Não sei de onde sou.
De onde vêm as chuvas?
As gotículas desprendem-se em alta montanha e nesses lugares os pinheiros conservam toda a matéria resinosa.
Por lá,
Espreitam musgos no pico do Verão
E só as lebres passam a visitantes
Quando eu passo como estrangeiro,
Ao teu lado
Com o teu testemunho.
Eu estive nesses sítios. Tu também.
A vida ofereceu-me este retrato gratuito
De podermos permanecer
Sentados
À espera das montanhas
Que nascem
No céu.
sexta-feira, abril 30, 2010
Canto segundo
Esta manhã mal saí do portão
parecia-me ter esquecido alguma coisa em casa.
Dois passos até ao damasqueiro
e toca a regressar.
Agora que nada resta para fazer
fico sentado diante da janela
e pergunto-me a mim mesmo: Queres isto? Queres aquilo?
Deitei fogo a páginas de livros, a calendários
e mapas. Para mim a América
já não existe, a Austrália igualmente,
a China na minha cabeça é uma fragrância,
a Rússia uma alva teia de aranha
e a África o sonho de um copo com água.
Há dois ou três dias sigo os passos de Pinela, o camponês,
que procura o mel das abelhas selvagens.
parecia-me ter esquecido alguma coisa em casa.
Dois passos até ao damasqueiro
e toca a regressar.
Agora que nada resta para fazer
fico sentado diante da janela
e pergunto-me a mim mesmo: Queres isto? Queres aquilo?
Deitei fogo a páginas de livros, a calendários
e mapas. Para mim a América
já não existe, a Austrália igualmente,
a China na minha cabeça é uma fragrância,
a Rússia uma alva teia de aranha
e a África o sonho de um copo com água.
Há dois ou três dias sigo os passos de Pinela, o camponês,
que procura o mel das abelhas selvagens.
- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
Para uma ciência desassombrada da viagem
em qualquer lado um lugar
e as mesmas coisas
e as mesmas coisas
- Miguel-Manso
in Santo subito, edição do autor
Separador:
poesia de fora
*
2
*
e quando por dentro da linfa
acontece a distância
de dois nomes
na terra acabada de lavrar
floresce a sombra dos teus dedos -
é (como se) alguém que semeia o som em leira
de lume
(como se áfricas me aquecessem o sangue) -
levo-te assim incêndio de pálpebras
alguém como alguém que sente
a terra
como alguém/coisa
vertical
de ira ao peito
o nome como
aquele que é pela
a oblíqua primavera da veia
em torno do dorso
nomes animais simplíssimos por singeleza e perfume
como se em áfricas me aquecessem o sangue
digo nomes
como se alguém de terra ao peito
digo a poesia é como se
nunca ninguém soube o que quer dizer
um dedal em flor
como se em nomes se me adormecesse o sangue
sempre de súbito
*
e quando por dentro da linfa
acontece a distância
de dois nomes
na terra acabada de lavrar
floresce a sombra dos teus dedos -
é (como se) alguém que semeia o som em leira
de lume
(como se áfricas me aquecessem o sangue) -
levo-te assim incêndio de pálpebras
alguém como alguém que sente
a terra
como alguém/coisa
vertical
de ira ao peito
o nome como
aquele que é pela
a oblíqua primavera da veia
em torno do dorso
nomes animais simplíssimos por singeleza e perfume
como se em áfricas me aquecessem o sangue
digo nomes
como se alguém de terra ao peito
digo a poesia é como se
nunca ninguém soube o que quer dizer
um dedal em flor
como se em nomes se me adormecesse o sangue
sempre de súbito
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?
Separador:
séries descontinuadas
À noite,
Deitados nos diques,
De um lado o rio
E do outro
As verdes searas que os teus pés pareciam tocar.
No céu, bem alto,
Uma estrela brilhava intensamente sobre o teu rosto.
Às vezes, dizias que o brilho
São palavras que ficam - estrelas mortas
Que continuam a luzir.
Deitados nos diques,
De um lado o rio
E do outro
As verdes searas que os teus pés pareciam tocar.
No céu, bem alto,
Uma estrela brilhava intensamente sobre o teu rosto.
Às vezes, dizias que o brilho
São palavras que ficam - estrelas mortas
Que continuam a luzir.
Separador:
séries descontinuadas
Cavalheiro só
Os jovens homossexuais e as raparigas amorosas,
e as longas viúvas que sofrem de insónia delirante,
e as jovens senhoras grávidas só há trinta horas,
e os gatos roucos que atravessam o meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam a minha residência solitária,
como inimigos estabelecidos contra a minha alma,
como conspiradores em trajo de dormir
que trocaram longos beijos espessos, obedecendo a ordens.
O radiante Verão conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos,
feitos de gordos e magros e alegres e tristes pares:
sob os esbeltos coqueiros, junto ao oceano e à lua,
há uma contínua vida de calças e de saias,
um rumor de meias de seda acariciadas
e seios femininos que brilham como olhos.
O modesto empregado, depois de muito tempo,
depois do tédio semanal e dos romances lidos à noite na cama
seduziu definitivamente a vizinha,
e leva-a aos cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou príncipes apaixonados,
e acaricia-Ihe as pernas cheias de macia penugem
com as mãos húmidas e ardentes que cheiram a cigarro.
O entardecer do sedutor e as noites dos esposos
unem-se como dois lençóis que me sepultam,
e as horas após o almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes e os sacerdotes se masturbam,
e os animais fornicam directamente,
e as abelhas cheiram a sangue, e as moscas zumbem coléricas,
e os primos brincam estranhamente com suas primas,
e os médicos olham furiosos o marido da jovem doente,
e as horas da manhã em que o professor, como por descuido,
cumpre o seu dever conjugal e toma o pequeno almoço,
e, mais ainda, os adúlteros que se amam com verdadeiro amor
em leitos altos e longos como embarcações:
certamente, eternamente me rodeia
este grande bosque respiratório e enredado
com grandes flores como bocas e dentaduras
e negras raízes em forma de unhas e sapatos.
e as longas viúvas que sofrem de insónia delirante,
e as jovens senhoras grávidas só há trinta horas,
e os gatos roucos que atravessam o meu jardim em trevas,
como um colar de palpitantes ostras sexuais
rodeiam a minha residência solitária,
como inimigos estabelecidos contra a minha alma,
como conspiradores em trajo de dormir
que trocaram longos beijos espessos, obedecendo a ordens.
O radiante Verão conduz os namorados
em uniformes regimentos melancólicos,
feitos de gordos e magros e alegres e tristes pares:
sob os esbeltos coqueiros, junto ao oceano e à lua,
há uma contínua vida de calças e de saias,
um rumor de meias de seda acariciadas
e seios femininos que brilham como olhos.
O modesto empregado, depois de muito tempo,
depois do tédio semanal e dos romances lidos à noite na cama
seduziu definitivamente a vizinha,
e leva-a aos cinemas miseráveis
onde os heróis são potros ou príncipes apaixonados,
e acaricia-Ihe as pernas cheias de macia penugem
com as mãos húmidas e ardentes que cheiram a cigarro.
O entardecer do sedutor e as noites dos esposos
unem-se como dois lençóis que me sepultam,
e as horas após o almoço em que os jovens estudantes
e as jovens estudantes e os sacerdotes se masturbam,
e os animais fornicam directamente,
e as abelhas cheiram a sangue, e as moscas zumbem coléricas,
e os primos brincam estranhamente com suas primas,
e os médicos olham furiosos o marido da jovem doente,
e as horas da manhã em que o professor, como por descuido,
cumpre o seu dever conjugal e toma o pequeno almoço,
e, mais ainda, os adúlteros que se amam com verdadeiro amor
em leitos altos e longos como embarcações:
certamente, eternamente me rodeia
este grande bosque respiratório e enredado
com grandes flores como bocas e dentaduras
e negras raízes em forma de unhas e sapatos.
- Pablo Neruda
(tradução de José Bento)
in Residência na Terra, Relógio d'Água
Separador:
poesia de fora
quinta-feira, abril 29, 2010
Canto vigésimo
Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.
às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.
Eu e meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a água do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.
às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.
Eu e meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a água do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.
- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
Já não me interesso tanto por certas coisas.
Vou ficando burguês, indiferente
Ao grito
Solto no vale (reparem na pose).
Nada foi dito,
Porém.
Neste tempo de rosas murchadas à flor do teu caminho.
Ao proferir palavras como estas, revela-se a importância de contactar o editor
e calar
(sim, calar)
A vergonha que as tias sentiam de um menino que andava de tractor.
Gosto de dizer Outono
Cipreste ou
Acipreste.
Quando digo coisas destas - assim sentidas, minhas -
Cresço com a poesia.
E faço boa figura.
Vou ficando burguês, indiferente
Ao grito
Solto no vale (reparem na pose).
Nada foi dito,
Porém.
Neste tempo de rosas murchadas à flor do teu caminho.
Ao proferir palavras como estas, revela-se a importância de contactar o editor
e calar
(sim, calar)
A vergonha que as tias sentiam de um menino que andava de tractor.
Gosto de dizer Outono
Cipreste ou
Acipreste.
Quando digo coisas destas - assim sentidas, minhas -
Cresço com a poesia.
E faço boa figura.
Separador:
séries descontinuadas
Canto vigésimo terceiro
Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para o outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para o outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.
- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
Canto trigésimo segundo
Vinte dias atrás meti uma rosa no copo
perto da janela em cima da mesinha.
Quando reparei que as folhas
perdiam o vigor
sentei-me diante do copo
para ver a rosa morrer.
Esperei um dia e uma noite.
A primeira pétala desprendeu-se às nove da manhã
e deixei que caísse em minhas mãos.
Nunca tinha estado ao leito de morte de um moribundo
nem quando minha mãe morreu,
pois então estava de pé, ao longe, no fundo da rua.
perto da janela em cima da mesinha.
Quando reparei que as folhas
perdiam o vigor
sentei-me diante do copo
para ver a rosa morrer.
Esperei um dia e uma noite.
A primeira pétala desprendeu-se às nove da manhã
e deixei que caísse em minhas mãos.
Nunca tinha estado ao leito de morte de um moribundo
nem quando minha mãe morreu,
pois então estava de pé, ao longe, no fundo da rua.
- Tonino Guerra
(tradução de Mário Rui de Oliveira)
in O Mel, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
Sobre a cara
Conseguiram-lhe anular a expressão, vidrar o pulso: manter o cabelo na cor original - injectar na sua cara, características de todos os homens vivos, a expressão era viva, mas anulada, a sua cara era multiforme: a de todas as pessoas, mas ninguém a conseguiria descrever. Quem a olhasse de frente morria, e aí, no centro experimental de Dallas, todos os matemáticos, químicos e médicos conseguiram recriar o mito de Medusa, e torná-lo real e prático, uma mulher pronta a entrar em acções de resgate. Alterada geneticamente para que a sua cara matasse, se calhar foi sempre a cara que matou - descrevia Kluge , em "Ensaios sobre a Cara" baseado em estudos anteriores e multidisciplinares que tinham sido publicados na Universidade de Hamburgo no início dos anos oitenta: "História da Cara" publicação em três volumes de difusão rara, recentemente digitalizada embora em língua alemã na Biblioteca Digital da Universidade. Só alguns poucos estudantes de sociologia ou antropologia alemães a citavam em frases curtas nas suas teses de mestrado.
E a mulher que chamaram "Maria" para dificultar a interpretação, em guerra, de um mito pagão, foi conduzida de helicóptero até outra base e depois acompanhou os exércitos na primeira invasão do Afeganistão. Ia ser usada apenas em casos de buscas a domicílios, emboscadas de assalto e de salvamento de reféns, em espaços fechados. Entrava primeiro ela; depois as tropas só entravam quando todos os que a tivessem olhado na cara, já estivessem mortos. Uma mulher penitenciária, alterada geneticamente para que o seu olhar e cara toda matasse. Uma Medusa de cara nuclear, mas de viso irreconhecível. As operações mantiveram-se secretas apesar de algumas investigações de jornalistas, logo anuladas. Era legal, a cara da Medusa matar, era legal as armas matarem, era legal a própria guerra depois das legitimações na cimeira das Lajes. Era sobretudo legal que a cara matasse, porque a cara sempre matou: (muitas vezes por causa dela, muitas vezes ela própria)
Maria sonhou que caminhava para o mar, por um caminho estreito, e várias raparigas de cabelo curto caminhavam também para o mar numa espécie de romaria radioactiva porque o céu estava roxo e todas cantavam e dirigiam-se para o mar que no sonho estava branco, espesso e gorduroso, as ondas criavam-se pequenas porque todo o mar era de um branco gorduroso, como o leite condensado, e as raparigas de cabelo curto aproximaram-se para encheram de mar os ouvidos e com os pés no líquido, enchiam de mar o sexo e lavavam os seios e do mesmo líquido, faziam gel que punham nos cabelos e na cara até ficarem sem cara: Esse era o sonho - Um pescador tinha-lhes avisado que nesse ano as baleias se tinham vindo de mais, de uma forma nunca vista, e as baleias macho produziam esperma em quantidade e havia nesse ano um cio sub-aquático como nunca tinha havido e o esperma em breve encheu todo o mar e tornou-o branco e espesso e gorduroso e quente, e as raparigas vinham para a praia para meterem mar no sexo e nos ouvidos e para perderem a cara e a identidade: a sua - Para ganharem todas as outras - Todas as outras caras dizia o pescador. Todas tinham uma sugestão doce na boca e sabiam que era também esperma de baleia primitivas, mas ainda vivo e quente, aquilo que corria dentro dos cactos alucinatórios do norte do México. O transe e a alucinação eram naturais e marinhos.
Maria foi acordada para uma missão, no norte do país, era preciso descobrir um dos maiores plantadores de papoilas do Afeganistão. Um dos maiores transformadores de flores em heroína. As tropas precisavam de alucinação e Maria devia estar com o homem, para que este a olhasse na cara, depois de revelar o local.
Aconteceu depois a Maria, ser violada por vários soldados americanos, que usavam capacetes de espelho que cobriam toda a cara, violadores Perseu, Medusa via vários espelhos - a penetração anal, no sexo, na boca, o sémen a escorrer pelas pernas reflectido num dos capacetes de espelho, e Medusa a ver-se a si própria - cara que mata, e por isso morre. E aqui o autor termina a ficção e relembra que ela, a ficção é a Criadora da realidade. Relembra uma passagem de "Pequenos animais sem expressão" de David Foster Wallace em que um apresentador de um concurso televisivo norte americano, vai ao psicanalista, e lhe conta o sonho que teve na noite anterior - Passava em frente a um restaurante pouco aconselhado num beco escuro - Espreitou por uma pequena janela que dava para a cozinha, e viu um cozinheiro cheio de tédio, e numa sertã que estava ao lume viu a sua própria cara: A ser frita. O cozinheiro esperava.
Há outros casos semelhantes do tratamento da cara na Literatura Ocidental, sobretudo da cara tratada como factor-devir: de Fuga: A cara como perda dela própria - Algo que foge, algo que está em fuga. É o caso de um conto de Papini em que uma das personagens secundárias que vêm falar com Gog é descrito com uma cara triangular.
"A cara em fogo" é tratada por vários autores - O escritor (todos os homens - produtores de comunicação - normalmente com problemas nela própria) precisa de perder a identidade como refere Jean Deleuze - Perder a cara - A identificação - Para ganhar todas as outras. A partir da Baixa Idade Média que na iconografia cristã Deus deixa de ser representado como um indíviduo, uma pessoa (com rasgos de velho, cabelo branco, aspecto de sábio) e a doutrina cristã assume-o como algo incorpóreo. Ao contrário da cara de Cristo, que é procurada ao longo da História por sudários e cuja evolução na iconografia é a própria evolução do Cristianismo enquanto doutrina, que se reforma. O que não tem cara assusta; não existe - Se Deus não a possuí na iconografia é mitificado e visto como simples energia ou simplesmente - tudo quanto fluí.
A cara como espelho da alma é adulterada, entra em rede, é tratada em photoshop e é causa de morte.
Outro caso interessante é o referido no conto - "O crocodilo - relato de duas faces como a moeda do Vaticano" da obra "O Espelho do Túnel" que escrevi no ano passado. A História é verídica e retrata a vida de um homem toxicodependente que numa prisão mexicana, é mandado mutilar por um traficante de droga do interior da penitenciária, porque este não lhe paga. A mutilação a que recorre este traficante, depois de vários avisos é sempre a mesma, ordenar que os seus homens deitem água a ferver por cima do que incumpre o pagamento: Água a ferver no corpo nu, que origina queimaduras de elevado grau em todo o corpo, e a consequente desfiguração - O homem tratado no conto "personagem principal" - Fica com a alcunha na penitenciária de "crocodilo" por ter a pele às manchas. O homem sai da prisão e procura emprego e não o consegue. É encontrado poucos meses depois o seu corpo morto no rio, porque contínua a consumir cocaína e é morto numa tentativa de assalto.
Poderia ter sido tratada a história da cara, como a história do degelo, uma cara que derrete e se transforma em mar e faz aumentar o nível das águas, que as cidades marítimas temem: Uma cara que cobre toda a Holanda de água quente, ou uma cara que entra pela Basílica de São Marcos em Veneza e depois cobre Veneza toda, e os funcionários camarários apressam-se a retirar a cara incómoda do degelo da sua praça, para que os turistas venham - Tudo é cara e boca e olhos e identificação. Outra possível História da Cara seria ela ser um sol líquido que pinga: E por entre a cara líquida os homens passam nas suas vidas, ou para sul ou para norte, entre o sol líquido que cai entre eles. O cavalo marinho não se pensa a si próprio: a nuvem humaniza. O estado de fusão - de reconhecimento é o único possível - O Amor é perder a cara, e ter a cara do outro, porque se a sente. É comum depois do sexo, os amantes sentirem-se com a cara do outro. E no evoluir da relação são cada vez mais as expressões do outro que o amante adquire. O mesmo se passa com os afectos: A cara como abstracção - Algo a ser transformado, a estar condenado (beneficamente para a fuga - fuga de si próprio). A anulação da interpretação e a vida exclusivamente da sensação. A cara é sensação e recriação / revitalização / Potência - Mas isto apenas quando há relações de afecto. Caso contrário a cara torna-se inexpressiva, sem ânimo (alma) sem cor. E qualquer relação (anula) a identidade para Criar uma nova: Como aparece numa das cenas do filme "Nostalgia" de Tarkovsky, escrito na parede: 1+1 = 1.
...........................................................................................................................................
No Afeganistão cortam as orelhas às pessoas que ouvem música estrangeira, pode um afegão ouvir toda a discografia do Chico Buarque, de Sonic Youth e Gardel, depois cortam-lhe as orelhas e desenrolam os fios das cassetes e pegam fogo às cassetes e aos fios das cassetes:
E o homem contínua com memória mas sem conseguir ouvir e ouve para dentro de si a música que é tão internacional como a saudade ou as formigas. E ouve dentro de si as formigas a caminharem enquanto os exércitos americanos invadem o seu país: Os soldados passam de jipe, com a música muito alta em colunas enormes na parte de trás dos jipes, rock americano e os homens que têm orelhas ficam com ódio aos Estados Unidos. Os homens que não têm orelhas não ficam com ódio a nada.
Nuno Brito
E a mulher que chamaram "Maria" para dificultar a interpretação, em guerra, de um mito pagão, foi conduzida de helicóptero até outra base e depois acompanhou os exércitos na primeira invasão do Afeganistão. Ia ser usada apenas em casos de buscas a domicílios, emboscadas de assalto e de salvamento de reféns, em espaços fechados. Entrava primeiro ela; depois as tropas só entravam quando todos os que a tivessem olhado na cara, já estivessem mortos. Uma mulher penitenciária, alterada geneticamente para que o seu olhar e cara toda matasse. Uma Medusa de cara nuclear, mas de viso irreconhecível. As operações mantiveram-se secretas apesar de algumas investigações de jornalistas, logo anuladas. Era legal, a cara da Medusa matar, era legal as armas matarem, era legal a própria guerra depois das legitimações na cimeira das Lajes. Era sobretudo legal que a cara matasse, porque a cara sempre matou: (muitas vezes por causa dela, muitas vezes ela própria)
Maria sonhou que caminhava para o mar, por um caminho estreito, e várias raparigas de cabelo curto caminhavam também para o mar numa espécie de romaria radioactiva porque o céu estava roxo e todas cantavam e dirigiam-se para o mar que no sonho estava branco, espesso e gorduroso, as ondas criavam-se pequenas porque todo o mar era de um branco gorduroso, como o leite condensado, e as raparigas de cabelo curto aproximaram-se para encheram de mar os ouvidos e com os pés no líquido, enchiam de mar o sexo e lavavam os seios e do mesmo líquido, faziam gel que punham nos cabelos e na cara até ficarem sem cara: Esse era o sonho - Um pescador tinha-lhes avisado que nesse ano as baleias se tinham vindo de mais, de uma forma nunca vista, e as baleias macho produziam esperma em quantidade e havia nesse ano um cio sub-aquático como nunca tinha havido e o esperma em breve encheu todo o mar e tornou-o branco e espesso e gorduroso e quente, e as raparigas vinham para a praia para meterem mar no sexo e nos ouvidos e para perderem a cara e a identidade: a sua - Para ganharem todas as outras - Todas as outras caras dizia o pescador. Todas tinham uma sugestão doce na boca e sabiam que era também esperma de baleia primitivas, mas ainda vivo e quente, aquilo que corria dentro dos cactos alucinatórios do norte do México. O transe e a alucinação eram naturais e marinhos.
Maria foi acordada para uma missão, no norte do país, era preciso descobrir um dos maiores plantadores de papoilas do Afeganistão. Um dos maiores transformadores de flores em heroína. As tropas precisavam de alucinação e Maria devia estar com o homem, para que este a olhasse na cara, depois de revelar o local.
Aconteceu depois a Maria, ser violada por vários soldados americanos, que usavam capacetes de espelho que cobriam toda a cara, violadores Perseu, Medusa via vários espelhos - a penetração anal, no sexo, na boca, o sémen a escorrer pelas pernas reflectido num dos capacetes de espelho, e Medusa a ver-se a si própria - cara que mata, e por isso morre. E aqui o autor termina a ficção e relembra que ela, a ficção é a Criadora da realidade. Relembra uma passagem de "Pequenos animais sem expressão" de David Foster Wallace em que um apresentador de um concurso televisivo norte americano, vai ao psicanalista, e lhe conta o sonho que teve na noite anterior - Passava em frente a um restaurante pouco aconselhado num beco escuro - Espreitou por uma pequena janela que dava para a cozinha, e viu um cozinheiro cheio de tédio, e numa sertã que estava ao lume viu a sua própria cara: A ser frita. O cozinheiro esperava.
Há outros casos semelhantes do tratamento da cara na Literatura Ocidental, sobretudo da cara tratada como factor-devir: de Fuga: A cara como perda dela própria - Algo que foge, algo que está em fuga. É o caso de um conto de Papini em que uma das personagens secundárias que vêm falar com Gog é descrito com uma cara triangular.
"A cara em fogo" é tratada por vários autores - O escritor (todos os homens - produtores de comunicação - normalmente com problemas nela própria) precisa de perder a identidade como refere Jean Deleuze - Perder a cara - A identificação - Para ganhar todas as outras. A partir da Baixa Idade Média que na iconografia cristã Deus deixa de ser representado como um indíviduo, uma pessoa (com rasgos de velho, cabelo branco, aspecto de sábio) e a doutrina cristã assume-o como algo incorpóreo. Ao contrário da cara de Cristo, que é procurada ao longo da História por sudários e cuja evolução na iconografia é a própria evolução do Cristianismo enquanto doutrina, que se reforma. O que não tem cara assusta; não existe - Se Deus não a possuí na iconografia é mitificado e visto como simples energia ou simplesmente - tudo quanto fluí.
A cara como espelho da alma é adulterada, entra em rede, é tratada em photoshop e é causa de morte.
Outro caso interessante é o referido no conto - "O crocodilo - relato de duas faces como a moeda do Vaticano" da obra "O Espelho do Túnel" que escrevi no ano passado. A História é verídica e retrata a vida de um homem toxicodependente que numa prisão mexicana, é mandado mutilar por um traficante de droga do interior da penitenciária, porque este não lhe paga. A mutilação a que recorre este traficante, depois de vários avisos é sempre a mesma, ordenar que os seus homens deitem água a ferver por cima do que incumpre o pagamento: Água a ferver no corpo nu, que origina queimaduras de elevado grau em todo o corpo, e a consequente desfiguração - O homem tratado no conto "personagem principal" - Fica com a alcunha na penitenciária de "crocodilo" por ter a pele às manchas. O homem sai da prisão e procura emprego e não o consegue. É encontrado poucos meses depois o seu corpo morto no rio, porque contínua a consumir cocaína e é morto numa tentativa de assalto.
Poderia ter sido tratada a história da cara, como a história do degelo, uma cara que derrete e se transforma em mar e faz aumentar o nível das águas, que as cidades marítimas temem: Uma cara que cobre toda a Holanda de água quente, ou uma cara que entra pela Basílica de São Marcos em Veneza e depois cobre Veneza toda, e os funcionários camarários apressam-se a retirar a cara incómoda do degelo da sua praça, para que os turistas venham - Tudo é cara e boca e olhos e identificação. Outra possível História da Cara seria ela ser um sol líquido que pinga: E por entre a cara líquida os homens passam nas suas vidas, ou para sul ou para norte, entre o sol líquido que cai entre eles. O cavalo marinho não se pensa a si próprio: a nuvem humaniza. O estado de fusão - de reconhecimento é o único possível - O Amor é perder a cara, e ter a cara do outro, porque se a sente. É comum depois do sexo, os amantes sentirem-se com a cara do outro. E no evoluir da relação são cada vez mais as expressões do outro que o amante adquire. O mesmo se passa com os afectos: A cara como abstracção - Algo a ser transformado, a estar condenado (beneficamente para a fuga - fuga de si próprio). A anulação da interpretação e a vida exclusivamente da sensação. A cara é sensação e recriação / revitalização / Potência - Mas isto apenas quando há relações de afecto. Caso contrário a cara torna-se inexpressiva, sem ânimo (alma) sem cor. E qualquer relação (anula) a identidade para Criar uma nova: Como aparece numa das cenas do filme "Nostalgia" de Tarkovsky, escrito na parede: 1+1 = 1.
...........................................................................................................................................
No Afeganistão cortam as orelhas às pessoas que ouvem música estrangeira, pode um afegão ouvir toda a discografia do Chico Buarque, de Sonic Youth e Gardel, depois cortam-lhe as orelhas e desenrolam os fios das cassetes e pegam fogo às cassetes e aos fios das cassetes:
E o homem contínua com memória mas sem conseguir ouvir e ouve para dentro de si a música que é tão internacional como a saudade ou as formigas. E ouve dentro de si as formigas a caminharem enquanto os exércitos americanos invadem o seu país: Os soldados passam de jipe, com a música muito alta em colunas enormes na parte de trás dos jipes, rock americano e os homens que têm orelhas ficam com ódio aos Estados Unidos. Os homens que não têm orelhas não ficam com ódio a nada.
Nuno Brito
Separador:
séries descontinuadas
Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do ChileE pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do ChileE pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
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séries descontinuadas
Quem vende chibos (pchiuuu, não te chibes. Se eu escrever cabrão
É pecado maior que ficar com um milhão.
Acorda, povão)
E cabras não tem
De algum lado vem (for the boys).
É pecado maior que ficar com um milhão.
Acorda, povão)
E cabras não tem
De algum lado vem (for the boys).
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séries descontinuadas
quarta-feira, abril 28, 2010
O homem está sentado ao seu lado.
Segura uma bengala - faz de conta que não sente este peso
Por estar aqui, e sorri.
A mulher olha o relógio, diz ser tempo de almoço ou de coisa
Qualquer no estômago.
Sente-se destemperada. Há muito tempo que não acorda cedo
Já não se lembra das neblinas a subirem os cumes pela manhã.
O homem não sabe o que são cumes
Nem neblinas.
Só gosta de Eléctricos
E da venda ambulante do pão nos bairros em planalto.
Ao fim de tanto tempo, o homem aprendeu a não ligar às neblinas
Nem aos cumes altos.
São coisas que ficam bem num poema - diz - e não
Alimentam ninguém.
Segura uma bengala - faz de conta que não sente este peso
Por estar aqui, e sorri.
A mulher olha o relógio, diz ser tempo de almoço ou de coisa
Qualquer no estômago.
Sente-se destemperada. Há muito tempo que não acorda cedo
Já não se lembra das neblinas a subirem os cumes pela manhã.
O homem não sabe o que são cumes
Nem neblinas.
Só gosta de Eléctricos
E da venda ambulante do pão nos bairros em planalto.
Ao fim de tanto tempo, o homem aprendeu a não ligar às neblinas
Nem aos cumes altos.
São coisas que ficam bem num poema - diz - e não
Alimentam ninguém.
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séries descontinuadas
.
já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor: Não chores
—o melhor movimento do meu cérebro vales menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;
por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor: Não chores
—o melhor movimento do meu cérebro vales menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz
somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo
E a morte julgo nenhum parêntesis
- e. e. cummings
(tradução de Jorge Fazenda Lourenço)
in xix poemas, Assírio e Alvim
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poesia de fora
Fragmento nocturno
O nevoeiro desce lentamente a colina
E conforme subo mais se adensa:
Fecha-se à minha volta, apodera-se de mim
Como lençóis caídos sobre o chão.
Aqui ficam as últimas e ascendentes ruas,
Galerias, que correm pelas veias do tempo,
Quase familiares, onde rastejo em direcção ao sono
Como nevoeiro e pelo nevoeiro como sono.
E conforme subo mais se adensa:
Fecha-se à minha volta, apodera-se de mim
Como lençóis caídos sobre o chão.
Aqui ficam as últimas e ascendentes ruas,
Galerias, que correm pelas veias do tempo,
Quase familiares, onde rastejo em direcção ao sono
Como nevoeiro e pelo nevoeiro como sono.
- Thom Gunn
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
in A Destruição do Nada e outros poemas, Relógio d'Água
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poesia de fora
terça-feira, abril 27, 2010
Sim, são de ferro
Estas rosas.
Abres o fecho
Depois realizas um pequeno milagre
Nestes dias quentes.
A humanidade é feita destes momentos
Em que não consigo produzir coisa alguma.
Começo no teu corpo, termino nestas frases
E nada ficou dito.
E tudo ficou por dizer.
Estas rosas.
Abres o fecho
Depois realizas um pequeno milagre
Nestes dias quentes.
A humanidade é feita destes momentos
Em que não consigo produzir coisa alguma.
Começo no teu corpo, termino nestas frases
E nada ficou dito.
E tudo ficou por dizer.
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séries descontinuadas
Idílio no café
Sentes o olhar ganhando forças,
a tentar desviar o curso do rio
que vem há quase três horas a fazer-te
companhia. Estradas pequenas
e poeirentas serpenteando sem rumo,
o sussurro dos mosquitos esgueirando-se
sobre a flor de um pensamento.
Um fio de vento entrança as malvas,
deixas a palma aberta da mão
cair entre pedaços frágeis de cor,
sufocando-os devagarinho.
Árvores tombadas, esqueletos de
imóveis em tijolo enegrecido, alvenarias
velhas de janelas condenadas e as sombras
bebendo encostadas um resto de luz,
quando chegas raspando a voz
nestes arruinados perfis do tempo,
atrás dessa beleza que erra sem ter
onde ficar.
Ultrapassa-te um casal que vem
no barulho de uma lambreta, e dás
com eles outra vez, pouco depois.
Um idílio no café. O cabelo preso
dela, a pele constelada de sardas
e sinais junto com o odor do creme
de duche, leite de amêndoa, lábios
tensos, esse calor de fruto mordido,
e o olhar cantando certinho entre
os beijos. Com mais e menos língua
o rapaz tem-la como quer. Chega-se
a um segredo, curiosa, ele arrepanha
o lóbulo por um bocado e deixa-lhe
um brinco de cuspo a balouçar.
Duas noites hão-de servir-te e a este
exercício de cinzas: o rouco sangue
da música, a espera, os mais repetidos
acasos, todo esse miserável folclore
que te anima a escrita – sinfonia
à deriva, imparável. No fim, riscar
muito, safar uns versos, fazer
os possíveis e não contar muito
com a interferência lírica.
Olhas para o lado, vês outro imbecil
com uns tiques elaborados, a mão
esquerda levantada num tom
agudo, à artista, lápis na outra,
um desenhito de traço esforçado e tosco
do que quer que entre e saia, registo
inútil como a flor que lhe pende já
morta do bolso da camisa. Os botões
apertados todos até cima, impecável.
Se ao menos alguém reparasse.
Pede as horas, umas moedas se der,
daqui a nada segue às canhas entre as
linhas mais recuadas da noite,
nuns avanços sobre as últimas mulheres
nos bares. Irá terminar, em desespero,
com lances às outras. (Amor, se for só
uma punheta, quanto me levas?)
A solidão é o pior. São de preferir
os corpos, todos, sucessivamente,
noite após noite, e voltar a casa
entre o lixo que adocica as ruas,
cuspindo a própria sombra e o sonho,
essa derrota tão popular, que um dia
te teve, te abraçou e te fez juras eternas.
Entras no carro e ligas o rádio que
te grita uma dessas canções americanas.
Quieto, aguentas o teu reflexo e,
sem nenhuma explicação, sorris,
sorris como um doido e o macaquinho
pendurado no retrovisor dança
quando aceleras.
a tentar desviar o curso do rio
que vem há quase três horas a fazer-te
companhia. Estradas pequenas
e poeirentas serpenteando sem rumo,
o sussurro dos mosquitos esgueirando-se
sobre a flor de um pensamento.
Um fio de vento entrança as malvas,
deixas a palma aberta da mão
cair entre pedaços frágeis de cor,
sufocando-os devagarinho.
Árvores tombadas, esqueletos de
imóveis em tijolo enegrecido, alvenarias
velhas de janelas condenadas e as sombras
bebendo encostadas um resto de luz,
quando chegas raspando a voz
nestes arruinados perfis do tempo,
atrás dessa beleza que erra sem ter
onde ficar.
Ultrapassa-te um casal que vem
no barulho de uma lambreta, e dás
com eles outra vez, pouco depois.
Um idílio no café. O cabelo preso
dela, a pele constelada de sardas
e sinais junto com o odor do creme
de duche, leite de amêndoa, lábios
tensos, esse calor de fruto mordido,
e o olhar cantando certinho entre
os beijos. Com mais e menos língua
o rapaz tem-la como quer. Chega-se
a um segredo, curiosa, ele arrepanha
o lóbulo por um bocado e deixa-lhe
um brinco de cuspo a balouçar.
Duas noites hão-de servir-te e a este
exercício de cinzas: o rouco sangue
da música, a espera, os mais repetidos
acasos, todo esse miserável folclore
que te anima a escrita – sinfonia
à deriva, imparável. No fim, riscar
muito, safar uns versos, fazer
os possíveis e não contar muito
com a interferência lírica.
Olhas para o lado, vês outro imbecil
com uns tiques elaborados, a mão
esquerda levantada num tom
agudo, à artista, lápis na outra,
um desenhito de traço esforçado e tosco
do que quer que entre e saia, registo
inútil como a flor que lhe pende já
morta do bolso da camisa. Os botões
apertados todos até cima, impecável.
Se ao menos alguém reparasse.
Pede as horas, umas moedas se der,
daqui a nada segue às canhas entre as
linhas mais recuadas da noite,
nuns avanços sobre as últimas mulheres
nos bares. Irá terminar, em desespero,
com lances às outras. (Amor, se for só
uma punheta, quanto me levas?)
A solidão é o pior. São de preferir
os corpos, todos, sucessivamente,
noite após noite, e voltar a casa
entre o lixo que adocica as ruas,
cuspindo a própria sombra e o sonho,
essa derrota tão popular, que um dia
te teve, te abraçou e te fez juras eternas.
Entras no carro e ligas o rádio que
te grita uma dessas canções americanas.
Quieto, aguentas o teu reflexo e,
sem nenhuma explicação, sorris,
sorris como um doido e o macaquinho
pendurado no retrovisor dança
quando aceleras.
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modus operandi
segunda-feira, abril 26, 2010
Zulmira, ao amanhecer
No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de super bocks.
Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.
Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.
Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.
Mas «até logo, Zulmira», bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de super bocks.
Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.
Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.
Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.
Mas «até logo, Zulmira», bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
- Manuel de Freitas
in Os Infernos Artificiais, Frenesi
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poesia de fora
Chapéu
A mensagem é subtil:
se não trouxesse as mãos ocupadas,
tiraria o chapéu ao entrar na loja.
Por conseguinte, aceita ajuda com
as compras (cuidado com o saco,
os ovos estão no fundo).
Como habitualmente, procura
uma marca barata. A vida é assim,
às vezes temos sorte e conseguimos
o que queremos. Ou então,
ao contrário do que dizem,
o comércio tradicional é uma mina,
para quem souber onde cavar.
Enfim, pessoas com quem nunca tivemos
uma conversa séria. Em todo o caso,
parecendo que não, fazemos coisas
uns pelos outros que dificilmente
poderiam ser postas num contrato.
Estará nisto a nossa sobrevivência,
ainda que sem perdão?
Dessa complexidade não queremos falar.
A manhã inclina-se sobre a hora
do almoço. Temos todos de ir para casa,
é tão simples como isso. Amigos,
os vossos casacos. Hoje o vento está áspero,
mas já enfrentámos pior.
se não trouxesse as mãos ocupadas,
tiraria o chapéu ao entrar na loja.
Por conseguinte, aceita ajuda com
as compras (cuidado com o saco,
os ovos estão no fundo).
Como habitualmente, procura
uma marca barata. A vida é assim,
às vezes temos sorte e conseguimos
o que queremos. Ou então,
ao contrário do que dizem,
o comércio tradicional é uma mina,
para quem souber onde cavar.
Enfim, pessoas com quem nunca tivemos
uma conversa séria. Em todo o caso,
parecendo que não, fazemos coisas
uns pelos outros que dificilmente
poderiam ser postas num contrato.
Estará nisto a nossa sobrevivência,
ainda que sem perdão?
Dessa complexidade não queremos falar.
A manhã inclina-se sobre a hora
do almoço. Temos todos de ir para casa,
é tão simples como isso. Amigos,
os vossos casacos. Hoje o vento está áspero,
mas já enfrentámos pior.
- Vítor Nogueira
in Comércio Tradicional, Averno
Separador:
poesia de fora
As balas
São de ferro. Ou de aço?
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaico) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. 'da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e «agora choro contigo»
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.
Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século.
Diz-se que fazem à entrada
um pequeno orifício,
seguido de uma grande
devastação de carnes
sangrentas. Por isso matam.
Li tudo sobre a morte.
Escrevi sobre a minha
e depois embebedei-me.
A bala vem pelo ar
(ruído onomatopaico) e
crava-se, cava, ceva-se
nessas carnes. Era a minha.
Tive uma bala marcada:
à última hora telefonei
a desistir. 'da-se!
Pior para o Soares que entra
nestes versos já morto.
São de ferro. A tua era,
ó Soares, ou de aço,
e «agora choro contigo»
ausente uma vila
branca do Alentejo: tu.
Diz-se que fazem assim
um pequeníssimo estúpido
orifício (não quis ver)
como um botão mas
destroem tudo, devastam
tecidos, vísceras nobres,
e então trazem até nós
a morte sanguinolenta.
Se ainda as fabricam
como no meu tempo, creio
que matam num, ah pois,
infinitésimo de segundo.
É brutal. Eu ouvi-as:
perde-se a tesão por um século.
- Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
domingo, abril 25, 2010
Não eras tu que acenavas
Quando parti.
Pareciam os teus gestos, mas não eram mãos que contracenassem com gaivotas.
Eu também observava um prédio a perder-se-me nos olhos
Com roupa estendida.
Primeiro a tua casa, o teu olhar de quem se despede
(até mais ver)
depois a rua, um bairro pobre
e, mais tarde, esta minha ideia de Lisboa. Esta ideia de ti num imaginário de roupa a secar ao sol, e barcos partidos em guerras silenciosas.
Porque são armas que usamos, sim.
São dois lados de um rio que vão ferindo.
Desculpa. Não te convidei para ir ao Chile.
Quero produzir Nitratos
E fazer fortuna.
Hei-de saber se enriqueço, depois do mundo visto
Depois de um bairro com a tua roupa
E a minha
E uma rua de brinquedos de madeira com rapazes.
Na verdade,
Quero saber o que significa uma rua com roupa a secar ao sol
E um olhar onde nascem guerras silenciosas.
Dói um rio.
Sim.
Muito.
Quando parti.
Pareciam os teus gestos, mas não eram mãos que contracenassem com gaivotas.
Eu também observava um prédio a perder-se-me nos olhos
Com roupa estendida.
Primeiro a tua casa, o teu olhar de quem se despede
(até mais ver)
depois a rua, um bairro pobre
e, mais tarde, esta minha ideia de Lisboa. Esta ideia de ti num imaginário de roupa a secar ao sol, e barcos partidos em guerras silenciosas.
Porque são armas que usamos, sim.
São dois lados de um rio que vão ferindo.
Desculpa. Não te convidei para ir ao Chile.
Quero produzir Nitratos
E fazer fortuna.
Hei-de saber se enriqueço, depois do mundo visto
Depois de um bairro com a tua roupa
E a minha
E uma rua de brinquedos de madeira com rapazes.
Na verdade,
Quero saber o que significa uma rua com roupa a secar ao sol
E um olhar onde nascem guerras silenciosas.
Dói um rio.
Sim.
Muito.
«declaração de diferença»
As coisas do Estado e da Cidade não têm mão sobre nós. Nada nos importa que os ministros e os áulicos façam falsa gerência das coisas da nação. Tudo isso se passa lá fora, como a lama nos dias de chuva. Nada temos com isso, que tenha que ver ao mesmo tempo connosco.
Semelhantemente não nos interessam as grandes convulsões, como a guerra e as crises dos países. Enquanto não entram por nossa casa, nada nos importa a que portas batam. Isto, que parece que se apoia num grande desprezo pelos outros, realmente tem apenas por base o nosso apreço céptico por nós próprios.
Não somos bondosos nem caritativos - não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras. Tem para nós o interesse de um episódio passado em outras almas, e com outras formas de pensar. Observamos, e nem aprovamos nem deixamos de aprovar. O nosso mister é não ser nada.
Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do Desassossego, Relógio D'Água, 2008
(retirado daqui)
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extras
sábado, abril 24, 2010
Desire
A fome, o desamor, o desabrigo,
nenhum mal é comparável à miséria
dum emprego, com horas escoltadas
por minutos, os minutos com lápis
afiados, rasurando dia a dia
o animoso galarim das faculdades,
A questão, uma vez mais, é recusar;
desde logo, a protecção dos que traficam
com a liberdade alheia, o conforto
de servir os mediáticos negreiros,
cuja sorte se cimenta no apelo
que dirigem ao pior de cada um.
Pois aquilo a que chamais liberdade
(a coleira do consumo para muitos,
para poucos a gestão do entreposto)
não é mais do que extorsão e propaganda,
centenária manobra de fidalgos
educados no prazer da injustiça.
nenhum mal é comparável à miséria
dum emprego, com horas escoltadas
por minutos, os minutos com lápis
afiados, rasurando dia a dia
o animoso galarim das faculdades,
A questão, uma vez mais, é recusar;
desde logo, a protecção dos que traficam
com a liberdade alheia, o conforto
de servir os mediáticos negreiros,
cuja sorte se cimenta no apelo
que dirigem ao pior de cada um.
Pois aquilo a que chamais liberdade
(a coleira do consumo para muitos,
para poucos a gestão do entreposto)
não é mais do que extorsão e propaganda,
centenária manobra de fidalgos
educados no prazer da injustiça.
- José Miguel Silva
in Walkmen, & etc
Separador:
poesia de fora
Animais De Fogo
ao Paulo Maia
o homem é posto à prova, interrogado
pelas areias moventes;
desaba sobre ele a tempestade
que o quer afogar.
Cautela com os animais de fogo!
Passou o tempo da viola.
Também não aceito cantar as Índias
mentirosas. Segue carta
explicando como a paz começa.
Há sempre um barco para embarcar,
um pé de videira para a sede.
No ano mais desabrigado da minha vida
não posso deixar que a tristeza
sujeite estes versos. Não quero deixar.
Eu estou a quase a nascer outra vez
após alguns tropeços e febres malignas,
estou na margem florida do meu continente.
Não posso, não quero, não me vou deixar
transformar num poeta azedo.
- Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim
Separador:
poesia de fora
Vou-me embora no próximo navio, em direcção à América do sul.
Levo nas malas umas botas de escalar, porque hei-de ir aos Andes.
Está bem. Eu escrevo-te uma carta.
Mas não me peças mais nada.
Estarei por minha conta, entregue a mim e às montanhas.
Levo nas malas umas botas de escalar, porque hei-de ir aos Andes.
Está bem. Eu escrevo-te uma carta.
Mas não me peças mais nada.
Estarei por minha conta, entregue a mim e às montanhas.
Separador:
séries descontinuadas
sexta-feira, abril 23, 2010
Emancipei-me no ritual.
Vestira-me a rigor para encontrar no teu corpo o teu melhor.
A minha vaidade residiu sempre neste gesto: nunca desprezei a indumentária,
O momento em que sinto que estou pronto a encontrar-te, para te perder, muito provavelmente (há muito de queda no gesto de vestir, existem sombras no teu corpo quando te despes nesta noite de frio).
Lá fora, flores despontavam em polifonia.
Tinham deixado a adoração dos deuses em colectivo;
Abraçavam agora a individualidade
(tudo isto por causa de um programa de Pedro Amaral,
Onde passei a admirar Palestrina, neste meu véu diáfano
Que, de fantasia, terá muito pouco
Apesar da linha canónica de vozes que nunca terão existido
Ou que foram apenas registo em monodia).
E deixo-te, leitor, neste encontro ou desencontro.
Não sei se escutaste o que disse. Não sei se ouvi
O teu sussurro no cerejal ou quando procuras adubar os campos
Com os Nitratos do Chile, que compraste na loja que já não existe.
Falaremos mais tarde, se quiseres, do resultado das colheitas.
Por agora, deixo-te com a música
Ou seja, queria muito que te revelasses,
Que fosses como as plantas que despontam do anonimato para a autoria
Para serem mais tarde, aquilo que tiverem de ser:
Flores violentas, rosas aveludadas,
Qualquer coisa.
Vestira-me a rigor para encontrar no teu corpo o teu melhor.
A minha vaidade residiu sempre neste gesto: nunca desprezei a indumentária,
O momento em que sinto que estou pronto a encontrar-te, para te perder, muito provavelmente (há muito de queda no gesto de vestir, existem sombras no teu corpo quando te despes nesta noite de frio).
Lá fora, flores despontavam em polifonia.
Tinham deixado a adoração dos deuses em colectivo;
Abraçavam agora a individualidade
(tudo isto por causa de um programa de Pedro Amaral,
Onde passei a admirar Palestrina, neste meu véu diáfano
Que, de fantasia, terá muito pouco
Apesar da linha canónica de vozes que nunca terão existido
Ou que foram apenas registo em monodia).
E deixo-te, leitor, neste encontro ou desencontro.
Não sei se escutaste o que disse. Não sei se ouvi
O teu sussurro no cerejal ou quando procuras adubar os campos
Com os Nitratos do Chile, que compraste na loja que já não existe.
Falaremos mais tarde, se quiseres, do resultado das colheitas.
Por agora, deixo-te com a música
Ou seja, queria muito que te revelasses,
Que fosses como as plantas que despontam do anonimato para a autoria
Para serem mais tarde, aquilo que tiverem de ser:
Flores violentas, rosas aveludadas,
Qualquer coisa.
Separador:
séries descontinuadas
poema a duas mãos
*
ninguém passará por esta porta
por este ar lacrado a ouro e uva
por esta fenda cosida
pelo sabor da pele queimada
do lado de dentro da penumbra dos dedos
o mar avança sobre o cimento
o mar avança sobre as casas
ouço o som o som do sangue vivo vejo
as lutas dos lacraus dentro
dos odres onde
a letra
sabe a madeira queimada
a água nua a carne
atada
a mastros de navios
incitados a grandes viagens – não-siderais
sou pelos talefes dos dedos
pelo lacre circunspecto
sou pela cor e
pelo cheiro do mel onde
nas vinhas o odor inebria os membros
e as tardes caindo a cinzel e luto
e como se não fosse suficiente o ardor
trouxeste-me uma árvore inteira
na raiz dos teus quadris e
nos olhos a ambiciosa tentação de
destruir os lugares hoje
trazes-me os delitos e a inaudita volúpia
das raças antigas e
a contemporânea idade das palavras
mais ilícitas
no brevíssimo odor dos cereais
no brevíssimo calor dos teus dedos
no entanto não passarás por esta porta
pudesse eu encontrar a voz que é minha
como um imenso dia de verão
deitado entre rios aquecido
entre umbrais de maio
encontrar o teu rosto moldado em seixos
pelas lutas agrárias de todos titãs antigos
e abrir-te-ia a porta
para o centro dos horóscopos
(sim vem revelar-te-ia origem de todos os mistérios
mas só daqueles que não têm nome)
nada é sideral nada é terrestre
apenas um gesto que divide o mundo em dois
é todo o alimento da minha fome
ninguém passará por esta porta
por este ar lacrado a ouro e uva
por esta fenda cosida
pelo sabor da pele queimada
do lado de dentro da penumbra dos dedos
o mar avança sobre o cimento
o mar avança sobre as casas
ouço o som o som do sangue vivo vejo
as lutas dos lacraus dentro
dos odres onde
a letra
sabe a madeira queimada
a água nua a carne
atada
a mastros de navios
incitados a grandes viagens – não-siderais
sou pelos talefes dos dedos
pelo lacre circunspecto
sou pela cor e
pelo cheiro do mel onde
nas vinhas o odor inebria os membros
e as tardes caindo a cinzel e luto
e como se não fosse suficiente o ardor
trouxeste-me uma árvore inteira
na raiz dos teus quadris e
nos olhos a ambiciosa tentação de
destruir os lugares hoje
trazes-me os delitos e a inaudita volúpia
das raças antigas e
a contemporânea idade das palavras
mais ilícitas
no brevíssimo odor dos cereais
no brevíssimo calor dos teus dedos
no entanto não passarás por esta porta
pudesse eu encontrar a voz que é minha
como um imenso dia de verão
deitado entre rios aquecido
entre umbrais de maio
encontrar o teu rosto moldado em seixos
pelas lutas agrárias de todos titãs antigos
e abrir-te-ia a porta
para o centro dos horóscopos
(sim vem revelar-te-ia origem de todos os mistérios
mas só daqueles que não têm nome)
nada é sideral nada é terrestre
apenas um gesto que divide o mundo em dois
é todo o alimento da minha fome
Separador:
séries descontinuadas
quinta-feira, abril 22, 2010
Suportaremos os tempos com novos corpos – dizias,
Enquanto a varanda de cima espreita veleiros
E o Tejo é aqui simples parede
Por nunca ter estado à tua altura.
Subindo ao andar de cima, penso ser mais simples o amor
Ou mais acessível,
Por haver dez degraus que nos separam
Que me fazem hesitar entre o teu corpo ou os barcos que rumam a diferentes países.
E penso que no primeiro andar ninguém me espera (estou só, entre paredes, tentando olhar as águas).
Imagino o terceiro mais alegre – foi lá que estive, foi lá que deixei presa a memória
E foi por ter existido um terceiro que desci dez degraus (talvez mais).
Como ninguém me chama, ficarei por aqui esperando barcos e novos inquilinos.
Suportaremos os tempos com novos corpos – já nem isso penso.
A tua casa não espreita coisa alguma.
Por cima dela ergueu-se, subitamente, um quarto andar.
Fala-se da realidade virtual a que todos aspiramos.
Troca-se um e – mail.
Passado pouco tempo
Temos a nova menina, o novo menino.
Se me apetece subir? São só dez degraus em cada lance.
Enquanto a varanda de cima espreita veleiros
E o Tejo é aqui simples parede
Por nunca ter estado à tua altura.
Subindo ao andar de cima, penso ser mais simples o amor
Ou mais acessível,
Por haver dez degraus que nos separam
Que me fazem hesitar entre o teu corpo ou os barcos que rumam a diferentes países.
E penso que no primeiro andar ninguém me espera (estou só, entre paredes, tentando olhar as águas).
Imagino o terceiro mais alegre – foi lá que estive, foi lá que deixei presa a memória
E foi por ter existido um terceiro que desci dez degraus (talvez mais).
Como ninguém me chama, ficarei por aqui esperando barcos e novos inquilinos.
Suportaremos os tempos com novos corpos – já nem isso penso.
A tua casa não espreita coisa alguma.
Por cima dela ergueu-se, subitamente, um quarto andar.
Fala-se da realidade virtual a que todos aspiramos.
Troca-se um e – mail.
Passado pouco tempo
Temos a nova menina, o novo menino.
Se me apetece subir? São só dez degraus em cada lance.
Separador:
séries descontinuadas
Demiana – de seu nome – era uma mulher de barba invejável. Ao passar na sua carroça com o seu marido (seria homem sexual, como se diz na aldeia) deixava um rasto de coentros e salsa. Vendia no mercado. Era ela que mandava na burra e na venda da fruta e fazia frente às clientes mais exigentes. Quando chamava querida à dona Emília, esta abanava em trovão com receio da aproximação da imponente barbaça – dê cá um beijinho, querida.
A Demiana já morreu (que Deus a tenha e não o arranhe) e o seu marido também (que Deus lhe perdoe os pecados, agora que poderia ter um casamento à sua altura).
A Demiana já morreu (que Deus a tenha e não o arranhe) e o seu marido também (que Deus lhe perdoe os pecados, agora que poderia ter um casamento à sua altura).
Essa mesma criatura
Tem dentes postiços e acaba por sorrir com algum cuidado.
Fica feliz
Por ser Primavera
E já ter férias combinadas com o mar.
Vai cuidando do jardim
Pensando nos seus rebentos em cidades longínquas.
Tem pouco de floreado.
Não sabe usar essas palavras
Bonitas, difíceis,
Distantes
A doerem nas vagens progressivas.
Tem dentes postiços e acaba por sorrir com algum cuidado.
Fica feliz
Por ser Primavera
E já ter férias combinadas com o mar.
Vai cuidando do jardim
Pensando nos seus rebentos em cidades longínquas.
Tem pouco de floreado.
Não sabe usar essas palavras
Bonitas, difíceis,
Distantes
A doerem nas vagens progressivas.
Separador:
séries descontinuadas
Atalhei a noite,
Tentei chegar ao trilho mais certo dos teus passos
Caminhando no cerejal.
A velha casa era agora um borrão no crepúsculo,
Lembrava-me a fúria das crianças em louca correria.
Percorri, às apalpadelas, o quarto escuro, produzido pela idade
E foi aí que pedi a Purviance um copo de água.
Ela adiantara um torrão de açucar para que a memória
Não fosse um frango fugido do galinheiro.
Alimentara-me de tudo isso, e nem o teu corpo encontrara
Para que a aventura fosse mais doce,
Mais secreta de certezas.
Sentira-me envergonhado por ser surpreendido
Quando te procurara
Tacteando uma imagem de ti.
Olhei pela janela.
Vi os ciganos em viagem em direcção ao sul.
Não sei se ias.
Não sei.
Eu fui.
Tentei chegar ao trilho mais certo dos teus passos
Caminhando no cerejal.
A velha casa era agora um borrão no crepúsculo,
Lembrava-me a fúria das crianças em louca correria.
Percorri, às apalpadelas, o quarto escuro, produzido pela idade
E foi aí que pedi a Purviance um copo de água.
Ela adiantara um torrão de açucar para que a memória
Não fosse um frango fugido do galinheiro.
Alimentara-me de tudo isso, e nem o teu corpo encontrara
Para que a aventura fosse mais doce,
Mais secreta de certezas.
Sentira-me envergonhado por ser surpreendido
Quando te procurara
Tacteando uma imagem de ti.
Olhei pela janela.
Vi os ciganos em viagem em direcção ao sul.
Não sei se ias.
Não sei.
Eu fui.
Separador:
séries descontinuadas
Durante um exercício de filosofia
Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)
Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)
Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.
- João Miguel Fernandes Jorge
in A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Presença
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poesia de fora
11.
Cortei-me num caco de garrafa na rua de Medreiros
e o dr. Egídio deu-me soro anti-tetânico ao anoitecer.
Esta primeira memória atravessa comigo o rio
a caminho do Seixal anos a fio levantava-me
de manhã cedo os braços à procura
dum cigarro os óculos entre frascos de remédios.
Corria pelas ruas até um autocarro e depois o metro
e depois outro autocarro daí ao cacilheiro
e à camioneta por povoações de dormitório,
charcos oleosos de estaleiros, braços de rio
de marés apodrecidas e mulheres mal dormidas
nas primeiras limpezas da manhã.
Chegava aos pré-fabricados da escola
com rapazotes sujos a assobiarem às pedradas
e bandos de raparigas vestidas à foto-novela.
Ao cheiro ordinário de café e bolos
o iludido grupo dos que partiriam
para as divisórias de madeira prensada
a ensinar por livrecos imbecis o ilusório comum.
Vindos da presunção de faculdades arengavam
pelo dinheiro menor dos vencimentos,
livros de ponto nos braços submissos
a confirmá-los num mister mesquinho.
Do local enganador da secretária
no reprodutor vazio dessas aulas
levava os olhos para a cela da janela.
Um céu de fumos dava-me o que eu perdia.
Do suposto centro donde me sentavam
até à boca morta de uma chaminé de fábrica
a perspectiva assujeitada do lugar
despenhava-se das coisas reais.
Trinta anos depois de ter nascido.
Cortei-me num caco de garrafa na rua de Medreiros
e o dr. Egídio deu-me soro anti-tetânico ao anoitecer.
Esta primeira memória atravessa comigo o rio
a caminho do Seixal anos a fio levantava-me
de manhã cedo os braços à procura
dum cigarro os óculos entre frascos de remédios.
Corria pelas ruas até um autocarro e depois o metro
e depois outro autocarro daí ao cacilheiro
e à camioneta por povoações de dormitório,
charcos oleosos de estaleiros, braços de rio
de marés apodrecidas e mulheres mal dormidas
nas primeiras limpezas da manhã.
Chegava aos pré-fabricados da escola
com rapazotes sujos a assobiarem às pedradas
e bandos de raparigas vestidas à foto-novela.
Ao cheiro ordinário de café e bolos
o iludido grupo dos que partiriam
para as divisórias de madeira prensada
a ensinar por livrecos imbecis o ilusório comum.
Vindos da presunção de faculdades arengavam
pelo dinheiro menor dos vencimentos,
livros de ponto nos braços submissos
a confirmá-los num mister mesquinho.
Do local enganador da secretária
no reprodutor vazio dessas aulas
levava os olhos para a cela da janela.
Um céu de fumos dava-me o que eu perdia.
Do suposto centro donde me sentavam
até à boca morta de uma chaminé de fábrica
a perspectiva assujeitada do lugar
despenhava-se das coisas reais.
Trinta anos depois de ter nascido.
- Joaquim Manuel Magalhães
in Os dias, pequenos charcos, Presença
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poesia de fora
quarta-feira, abril 21, 2010
É ela, sim.
A rapariga que vi uma vez saindo de um comboio
Naquele apeadeiro que foi demolido.
Tenho a certeza.
Continua com ar fulminante
E saltos altos.
Esta rapariga - não sei se sabem - ainda hoje é motivo de procura.
De faces bem fixas, ergue
De vez em quando
A cabeça
Como quem procura alguém que desceu, neste preciso momento, de uma carruagem.
Está aparentemente convicta de estar na cidade certa
No encalço de alguém que desceu de um outro lugar.
A rapariga vai ter (reparem) com o bagageiro
Pergunta qualquer coisa, mostrando a carteira (talvez um retrato)
E depois sai com ar aparentemente calmo,
Aparentemente vacilante
Entre um novo destino -
Um comboio,
Um café
Um homem que a observa à luz
Desta gare de saltos altos,
Lendo um jornal
Cruzando a pequena manchete
Com pernas pouco literárias.
A rapariga é motivo de procura.
Agora está um pouco mais envelhecida, mas é ela, sim.
Depois de tantos anos, desce de uma carruagem
E tem a certeza de estar na cidade certa
Ao fixar os pés.
Caminha pela gare (reparem).
Há qualquer coisa de indiferente nos saltos altos
Que ainda conservam esse ar fulminante
Aparentemente decidido
Entre um piso certo
E outro certo, igualmente.
Ergue a cabeça
Pergunta pela bagagem
E,
Finalmente,
Sai da estação.
Depois, lá fora, rasga uma fotografia.
O bagageiro observa estes saltos altos
No momento em que um bando de pombos passa
Entre o homem das castanhas,
O cais de embarque
E o aviso de um comboio com alguma demora.
Aí,
O bagageiro observa a rapariga descendo de uma carruagem
Com um ar de quem chega à cidade certa
Pela primeira vez.
(Neste preciso momento
Um bando de pombos cruza o Tejo
Com o homem das castanhas
E um barco a deixar o cais).
A rapariga que vi uma vez saindo de um comboio
Naquele apeadeiro que foi demolido.
Tenho a certeza.
Continua com ar fulminante
E saltos altos.
Esta rapariga - não sei se sabem - ainda hoje é motivo de procura.
De faces bem fixas, ergue
De vez em quando
A cabeça
Como quem procura alguém que desceu, neste preciso momento, de uma carruagem.
Está aparentemente convicta de estar na cidade certa
No encalço de alguém que desceu de um outro lugar.
A rapariga vai ter (reparem) com o bagageiro
Pergunta qualquer coisa, mostrando a carteira (talvez um retrato)
E depois sai com ar aparentemente calmo,
Aparentemente vacilante
Entre um novo destino -
Um comboio,
Um café
Um homem que a observa à luz
Desta gare de saltos altos,
Lendo um jornal
Cruzando a pequena manchete
Com pernas pouco literárias.
A rapariga é motivo de procura.
Agora está um pouco mais envelhecida, mas é ela, sim.
Depois de tantos anos, desce de uma carruagem
E tem a certeza de estar na cidade certa
Ao fixar os pés.
Caminha pela gare (reparem).
Há qualquer coisa de indiferente nos saltos altos
Que ainda conservam esse ar fulminante
Aparentemente decidido
Entre um piso certo
E outro certo, igualmente.
Ergue a cabeça
Pergunta pela bagagem
E,
Finalmente,
Sai da estação.
Depois, lá fora, rasga uma fotografia.
O bagageiro observa estes saltos altos
No momento em que um bando de pombos passa
Entre o homem das castanhas,
O cais de embarque
E o aviso de um comboio com alguma demora.
Aí,
O bagageiro observa a rapariga descendo de uma carruagem
Com um ar de quem chega à cidade certa
Pela primeira vez.
(Neste preciso momento
Um bando de pombos cruza o Tejo
Com o homem das castanhas
E um barco a deixar o cais).
Separador:
séries descontinuadas
Lacrimatória 50
É ela a mulher, roçando pela areia, desfazendo
a seda do casulo, lentamente, como se os seus
cabelos saíssem daquele livro, onde tudo está
inscrito, a paixão derradeira e os objectos
musicais. O seu corpo é um lírio fortalecido pelos
cavalos. Os seus dedos cruzam-se com a morte
dos pássaros. Lizzie anda pela humidade com as
veias expostas ao calor. Arruína a ilha com o sangue,
dissolve-se na erva. Depois, vem a escuridão e um
sorriso coberto de veneno. Já não traz óleo sobre a
pele, nem os corvos se atiram contra o perfume dos
vestidos. A agonia devora o nevoeiro e nada mais
existe do que uma sombra, o fim.
É esta a fala do homem, antes da morte.
É ela a mulher, roçando pela areia, desfazendo
a seda do casulo, lentamente, como se os seus
cabelos saíssem daquele livro, onde tudo está
inscrito, a paixão derradeira e os objectos
musicais. O seu corpo é um lírio fortalecido pelos
cavalos. Os seus dedos cruzam-se com a morte
dos pássaros. Lizzie anda pela humidade com as
veias expostas ao calor. Arruína a ilha com o sangue,
dissolve-se na erva. Depois, vem a escuridão e um
sorriso coberto de veneno. Já não traz óleo sobre a
pele, nem os corvos se atiram contra o perfume dos
vestidos. A agonia devora o nevoeiro e nada mais
existe do que uma sombra, o fim.
É esta a fala do homem, antes da morte.
- Jaime Rocha
in Lacrimatória, Relógio D'Água
Separador:
poesia de fora
Ode à melancolia
Keats diz que devemos fugir à melancolia, e usa várias imagens vegetais e animais para descrever os seus perigos. Mas se a melancolia chegar inesperadamente, escreve, «então, deixa que se tranquilize a tua dor sobre uma rosa matinal, / sobre o arco-íris que surge junto às vagas e à areia salgada / ou sobre o esplendor esférico das peónias». Ao contrário da depressão, que vem sempre por mal, a melancolia vem muitas vezes por bem. Altera a nossa sensação, a nossa percepção e a nossa determinação. Sem a melancolia ninguém nos avisava.
[excerto de «Ode à Melancolia» na tradução de Fernando Guimarães]- Pedro Mexia, aqui
Separador:
extras
Encontrei por acaso um campo raso de malvas
Estéril de alcatrão
E de chaminés cinzentas em quadro de fuligem.
Foi aí que pintei o teu rosto.
Foi nesse rosto que inscrevi o nome das malvas
- todas distintas - a imitarem (como eu) chaminés cinzentas inscritas nas memórias dos outros.
É este o lugar do último lugar.
Eu venho envolto em plástico. Tu - quem diria - fazes lembrar a sombra cansada
De um bordel
Com imagens tardias de corpos que ficaram por amar
E vinho que nem chegou a transbordar.
Despeço-me de um campo raso de malvas, já o disse, aliás.
Vou entrar num buraco negro
Onde não há luz, matéria, coisa alguma,
Onde se calcula a distância que não existiu entre uma estrela e a cigana que vende sonhos por acreditar.
É este o último dia.
E por ser o último
Não me despeço.
Estéril de alcatrão
E de chaminés cinzentas em quadro de fuligem.
Foi aí que pintei o teu rosto.
Foi nesse rosto que inscrevi o nome das malvas
- todas distintas - a imitarem (como eu) chaminés cinzentas inscritas nas memórias dos outros.
É este o lugar do último lugar.
Eu venho envolto em plástico. Tu - quem diria - fazes lembrar a sombra cansada
De um bordel
Com imagens tardias de corpos que ficaram por amar
E vinho que nem chegou a transbordar.
Despeço-me de um campo raso de malvas, já o disse, aliás.
Vou entrar num buraco negro
Onde não há luz, matéria, coisa alguma,
Onde se calcula a distância que não existiu entre uma estrela e a cigana que vende sonhos por acreditar.
É este o último dia.
E por ser o último
Não me despeço.
Separador:
séries descontinuadas
Salmo
Dedicado a Karl Kraus
Há uma luz que o vento apagou.
Há uma taberna no campo, de onde à tarde sai um bêbado.
Há um vinhedo queimado e negro com covas cheias de aranhas.
Há uma sala que caiaram a leite.
Morreu o louco. Há uma ilha no mar do sul
Para receber o deus do sol. Rufam os tambores.
Os homens executam danças guerreiras.
As mulheres dão às ancas cingidas de trepadeiras e flores de fogo,
Quando o mar canta. Oh, o nosso paraíso perdido.
As ninfas deixaram as florestas douradas.
Enterra-se o forasteiro. Depois começa a cair uma chuva cintilante,
Aparece o filho de Pã sob a forma de um trabalhador da terra
Que passa o meio-dia a dormir no asfalto em brasa.
Há rapariguinhas num pátio, com vestidinhos cheios de uma pobreza que
trespassa o coração!
Há quartos cheios de acordes e sonatas.
Há sombras que se abraçam frente a um espelho cego.
Às janelas do hospital aquecem-se os convalescentes.
Um paquete entra o canal trazendo sangrentas epidemias.
A estranha irmã volta a aparecer nos maus sonhos de alguém.
Brinca tranquila nas avelaneiras com as estrelas dele.
O estudante, talvez um sósia, olha-a longamente da janela.
Atrás dele está o seu irmão morto, ou então desce a velha escada de caracol.
No escuro dos castanheiros empalidece a figura do jovem noviço.
O jardim está imerso no entardecer. No claustro esvoaçam os morcegos.
Os filhos do porteiro deixam de brincar e buscam o oiro do céu.
Acordes finais de um quarteto. A pequena cega atravessa a alamada a tremer,
E mais tarde a sua sombra vai tacteando muros frios, envolta em contos de
fadas e lendas de santos.
Há um barco vazio que ao cair da noite vai descendo o canal negro.
Na obscuridade do velho asilo há ruínas humanas em decadência.
Os órfãos mortos jazem junto aos muros do jardim.
De quartos cinzentos saem anjos com asas sujas de excrementos.
Gotejam-lhes vermes das asas amareladas.
A praça da igreja está sombria e mergulhada no silêncio, como nos dias da
infância.
Sobre solas de prata deslizam vidas passadas
E as sombras dos condenados descem às águas soluçantes.
No túmulo, o mago branco brinca com as suas serpentes.
Em silêncio, abrem-se sobre o Calvário os olhos dourados de Deus.
- Georg Trakl
(tradução de João Barrento)
in Outono Transfigurado, Assírio e Alvim
Separador:
poesia de fora
terça-feira, abril 20, 2010
Os céus
Em movimento, estes céus que se dissolvem
pela hora de verão numa sombra demorada
administram a Europa com equanimidade;
planando sobre terras aonde ressoam antigos
mitos, citam rios, bosques e montanhas,
superfícies de vidro luzido e pedra castigada,
santificam e banem com o relâmpago e o raio
na sua dança, sem pátria, sobre os caminhos
os campos onde pastam rebanhos complacentes.
Precedem-nos como anos que tudo validam,
nós, esquecidos da dispensação mosaica, atrasados,
no calendário gregoriano, para o ofício de trevas.
pela hora de verão numa sombra demorada
administram a Europa com equanimidade;
planando sobre terras aonde ressoam antigos
mitos, citam rios, bosques e montanhas,
superfícies de vidro luzido e pedra castigada,
santificam e banem com o relâmpago e o raio
na sua dança, sem pátria, sobre os caminhos
os campos onde pastam rebanhos complacentes.
Precedem-nos como anos que tudo validam,
nós, esquecidos da dispensação mosaica, atrasados,
no calendário gregoriano, para o ofício de trevas.
- Paulo Teixeira
in Descanso na fuga para o Egipto, Caminho
Separador:
poesia de fora
Por causa da nuvem negra
Esqueci aquele amor nas costas da Cornualha.
As nuvens fazem partidas destas:
Chovem, escurecem um pouco o céu, são bonitas de ver
E tapam rostos em países distantes.
Mas esta nuvem apareceu sem necessidade alguma.
Eu não amo ninguém. Se amasse,
Não ficaria dependente do Boletim Meteorológico.
Esqueci aquele amor nas costas da Cornualha.
As nuvens fazem partidas destas:
Chovem, escurecem um pouco o céu, são bonitas de ver
E tapam rostos em países distantes.
Mas esta nuvem apareceu sem necessidade alguma.
Eu não amo ninguém. Se amasse,
Não ficaria dependente do Boletim Meteorológico.
Separador:
séries descontinuadas
Precisas de ginásio.
Talvez seja isso. E podes aprender a beijar melhor quando estamos enrolados à pele.
Não prestas atenção ao momento certo da retirada do lençol
E não fechas as persianas na altura devida.
Gritas pouco. Ao gritares,
Deves chamar pelo meu nome e dizer que sou a única pessoa na tua vida.
Eu sei que é difícil, mas deves aprender a amar.
Talvez seja isso. E podes aprender a beijar melhor quando estamos enrolados à pele.
Não prestas atenção ao momento certo da retirada do lençol
E não fechas as persianas na altura devida.
Gritas pouco. Ao gritares,
Deves chamar pelo meu nome e dizer que sou a única pessoa na tua vida.
Eu sei que é difícil, mas deves aprender a amar.
Separador:
séries descontinuadas
Podemos falar de espelhos durante muito tempo.
Os melros contemplarão o seu silêncio
Quando buscam restos de pão e melancolia
Anoitece.
O que ficou do dia já foi apagado,
Rasgado em sinais a pique por
Abutres.
Casas fechadas na penumbra de um poema
A cair no charco
Da nossa inocência.
Os melros contemplarão o seu silêncio
Quando buscam restos de pão e melancolia
Anoitece.
O que ficou do dia já foi apagado,
Rasgado em sinais a pique por
Abutres.
Casas fechadas na penumbra de um poema
A cair no charco
Da nossa inocência.
Separador:
séries descontinuadas
Ampulheta
E o tempo conheceu a sua estatuária.
O trilho visível e medido no ar
em que os segundos se derramam
– sem símbolo de pausa nem desvio de curso –
de um céu suportado por colunas.
As horas afluem inatas, articuladas,
sem instante inaugural nem fim à vista,
como se lenta florisse a flor da farinha
sem cheiro a meio desta globulária de vidro.
O tempo casou-se com o mundo nesta imagem.
- Paulo Teixeira
in Orbe, Editorial Caminho
O trilho visível e medido no ar
em que os segundos se derramam
– sem símbolo de pausa nem desvio de curso –
de um céu suportado por colunas.
As horas afluem inatas, articuladas,
sem instante inaugural nem fim à vista,
como se lenta florisse a flor da farinha
sem cheiro a meio desta globulária de vidro.
O tempo casou-se com o mundo nesta imagem.
- Paulo Teixeira
in Orbe, Editorial Caminho
Separador:
poesia de fora
Sirvam-se
Queria pedir imensas desculpas aos grandiosos poetas que não costumam ver os seus textos aqui publicados, mas não tenho como. Limito-me a uma regra quanto às escolhas da poesia de fora: a selecção é tão pessoal quanto eventual. Naturalmente, não há um único poema publicado por mim de que não tenha, à altura em que o li, gostado sinceramente. Sendo claro que não consigo publicar uma amostra razoável de tudo o que leio com gosto, passo alguns dos textos eu próprio e aproveito-me (não poucas vezes) quando encontro mais noutros blogues. Agradeço a generosidade dos outros e faço a minha parte pelo circuito. Não peço autorização para ajudar a divulgar textos com interesse àqueles que primeiro os copiaram nem espero que me peçam a mim essa autorização quando sou eu a copiá-los para o blogue. Acho aliás que a grande vantagem da blogoesfera é mesmo essa – uma partilha sem limites e, depois, uma afinidade dentro dos possíveis. Estejam, assim, à vontade.
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perspectivas
segunda-feira, abril 19, 2010
Esta noite estou um pouco por minha conta.
Sinto isso quando ouço as crianças zangadas no pátio
Jogando ao apanha e à macaca
E o vento assobiando na preocupação das mães
Debruçadas nas janelas e nos Eléctricos.
Há coisas que se sentem.
E isto quer dizer que faltou qualquer coisa na minha vida
Nesta vida de gente que vai deslizando nas calçadas
E que pergunta o que vai ficando em falta
Ao senhor da mercearia próxima.
Este gosto de estar
Às vezes não dá com nada.
Falta qualquer coisa,
Apesar de ser bonito o cantar dos Eléctricos nos carris.
Ou talvez seja isso.
O olhar de quem passa
Gente a quem falta qualquer coisa indefinida.
Não tenho certezas.
Não sei do que me queixo.
Hei-de morrer de dor incerta
Não sabendo o teu nome
Repetindo-o
Perguntando ao senhor da mercearia se te viu
Ou não viu
Entrando num Eléctrico
Para que eu
E o mundo
Tivessemos as nossas certezas
Das dúvidas de uma coisa
Que se apanha
E anda sobre carris.
É tarde. Perdi o 28.
Talvez te possa encontrar.
Sinto isso quando ouço as crianças zangadas no pátio
Jogando ao apanha e à macaca
E o vento assobiando na preocupação das mães
Debruçadas nas janelas e nos Eléctricos.
Há coisas que se sentem.
E isto quer dizer que faltou qualquer coisa na minha vida
Nesta vida de gente que vai deslizando nas calçadas
E que pergunta o que vai ficando em falta
Ao senhor da mercearia próxima.
Este gosto de estar
Às vezes não dá com nada.
Falta qualquer coisa,
Apesar de ser bonito o cantar dos Eléctricos nos carris.
Ou talvez seja isso.
O olhar de quem passa
Gente a quem falta qualquer coisa indefinida.
Não tenho certezas.
Não sei do que me queixo.
Hei-de morrer de dor incerta
Não sabendo o teu nome
Repetindo-o
Perguntando ao senhor da mercearia se te viu
Ou não viu
Entrando num Eléctrico
Para que eu
E o mundo
Tivessemos as nossas certezas
Das dúvidas de uma coisa
Que se apanha
E anda sobre carris.
É tarde. Perdi o 28.
Talvez te possa encontrar.
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séries descontinuadas
VI - ROSE, GOLD, LANDSCAPE OR ANOTHER*
Podemos sempre falar em depois.
A rosa artificial que me antecedeu
permanece indiferente com as
suas manchas de ouro, voltada
sobre a imagem da cidade.
Tantas foram as já nomeadas,
mas esta também tem a sua virtude,
espinhos de plástico que simulam
o atrito de viver que são estes dias.
Duração resistente ao tempo,
ao apetite e ao sol que a cobre
pela mesma indiferença.
Na fronteira de ser, a sua sombra
tem mais vida e quase chega até mim.
Rosa, ouro e olhar, desperta
na sua duplicidade o desejo
e a plenitude de amar,
contra o vidro que me separa.
* Verso de Stephen Spender
Podemos sempre falar em depois.
A rosa artificial que me antecedeu
permanece indiferente com as
suas manchas de ouro, voltada
sobre a imagem da cidade.
Tantas foram as já nomeadas,
mas esta também tem a sua virtude,
espinhos de plástico que simulam
o atrito de viver que são estes dias.
Duração resistente ao tempo,
ao apetite e ao sol que a cobre
pela mesma indiferença.
Na fronteira de ser, a sua sombra
tem mais vida e quase chega até mim.
Rosa, ouro e olhar, desperta
na sua duplicidade o desejo
e a plenitude de amar,
contra o vidro que me separa.
* Verso de Stephen Spender
- Rui Miguel Ribeiro
in XX Dias, Averno
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poesia de fora
Escrever é gravar notas simples
No trajecto entre si e ré
Medido à distância de um apontamento.
Entre si e ré
É tudo tão formal.
Dá dó.
No trajecto entre si e ré
Medido à distância de um apontamento.
Entre si e ré
É tudo tão formal.
Dá dó.
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séries descontinuadas
Comprei uma casa na lezíria grande.
Sei que não gostas de sítios planos, nem de louça em desalinho
Mas tenho uma água – furtada onde podes pintar
E o rio em frente.
O espaço do sótão é só teu. Tem lugar para as telas
Tintas, diluentes, coisas antigas que possas trazer.
Sabes,
Em boa verdade, a casa não me pertence.
É um espaço sem memória.
As paredes são somente paredes,
O jardim não é olhado nem regado
E as camas não amam corpos que se derretem no calor
Procurando paz e talvez desassossego.
Eu sei que a casa não é tua
Mas não consigo ter um quarto só para mim.
É estranho este sentimento
De ter uma casa e, ao mesmo tempo, não ter.
P.S. – peço-te que me emprestes 500 € para a próxima prestação.
Sei que não gostas de sítios planos, nem de louça em desalinho
Mas tenho uma água – furtada onde podes pintar
E o rio em frente.
O espaço do sótão é só teu. Tem lugar para as telas
Tintas, diluentes, coisas antigas que possas trazer.
Sabes,
Em boa verdade, a casa não me pertence.
É um espaço sem memória.
As paredes são somente paredes,
O jardim não é olhado nem regado
E as camas não amam corpos que se derretem no calor
Procurando paz e talvez desassossego.
Eu sei que a casa não é tua
Mas não consigo ter um quarto só para mim.
É estranho este sentimento
De ter uma casa e, ao mesmo tempo, não ter.
P.S. – peço-te que me emprestes 500 € para a próxima prestação.
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séries descontinuadas
A Tília
A Tília acabou por crescer, ao fim de muitos anos. Foi plantada junto ao tanque, onde preparávamos os componentes químicos do tratamento das videiras. Nos dias curtos, eu não gostava dessa árvore. Era como se a minha solidão chegasse sempre mais cedo, logo depois do almoço. A Tília era como uma criança a merecer cuidados, sorrisos, atenção por parte de quem se cruzava com o verde, e nele repousa ou despede.
No ano em que o pinheiro grande foi cortado, por se encontrar junto à casa, ganhei uma afeição especial pela Tília. Tornara-se a minha única companheira, a que compreendia a derrota dos exames e as discussões com os meus pais. Eu não suportava o facto de não ter um pinheiro na minha vida, de não ter sombras projectadas nas paredes, de não correr o risco de os ramos destruírem as janelas de sacada e os estendais virados a nascente. As famílias que vão evoluindo ou seja, as próximas gerações vão gostando de certas modificações - renovam os talheres, deitam fora as fotos de família e constroem pinturas abstractas expostas em rede, para que os primos virtuais possam dizer parabéns, que grande evolução.
Mas eu nessa época gostava da Tília. Conversava com ela e pensava no modo de sentir desta árvore. Ao fim da tarde, quando ligava a mangueira e regava o jardim e o pomar, sentia as folhas a rirem um pouco. A suas raízes cresciam mais fundo dentro da minha consciência de estar perto da Tília e de gostar deste modo de estar. Cresce, Tília, cresce. E a Tília crescia dentro da minha consciência de gostar muito dela. Eu sentia que o seu crescimento era o meu sorriso, a minha vibração de poder ver o verde e saltar mais rápido para uma bicicleta. A Tília fazia-me chegar à minha juventude e, à mesa, ao pegar num talher ou num guardanapo, a minha mãe sabia que aquele momento era um pouco o momento da Tília sentada à mesa, a pedir tempo esguio e céu e quintal.
Como eu gostava da Tília. A Tília ainda existe mas está um pouco mais só. Tenho prestado atenção a outros jardins, mas não amo tanto as outras Tílias. As outras Tílias são de outras pessoas, mas são bonitas como a minha. Mas, claro, têm uma beleza diferente. Quando olho para elas, vejo o verde luminoso dos seus ramos, mas não sinto tanto a sua vibração. Já não sou tanto eu, já não são os meus pais a cortarem o pinheiro gigante. Estas tílias não têm bicicletas, nem muros de calor, nem poentes, nem tripas de porcos, nem coelhos mortos, nem histórias de filoxera, nem doenças congénitas de avós, nem dramas de letras por pagar, nem casas arruinadas de caseiros ou gente igual ou desigual. Estas Tílias são somente Tílias. Crescem num jardim de muitas histórias.
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séries descontinuadas
domingo, abril 18, 2010
Saudação
Saúda a hora, esse fugidio ar dos minutos,
como quem, convertido à fonética do silêncio,
soçobra na linguagem autista do poema.
Os pulmões expiram para longe o hálito
dos anos e a memória alastra pelo papel
como uma assinatura. Este continente,
lugar imposto no gráfico da tua vida, fixa-o,
prestes a erguer-se no ar como morada de exílio,
na lenda que é já a visão da tua íris estriada.
Com o nível do sangue a latejar na garganta
escreve, sob a luz dos revérberos, a despedida
às cerimónias crepusculares do velho mundo.
como quem, convertido à fonética do silêncio,
soçobra na linguagem autista do poema.
Os pulmões expiram para longe o hálito
dos anos e a memória alastra pelo papel
como uma assinatura. Este continente,
lugar imposto no gráfico da tua vida, fixa-o,
prestes a erguer-se no ar como morada de exílio,
na lenda que é já a visão da tua íris estriada.
Com o nível do sangue a latejar na garganta
escreve, sob a luz dos revérberos, a despedida
às cerimónias crepusculares do velho mundo.
- Paulo Teixeira
in Descanso na fuga para o Egipto, Caminho
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poesia de fora
13.
Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
- Jaime Rocha
in Necrophilia, Relógio D'Água
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poesia de fora
sábado, abril 17, 2010
Uma noite
O quarto era pobre e sórdido,
escondido por cima da taberna suspeita.
Da janela via-se a travessa,
suja e apertada. De baixo
vinham as vozes de alguns operários
que jogavam às cartas e faziam uma farra.
E aí na cama modesta, para o povo
tive o corpo do amor, tive os deleitáveis
lábios corados da embriaguez -
corados de uma embriaguez tal que mesmo agora,
que escrevo, depois de tantos anos!,
na minha casa sozinha, de novo me embriago.
- Konstandinos Kavafis
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)
in Os Poemas, Relógio D'Água
escondido por cima da taberna suspeita.
Da janela via-se a travessa,
suja e apertada. De baixo
vinham as vozes de alguns operários
que jogavam às cartas e faziam uma farra.
E aí na cama modesta, para o povo
tive o corpo do amor, tive os deleitáveis
lábios corados da embriaguez -
corados de uma embriaguez tal que mesmo agora,
que escrevo, depois de tantos anos!,
na minha casa sozinha, de novo me embriago.
- Konstandinos Kavafis
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)
in Os Poemas, Relógio D'Água
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poesia de fora
Esquecendo o contexto, convém lembrar...
«Esta atitude de nojo permanente faz-me sempre lembrar o que Lacan dizia do misantropo de Molière: quando alguém detesta o mundo inteiro, o problema não está no mundo, mas nesse alguém.»
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citações
sexta-feira, abril 16, 2010
Eu também gostei dela
Sentava-se numa esplanada e os seus lábios demoravam-se num pastel de nata.
Nesse tempo, eu ainda não conhecia a mais breve frescura dos passos
Mas recordo a forma como andava descalça nas primeiras ervas de Maio.
A minha vida era um pouco silenciosa,
Como a dos ciprestes que crescem esguios na Toscânia e abrigam mafiosos de indumentária negra e cabelo em gel.
Eu gostei dela.
Mas antes que isso acontecesse
Gostei de ti.
Sentava-se numa esplanada e os seus lábios demoravam-se num pastel de nata.
Nesse tempo, eu ainda não conhecia a mais breve frescura dos passos
Mas recordo a forma como andava descalça nas primeiras ervas de Maio.
A minha vida era um pouco silenciosa,
Como a dos ciprestes que crescem esguios na Toscânia e abrigam mafiosos de indumentária negra e cabelo em gel.
Eu gostei dela.
Mas antes que isso acontecesse
Gostei de ti.
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séries descontinuadas
Não podendo falar para toda a terra
direi um segredo a um só ouvido- Luiza Neto Jorge
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poesia de fora
De olhos vendados
Vamos comendo certas coisas deste mundo.
Neste dia, em que a igreja esconde as taras de certos membros (uma perna, um braço, o resto que se segue)
Apetece-me ser um pouco mais cruel
Percebendo que tudo é uma questão de instituição.
O santo padre (este que tenho aqui no meu altar) vai ocupar um quarto humilde,
Nada que se compare ao luxo de outros sítios.
Tenho medo que um meteorito seja comparado a um milagre
Oxalá a minha avó tivesse ficado desfeita, depois de morta
Para não ser santa.
Peço-vos desculpa por um poema tão mau.
Não sou santo.
Afinal, esses apenas pedem desculpas.
Vamos comendo certas coisas deste mundo.
Neste dia, em que a igreja esconde as taras de certos membros (uma perna, um braço, o resto que se segue)
Apetece-me ser um pouco mais cruel
Percebendo que tudo é uma questão de instituição.
O santo padre (este que tenho aqui no meu altar) vai ocupar um quarto humilde,
Nada que se compare ao luxo de outros sítios.
Tenho medo que um meteorito seja comparado a um milagre
Oxalá a minha avó tivesse ficado desfeita, depois de morta
Para não ser santa.
Peço-vos desculpa por um poema tão mau.
Não sou santo.
Afinal, esses apenas pedem desculpas.
«não se pode hesitar – não é sequer a conquista do famigerado espaço de resistência, mas qualquer coisa de mais pequeno e modesto – produzir para não morrer neste tempo de publicidade a caminho do fascismo»
(revista M)
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extras
Poesia
Eu também não gosto dela.
Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.
Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.
- Marianne Moore
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
Poemas de Marianne Moore e Elizabeth Bishop, Campo das Letras
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poesia de fora
Marquis de Sade no asilo de Charenton
Dirijo-me a pessoas capazes de me entender:
a esses escritores perversos e a essa gente
imoral que, tão rara, se não encontra
nunca aos pares num mesmo lugar.
E esqueço-me a lembrar elegantes indecências,
discretos evangelizadores do vício capazes
de ultrajar com um dedo a mãe-natureza.
___Em vão me inquirir sobre o amor.
Não sei, não conheço essa prisão injusta
de uma vida entre aurículas e ventrículos.
Conheço apenas a liberdade de fornicar
um e outro corpo e deixar em cada um
a cicatriz da minha presença. É tudo
e é pouco o tempo que me resta:
– a morte é próxima, l'échafaud de la nature.
a esses escritores perversos e a essa gente
imoral que, tão rara, se não encontra
nunca aos pares num mesmo lugar.
E esqueço-me a lembrar elegantes indecências,
discretos evangelizadores do vício capazes
de ultrajar com um dedo a mãe-natureza.
___Em vão me inquirir sobre o amor.
Não sei, não conheço essa prisão injusta
de uma vida entre aurículas e ventrículos.
Conheço apenas a liberdade de fornicar
um e outro corpo e deixar em cada um
a cicatriz da minha presença. É tudo
e é pouco o tempo que me resta:
– a morte é próxima, l'échafaud de la nature.
- Paulo Teixeira
in Descanso na fuga para o Egipto, Caminho
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poesia de fora
quinta-feira, abril 15, 2010
Tempo
Não sei se o tempo
Em que me mexo
É apenas vento
Ou palavras bonitas
Escritas em papel
Em que me mexo
É apenas vento
Ou palavras bonitas
Escritas em papel
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À primeira curva perdes o mar. Se andares cem metros, o azul ressurge, de novo, até o perderes. Depois encontras um restaurante onde pedes o prato do dia. Se fizeres sempre isto, se andares em romaria ou não, alimentas o espírito e o estômago. Não reparaste numa acácia em flor, não viste o teu nome na pessoa que ria, não foste ao enterro da criança. Daqui a uns anos, vais fazer a mesma curva, vais pedir outro prato a um outro empregado. Depois, vais fingir que não reparas na acácia e na pessoa que tem o teu nome. Daqui a uns anos, desculpa, vais fazer a curva da estrada e não vais reconhecer a acácia e a pessoa que tem o teu nome. O mar continuará azul e verás a criança que brincava, ao fim da tarde, na falésia.
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Dote
Podia tricotar a minha história
na espiral de fumo que sobe pelo ar.
Telha a telha, sobre o hálito das casas,
inscrever o mundo, uma floração tardia,
um dote para quem entra em cena,
aventurando na chuva a cabeça,
e vai chamando pelas coisas uma a uma.
O lápis obediente à lei muda da minha mão
incrusta no buraco da fechadura a moeda,
o bilhete de ingresso para o bulício de outra vida.
O seu registo de voz aprende a dizer a falta,
vendo correr no relógio de areia o tempo,
a esmola dos momentos em que estamos,
ele ou eu, na linha de tiro. A alma de um retrato,
amarelecendo a noite suspensa no papel,
despe com o olhar o magro corpo da cidade,
desenha um ladrilho de sombras pelo chão.
Ungindo a hora de presságios, em si congrega,
até à cerca de arame farpado que faz a fronteira
do meu ser, um gesto de adeus, uma arte da memória.
na espiral de fumo que sobe pelo ar.
Telha a telha, sobre o hálito das casas,
inscrever o mundo, uma floração tardia,
um dote para quem entra em cena,
aventurando na chuva a cabeça,
e vai chamando pelas coisas uma a uma.
O lápis obediente à lei muda da minha mão
incrusta no buraco da fechadura a moeda,
o bilhete de ingresso para o bulício de outra vida.
O seu registo de voz aprende a dizer a falta,
vendo correr no relógio de areia o tempo,
a esmola dos momentos em que estamos,
ele ou eu, na linha de tiro. A alma de um retrato,
amarelecendo a noite suspensa no papel,
despe com o olhar o magro corpo da cidade,
desenha um ladrilho de sombras pelo chão.
Ungindo a hora de presságios, em si congrega,
até à cerca de arame farpado que faz a fronteira
do meu ser, um gesto de adeus, uma arte da memória.
- Paulo Teixeira
in Descanso na fuga para o Egipto, Caminho
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poesia de fora
One function of the poet at any time is to discover by his own thought and feeling what seems to him to be poetry at that time.- Wallace Stevens, The Necessary Angel
(citação que abre Os Dois Crepúsculos)
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quarta-feira, abril 14, 2010
Trajecto
Nessa velha bicicleta
Que ainda guardas no teu quarto dos brinquedos
Atravessámos o vento
Ao som dos pedais da infância.
Fugimos de cães furiosos,
Esfolámos os joelhos nas serventias
Que nos levavam ao paraíso,
Àquele recanto secreto e silencioso
Onde conquistávamos o mundo e a nossa felicidade.
A água a correr no regato - penso eu agora -,
Era apenas o início das nossas vidas.
E hoje sabemos que as águas nunca deixam de correr
E hoje sabemos que as águas são servidas
À mesa dos risos dos jantares
Dos nossos jantares
Onde iremos beber
A sede
De pedalarmos no mundo.
Que ainda guardas no teu quarto dos brinquedos
Atravessámos o vento
Ao som dos pedais da infância.
Fugimos de cães furiosos,
Esfolámos os joelhos nas serventias
Que nos levavam ao paraíso,
Àquele recanto secreto e silencioso
Onde conquistávamos o mundo e a nossa felicidade.
A água a correr no regato - penso eu agora -,
Era apenas o início das nossas vidas.
E hoje sabemos que as águas nunca deixam de correr
E hoje sabemos que as águas são servidas
À mesa dos risos dos jantares
Dos nossos jantares
Onde iremos beber
A sede
De pedalarmos no mundo.
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Olha à tua frente
O Universo flor de laranjeira
Do outro lado, o grande pomar revela a cor que quiseres
Em lábios indecisos no teu corpo
Enquanto admiras a terra em sofreguidão
O vento acorda a estátua escondida no silêncio
E a luz ténue, do domingo, no adro da igreja
Será o teu destino em folhas espraiadas no socalco
Que transpões, numa língua de céus impossíveis
Descendo na claridade do ventre da tua mãe
Depois, estenderás o avental em bicos de pássaros
E estes secarão sem medo e sem agonia
E as folhas das árvores dançarão em trompete a mexer o teu peito
Rebela-te por pés de cadeiras esquecidas, por rostos que não se escrevem
Inventa a maneira perfeita do teu olhar transfigurado
Abrir palavras cinzentas e o recheio da retina
A carne da tua visão será o labirinto das paredes do teu quarto
Abertas sobre o tempo
Em exaustão
Estranharás as camadas de cal a cobrirem o corpo lúcido do pátio
O teu mundo será uma cesta de frutos na maturidade das raízes.
O Universo flor de laranjeira
Do outro lado, o grande pomar revela a cor que quiseres
Em lábios indecisos no teu corpo
Enquanto admiras a terra em sofreguidão
O vento acorda a estátua escondida no silêncio
E a luz ténue, do domingo, no adro da igreja
Será o teu destino em folhas espraiadas no socalco
Que transpões, numa língua de céus impossíveis
Descendo na claridade do ventre da tua mãe
Depois, estenderás o avental em bicos de pássaros
E estes secarão sem medo e sem agonia
E as folhas das árvores dançarão em trompete a mexer o teu peito
Rebela-te por pés de cadeiras esquecidas, por rostos que não se escrevem
Inventa a maneira perfeita do teu olhar transfigurado
Abrir palavras cinzentas e o recheio da retina
A carne da tua visão será o labirinto das paredes do teu quarto
Abertas sobre o tempo
Em exaustão
Estranharás as camadas de cal a cobrirem o corpo lúcido do pátio
O teu mundo será uma cesta de frutos na maturidade das raízes.
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O poema é uma porção de fantasia; do quanto doeu este dia. Entre nós e o poema, toda uma distância. O nosso conforto deste lado das palavras. Frases que rompem um início onde tu tens fome e, parece que me interesso por ti, mas não. Eu sou apenas o cavaleiro das palavras que nada faz.
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E de repente anoitece
Todos estamos sós no coração da terra
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.
trespassado por um raio de sol;
e de repente anoitece.
- Salvatore Quasimodo
(tradução de Pedro da Silveira)
in Mesa de Amigos, Direccção Regional
dos Assuntos Culturais - Angra do Heroísmo
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poesia de fora
terça-feira, abril 13, 2010
Nostalgia
Quando
a noite se esvaece
pouco antes da Primavera
e raramente
alguém passa
Sobre Paris adensa-se
uma escura cor
de pranto
A um canto
da ponte
contemplo
o ilimitado silêncio
de uma rapariga
ténue
Os nossos
males
fundem-se
E como levados
ficamos
a noite se esvaece
pouco antes da Primavera
e raramente
alguém passa
Sobre Paris adensa-se
uma escura cor
de pranto
A um canto
da ponte
contemplo
o ilimitado silêncio
de uma rapariga
ténue
Os nossos
males
fundem-se
E como levados
ficamos
- Guiseppe Ungaretti
(tradução de Pedro da Silveira)
in Mesa de Amigos, Direccção Regional
dos Assuntos Culturais - Angra do Heroísmo
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poesia de fora
Aqueles deuses
Eram estátuas douradas,
esplêndidos deuses tombados ao sol
bebendo escuro vinho.
Contaram belas histórias,
Discursaram às principais estações,
Fizeram inscrições na rocha mais dura.
Mas aquelas palavras e gestos na areia,
repetidos como as canções
que não se cansavam de escutar,
não encontraram eco.
Por isso, sucumbiram orgulhosos,
como deuses desterrados, que envelhecem.
esplêndidos deuses tombados ao sol
bebendo escuro vinho.
Contaram belas histórias,
Discursaram às principais estações,
Fizeram inscrições na rocha mais dura.
Mas aquelas palavras e gestos na areia,
repetidos como as canções
que não se cansavam de escutar,
não encontraram eco.
Por isso, sucumbiram orgulhosos,
como deuses desterrados, que envelhecem.
- Armando Álvarez Bravo
(tradução de Manuel de Seabra)
in Poesia Cubana da Revolução, Futura
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segunda-feira, abril 12, 2010
A memória mais antiga:
Um joelho rasgado,
A primeira rodada na bicicleta verde,
O inesgotável tempo,
Uma ida à feira das cebolas e outra à feira dos santos,
A minha mãe muito jovem e o seu sorriso, o quintal, as laranjas,
Os meus amigos, a minha avó e os bifes só para mim,
O verão,
O tanque,
O calor,
As vindimas.
E parecia não haver amor.
Um joelho rasgado,
A primeira rodada na bicicleta verde,
O inesgotável tempo,
Uma ida à feira das cebolas e outra à feira dos santos,
A minha mãe muito jovem e o seu sorriso, o quintal, as laranjas,
Os meus amigos, a minha avó e os bifes só para mim,
O verão,
O tanque,
O calor,
As vindimas.
E parecia não haver amor.
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Licença para falar
A Rafael Alcides
exprimir o assombro,
deixem-me pôr no ar,
como na água,
este ruído que são os homens,
este tamanho da minha intranquilidade,
este susto alegre dos acontecimentos.
Eu quero ter os olhos
ouvindo o estrondo destes dias capitais.
Estes dias de pôr um ferro na benemérita
lua.
Estes dias para te amar completamente
olvidando os fundamentos dessa senhora toda a vida respeitosa
que vive em frente.
E possuir-te e ter-te e trabalhar
e já.
Estes dias
de estômagos que se deitaram sem comer
e de canhõs que valem vacas
(e ninguém venha dizer-me que um canhão é um artefacto horrendo).
Não quero que ninguém pare à minha frente
para me dizer que qualquer problema não se vai resolver
ou que este mundo é terrível
porque o mando pró caralho.
Deixem-me
formular:
Creio no homem.
- José Yanes
(tradução de Manuel de Seabra)
in Poesia Cubana da Revolução, Futura
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poesia de fora
Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (isto é o mais fácil de compreender: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço (que embora não pareça faz parte do sorriso). E agora já me entendes? E agora ainda me queres?
Jorge Roque
Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.
Jorge Roque
Telhados de Vidro, n.º 13, Averno, Lisboa, 2009.
Primavera
Quando o pessegueiro rebentar
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
Vou eu hibernar no tronco dele.
Os seu frutos serão disfarçadamente os meus.
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séries descontinuadas
Decerto já vos chegaram aos ouvidos boatos acerca da Fraternidade. Conceberam, certamente, a vossa imagem pessoal da organização. Provavelmente imaginaram um vasto mundo clandestino de conspiradores, reunindo-se secretamente em caves, escrevinhando mensagens nas paredes, reconhecendo-se uns aos outros através dum código ou gestos especiais. Nada disso existe.
- George Orwell, 1984
(achado aqui)
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extras
não se inventam histórias
e quando não há que dizer risca-se muito
até de manhã
quando há que dizer também se risca muito
todos os dias
um último olhar por terra
revolvo os versos como um cão
o que procuram os cães no lixo
comida
e a comida que mata a fome é boa- João Almeida
in Glória e Eternidade, Teatro de Vila Real
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poesia de fora
domingo, abril 11, 2010
Sabedoria
Uma mulher
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.
Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.
São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.
que passa de bicicleta
às duas da manhã,
maravilhosas pernas morenas
dando aos pedais
enquanto a brisa lhe levanta o vestido
e revela
um perfeito milagre
de carne feminina em movimento.
Os nossos olhos
cruzam-se por um momento
e já se foi.
São coisas como esta
que te fazem dar conta
do pouco que realmente sabes
de nada.
- Roger Wolfe
(versão de L.P.)
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poesia de fora
Há um segredo nas grades do portão. É por ter grades que o portão é secreto. Às vezes, chego perto dele, tento empurrá-lo mas não consigo porque não tenho a chave que o abre. E quando alguém o abre eu não estou perto dele. Mas isso é só por acaso, pois eu estou muitas vezes perto do portão. Do outro lado vejo uma casa que não deve ser habitada, pois as portadas das janelas nunca estão abertas. Depois, vejo uma estrada que se estende até perder de vista, até ao momento onde de certeza existe outro portão. Mas esse portão eu não conheço. Não sei se existe e não sei se está fechado ou aberto. É por isso que não me conheço. E nesse portão deve existir alguém que o abre, que o fecha, que o empurra, mas que não consegue porque não tem a chave. E esse alguém eu não sei se existe. É por isso que não me conheço.
Há um mistério nas grades do portão. Cortam a casa e a paisagem. É por isso que não me conheço.
Empurro o portão com força.
Este abre com dificuldade. Vejo a casa sem grades e toda a paisagem.
Viro costas.
Vejo o mesmo que via, agora reflectido nas águas do lago.
Existirá um portão com grades? Não o vejo. É por isso que não me conheço.
Há um mistério nas grades do portão. Cortam a casa e a paisagem. É por isso que não me conheço.
Empurro o portão com força.
Este abre com dificuldade. Vejo a casa sem grades e toda a paisagem.
Viro costas.
Vejo o mesmo que via, agora reflectido nas águas do lago.
Existirá um portão com grades? Não o vejo. É por isso que não me conheço.
Anos 90
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