quarta-feira, novembro 30, 2011

Poesia pois é poesia


REVISTA CRIATURA nº 6 – Novembro de 2011, 216 pp., 12 euros
(Tiragem Única de 300 exemplares)
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Impressão e Acabamento: Guide - Artes Gráficas Lda.


Autores:
Ana Duarte, Ángel Mendoza, António Gregório, Clara Pinto Caldeira, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Golgona Anghel, Inês Dias, Jaime Rocha, Jesús Jiménez Domínguez, John Mateer, José Carlos Soares, Luís Filipe Parrado, Luís Pedroso, Manuela Parreira da Silva, Nuno Ramos, Paulo Tavares, Tiago Araújo.


Para já disponível apenas na POESIA INCOMPLETA

-
de Os Três Mal-Amados

Joaquim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

- João Cabral de Melo Neto

terça-feira, novembro 29, 2011

Um Fio Que Te Prende À Vida



Rui Caeiro, Um Fio Que Te Prende À Vida, Lisboa: Língua Morta, 2011



A MÃO NO OMBRO


Para o Rui Caeiro
Para o David Teles Pereira e o Diogo Vaz Pinto
Para todos os amigos em volta



     Para falar deste vigésimo livro de Rui Caeiro – e uma das edições mais bonitas da Língua Morta –, começaria por recordar uma passagem de Cioran no Tratado de Decomposição: “O abismo de dois mundos incomunicáveis abre-se entre o homem que tem o sentimento da morte e o que não o tem; ambos morrem, claro; mas um ignora a sua morte, o outro conhece-a; um morre de uma só vez, o outro não pára de morrer… […] Um vive como se fosse eterno; o outro pensa continuamente a sua eternidade e nega-a em cada pensamento.”[1]
     E se escolhi esta passagem é porque, em Um Fio Que Te Prende À Vida, se trata justamente desta consciência da transitoriedade, da precariedade de todas as coisas, uma das características definitórias do ser humano. Leia-se, na página inicial: “Vida, e vida presa, e apenas por um fio, é coisa que toda a gente tem. Embora nem toda a gente saiba que tem, ou dê por isso. Nem toda a gente está cá para o efeito. Dar por isso não deixa de ser, não obstante, a melhor das razões para cá se estar. E não há assim tantas.” (p.5)

     Numa época em que tudo à nossa volta está de algum modo ligado – o estar on-line, as ligações em rede, os fios eléctricos para carregar todo o tipo de aparelhos que se tornaram indispensáveis ao nosso quotidiano, incluindo os suportes médicos com que nos prolongam cada vez mais a esperança de vida –, o homem tornou-se, mais do que nunca, um homem-“marioneta” (uma expressão utilizada na p.7).
     Mas este livro vem ressalvar um redentor espaço de liberdade de liberdade individual, na medida em que, apesar da presença do fio ser inegável, podemos, sim, controlar o modo como decidimos encará-lo, antes de mais pela simples possibilidade de o ignorar: “Trata quotidianamente do seu fio? Prefere fazer como se ele não estivesse lá, como se não existisse?” (p.6) Tal como nos pertence a opção de ver as cicatrizes, não como marcas de menores ou maiores aproximações à morte, mas antes como costuras do nosso fio, momentos em que foi necessário prender-nos com mais força à vida.
      Neste sentido, também Deus se torna redundante: “O fio, esse fio, até podia ser baço ou resplandecente, pouco adiantava para o caso. Como não adiantava a circunstância de um deus qualquer estar a segurar numa das pontas.” (p.6) Aliás, a questão da redundância de Deus, da sua irrelevância, é uma das constantes no arco traçado pela obra de Rui Caeiro, desde o primeiro livro –intitulado precisamente Sobre deus, sobre a magna questão da existência de deus (1988) e utilizando uma epígrafe de Cioran – até este Um Fio Que Te Prende À Vida.


*


     Regressando, então, ao pressuposto inicial da consciência da transitoriedade, é quase impossível, ao lermos o livro de Rui Caeiro, não nos lembrarmos de outro caso em que essa consciência se cristalizou também na metáfora do fio: O Funâmbulo, de Jean Genet.
     Mas grandes diferenças separam ambas as obras. Em primeiro lugar, enquanto o estilo de Genet, nesse livro, é feito de lantejoulas, de excessos, explorando os limites do poético, o livro de Rui Caeiro traz-nos uma voz de uma secura mais próxima de um Beckett, a secura necessária para que o fio seja, afinal, o fio de pesca de que fala o último texto do livro, para que possamos sentir o anzol preso na boca, castigando-nos a carne para não nos deixar esquecer a ténue fronteira entre vida e morte: “Um fio banal. Um fio de nylon, parecido com aquele que ajuda a tirar o peixe da água, tirando-lhe também a vida.” (p.20)
     Em segundo lugar, para Genet, a consciência da transitoriedade projecta-se toda sobre a morte, considerada como uma libertação de uma vida sem valor nem sentido. Leia-se, por exemplo: “A Morte – a Morte de que eu falo – não é a que segue logo a tua queda, mas precede a tua aparição no fio. Antes de subir é que morres. O que dança já está morto – decidido a todas as belezas, capaz de todas elas.”[2]
     No livro de Rui Caeiro, pelo contrário, as sombras lançadas pela morte são reconhecidas, mas também a luz que o facto de estarmos conscientes dela projecta sobre a nossa existência. Não nos podemos esquecer que o fio nos prende à vida e não à morte. Aliás, esta última palavra não é utilizada uma única vez em todo o livro. Está subentendida em cada página, ampliando, intensificando a vida, lançando aquilo a que Cioran chamava “uma qualidade de novidade” sobre as coisas e os momentos.
     E talvez seja esse um dos aspectos de que mais gosto neste livro e que me fizeram sentir mais próxima do texto – a reivindicação ou a recuperação do espanto relativamente ao que nos rodeia, a capacidade de resistirmos ao cansaço (o “ennui”) e de nos deixarmos surpreender. Esse espanto surge, desde logo, no adjectivo “atónito” da p.9: “Se já alguma vez se deteve, atónito, para o sentir na mão, deslizar por entre os dedos, pois nada mau, nada mau.” Mas também na “curiosidade” da p.10: “É um simples fio já um pouco esgarçado. / Um como que farrapo de curiosidade.” E ainda na comovente “esperança” da p.14: “Um fio que te prende à vida. Um fio, um frio, um calafrio. / Uma esperança, teimosa, numa Primavera que há-de vir. Que se veja, que se cheire.”
     É o espanto de, mesmo na solidão irredutivelmente individual do homem, se saber reconhecer a presença dos outros, de respeitar a existência de mais fios e o modo como eles se condicionam, por caminhos muitas vezes invisíveis, entre si.


*


     Creio que só podia ser assim, neste livro, tendo em conta o Rui Caeiro que conhecemos, sempre com a sua atenção ao que vai acontecendo à volta, ao pormenor do homem que fala sozinho e a desoras nas escadas da igreja ou à dor de um gato. Com curiosidade pelo diferente e generosidade para aderir a projectos novos, desses com que tentamos reforçar o fio que nos prende à vida e aos outros.
     Terminaria, pois, com uma citação do escritor argentino Manuel Mujica Lainez, que descreve assim a personagem de um escritor (podia ser, para mim, o Rui Caeiro), num dos seus romances mais pequeninos mas mais bonitos, Los Ídolos: “É um guia insubstituível. Até pelos seus silêncios. Até pela maneira como nos pousa levemente a mão no ombro, quando mostra uma árvore, uma estátua, um letreiro de uma estalagem e nos faz sentir de modo mais profundo a proximidade dele, para que partilhemos plenamente a sua emoção.”[3]



Inês Dias,
25 de Novembro de 2011


[1] E. M. Cioran, Précis de Décomposition, Paris : Éditions Gallimard, 1987, p.21.
[2] Jean Genet, O Funâmbulo, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Hiena Editora, 1984, p.12.
[3] Manuel Mujica Lainez, Los Ídolos, Madrid: Cátedra, 1999, p.111

Horizonte mortífero

A aristocracia intelectual, como se disse no início deste texto, não é específica de um grupo, pelo contrário, faz parte do nosso não sermos subsumíveis enquanto parte de um grupo, no limite universal, como pretendia o humanismo, que, como se sabe, construía com base nisso diversos sistemas de exclusão. O facto de cooperarmos e nos reunirmos só se torna possível a partir de uma tal impossibilidade de subsunção num grupo, mesmo definido como o dos melhores, pois o homem, humano-desumano, é incomparável.
Fazer de cada um uma parcela dirigível segundo as leis da economia tende a ser o programa daquilo a que hoje se chama democracia e passa pelas estratégias estatais de apropriação da arte através de mecanismos reguladores que procuram destiná-la ao que chamam recepção e que é o seu enquadramento aceitável, aquele que a retira de uma deriva improdutiva, e rasura o seu excesso através da indeferenciação do seu modo de existência e dos produtos das indústrias da cultura. Tendo as grandes questões a respeito destas sido colocadas por Adorno, é hoje bem visível que aquilo que as instituições da cultura apresentam como tal é o resultado de uma homogeneização sob a etiqueta da produção, que tende a apresentar o mundo como soma do inerte e acumulável, fazendo da cultura um horizonte mortífero. Lautréamont previu esta catástrofe da cultura que se fez mercadoria, contra a qual declarou: A poesia deve ser feita por todos. Para que o mundo continue como permanente e invisível transformação é preciso que a poesia (a arte) seja "feita", que os esquemas perceptivos não fixem a vida em definitivo. Mas a poesia só é feita se for feita por todos, se não for determinada por uma especialização pensada em termos técnicos e económicos que levam ao extremo a divisão do trabalho: de um lado os ditos agentes artísticos ou culturais (criadores, comissários, críticos, professores, etc., etc., mas também e cada vez mais trabalhadores da indústria de entretenimento e um conjunto de trabalhadores dos média cuja função é já a do puro marketing), do outro lado as ditas "massas" consumidoras. Com o desenvolvimento da técnica, esta designação corresponde a uma maioria preparada para interagir e repetir, não percebendo que está a ser comandada para isso e que a sua "participação" programada é uma forma de alienação.

- Silvina Rodrigues Lopes
in Persistência da Obra - Arte e Política, Assírio & Alvim

Os amarelos de novembro

Não tem palavras a minha canção preferida. Tem antes
os amarelos queimados de novembro. Gosto de gente antiga e
obscura, gente culpada, jovem ou envelhecida para
quem a vida não passa de um contínuo de sombra
por isso sei abraçar ___por isso partem sem regresso.
Sombras que surpreendo – não quebres não
estragues o amarelo de novembro.


E aquele que está sentado à nossa frente é entre
todas as coisas
a ideia mais perfeita, a mais real, a mais sólida.
No instante seguinte nada sabemos.
É assim o nosso modo de ser e a própria
condição do amor. Destruir,
riscar até desaparecerem os amarelos de novembro.

- João Miguel Fernandes Jorge
in Lagoeiros, Relógio d'Água

segunda-feira, novembro 28, 2011

O novo homem

O novo homem
é esse aí
sim esse
cano de esgoto
que deixa passar
tudo

- Tadeusz Rózewicz

Calor

Já que faz tanto frio
no mundo
e os homens olham
com frieza
mesmo
os próprios filhos

não perdes nada em ter
uma chávena quente de café
a aquecer-te as mãos

assim que acordam eles
falam nessa pronúncia de lata e ferrugem
e apitam e vaiam

- Tadeusz Rózewicz

domingo, novembro 27, 2011

língua morta 016

Livres da responsabilidade

Ele aproxima-se
e diz-vos

não sois responsáveis
nem pelo mundo nem pelo fim do mundo
o peso foi levantado dos vossos ombros
sois como crianças e pássaros
ide brincar

assim eles brincam

esquecem-se
que poesia contemporânea
significa lutar por um novo fôlego

- Tadeusz Rózewicz

A veces, una fruta

A veces, una fruta
sabe a la muerte de alguien
desconocido y, sin embargo,
tan próximo a nosotros
que nos roza su aliento.

O sabe a tiempo solo:
a las horas que faltan
para esa muerte, sólo.

- Ángel Crespo
in El bosque transparente, Seix Barral

sábado, novembro 26, 2011

Reencontro

É preciso sujarmo-nos de vez em quando.
Só estou a dizer que é preciso sujarmo-nos
de vez em quando. Falo de voltar
para as partes sujas e humanas da cidade.
Falo de um caminho para o reencontro,
cortes suficientemente fundos para deixarem
cicatrizes permanentes. Cerveja, tabaco,
amendoins, falo de todas estas coisas,
sem qualquer ordem em particular.
Acho que o coração ainda bate. O coração
de um homem renascido. Com a cidade
à sua volta, orgulhosa como um castelo.

- Vítor Nogueira
in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, & etc

Epílogo

Essas veneráveis estruturas, o enredo e a rima,
por que me são inúteis agora
que quero fazer
uma coisa imaginada, e não recordada?
Ouço o ruído da minha própria voz:
A visão do pintor não é uma lente,
treme ao acariciar a luz.
Mas às vezes tudo o que escrevo
com a arte gasta dos meus olhos
parece um instantâneo
chocante, apressado, berrante, estreito,
elevado face à vida
mas paralisado pelos factos.
Tudo é desconforme.
Mas porque não dizer o que aconteceu?
Pede a graça da exactidão
que Vermeer deu à iluminação do sol
espraiado como uma maré num mapa
sobre a sua rapariga concreta e ansiosa.
Somos pobres factos passageiros
e isso avisa-nos para que demos
a cada figura nas fotografias
o seu nome vivo.

- Robert Lowell
(versão de Pedro Mexia)

sexta-feira, novembro 25, 2011

quinta-feira, novembro 24, 2011

3 ANOS DE POESIA INCOMPLETA


























Reabre amanhã.

-
Nas actuais “democracias”, que tendem a limitar-se à promoção de um sistema económico assente na competitividade, a arte – que desde sempre atesta o humano do homem, a sua capacidade de criar enquanto capacidade de ser singular e de viver em comum – é posta em perigo por um conjunto de mecanismos, os mesmos que são usados para forçar o consumo de qualquer tipo de mercadorias, nomeadamente, os da indiferenciação entre informação, propaganda e publicidade, sendo que estas últimas tendem a ser simples técnicas impositivas de comportamentos, criando elas próprias o ambiente propício para se tornarem cada vez mais poderosas. É assim que proliferam os chamados criativos e as “indústrias criativas”, que os nomes de artistas se convertem em marcas comerciais, ou que um grupo de produtores, “agentes artísticos”, “cria” os próprios artistas, como um bom agente de publicidade pode “criar” o produto a consumir. O controlo dos indivíduos por um Estado “democrático”, através do qual o capital exerce o seu poder, não decorre de meios directos de controlo mas da cumplicidade entre a gestão centralizada de certos recursos e serviços e o poder do marketing detido pelos média, que são o principal veículo do entretenimento […]. O controlo é permanente: a formação de “públicos”, contínua e vinda de todos os lados, abole o silêncio e o espanto pela saturação do quotidiano por músicas, imagens, “notícias” e jogos que não só produzem identificações automáticas como introduzem compulsões ao exercício do poder, correspondentes a um tudo-é-possível-e-tudo-se-equivale. Estão em perigo o sentir e o pensar, motivo pelo qual a resposta singular que a arte convoca é rasurada pelas instituições que pretendem fazê-la render, moldá-la às circunstâncias, que se resumem ao lucro.
[…]

- Silvina Rodrigues Lopes
in Persistência da Obra - Arte e Política, Assírio & Alvim
(post retirado daqui)

quarta-feira, novembro 23, 2011

Crítica nos Jornais


Moderador: Francisco Belard
Mesa:
António Guerreiro
David Teles Pereira
José Mário Silva
Paulo da Costa Domingos
Pedro Mexia

25 de Novembro
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Edifício ID / 18h-20h

terça-feira, novembro 22, 2011

A bomba

A bomba
é uma flor de pânico apavorando os floricultores
A bomba
é o produto quintessente de um laboratório falido
A bomba
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles
A bomba
é grotesca de tão metuenda e coça a perna
A bomba
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem
A bomba
não tem preço não tem lugar não tem domicílio
A bomba
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece
A bomba
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está
A bomba
mente e sorri sem dente
A bomba
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados
A bomba
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada
A bomba
tem horas que sente falta de outra para cruzar
A bomba
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação
A bomba
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés
A bomba
faz week-end na Semana Santa
A bomba
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia
A bomba
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos interplanetários
A bomba
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, de verborréia
A bomba
não é séria, é conspicuamente tediosa
A bomba
envenena as crianças antes que comece a nascer
A bomba
continnua a envenená-las no curso da vida
A bomba
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais
A bomba
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba
A bomba
é um cisco no olho da vida, e não sai
A bomba
é uma inflamação no ventre da primavera
A bomba
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, cobalto e ferro além da comparsaria
A bomba
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc.
A bomba
não admite que ninguém acorde sem motivo grave
A bomba
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos
A bomba
mata só de pensarem que vem aí para matar
A bomba
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe
A bomba
saboriea a morte com marshmallow
A bomba
arrota impostura e prosopéia política
A bomba
cria leopardos no quintal, eventualmente no living
A bomba
é podre
A bomba
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado
A bomba
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo
A bomba
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade
A bomba
tem um clube fechadíssimo
A bomba
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel
A bombav é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris
A bomba
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos de paz
A bomba
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas
A bomba
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger velhos e criancinhas
A bomba
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer
A bomba
é câncer
A bomba
vai à Lua, assovia e volta
A bomba
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação em cadeia
A bomba
está abusando da glória de ser bomba
A bomba
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba o instante inefável
A bomba
fede
A bomba
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina
A bomba
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve
A bomba
não destruirá a vida
O homem
(tenho esperança) liquidará a bomba.

- Carlos Drummond de Andrade

A voz

Uma canção cantava-se a si mesma
na rua sem foliões. Vinha no rádio?
Seu carnaval abstrato, flor de vento,
era provocação e nostalgia.

Tudo que já brincou brincava, trêmulo,
no vazio da tarde. E outros brinquedos,
futuros, se brincavam, lecionando
uma lição de festa sem motivo,

à terra imotivada. E o longo esforço,
pesquisa de sinal, busca entre sombras,
marinhagem na rota do divino,

cede lugar ao que, na voz errante,
procura introduzir em nossa vida
certa canção cantada por si mesma.

- Carlos Drummond de Andrade
-
Distraiu-me o soluço vespertino
do acordeão. Aproximei-me.
O rosto do rapaz era uma flor
de outro século, delicadamente
vendida ao preço da indiferença.

- Vasco Gato
in Napule, Tea for One

Pombo-Correio

Os garotos da Rua Noel Rosa
onde um talo de samba viça no calçamento,
viram o pombo-correio cansado
confuso
aproximar-se em vôo baixo.

Tão baixo voava: mais raso
que os sonhos municipais de cada um.
Seria o Exército em manobras
ou simplesmente
trazia recados de ai! amor
à namorada do tenente em Aldeia Campista?

E voando e baixando entrançou-se
entre folhas e galhos de fícus:
era um papagaio de papel,
estrelinha presa, suspiro
metade ainda no peito, outra metade
no ar.

Antes que o ferissem,
pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado
que o dos homens
e o dos homens costuma ser mortal
uma senhora o salva
tomando-o no berço das mãos
e brandamente alisa-lhe
a medrosa plumagem azulcinza
cinza de fundos neutros de Mondrian
azul de abril pensando maio.

3235-58-Brasil
dizia o anel na perninha direita.
Mensagem não havia nenhuma
ou a perdera o mensageiro
como se perdem os maiores segredos de Estado
que graças a isto se tornam invioláveis,
ou o grito de paixão abafado
pela buzina dos ônibus.
Como o correio (às vezes) esquece cartas
teria o pombo esquecido
a razão de seu vôo?

Ou sua razão seria apenas voar
baixinho sem mensagem como a gente
vai todos os dias à cidade
e somente algum minuto em cada vida
se sente repleto de eternidade, ansioso
por transmitir a outros sua fortuna?

Era um pombo assustado
perdido
e há perguntas na Rua Noel Rosa
e em toda parte sem resposta.

Pelo quê a senhora o confiou
ao senhor Manuel Duarte, que passava
para ser devolvido com urgência
ao destino dos pombos militares
que não é um destino.


- Carlos Drummond de Andrade

domingo, novembro 20, 2011

CRIATURA N.º 6 - NOVEMBRO 2011 - Ana Duarte, Ángel Mendoza, António Gregório, Clara Pinto Caldeira, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Golgona Anghel, Inês Dias, Jaime Rocha, Jesús Jiménez Domínguez, John Mateer, José Carlos Soares, Luís Filipe Parrado, Luís Pedroso, Manuela Parreira da Silva, Nuno Ramos, Paulo Tavares, Tiago Araújo.

-

Uma laranja pode atrair-me ao teu quintal

Uma laranja pode
atrair-me ao teu quintal
mas também
o céu reflectido nas janelas,
ou até
o anel que brilha na tua mão
quando fechas a porta.

Uma flor, sim, uma flor
pode atrair-me
ao teu quintal
ou um insecto
- pássaro, flor -
na verdade, um verme
pode atrair-me
ao teu quintal.

Um buraco na terra, ervas daninhas
podem atrair-me
ao teu quintal.

Esse pedaço de pele entre
o teu ombro e o teu pescoço
pode atrair-me
ao teu quintal
de um modo geral, aliás,
o corpo
ou o som de um fruto a cair
pesado demais
no chão do teu quintal

- o balde da água
migalhas de pão
o cair da noite
a luz acesa
o cheiro a comida
podem atrair-me
ao teu quintal.

- Ana Duarte
-
Como temer-te, morte?
Não estás aqui comigo, a trabalhar?
Não te contacto com meus olhos; não me dizes
que não sabes de nada, que és vazia,
insensível e pacífica? Não desfrutas,
comigo, de tudo: glória, solidão,
amor, até ao tutano?
Não me estás a sustentar,
morte, de pé, a vida?
Não te trago e te levo, cega,
como teu cão-guia? Não repetes
com tua boca passiva
o que quero que digas? Não suportas,
escrava, a gentileza com que te obrigo?
Que verás, que dirás, aonde irás
sem mim? Não serei eu,
morte, a tua morte, a quem tu, morte,
deves temer, mimar, amar?

- Juan Ramón Jiménez
(versão de J.E.S)
-
Repara nos velhos.
Dementes, doridos, restos de casas.
Vivem agora a lepra
de todos nós.
Não lhes chegamos.
Tresandam.
Esquecem.
Apoderam-se do nada.
E nós, capitosos,
brindamos com o vinho
que também eles
sorveram,
desdenhando a morte
que, amarga como
a nossa indiferença,
haveremos
de provar.

- Vasco Gato
in Napule, Tea for One
-
O imperdoável é um sujeito subtil. Move-se magro entre a gente. Não se diz, não se expressa, não se sente. Criminoso discreto, é sobretudo um assassino. Lento, pouco espectacular. Morte é isto. Além de terrores nocturnos e suores inalcançáveis. Morte é usar a linguagem para coisa nenhuma. Morte é o corpo, sem sentido, hirto por mero acaso da evolução. Morte é isto, mar e rio serem tanto a mesma coisa. Só há margens, separadas, separadas, separadas. Morte é esta bomba, a acontecer em público, tão tranquila. Morte é dinamite que quase não explode. Morte é isto, esta distância entre aqui e lá, um curto-circuito menor em beleza do que as trovoadas. Morte é o hiato absurdo entre um ser e a sua memória. Dizem que ela nos conta. Nada conta quando tudo é morte. Morte é isto, esta fronteira que se perde de vista, que não tem vista. Morte é os olhos não serem nada, não verem nada, não se olharem sequer. Morte é isto, um nome existir só em letras lapidares. Morte é uma dama gelada toda genitália. A fertilidade estilhaçada contra um vidro. Morte é isto, ser o vidro e a fertilidade e a mulher ausente e a ferida do vidro. Morte é chegar a casa naturalmente, como se o exterior e o interior não se distinguissem. Não ter dono nem querer tê-lo. Morte é sem perdão. Terrores nocturnos e suores inalcançáveis. Ou então isto.

- Clara Pinto Caldeira

sábado, novembro 19, 2011

sexta-feira, novembro 18, 2011

Chegou a altura de encontrar um lugar

Chegou a altura de encontrar um lugar
para estar em silêncio um com o outro.
Tagarelei sem fim
em salas de professores, corredores, restaurantes.
Quando não estás perto
desenrolo conversas na cabeça.
Até este poema
tem quarenta e nove palavras a mais.

- Eunice de Souza
(tradução de Ana Luísa Amaral)
in Poemas Escolhidos, Cotovia

De estranho/modo

Falei muito de
estranheza
e devo agora, ai de mim,
praticá-la.

Os teus poemas já não são
mensagens para mim
e os meus tornaram-se
um epitáfio

a uma tarde de fim de Novembro
quando os últimos raios tocavam
as folhas, os bronzes, a velha arca de teca,
e esqueci-me por instantes
do que um velho pintor meu amigo me ensinou:

As formas sem dor, disse ele, são fúteis.

Que assim seja. Embora eu o preferisse
de outro modo.

- Eunice de Souza
(tradução de Ana Luísa Amaral)
in Poemas Escolhidos, Cotovia

quinta-feira, novembro 17, 2011

Um gume carnívoro

Um gume carnívoro
de asa doce e homicida
sustém um voo e um brilho
ao redor da minha vida.

Raio de metal crispado
fulgentemente caído
flanqueia e a meu lado
faz um triste ninho.

Meu templo, florido terraço
de minhas idades idas,
negro está, e meu coração,
meu coração com cãs fica.

Tal é a má virtude
do raio que me rodeia,
que volto à minha juventude
como a lua à aldeia.

Num vislumbre lanço
sal à alma e sal aos olhos
e flores de teias de aranha
de minhas tristezas colho.

Aonde irei que não vá
a minha perdição encontrar?
O teu destino é da praia
e a minha vocação o mar.

Descansar destes trabalhos
de furacão, amor ou inferno,
não é possível e o que dói
doerá, será sempre eterno.

Mas por fim poderei vencer-te,
ave, raio inacabável,
coração, que da morte
ninguém há-de duvidar.

Segue, segue gume
voando, ferindo. Algum dia
se porá o tempo amarelo
sobre o meu retrato.

- Miguel Hernandez
(tradução de Ana Salomé)
encontrado aqui

quarta-feira, novembro 16, 2011

Noite

Os gestos mudaram, a iluminação também.
Conseguimos esconder-nos atrás de nós mesmos.
A noite, como sempre, vai servindo para esperar.
De que se vive, afinal? De que se morre?

- Vítor Nogueira

O senhor da meteorologia

Aparecia sempre a seguir às notícias,
quase extraviado e quase se desculpando
pelo seu ponteiro negro golpeando os nossos mapas.
Nunca traiu uma revolução,
um acidente aéreo, o adeus de uma estrela,
ou uma paisagem incrível entre os olhos.
Nunca mudou o tempo.
Mas nesse seu papel inofensivo e sem pretensões
estava a verdade do dia seguinte.

- Ángel Mendoza
in Pequeñas Posesiones, Renacimiento

Linha de Passe (2008)



7/10

terça-feira, novembro 15, 2011

Habitação

Habitação de silêncios. Vem
em passos de cinza a avó. Segue o rastro
do Ángel e do demónio que, uma vez mais,
abriu as gaiolas aos pintassilgos
e os deixou voar. Derrama afónica
a sua voz de pátio húmido. Sua velhice
sabe onde me escondi
________________mas segue buscando.

- Ángel Mendoza
in Pequeñas Posesiones, Renacimiento

Interior

O que foi restando dentro da casa
em que vendiam canários
continua a pulsar, mágico e seguro,
como se eu tivesse ainda nove anos.

O velho gira-discos dos meus tios,
um sol brunindo o alpista derramado,
a palmeira sem nome e sem amanhã,
água em cubos metálicos.

O que foi restando lá dentro não soube
do sangue dos dias, da estranha
paisagem que a morte deixa ao fundo,
a luz como recordação de uns pássaros.

- Ángel Mendoza
in Pequeñas Posesiones, Renacimiento

Procura

Procurar sem notícia, nos lugares
onde nunca passou;
inquirir, gente não, porém textura,
chamar à fala muros de nascença,
os que não são nem sabem, elementos
de uma composição estrangulada.

Não renunciar, entre possíveis,
feitos de cimento do impossível,
e ao sol-menino opor a antiga busca,
e de tal modo revolver a morte
que ela caia em fragmentos, devolvendo
seus intatos reféns - e aquele volte.

Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado,
que o interroga, insinue
a sigla de uma armário cristalino,
além do qual, pascendo beatitudes,
os seres-bois completos, se transitem,
ou mugidoramente se abençoem.

Depois, colóquios instantâneos
liguem Amor, Conhecimento,
como fora de espaço e tempo hão de ligar-se,
e breves despedidas
sem lenços e sem mãos
restaurem - para outros - na esplanada
o império do real, que não existe

- Carlos Drummond de Andrade

Tríptico de Sônia Maria do Recife

I

Meu Santo Antônio de Itabira
ou de Apicucos
ensina-me um verso
que seja brando e fale de amanhecer
e se debruce à beira-rio
e pare na estrada
e converse com a menina
como se costuma conversar com formigas
besouros
folhas de cajueiro de ingazeiro de amendoeira
esses assuntos importantíssimos
que não adianta o rei escutar
porque não entende nossa linpim-guapá-gempém.

II

Meu Santo Antônio do Recife
preciso de outro verso bem diferente
mas tirado daquele como um jardim se tira da terra
e todo macio dourado
ágil fosforescente cantábile
para significar a moça
que pouco a pouco se formou ao sol do espelho
e agora está sorrindo
sobre a cordilheira de antepassados
e finca no olhar um ramo
de música, à maneira dos passarinhos.

III

E assim terei celebrado Sônia Maria
Sônia de som e sonho
sonata mozartiana que em modinha
brasileira se ensombra
e vai soar suavíssima no sono
Maria de Maria mariamente
ou de mar de canaviais mar murmurante
Sônia Maria do Recife
nesse ponto de luz tamisada
onde as meninas começam a transformar-se
em nuvem, e as mulheres
meditam sua grave adolescência.

- Carlos Drummond de Andrade
-
i like my body when it is with your
body. It is so quite a new thing.
Muscles better and nerves more.
i like your body. i like what it does,
i like its hows. i like to feel the spine
of your body and its bones, and the trembling
-firm-smooth ness and which I will
again and again and again
kiss, i like kissing this and that of you,
i like, slowly stroking the, shocking fuzz
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh . . . And eyes big love-crumbs,

and possibly i like the thrill
of under me you quite so new.

- e. e. cummings

segunda-feira, novembro 14, 2011

Nudez

Não cantarei amores que não tenho
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)

Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amado de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos,
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.

- Carlos Drummond de Andrade

domingo, novembro 13, 2011

Dia 25 de Novembro

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgT9YWKToKxv1Bgg9s-C4hqvqoh3i9D5AEGbuqGf5YdTTAZ4YO7HKdrnUTzC27jUZATzSxUC8c5M5vbODj2pal6KTjUDLxPL-Tit3IhoeAVcI0RFnI8iYVJZG3yHd5ItQU0_Ba8/s1600/fio.jpg

Pedagogia

Dar aos outros que estudar
o que eu próprio ignoro
embriagado de silêncio.

- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

Mudança de vida

A realidade existe em tantos planos
que causa pânico: o pudor do vício,
um olhar inocente que desarma,
o mêdo de ter mêdo de morrer.

É demais. A beleza mata depressa
quem ama devagar. Assisto ao meu enterro.
Há algumas mulheres que se aproximam.
São afastadas pelo olhar dos homens.

Os meus filhos desceram já à cova,
já alisam o fundo, retiram pedrinhas
e esboroam torrões, pra não magoar
meu corpo nu envolto na mortalha.

A realidade do meu ser pretérito
petrifica em ethérea solidez de som.

- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

sábado, novembro 12, 2011

sexta-feira, novembro 11, 2011

O tempo aprazado

Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.

Do outro lado enterra-se-te a amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.

Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.

- Ingeborg Bachmann
in O Tempo Aprazado, Assírio & Alvim

Pouco mais que adornos

-



[Texto de David Teles Pereira, publicado no Ípsilon de 11 de Novembro]

Algumas vezes acontece o título de um livro ser o mais cruel depoimento sobre as suas fraquezas. Com “Adornos” (D. Quixote, 2011), o sexto livro de Ana Marques Gastão, é exactamente isto que sucede. Chega a ser paradoxal o quanto uma poesia que parece procurar a depuração e a limpidez tão radicalmente delas se consegue afastar ao pejar os seus versos de meros adereços imagéticos ou sonoros: “Tentando não regressar/ a um alagadiço antes,/ suspendo-os em sílex,/ logo encontrando/ um silfídico futuro/ que provisoriamente/ dispo do presente.” (p. 22) ou “No côncavo dos olhos/ há meninas de fornalha/ achas a martelo abafadas,/ que protegem, ocultas,/ a função obstetrícia.” (p. 20).
Trata-se de uma poesia sensorial, “Queria ver por dentro das artérias/ o sabor de teu sumptuoso rosto/ que não vejo; ouvir a brancura/ aguda d’uns olhos sanguíneos/ que me não vêem” (p. 77). O termo talvez possa parecer demasiado genérico e, verdadeiramente, que poesia pode não o ser? Aqui tem, contudo, um significado simples de isolar.
Os sentidos são a forma como experienciamos o real, esse conceito polémico e, por vezes, tão mal compreendido no que o século XXI da poesia portuguesa nos tem mostrado. E dos sentidos, ou melhor, das sensações partem estes poemas de Ana Marques Gastão, num livro dividido em cinco partes, correspondendo cada uma, maioritariamente, a um dos cinco sentidos, apesar de não poucas vezes, em qualquer uma dessas partes, serem simultaneamente convocados: “se o alimento é d’um secreto/ nome – água matizada em quieto/ lago ou ofuscada obstinação –, seja/ o coração uma boca, os ouvidos/ uns lábios, o nariz uma coroa de sal.” (p. 69). Este apelo sincrónico dos sentidos é, aliás, um dos recursos mais frequentes neste livro, seja porque a autora pretende, através dos seus versos, um deslocamento da experiência sensitiva ou, então, uma metamorfose do “saturado real”. Veja-se isto, por exemplo, nestes versos do poema que dá o título ao livro: “Valho-me de um ouvido/ que quase não ouve/ porque vê/ em retorcido olhar/ do touro as asas.” (p. 39). Compreende-se a intenção, valiosa até, mas deve lamentar-se um imenso erro. Tão pouco desejável é num poema o seu esgotamento na realidade, como o é a falta de capacidade para oferecer ao leitor uma visão sobre esta, seja ela entusiasmante ou acutilante, cínica ou vibrante. O que os sentidos da autora destes poemas captam, na maioria dos seus versos, raramente se furta à regra de ser um mero adorno, uma criatividade enclausurada na incomunicabilidade ou, nos piores casos, na banalidade: “E assim do corpo resta um ocre tudo-nada” (p. 73), “Miopia a querer/ ver mais,/ recuada hipermetropia/ de ser filha/ de esperma e óvulo/ altivos em sua altitude” (p. 15) ou “São globos, os olhos/ ou esferas,/ bolbos e espera.” (p. 11). Quando isto não acontece, o leitor pode deparar-se com algumas imagens interessantes – “Enquanto a vida age,/ corro, às avessas, por dentro/ dos olhos.” (p. 12) –, mas estas são raras e, na maioria dos casos, perdem-se na litania pastosa que imprimiu em grande parte dos poemas, “Quando perco a palavra,/ o cheiro é de brejo/ e só oiço o relógio/ de odores sonoros/ e formato petalino./ Finjo, se finjo, finjo,/ que não exijo o relâmpago” (p. 19). Outras vezes, quando pensadas fora do ritmo do poema, as próprias imagens sugeridas pela autora, são até pouco abonatórias: “De águas frias, limo,/ odor de cérebro/ e língua modelaste,/ sem ceptro o torso./ Teu septo é um rio” (p. 63).
O mecanismo destes poemas, centrado na sucessão de imagens, até mesmo quando a visão não é propriamente o sentido de eleição, não deve ser interpretado como um recurso convenientemente explorado pela autora para dar ao leitor um testemunho sobre algo que, à penúria de melhor expressão, chamaremos a natureza humana. Corresponde, antes e bem pior, a toda a simplicidade de um abandono, patente numa fuga generalizada que este livro opera: fuga a ter uma ideia sequer que se pretenda ver cimentada no leitor ou aproveitada por este, fuga a dar um depoimento comunicável sobre a visão que a autora constrói do mundo e da sua relação com ele, fuga a canalizar tudo isso num esforço de construção musical do poema, enfim, fuga a ser poesia. Não são raros os versos que espelham isto mesmo: “Deslizam por escadas/ radiais, percorrendo,/ álgidos, sigilados túneis,/ canais – linhas cingidas,/ curvas sigmóides,/ necessárias trevas/ de uma força absoluta.” (p. 14); “a vida é um sopro/ invertebrado,/ tafetá ou monstro.” (p. 28).
O que se acabou de dizer poderia ser repensado com alguma benevolência, caso a ausência de conteúdo fosse compensada por um trabalho formal dos poemas próximo da exactidão. Isso só acontece aparentemente, porque na verdade a estrutura formal dos poemas e o seu ritmo perecem vítimas da mesma erosão que torna o seu significado ou críptico ou despedaçado. O recurso constante às aliterações e à rima quebrada não beneficiam o ritmo do poema, antes o prejudicam, quer por empurrarem a leitura precipitadamente para o fim da página, quer por fazerem esta tropeçar na sucessão dos versos, acabando por levar a que estrofes de apemas quatro ou cinco versos cansem como se nunca mais fossem acabar: “Estremeço, estrangeira./ Estranhas, rodo as maçãs/ entranhadas no rosto” (p. 35) ou “Escuto, escrever é escutar,/ ver, calar, deslizar,/ a ritmo de hamadríades/ que nascem e morrem/ dentro d’uma árvore oca.” (p. 40).
Chega a ser difícil compreender, voltando àquilo que se disse no início deste texto, que poemas com uma estruturação formal tão premeditada e pretendida, tendo em vista uma depuração extrema, acabem por ter dois resultados no extremo oposto do ambicionado: uma construção confusa, ou gasta, do ritmo e uma ornamentação plástica dos poemas. Neste aspecto, as poucas afirmações categóricas que se revelam neste livro – “Só de um cavo,/ páreo combate, / de uma insustentável/ doce pureza,/ nasce a música.” (p. 44) – aparecem desprotegidas e isoladas no trabalho de “Adornos”, tanto a nível prosódico, como a nível da construção significativa do poema. Não deixa de ser curioso que a própria autora diga nestes poemas que “a escrita é uma valsa” (p. 32), repetindo ao longo dos seus poemas a mesma pequena série de passos. “Adornos” é um livro de poesia extemporâneo, não porque nos revela um credo que chegou a este tempo como se viesse doutro século mas, pura e simplesmente, porque não vem de século algum.


Ana Marques Gastão, Adornos, D. Quixote, 2011.

Nota: uma estrela

The Ides of March (2011)



7/10

quinta-feira, novembro 10, 2011

Recordações da casa do velho poeta

De tudo o que escrevas
destrói o que te pareça
que restará no fim apenas
como fantasma de ti mesmo.
Acarinha os esforços
que são verdade somente
em presença daqueles
que existem em seus nomes.
Memoriza, se te apetecer,
versos que te surpreendam
em ocasiões tontas
com músicas que passam.
Perde, intencionalmente,
em papéis antigos
o único poema:
a tua canção impossível.

- Ángel Mendoza
in Pájaro Negro, La Isla de Siltolá

Real Steel (2011)


8/10

Tulipas

A filtrar areia no Hotel do Zodíaco,
entre a 96.ª e a Madison, tento
não ouvir as sirenes: o punho
do coração, a mão vazia do desejo.
O quarto inundado de uma luz terrível,
o céu incapaz de chuva. Embalo um copo
de nada de especial, e tudo
se resume a isto: a ventoinha,
botão de pára e arranca - retida meia-lua de corrente
de ar por cima da cama, lençóis
a transbordar, a cabeça em tempestade. Vê
o que deu à costa na mesinha de cabeceira:
uma fotografia voltada e um lenço de seda, umas
chaves. Estas tulipas que cessam dentro de uma jarra.

- Robin Robertson
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Golpe d'asa n.º1

quarta-feira, novembro 09, 2011

Faz este mês 3 anos

-
Entre as tépidas coxas te palpita
um negro coração febril, fendido,
de remoto e sonâmbulo latido
que entre escuras raízes se suscita:

um coração felpudo que me incita,
mais que outro cordial e estremecido,
a entrar como na casa em que resido
até tocar o grito que te habita.

E quando jazes toda nua, quando
ávida as pernas abres palpitando,
e até ao fundo, em frente a mim, te fendes,

um coração podes abrir, e se entro
com a língua nas entranhas que me estendes,
posso beijar teu coração por dentro.

- Tomás Segovia
(tradução de David Mourão-Ferreira)
in Colóquio/Letras n.º 165
3.

são muito numerosos os poetas da irrisão
usa-se mercúrio na prospecção do ouro
o álcool é deitado directamente sobre as feridas

mesmo que não compreendamos estes enlouquecimentos
agradecemos tudo e guardamo-nos do medo
a terra de um homem é um país acidentado
mas aí deve encontrar um lugar para a sua casa
tenho tanta pena dos pequenos gestos
pomos tanto de nós próprios nas pequenas porcelanas
parece que brincamos quando a vida toda é a sério

talvez seja por isso que há poetas da irrisão
mas a sua inteligência faz render a ignorância

nós também não compreendemos mas em nossos corações
há um selo de confiança
por isso os nossos gestos são pequenas sagrações
e a pena que sentimos vem da luz implacável

a luz implacável - na verdade é espantoso
que este seja um nome do dom e da doçura

- Carlos Poças Falcão
in A Nuvem, Pedra Formosa

terça-feira, novembro 08, 2011

A dor de um gato

Quando cegaste foi de vez. Sem aviso prévio e dos dois olhos em simultâneo.
Não foi de um dia para o outro, foi mais o que se chama de um momento para o outro.
De um momento para a noite, melhor dizendo.
Quando cegaste foi como se na casa uma espécie de morte tivesse dado sinal de vida, essa sua espécie de vida.
Pois quantas vezes é assim, absurda e traiçoeira, que ela vem. E se instala.
Tu, indeciso e desorientado, andavas sem rumo pela casa às topadas a móveis, sacos de plástico, pilhas de livros.
Não foi um espectáculo bonito de se ver, acompanhado com miador que eram verdadeiros gritos de dor, de aflição, ou de cólera.
Ou, mais provável, tudo isso junto.
Grande ironia do destino, pensei na altura, logo os teus olhos.
Que eram amplos, redondos, curiosos, sempre alerta e cheios de luz.
Uns olhos de fazer inveja a muita gente que eu cá sei.
E gritaste, durante uns bons minutos gritaste.
Um som não ouvido até então, um novo som arrancado à natureza, ou ao mais fundo da tua animal sinceridade.
Um som que percutia os tímpanos com a sua nota de urgência e pânico.
Sabia-se de onde ele vinha, o som, não para onde ia.
Sim, para onde, se é que ia para algum lado? A quem se dirigia, se é que era dirigido a alguma coisa ou alguém?
A mim não seria: sabias, com a tua antiga e animal sabedoria, que eu nada te podia valer.
A Deus também não seria: os gatos, é coisa bem conhecida, não vão em trapaças.
Resta o puro NADA como hipótese, resta a
GRANDE PUTA QUE A TODOS NOS PARIU!

- Rui Caeiro
in Piolho n.º6, Edições Mortas

domingo, novembro 06, 2011

VI

Às vezes, as mulheres casam-se com o ruído, têm filhos com a morte. São pactos definitivos, contra os quais nada podemos. Moram, de aí em diante, para lá da redenção, mesmo que seja numa rua solarenga. Moram na terra dos homens, onde, está bom de ver, só um buraco lhes será destinado. O ralo de um lavatório onde afogar a alma. É muito comum. Acontece todos os dias. Acontece quando vendem os sonhos como se fossem só horas de trabalho ou legumes malsões. Quando crêem que a realidade existe mesmo e que não há veleiros para a lua. Quando não vigiam a ilusão. Quando deixam a estupidez vencer. A facilidade. O imediato. O palpável. O masculino. A goma-laca com que selar os poros ao desejo. Quando trocam um rosário de minetes pelo ronronar fabril de todas as famílias.
Tenham cuidado. Muito cuidado. Ou acordarão zombies, rodeadas de cadáveres. E com o Céu, e os seus animais místicos, turvados, fantasmagóricos, liquefeitos. E pelo meio um rio em combustão.

- Miguel Martins

Soneto vívido

O meu amor por ti assombra os astros
da noite escassa para o nosso amor.
Soneto vívido de versos castos,
no desgaste da boca um som de flor.

E, no engaste do teu sexo, uma rima
a completar o corpo comum de dois,
substantivo ou canção que nos ensina
a fabricar na pele ethéreos sóis.

Nas mãos, ainda, a ternura extensa,
certeira se dilui nos alvos rubros
e o riso se pratica a comer uvas.

O meu amor por ti marca presença:
dormimos virgens, e os teus ombros cubro-os,
temendo, dêste inverno, as ígneas chuvas.

- António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno

sábado, novembro 05, 2011

Os montes curam

(para Veronik Jussawalla)

Os montes curam como não o faz nenhuma mão.
O coração aquieta-se com o relâmpago azul
da asa de um gaio solitário.
Tu pensas que é impossível esquecer
as sombras do sol aqui eternamente roxas,
as planícies recuadas onde o vento sopra ainda.

Porém, o mundo irá maltratar-me outra vez, eu sei,
e eu irei alegremente pelo preço do costume.

Venho à superfície para me esfolar em poemas.

A veia derramada só um fecho formal.

- Eunice de Souza
(tradução de Ana Luísa Amaral)
in Poemas Escolhidos, Cotovia

Perdoa-me, mãe

Perdoa-me, mãe,
por te ter deixado ficar
viúva por toda a vida
velha, só.

Era matar ou morrer
e tu tiveste-me, seja como for:
O sangue congela ao toque de um amante
As entranhas dissolvem-se em merda.

Nunca fui jovem.
Agora estou velha, só.

Em sonhos
fustigo-te.

- Eunice de Souza
(tradução de Ana Luísa Amaral)
in Poemas Escolhidos, Cotovia

sexta-feira, novembro 04, 2011

Alcance eficaz

Alcance eficaz: distância à qual uma bala ainda é mortal.
(MANUAL DO GRADUADO DE INFANTARIA)


Não falo para os consolados, os satisfeitos de si, os que nem riem
porque o riso ainda é sinal de alguma coisa que falta.
Ah vida! alguns te cantam para sentir-te nos lábios,
mas outros pedem-te a si próprios, não contentes contigo,
e as suas palavras terão apenas o obscuro nexo dos abismos sem nome
e a estranha música das mãos cortando o vazio intratável.
A minha voz é misteriosa de mais para que me compreendam.
Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas...
Seria preciso saber que não há palavras que cheguem onde não há conversa,
onde o silêncio é um vai-vem de moscas sobre um prato servido.

- Jorge de Sena
in Trinta anos de poesia, Inova
(de Pedra Filosofal)

50/50 (2011)































Imprescindível
-

quinta-feira, novembro 03, 2011

NUNO RAMOS


1. Manchas na pele, linguagem
do livro Ó (Cotovia - colecção sabiá)

Meu corpo se parece muito comigo, embora eu o estranhe às vezes. Tateio minuciosamente as pequenas saliências da pele, os pequenos pêlos que vão crescendo enquanto caem, e empalidecem, e parecem, aos poucos, cobertos de giz. Embora só consigam crescer em torno do meu queixo e sobre a minha boca, sempre os aparei todos os dias, pois quando não o fazia cofiava, é este o verbo, aquele conjunto unido de pequenos cabelos ininterruptamente, com a voluptuosidade de quem precisasse fumar ou beber ou arrotar, mas parecendo aos demais que adotava uma posição reflexiva e até mesmo irônica, o que não era a minha intenção. Para evitar desentendimentos, desde a primeira adolescência raramente deixei de cortá-los durante o banho, como um inimigo constante que precisasse controlar. Pois bem, quando fiquei alguns dias sem tomar banho e me olhei no espelho, percebi círculos calvos em meu queixo. Os pequenos pêlos haviam caído em rigorosa geometria, como aqueles círculos em plantações de milho, ou trigo, na Europa, Austrália e nos Estados Unidos, que muitos tomam por sinais extra-terrestres. Encontrei ainda, sobre meu lábio direito, um semi-círculo menor, um pouco mais pálido, produto do mesmo fenômeno. Micose? Stress? Fungo? Musgo? - logo alguns amigos diagnosticaram, com aquele devaneio da medicina amadora, e me alegrei com a possibilidade de ganhar a companhia, mesmo que de uma doença, de alguma coisa com nome definido. Mas não perdi o espanto sobre a origem daquilo. Qual gen ou terminal nervoso ordenou que caíssem neste formato circular perfeito? Em que língua interna conversaram? Deixei que crescessem por uns dias, para que pudesse examinar o fenômeno, e digo que com certeza não seriam melhor traçados através de um compasso. À exceção de dois círculos pequenos quase sobrepostos, que tornam difícil o exame de seu contorno comum, pode-se agora perceber claramente cinco círculos perfeitos em meu queixo e um semi-círculo sobre meu lábio superior direito. Parece que a cola da minha pele já não é eficaz e que começo a me livrar dos parasitas que se agarraram todo este tempo ao casco principal – cabelos, unhas, cílios. Fica horrível nos primeiros dias, quando os pêlos ainda não cresceram o suficiente e os círculos se confundem com manchas na pele, pequenos albinismos ou desbotados num linóleo, ao invés de intervalos entre cabelos. Chego a fazer a barba duas vezes no mesmo dia para que isto não aconteça, disfarçando o seu contorno. Mas depois de algum tempo começo a ficar curioso, a querer saber se ainda estarão ali, se há novos círculos ou se trocaram de lugar, ou se a erva lanosa, escura, de meus poucos pêlos teria coberto agora todo o contorno do queixo, e deixo que cresçam novamente, apenas para verificar que continuam iguais.

Há algumas semanas descobri também outra novidade em meu corpo - passei, como um hábito antigo, a mão sobre o osso da canela, procurando um pequeno fragmento que se alojou ali em algum momento da minha infância, conseqüência provável de uma canelada. Este fragmento de osso sempre me fez companhia, arrastando-se, sob a pressão dos meus dedos, 10 cms para cima e para baixo, usando a canela como trilho. Neste dia, para meu espanto, não pude encontrá-lo, não porque tivesse desaparecido, mas porque a própria canela estava agora recoberta, numa extensão de quase um palmo, por uma camada flexível de substância gordurosa, ou cartilaginosa, à qual a pele parecia aderir, como se sua quilha, que sempre fora pontiaguda, agora se arredondasse, recheada. Meu pequeno fragmento ficou, provavelmente, soterrado debaixo desta nova camada, desaparecido para sempre, e junto com ele a sensação de poder tocar o esqueleto por trás de uma fina camada de pele.

Talvez, neste caso, meu espanto provenha de um outro, mais genérico – o de perceber que engordo inelutavelmente, que a camada externa da forma já roliça do meu ventre e das minhas coxas treme quando me movimento, que algumas partes antes contínuas do meu dorso unem-se agora através de almofadas côncavas. E este espanto, por sua vez, talvez venha de um outro, ainda mais remoto – o de que o corpo muda, opera o tempo todo um movimento cuja finalidade apenas a ele pertence. Não que definhe – o meu, por exemplo, agora parece engordar -, mas foge ao nosso controle, às nossas expectativas. É preciso ser bastante minucioso para antecipar suas sutis transformações e perceber como as veias escapam à pressão da pele, como as cavidades e vincos causados pelos movimentos aprofundam-se em largas gretas, como ressecam as bordas da derme, como uma linha genérica, frouxa, vai borrando a linha fina que contornava cada membro. E se parece patética a preocupação constante, em especial entre as mulheres, de isolar e prevenir cada pequena minúcia, é porque estas são infindáveis, como a água de uma represa que rompesse, em pequenas quantias mas por toda a parte e ao mesmo tempo.

Se há, no entanto, alguma dificuldade e esforço na antecipação, enumeração ou aplicação destes efeitos em nós mesmos, poucas coisas são mais evidentes que este amálgama de carne e de tempo quando o percebemos nos outros. Tal percepção nos escapa também relativamente aos que nos cercam todos os dias, como se uma capa de continuidade cercasse a nossa vida imediata. É preciso lançar nosso olhar distraído para alguém distante de nosso afeto e de nossa vizinhança – uma amigo de infância, uma atriz antiga, um ex-jogador, um conhecido de outra cidade ou país - para perceber todo o estrago, e percebê-lo de imediato, espalhado não em um único ou mesmo em diversos aspectos do rosto ou do corpo que observamos, mas nele inteiro, em absolutamente todos os seus elementos. É à totalidade dos aspectos que a passagem do tempo dirige sua fúria. A doença, espécie cataclísmica e apressada de contato com isso, se por um lado sacrifica com violência algumas partes isoladas do corpo, ao menos diversifica esta homogeneidade, como se o rancor gradativo dos anos se concentrasse em alguns detalhes, e se saciasse com isto.

Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como “Não tenho idade para”, “Naquela época” ou “Quando eu era menino”) ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e de respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa e posso então devorar nas plantas a sua carne amarga e lançar meu pêlo molhado sobre a minha vítima. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.

Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre – exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora desta estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do meu corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, micro-organismos onde a vontade é una, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?

Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta – ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: “pinta-se de verde antes de reproduzir”, “mostra extrema ansiedade antes do ocaso”, ou “destila o breu dos carvalhos ao redor” mas não vou jamais, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Não preciso agora morar no deserto nem comer gafanhotos, apenas me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados não exatamente em seu segredo mas em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo. Como um modelo mal ajustado ao modelado, permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.

Pois todos concordam que quando se deixa o abrigo minucioso da própria carcaça, quando se vai além da constatação – isto dói, este pêlo cresceu – de sua própria e monótona arquitetura, é preciso criar, porque isto com certeza ninguém nos deu, uma ferramenta –uma linguagem-, um pedaço de pau com anzol na ponta, até o outro lado. É aí que tudo se complica, pois a única pergunta que realmente interessa é: de que é feita esta ferramenta? Se fosse possível, por exemplo, estudar as árvores numa língua feita de árvores, a terra numa língua feita de terra, se o peso do mármore fosse calculado em números de mármore, se descrevêssemos uma paisagem com a quantidade exata de materiais e de elementos que a compõem, então estenderíamos a mão até o próximo corpo e saberíamos pelo tato seu nome e seu sentido, e seríamos deuses corpóreos, e a natureza seria nossa como uma gramática viva, um dicionário de musgo e de limo, um rio cuja foz fosse seu nome próprio. Mas é com nosso sopro que nos dirigimos a tudo, com a voz que o frágil fole da garganta emite, com o hálito que carrega nossas enzimas, é com o pequeno vento de nossa língua que chamamos o vento verdadeiro. Mais do que comer, correr ou flechar a carne alheia, mais do que aquecer a prole sob a palha, nós nos sentamos e damos nomes, como pequenos imperadores do todo e de tudo. Uma mulher dirigiu seus passos ao poente e sumiu; sabem o que fez aquele que ela abandonou, enquanto fitava o poente com os olhos cavos? Ele grunhiu, e este grunhido virou o nome da desaparecida. Ele lhe deu um nome, ele ganhou seu nome, como um coágulo, uma retenção daquilo que passava, confuso, por ele, um poente paralelo ao poente diante dele.
Pois se circula em toda a natureza um halo de inexpressividade – por exemplo, nas feições impassíveis com que o sapo é devorado pela cobra, como se levemente espantado (e por isso arregala os olhos) com o que está lhe acontecendo, ou quando a louva-a-deus devora calmamente a cabeça de seu macho, como um pequeno galho de bambu, enquanto copula com ele - é porque nada ali precisa ser comunicado, arrastado que está pela própria e intensa atividade. Apenas a nós, que trocamos tal fluxo pelas finas modulações da voz, que entre todas as matérias internas e externas, entre todos os sólidos, os musgos e as mucosas, entre o que voa e o que afunda, entre o que plana e o que nasce do apodrecimento, selecionamos apenas a voz e o vento, organizados em acordes, para tomar por mundo, apenas a nós é dada a labuta das expressões faciais e dos gestos, apenas em nós a dor parece alhear-se numa expressão, facial ou lingüística. Pois afirmo que mesmo aí, quando recebemos a mordida de nosso assassino, quando a patada do felino nos alcança pelas costas ou o veneno de uma serpente aos poucos nos faz dormir, mesmo aí mentimos, e fabricamos com nossa cara um falso duplo para nos poupar.

Fico imaginando quem, com a mão ferida, por exemplo, não se deixou morrer nem tentou viver, mas exprimiu a sua dor. Como teria convencido os demais a interessar-se por isto? Por que não ficou para trás, isolado, com suas interjeições? A única resposta é que a linguagem só poderia nascer e adquirir eficácia numa situação em que todos, ou uma grande maioria, estivessem doentes ou muito enfraquecidos, tornando-se então uma moeda de troca, uma comunhão na doença, e aí sim, se entre eles houvesse alguém sadio que fizesse ouvidos moucos àqueles gritos, alguém desatento à estranha ladainha, então os doentes, em grande maioria, teriam reunido forças para matá-lo ou expulsá-lo. E uma vez curados já não saberiam competir sem este estranho mecanismo, que foram aperfeiçoando cada vez mais.

Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais qualquer possibilidade de retorno, pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (a linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada. Este é seu verdadeiro fundamento, sua, digamos, astúcia - a de substituir-se ao real como um vírus à célula sadia. Há aí uma potência de esquecimento que não pode ser diminuída, uma armadilha na agonia que serviu a alguns (e não a todos), sacrificando violentamente aqueles que não a utilizaram.

Restam hoje apenas algumas pistas desta origem ou, para dizer de outro modo, alguns sinais fora da linguagem. Parece uma experiência cotidiana, ainda acessível a todos, estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímil em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro flechado. A própria diversidade de línguas, absolutamente cômica para quem as escuta sem entender, remete também à arbitrariedade de origem, a esta reunião primeva de feridos em busca de consolo e proteção que expulsou para longe, ou mesmo matou, os primeiros heróis mudos. Quando entramos em choque com algo inaceitável ou excessivamente belo e ficamos, literalmente, sem palavras, estamos recuperando esta etapa adormecida da nossa natureza.

O problema, no entanto, é que mesmo então, por vício de origem, queremos comunicar o que está acontecendo. E para isto precisamos dela, e tudo recomeça novamente. Há aqui uma astúcia ainda mais escondida, que precisa de explicação. Voltemos à comunidade dos doentes. É claro que, passada a epidemia ou passadas as conseqüências de algum cataclisma ou ataque, os doentes vão aos poucos tornando-se sãos, ganhando de volta a antiga confiança e desprezando aqueles sinais coletivos acumulados nos últimos tempos. Querem agora retornar à existência nômade, à barca forrada de peles que os leva rio abaixo, entre animais e pomos dourados. Por que não o fazem? Por que não retomam sua condição e seguem os passos daqueles que expulsaram? Porque já não podem, contaminados pelo novo vírus? Talvez, mas o mais provável é que tenha sido por temor àqueles que expulsaram. O irônico disto tudo é que o instinto de algum modo coletivo da linguagem só pôde desenvolver-se ao transformar em vítimas os primeiros heróis mudos. É o anel de seu exílio, circundando os novos povos falantes (como Polifemos em torno da gruta de Ulisses), que preservou a linguagem, tornando-a imprescindível à sobrevivência.

Talvez estes heróis mudos, que nunca exprimiram dor, rancor nem pasmo diante da natureza, organizando-se em núcleos extremamente isolados, tenham se distanciado cada vez mais das comunidades onde grassava a linguagem, que temiam, enfrentando as adversidades a seu modo, sem qualquer previdência. Cercados por seus antigos pares, que agora já plantavam e caçavam com armas muito mais refinadas do que as suas, devem ter provado da melancolia e da tristeza que têm as vidas em extinção. E devem ter provado disso integralmente, em seus próprios ossos, na aspereza de sua pele, sem a anestesia das palavras. E o último deles, ao morrer sozinho, terá lançado àqueles estranhos seres falantes, que já lhe tomavam a gruta, uma terrível maldição calada. O enigma deste rancor, que paradoxalmente não chegou a ser exprimido em sons articulados ou gestos reconhecíveis, açoda de perto todas as línguas vivas ou mortas, amaldiçoando o seu pacto de origem.

Talvez esta maldição tenha se abrigado em nosso próprio corpo, em seu mal-estar entranhado e inexprimível, em sua carga desarticulada de dor e de sofrimento, de tal forma inconcebível que os próprios narcóticos tornam-se legítimos, em doses medicinais de morfina apaziguando o que vai além das palavras. Neste momento de dor cega igualamo-nos a nossos antigos primos mudos: nosso corpo é quem de algum modo fala, pelas mãos crispadas ou pela boca contorcida, mas não a nossa língua, que regride e geme e grunhe ou, no máximo, grita. Assim, todo o arco se fecha, e quem traiu por fraqueza o incêndio dos olhos na beleza, quem matou o azul cerúleo ao inventar seu nome, agora tem de volta, na dor de próprio corpo, a antiga coincidência negada, e pode então unir-se ao fluxo de tudo. Sim, este seria um consolo para o rei silencioso que morria: saber que a dor não se duplica, que não há signo para a doença e que o corpo, o corpo profundo, continua inexplorado e mudo.

Neste ponto, há uma conclusão algo paradoxal que se impõe – será que não fizemos tudo ao contrário ao duplicar o poente e a cor do mar sem que isto sirva em nada para nos poupar da dor física verdadeira? Não seria melhor uma linguagem que servisse apenas para iludir a rebelião e o mau funcionamento do corpo, de forma que nossa relação com a febre alta, a dor de dente ou a cólica pudesse, agora sim, ser apaziguada ao pronunciarmos o nome de nossa doença? Então para algo serviria. Mas parece que dirigimos, ao contrário, nosso esforço à parte livre e não lingüística de nossa relação com o mundo, poupando a parte pânica, corpórea e dolorida – ali não há linguagem e é justamente quando mais precisamos dela. Ao olharmos um par de olhos, ao percebermos o movimento brusco, em xis, do rabo de um lagarto, nada deveria estimular nosso cérebro a comentar a sua cor ou a rapidez daquele movimento. Deveríamos passar com estes acontecimentos, e sua imensidão nos tomaria, deixando-nos vazios até que o próximo objeto nos chamasse a atenção. É da morte, da velhice, da perda de contato que a linguagem deveria se alimentar. Sou capaz de aceitá-la para a proteção de nosso corpo, para tornar nossa morte amena, espécie de anestésico natural, como as toxinas que alguns animais liberam para não sentir que estão sendo devorados. Mas é o contrário que se dá: morremos quietos, ou aos berros desarticulados, mas vivemos o esplendor da saúde de nosso corpo cercados por vocábulos que, à primeira chance, saltam à frente e roubam minuciosamente nosso dia.

Para terminar, há uma última hipótese que quero examinar. Vim considerando que os primeiros homens teriam se dividido entre seres lingüísticos e heróis mudos, e que os últimos, isolados e pouco gregários, teriam sido extintos. Mas não consegui descrever sua mudez, em tudo diversa da dos bichos. De que era feita? Tinham os olhos cheios, concentrados, pareciam sempre ocupados, distraíam-se? O que lhes preenchia os dias, além das tarefas básicas? Talvez, ao contrário do que viemos postulando, fossem seres radicalmente lingüísticos, a ponto de que tudo para eles pertencesse à linguagem. Cada árvore seria assim o logarítimo de sua posição na floresta, cada pedregulho parte do anagrama espalhado em tudo e por tudo. Mover-se-iam entre alfabetos físicos perceptíveis aos seus cinco sentidos (e ler talvez constituísse um sexto, que reunisse e desse significado aos demais), e cada cor seria música e cada música seria mímica, e cada gesto seria um texto. O desenho das linhas de suas mãos seria parte deste enorme texto; o sangue do cervo que derrubaram; os fios do pêlo que os aquecia. Em tudo liam, nas nuvens e no hálito, no dorso de um mamífero, na luz de um inseto que já morreu, na textura dos troncos e no seu limo, no desenho do vôo de um besouro, no vasto bigode de uma morsa - e no som que grunhiam, no cuspe que cuspiam, nos olhos que piscavam e no número dos seus dias. Tudo parecia escrito para eles e bastava que tocassem um corpo de pedra ou de carne para que o enorme livro se abrisse e mais uma linha fosse escrita. Todo o acontecer parecia parte desta página, reescrita a cada momento, todas as mortes, os pios, cada gota, cada sal.

A única restrição deste texto dissipado por tudo era ser feito de matéria física, mutável e perecível. Toda matéria aceita um grau bastante alto de metamorfose, mas há um limite depois do qual não é mais reconhecível. Talvez um grande cataclisma - um terremoto, um meteoro ou um incêndio –tenha transformado a tal ponto a matéria que os cercava que acabou por emudecer para sempre este texto físico, obrigando à sua substituição. Isolados em seu próprio corpo, que já não parecia parte desta escrita única, tiveram de usar a matéria mais leve e de fácil manuseio de que dispunham (a voz), e substituir com ela o que haviam perdido. Procuraram então marcar, para cada coisa que sumira, um som próprio, que a substituísse e presentificasse, ainda que de modo incompleto. Preferiram esta frágil duplicação à perda que haviam sofrido. E assim, por precaução, nunca mais atribuíram matéria à linguagem, mas apenas vento e signos sem matéria. Com isto, não corriam mais perigo. Traziam em seu próprio pulmão e memória toda a riqueza e diversidade de que antes faziam parte.

Fico imaginando o que teria acontecido se tivessem desafiado o cataclisma e construído uma linguagem com os restos da antiga, calcinada. Se ao invés de tornarem-se ventríloquos das coisas tivessem transformado as próprias cinzas, a terra deserta, o mau-cheiro de tantos bichos mortos, expostos ao céu e à risada das hienas, se tivessem transformado as próprias hienas em sujeito e predicado de seu mundo moribundo? Se tivessem a coragem de escrever e falar com pedaços e destroços? Então seriam parte deste caos, desta correnteza de lava e de morte mas trariam a cabeça erguida, seus passos teriam o tremor do terremoto que os aniquilou e sua risada a potência do vento lá fora.


retirado daqui