quinta-feira, novembro 12, 2009

1.

as garças já não passam por
aqui, o frio impede a rotação da
imagem, um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a
sobrevivência em redor do
peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo
sol
vejo-lhes as viúvas
escuras como
travessões largos nos
passeios
enquanto os putos
ameaçam as ondas e quantas
vezes os pais irreconhecíveis de
encontro às rochas, os corações
convocados e o sino a
distribuir a morte
severamente

gente de lã, golas
manchadas, um cobertor
pelas costas no fundo do dia, a
noite e a oração, deus nos
perdoe a ferocidade, a dor tão
profunda, a comida mal servida,
o vocabulário dos
filhos, a virtude e o cheiro
das raparigas, o asseio da páscoa, a
pressa do terço e
a maldição do seu
nome

dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento

por vezes
a areia vem à estrada, acordo
com o despiste dos
forasteiros, chamo as ambulâncias
e as mulheres obreiras brotam das
portas a entristecer, como
boca fora do peixe o fôlego o
mata

juntam-se no cais, confusas no
vazio dos sexos, suadas enquanto
juram que na
fome dos lençóis
chegam virgens ao fim da noite

atordoam com cio, à minha boca, só os
forasteiros mortos a
partir, já súbito o
segredo se levanta e elas
gemem para dentro dos
xailes

- valter hugo mãe
in três minutos antes de a maré encher

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