quarta-feira, dezembro 30, 2009

Requiem pelos Rebeldes

Com o grão enchendo os bolsos dos capotes –
Sem cozinhas ou tendas como estorvo –
Éramos rápidos na terra que era nossa.
O padre andava a monte com o vagabundo.
A um povo – não em marcha, a corta-mato –
Tácticas novas ocorriam dia a dia:
Com um pau se derrubava uma montada,
Gado em fuga dispersava a infantaria,
Cruzando sebes se fugia aos cavalos.
Até Vinegar Hill, fatais socalcos.
Milhares morreram, foices contra canhões,
A encosta rubra com o quebrar da nossa onda.
Enterraram-nos sem mortalhas ou caixões
E em Agosto germinou o grão na tumba.

- Seamus Heaney
(tradução de Rui Carvalho Homem)

terça-feira, dezembro 29, 2009

Filme

«Se queres falar de portas, falta-te aqui uma coisa: as quatro portas a abrir em linha quando Gregory Peck e Ingrid Bergman se aproximam num dos beijos mais extraordinários do cinema». Quando eles ainda não stão juntos no mesmo plano e se olham, um pouco antes, em campo e contra-campo, a câmara já muito perto. É então que Hitchcock abre porta atrás de porta, naquele movimento contínuo de certos filmes que aceleram a vida das plantas para as vermos nascer e abrir, e abrir mais, mas não morrer (se bem que já só pensemos na morte), tudo em escassos segundos.
Abro aqui outra vez essas quatro portas, como nos filmes que precipitam as coisas vivas. Folhas nascem e abrem) e abrem) e abrem) – porta atrás de porta, uma, duas, três, as quatro pétalas dessa flor acelerada. Eles aproximam-se, estão agora muito perto, dentro do mesmo plano, e vão beijar-se (enquanto a morte continua fora de cena).

- Rosa Maria Martelo
in A Porta de Duchamp, Averno, 2009

Poema podendo servir de posfácio

com uma pressão de ar, o homem estilhaçava
as borboletas que pousavam nas rosas;
por uns instantes, pequenos farrapos brancos
pairavam imprecisos sobre o canteiro;
cada minuto era o tempo todo a soletrar
uma história saturada de mortos.
Estou a meio do jardim que explode
à custa do meu corpo: disse o homem:
sou o seu desejo. A sua fome.

- Rui Nunes

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Actual, 24 de Dezembro de 2009 (Expresso)

4 estrelas

CRIATURA Nº4
Núcleo Autónomo Calíope, 2009, 168 págs., €7

Esta revista volta a confrontar-nos com um original elenco poético.


Graficamente, o negrume esbateu-se, embora a “Criatura” continue a manifestar o desejo de ser um “grito sem voz”, algures “entre a loucura e a beleza”. Mas o que sobressai, neste quarto número da revista, é a reunião feliz de poetas pertencentes a timbres e gerações muito diferentes. Há autores que aqui nos surgem inesperadamente ‘reabilitados’, com poemas bastante superiores aos que anteriormente tinham publicado em livro – casos de Luís Pedroso ou Ana Salomé. Mais sóbria, a escrita de Maria Sousaé outra agradável presença. São menos aliciantes Nuno Brito, autor até agora de um inquieto mas desigual livro de poemas, e José Carlos Barros, de quem era legítimo esperar melhor. Luís Filipe Parrado, quando não resvala para um lirismo inóquo, revela-se de uma grande e singular mestria. Outros nomes a reter são, certamente, os do quase sempre invisível Miguel Martins (que colabora com dois magníficos e ‘desalinhados’ poemas), de Rui Caeiro e de Rui Miguel Ribeiro. É de salientar, ainda, a cada vez mais nítida veemência dos discursos de David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto. Dir-se-ia, em ambos os casos, que passou a haver uma voz própria, capaz, respectivamente, de vencer o risco do poema curto e do poema longo. Veja-se do primeiro, ‘Reciclagem para C.’: “O deus do Eugénio/ é muito mais verde/ quando lido pelos teus olhos.” E, do segundo, o excelente ‘A Carne Agarrada aos Ossos’ e a aguda consciência desse “desgosto geracional” que “lixou já/ poemas mais que suficientes”. Este ‘desgosto’ prolonga-se, de algum modo, na escolha de poetas traduzidos: Déborah Vukusic (passível de nos lembrar Adília Lopes), Jesús Jiménez Domínguez e os exercícios por vezes fúteis da sobrevalorizada Elena Medel. Dito isto, parece-me evidente estarmos perante um núcleo editorial/poético que reivindica “uma arte que se deixe/ de arrotos místicos”. E, pelo menos nesse aspecto, a batalha está mais do que ganha.

- Manuel de Freitas

sábado, dezembro 26, 2009

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Sangue quase seco

A tarde caiu como pôde: mal,
chuvosa, com as investidas do vento
ditando frases sem grande efeito
nem consequência. O quarto
sujo, a mesa e o copo, uns rodeios
a lápis e o livro aberto do poeta
que hoje te destrói.

Não foi por desconsolo que voltaste,
mas com a última luz do sol num pedaço
de papel e, de hora a hora, o sinal
sonoro de comboios seguindo
para algum lugar, o princípio de outra
noite, um mesmo indiferente destino.

Num saco de plástico três latas
de cerveja, e já vais apalpando
nas sombras e nas ruínas, por entre
um cheiro a mijo e flores mortas,
no aperto de uma rua qualquer
ou da quase amigável canção que
um bêbado, abusando de uma guitarra
só com três cordas, vem lembrar-te.

Nem é triste, mas de novo cansa-te
o passado, velhas histórias que ainda
contam e vão repetindo ao ouvido
de uma criança já morta.

Achas o teu rosto meio indefinido
junto a um vidro e depois dessa troca
de olhares magoados, do lado de lá,
julgas vê-la. E inclina-se: uma mão
a segurar o cabelo, apoia-se na outra
e leva a boca ao bebedouro. Roda
um pouco a cabeça e vem de novo
o efeito lento e escuro daqueles olhos,
com os lábios húmidos no desenho
calmo do sorriso. E não é ela, claro,
apenas outra provocação.

Semanas mais tarde o hábito pede-te
mais algumas horas, as palavras
vêm ainda para uma falta
de sentido a que te acostumaste,
que te agrada até. Repetidos e doces
lugares vazios onde te demoraste
sem querer nem esperando mais
desta língua morta, a poesia.

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Vozes de crianças

O amanhã nos meus olhos é de um cinzento triste,
é uma teia de luz cansada
onde recordo quando iam dormir.
Ainda lhes leio naquele quarto,
debaixo da lâmpada ao lado da cama,
os contos com capas duras de cores brilhantes.
De súbito, em alguma madrugada,
ouço uma criança que me chama e incorporo-me,
mas não há ninguém, só um velho
que ouviu o rumor da memória,
um leve fragor de ar na escuridão
como se uma bala atravessasse a casa.
Ao apagar a luz guardava um tesouro.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

terça-feira, dezembro 22, 2009

Uns diários (1937-1944)

Nas páginas ressequidas e amarelas
das agendas desses anos
estende-se a sua letra, dela e dele,
miúda, aproveitando todos os espaços
entre o dia do mês, da semana,
e os nomes dos santos.
Desdobra-se, ofuscada e luminosa,
a paixão de viver. Até mesmo
nos lixos do medo.
Escrever serviu-lhes para estarem juntos
apesar das gavetas vazias, desesperadas
como ataúdes da guerra, e aqueles comboios,
abarrotados, sujos, lentos, que os separavam.
Tentaram escapar-se daqueles anos
com palavras de amor, cobrindo de musgo
as rochas ásperas onde depois a vida,
mais dura do que a guerra, os espatifou.

Porque a intimidade é como um subterrâneo,
sempre esconderam estas agendas.
Hoje o seu amor, como o dinheiro
republicano ao acabar a guerra,
já não é de curso legal. Não lhes serve para nada.
O passado volta, mas a vida
já o desmascarou.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

segunda-feira, dezembro 21, 2009

A escrita da estrela, O túnel

Ao fundo do túnel que era feito de cabelos loiros, distinguiu um espelho com uma frase a batôn, tentou aproximar-se e viu a sua cara com grandes manchas. Acordou.Eram três da manhã.

Foi até ao computador, abriu o gmail, só tinha um novo, dizia: URGENTE: Reencaminhe por favor este e-mail; por cada e-mail enviado este bebé queimado recebe 0,001 euros. Abriu todas as fotografias do bebé queimado. De nenhumas teve medo, parecia completamente queimado, mas já não parecia um bebé, mas uma rodilha com carne.
Enviou o mail para todos os seus contactos. Imaginou a rede a ficar repleta de mails do bebé queimado, mails que se cruzavam, várias pessoas os iam receber e enviar engordando uma informação de várias pontas, sempre em expansão até à mãe do bebé ter o dinheiro suficiente na sua conta para a operação do bebé em Cuba. Imaginou a conta a ficar recheada enquanto o e-mail em forma de estrela ia crescendo, engordando as suas pontas cada vez mais benignas e fluorescentes. Imaginou a estrela com as suas pontinhas a bater à porta dos camponeses. E os camponeses, do Cáucaso à Finlândia, a virem abrir as portas das suas casas. E as mulheres dos camponeses a perguntarem- Quem é a esta hora? - E os camponeses com as suas meias de lã grossa a abrirem a porta à estrela que, com todas as suas pontas, entra por todas as casas. Enfia-se em cada lugar da Rede. Espalha-se benigno. Uma estrela hiper-real, feita unicamente de solidariedade.

Ouvia o Adagietto da quinta sinfonia de Gustav Mahler, enquanto consultava vários sites com tatuagens; Guardava algumas das imagens numa pasta para depois escolher melhor. Tirou alguns contactos que gravou directamente no telemóvel.
Foi à beira da janela. Depois sentou-se à beira do computador e escreveu “A Estrela”. Começou também a escrever “O Viking e o menino autista”. Os dois contos ficavam completos no dia seguinte.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Arte doméstica

Não procures saber por que é
que um corpo triste
é um pleonasmo enorme. Deita-te
à sombra dos versos
como se as cidades fossem perdoáveis,
como se houvesse um nome,
esse nome fosse teu
e resplandecesse em sonora treva.

Despeja os cinzeiros com prudência
antes de o sono não te responder
e convoca o silêncio possível,
enquanto num televisor próximo
a guerra se adia e os olhos esmorecem.
Podes sempre fingir que não vês
nem ouves o céu sulcado de enjoo,
os gritos mortais das crianças.

Um dia na vida, alugado, apesar
do relógio da vizinha,
sempre tão certo, e do autoclismo
a pingar, também certo,
a dizer-te uma qualquer coisa nula
que deitas fora junto com os cigarros de ontem.

Tens tempo para o teu testamento,
esse último poema sem destinatário
(e não te perguntes o que irá o Estado
fazer com tanto Bach e família,
pois nessa altura estarás
finalmente surdo). Alegra-te
com o vento inerte de Junho, a saudar-te
entre latidos de cães alheios.

E, sobretudo, não procures nunca saber.

- Manuel de Freitas
in Os Infernos Artificiais, Frenesi

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Regina Kaiser & Uwe Karlstedt


Há muitas histórias nesta "História do Quotidiano do Outro Lado da Cortina de Ferro" de Peter Molloy. Algumas são dramáticas, outras divertidas. E depois há a história de Regina Kaiser & Uwe Karlstedt, que aqui tentarei resumir.
No dia 6 de Abril de 1981, com trinta e um anos, Regina foi presa em Berlim Leste, juntamente com o marido, e levada para a sede da Stasi. Desorientada com o que lhe estava a acontecer, viu a porta da sala de interrogatórios ser aberta por um jovem interrogador. Era Uwe Karlstedt. Regina conta, na primeira pessoa, o que se passou:
"A princípio, não encarei o meu interrogador. Baixei os olhos mas reparei que ele vasculhava à procura de uns documentos. Estava muito tenso e nervoso. Depois, olhei para ele e creio que ele também olhou para mim. Então, pensei: "Uau!" Não sei porquê, talvez fossem os seus olhos, sabia que isto era uma magia inexplicável. Fiquei absolutamente chocada e baixei o olhar. Nunca sentira nada assim. Fiquei como que a pairar. Durante uns segundos, ouvi anjos a cantar ou qualquer coisa do género."(p. 172).
Ou seja, inexplicavelmente Regina acabara de se apaixonar por Uwe.
Mas a história continua e ficamos a saber que também Uwe se apaixonou por Regina: "Achei-a logo maravilhosa e apaixonei-me por ela. Tive de fazer um esforço para manter a compostura. Mas felizmente Regina baixou a cabeça outra vez para que não nos fitássemos e consegui concentrar-me no meu trabalho. Queria reprimir os meus sentimentos."(p. 173).
Nos dias seguintes, os interrogatórios foram decorrendo e Regina e Uwe desempenharam os respectivos papéis de interrogada e de interrogador: quem redigia os panfletos contra o governo, quem os distribuía, onde, por quem, etc., perguntas que escondiam os sentimentos de um pelo outro. Por fim, no último interrogatório, Uwe ganhou coragem para se declarar a Regina. Estupefacta, ela revelou-lhe igualmente a sua paixão. Na solidão da sala do interrogatório, tocaram na mão um do outro. De seguida, apressadamente, beijaram-se. "Depois, ficámos ali sentados, sem dizer uma palavra. Nem sequer nos encarámos; olhámos de soslaio porque nenhum de nós estava preparado para aquela situação", conta Regina (p.175).
Julgada e condenada, Regina passou três anos, um mês e duas semanas numa das prisões para mulheres do estado operário e socialista da RDA. Não sabia nem voltou a saber nada de Uwe Karlstedt. Na verdade, nem sequer sabia que ele se chamava Uwe Karlstedt.
Só em 1997, treze anos depois de ter sido libertada e oito anos depois da Queda do Muro, é que Regina soube o nome do seu interrogador. Depois de uma busca exaustiva na lista telefónica, contactou Uwe, agora casado e com filhos.
A primeira reacção de Uwe a este contacto de Regina foi de negação e de rejeição. Mas ela escreveu-lhe uma carta recusando qualquer intenção vingativa. Então voltaram a encontrar-se e "registou-se um novo "estrondo"!", nas palavras de Regina. Abraçaram-se. "Durante muito tempo não conseguimos fazer mais nada excepto abraçarmo-nos."(p. 176).
Mas havia outras coisas a fazer e eles fizeram-nas. Divorciaram-se dos seus antigos companheiros e casaram-se no dia 16 de Outubro de 2006.
Gostava de ver esta história (e todas as outras) contada na televisão portuguesa.

Hoje

Entre 22 de Outubro e 17 de Dezembro de 2009 (excepto o dia 1 de Novembro), em quintas-feiras alternadas mas sempre às 18h, o Centro



mais em prado.tv

You can never hold back spring

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O Viking e o menino autista

As estrelas-do-mar têm simetria radiada e algumas delas podem ter um metro de diâmetro. Se um dos braços da estrela for cortado, pode-se desenvolver uma estrela nova.
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1.

Era domingo num Mc Donalds da Floresta Negra, Hanz olhou para o seu filho, autista de elevado grau, a brincar com o boneco do Shreck que era a brinde do Happy Meal. Passavam uma semana no sul da Alemanha e iam depois visitar a Áustria. Iam num carro alugado. O menino comia o seu hambúrguer, sem nunca olhar para o pai. O pai foi lá fora fumar um cigarro, viu o filho do vidro a continuar a brincar, não adiantava dizer-lhe para vir, isso demoraria horas e no interior do Mc Donalds da Floresta Negra não estava ninguém a não ser os empregados. O pai abriu o mapa das estradas da Baviera, teriam de estar na Pensão antes da meia noite. Ainda eram cinco horas e já era noite. O pai acendeu outro cigarro e deichou-se estar por três horas a olhar pelo vidro, para o seu filho, que continuava a brincar com o boneco, como se só tivessem passado 3 minutos. O pai abriu a porta do carro, ligou a música numa emissora comercial e fumou cigarro após cigarro até às 23h15. Depois foi chamar o menino. Seguiram pelas estradas cheias de curvas da Baviera, até à pensão. No outro dia iam ver o castelo de Neuchvenstein, cuja reprodução já haviam visto na Disney World de Orlando.

2.

Na altura o menino não prestou grande atenção aos homens mascarados de Pato Donald ou de Mickey, mas brincou durante muito tempo com os bonecos do Mickey e do Pato Donald, com os objectos em si.
O Q.I. do menino era o mais avançado da sua turma. Parecia ter incorporado toda a obra “Sedução” de Baudrillard e saber que tudo é simulacro, parecia ter ido ainda à frente de Baudrillard e saber que aquilo que o homem cria é também o homem.


3.

Na escola especial para autistas aconselharam Hanz a levar o filho a um acampamento de escuteiros. Ele passou lá duas semanas. Depois o pai foi buscá-lo. Durante esse tempo houve muitas actividades. A cada menino foi pedido que escrevesse um pequeno conto, cujo tema fosse a Floresta Negra, o conto deveria ter no máximo duas páginas. Os orientadores não conseguiram convencer o menino autista a escrever, porque este estava a olhar para o chão e para as árvores. Os outros meninos escuteiros apanhavam pinhas e liam, e aprendiam a fazer nós ( O nó do marinheiro, o nó do enforcado). Escreveram cada um, o seu conto. Depois foi publicada uma antologia dos meninos escuteiros com as suas visões da Floresta Negra. 40% dos contos eram sobre castelos, 34% eram sobre fadas das montanhas. Hanz levava no banco de trás do carro a antologia. Claro que não estava lá o do menino.
Mesmo assim, Hanz foi até à janela da pensão, pegou na antologia, acendeu um cigarro e leu os contos todos dos meninos saudáveis. Percebeu então que o escritor é aquele que não escreve. E que a literatura é simplesmente tudo o que não pode/ não foi / nunca será escrito.


4.


No dia seguinte passearam-se mais um bocado pela floresta Negra, e ao lado da estrada o menino encontrou uma estrela-do-mar, o pai olhou-a. Podia ter caído de algum carro, de alguém que vinha da praia e a trazia ao vento por fora da janela. A praia mais perto era a 1000 quilómetros. Mas as estrelas-do-mar são sobreviventes. Pensou sem saber porquê que se podia tratar de uma estrela-do-mar autista. Uma estrela-do-mar que soubesse tudo, todos os segredos de toda a gente. Meteu-a no bolso do menino.


5..

Assim que chegaram a Zurique, hanz descobriu um alfarrabista mesmo ao lado do parcóometro onde se dirigiu para pagar o estacionamento do carro. Entrou na livraria com o menino e descobriu na secção de História, um livro que se chamava – Doenças Psiquiátricas no Antigo Regime – Era uma obra de História da Medicina. Abriu ao acaso numa das páginas e encontrou o capítulo: O Autismo na Idade Média.

Comprou o livro e saiu, era uma edição dos anos 60 e a capa parecia da cor da estrela-do-mar. Voltaram para Hamburgo e nesse mesmo dia numa consulta, o médico aconselhou a que o menino andasse com um cartão ao peito, que tivesse os seguintes dados, o seu nome, o nome do pai e as respectivas fotografias. Isso criaria identificação e reconhecimento. Deveria também ter a fotografia de um objecto com o qual o menino tivesse grande afinidade. A técnica não era nova. O cartão foi feito. Hanz tirou uma fotografia da Estrela-do-mar e a mesma fotografia foi anexada ao cartão, que passou a estar sempre ao peito do menino. O cartão tinha também os números de telefone, do pai e da clínica.



Algumas variantes sobre a origem do autismo:


1. Índios da América do Norte:

Os autistas são meninos que olharam demais para a lua

2. Antiga Grécia

2.1
Os autistas eram os meninos que nadavam no fundo do lago cuja superfície servia de espelho a Narciso. Os meninos eram filhos de Cassandra e Cronos e de vez em quando entravam nos túneis subaquáticos que iam dar até ao mar negro. Aí alimentavam-se de estrelas-do-mar. As meninas autistas em vez de as comerem metiam-nas nos cabelos e voltavam para junto do lago de Narciso. Não era a si próprio que Narciso via. Mas todos os outros.

2.2.

Os meninos autistas eram gatos negros transformados em meninos

2.3.

Os meninos autistas eram filhos de Narciso e de uma mulher em tudo igual a si,

(Outra variante)


Os meninos autistas eram filhos de Narciso e de uma mulher que era também ele próprio.


3.

Margarida da Suécia era muito amiga de um menino-autista da Suécia, que dormia no quarto ao lado da Rainha. Cantava muito bem e pensando que cantava sozinho, era ele o músico preferido da Rainha.

4. No deserto que circundava Babilónia, um estafeta do rei, descobriu no caminho, uma estrela-do-mar. Como era sinal de boa sorte, nesse sítio o rei mandou erguer uma cidade de várias pontas e povoá-la com todos os meninos autistas da Babilónia. Aí criariam a letra cuneiforme, o princípio da escrita através do qual todas as histórias seriam contadas.

O túnel

O vulcão que se veio em 1943 deixou petrificado um oficial das SS a comer uma sandes de queijo, a sua ração também ficou petrificada -

Os olhos são o espelho da alma e os amigos são o espelho de deus

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E uma das medusas que é a Verdade, cortou-me o cabelo, e a outra que é o esquecimento trouxe-me um gin campari e o anti-psicótico

Serei o vento que bate nas costas e a tatuagem de extrema-direita, serei o rugido quente de um leopardo recém-nascido………………………………………………………….


Espero que os meus olhos digam a verdade e saibam a azeite negro –

[indiquem um caminho novo…]

E que o dactilógrafo se transforme numa estrela suicida –
Quero ser petróleo que entra em todas as refinarias e os donos das refinarias a passear com as suas mulheres e as suas filhas num shopping de periferia e as suas luvas negras extremamente limpas


Quinta feira num Mc Donalds da Floresta Negra (Baviera)

Eu sou o medo, mas chamaram-me Civilização, os filhos da Puta, e eu disse-lhes, reproduzam-me porque eu sou Criação, a possibilidade que gera tudo, a que faz mover, a que é desejo, mas enquanto comiam os seus hambúrguers, confundiam-me com outra coisa, os meus filhos tremeram



Serei uma ode de Ricardo Reis escrita a vermelho Uncial numa mortalha de prata
Um país de fumo com as suas praças e vielas e miradouros, os seus sinos de fumo a dobrarem uma Tentação de Santo Antão, os seus sinos de fumo a despertarem os camponeses, os seus sinos de fumo a violarem as filhas dos camponeses, os seus túneis de fumo a dançaram com Salomé, os seus túneis de fumo a meterem uma cabeça morta entre as pernas. Serei só as manchas negras da História Universal a escorrerem pelo cabelo, como um século Etrusco que viu de mais– Serei o segurança que guarda a fábrica de rolhas com um pastor alemão, serei todas as rolhas e os que as fazem, e todos os que as destapam – Serei o vinho e o esquecimento que os adormece.
Serei o azeite a escorrer da boca do paralítico, serei os que o carregam - a Medusa que lhe limpa a boca - todos os que lhe abrem as pernas para meter a algália, serei a tua veia a inchar, o teu maxilar a apertar de raiva – tudo o que deve ser esquecido, o mais doce sonho de Kafka, a letra mais carregada, a mais perfeita das letras latinas – o espasmo da cocaína, a mais bela dança de fumo, uma Austrália a derreter,
Serei só rima cruzada e respiração quente, Uma estrela que expiou de mais e é já só memória e febre a descer como um rio por entre as pernas,
Serei a que limpa o Lidl e serei o Lidl com as suas antenas de prata, Serei o Petróleo que Pasolini escreveu e serei todos os que o lerem com os seus olhitos a brilharem, serei os que o criticaram, o que o matou, serei o que te contará a primeira história – Serei a história mais violenta - A que te acorda sempre cedo demais – o meu copo está vazio e Luís Pacheco encheu-o de estrelas – O meu século bebeu demais e eu acordei sozinha.


Serei o teu amigo, não serei essas palavras que dizem isso,,, serei só o teu amigo porque gosto de te ver sorrir* e sou medo quadriculado, um medo negro que faz avançar, um medo heroínómano e vazio de tudo, um medo quadriculado e multiplicador que quer conhecer os mais negros limites humanos, que por não existirem me chamam:
A ele chamaram Civilização.

O meu século joga playstation e tem olhos azuis
será só um calendário doce, comido antes do tempo…
Tem dentes tortos e virilhas acesas, sabe a gin tónico e a petróleo

É uma dança pré-hispânica em tudo eterna
É um sonho tétrico de dois meninos negros, é o leite em pó que lhes entra na boca,
É a boca cheia de neve, é a neve com sumo de cereja, é o arrastar das botas em direcção ao abismo, é os olhos cheios de Ketchup* (AMANDA PALMER) de um cavalo que é todos e corre múltiplo com a crina cheia de gel, um cavalo-cônsul, como alisar-lhe as crinas? Se tudo me dá vontade de rir? Como comer um país lusitano que corre rápido demais? Como ser uma cidade industrial perto de Atenas se o meu mito é condensado? Porque tudo me dá vontade de rir, de comer e de beber?

Qualquer Criador quer que lhe dêem um tiro na boca
Qualquer Criador quer ser possuído por um homem de Extrema-direita
Qualquer criador é um gato negro com os seus olhos verdes, o prato que lambe e a senhora que o traz –
Daqui vê-se a Grécia a derreter até à loucura, se quero escrever sobre a solidão é porque só ela mata – Daqui vê-se a olhar para o espelho uma girafa com os seus óculos de séculos, daqui ela serve-me gin numa bandeja a ferver, daqui ela foge de mim, daqui vejo-a arder, enquanto cai de uma torre latina, a chama coberta por uma bandeira de um país da Ásia Menor – Serei a máscara social que te protege e o fim da ficção, serei o desenho geométrico que surge da espera, e as curvas que dão esperança, serei a mancha negra e o traço repetido.

Os olhos são o espelho da alma e os amigos são o espelho de deus

Sou negra (todos os homens e todas as mulheres) e pintaram a grafitti vermelho nas minhas costas uma frase que não consigo ler, porque o espelho ainda não foi inventado e porque aqueles que vivem no meu sítio não sabem ler. A solidariedade sabe ler. Às vezes passa aqui um helicópetro com um repórter e um câmara, vêm fazer um documentário sobre o esquecimento ou sobre a fome. Acredito que eles sabem ler, mas o barulho das hélices faz com que não nos ouçam e continuam a filmar, as minhas costas vão passar nas televisões do primeiro mundo, e as estrelas comem-se à minha frente. O Amor começou em África, esqueci-me do nome dele.


1.
Uma das gémeas de Siracusa disse que eu era tétrico,
A outra também disse que eu era tétrico, eu disse : Eu não sou tétrico: Sou só um prato gorduroso e os gatos vêem-me lamber de manhã e os gatos vêem-me lamber à tarde, e os gatos vêem-me lamber à noite quando a Lua está cheia e gordurosa, e as duas gémeas, que eram irmãs da fome e que tinham a boca cheia de neve e de cerejas negras, disseram que eu me parecia com uma península, e que adoravam ser possuídas por uma península quente e de muita gente onde o sol aquece de mais. Uma península com muitos olhos castanhos e verdes e negros e azuis a irem para o trabalho e a verem tudo, uma península onde o Medo seja Criação. E então as duas gémeas deram-me o anti-psicótico com Gin Campari. As suas duas línguas quentes pareciam um continente distraído.



2.

As gémeas que chegavam de Raguzza traziam dois jaguares por uma trela dourada, olharam-se a um espelho barroco e viram só os jaguares. Cada um dos jaguares contou-me dois segredos. Quatro segredos que só posso contar ao doctor.

Outros dois jaguares apareceram,
As gémeas disseram-me que lavraram África com um arado de prata que nas pontas era gelatinoso como o cancro da mama, mas benéfico e quente como o esperma dos leopardos; o continente deu frutos frescos e a fome, a mais solitária das medusas partiu para sul com o seu MP3 ligado,



A tua língua é o mais doce sonho etrusco, o teu olhar é o Mediterrâneo inteiro a beber de todos os rios

Hematoma Etrusco

Hematoma Etrusco




A menina levava nas suas mãos,
uma granada, uma bola de Berlim e uma papoila vermelha,
da sua camisola beje saíam ainda fios de ovelha

Os Maias adivinharam-lhe o sorriso, os segredos e o manto branco,
Desenharam-lhe a cara com obsediana quente e pentearam-lhe o cabelo com seiva de cacto, com o mesmo gel curaram-lhe as nódoas negras,
Enrolaram-lhe um calendário em folha de gelatina e Passearam-na por um Reich de leite condensado.
beijaram-lhe nos seus joelhos e tornozelos, os pequeninos hematomas etruscos,
fumaram o seu calendário e partiram silenciosos e robustos.

As raparigas

A lembrança precisa de dizer algum nome
para conviver com aquilo de que tem medo.
Pensa nela: começou a perdê-la
quando a abraçou na primeira noite.
O homem quebra o passado como um mealheiro
e dentro só havia escuridão.
Nos ossos do tempo não há ternura.
Já não existem lugares.
As raparigas já são velhas ou estão mortas.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

Saturno

Rasgaste os meus livros de poemas
e deitaste-os para a rua pela janela.
As folhas, como estranhas borboletas,
iam pairando por cima das pessoas.
Não sei se agora nos entenderíamos,
dois homens velhos, cansados e desiludidos.
De certeza que não. Deixemo-lo assim.
Tu querias devorar-me. Eu, matar-te.
Eu, o filho que tiveste durante a guerra.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

Conversas entre amigos

Quando, a meio de uma conversa entre amigos,
chega o acostumado momento das recordações,
e nos seus lábios ressuscita em claro-escuros
a flor seca do passado, penso surpreendido
que os clássicos tinham razão
quando escreveram com tal subtileza os seus belos tópicos
acerca da fugacidade do tempo,
e sacode-me com violência
a inutilidade destas repetições.

A fugacidade do tempo
não é coisa que me assombre,
mais estranho seria
deter a ordem das horas;
mas ouvir questões
que nos velhos livros já eram velhas
repetidas de forma torpe e presumidamente nova
é coisa que me assusta.

- Rikardo Arregi

The Great Escape

terça-feira, dezembro 15, 2009

A Estrela

I.

O meu marido é soldador e chega tarde a casa. Quando chega já está a dar o telejornal. O meu marido chega e põe-se em frente à televisão da cozinha. Dá algumas palmadas no cão. Depois muda para o outro canal onde estão a dar as notícias do desporto e ele vê com atenção as notícias do Dínamo de Bucarest e vem sentar-se à mesa quando já está tudo frio.


II.

Nunca falta sopa lá em casa, porque o meu marido e os meus filhos graças a Deus, gostam muito de sopa, desde pequeno que o meu marido gostava, e os meus dois filhos são iguais. Desde pequenos que comem duas ou três tigelas e depois pedem mais. Por isso normalmente não comemos muito ao jantar. Às vezes são só umas sandes. Normalmente faço-lhes sopa de hortaliça sem passar muito, e feijão, ponho muito feijão na sopa e estrelas. Ponho uma massa de estrelas de que os meus filhos gostam. Antes fazia sopa de letras. Mas o meu marido queixou-se das letras e eu mudei de marca. Agora compro de uma marca branca, mais barata, mas ele gosta mais.
O meu marido trabalhou na Grécia dois anos antes de me conhecer e diz que na Grécia a massa de letras é com caracteres e que sabe melhor. Mas diz: Os gregos não punham as letras todas, porque ficava caro às fábricas fazer moldes para todas. Tinham que ser moldes muito pequeninos e era um investimento inicial muito grande, para aqueles que se decidiam a abrir uma fábrica de transformação de cereais. Eram uns pobres, depois uma mudança no destino, no rumo das estrelas e esses pobres diabos com um empréstimo ou outro lá iam criando as suas fábricas. Contava o meu marido. Na Grécia qualquer massa de letras só tinha o Alfa, o Beta e o Ómega, as letras mais populares, algumas marcas tinham também uns pontinhos, que faziam de ponto final. Mas a sopa era boa, dizia ele. A sopa dos russos também. O meu marido viveu um ano na Rússia, quando tinha 20 anos, trabalhou numa adega de um amigo que já estava lá há mais tempo. Dizia que a sopa dos caracteres russos também era boa. Esses punham os caracteres todos e por isso a sopa sabia melhor, porque ao paladar juntavam-se novas texturas, e os russos têm muitos caracteres e falam muito rápido.

III.

Agora ponho estrelas na sopa e ele não se queixa. Mas às vezes pega no pacote da massa quando estou a cozinhar e não diz nada, mas eu sei aquilo em que ele pensa. Um dos sócios da fábrica de transformação de cereais é o Serj: um antigo amigo nossa. Cresceu junto com o Óscar. Tinham sido colegas de escola e de seminário, e depois ainda na tropa. Percebo bem o meu marido, a sua expressão quando olha para a embalagem da massa de letras.
Quando saíram da tropa, o Óscar foi para a Rússia, primeiro como montador de pneus, depois a trabalhar numa adega. O Serj entrou numa empresa de construção civil e passava a vida no sul a fazer ginásios e estádios. Passado pouco tempo casou-se e foi viver para Bucareste. Dividia com outro homem um táxi, fazia o turno da noite e o outro fazia o de dia. O negócio começou-lhes a correr bem e compraram outro táxi, passado algum tempo tinham seis táxis novos e bons e alguns motoristas a trabalhar para eles. Ele continuava a conduzir um dos táxis da noite. Compraram mais alguns carros. Nessa altura a Anna tinha acabado de nascer e no baptizado dela, ele disse ao meu marido que tinha levado o Emil Cioran à praia. Disse-lhe que o apanhou em frente a um hotel a fazer sinal para o táxi parar e que queria ir a Constanta.


IV.

- Ia muito calado. Eu ia falando para passar o tempo. Ele pediu-me um cigarro porque a essa hora já estavam todos os sítios fechados e seguimos até ao Mar negro. Ia embalado com a música e adormeceu. Depois foi tirando uns apontamentos para um bloco preto. E eu disse que era uma grande honra levá-lo à praia. Ele saiu do táxi e foi até à beira mar. Tirou os sapatos e molhou os pés. A água devia estar muito fria. Eu fiquei ao lado do táxi a olhar para ele. Parecia o homem mais triste do mundo. Depois voltou e pediu que o levasse a um apartamento de um amigo, deixei-o lá.


V.

Juntaram-se depois com outro sócio, e os três criaram uma empresa de camionagem. Compraram dois autocarros usados. No início faziam só duas linhas regionais, que traziam as trabalhadoras dos arredores de Reslta para o centro da cidade. Mulheres que vinham às 6 e meia da manhã para as fábricas de calçado. Ao fim da tarde as camionetas também vinham cheias para as trazerem a casa.
Fizeram depois um acordo com a câmara da cidade para levar crianças dos arredores para as escolas mais próximas e por isso tiveram que comprar mais camionetas. Em pouco tempo cobriam mais linhas e tinham uma frota de sete camionetas, uma delas com ar condicionado para as viagens para Deva.


VI.

Depois ele vendeu a parte dele. Era na altura muito amigo de um empresário de Arad e decidiram criar a fábrica de transformação de cereais. Era uma fábrica pequena nos arredores da cidade, tinha 40 empregados. O negócio ia correndo bem, ia dando para aguentar as despesas com o pessoal e os fornecedores. Os clientes eram armazéns de retalho no Oeste. Para sul havia as grandes fábricas de transformação de cereais que exportavam para a Bulgária e para a Sérvia. Com essas não podiam competir. Os produtos da empresa só estavam numa mercearia ou noutra, todas muito afastadas umas das outras. Mas a carteira de clientes era boa e o negócio não era arriscado.




VII.

Pouco tempo depois de ter criado a empresa, comprou uma casa, perto da nossa; Vinha cá algumas vezes ao ano com a mulher e a filha, a Simona que nasceu mais ao menos ao mesmo tempo da nossa Anna. No início O Serdj não vinha muito aqui porque a empresa ainda lhe dava muito trabalho, mas depois passou a vir mais e no verão costumavam ficar aqui cerca de 3 semanas. Às vezes tinha que ir mais cedo embora, mas a mulher e a filha ficavam mais uma semana ou duas e depois iam lá ter. A filha, a Simona dava-se bem com a Anna, brincavam juntas aqui em casa, ou iam até à biblioteca ou ao parque. Só lhes pedia para virem antes de ficar escuro.


VIII.


A Anna andava no ballett aqui e Simona andava no ballett em Arad. Fechavam-se no quarto e punham-se a dançar. O Óscar tinha-lhe comprado uma aparelhagem de música nos anos dela e os tios davam-lhe cd’s de compilações. Punham a música alta e ficavam a dançar. Os gémeos ainda eram pequeninos. Às vezes um deles entrava, ou entravam os dois, e elas punham-nos fora, ou punham-se a fazer-lhes penteados e a pôr totós nos gémeos e riam-se e ficavam todos a dançar muito inocentes. A Anna pegava numa caneta e fazia de conta que era um microfone e cantava por cima das músicas, em frente a espelho. Saltava as palavras do inglês que não percebia. Os gémeos saltavam em cima da cama. Às vezes entrava lá o cão. Outras vezes eu ia lá pôr ordem e meter-lhes a música mais baixo. A Simonna era um bocado mais alta do que a Anna. Entretanto a Simona e a Anna entraram para o ciclo e continuaram amigas. Só se viam no Verão quando o Serj voltava. Íamos falando pelo telefone durante o inverno e sabíamos as novidades deles e eles sabiam as nossas, a vida do dia a dia. O crescimento da Anna e o crescimento da Simona.
A Simona era boa aluna, tirava muito boas notas, a Anna também era boa aluna, mas a Anna estudava pouco por isso tirava notas mais baixas, mas o suficiente para passar, era responsável e isso chegava-nos. A Anna gostava mais de ler novelas, contos ou romances, que o Óscar lhe comprava quando tinha de ir à cidade. Novelas de autores romenos e búlgaros muito populares, ou então da Ennid Blinton. Mas a Anna ia à biblioteca procurar outros livros de que gostava mais e ficava a ler. Eu não posso ler muito por causa dos olhos, mas a Anna lia muito.



IX.

Outro dia entrei no quarto dela, que nunca foi arrumado. Ficou como estava depois de ela morrer. Só fiz a cama. Mas não mudei a roupa da cama. E também não arrumei a secretária nem arrumei a mesinha de cabeceira que está com um livro do Cioran em cima, com uma marca na página 30. Diga o que disser o escritor, foram as últimas frases que a minha filha leu. Por isso eram frases verdadeiras, certas, porque a minha filha morreu em paz. Outro dia vi qualquer coisa no jornal que o Óscar deixou em cima da mesa da cozinha. Tinha um artigo sobre Cioran. O Serj uma vez, levou O Cioran à praia, já lhe tinha dito? As coisas correram bem ao Serj. Teve uma filha que era muito estudiosa. Mas perdi o fio à meada. Eu falava que andavam as duas no liceu. E aí o Serj começou a vir menos vezes aqui. Ele ainda vinha algumas, mas muitas vezes sozinho e por pouco tempo, porque a Simona já não gostava tanto de vir aqui. Gostava de estar com a Anna, e falavam muito ao telefone. Mas a Simona, sabe as idades. A Simona tinha lá o seu grupo de amigos, e se calhar o seu namorado. A Anna tinha aqui o seu grupo de amigos e o seu namorado. A Simona já não gostava de sair da cidade. A cidade é animada no verão, é quando estão de férias, tem de se aproveitar a idade. O Serj vinha. Mas poucas vezes; Não é bom para um homem andar sozinho.



A Simona dançava muito bem. Uma vez fomos a Arad vê-la dançar. A uma academia numa festa de Natal da escola onde ela andava. No fim fomos jantar todos à Pizza Hut de um centro comercial do centro. Ficamos duas noites em casa do Serj, era o fim-de-semana antes do Natal. Os gémeos estavam já no ciclo. Trocámos as prendas no restaurante. A Simone dançava muito bem e cantava muito bem.


*


Mas a Anna dançava… Como dizer… A Anna Dançava… É engraçado…
Veja, tenho-a na carteira: Esta é a Anna quando tinha 6 anos. Foi tirada na cozinha de nossa casa. Eu disse ao Óscar para me deixar arrumar a vassoura primeiro. Para que a vassoura não aparecesse na fotografia. Antes dele chegar, a Ana estava a dançar na cozinha com o cão à volta dela aos saltos. A televisão estava ligada num programa da manhã e passava uma música animada de uma banda brasileira em digressão na Roménia. A Ana dançava com uma tshirt que o Óscar lhe tinha trazido de Bucareste. Uma tshirt com uma girafa estampada, a girafa só tinha duas patas e uma bola de futebol ao lado. Tinha uns calções curtos à jogador de futebol dos anos 70, uma gravata cor-de-rosa e uns óculos de sol. A Anna gostava muito dessa tshirt e dormia com ela. Naquele dia de manhã tinha acabado de acordar. Eu tinha-lhe aquecido o leite com chocolate que estava em cima da mesa já frio. O Óscar chegou a casa, com uma máquina fotográfica. Passou por casa só para apanhar umas coisas de que se tinha esquecido e experimentar a máquina. Tinha-a comprado em segunda mão a um cliente que passou pela empresa.
Tirou várias fotografias. Vê aqui esta… Quando chegou à noite já vinha com elas todas reveladas. Sentou a Anna no colo e mostrou-lhe. Disse: Quem é esta menina que eu precisava mais de ver, do que o Moisés precisava de um mar para separar?
Dizia-lhe sempre isso. E a Ana dizia que não tinha sido o Moisés, porque um tio já lhe tinha dito. E ele voltava a repetir e a dar-lhe beijos.
Às vezes à noite ia-se despedir dela ao quarto. Dava-lhe um beijo na testa. Depois contava-lhe uma história que inventava. Uma vez espreitei e ouvi o Óscar a contar-lhe a história do Pastor. Ela adormeceu a meio, mas ele continuou até ao fim:

: História do pastor


Havia um pastor que tinha um rebanho de cem ovelhas e queria pô-las a pastar num prado, mas o prado ficava do outro lado do mar. Então apareceu Moisés e disse, eu parto o mar em dois, e tu as tuas ovelhas passam pelo meio. O pastor agradeceu. Mas Moisés mudou de ideias e disse: Afinal, só deixo passar um de vocês dois, por isso escolhe, ou passas tu, ou passam as ovelhas todas. O pastor disse: Então Moisés que passem as ovelhas todas, porque elas precisam de ir pastar e eu posso ficar aqui a dormir porque depois ainda me espera uma longa viagem de regresso. Moisés abriu então o mar para as ovelhas passarem. Depois de passarem todas, o pastor pôs-se a dormir na praia, mas passado pouco tempo Moisés acordou-o e disse: Pastor, tenho fome, quero comer sandes de queijo de ovelha. Tenho aqui pão, mas falta-me o queijo de ovelha. Eu abro-te o mar, e tu vais buscar as ovelhas, e recolhes o leite de uma delas para fazer queijo e trazes-me para pôr no pão. O Pastor aceitou, e Moisés voltou a abrir o mar. Quando Moisés chegou ao outro lado não encontrou as ovelhas, só encontrou um homem que lhe disse: Eu sei onde estão as tuas ovelhas pastor, mas só tas dou se matares o Moisés, é que ele está sempre a abrir e a fechar o mar, e por isso eu tenho que matá-lo, mas é melhor que não seja eu, porque se eu o fizer, fico com as culpas e posso ser julgado por isso. Assim, eu dou-te esta pedra e tu vais lá e atiras-lha, e depois eu devolvo-te as ovelhas. – O Pastor ficou desorientado, mas aceitou, pegou na pedra e foi ter com Moisés que perguntou se ele já trazia o queijo de ovelha, o pastor atirou-lhe com a pedra à cabeça e Moisés caiu. O Mar tinha ficado aberto, e o pastor voltou para trás para apanhar as ovelhas. O homem estava à sua espera, agradeceu que ele tivesse atirado a pedra a Moisés, mas disse: Agora pastor, vou ter de ficar com uma comissão de 40% por ter ficado este tempo todo a olhar pelas tuas ovelhas. E perguntou o pastor: Quanto é que é 40% das minhas ovelhas? – O homem disse – Tu tens 100 ovelhas, por isso 40% do teu rebanho, são 40 ovelhas para mim. O Pastor deu-lhe então 40 ovelhas, e ficou só com 60. Voltou outra vez para trás com as suas 60 ovelhas. Foi então que, atravessando o caminho que Moisés criou, encontrou uma estrela-do-mar e guardou-a no bolso. Mas entretanto Moisés acordou, porque tinha estado só a fingir que estava morto e disse-lhe – Com que então pastor, para além de não me teres trazido o queijo de ovelha, ainda me tentaste matar, e eu que tanto te ajudei ao abrir o mar em dois para tu passares. Então Moisés prendeu o pastor e as ovelhas numa jangada e pediu a Eólo, o deus dos ventos que lançasse uma tempestade sobre o barquito e que eles fossem lançados à sorte dos deuses. Então Eolo lançou ventos fortes que criaram ondas gigantes sobre o mar e o barquito quase ia ao fundo. Ficaram vários dias à deriva no alto mar até que o pastor se lembrou de rezar à estrela-do-mar, e pedir-lhe muita sorte.

A estrela-do-mar ajudou-o e indicou-o caminho da Irlanda, que era o sítio mais seguro. O barco chegou são e salvo a uma praia da Irlanda, onde há muitos pastos relvados, e o pastor soltou aí as suas ovelhas.

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X.

Nessa altura a Anna já estava na Academia de Ballett, e em dois anos tornou-se a mais talentosa do grupo. A professora e o director da Academia um dia falaram com o Óscar e disseram-lhe que seria bom levá-la para Bucareste a algumas aulas da Academia de Bailado Clássico Nacional. Uma das melhores Academias de Dança Europeias. Disse que ela quase de certeza seria admitida com uma carta de recomendação, porque tinha muito talento. Mas isso implicava muitas perdas; Também muitos ganhos. Eu e Óscar falamos disso durante muito tempo. Sobre a Anna ir para Bucareste. Abandonar a escola aqui. Irmos todos viver para Bucareste. Mas e os gémeos. E começar tudo? A Academia em Bucareste tinha também escola que a Anna poderia frequentar. O Óscar dizia: A minha menina vai ser uma Estrela. Foi a decisão de que mais me arrependi. O meu marido de vez em quando fala nisso. Decidimos que se veria no fim da escola primária. A Professora achou sensato, porque a decisão implicava também muitos riscos e estávamos com pouco dinheiro.

A Simona dançava bem, mas não tinha tanto talento e quando entrou no ciclo desistiu da dança.

Mas há algum tempo a Simona conheceu alguns músicos, A Simona canta bem. Criou um projecto a solo. Começaram a dar vários concertos. Um produtor de espectáculos abriu-lhe os caminhos da televisão e a Simone começou a aparecer em todos os programas da Manhã, nos serões da noite, nas emissões especiais. Hoje, as suas digressões são muitas. Ela é bonita, canta bem, alguém lhe escreve as letras e já lançou quatro álbuns: Sim estou a falar da Simona que apresenta agora um concurso para cantores. Essa mesma, minha senhora. A mulher que aparece em mais capas de revistas no nosso país. Sim, é essa Simone.


XI.


Nos últimos tempos a Anna queixava-se que lhe doía muito a cabeça. Por telefone, ligava e dizia que lhe doía e que estava com dificuldades em concentrar-se nas aulas. Disse-lhe para tomar vitaminas e que me explicasse melhor que tipo de dores eram. Estava em Bucareste no último ano de Biologia. Vivia num apartamento, que dividia com duas raparigas. Não disse ao Óscar para não o preocupar. Ele andava com muito trabalho. Tinham recebido uma grande encomenda do principal fornecedor, a ser entregue em Janeiro. Os soldadores iam ser os que tinham que se apressar mais.
Telefonei à Anna um dia pela manhã para o telemóvel mas ninguém atendeu. Liguei várias vezes. Depois ela ligou-me, disse que estava em aulas e estava com o telemóvel em silêncio. Perguntei-lhe se estava melhor. Disse que não. No início pensei que pudesse ser sistema nervoso, estava a acabar a primeira semana de Dezembro. Aproximavam-se os exames e para além disso tinha dois trabalhos de grupo que tinha que entregar antes do dia 20. Mas fiquei preocupada. Telefonei para a empresa e mandei chamar o Óscar. Ele atendeu. Disse que tínhamos de ir a Bucareste buscar a Anna porque ela não se sentia muito bem. Ele veio passado pouco tempo. Estava nervoso. Expliquei-lhe pelo caminho. A Anna tinha desmaiado na noite anterior e ainda não tinha ido ao médico.

Telefonei à Anna pelo caminho, disse-lhe para ela não sair de casa. Quando chegamos ela estava a dormir no quarto, uma das colegas delas levou-nos lá. Acendemos as luzes e chamámo-la. Ela acordou. Disse que estava tonta. Levantou-se, tinha pouco equilíbrio. Fomos ao Hospital Universitário. O Óscar ia a conduzir muito depressa. Uma das amigas dela veio também. Estava preocupada. Foram muito rápidos a atender-nos. Fizeram exames na mesma noite. Eu estava na sala de espera com a amiga da Anna e íamos falando. A sala estava cheia. O Óscar estava sempre a vir cá fora fumar. Telefonou para o director da empresa e disse que ia ter de ficar mais uns dias em Bucareste. A Anna ia ficar internada. A amiga disse para ficarmos lá em casa e dormimos no quarto da Anna esses dias. Um dia de manhã, o médico, que era muito simpático falou-me do tumor. Um tumor cerebral, maligno e galopante. Um tumor em forma de estrela. As minhas irmãs e a minha mãe vieram para Bucareste. Trouxeram os gémeos. Passado três dias, o médico disse que não valia a pena ser operada. O melhor seria vir para casa, onde poderia ficar mais à vontade e estar em família. Voltamos para casa e foi o último Natal da Anna.

XII.

Passamos ainda juntos o Ano Novo, mas no início de Janeiro começou a piorar muito rápidamente. Perdia cada vez mais o equilíbrio. Estava cada vez mais tonta. Não tinha dores, mas a medicação que as tirava deixava-a desorientada, com muitos lapsos de memória. A casa estava sempre cheia de visitas, familiares e amigos. A minha filha perdia cada vez mais o equilíbrio. E o Óscar andava cada vez mais à deriva, e os gémeos andavam cada vez mais à deriva e o cão também andava à deriva.

Então sonhei a morte. Uma morte europeia e travesti, com uns boxers apertados e às riscas. Nunca esquecerei o seu cheiro. Carrego-o todos os dias por baixo da língua como uma bola de algodão. Veio buscar a Ana. Com os seus boxers às riscas. Nunca vi figura mais ridícula. Acho que me ri dela no sonho, parecia uma personagem de uma novela negra japonesa, mas com menos classe:

Não percebi se era um homem ou uma mulher, parecia um relâmpago preso dentro de um casaco verde da Prada, um relâmpago reprimido, mas ainda assim colossal , com as suas virilhas acesas, muito controlado, como uma dama aflita prestes a perder a controlo. Um relâmpago de saltos altos, muito compridos, pronto para explodir num orgasmo de luz e som, num Big-Bang desorientado. Mas que se controla e só explode para dentro, cada vez mais para dentro, muito educadamente minga até um estado inofensivo. Até ser um relâmpago-menino. O casaco verde ficava-lhe extremamente sexy a essa morte branca e láctea, como uma Puma feita de nata que, num voo muito elegante se atirou à minha cara: Um país a ambicionar o esquecimento.



Uma manhã a Anna ainda dormia e fui à cozinha preparar-lhe torradas, adivinhando que ela já não deveria demorar muito a acordar. Depois fui ao quarto dela e deixei lá o prato. O livro do Cioran estava aberto. Ajeitei a marca e fechei-o. Deu-me um quase ataque de pânico que se parecia um rio. Mas controlei-me e não comecei a chorar. Vim cá para a porta de casa e aí explodi, um choro logo controlado e reprimido. Depois um sorriso, porque podiam aparecer os meninos que deviam estar quase a acordar, coitadinhos, a imagem dos dois a dormir quase me fez outra vez explodir. - Não chora – Disse para mim como se fosse uma criança, repeti as frases em pensamento várias vezes, mas com vozes interiores diferentes, sem dizer nada, imaginei muitas vozes cómicas a dizerem-na: Não chora, um antigo colega de escola a dançar um twist muito divertido e com uma panela na cabeça, a dizer a frase, e depois ri-me, e não conseguia parar de rir. E passou uma mota em frente a casa, e o homem com o seu capacete ridículo ficou a olhar para mim e eu tive vergonha. Depois ri-me ainda mais do capacete dele e imaginei-o a dançar. O meu riso era já uma ameaça profunda e tive medo de ficar preso a ele, atrelada à loucura, atrelada à mota do homem do capacete ridícula e ser arrastada pela estrada até ao Mar Morto: E lá o homem da mota estacionar ao lado de Cioran que escreve em cima de um banco no seu caderno preto, o esboço do livro que a minha filha está ler; Lembrei-me dos meninos, fui lavar a cara muito rápido, sem me olhar ao espelho. Entrei no quarto. Estavam a dormir. Fui ao meu quarto ver o Óscar. Estava a dormir, parecia uma criança. Beijei-lhe a testa. Fui à sala o cão estava a dormir mas a ter pesadelos profundos e soluçava como se fosse ter um ataque. Meti-lhe a mão no pelo e acordei-o devagar, ele levantou o focinho, acalmou-se e voltou a dormir. Depois vesti-me para ir comprar cigarros ao Óscar, porque ele estava sem tabaco, trouxe-lhe também o jornal.


XIII.

Peço desculpa pela obsessão minha amiga, mas há muito tempo que não falava com ninguém * No quarto rezei a São Longuinho e fiquei a olhar para a Anna. Rezei também a Santa Cecília e só pedi que fosse sem sofrimento a partida. Vi duas joaninhas, no parapeito da janela a subirem para umas flores muito bonitas, que uns amigos tinham trazido para a minha filha. As joaninhas subiram até às pétalas e voaram pelo quarto até à testa da Anna. Pousaram na sua testa e depois desceram devagarinho com as suas patitas como se mancassem felizes, em direcção aos olhos da Anna, pousaram na parte de cima das pálpebras e depois levantaram voo e saíram pela janela.

Alguns dias depois, como num milagre medieval, sonhei, que uma Nossa Senhora muito bonita me chamava, levantei-me da cama e fui ter com ela, os seus braços não eram de carne, mas sim de relâmpago. Também a sua auréola era um relâmpago vivo e circular, como que trabalhado durante anos por Volcano e Júpiter, era o mais perfeito círculo que havia visto. A Nossa Senhora trazia um vestido lindo e toda relâmpago abriu os seus braços. Senti-me muito atraída, como se já não fosse mulher, mas sim um homem, tinha um desejo incontrolável de possuir aquela mulher tão linda. Foi isso que fiz no sonho, abraçamo-nos e deitamo-nos na cama da Anna, e fizemos amor durante muito tempo. O sonho foi lindo. Lembro-me que o relâmpago era cada vez mais brilhante e sincero, vestia também ele o casaco verde da Prada, e não o manto branco com que me chamou. Nossa Senhora dos Relâmpagos estava cada vez mais bela…
Levou-me pela mão até à Anna.

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Nunca gostei de estrelas, quando me lembro de estrelas, penso em chaves de estrelas e no Óscar a mudar o pneu do carro. Penso numa faca que tenho para cortar piza, que também é em forma de estrela, penso nas estrelas de Natal, e penso nos gémeos que birram todos os Natais, porque querem os dois pôr a estrela no cimo da árvore. Pego nos dois e põem os dois a estrela. Penso nas estrelas-do-mar que a Anna nunca viu, porque o Mar Negro é muito salgado e as estrelas-do-mar dão-se mal na água muito salgada: Preferem-na mais límpida, clara e doce. Penso também em estrelas de música, como a Simona, penso em estrelas de futebol, como o Dan Petrescu. Penso na relação que elas podem ter com a gente a sério, porque as estrelas só existem e brilham na relação que têm com as pessoas.
Mete-me nojo ver homens a olhar para as estrelas, imaginar o que é que esses pobres diabos podem estar a pensar. Rober Diaz descreve-os como “pedófilos a olhar para o crepúsculo”.



Acabei por ler finalmente o livro de Emil Cioran. Despertou-me a atenção a frase:
O momento em que pensamos ter compreendido tudo, dá-nos ar de assassinos – A frase estava sublinhada pela Anna, num traço forte e seguro, de confirmação. Ao lado numa das margens a Ana escreveu estas duas frases:



- O momento em que pensamos ter compreendido tudo é ridículo -
- Compreender tudo é ridículo -



Nuno Brito, 2009

Ainda

Deixa-me olhar-te nos olhos e submergir-me
na escura e quente fantasia
de te imaginar nua noutros braços.
Não são coisas da velhice. Nem desvios.
É o caroço avermelhado, negro e duro
do pêssego que, faminto, já comi
mas que ainda roo dentro da boca
conservando a doçura do teu amor.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

Hotel Andorra Park

O homem lê a insónia no vidro fosco.
Aqui, onde depois construíram o hotel,
aquele rapaz escondeu sob uma pedra
uma carta de amor e fez um mapa,
o verdadeiro mapa de um tesouro.
Mas o tesouro era uma cobardia:
o que não ousava dizer a uma rapariga.
A sua última carta de amor,
esta sim deu-a em mão.
Então a cobardia e o menosprezo
- nunca o saberá - vinha de uma mulher.
Vai chegando a alba aos vidros do hotel
como um barco de guerra.
Nenhuma mulher se lembra de nenhuma carta.
As nuvens pressagiam frio e neve.

- Joan Margarit
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in Casa da Misericórdia, Ovni

domingo, dezembro 13, 2009

Detrás da porta

Levantámo-nos muitos anos antes da alba
para lhe preparar o pequeno-almoço e a roupa.
Pactuei com a insónia este sinal
de solidão parecido ao que me vinha
dos brinquedos partidos na infância.
Ainda me levanto antes de clarear,
e as lembranças vêm pelas ruas desertas.
Invento para onde vou e, no passeio,
diante de casa, escuto: como um cão,
a morte está a arranhar detrás da porta.

- Joan Margarit
in Casa da Misericórdia, Ovni
PRAÇA DA ALEGRIA

Cheira bem: a café fresco, ou antes, a café misturado com o cheiro das violetas que o pequeno vendedor puseram em cima da minha mesa, insistindo para que lhe comprasse um ramo. A quem o daria? Disse-lhe isso mesmo, que vivia no Porto como quem vive na ilha do Corvo, não tinha ninguém a quem dar uma flor. O rapazito, com olhos escuros de potro manso, percebendo que a minha recusa era débil, não arredava pé. Acabei por comprar-lhe as violetas e oferecê-las à lua, acabada de surgir no canto da praça, branca, redonda, carnuda, que, ao aceitá-las, apesar de puta velha, se pôs da cor das cerejas.

- Eugénio de Andrade

La tarde es caramelo



Cerca del rio hay un sendero donde la tarde es caramelo, cerca del rio yo me pierdo, me encontraré cuando me encuentre com tus besos.

sábado, dezembro 12, 2009

O vendedor de rosas

Solitário e furtivo, o homem do ramo
anda por locais nocturnos à procura de casais.
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
numa noite que não tem cheiro a noite.
E perdi-me pelas traseiras da vida.
Uma mulher na sombra que não és tu
roubou-te os olhos e chora. A cidade
é uma exacta e monstruosa cópia.
Como se o Cúpido já estivesse velho,
passa cuspindo o vendedor de rosas.
Enquanto se afasta penso: ao teu amor
não lhe perdoes nada. Nem o seu final.

- Joan Margarit
in Casa da Misericórdia, Ovni

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Sunlight in a Cafetaria

Abria o guarda-fatos e tirava
o casaco mais velho e as piores
calças de veludo cor de sombra.
Ia ter contigo. Só o perfume

fazia pressentir o coração,
essa frágil ideia que batia
quando me sentava no café
muito antes da hora combinada.

As mãos quietas, o rosto debruçado
para o vidro sujo de tabacos
donde ao longe havias de chegar.

O chão coberto duma luz magoada,
de papéis amassados, cinzas
que teus pés vinham a calcar.

- Joaquim Manuel Magalhães

quinta-feira, dezembro 10, 2009

O artista deve regulamentar a sua vida.
Aqui vai o horário exacto dos meus actos diários:
Levantar: 7.18; inspirado: das 10.23 às 11.47.
Almoço às 12.11 e deixo a mesa às 12.14.
Passeio saudável a cavalo, no fundo do meu parque: das 13.19 às 14.53. Nova inspiração: das 15.12 às 16.07.
Ocupações diversas (esgrima, refexões, imobilidade, visitas, contemplação, destreza, natação, etc.): das 16.21 às 18.47.
O jantar é servido às 19.16 e concluído às 19.20. Seguem-se leituras sinfónicas, em voz alta das 20.09 às 21.59.
Deito-me regularmente às 22.37. Uma vez por semana, acordo sobressaltado às 3.19 de terça-feira.
Apenas como alimentos brancos: ovos, açúcar, ossos raspados; banha de animais mortos; vitela, sal, noz de coco, frango cozido em água branca; bolor de fruta; arroz, nabos; salsicha de cânfora, massa, queijo branco, salada de algodão e de certos peixes sem pele.
Faço ferver o meu vinho, que bebo frio com sumo de fúcsia. Tenho óptimo apetite; mas nunca falo enquanto como, com medo de me engasgar.
Respiro com cuidado (pouquinho de cada vez). Danço muito raramente. Ao caminhar, seguro-me nas costelas e olho fixamente para trás.
De aspecto muito sério, se rio não é de propósito. Peço sempre desculpa e com afabilidade.
Durmo apenas com um olho fechado; o meu sono é muito difícil. A minha cama é redonda, com um buraco para a passagem da cabeça. Hora a hora, um criado tira-me a temperatura e dá-me logo outra.
Desde há muito que assino um jornal de moda. Uso um boné branco, meias brancas e um colete branco.
O meu médico sempre me aconselhou a fumar. E acrescenta aos seus conselhos:
— Fume, meu amigo; se não o fizer, outro qualquer fumará na sua vez.

- Erik Satie
(tradução de Anthero Monteiro)
in Mémoires d’un Amnésique

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Martín Espada

O general Pinochet na livraria


Santiago, Chile, Julho 2004



A limusina do general estacionou na esquina da Rua de San Diego
e os seus guarda-costas escoltaram-no até à livraria
La Oportunidad, para que pudesse procurar
obras raras de História.

Nas páginas não foram deixadas impressões digitais sangrentas.
Nenhum dos livros se desfez em cinzas ao seu toque.
Ele não deixou um rasto de terra das valas comuns à sua passagem
nem fez os seus olhos luzirem de vermelho com um ardor diabólico.

Pior: as suas mãos estavam muitíssimo limpas, e os seus olhos eram azuis,
e a demência que assolou a sua mente como um demónio,
inviabilizando o julgamento do general, tinha desaparecido.

Desaparecido: como milhares de mortos não mortos,
tal como a multidão lembrava ao general,
reunida no exterior da livraria para escarnecer
enquanto ele se escapulia de forma atabalhoada com os seus guarda-costas,
afinal uma tão fraca figura em pessoa.



(versão minha; o original pode ser lido aqui).

terça-feira, dezembro 08, 2009

Mil páginas

Acabei ontem estas mil páginas (1ª edição de 1989). Mesmo que já soubesse alguma coisa sobre a maior das carnificinas modernas e haja observações importantes a fazer ao posicionamento do autor, tratou-se de uma experiência de leitura particularmente difícil do ponto de vista moral.
Já se escreveu que é preciso ter estômago de ferro para se avançar na leitura deste livro e eu concordo - sobretudo quando o historiador começa a descrever a crueldade que a guerra exponenciou. Não só, mas também por isso, este é um livro necessário. Essa crueldade não pode ser apagada nem esquecida. Mas, para além da loucura e da brutalidade humanas, descritas, a partir de certo momento, quase página sim, página não, fica-me também a ideia de que, afinal, o crime compensou para muitos dos perpetradores.
Neste sentido, o último capítulo é chocantemente significativo porque confirma aquilo que eu já sabia mas que, lendo, custa mais a aceitar: que, à excepção de algumas figuras proeminentes - Goering, Eichmann... - e algumas outras mais obscuras, as condenações dos criminosos de guerra "referem-se muitas vezes apenas à pequena parte de crimes que pode ser ainda provada, muitos anos depois dos acontecimentos em causa" (p. 956). Não bastando tal situação, verifica-se ainda que muitos dos que chegaram a ser julgados e condenados puderam regressar, com mais ou menos, tranquilidade à sua vida numa Europa reconstruída sobre os cadáveres de milhões cujo sangue, entretanto, foi lavado das suas mãos.
Registo apenas alguns dos casos citados pelo historiador: o general SS Wolff, julgado no dia 30 de Setembro de 1964 e condenado a quinze anos de prisão que saiu em liberdade ao fim de sete; o tenente SS Arnold Strippel, que "passara seis anos na prisão condenado por cumplicidade em assassínios de prisioneiros ocorridos em Buchenwald e Neuengamme" e que receberia, depois, "uma compensação de 121 000 marcos alemães pelo tempo que passou na prisão"; o general SS Kuit Meyer que "viu a sua pena de prisão perpétua reduzida pelo governo canadiano para catorze anos e depois novamente encurtada por bom comportamento"; Helmut Knochem, da Gestapo de Paris, condenado à morte em 1954 mas libertado em 1963; Wilhelm Mohnke, "responsável pelo massacre de prisioneiros de guerra britânicos em Wormhout" que vivia descansadamente "na qualidade de homem de negócios reformado, nas proximidades de Hamburgo"...
Sim, é verdade que também houve justiça rigorosa, também houve castigo para alguns dos crimes. Mas.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Happy end

E depois carregaram no melão
E ouviram-no estalar
E depois comeram até rebentar
E depois o pássaro cantou oh tão docemente
Enquanto se sentavam coçando-se sem malícia
Bom disse eu pois nesse momento
Os coxos começaram a dançar dobre a mesa
Nessa noite encontrei uma espécie de anjo
Tens lume perguntou ela
Quando eu lhe desapertava o vestido
Já havia muitos deles
Que tinham trepado para o tecto
Amantes chamavam-lhes e seguravam
Rosas entre os dentes enquanto a Primavera
Prosseguia para lá das grandes janelas abertas
E até um pau usado para bater em crianças
Floriu junto à estrada tortuosa
Que um palpite me mandou seguir

- Charles Simic

domingo, dezembro 06, 2009

Os anos 90

Ou, no caso dos mais ingénuos,
a felicidade que se supõe ao
permanecer, tão-só, no patamar seguinte. Isso
faz-nos viver, desviando o olhar
do sofrimento que se oculta
à superfície. Beijávamo-nos
com tanto talento que os outros clientes
começaram a aplaudir.

Ganhei qualquer coisa na lotaria,
podemos passar a noite num hotel.

Mas nenhuma grinalda
deveria deixar-nos esquecer que na origem
de tudo isto está a dor. Amanhã,
enfim, voltarei a casa.

- Mariano Peyrou
(tradução de Manuel de Freitas)
in Discurso opcional obrigatório, Averno
Mais tristes do que os seus melhores versos
são as tardes estéreis do poeta
em que despojado do acaso e da vaidade
(que chama talento ao acaso)
sabe que não encontrará esperança na metáfora
e, suicida,
procura afundar-se no silêncio.
Mas no silêncio flutua.

- Mariano Peyrou
(tradução de Manuel de Freitas)
in Discurso opcional obrigatório, Averno

in the moment of the meantime

3 noites, 3 filmes


8/10


7/10


8/10

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Amanhã na Poesia Incompleta

[novissimos.jpg]

REVISTA CRIATURA nº 4 – Dezembro de 2009, 170 pp., 7 euros
(Tiragem Única de 300 exemplares)
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Impressão e Acabamento: Guide - Artes Gráficas Lda.
(...)

Carla Miguelote:
Na ocasião de “Era depois da morte Herberto Helder”, já haviam morrido Carlos de Oliveira, Ruy Belo e Jorge de Sena. Entre esse poema e “Em tempo alheio”, morreram Luiza Neto Jorge e Luís Miguel Nava. De lá pra cá, faleceram também Eugénio de Andrade e Fiama Hasse Pais Brandão. Além de todos eles terem sido seus amigos, também eram poetas que compartilhavam uma concepção de poesia que você lamenta estar sendo obliterada por muitos poetas contemporâneos. Você sente estar vivendo num tempo alheio?

Gastão Cruz: É evidente que eu não quero assumir aquele papel das pessoas que dizem “no meu tempo é que era bom e agora é tudo mau”. O que eu penso é que os valores em que eu acredito são valores que têm certa perenidade e são valores em que acreditavam as pessoas com quem eu tinha muitas afinidades e muitas opiniões coincidentes, como Luís Miguel Nava, Ruy Belo, Carlos de Oliveira. Penso que esses valores não acabaram, não se esgotaram, porque são os da poesia de sempre. Acho que Camões ou Cesário Verde certamente não teriam valores diferentes desses mesmos, os que estão na base duma alta intensidade do texto. Felizmente alguns desses poetas de quem me sinto mais próximo ainda estão vivos: António Ramos Rosa, Herberto Helder. Mas continuam a escrever e a publicar outros importantes poetas que começaram igualmente nos anos 50: Fernando Echevarría, Fernando Guimarães, Pedro Tamen. E há gente mais nova com quem tenho profundas afinidades. Luís Quintais é um poeta com grande qualidade e importância, revelado em 1995. O século XX português foi poeticamente muito forte. Nas novas gerações não creio que haja, por enquanto, em número equivalente, poetas daquele mesmo nível. Recentemente houve uma relativa valorização de uma poesia autointitulada “sem qualidades”, de um pequeno grupo liderado por Manuel de Freitas. É um tipo de poesia que me interessa pouco, embora reconheça que existe uma certa qualidade em alguns desses poetas. Mas o conceito de real é neles, por vezes, muito restrito e simplificado. Tem-se, algumas vezes, pegado no célebre poema em prosa de Baudelaire sobre o poeta que perdeu a aura, mas acho que não o têm sabido ler, porque aquele texto é quase uma brincadeira, a aura do poeta cai na lama e ele fica sem carisma nem brilho. Eu prefiro falar (como faço no prefácio do meu livro recente de “textos críticos reunidos”, A Vida da Poesia) dos poetas dos quais irradiava uma luz, aí também não separando o autor da pessoa. Não quer dizer que não possa ter havido grandes escritores que fossem, pessoalmente, desinteressantes. Mas os poetas que conheci e admirei, todos tinham um brilho e uma intensidade como pessoas. Tive essa sorte, talvez. Mas não quero deixar de assinalar que já surgiram outras tendências no panorama da poesia portuguesa mais jovem: poetas que procuram novos rumos, empenhados na criação de linguagens poéticas autónomas, de elaboração mais inventiva, e afastando-se do mero registo directo das coisas banais do dia-a-dia. Entre outros nomes, poderei citar os de Joel Henriques, Daniel Jonas ou Miguel-Manso, e referir a nova revista criatura, onde se manifesta a vontade de percorrer caminhos diferentes.

Shotgun Stories (2007)


7/10
o vento agita as sombras
na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.

sempre pressenti a distância mínima
entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa.

- Renata Correia Botelho
in Um Circo no Nevoeiro, Averno
[Lisboa_20_by_zedka.jpg]
Em tudo maltratado está o encanto

Luis Cernuda

Um copo de água e um cigarro,
um céu próximo, inchado, e a chuva
que caiu por instantes e dá a beber
sombras umas às outras. Molhamos
as mãos e damos a cabeça, docemente
vencidos, sentados a olhar. Na pele
marcas, manchas, coisas escritas,
um sono agarrado e agredido
que me deixa às voltas como de lá
p’ra cá, entre sonhos sem significado
nem grande imaginação.

Novembro encontrará com este dia
um fim discreto. O sol afunda-se
daqui a nada do outro lado
destas casas, deixando-nos apenas
o envenenado e estreito recorte das ruas,
um pacto de treva nuns jardins remotos
onde recupero sentidos, a tarde a rir-se
baixinho e mesmo os pássaros
só piando para mandarem calar-se
uns aos outros.

Esta cidade parece saber tudo de mim,
vejo-a retratar-me num breve reflexo
quando passo por uma montra,
branco, alto, desinteressado, olhos
de um escuro entorno,
o casaco que acho feio mas de que
hoje gosto tanto e umas poucas flores
envelhecidas, apanhadas à memória,
pálidas contra as pintadas na tira
de azulejos que orna o interior do café

Três outros e eu, sem chegarmos
à conversa, uma linha quase fechada
e a luz aborrecida inventando
para nós umas poucas cores sujas.
O vento deve saber o que procura,
e insiste desenterrando recordações
enquanto a tarde já vai chamando
pela noite, um movimento se abre
noutro e, talvez porque não encontro
as palavras, o silêncio parece ter
as mãos em tudo.

Os anjos sabem já de cor a minha
última estrofe, quanto a eles
não absolve nada. Hei-de escrevê-la
assim mesmo (como cansar-me de
dizer seja o que for?), não tenho
mais nada.

A ideia, se houve uma, não foi
elevar fosse o que fosse, a literatura,
de resto, que se lixe, e o poema
também. Meses a arrastar a musa
pelos cabelos e depois disso tudo
só desejo a sorte dos poetas menores.
Mera vadiagem cultural entre arredores
de silêncio, colagens e composições,
um pequeno envelope cheio de
fotografias tristes entre vagas, incertas
inscrições, legendas quase
apagadas – data, hora e local,
uma canção ao fundo, uma sensação
– só o que me foi possível reter.

Não és os outros

Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. E és cada solitário instante.

Jorge Luis Borges
, in "A Moeda de Ferro"

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Roberto Bolaño