domingo, novembro 29, 2009

Henry Miller, Bathroom monologue

A mim propria de há dois annos

As minhas mãos são esguias,
São fusos brancos d'arminho,
Onde fiaste e não fias
O Sonho do teu carinho.

As minhas mãos são esguias,
Côr de rosa são as unhas,
E nellas todos os dias
Ponho a pomada que punhas.

Quando Eu as fico polindo
Perpassa nellas em ancia
A tua boca sorrindo...

Mas os meus dedos em i
Dizem a longa distancia
Que vae de Mim para Ti.


Violante de Cysneiros


Armando Cortes Rodrigues
- Junho, 1915

Amendoins

Não sou capaz, bem tento que ele venha,
o tal olhar diagonal das coisas,
mas as pessoas surgem-me tão sérias,
tão capazes nos seus discernimentos .

À minha frente agora, por exemplo,
um grupo com cerveja e amendoins.
Se fosse um tempo antes, conseguia
fazer de amendoins um qualquer tema,

descascar um poema devagar
feito de amendoins, cerveja e gente.
Mas tudo me parece tão normal
e os amendoins coisas sensatas

[apanhados do prato vorazmente,
entre gestos nervosos e correntes
conversas baloiçadas]


Ana Luísa Amaral

O cabelo é como carne

As pequenas covas acima das tuas nádegas,
traçadas pela minha mão ou, o cabelo é como carne,
disseste
uma era de longo silêncio
o conforto
desta língua desta placa de calcário de concreto reforçado


in "Queimar papéis en vez de crianças" - Adrienne Rich, 1968 - tradução de Ana Luísa Amaral

Jane O. Wayne

De uma forma algo misteriosa, um poema funciona muitas vezes do mesmo modo que uma anedota. Ou se apanha, ou não se apanha. E ali, no momento. É claro, um leitor deve voltar atrás, uma e outra vez, à procura de ideias, de sentidos escondidos, para captar o estilo ou, talvez, simplesmente, por prazer; mas a estranha magia da poesia - a sua música, beleza, particularidade - uma parte disso deve atingir-nos de imediato.
Ainda que um leitor cuidadoso possa isolar um poema para verificar como ele funciona, tal como um mecânico pode fazer com um carro, eu gosto de pensar que, quando um poema é verdadeiramente conseguido, habitualmente apreendêmo-lo logo no primeiro impacto. Mas, ao contrário de uma anedota, se um poema é verdadeiramente bom, então quanto mais o lemos melhor nos parece.
(versão minha do depoimento da poetisa reproduzido em The invisible ladder, organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 177).

sábado, novembro 28, 2009

Ricardo Piglia

"A nossa táctica fundamental de auto-protecção, auto-controlo e auto-definição é contar histórias..."


Ricardo Piglia - Crítica y Ficcion

Japón: Carlos Reygadas

Fidelidade

Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o livro do não trabalho
e diz cor-de-rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor-de-rosa em segredo a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore

- Mário Cesariny

Uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

- Mário Cesariny

sexta-feira, novembro 27, 2009

Baby, we'll be fine



I wake up without warning and go flying around the house
In my sauvignon fierce, freaking out
Take a forty-five minute shower and kiss the mirror
And say, look at me
Baby, we'll be fine
All we gotta do is be brave and be kind
Uma fotografia de Ed van der Elsken,
de que não sei a data e que não voltei
a ver O Amor na Margem Esquerda
mostra um oriental muito novo.
Fustigado pela abundância do sonho,
sob o rumor da subterrânea corrente do
desejo, adormeceu a uma mesa de café.
Rosto de flor de cerejeira
em repouso sobre o vidro. As pálpebras
fixadas no virar e voltar do sono, que
é como quem se sente diverso no espelho
dos cafés. Sobre o tampo da mesa, bem
junto à face, entre um copo e um cinzeiro
com duas amarrotadas notas de 100
francos, uma folha de papel, em notícia,
dizia
Para ir fazer amor
eu preciso de 450Frc.
Aceito todas as dádivas.

Não me acordem

No rebordo do cinzeiro a palavra cigarra.
Também ele cantou o abrir dos sentidos ao
amanhecer. Também ele cantou as coisas
mínimas como se fossem pertença de um
gozo pleno e infindo.
A cada jogada, fora ou dentro do seu sangue,
surgia uma cidade desconhecida com
novas praças e ruas, novas estátuas, fontes,
as trevas de um jardim.
Agora, de olhos cerrados, espera o brando
pousar da última nota, o latir caído da derradeira
moeda

para diminuir a distância e
adormecer no corpo um modo de ver.

- João Miguel Fernandes Jorge
in Mãe-do-fogo, Relógio D'Água, 2009

quinta-feira, novembro 26, 2009

O comboio correio das 10 da noite partia da
minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes
com o meu pai levar as cartas. Esperávamos
na gare. Se havia chuva ouvíamos o apito
quando passava à Granja vindo de Óbidos e

depois de correr o vale de S. Mamede.
O que mais me seduzia era o seu peso o negro
da máquina o movimento do êmbolo a nuvem de vapor
correndo toda a gare. Chegava entre videiras e
pântanos. O chefe da estação de

bandeirinha verde dava o sinal de entrada. Era
o intenso barulho os ferros da travagem
o bater das portas as carruagens verdes
enegrecidas, os castanhos wagons. Máquinas de carvão,
a diesel depois. O degrau de madeira ao

longo da carruagem, o romano nas portas I, II, e III.
Anos depois, já de mim se dizia «um homenzinho»
viajei nesse comboio das 10. Partia de
Coimbra, às cinco horas. Pelos campos do Mondego

a água, a matéria do ferro, confundi
com o caos. Reconheço neste comboio a forma
obscura, a intuição ridícula das imagens. A noite
corria de mistura com a triste lâmpada do
corredor, benefício do mistério, fogo fechado pela

trovoada sobre os campos do arroz, sobre o pinhal de Leiria.
Viajava em segunda. Vinha para casa no natal.
Eu tinha um emblema, vermelho e branco dos suíços,
na lapela do sobretudo. O meu irmão, as mãos
gretadas das frieiras sob umas luvas azuis. No

banco em frente,
uma professora de geografia rezava o terço
atenta à formação do espírito científico nascente.
Descolorido amor humano,
fornalha de comboio, coração das coisas a noite
corria fora e dentro da carruagem verde.

Meu pai estava na gare.
A longa fita de cabedal para fechar, abrir as
janelas. A rede onde pousava as malas.
Os corridos bancos de madeira ficavam na III.
Um guarda republicano cerrava todas as

noites sobre o azul do capote a portinhola.
O traço do comboio separa o céu da terra sob as estrelas
sob o limite da chama
a arte tanta vez a natureza.

- João Miguel Fernandes Jorge

quarta-feira, novembro 25, 2009

Êxodo

Na idade em que os teus olhos
Começam o degelo
Das pedras que Deus fez crisálidas de fontes,
E ficamos mais sós em cada imagem
Em que vamos morrendo
(De ver morrer se morre quando se ama),
Um pássaro fugindo
Ao seu voo
Te busca,
Unicórnio lunar
Sem ruído e sem nome
Senão a cicatriz
De um soluço no vento.

- Carlos Cunha

Parabéns

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgU3xRf_Ex6pe-6-mg1QuyzUHnL_8hfpWH3nwiDeiWFzlxXgzRwf2aYGcpVjBSJcPeShunyNIhMguQyfkXe9FcvuhT-peBPSoT5ZgxbOLRhsNYffCGiWi7qyxA7RA_N5Soa0WAA/s1600/poesia-incompleta.jpg

terça-feira, novembro 24, 2009

A pistola

foo fighters
peguei na pistola meti-a dentro da boca
coloquei a ponta do cano suavemente na garganta
agarrei-a com força pus o dedo no gatilho

por um instante vi-me a mim própria estava aqui
neste quarto de joelhos tirava-lhe as botas

o sorriso molhado os lábios entreabertos

- Pablo García Casado
LA VRAI VIE EST ABSINTHE

Os nossos corpos têm nome de cidade de passagem.
Por eles viajam os dias mas nunca permanecem.
Tudo quanto aqui nos rodeia, amortalha: o céu,
a substância oca do copo e das palavras,
a respiração das coisas adormecidas.
Levantamo-nos da mesa como o ar
se levanta das árvores e saímos para o frio.
O vento mudou o mundo de lugar
e caminhamos, deixamo-nos caminhar.
Há corpos que buscam as luzes dos bares
nas cidades de passagem como as traças nocturnas
buscam a bugia do último coração aceso.
Mas cá fora está tão escuro que não vemos a noite.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Precisamos voltar a caminhar*

Os caminhos andam cantarolando as inseguranças.
E são estreitos por natureza; as mãos humanas é que cravam abismos.




Mergulho.



Eu no profundo.

Ressaca do mar.

Ressaca. Beber do mar. Embriagar-se.

Com goles me embebedei depois que provei da saliva da vida – seus álcoois vivos.

Cores mornas babam em pães frescos na manhã de domingo quente.

O guarda-sol já deve estar fazendo companhia à cadeira de praia.
=
-
=
-
Eu vou sombrar onde o sol não pode ser

E quando molhar

Eu vou sobrar onde o guarda-chuva não consegue proteger.
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Existe uma linha tênue que separa o sóbrio do ébrio
Para quem engole gotas de vida.
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(deixei o conta-gotas no banco de trás do carro)


No começo, era só você e as microfonias de verão. Depois tudo passou a estandarte, blues infectado de cores mornas. Tendenciosas as tuas vaidades multifacetadas, aquela linguagem rebuscada que só traduz as nossas distâncias. De griffe, tu abusas de alguns defeitos meus, e consome-me assim, inteiramente efêmera. Um ato de resistência tornar o instantâneo ideal, pois bem que se torna único consumir aquele produto que não pode ser colocado em série. Seriamente são os teus sorrisos, contaminados com Londres morna. Morosidade e neblina, o blues que me distrai enquanto condena. Depois, era só você e a distração dos dias, e veio o inverno distraído, que me entorpeceu ao queimar. No fim, era só você e as microfonias.

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Motivos relevantes para intrigas superficiais.

Faz tempo que eu não ando comestível. Tu sabes que tenho me engasgado com pouco e viciado-me em muitas coisas que antes me eram vulgares. Vejas tu o quanto tenho me afastado das narrativas plásticas bem articuladas. Agora só engulo artes marginais, daquelas que meu pai discrimina com toda a sua austeridade de mundo. Vejas tu que ando a rever Vertov e Tarkovsky para quebrar a própria linearidade dos meus dias. Não agüento mais essas narrativas cheias de personagens doces e de lirismos saltitantes. Intriga-me tudo o que é do feísmo, expelido da normatização dos gestos, expulso da naturalização das idéias. Intriga-me tudo o que está sujeito ao sujo, inacabado, rude. Gosto da profundidade superficial, da forma profunda com que olhamos para as coisas superficiais da vida. A própria arte e toda a sua improficuidade - sabia bem Oscar Wilde o que quis dizer com "toda arte é absolutamente inútil". Então, dedico-me horas e horas de fugas pelas beiradas da inutilidade, tão fundamental para minha atmosfera constipada. Eu relevo qualquer motivo suspenso nos jardins da Babilônia em troca de muitos devaneios e delírios. Qualquer alteridade me agrada, quando o outro me intriga e, digamos, não é tão comestível assim.
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Eu sinto muita falta de um passado do qual eu não fiz parte, mas que habita em mim já faz algum tempo. Falta qualquer coisa mais, um “boa noite” desinteressado, a crença na procrastinação da luz no fim do túnel, a cegueira que não nos é forçosa. Vim para Portugal por revivalismo e garantia de campos minados. Recontra-me uma profunda tristeza de ver que o lagostim que vejo a cada esquina ainda me incomoda nestas bandas de cá.

A chuva provoca um forte derretimento de cores em minha retina. Eu replico para não entorpecer, mas é inevitável necessitar de afago e desprendimento. Pedaços amáveis não caem da intelectualidade, egoísta. Alguma coisa falta, talvez o tempo que não goteja em mim. Ausentam-se abrigo e desvelo. Portugal é de ruas muito cruas, e são duras e nuas as faces derretidas deste lugar. Um lagostim comeu minhas promessas e foi se enterrar em algum bolo de neve por aí.
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October. Cansada da busca pelo quadrado perfeito, ou mesmo só pela perfeição dos quadrados. Cansada de enxergar nos ângulos retos a reta, a direção, qualquer nostalgia que me faça acreditar nos dias entorpecidos pela ausência. Os teus quadrados nada mais são do que a segurança, a estreita certeza de que as coisas não podem sair de tuas mãos, de tua conduta, do jeito latente com que articulaste o mundo dentro de ti. Ah, já não quero mais racionalizar o que sinto, nem justificar por que acabou em palavras. Tudo o que me dás é demais, excessivo, desleal… Não há paz que me tire desse torpor, laboratório dos teus dias. Eu quero. Não há paz.

Por que estás sempre. Indo. Sendo.

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As cores foram mostradas ao tempo e manchadas no ecrã das expectativas. Visor de mãos vazias, falta qualquer coisa nesse teu ritmo claustrofóbico. Eu não acredito que estou vendo a luz sair do túnel e tomar as tuas retinas knoks. Eu estou vendo que a luz vai invadir a ausência de portas para que eu possa entrar e confrontar-me com as tuas certezas. Há qualquer coisa de ingênuo na forma como eu me entrego aos teus espaços perfumados. Eu estive em Dublin e não consegui congelar a imagem do meu frio existencial comendo os impactos e tua indelicadeza. Eu sei que a cabeça tem doído e despido minha loucura de fugir dos olhos apurados. Os olhos têm doído e abrigado muita luz. Eu já não comporto os ecrãs, os melindres e as frustrações. Quero derreter como as cores espargidas na neve. Eu vi, vi o teu azul de veludo.
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Ele doía como qualquer coisa feita de vestígios, vigílias, sortilégios. Juro que eu queria ter entrado nele antes daquele gole em que ele tomou tudo de mim – tomou meu lar, minhas raízes pontiagudas, meu mecanismo doce de provar as amarguras da vida. Ah, eu queria que ele lentamente me falasse da urgência da permanência (saberia Eugenio de Andrade bem sentir aquilo que um dia escrevera?). Ah, eu queria que ele me contasse sorrateiramente dos instintos atrofiados em nossas camas vazias. Vivo já em outras terras, aquém-céu, além-mar. Vivo a disparar disparates para esquecer dos profundos silêncios que já sei pontuar em minha vida. Todos os dias acordo a pontilhar minha solidão engarrafada em um copo de leite com achocolatado, algumas torradas e muitas aspirações a me oferecerem “bom dia” como se eu precisasse comprar a alegria do mundo em promoção. Todos os dias eu, cheia de lágrimas portuguesas, teimo em dissecar nos grandes acasos meu lirismo áspero. Já não me vou destas terras, já não me vou arredia, e sinto o tempo fazer companhia à trilha sonora da minha vida mesclada a vento controlado. Eu queria tabaco, muito tabaco e um pouco de delicadeza. Eu queria que ele não andasse sempre à frente de mim e que, de uma forma ou de outra, um dia ganhasse um nome para além da terceira do singular. Qualquer coisa de singular eu preciso encontrar em mim para poder manter as sobrancelhas pontilhadas, os recontros nos sorrisos leves, as bolachas de água e sal molhadas a prestígio. Eu queria, apenas, aquele indício de que, para além do meu ser incrustado, taciturno, haverá alguma chance de me salvar. De me salvar de ti.


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Culture Post. Beijo postado, selado. Stamp. Estava estampado, eu sei, naquele jeito inocente com que me olhaste da última vez. Eu sei que na minha idade já lá se vai qualquer tentativa de. De potlatch urbano que nós somos, eu esperava pelo menos uma renúncia tua à solidão. Esperava qualquer timbre entre a intuição e a intenção. Culture dos selos. Selar pelas veias da língua a inocência (quase) alcançada pelos caligramas, com as suas malícias disfarçadas de infância. As imagens que me lembram, numa tentativa de aprisionar aquilo que se mostra e que se perde nos vestígios. Quase fragmentos, vejo-te por dentro, tronco comum de todos os meus férteis ímpetos. Sempre me fascinou a tua inclassificabilidade: nem correspondias às expectativas do contexto do meu cotidiano, nem te integravas docilmente ao que poderia caracterizar os que estão à margem. Como é estranho olhar, com os dedos limpos, a nossa cama. Frequentemente, o erro de se ligar ao outro por meio de uma redução identitária de ambos. Autenticidade aparente de um invocada como garantia da do outro, um modo que ameaça um site-specific a dois. Ameaça que expulsamos para longe. Faz-me falta, tu. O princípio da indeterminação por meio da memória, a arte de viver entre a confusão e o acaso. Caso eu te procure, diz-me coisas de menor intensidade. Eu queria ser menos intensa e socorrer o que me encerra. Cópias digitais dos dedos dissolvidos. Cultura postada, forçada. Copi + um copo de uísque, por favor.

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De qualquer forma, permanece o peso das amarras como placebo, contração das pessoas excessivas em minha vida. Fragmentos de flashes, imagine a imagem em clarão. Flash aesthesis desmoronando no teu poder de observação e síntese. Desmoronando pela boca, o teu paladar que sustenta as paredes que me observam. Viste meu cabelo artificial e vestiste minhas roupas coloridas preteridas pelo cinza, que fascinza. Encantamentos coloridos condenados pelas camadas de cinza que vão guiando meus filmes à la 60'. Pelo teu paladar, o gosto que já não me acinzenta, as cinzas do cigarro que apagaste. E sumiste feito fumaça.


Tem qualquer coisa de agressivo em ti, agressivo no conteúdo de delicada forma. Talvez uma vontade imensa de estourar e sumir, nas cores que Pollock não conseguiu abstrair nem guardar para a eternidade. Action painting, os cenários por onde tu costumas gotejar. Tem qualquer coisa de agressivo na minha forma de lidar com o derretimento das cores. Não sei se cabe em mim os prejuízos, não sei se cabe nos teus sapatos vermelhos as amostras. Tinha qualquer coisa de truculência naqueles versos sutis de Rimbaud, naquelas frases escorregadias de Kerouac, naquelas fagulhas de imprecisão do teu toque. Tinha mais do que o romantismo puritano que adquirimos em nossas infâncias castradas (e castradoras). Tem qualquer coisa de agressivo, eu sei, na forma como eu ando pelo mundo, disfarçando-me em cuidados. Dripping que respinga os cenários de tua ausência. A minha luz colore a tua máscara, eu quero encher os espaços com os dias. O tempo que goteja em mim.
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Sábado de manhã sonolento. Que cidade é esta? Eu resisto a qualquer tentativa de ir embora desse meu porto seguro. Não estou nesse Porto, mas já quero voltar para o meu endereço automático. Preciso explodir. E faz-me falta tudo, mas já não troco minha liberdade pelos trocados da segurança. E o comboio que não chega. Azure Ray nos fones do meu entorpecimento. Diz-me coisas e encerre-me. Percebeste que eu cortei o cabelo na altura dos olhos? Percebeste que na minha esquizofrenia não há lugar para as luzes de Natal? Viste que, de alguma forma, já é tarde para guardar as doses de conveniência? Não há mais espaço para a permanência, digressão acentuada neste comboio. Não há mais espaço para procurar a mim no outro. Não há mais espaço. Caindo. Não. Há.

Sábado cai a tarde. Torpor nos espasmos deste lugar, anunciando o aliviar do peso. Crepúsculo de neve e guache. Eu queria apagar o tempo e dançar. Dançar no estado das coisas no presente. Cronus devorando seus filhos, Morfeu aliviando a existência. Quero dançar na neve deste lugar. E sumir volátil, pelo efêmero dos nossos dias.
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Qualquer dia desses, eu me deixo cair lentamente nas tuas mãos. Qualquer dia desses, eu deixo de procurar explicação para todas as grandes sinfonias do meu bliss instantâneo. Eu não consigo dormir, não consigo seguir nessa falta de reparos, não consigo grandes ensaios e representações daquilo que eu sou num piscar. Eu não consigo dormir nos teus olhos atentos, fratulências de uma falta que dói. Dói ver-te criar castelos de areia isolados para não se deixar dissolver pelas águas do mar. Mas a areia e a água se dão tão bem... E bem que eu sei que o meu lugar já não é mais nos espasmos ou nos sumos digeridos. Sou por demais líquida e injetável para ser digerida tão paulatinamente, para ser tão aos poucos uma parte do que sobrou das minhas crenças. Foi pouco, muito pouco o que restou no prazo de validade de minhas sensações, já não me sinto tão bem aqui neste lugar. Falta qualquer gesto de desvelo, para além de uma cobrança ou uma simples troca. Falta o toque em que é mais importante sentir que as mãos estão em movimento do que prescindir da pele do outro e do que o outro pode oferecer. Azure Ray e a falta que eu sinto do mar, em beijos azuis no fim da noite. Eu morava olhando para o mar e não sabia dos seus sargaços – vim encontrá-los no terraço de minha existência. Qualquer dia desses, eu me deixo cair lentamente nas águas, como Lionel sumindo das mãos de Diana Arbus. Qualquer dia desses, eu me deixo.
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Tudo parecia associar-se a uma atividade: umas férias do ou para o espírito. O tom sarcástico, alegorias de cabaré popular com aquela ternurenta mordacidade, gargalhadas cheinhas de plumas pink. Um estrado para a coisa ser menos desoladora, um estado para a alma desolada alcançar sua defesa perspicaz. Decreto da malícia, da nostalgia, do humor vermute. Verniz nas unhas vermelhas, bálsamo nos sorrisos pintados. Decreto o excesso de absinto. E sinta a ausência de exhilarating, palco sóbrio e bem pensado, masturbações racionais cobrindo a ausência de delírios. Volúpias articuladas e formais. Os ternos alucinados brincam às festas, com a dedicação cruel dos palhaços. Depois vem o prazer dos desvios. Sempre procrastinado. Deixamo-nos atingir pelas coisas. E ela ali. Mantém-se no ar com aprumo e elegância, imponente de informação e energia. Mas logo se vê – e se exala – desaparecida, estacionada. É esse paradoxo que a mantém no palco: apercebe-se porque estagna. E ela ali. Ação que tenta o repulso, no seu movimento perpétuo e absurdo a la Tinguely. Delícias, delícias, delícias. Plásticas. Depois vem a invenção. Deixar viver as ruínas do seu sistema de sobrevivência, deixar aparecer a ilusão de um mundo que nos escapa. Arte frágil, tom cáustico, mundo caótico. Hóstia que faz as coisas serem plasticamente concretas. A religião do prazer. Encontrar o prazer depois de abandonar o sonho. E ela ali. Faz de conta que tudo se vai prolongar por mais uma noite, as atrações nervosas, as trações imperdoáveis. Ah, e eu acho graça de te ver se justificando. Tudo isso é medo de que eu apreenda algum segredo inconfessável de tua alma? Isso me agrada. Isso me deixa leve e grave. Eis a primeira etapa, a agudização prática. Isso está ficando saboroso. Eu vou te comer com a mordaz gula irlandesa, como eu fiz com Bernard Shaw e Oscar Wilde. Dose de hesitação e medo. Eu estou saboreando o teu escárnio, namorando-o até que me venha o momento da resposta. A resposta que me isolará de ti. Isolar um comportamento de fracasso, isolador comportamento de agressividade. Um objeto familiar alfinetado como um inseto raro. O inseto que nos tornou preciosos e significativos por fazer de nós objetos em potência de ser esmagados. Um inseto, apenas um inseto, preservado como fóssil, uma ruína arqueológica, testemunha insubstituível de nossa solidão. Solidificada a memória, pouco me importa a ausência de tuas cartas. Tudo o que eu mais queria era o teu desengano. Tudo o que eu menos queria era a tua retratação. E ela ali. Um guarda-chuva ao sol agitado pelo vento. Que é o smoke senão a coreografia da transformação? Há nela um ébano muito particular que não convida à reflexão e é claramente resoluto – aquilo que hoje defino como o negro de Lúcia. Lúcia deixava nas pessoas uma impressão profunda. Nada de brincadeiras com metáforas, uma visão clara descomprometida. Quixotesca e balética, além de extremamente curiosa. Intenção e intuição, Lúcia era profundamente inteligente, embora descontraída. Lúcia, que até no nome possui luz, já não tem medo do escuro. O cabaré popular era colorido e ela quer os obstáculos não-metafísicos. O efeito dos milagres ácidos. E ali. Ela.



*Manaíra Athayde

Alejandra Pizarnik

segunda-feira, novembro 23, 2009

E ainda há pouco estávamos a rir-nos às gargalhadas do triste que são estas duas existências. Quase chegámos às lágrimas... Não, o David chegou mesmo.

LUIZ PACHECO (1925-2008)

5ª feira, dia 26 de Novembro, às 17:30
na Galeria da Biblioteca Nacional de Portugal


(clica para aumentar)

The brothers Bloom (2009)



7/10

domingo, novembro 22, 2009

sexta-feira, novembro 20, 2009

Em Dezembro



Ana Salomé
David Teles Pereira
Déborah Vukušic
Diogo Vaz Pinto
Elena Medel
Jesús Jiménez Domínguez
José Carlos Barros
Luís Filipe Parrado
Luís Pedroso
Maria Sousa
Miguel Martins
Nuno Brito
Rui Caeiro
Rui Miguel Ribeiro

Criatura nº4, Dezembro de 2009
Núcleo Autónomo Calíope

Mandala

O vento e eu, delgados os dois,
rivalizamos em achados e desaparições:
enquanto ele desordena a sintaxe alada do teu cabelo
e arrisca uma frase difícil depois de penteá-lo,
também eu sopro em ti para soltar do teu olho
um grão de areia ou a promessa de um deserto.
E nessa sílaba de praia que voa
está o início de todos os caminhos,
a caligrafia insone das gaivotas,
o teu gesto maquinal ao agitar a toalha
como se quisesses desprender
o significado do próprio objecto,
e está o fim do Verão com o que restou
de todas as carícias e todos os naufrágios.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

A solidão concorrida

Assomando ao rio como faria um médico legista
ante seu próprio cadáver estendido na mesa,
pensei: Todo o poema é um rio que passa,
água escura e distinta que não se deixa apressar.
O nadador que se adentra na corrente
ingressa na seita dos espelhos, rompe
a claridade do poema deixando um espaço,
o molde horizontal de um anjo despercebido.
Então penso em Jeff Bucley perdido
na digestão do Mississippi, penso em Li-Po
abraçado ao diadema da água, em Paul Celan
a andar pelo fundo do Sena, a entrar
na catedral dos dias azuis. Eles foram
o poema e eles a pedra, o ponto final.
E enquanto a música baixa deixando-me
um anjo entre os lábios, sem som digo-me:
Sou à vez o afogado e meu único médico-legista.
Afundo os braços na água deste poema.
Busco para ti a palavra peixe com as mãos
mas a espinha de um fantasma é tudo o que pesco.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Testamento de Jeff Buckley

Um nadador divide a solidão em dois:
a primeira é da água;
a segunda, do céu.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Tetro (2009)


6/10
[EM SÃO JOÃO, NA MARÉ ALTA]


Em São João, na maré alta
Crianças puxam barcos a cordel.
Outras guardam em pequenos baldes
Estrelas, anémonas, conchas
Que poderiam ter trazido em peregrinação.
Há túneis com água,
Castelos de brincar
Onde a Sara inventa — por breves instantes —
A glória do seu reino e do seu nome.

Na maré baixa
Migram os rochedos,
As fortalezas dão lugar a pequenos lagos
De algas e canções.
As crianças disputam o pequeno areal
Enquanto os pais, de olhar mais distraído nos veleiros,
Sonham Dezembro disposto noutras fortalezas,
Num outro ângulo de visão.

A praia, o pequeno areal,
O mar em frente
Estende ou aproxima os pequenos sonhos
Baralhados num jogo de brincar.

- Rui Pedro Gonçalves

quinta-feira, novembro 19, 2009

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjZkDkow5uoSFnKQZwFDjliLskOXG3neHmwHUKV3nekfHH7VcwcU7IGcd-2PGEJEwVEiG87CpEXlU1buRWSSRQcfM26C1ctTkFd8ajv_3FXPNCV_zIDJ688ooYfIcjBFrPiPGWd/s1600/Tiago.jpg

Últimos desejos

Quero voar como os anjos
quero lavar os dentes com triflúor
quero o Belinho sem o Oliveira
quero cornear o duque de Kent

quero 250 de Platão bem passados
quero a destreza do okapi
quero ir ao Douro às vindimas
quero pagar com letrasset

quero vestir de linho (e do Veiga)
quero ser primeiro no Mundial
quero pudim francês com caramelo
quero ler um cabinda em verso branco

quero uma sequóia para o quarto
quero voar de Spitfire
quero esmurrar o Marcel Cerdan
quero a Maja Desnuda

quero-te de bicicleta
quero-te outra vez de bicicleta sobre as folhas
quero-te ouvir chegar de bicicleta
quero o som macio que fazia na mata a tua
bicicleta.

- Fernando Assis Pacheco

quarta-feira, novembro 18, 2009

Marriage

Should I get married? Should I be good?
Astound the girl next door with my velvet suit and faustus hood?
Don’t take her to movies but to cemeteries
tell all about werewolf bathtubs and forked clarinets
then desire her and kiss her and all the preliminaries
and she going just so far and I understanding why
not getting angry saying You must feel! It’s beautiful to feel!
Instead take her in my arms lean against an old crooked tombstone
and woo her the entire night the constellations in the sky -

When she introduces me to her parents
back straightened, hair finally combed, strangled by a tie,
should I sit with my knees together on their 3rd degree sofa
and not ask Where’s the bathroom?
How else to feel other than I am,
often thinking Flash Gordon soap -
O how terrible it must be for a young man
seated before a family and the family thinking
We never saw him before! He wants our Mary Lou!
After tea and homemade cookies they ask What do you do for a living?

Should I tell them? Would they like me then?
Say All right get married, we’re losing a daughter
but we’re gaining a son -
And should I then ask Where’s the bathroom?

O God, and the wedding! All her family and her friends
and only a handful of mine all scroungy and bearded
just wait to get at the drinks and food -
And the priest! he looking at me as if I masturbated
asking me Do you take this woman for your lawful wedded wife?
And I trembling what to say say Pie Glue!
I kiss the bride all those corny men slapping me on the back
She’s all yours, boy! Ha-ha-ha!
And in their eyes you could see some obscene honeymoon going on -
Then all that absurd rice and clanky cans and shoes
Niagara Falls! Hordes of us! Husbands! Wives! Flowers! Chocolates!
All streaming into cozy hotels
All going to do the same thing tonight
The indifferent clerk he knowing what was going to happen
The lobby zombies they knowing what
The whistling elevator man he knowing
Everybody knowing! I’d almost be inclined not to do anything!
Stay up all night! Stare that hotel clerk in the eye!
Screaming: I deny honeymoon! I deny honeymoon!
running rampant into those almost climactic suites
yelling Radio belly! Cat shovel!
O I’d live in Niagara forever! in a dark cave beneath the Falls
I’d sit there the Mad Honeymooner
devising ways to break marriages, a scourge of bigamy
a saint of divorce -

But I should get married I should be good
How nice it’d be to come home to her
and sit by the fireplace and she in the kitchen
aproned young and lovely wanting my baby
and so happy about me she burns the roast beef
and comes crying to me and I get up from my big papa chair
saying Christmas teeth! Radiant brains! Apple deaf!
God what a husband I’d make! Yes, I should get married!
So much to do! Like sneaking into Mr Jones’ house late at night
and cover his golf clubs with 1920 Norwegian books
Like hanging a picture of Rimbaud on the lawnmower
like pasting Tannu Tuva postage stamps all over the picket fence
like when Mrs Kindhead comes to collect for the Community Chest
grab her and tell her There are unfavorable omens in the sky!
And when the mayor comes to get my vote tell him
When are you going to stop people killing whales!
And when the milkman comes leave him a note in the bottle
Penguin dust, bring me penguin dust, I want penguin dust -

Yet if I should get married and it’s Connecticut and snow
and she gives birth to a child and I am sleepless, worn,
up for nights, head bowed against a quiet window, the past behind me,
finding myself in the most common of situations a trembling man
knowledged with responsibility not twig-smear nor Roman coin soup-
O what would that be like!
Surely I’d give it for a nipple a rubber Tacitus
For a rattle a bag of broken Bach records
Tack Della Francesca all over its crib
Sew the Greek alphabet on its bib
And build for its playpen a roofless Parthenon

No, I doubt I’d be that kind of father
Not rural not snow no quiet window
but hot smelly tight New York City
seven flights up, roaches and rats in the walls
a fat Reichian wife screeching over potatoes Get a job!
And five nose running brats in love with Batman
And the neighbors all toothless and dry haired
like those hag masses of the 18th century
all wanting to come in and watch TV
The landlord wants his rent
Grocery store Blue Cross Gas & Electric Knights of Columbus
impossible to lie back and dream Telephone snow, ghost parking -
No! I should not get married! I should never get married!
But – imagine if I were married to a beautiful sophisticated woman
tall and pale wearing an elegant black dress and long black gloves
holding a cigarette holder in one hand and a highball in the other
and we lived high up in a penthouse with a huge window
from which we could see all of New York and even farther on clearer days
No, can’t imagine myself married to that pleasant prison dream -

O but what about love? I forget love
not that I am incapable of love
It’s just that I see love as odd as wearing shoes -
I never wanted to marry a girl who was like my mother
And Ingrid Bergman was always impossible
And there’s maybe a girl now but she’s already married
And I don’t like men and -
But there’s got to be somebody!
Because what if I’m 60 years old and not married,
all alone in a furnished room with pee stains on my underwear
and everybody else is married! All the universe married but me!

Ah, yet well I know that were a woman possible as I am possible
then marriage would be possible -
Like SHE in her lonely alien gaud waiting her Egyptian lover
so i wait-bereft of 2,000 years and the bath of life.

- Gregory Corso

Poets hitchhiking on the highway

Of course I tried to tell him
but he cranked his head
without an excuse.
I told him the sky chases
the sun
And he smiled and said:
"What's the use."
I was feeling like a demon
again
So I said: "But the ocean chases
the fish."
This time he laughed
and said: "Suppose the
strawberry were
pushed into a mountain."
After that I knew the
war was on--
So we fought:
He said: "The apple-cart like a
broomstick-angel
snaps & splinters
old dutch shoes."
I said: "Lightning will strike the old oak
and free the fumes!"
He said: "Mad street with no name."
I said: "Bald killer! Bald killer! Bald killer!"
He said, getting real mad,
"Firestoves! Gas! Couch!"
I said, only smiling,
"I know God would turn back his head
If I sat quietly and thought."
We ended by melting away,
hating the air!

- Gregory Corso

Moon (2009)


7/10

Porquê os clássicos

1.
no quarto livro da guerra do Peloponeso
Tucídedes conta-nos entre outras coisas
a história da sua mal sucedida expedição

entre os longos discursos dos chefes
batalhas cercos pestes
uma densa rede de intrigas de diligências diplomáticas
o episódio é como uma agulha
na floresta

a colónia grega Anfípolis
caiu nas mãos de Brasidos
porque Tucídedes chegou atrasado com o socorro

devido a isso foi condenado pela sua cidade
ao exílio eterno

os exilados de todos os tempos
conhecem que preço é esse

2.
os generais das guerras mais recentes
se algo semelhante lhes acontece
choram de joelhos perante a posteridade
e louvam o seu heroísmo e inocência

acusam os subordinados
os colegas invejosos
os ventos desfavoráveis

Tucídedes diz apenas
que tinha sete barcos
que era Inverno
e que navegou com celeridade

3.
se a arte tivesse uma jarra quebrada
por assunto
uma pequena alma quebrada
com uma grande pena de si própria

o que permaneceria de nós
seria o choro dos amantes
num pequeno e sujo hotel
quando o papel de parede amanhece

- Zbigniew Herbert

terça-feira, novembro 17, 2009

.
o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,

o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.

é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.

- Renata Correia Botelho
Um Circo no Nevoeiro, Averno, 2009

A. M. Pires Cabral (2)

Vos estis sal terrae



Também eu sou sal da terra.
Não o sal que corrompe,
mas sim o que preserva, perpetua a vida.

Também eu trago acomodada
em algum lugar de mim

- como a bala que se foi alojar
num desvão melindroso do corpo
e seria arriscado extrair
e ali fica a pesar -

a vocação de estrume
com que já nasci armadilhado.



(in As têmporas da cinza, Cotovia, Lisboa, 2008, p. 53).

segunda-feira, novembro 16, 2009

domingo, novembro 15, 2009

Da entrevista a Graham Greene

Não conseguimos compreender bem porque é que acha tão importante para um romancista ser dominado desse modo.
Porque se não o for terá de confiar por completo no seu talento, e o talento, mesmo que em alto grau, não é sustentáculo suficiente para realizar o que quer que seja; já uma paixão que nos guia, como disse anteriormente, dá a uma estante de romances a unidade de um sistema.

Sr. Greene, se um romancista não tiver essa paixão a guiá-lo, ser-lhe-á possível construí-la?
O que é que quer dizer com isso?

Bem, coloquemos as coisas nestes termos, e espero que não estejamos a parecer-lhe impertinentes: o contraste entre os lugares dos seus romances, como Nelson Place e o México, e este apartamento em St. James é acentuado. A cortesia, e não a tragédia, parecem reinar nesta sala. Sente ser difícil, na sua própria vida, viver com o alto grau de percepção que exige às suas personagens?
Bem, é bastante difícil responder a isso. Poderia explicitar um pouco melhor a questão?

Em O Nó do Problema pôs Scobie a dizer: «Mostrem-me um homem feliz e eu mostrar-vos-ei amor-próprio, egoísmo, maldade ou então uma absoluta ignorância.» O que nos inquieta é o facto de o senhor nos parecer muito mais feliz do que esperaríamos. Talvez estejamos a ser bastante ingénuos, mas as setenta e quatro garrafas miniatura de uísque, a expressão do seu rosto, bastante diferente daquela que costuma surgir nas fotografias, toda esta atmosfera parece resultar de algo muito mais positivo do que aquela condição bastante limitada de felicidade que descreve em O Poder e a Glória nesta passagem: «O mundo é todo ele uma única peça: está empenhado em todo o lado na mesma luta subterrânea... não há paz em lugar nenhum onde haja vida; mas há zonas tranquilas e activas.»
Ah sim, estou a ver o que o perturba. Acho que me julgou mal, a mim e à minha consistência. Este apartamento, o meu modo de vida – tudo isto é apenas o meu buraco no chão.

Um buraco bastante confortável.
Vamos deixar este assunto por aqui?


- Entrevistas da Paris Review, Tinta da China
DE VITA BEATA

Num velho país ineficaz,
um pouco como Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira-mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.

- Jaime Gil de Biedma

Cais do Sodré, a desoras

Espera-se a alba e o verde do semáforo.
Ordinário, o taxista identifica
em voz alta duas velhas raparigas,
corpos cansados mas em forma
de pergunta. Há gente que se questiona
como consegue sobreviver a tanto azar.
Costuma encontrar-se gente dessa
em paragens de autocarro,
à medida que vagueia entre mundos
irreais, lugares extremamente verdadeiros
onde o que conta é a sinceridade.
A moral, quando muito, vem depois.

- Vítor Nogueira

O diário do Dr. Johan Kremer

O diário é um dos géneros da literatura autobiográfica mais profusamente cultivados. Num diário, diz-nos Clara Rocha nas suas máscaras de Narciso, a relação entre o eu e a escrita "define-se pela contradição entre a vontade de falar e a de guardar segredo". A vontade de falar do Dr. Johan Kremer falou mais alto do que a sua vontade de guardar segredo e o seu diário pôde chegar às mãos do historiador e, mais tarde, muito residualmente, às nossas. Fico a saber que o Dr. Johan Kremer escreveu um diário na página 466:
"(...)
Leva após leva, os comboios que seguiam para Auschwitz somavam novas vítimas; no dia 28 de Agosto, os milhares de deportados de Paris incluíam 150 crianças com menos de 15 anos. No dia em que o comboio correspondente chegou a Auschwitz, um novo médico alemão, o Dr. Johan Kremer, que chegara ao campo na noite anterior e seria instalado na Casa dos Oficiais SS junto da estação, registava no seu diário: "Clima tropical, com 28 graus centígrados à sombra, poeira e um sem-fim de moscas! Excelente a comida na messe. Esta noite, por exemplo, tivemos fígado de ganso de conserva por 0,40 marcos, com tomates estufados, salada, etc." A água, acrescentava Kremer, estava contaminada, "por isso bebemos água mineral, distribuída gratuitamente".
Dois dias mais tarde, o Dr. Kremer escrevia: "Presente pela primeira vez numa acção especial às três da manhã. Por comparação, o inferno de Dante quase parece uma comédia. É justificadamente que se chama a Auschwitz um campo de extermínio!" Os judeus a cujo gaseamento Kremer assistiu eram os que acima referimos como tendo vindo de França, e o grupo incluía setenta rapazes e setenta e oito raparigas com menos de 15 anos. Muitas destas crianças tinham sido deportadas sem os pais, contando-se entre elas Helène Goldenberg, com nove anos de idade, e a irmã Lotty, com cinco."(1)
Nem Helène nem Lotty puderam chegar aos 11 anos, idade em que Anne Frank começou a escrever o seu famoso diário. Em compensação, o Dr. Johan Kremer era um conhecedor da poesia de Dante.
(1) Martin Gilbert, A segunda guerra mundial, D. Quixote, Lisboa, 2ª edição, 2009, tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira, p. 466.

sábado, novembro 14, 2009

.
.......
Percorro agora um país longínquo e sem pecado,
Agora acompanham-me seres imponderáveis
.......de cabelo irisado de auroras boreais
e um manso dourado na pele.
.......Por entre as ervas avanço com o joelho por proa,
e a minha respiração expulsa da face da terra
.......os últimos novelos do sono.
E as árvores marcham a meu lado, contra o vento.
........Vejo grandes e paradoxais mistérios:
A cripta de Helena é uma fonte.
.........O sinal da cruz um tridente com golfinhos.
O arame farpado sacrílego um portal branco.
.........Pelo qual passarei com glória.
As palavras que me traíram e a pancada que apanhei
..........são-me agora mirtos e palmas:
Cantam hossanas por aquele que vem!
...........
Na escassez vejo frutos voluptuosos
Oliveiras oblíquas com azul entre os dedos:
...........os anos de cólera detrás das grades.
E uma praia sem fim, húmida do encanto de belos olhos,
...........o fundo do mar de Marina.
Onde de alma pura hei-de caminhar.
...........As lágrimas que me traíram e as humilhações que sofri
são-me agora brisas e aves eternas:
...........Cantam hossanas por aquele que vem!
Percorro agora um país longínquo e sem pecado.

- Odysséas Elytis
.
Adicionei os meus dias e não te encontrei
nunca, em sítio nenhum, para me tomares a mão
no clamor dos abismos e na minha barafunda de estrelas!
Tomaram uns o saber e outros o poder
a escuridão, rasgando as duras penas
e pequenas máscaras, de alegria e tristeza,
ajustando à face arruinada.
Eu é que não, não ajustei máscaras,
deitei para trás de mim alegria e tristeza
pródigo deitei para trás de mim
o Poder e o Saber.
Adicionei os meus dias e fiquei sozinho.
Disseram uns: porquê? Este também há-de viver
na casa com vasos e a branca noiva.
Cavalos de pêlo fulvo e negro acenderam-me
a obstinação por outras mais brancas Helenas!
Almejei outra mais secreta bravura
e aí onde me impediram, invisível, fui a galope
restituir as chuvas aos campos
e recuperar o sangue dos meus mortos insepultos!
Disseram outros: porquê? Este também há-de conhecer,
até ele, a vida nos olhos do outro.
Não vi olhos de outrem, não encontrei nada
senão lágrimas no vazio que me abraçava
senão borrascas na serenidade que suportava.
Adicionei os meus dias e não te encontrei
e enverguei armas e saí sozinho
para o clamor dos abismos e a minha barafunda de estrelas!

- Odysséas Elytis

sexta-feira, novembro 13, 2009

O "modo", ou o Estilo

«Na literatura, como em todas as artes, importa menos o que é dito do que o modo como é dito. Este reiterar da valorização do “modo” não traduz nenhuma postura estética de raiz formalista, mas a convicção de que a identidade de uma obra de arte se joga no interior de um processo complexo de potenciação das possibilidades representacionais de uma dada linguagem. Este “modo” consiste, precisamente, num nome possível para a capacidade que uma dada escrita tem ou não tem para corporizar um dado conteúdo (semântico, afectivo, etc.) numa dada linguagem. A força ou relevância do primeiro é directamente função da força da segunda. É admissível pensar que num dado contexto histórico e artístico, nada de muito relevante distingue ao nível do conteúdo (e esta dicotomização é claramente forçada) a generalidade dos agentes criativos: do ponto de vista temático nada de muito substancial distinguirá a poesia lírica de Camões da dos seus contemporâneos — uma e outras são o resultado da interacção entre a percepção subjectiva de uma experiência cultural de mundo que é partilhada, respondem por uma noção de poesia que é comum. A diferença é de grau e diz respeito à capacidade de, numa paisagem partilhada, produzir usos da língua que potenciem a profundidade da experiência proposta, que potenciem a riqueza daquilo que é dito. Não se trata de uma questão estritamente formal, mas implica a dimensão forma como constituinte.»

in Contra Mundum

quinta-feira, novembro 12, 2009

A. M. Pires Cabral (1)

Tu que nos deste



Tu que nos deste a primavera
e o sarampo,
as manobras fáceis da procriação
e a denodada repulsa pela morte,

leva um pouco mais longe a generosidade
e dá-nos agora a indiferença:
longa, fria, auspiciosa.

Como a que deste às pedras.
E - segundo parece -
como a que reservaste para ti.

Dá-nos esse gelo, essa tão
dura carapaça. Para que passem
carroças sobre nós - e nós a assobiar.



(in As têmporas da cinza, Cotovia, Lisboa, 2008, p. 54).

Rilke versus Decimo Magno Ausonio

Pela noite
a água sentiu sede
e dei-lhe de beber
uma rosa do jardim.

Oh Magno Ausonio,
toda a flor
foi bebida do vaso
deixando apenas
estes espinhos
que flutuam
para mim.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Myne name is Lubbert Das

I

STULTIFERA NAVIS. ANTONIN ARTAUD

A loucura chega até mim e entre as suas massas reconhece-me.
Como um cão aproxima-se para cheirar-me o cu da alma,
alimenta-se dos meus dias, deixa as suas fezes no umbral.

Subindo às árvores do manicómio
provei frugais cabeças de anjos,
soube que a pureza não tem sementes.

Deus não passa de uma nota no pé da página
num livro diminuto, indecifrável.

Dizem-me Artaud mas o meu nome é Lubbert Das.



II

LEOPOLDO NO SUBCÉU COM DIAMANTES

Entre as árvores a minha cabeça
desprendida é um ninho de vespas.

Anda à roda a incendiar o jardim
e a sombra que fui persegue-a.

A sós um morto diz-me Leopoldo
mas o meu nome é Lubbert Das.



III

VAN AKEN BOSCH REVISITED

Todos os dias o diabo dá um golpe
de Estado na minha cabeça.

Todos os dias a rádio diz o nome
do país usurpado.

Diz Lubbert Das todos os dias.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Hassasin

A mão que lança a pedra
sabe que as carícias diluem os corpos,
que o desejo enrola os seus caminhos sem os ter percorrido.
Também a sede escreve em cadernos sem páginas.
Vestidos de abismo, fazemos do fumo um único pijama;
tudo quanto sonhamos hoje, amanhã será um cinzeiro.
Noite é o nome da árvore mais alta sobre a terra.
A sua infinita sombra faz-se de todas as cinzas.
Entre os seus ramos mais altos engordam os nossos assassinos.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Aquele que alimenta os mortos

Sublinhei um adjectivo num poema de Celan
que fala do tempo e da morte e foi
como se a giz desenhasse os contornos de um cadáver,
como se o servisse de bandeja não sei para Quem ou Qué
(pois muitas são as bocas que nomeiam, mas só uma nos silencia).
Digo em voz alta esse adjectivo e o seu fantasma surge,
vem até mim implorando que lhe dê nova substância,
calor e casa; que o recupere, tire das ruas e lhe mostre
o que é feito do mundo e das suas sombras, as palavras.
E antes de ir dormir com o osso desse adjectivo entre os lábios,
chego-me à janela e observo o poema incompleto da noite,
penso num homem buscando um adjectivo no fundo do Sena
ou do Tempo onde estão todas as vozes, todas as sombras.
E então recordo o que Kafka escreveu numa madrugada como esta:
Que enquanto os fantasmas engordam, nós deixamo-nos morrer.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

O lamento de Qu Yuan

Confusão é uma palavra que inventámos
para uma ordem que não se entende.

Henry Miller

Sopraste nas minhas feridas e estas despegaram-se de mim.
Estendidas no vento, circulando por vales e verões,
ainda ternas, foram aderindo à casca de uma árvore,
pousaram sobre o lago, abriram veias noutros corpos.
Acamado, hoje o mundo na sua língua diz mal de nós:
o bosque perde pássaros, a água foge da água
e a manhã é uma mula carregando sacos rotos.
E assim, cada coisa é uma hemorragia, cada coisa está fora
de cada coisa, é todas as outras menos ela mesma.

Mulher que velas os amotinados limites do meu corpo:
Nunca apagues com a tua boca a boca de um mistério.
A verdade é uma fenda que abre uma rota direita ao abismo.
A contradição um país secreto de que sempre se regressa
com um beijo nas costas e uma punhalada nos lábios.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

Cemitério do Père-Lachaise

No Père-Lachaise a solidão é um útero de regresso,
os mármores têm a aparência de leite cansado,
a eternidade é uma topeira que dá de mamar aos seus mortos.
No Père-Lachaise há crianças albinas a mascar hera,
os corvos entesouram puxadores caídos de portas que ninguém conhece,
soam mais amargos os violinos de Enescu debaixo dos salgueiros.
Junto a Jim Morrison alguns cravos de outros tempos
ainda elevam vapores e descargas eléctricas.
Oscar Wilde é só musgo a rebentar a pedra.
Às seis da tarde um funcionário tranca a morte,
abre a cigarreira. Sumido entre o fumo talvez pense:
Que trabalho inútil viver. Quanto tempo perdido.
Uma roseira deixou os espigões abertos sobre Sadeq Hadayat.
Sentados nos seus ciprestes os anjos levantam âncoras.
O cemitério zarpa novamente e Paris é o Inverno.

- Jesús Jiménez Domínguez
in Fundido en Negro

1.

as garças já não passam por
aqui, o frio impede a rotação da
imagem, um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a
sobrevivência em redor do
peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo
sol
vejo-lhes as viúvas
escuras como
travessões largos nos
passeios
enquanto os putos
ameaçam as ondas e quantas
vezes os pais irreconhecíveis de
encontro às rochas, os corações
convocados e o sino a
distribuir a morte
severamente

gente de lã, golas
manchadas, um cobertor
pelas costas no fundo do dia, a
noite e a oração, deus nos
perdoe a ferocidade, a dor tão
profunda, a comida mal servida,
o vocabulário dos
filhos, a virtude e o cheiro
das raparigas, o asseio da páscoa, a
pressa do terço e
a maldição do seu
nome

dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento

por vezes
a areia vem à estrada, acordo
com o despiste dos
forasteiros, chamo as ambulâncias
e as mulheres obreiras brotam das
portas a entristecer, como
boca fora do peixe o fôlego o
mata

juntam-se no cais, confusas no
vazio dos sexos, suadas enquanto
juram que na
fome dos lençóis
chegam virgens ao fim da noite

atordoam com cio, à minha boca, só os
forasteiros mortos a
partir, já súbito o
segredo se levanta e elas
gemem para dentro dos
xailes

- valter hugo mãe
in três minutos antes de a maré encher

2.

uma mulher arde no
centro da minha
casa, consome o corpo
de amor

mulher cantando uma
ladainha, descalça na
pedra do chão, caem-lhe
cerejas dos dedos que tocadas
à boca das pessoas
trazem caroços à
mão como gotas de luz




sou um poeta, ignoro
também as coisas todas

escrevo livros nos olhos
de dante, os pescadores em
círculos nas ondas, o
mar espalmado nas minhas mãos




tanto me faz, doido de nada ou
doido de tudo, sou pasto
do vento e um fogo pálido
onde o mar se vem aquecer

colecciono até o inferno, poema
mais difícil de escrever




assusta-me que o
ofício da luz perca os
objectos ou estas longas
paisagens. mas farto-me das
coisas que, ao mínimo
vislumbre, parecem
reais




posso falar do mar
como um incêndio de
água e erguê-lo em
chamas numa só
palavra, efeito secundário
da boca




existe uma arritmia ténue
no coração de quem recusou
o amor de outrém, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem




a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir




sabes, não é como
os bichos, o céu muda
de pele mas não temos
prova disso

por isso persigo o pôr do sol
janelas abertas e
vacilo

lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto

- valter hugo mãe
in três minutos antes de a maré encher

quarta-feira, novembro 11, 2009

.
Li hoje um poema medido a pulso
dentro de mim. Sede pousada no labirinto
e, no centro, aquele conhecido verso
secreto que amanhece nas açoteias.
Disponível para o sexo e para as cousas d'alma.
Ah li-o, e era um bicho exasperado
por sair à caça
com o sol a dar-lhe no dorso alquímico dos sonhos.
Dum vigésimo andar pode partir-se
com botijas de oxigénio
ou de binóculos. Precário, insubmisso
ao Estado das coisas.
São outros, porém, os cravos
da moderna paixão:
casamentos, relógios de ponto,
habitação própria domesticam
o horizonte, e o horizonte
basta.

- Paulo da Costa Domingos
à memória do meu bisavô Francisco Ferreira,
santeiro

álcool, tabaco, anfetaminas, que alumiação, mijo cor de ouro e esperma grosso,
tudo quente, e eu risco
e desenvolvo,
mantendo aberta a ferida, infundo
a miúda, aos poucos, minha, humílima,
respiração
na madeira madura rasgada e na fundura da argila,
e no sítio à espera cai o pacote,
brilha, porque na torção de luz o pacote de tripas
sou eu que o faço, e risco
e lixo e pinto e nimbo e ponho sob a mão atenta
esquerda
e as frias forças da vista a crua
artesania, e ouço agora na rádio Bach, meu Deus, e Haendel, e peço:
leiam-me dos livros
o curso dos sôbolos rios que vão, ou Lucrécio:
que
o mundo é um caos sumptuoso - este
é o segredo:
música, e eu estou bêbado, e é tão amargo o tempo,
tão irrevocável,
quero eu dizer: doce é ouvir o que se ouve muito junto ao ouvido,
enquanto se responde ao movimento dos dedos,
embora as asas do arcanjo, rémiges e retrizes, cada uma do tamanho da
parede de uma casa,
não passem pelas portas:
segredo é o gosto de ser ainda agraz e agudo,
gosto primeiro, de quem se fez nele, o gosto novo,
inacessível,
a leite e fruta -
e tu que me ouves, leva tudo mas não me leves
a mão, e as maneiras que lhe dou, de assinatura, e nela me refaço
com um soluço, autor, nó de corpo,
a contas com a autoria,
eu que me sinto nos dedos pelo canhoto e o curto,
falta de academia, erros metidos nisso,
e bêbado durante uma estação inteira, um estio, um outono,
bêbado das massas em que me embaraço as obras ou
de que as desembaraço, as obras às dedadas,
e o espaço rodeia-me e depois já não rodeia,
o espaço que ouço já me não presta,
não me presta a luz nas olarias e nos vibrantes paus de cedro
suando até que se me afigure,
e a terra que se mistura com o sangue sob as unhas,
da minha boca para fora já nada é assombroso,
nada para fora dos dedos sem estudo,
sou de matéria volúvel pouco a pouco,
ou muito rápido neste estio ou neste outono muito lento,
eu que me perco de mim sempre bêbado do tempo,
eu que morro

- Herberto Helder
in A faca não corta o fogo

O bloco de moradas de Tania Savicheva

No meio da indiferenciação e do horror dos milhões de mortos da Segunda Guerra Mundial que o historiador vai apresentando sistematicamente surge, de súbito, um nome, uma pessoa, uma vida. Na página 430 lê-se:
"Em Leninegrado, os mortos de fome, embora já não tão numerosos como em Abril, eram ainda vários milhares por dia. Foi no dia 13 que Tania Savicheva, uma rapariguinha que passara o cerco na cidade, registou no seu bloco de moradas, na letra M: "Mamã, 13 de Maio, 7.30 da manhã, 1942. Os Savichev morreram. Todos. Só ficou a Tania." Outras páginas marcadas por letras revelavam: "Zheny, morreu a 28 de Dezembro"; "Avozinha, morreu a 25 de Janeiro"; "Leka, morreu a 17 de Março", "Tio Vasya, morrreu a 13 de Abril", e "Tio Lyosha, morreu a 10 de Maio."
Evacuada para Gorki, a própria Tania morreria de disenteria crónica no Verão de 1943."(1)
À página 430 segue-se, sem dúvida, a página 431. E parece tão simples continuar a leitura.
(1) Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, D. Quixote, 2ª edição, Lisboa, 2009.

Enquanto ela arranja o cabelo

Ela arranja o cabelo antes de se deitar
e permanece em frente do espelho uma eternidade
entre cada flexão do braço
passam eras dos seus cabelos brotam silenciosamente
soldados da segunda legião de Augusto Antoniano
irmãos de armas de Rolando artilheiros de Verdun
com os dedos agéis
segura a auréola na cabeça
demorou tanto tempo
que quando
finalmente chegou até mim
meneando as ancas
o meu coração até aí tão dócil
parou
e na minha pele senti
grosseiros grãos de sal

- Zbigniew Herbert

terça-feira, novembro 10, 2009

[ElliottErwittGreece1966.jpg]
Roubada ao Café Central
para o Changuito

Depois de acabar-se uma chuva silenciosa
ficou a tarde a ponto de virar, puxada,
enlouquecida pela gritaria dos pardais
em golfadas. Esticam e dividem,
rasgam-te suspiros e as figueiras
parecem gesticular aflitas,
do modo como se esfregam os ramos
às cinco horas da tarde, enfim suspensa
nos nossos joelhos quando o sol
se torna alimento da terra e,
entre caminhos perdidos, sangra
por uns minutos enquanto vêm bebê-lo
e a um resto de calor, as sombras
que até ali dominou.

É eléctrica
e sofrida a luz que chega agora
sobre isto e nos chama para pequenas
e agitadas distâncias, desenhos de musgo
que dão a volta e sobem as paredes,
entre quadros pendurados sustendo
bocejos mais a litoral. E afinal,
aqui, todas são sereias que do mar
trazem nos cabelos, longos e estragados,
a ondulação e rebentação húmida
a cada um destes buracos
que o tempo escava com as unhas.

Das três mais junto ao canto,
há uma virada para este lado que
castiga o lábio inferior, mede-o
e sorri-se entretida, larga às vezes
numa tagarelice de flor, deitando voz
sobre o cheiro que nos deu corda
ao desejo, e a mim,
mesmo de queixo baixo a magoar
o peito, iça-me o olhar e alarga
entre as duas mãos um espaço
para que eu respire.

De bruços sobre a mesa, quase
me comovo nestas horas miseráveis
em que nos fazem companhia
até as nódoas da roupa que vestimos.
Recordo palavras que te ouvi,
Mário, e não sei já de quando volta-me
um pouco da vontade, mesmo a sensação
de que não é tarde para chegar
o mundo ao coração.

Depois, já mais tocado, arrasto-me
neste sórdido fascínio até à rua,
e com as mãos frias da lua nos ombros
acabei por vomitar. Os outros dois
que me acompanham, mais divertidos,
e um bêbedo que se pôs muito direito,
fez um convite à própria sombra
e dançou para uma música que,
ainda que não pudéssemos ouvir,
não deixou de nos agradar.

Dali já dava para ver como se seguem
umas às outras todas as noites, na falta talvez
de outra direcção. No fim, não terão sido
tão bons, mas previsíveis e até elucidativos,
os dias que nos levaram a juventude.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Juan Luis Panero



O FIM DA ESCADA

A estranha sensação de ter morrido
em Viena, numa tarde de outono de 1992,
numa casa cuja escada nunca subi.
De ser desde então um intruso, um farsante,
o actor sem futuro de uma comédia má.
De que o destino, implacável e rasteiro,
se vingou na longa noite de um hospital,
nas horas vazias que tento preencher.
Inventar, não heterónimos como fez Pessoa,
mas algo mais simples, o homem que escreve agora,
a medíocre perseverança dos seus feitos,
enquanto, insistente, me tenta a ideia de voltar,
de subir de vez os degraus, de bater a uma porta.
Mas quem sabe se ainda uma história pior,
um horror mais nítido me espera ali,
no fim da escada, diante da imaginada porta?



PIERRE DRIEU LA ROCHELLE
DIVAGA PERANTE A MORTE

No fim, penso que tinha razão
– toda a absurda intriga do poder,
a faca implacável da inteligência,
as sórdidas, políticas palavras,
os riscados projectos impossíveis –
sim, tinha razão nesse dia. Lembro-me bem
quando pensei, deitado junto dela,
que o único real era uma boa puta,
uma pele cálida, uns lábios silenciosos, umas mãos peritas,
naquele bordel, ao pé de Neuilly, ao amanhecer.
Por isso, porque acho que tinha razão, sou mais culpado
– livros, declarações, ideias, lealdades,
o segredo de tudo, o avesso do nada –
quanto tempo perdido para chegar a isto,
para recordar, sem solução já, as suas longas coxas,
o sabor espesso da sua boca, os roçados mamilos.
Chegava uma luz cinzenta sobre a cama,
sobre o seu cu memorável, imóvel,
sim, tinha razão, aquela puta
de quem nunca soube o nome ou talvez tenha esquecido,
o fumo de um cigarro, isso é tudo, eu tinha razão,
e se não a tinha, que importância tem agora?



NUMA ESTAÇÃO DE MADRUGADA

Recorda-os,
antes que o álcool os leve
ou a memória os maquilhe e confunda,
antes que sejam sonhos esquecidos,
as marcas de uma pele noutra pele apagadas.

Recorda-os,
além da bruma e da noite,
sob as luzes de néon fantasmagóricas,
diante das vias de metal silencioso,
sem comboios, sem despedidas nem destino.

Recorda-os,
porque não te esperavam,
e nada te pediam, nem tu a eles também,
porque tudo era inútil, absurdo e desoportuno,
derrotada ternura e sombra da tua vida.

Recorda-os,
e beija outra vez aqueles lábios,
a sua alagada respiração, a língua surpreendida,
a sua frágil matéria húmida,
aqueles lábios que a tua boca imagina.

Recorda-os


(traduções de Joaquim Manuel Magalhães)

Juramento

Jamais vos esquecerei mulheres raparigas – efémeras
entrevistas subitamente no meio da multidão na escadaria no
mercado
no dédalo do metro
nas janelas dos automóveis
– como clarões de calor - presságio de bom tempo
– como uma paisagem embelezada pelo seu reflexo no lago
– como uma aparição no espelho
nos esponsais daquilo que é
e daquilo que é apenas pressentido
– no baile
quando a orquestra deixa de tocar
e a aurora coloca nas janelas
círios por acender
jamais vos esquecerei - fonte pura de alegria - vivi também graças
aos vossos olhos de corça
graças às bocas que não eram minhas
às mãos catanho-amareladas que escolhiam como se estivessem acari-
ciando peixes de prata

pequena rapariga das Antilhas é de ti que me lembro melhor
não te vi senão uma só vez chez le marchand des jornaux
olhei-te mudo retive a respiração – para não te assustar
e durante um instante pensei que – caminhando contigo
teríamos mudado o mundo

Jamais vos esquecerei –
o movimento aturdido das pálpebras
a indescritível inclinação da cabeça
o ninho da palma

na minha memória fiel repito
rostos imutáveis místicos sem nome

e a rosa

nos cabelos
negros

- Zbigniew Herbert

domingo, novembro 08, 2009

Ennio Morricone - Beat No 3 - Teorema

Sobre a tradução de poesia

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo:
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen

- Zbigniew Herbert

Martín Espada

Graffiti no Tribunal para Duas Vozes



Jimmy C.
O Maior Ladrão de Automóveis Vivo
Chelsea '88

Então o que é que
estás a fazer
aqui?



(versão minha; original reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 54).

sexta-feira, novembro 06, 2009

A Cortina

Não chegar ainda ao fim, é o que é ser rio.


A cortina não era de pano, mas de espuma que caía do último andar. No cimo do prédio uma mulher epiléptica a espumar branco, o branco que escorria separava a visão de dentro e fora dos apartamentos. Uma testa branca, como a de Cassandra, a que não esquece (1). A cortina era contínua. Cobria todas as janelas; líquida e viva, uma cascata de leite; Por ela o sol passava filtrado, um pouco roxo, ganhando novas tonalidades de âmbar. A cascata trazia cristais líquidos, pequeninos bocados de obsediana e cerâmica sigilata que os argonautas deram a beber à mulher do terraço para que o espasmo fosse o mais puro e em tudo contínuo. Na gelatina os argonautas colocaram também muito Xanax. A sua vontade de esquecer formava a cortina; por vezes não era o sol que se via dentro dos apartamentos, mas toda a história universal projectada em cores vivas na tela que caía a toda a pressa. Às vezes era uma apresentadora da Antiga Grécia quem falava. Outras vezes na tela de espasmo passava um filme nunca realizado da consciência humana(2).
O rio é memória e desce por Itália, depois de se misturar um pouco mais acima com águas do Danúbio.

Um velho homem, que depois de uma longa conversa com Bataille olhou fixamente para o sol até os seus olhos derreterem, veio ter comigo e contou-me três variantes possíveis sobre a origem da cortina viva. Por ainda não ter sido inventado qualquer suporte de escrita não pude registar as três narrativas(3). Das três me esqueci.

A perspectiva múltipla diz-nos que o paraíso é outra pessoa. Ao cair no pátio, em frente ao prédio, o líquido branco do espasmo em queda vertical formava um barulho que acalmava os que precisavam de esquecer. De cada lado da entrada do prédio havia duas estátuas de titãs a beber por um búzio. Da fonte descia então o rio. Assumia mais à frente duas bifurcações. Uma para sul e outra para sudeste. A segunda formava um delta onde os que aquecem falavam e bebiam. Os dois sabiam a leite ainda quente.
Algumas raparigas tomavam banho no rio de espasmo, ficavam com o peito e os braços a pingar de nata ainda quente. Lavavam a cara e os braços.

Com algum medo de ser acusado de pouco rigoroso pelos cartógrafos modernos, Estrabão decidiu não incluí-lo na sua Geografia(4). Também Plínio teve medo que o vissem como um louco.




1) O rio é por isso visto pela nova filologia alemã, como a catarse final, a memória a escorrer numa queda de espuma que forma uma tela branca. A queda final da memória. Pela tela de espasmo passam imagens da história universal, a memória pessoal e a dos outros.
2) Sobre este tema, ver a história do cinema pré-hispânico de Georges Battaille.
3) Ptolomeu tinha já roubado a escrita aos deuses para a oferecer aos homens, mas o papiro ainda não tinha sido criado. Isso levou-me a pensar muito sobre a necessidade de escrita do homem moderno, do que precisa de dizer e do que pode dizer. Do que pode ser esquecido, todas as coisas, e da memória última que é um rio de espasmo.
4) A história tinha-lhe sido contada pelos vendedores de cerejas que da Arménia entravam em Roma com grandes carregamentos para as festas dos senadores. Os mesmos tinham-lhe assegurado a existência de outros rios, esses incluídos na sua “Geografia”.

Mão

Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari.

- Carlos Drummond de Andrade