este o sonho que quero concretizar. Vida e literatura combinadas, o amor o dínamo, tu com a tua alma de camaleão dando-me mil amores, ancorada sempre não importa qual a tempestade, em casa onde quer que estejamos. Nas manhãs continuando onde interrompemos; ressurreição após ressurreição. Tu confirmando-te, conseguindo a rica, variada vida que desejas; e, quando mais te confirmas, mais me queres e precisas de mim. A tua voz tornando-se mais rouca, mais funda, os teus olhos mais negros, o teu sangue mais espesso, o teu corpo mas cheio. Uma servitude voluptuosa e uma necessidade tirânica. Mais cruel agora do que antes…Conscientemente, intencionalmente cruel. A insaciável delícia da experiência.

Henry”

Anaïs Nín & Henry Miller – Cartas de Amor
Edição e introdução de Gunther Stuhlmann
Editora Caleidoscópio