terça-feira, junho 30, 2009
Continuação de Jean Nicot
embora vá recusando a cada bafo
o panorama dos astronautas
tiro notas
dos calendários gigantes
das marés do sol e da lua
do rasto agrícola das nossas mãos
sobre a mesa
de madrugada
remo como exilado inca
em direcção à luz
se ainda me for fácil mentir direi
é afinal a única substância do poema
este cigarro entre estrofes
- Miguel-Manso
segunda-feira, junho 29, 2009
«Não há mundo aqui»
não devemos ser eloquentes,
não somos profetas, nem somos precursores,
não nos agrada o paraíso, não tememos o inferno
Ossip Mandelstam
Sobre a mesa a trégua de um encontro
com livros abertos, meias palavras
e a tarde num lento arremesso
entre as superfícies
do também lento comércio
onde um vento ronceiro se esfregava,
suspirando, tossindo ou engasgando-se,
e que ao chegar junto a nós
parecia flanquear-nos – um ou
outro golpe de rins… Como estavas lá
não preciso de carregar na sensação.
Seguimos adiante na falta de assunto,
quando já ninguém em nós deseja um
somos de um país que é só um rumor,
uma cantiga de bêbedos a favor
de tudo o que se tiver de pé.
Antes assim, levar a dor ao enjoo
atravessando algum roteiro exausto,
a cidade, um vozear que nos pega e leva
até que o calor nos deixe meio
inconscientes. Sentados,
virados para um desses ridículos
jardins, onde nos afeiçoamos
à hesitação que por ali vai florindo,
onde às vezes também sinto que sou demais
para o corpo que me envelhece e entorna
esta sombra artificial sobre tudo, e tudo
é tão dolorosamente falso. Mas é claro,
na minha idade se escolhi a tristeza
não é estranho que ela abuse e lhe falte
vergonha como a qualquer outra
desmesurada paixão.
Outras vezes quase não sinto nada
e de um gesto nascem-me as mãos, afastando-se
para se agarrarem às coisas. Desfazem-nas,
e no fim são as mesmas duas metades
de um fruto vazio.
II.
Perdemos ainda o tempo que conseguimos
admirando alguns poetas: o sangue que ficou
de uns, a ordinária honestidade dos de hoje,
bem menos as infantilidades verbais
dos outros. Eu, como te disse, prefiro
os que vão falando, que passam por mim
e me chamam mesmo que para nada, e que
gostem só, como eu, de cansar palavras.
Não tenho pressa, não lhes meço a eficácia,
e chutos desses, de pouco mais que um verso,
se algum me acertou foi aquela primeira
linha de coca.
Agora que já nada de interessante
nos interrompe e o coração é sempre
a mesma história, ficamos dependentes
do que se aproveita de nós,
como de um modo ou de outro o silêncio
de alguma coisa nos lembra que a morte
tem os seus motivos e até a melhor
das intenções.
Serviu-nos a brevidade dessa rua,
a curva em que as estrangeiras se esqueciam
do que as levava e nós adoçávamos nelas
o olhar, rindo de como é fácil perder,
e de gostarmos tanto disso
como gostam de muros
os gatos, e se aguentam vigiando
pequenas certezas em volta
de nada. Tudo o que leva a isto,
os versos possíveis,
dedicados a quem tenha ainda
como gostar deles.
Encostado a uns prédios antigos
o sol bebia o seu veneno, soltando
um resto de claridade suja que pousou
por instantes sobre os nossos ombros,
dispersando-se depois. Faltou-nos
a convicção habitual, dissemos adeus
e assim ficámos. Eu apanhei um verso,
outro a seguir, sozinho abri um espaço
e esperei uma boa ideia, um entusiasmo
que só não me teve nem me levou
porque não quis.
Do outro lado da janela
Na Casa da Mata todos eram felizes. Construída a partir de tábuas de madeira roubadas à vizinha – momentaneamente distraída durante a confecção da broa de milho –, pregos comprados na única loja da aldeia, camuflada com fetos arrancados à terra. Na Casa da Mata não havia telhado. Não se poderiam ver as estrelas do céu quente de Agosto, se as houvesse. A Casa da Mata apenas vivia durante o Verão. A sua existência iniciava-se no principio de Junho até atingir o seu auge no último mês das férias, para, pouco depois em Setembro, se extinguir na memória apressada dos seus moradores.
Triangular e relativamente alta, a Casa era sustentada pelo tronco de três árvores, suficientemente antigas para mostrarem orgulhosamente as marcas de outros verões. Afastando a hera que as cobria, podiam ver-se os nomes e datas que, ano após ano, se acumulavam à volta dos seus diâmetros. Remetendo ao próprio tempo um sim: sim, nós estivemos aqui. O pinheiro do lado esquerdo era a escada em caracol. Obrigava as crianças a subirem cada um dos seus ramos com uma força maior à que seria exigida, caso as escadas fossem degraus racionalmente ordenados.
Havia sempre alguém na Casa. Muito embora tal presença só pudesse ser observada através do cano de espingarda que casualmente espreitava pela janela. É por isso correcto dizer-se que, na Casa da Mata, a única música consentida era a do disparo. Ao seu redor, lá bem fundo, no chão, um cemitério de rolas estendia-se. Alimentando os cães e os gatos, residentes permanentes daquela quinta.
Eram três, as crianças que fugiam à sesta para ali se reunirem. Por vezes, um adulto – demasiado infantil para se render à idade biológica do seu corpo – acompanhava-as, munido de livros. Mark Twain era, invariavelmente, presença tão habitual como os cartuxos de pólvora. Apresentava-se em forma de vagabundo. E todas as crianças se tornavam em Huckleberry Finn. Nem um Tom Sawyer poderia entrar. Apenas o vagabundo, o pária, o esquecido, teria ali lugar. Quando se deseja viver na copa das árvores, ser marginal é requisito obrigatório.
Fora da Casa ficavam os sapatos. Ninguém entraria calçado naquele espaço. Havia um respeito estranho nisso. Não era apenas um lugar. Era um tempo. Um tempo entre os tempos. Dali só se saía quando o sino tocava lá em cima, na quinta, dando conta que o jantar já estava na mesa.
Até um dia. Até ao dia em que o sino deixou de tocar. E nunca mais tocaria. Era deixado à consideração dos meninos a que hora deveriam retornar a quinta. Obviamente que, quando esta possibilidade lhes foi dada, nenhum voltou. Viveram ali sozinhos durante quatro dias. Dormiam de tarde e, ao início da noite, despertavam. Contavam histórias uns aos outros. Todas elas inventadas. Não eram suas. Não retratavam as suas vidas, mas antes, as vidas que gostariam de ter e as pessoas que gostariam de ser.
Um seria caçador furtivo em África. Outra seria princesa. Porque sim: nascera para mandar e para ser princesa; mandar já mandava – a Casa da Mata, tinha sido edificada segundo um decreto seu: “Façam uma casa nas árvores. Vai ser uma casa só nossa!” – tornar-se Princesa seria uma mera questão de tempo. A outra – a mais pequena – escreveria sobre as aventuras dele em terras estranhas e as decisões tirânicas dela. Cabia-lhe um peso idêntico ao do tronco das árvores. Seria a memória.
E ela lembra-se. Ainda hoje se lembra da última manhã em que acordou na Casa da Mata. Sobressaltada pelo som de um tiro. Potente. Aguçado. Letal. Disparado longe da Casa, mas ainda sim demasiado perto. Demasiado presente. Viviam tão alto naquela casa, a que as folhas de feto davam uma cor tão viva que, ainda ensonada, temeu que os confundissem com pássaros.
Existiriam sempre outros caçadores. De uma espécie que não viveria em casas como aquela. Daqueles que sobrevivem presos ao chão. Pouco tempo depois do tiro ouviram as vozes dos adultos chamá-los. Era perigoso estar na Casa da Mata. Ninguém, a não ser os adultos da quinta, sabia da sua existência. Outros, vendo apenas a mata, poderiam disparar; atingi-los. Magoá-los. Matá-los.
O medo é sempre a melhor arma contra as ilusões das crianças. Nenhum deles voltou à Casa. No ano seguinte, um adulto mais preocupado mandaria destrui-la. Faria o melhor: protegê-los-ia.
Anos mais tarde, quando as crianças se tornaram adultos, continuariam a respeitar o temor. Presos à quinta, bebiam nas noites quentes de Agosto. Em conjunto. Já não havia vidas hipotéticas para serem vividas. Mas havia ainda o olhar preso nas árvores onde, um dia, existiu a Casa.
Sabendo que sim: existem casas com raízes que correm no sangue. E que, no íntimo, eles eram feitos da mesma madeira roubada que constituía as paredes de uma casa sem tecto. A vida não lhes mentira: não haveria nenhum caçador furtivo; não haveria nenhuma princesa; não haveria nenhum livro sobre eles. Haveria somente o que foram desde o primeiro instante, na Casa da Mata: vagabundos.
- Beatriz Hierro Lopes
domingo, junho 28, 2009
sábado, junho 27, 2009
«You are a foreigner of some sort.»
de futuro, só o medo
te compelia a mudar.
E além dos livros difíceis
que te davam as horas
mais duras, sofrias os danos
do hábito e uma assídua
preocupação com a morte
no escuro antes de dormir.
Ao corpo do mundo
só o conhecias com a parte
mais desacompanhada
de ti próprio – um coração
com defeito, peça de dúbia
oficina, que confundia
o amor e tomava por alegria
um perdido laranjal junto à linha
do comboio, com nuvens roxas
ao largo e os teus amigos todos
antes do inverno e do necessário
inferno reservado a cada um.
- Rui Pires Cabral
sexta-feira, junho 26, 2009
Mar Mediterrâneo
(é uma piada que circula por Jafa
sobre a fuga de um tal Jonas).
Mas eu não estava com disposição para piadas:
Sabedoria e dor talharam as pedras dos teus muros
e no meio das ruínas cravou na beleza
a lança dum minarete
na virgindade do céu e ali onde abarca todo o olhar
e toda a existência
encheu-se com a espuma do mar.
Talvez para os pássaros nocturnos que somos
haja algo de acertado naquela piada,
quando a terra escurece e florescem os lírios
e a noite se aproxima
e o mar semeia uma grande angústia na praia.
- Natan Yonatan
(tradução de David Teles Pereira)
Rasganço (2001)

O filme chama-se Rasganço que, segundo percebi, é uma tradição da Universidade de Coimbra que implica rasgar roupa e tal e, de outro ponto de vista, é aquilo que alguém devia ter feito à fita deste filme antes de ela ter ido para editar. Mas não vale a pena ir já tão rápido ao ataque, primeiro vou explicar que circunstâncias estranhas me levaram ao visionamento deste filme.
Há uns meses dei por mim numa sala de cinema a ver um filme baseado num livrito daquela senhora que deu aulas de modéstia - e segundo consta betão armado nível II - ao nosso primeiro-ministro. Dá pelo nome de Corte do Norte e todas as personagens que interessam para a coisa são feitas pela Ana Moreira. Dias depois tive uma ideia: parar de dar papéis ao Nicolau Breyner em todos os filmes portugueses e começar a dá-los à Ana Moreira. Para provar aos meus amigos cépticos e ao meu gato que eu estava certo, baixei a tampa da sanita, lavei as mãos e fui à Fnac comprar todos os filmes em que a Ana Moreira entrou, certo de que isso me ajudaria a escrever um artigo tão convincente que todos os realizadores portugueses e mais o João Mário Grilo e o António Pedro Vasconcelos passariam a ter sempre um papel para ela. E calhou ser este o primeiro desses filmes que vi.
Falando agora do filme. Para que entendam o tipo, imaginem o Rules of Atraction (o livro, não o filme) ambientado em Coimbra a acasalar com um Dexter ranhoso e fajuto. A criança que sairia dessa união, caso o parceiro feminino desta dupla fosse militante do CDS-PP ou do PPM, chamar-se-ia Rasganço de Raquel Freire.
E a história até nem tinha que dar em tanta estupidez. Conta-nos o drama dum jovem que chega a Coimbra com o sonho de estudar na Universa mas que rápido se apercebe que Coimbra é uma cidade elitista e que nunca vai conseguir concretizar o seu sonho. Então o que é que ele faz? Arranja um emprego nas obras? Escreve uma carta ao Presidente da República? Inicia um blogue e uma revista de poesia? Não! O que ele faz é desatar a violar moças que estudam na Universidade e a escrever a canivete no peito delas coisas que simbolizam a Universidade de Coimbra tipo U e AAC. Faz todo o sentido, não faz?
Mas sobre esta pérola do argumento, duas coisas. Primeiro, é nestas cenas de violação e facada que a realizadora aproveita para nos mostrar os seios das várias moças que entram no filme. Desta forma, Raquel Freire mostra-nos que é uma ávida consumidora do melhor cinema francês. Segundo, as tais siglas de que falei - U e AAC - são exactamente as primeiras que o violador rasga no peito das meninas. Duas violações depois somos presenteados com a perspicácia detectivesca do reitor da Universidade que conclui que certamente se trata de alguém que tem algo contra a Universidade. Segundos depois o mesmo reitor descobre que a berguilha das calças serve para evitar que o seu pénis ande a sair para fora das calças.
E por falar em perspicácia detectivesca, também entram uns agentes da PJ no filme. Como é que eu sei? Bom, primeiro porque estive com atenção ao filme e acho que isso até se percebe bem. Mas a maior pista nesse sentido foi o facto de todos eles usarem blusões de ganga largos. Toda a gente sabe que todos os agentes da PJ, pelo menos nos filmes e séries de televisão em Portugal, usam blusões de ganga largos.
quarta-feira, junho 24, 2009
Hey, that's no way to say goodbye
I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes, many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but now it's come to distances and both of us must try,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
I'm not looking for another as I wander in my time,
walk me to the corner, our steps will always rhyme
you know my love goes with you as your love stays with me,
it's just the way it changes, like the shoreline and the sea,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
I loved you in the morning, our kisses deep and warm,
your hair upon the pillow like a sleepy golden storm,
yes many loved before us, I know that we are not new,
in city and in forest they smiled like me and you,
but let's not talk of love or chains and things we can't untie,
your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.
- Leonard Cohen
terça-feira, junho 23, 2009
homecoming queen
Não há outra coisa que eu espere – à minha própria casa
cheguei como um hóspede inesperado e, só então,
os meus olhos se sentiram à vontade com o excesso
de mobília, com os retratos, as carpetes, os castiçais e os livros,
tudo desviado como rostos que sorriem para um jardim
que fica para lá do jardim de rosas que o meu avô mandou
plantar para a minha avó.
Eu era pequeno ainda, agora recordo-o, quando
pela primeira vez descobri o desconfortável que uma casa
cheia de livros chega a ser.
Falavam-me sobre o martírio de um santo que o meu pai,
não sem uma ligeira demonstração de horror materno,
me aconselhou a menosprezar. Chorei, era uma criança,
incapaz de aceitar o cepticismo como coisa felina.
Era feliz, consigo lembrar-me, com a minha consciência
a flutuar nas prateleiras da história e não o contrário.
Desde então apenas procuro isto: sentir-me à vontade,
ocasionalmente, como uma visita que surpreende
a própria casa onde mora.
«La Cathédrale Engloutie», de Debussy
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
- Jorge de Sena
Duas cartas
Vejo-te a suar à máquina de escrever
Fabricando versos abusáveis
Sobre a morte por asfixia na rede
Das leis necessárias. Os pedreiros, escreves,
Foram usados como argamassa já
Na construção da Grande Muralha, e continuam
A construir-se grandes muralhas. Nada de novo
Sob o Sol, escreves tu. Não escreves nada de novo.
Aprendeste a interrogar as respostas.
O aplauso que te ensurdece não é uma delas?
Os efeitos rápidos não são os novos.
Um encontro à noite depois da nossa conversa:
Dois republicanos a caminho da cama
Discutem sobre a democracia
PoisissoéaFormamasondeéqueficaoConteúdo?
Contam os anos pelos aumentos de ordenado
Os meses pela saída do Magazine
Cada um é um sábio, modelo Keuner
Não há pensamento que não passe pelo estômago
Nem medo das poças de água como em Büchner
Pequenas cabeças, mas têm razão
Quando, lendo os teus versos, dizem:
Que tem, afinal, este Alguém para nos dizer?
Será que não entendeu a importância da reforma agrária?
2
Que pode uma rima contra as cabeças ocas?
Perguntas tu. Nada, dizem alguns. E outros: pouco.
Shakespeare escreveu o Hamlet, uma tragédia,
A história de um homem que deitou fora o seu saber
Curvando-se a um costume estúpido.
Não conseguiu acabar com a estupidez.
Não quereria escrever mais que um mandato de captura?
Hamlet o dinamarquês príncipe e comida de vermes tropeçando
De buraco em buraco até ao buraco final desanimado
Atrás de si o fantasma que o gerou
Verde como a carne de Ofélia depois de dar à luz
O horizonte a armadura dura mais
E pouco antes de o galo cantar pela terceira vez um louco
Rasga o gibão de guizos do filósofo
E um mastim corpulento enfia a couraça.
Ou então Bertolt Brecht o incompreendido
Com grande persistência e alguma esperança
Também ele mais não podia fazer senão esticar o arco
Quantas cabeças ocas lhe sobreviveram?
Durante toda a vida procurou uma maneira
De não matar o outro. Perto do fim
Tinha-a descortinado de longe
Meio escondida por uma névoa de sangue.
Becher suou muito a construir sonetos
Para que se encontrassem as águas do Volga e do Neckar.
Terão os camponeses do Jura lido
Os Sonetos quando o comunismo
Lhes tirar a terra de cima dos ombros?
A nós resta-nos o espaço que vai do Nada ao Pouco.
- Heiner Müller
Hamlet
contra o portal da porta,
ao longe, reconhecendo vagamente
o que o meu tempo pode ainda trazer.
O escuro da noite jorra sobre mim
milhares de olhos que me fitam;
mas Abba, Pai, se essa for a tua vontade,
afasta esse cálice dos meus lábios.
Com firmeza o teu desígnio tem o meu amor,
este papel que me deste quero ter;
mas agora encena-se um drama diferente:
poupa-me agora do teu caminho.
E no entanto a ordem dos actos é fixa,
o fim do caminho é irreversível.
Estou só. Agora é o tempo dos Fariseus.
A vida não é como um passeio ao campo.
- Boris Pasternak
segunda-feira, junho 22, 2009
The Postcard Element in Winter (2)
it’s a little difficult to believe it was
written by a human being let alone someone
who made it past the second grade
you miserable bastard do you eat
from a plate
I enjoyed getting it
- Charles North
domingo, junho 21, 2009
"Já é tempo de acabarmos com estas divagações."
tem as suas horas mortas.
Alguns trocam de esplanada
pelos bancos do jardim -
aí se sentam ao frio, graves
como sentinelas, não se sabe
o que vigiam. Terão chegado
mais jovens à solidão derradeira?
Ou são apenas o espelho
da tristeza de quem passa
e se interroga? Os do costume,
entretanto, até bebiam
mais uma, catam dos bolsos
moedas, pedacinhos de cotão.
Mas está na hora, senhores,
que o dia pesa no corpo
e o rapaz que serve às mesas
já pôs o lixo na rua. Meus amigos,
faz-se escuro: adeus, adeus.
- Rui Pires CabralOráculos de cabeceira, Averno
sábado, junho 20, 2009
Onde a noite cai sobre Antuérpia
um possível começo um hotel um homem
bebendo whisky no balcão do bar
o gelo roça no vidro do copo
o calor atrasa as pás da ventoinha
uma mulher lê uma carta junto à janela sentada
num esquecido cadeirão de vime
é meio-
dia ouve-se lá fora a claridade de um motor
de automóvel europeu fazendo a curva de uma rua inquieta
um pouco de cinema algum pó
tem o longínquo nome de Kikwit esta cidade
o nome do hotel não sei — Congo Belga anos cinquenta
a película retrata um tempo colonial
não conheço esta história
sei apenas que a mulher tem um vestido azul
que a carta foi tecida na distância de Antuérpia ao pôr do sol
junto ao porto por um homem que a já não quer
a mulher tem um cigarro ao fim dos dedos a cinza cai
a perna cruzada
o joelho branco apontado ao janelão
que dá para a rua
o homem no balcão é o dono do hotel
é português usa fato gravata impecável no pescoço suado
tem um livro dentro do bolso do casaco e espera alguém
olha a mulher sem olhar a mulher
dentro dela cai a noite sobre Antuérpia
relê sempre a primeira frase que diz
____esteve um dia lindo no teu sorriso
das histórias que desconheço gosto muito desta
um lóbi de hotel uma cidade chamada Kikwit nos anos cinquenta
um homem uma mulher ele impaciente em whisky ela
triste em tabaco
não se conhecem nem se vão conhecer
o homem tem um livro no bolso a mulher o coração partido
entre o bar e o cadeirão de vime há um verso impossível
depois alguém entra a porta abre fecha
nesse intervalo um ruído de vozes calor poeira e comércio
invadem a placitude do lugar
o homem pousa enfim o copo no tampo do balcão
a mulher nem repara (esteve um dia lindo no sorriso dela
há muito tempo)
o português dirige a maior simpatia à
personagem que acaba de entrar — é Jacques-Yves Costeau
o conhecido oceanógrafo francês
trocam cortesias
o gesto português convida-o a sentar-se
apontando uma das cadeiras
o livro sai do bolso e vai estender-se na mesinha onde
acabam por deter-se
Costeau aceita a caneta do português
abre na folha de rosto escreve o seu nome
debaixo do nome desenha um peixe
a mulher amachuca um pouco mais a carta
no gesto de a guardar na mala
levanta-se sai do hotel
consigo vê-la dobrando o edifício à direita
não sei para onde levou o começo de um choro
não sei onde leva aquela rua
desconheço toda a geografia da cidade africana
bem como o fim da história
apenas que Costeau subiu para um dos quartos
que o português sentado sorriu na direcção do tecto
com o livro encostado ao peito
desapertou um pouco a gravata
soube-lhe bem o inexistente sopro da ventoinha
- Miguel-Manso
Má sorte que ela fosse mercenária
dos arrabaldes portuenses. Alta, toda loira,
só faltava miar. De longe e de perto a segui
ao longo dos anos mais tolos. Uma tarde,
no acaso de uma rua: meu amor perdido,
você ainda mora em Vilar do Paraíso?
Quando eu telefonei dias depois
ela me perguntou quanto é que eu ganhava.
Ao saber que era tudo lágrimas e livros,
ouvi — ai sim? — como arrefecia o paraíso
do outro lado da linha. Os meus vinte e cinco anos
aprenderam aí uma lição qualquer.
Mas já não me lembro muito bem
que aplicação ela teve, na gorada sequência
desses meses. A que só volto agora
porque já posso rir à vontade.
- José Miguel Silva
Sentava-se invariavelmente nos mesmos
sítios. Quando voltava pela segunda vez
já trazia consigo um hábito. Repetia
a mesa, a cadeira do bar e pedia a mesma
bebida. Repetia na cidade o mesmo café
a mesma livraria, o mesmo restaurante.
Roía as unhas com alguma ferocidade,
marcava desse modo as cobardias e os
entusiasmos.- João Miguel Fernandes Jorge
Casamento de Bangkok
aprendi o essencial tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amo
mas não o suficiente para
lhe explicar o porquê
por isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de beleza
seguimos o perfume
ela sabe
- Miguel-Manso
sexta-feira, junho 19, 2009
“I felt that it was all unreal.”
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.
Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.
Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.
E são como provas
de coisa nenhuma. Se acaso
nos fitam, parecem dizer:
a morte não será decerto mais estranha que a vida.
- Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009
Tea
the heavy pot, and tipping it up,
so the fragrant liquid streams in your china cup.
Or when you’re away, or at work,
I like to think of your cupped hands as you sip,
as you sip, of the faint half-smile of your lips.
I like the questions – sugar? – milk? –
and the answers I don’t know by heart, yet,
for I see your soul in your eyes, and I forget.
Jasmine, Gunpowder, Assam, Earl Grey, Ceylon,
I love tea’s names. Which tea would you like? I say
but it’s any tea for you, please, any time of day,
as the women harvest the slopes
for the sweetest leaves, on Mount Wu-Yi,
and I am your lover, smitten, straining your tea.
- Carol Ann Duffy
Memory dogs
to take them up on the downs
for games with sticks.
Their eyes follow me round the room.
When I reach for a book
they hang their heads in shame.
I took them to the outskirts of town
and opened the car door.
By the time I reached home
they were waiting on the doorstep for me.
Whatever made me think
I could live without them?
- Hugo Williams
quinta-feira, junho 18, 2009
Três poemas de Guillermo Boido
A poesia não se vende
porque
a poesia não se vende
Metalinguagens
hinos de liberdade não são a liberdade
só a liberdade é hino de liberdade
Credo
Não vi a ressurreição da carne
em contrapartida vi como um homem pode
entre os dentes da dor o chicote a fome
tornar-se alimento da sua própria carne
até alcançar o tamanho dos mortos.
(tradução de David Teles Pereira)
«He loved beauty that looked kind of destroyed.»
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza
arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.
- Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009
"A poesia tem uma felicidade que lhe é própria"
assinalou o momento em que começou a ficar cego
e o manuscrito jaz agora na casa onde nasceu na qual
o visitante é convidado a sentar-se e escutar o furioso
advento do Messias
ou, o que é o mesmo, tudo é sacudido pela música
até os cravos e os andares onde Händel brincou em criança
enquanto a inscrição marginal assinala que há que fechar os olhos
e pensar na música do caos, algo
que ignoram os astronautas o que conheço
por repetidas incursões na realidade
mas que para Händel foi ficar cego
tentar a borda da cama, provar o vazio a cada passo
com o penico na mão por esses corredores de Deus.
- Jorge Ricardo Aulicino
(tradução de David Teles Pereira)
Teoria da decisão
Acordara naturalmente. Era raro acontecer-lhe. Sem o toque despertador, sem a voz da empregada a lembrar-lhe que daí a dez minutos estaria atrasado para ir para o emprego. Acordara e, nos segundos que se seguiram, não ouvira nada para além da sua respiração sôfrega. Afastara os lençóis num gesto rápido e mecanizado, tentando afastar as imagens com que sonhara e que surpreendentemente, pareciam não o querer abandonar. Levou a cabo com rigor todas as suas habituais rotinas. Ligou a televisão para logo a seguir lhe suprimir o som, vendo, ainda ensonado, as imagens do mundo entrarem-lhe pelo quarto a dentro, sem qualquer formalidade.
Uma curiosa dependência invadira as gentes da sua época. Diante dos seus olhos – como os de tantos outros dependentes – passeavam-se imagens de gente morta ou prestes a morrer em guerras longínquas. Homens de farda, envoltos numa espessa névoa de pó, davam-lhe conta de pequenas batalhas. Gostava de ver. Gostava de cheirar a morte pela manhã. Embora todas essas mortes lhe fossem tão queridas como a morte do seu vizinho de cima, de cujo desaparecimento, só se dera conta dois meses depois.
A verdade é que, naquela manhã de Fevereiro, matar-se era uma ideia tão vaga como a vontade de beber café acompanhado de um cigarro. De manhã ninguém morre. Apenas os outros podem morrer de manhã.
Tendo terminado os seus rituais, vestiu o seu casaco de fazenda e saiu para a rua. As ruas esperavam-no sempre. Com os seus barulhos e silêncios imperceptíveis, com os seus cheiros – todos eles tiranos na hora de se fazer sentir – com os seus repetidos convites a uma existência gloriosamente supérflua. Sabia-lhe bem. Sabia-lhe terrivelmente bem andar pela rua. Sentindo que sim: que a vida nos espreita em cada esquina; em cada pedra da calçada já desgastada; no gesto esfíngico da estátua no centro da praça; nas cartas que os velhos jogam. Matar-se não estava obviamente nos seus planos. Mas era ainda dia.
Quando se deitou pouco depois das 23 horas, notou que não conseguia adormecer. Existiam ainda resquícios de imagens. Alimentou-as oferecendo-lhes toda a sua atenção, na esperança que, ao serem observadas intensamente, se extinguissem. Como se fosse possível existir um fim que vem com o cansaço, com a extenuação total e absoluta dos sentidos.
Ligou de novo a televisão. À sua frente tomou um e outro comprimido para dormir. Horas depois ainda desperto, continuou, num gesto cansado, o processo. Um a um tomou-os todos. A caixa estava agora vazia. Talvez uma caixa suficientemente vazia chegasse para matar a noite. Morrer é um gesto solitário. Morreria acompanhado pelos mesmos mortos que, pela manhã, lhe entraram no quarto. Sabendo que ele nunca seria o tipo de morto que acordaria os vivos na manhã seguinte à sua morte.
Morrer seria apenas uma casualidade. Um acontecimento aleatório na teia dos acontecimentos prováveis da sua vida.
Nada mais que isso.- Beatriz Hierro Lopes
Agora não, que falta um impresso…
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…
quarta-feira, junho 17, 2009
Dois poetas chineses
Nasce o sol trabalhamos.
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço, para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
- Queremos lá saber!
- poeta anónimo do Século III
(versão de Gil de Carvalho)
Viva o Vinho
Não queira ser lavrador,
malgastaria o seu tempo miseravelmente
na rotina do arado na Primavera
e dando ração ao gado todas as noites.
Além disso, os impostos
serão cada dia mais insuportáveis
e raro será o ano
em que a sua terra dará boa colheita.
Por isso, como a coisa anda
e para os que já o somos, o melhor será
curar as misérias embriagando-nos.
- Bai Juyi (772-846)
(versão de David Teles Pereira)
Um pouco mais que haiku de amor
fumados até ao litoral dos teus olhos. Continuo...
no mesmo sítio de sempre, devolvendo
às cadeiras o sorriso emprestado pela familiaridade
dos seus gestos tão poéticos.
Tenho acertado os dias pelos copos e agora
estão – ou estarei eu? – vazios. Vai-me pedindo
mais um copo, que eu vou convocar
certos demónios no espelho da casa de banho e, depois,
beber um pouco de água opaca, lavar bem as mãos, secá-las
e regressar à mesa quatro minutos menos feliz.
Não morras nunca, digo-te, acrescentando logo a seguir
que, mesmo assim, não quero falar da morte,
muito embora – desculpa-me a insistência –
o teu cabelo hoje me pareça mais preto.
Sorris.
É o que me vale, sabes sempre sorrir tão bem.
«Nunca se sabe.»
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.
Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem – é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.
- Rui Pires Cabral
Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009
Os Imortais (2002)

Fui ontem à apresentação dum romance e a certo momento falou-se de lentidão e indecisão. Segundo entendi - já que ainda não li o livro - esses dois aspectos devem ser vistos como algo de positivo no romance. Não discuto isso e, aliás, pelo que foi dito por quem apresentou o livro e pelo autor, desconfio que têm toda a razão.
Já andava há uns dias para escrever sobre este filme - que revi recentemente - porque sempre me pareceu que havia algo de tolo nele. Contudo, nunca tinha tido bem a certeza sobre o que seria, para além da estupidez óbvia que a mera ideia do filme já nos vai sugerindo. Isto é simples: nada naquele filme prometia grande coisa e, pelo menos aqui, o António-Pedro Vasconcelos é um dos meus realizadores preferidos, já que não me dá a mínima hipótese de o elogiar.
Ao chegar a casa, depois da apresentação do tal romance, fez-se luz. A lentidão e a indecisão são, ao contrário do que se passa com aquele livro, a razão do grandioso acidente rodoviário com vítimas mortais e pernas separadas do corpo que este filme é. Começo a explicação pela indecisão.
Nunca ao longo do filme o realizador se entende quanto à história que nos quer contar. O problema nem sequer vem da constante interacção entre presente, passado recente e passado longínquo. O que se passa é que aquilo que nos é contado em cada um desses tempos só com uma elasticidade mental comparável à abertura de pernas da Nadia Comaneci é que quer dizer alguma coisa. Drama da guerra colonial, traições, pátria, desespero, aborrecimento, paranóia do século XX, está lá tudo, mas da forma mais atabalhoada e forçada possível, pondo à prova as nossas certezas sobre os limites da estupidez.
Mas deixem-me copiar para aqui a sinopse do filme: Todos os anos, quatro ex-comandos combinam juntar-se, na companhia de quatro mulheres para comemorar os feitos de guerra e solidificar o espírito de grupo. Naquele verão de 1985, fartos da 'pasmaceira do país', decidem assaltar um banco. Joaquim Malarranha, um inspector da Judiciária em vésperas de se reformar, vai cruzar-se no seu caminho e, por ironia do destino, acaba a tocar guitarra na casa de fados de um deles. Um filme de polícias e ladrões, de heróis desempregados ou à beira da reforma, de sobreviventes e inadaptados.
Ou seja, temos uma espécie de Born on the Forth of July meets chavascal meets Beverly Hills Cop meets Heat meets Nicolau Breyner meets Small Time Crooks, tudo muito bem colado com cuspo.
Entre drama de guerra, filme de acção, policial, italo-western (spagetti western para quem não leu Homero), comédia indie e tolice, o filme oscila como os peitos da Marisa Cruz numa publicidade de que já só eu e o filho do João Vieira Pinto nos devemos lembrar.
Quanto à lentidão, apenas vos digo que conheço um gajo cinéfilo que comprou o filme em dvd e o pôs em forward velocidade 1,5 e até nem o achou mau. Consta também que o David Lynch viu o filme em reverse e o comparou a um Godard período azul.
terça-feira, junho 16, 2009
Vida
apático, talvez.
Olho para lá da vidraça a rua:
uma árvore que o vento,
ora brusco ora suave,
desgrenha;
sombras, claridades,
gente passando.
E entre papéis que não me dizem
nenhuma vida (e nem a morte),
vagamente apeteço a rua,
o vento,
a árvore;
ser sombra ou claridade,
alguém que passa no seu
destino só de passar.
Nem feliz nem infeliz: à espera
de tudo
e de nada.
Morre vagarosa a tarde.
Logo, depois do jantar,
como todos os dias lerei o jornal.
«Não quero saber de ti»*
e aquele postal em branco
que chegou da tua terra
não tinha remetente
nem resposta, só a imagem
no verso: um verão genérico
com muitas flores de estufa
e um fundo imaculado
de varandas e relvados.
Não queres saber de mim,
mas eu posso confessar-te
que passei todo o inverno
entre as tropas de Massena,
na fronteira, no Buçaco -
e enquanto eles avançavam
reino adentro, de capítulo
em capítulo, para ganhar
ou perder outra batalha, eu
ficava cada vez mais para trás
nas colinas, com os mortos,
nos plainos abandonados
entre rascunhos de versos
à paisagem em destroços.
Olha a grande novidade.
- Rui Pires Cabral
(Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009)
*WILLIAM BECKFORD, Diário de William Beckford em Portugal e Espanha [tradução de João Gaspar Simões], Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, p.123
segunda-feira, junho 15, 2009
Noutros lugares
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.
O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.
Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.
Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.
- Jorge de Sena
Amanhã: sessão dupla
Terça-feira, 16 de Junho, 18h30. Em Lisboa. Na FNAC Chiado.
E pelas 22h, o inquebrantável Miguel Martins* regressa ao palco do Bar A Barraca para uma leitura de poesia. Como convidado, Miguel trará o fadista Marco Rodrigues. A entrada é livre.* Depois de quase 20 anos de exílio, um par de imbróglios com a justiça do Ruanda, quatro filmes realizados na Nigéria, um escritório de import-export de sequóias, jacarandás, samambaias e abéculas aberto na Costa Rica, um mestrado iniciado em Araraquara e terminado em Port-au-Prince, badaladíssimos casos de amor com alguns oligarcas de São Petersburgo, Martins não resistiu ao convite de Oliveira e Costa e Dias Loureiro para voltar à terra natal, e reactivar as minas da Panasqueira. Actualmente, Miguel está com 62 anos, apresenta uma cútis revigorada e repete obsessivamente palavras como marmelada, estorninho, dolviran e Kanimambo.Nota da responsabilidade desse grande biógrafo, Senhor Changuito.
Snakes on a Plane - ou o elogio da poesia concreta (2006)

Avião vs Cobras - Antes do avião levantar voo, a caixa onde vão as serpentes não tem mais que dois metros de altura por um metro e tal de largura. Curiosamente, quando a caixa se abre saiem de lá uma catrefada de cobras. Nada de errado, a cobra é um bicho normalmente pequenino e maleável. O problema é que de entre as várias cobras, lá aparece uma espécie de anaconda ou giboia e uma Burmese Python que, por acaso, só estão entre as seis maiores cobras que existem. Então, temos o seguinte: o mafioso encheu uma caixa não muito grande com uma brutalidade em termos de número de cobras, sendo que duas delas são estupidamente grandes. Logo, querem-nos convencer que uma cambada de cobras todas apertadas numa caixa, dentro dum avião onde as pessoas foram borrifadas com a tal mistela que as põe agressivas não se mataram umas às outras antes da caixa se ter aberto.
Ah, já me esquecia disto. Uma das vítimas é mordida enquanto estava a mijar. Pela frase que vou citar a seguir dá-me ideia que vão conseguir visualizar a cena. Aw, fuck! Fucking bitch! Get off my dick! Aw, fuck! Fuck.
Claro que a bitch é uma cobra e não a Chloe Sevigny no Brown Bunny.
domingo, junho 14, 2009
Elogio da vida monástica
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.
Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
o ter-se uma alma que jogar e perder.
- Jorge de Sena
[As pedras]
para depois rasá-las no espelho
dos açudes. A ver na tarde
a quase aleatória repercussão
da sombra. O silêncio a descer
de novo após os incêndios
da reverberação. E outra
vez a quietude do mundo suspensa
do arremesso das pedras
guardadas nos bolsos.
- José Carlos Barros
Quem acha que a vida é para levar a sério
deve andar convencido de que a morte é a
brincar.- Miguel Martins
Isso de existir
e o outro, aquele taralhouco no meio da praça, que bate os braços e vai ralhando entre o cimo de umas escadas e o desespero, deixando-nos sem saber se está a tentar voar ou se apenas precisa que percam umas ideias para ele.
Aviso de porta de livraria
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.
E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata: que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n'alma.
- Jorge de Sena
Domingo
de um céu quase sem nuvens,
as águas, crespas, murmuram.
Jogam ao sol crianças
na aragem primaveril.
Já outras param pensando
as formas do corpo alheio.
Os barcos, suaves, singram
nos olhos de solitários
cujos passos hesitantes
pela praia se misturam
aos de corridas e jogos
da juventude esgotando-se.
As vozes chegam longínquas...
Meus passos deixam sinais
que a tarde, ténue, adejando,
aos outros misturará
na orla do mar azul.
- Jorge de Sena
sábado, junho 13, 2009
Silogismos da Amargura (2)
§ Das «verdades», já não queremos suportar o peso, nem sermos delas vítimas ou cúmplices. Sonho com um mundo onde se morresse por uma vírgula.
§ Só os espíritos superficiais abordam uma ideia delicadamente.
§ Estando gastos os modos de expressão, a arte orienta-se para a ausência de sentido, para um universo privado e incomunicável. Uma vibração inteligível, seja em pintura, música ou poesia, parece-nos, com toda a razão, obsoleta ou vulgar. O público desaparecerá em breve; a arte não tardará em segui-lo.
Uma civilização que começou pelas catedrais tinha que acabar no hermetismo da esquizofrenia.
§ Essa espécie de mal-estar quando tentamos imaginar a vida quotidiana dos grandes espíritos... Por volta das duas da tarde que poderia Sócrates andar a fazer?
§ Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Apenas os maus poetas são livres.
§ Uma moda filosófica impõe-se tal como uma moda gastronómica: não há qualquer diferença entre contestar uma ideia ou um molho.
§ Aprofundar uma ideia mais não é do que ofendê-la; é tirar-lhe o encanto, ou até mesmo a vida...- E. M. Cioran (edição Letra Livre / traduzido por Manuel de Freitas)
Em Creta, com o Minotauro
Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.
II
O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.
Violava e devorava virgens, como todas as bestas.
Filho de Pasifaë, foi irmão de um verso de Racine,
que Valéry, o cretino, achava um dos mais belos da "langue".
Irmão também de Ariadne, embrulharam-no num novelo de que se lixou.]
Teseu, o herói, e, como todos os gregos heróicos, um filho da puta,
riu-lhe no focinho respeitável.
O Minotauro compreender-me-á, tomará café comigo, enquanto
o sol serenamente desce sobre o mar, e as sombras,
cheias de ninfas e de efebos desempregados,
se cerrarão dulcíssimas nas chávenas,
como o açúcar que mexeremos com o dedo sujo
de investigar as origens da vida.
III
É aí que eu quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.
Conversaremos em volapuque, já
que nenhum de nós o sabe. O Minotauro
não falava grego, não era grego, viveu antes da Grécia,
de toda esta merda douta que nos cobre há séculos,
cagada pelos nossos escravos, ou por nós quando somos
os escravos de outros. Ao café,
diremos um ao outro as nossas mágoas.
IV
Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha]
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria. Apenas o café,
aromático e bem forte, não da Arábia ou do Brasil,
da Fedecam, ou de Angola, ou parte alguma. Mas café
contudo e que eu, com filial ternura,
verei escorrer-lhe do queixo de boi
até aos joelhos de homem que não sabe
de quem herdou, se do pai, se da mãe,
os cornos retorcidos que lhe ornam a
nobre fronte anterior a Atenas, e, quem sabe,
à Palestina, e outros lugares turísticos,
imensamente patrióticos.
V
Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.
- Jorge de Sena
A Piaf
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.
Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.
- Jorge de Sena
sexta-feira, junho 12, 2009
«A cadeira amarela» de Van Gogh
rusticamente empalhada, e amarela sobre
a tijoleira recozida e gasta.
No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papel
ou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.
Perto do canto, num caixote baixo,
a assinatura. A mais do que isto, a porta,
uma azulada e desbotada porta.
Vincent, como assinava, e da matéria espessa,
em que os pincéis se empastelaram suaves,
se forma o torneado, se avolumam as
travessas da cadeira como a gorda argila
das tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.
Depois das deusas, dos coelhos mortos,
e das batalhas, príncipes, florestas,
flores em jarras, rios deslizantes,
sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,
faltava esta humildade, a palha de um assento,
em que um vício modesto – o fumo – foi esquecido,
ou foi pousado expressamente como sinal de que
o pouco já contenta quem deseja tudo.
Não é no entanto uma cadeira aquilo
que era mobília pobre de um vazio quarto
onde a loucura foi piedade em excesso
por conta dos humanos que lá fora passam,
lá fora riem, mas de orelhas que ouçam
não querem mesmo numa salva rica
um lóbulo cortado, palpitante ainda,
banhado em algum sangue, o «quantum satis»
de lealdade, amor, dedicação, angústia,
inquietação, vigílias pensativas,
e sobretudo penetrante olhar
da solidão embriagadora e pura.
Não é, não foi, nem mais será cadeira:
Apenas o retrato concentrado e claro
de ter lá estado e de ter lá sido quem
a conheceu de olhá-la, como de assentar-se
no quarto exíguo que é só cor sem luz
e um caixote ao canto, onde assinou Vincent.
Um nome próprio, um cachimbo, uma fechada porta,
um chão que se esgueira debaixo dos pés
de quem fita a cadeira num exíguo espaço,
uma cadeira humilde a ser essa humildade
que lhe rói de dentro o dentro que não há
senão no nome próprio em que as crianças têm
uma fé sem limites por que vão crescendo
à beira da loucura. Há quem assine,
a um canto, num caixote, o seu nome de corvo.
E há cantos em pintura? Há nomes que resistam?
Que cadeira, mesmo não-cadeira, é humildade?
Todas, ou só esta? Ao fim de tudo,
são só cadeiras o que fica, e um modesto vício
pousado sobre o assento enquanto as cores se empastam?
- Jorge de Sena
Passagem cuidadosa
como flores que abriram no silêncio de outras,
a mim próprio escuto, e os olhos com que vejo
são minha voz falando o tempo de passarem
mais outras nuvens, qual a vida ao sopro,
ao invisível sopro ou chama ou só altura
interiormente aberta ao espaço que a rodeia.
A mim próprio escuto, eu sei. Mas não de mim,
que alheio vivo a vida que em mim fala.
Como as nuvens que passam cada vez são outras,
a quanto escuto ignoro ou esqueço ou nem contemplo,
abertos olhos, meu destino além
de mim, de tudo, eu próprio sou porque
já fui e não serei, ou serei sempre mais
de meu destino a essência que lhe dou
na extrema contingência de tornar a ser.
As nuvens passam cuidadosamente.
Escuto-as ou me escuto? Vejo-as ou me vejo?
Um cicio brando, um murmurar, um fluido
e ténue perpassar de pétalas molhadas,
como flores que abriram no silêncio de outras.
- Jorge de Sena
Os trabalhos e os dias
e principio a escrever como se escrever fosse respirar
o amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
de um caminho sem nada para o regresso da vida.
À medida que escrevo, vou ficando espantado
com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
quando fico triste por serem palavras já ditas
estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.
Uma corrente me prende à mesa em que os homens comem.
E os convivas que chegam intencionalmente sorriem
e só eu sei porque principiei a escrever no princípio do mundo
e desenhei uma rena para a caçar melhor
e falo da verdade, essa iguaria rara:
este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.
- Jorge de Sena
Glória
Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.
Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.
- Jorge de Sena
quinta-feira, junho 11, 2009
os seus modos de perna estendida
a sua mão lenta pendendo do sofá
numa confusão de corpos
meio cheios meio vazios
papéis rabiscados restos de cinza
do hábito de segurar entre dedos
o cigarro até chegar o outro modo de respirar
onde o coração não dispara tanto ou dispara menor
no vermelho da noite um plano de bomba
tropeçando em livros pelo chão
seguimos em magotes pelas ruas mas somos apenas dois
nesta cidade roma e os versos
que de catulo estão rabiscados nas paredes
(pedicabo ego uos et irrumabo
Aureli pathice et cinaede Furi
qui me ex uersiculis meis putastis
quod sunt molliculi parum pudicum)
servem para saquear dos restos do poema
o seu vermelho e azul de cântaro
porque já sabemos o que somos quando ele se partir:
tochas de arder tudo breve e apagar
iluminaremos apenas duas ou três palavras
antes da sombra antes de tirar os sapatos e
deixar os pés lisos nos escombros
dentro deste não estar posto
em sossegos de azul e olhos
de tanto percorrer o rumor caiado das casas
pusemos em fogo o que restava da cidade
é procurar agora o melhor ângulo
para lhe agarrar o instante de olhar
a sua areia quando se mover
das pálpebras cerradas
e a sua maneira de bicho encerro
de escorrer de mão em mão
entre os dedos
fortes
de fazer estalar o tempo
antes de chegar de vez a noite e pôr
tudo a saque
quarta-feira, junho 10, 2009
Um poema, cada poema
"(...)Escreve-se um poema devido à suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formidável, algo que nos transformará, que transformará tudo. Como na infância, quando se fica à porta de um quarto obscuro e vazio. Ficamos durante um minuto, uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma iluminação talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do anúncio suspenso e ameaçador: não acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. Às vezes pára-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. São variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: não acontece nada. A suspeita apenas de que nos aguarda uma espécie de graça reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, alguém que se ama, um ser imediato; ou então um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: é uma vida nova, uma força nova e profunda, é uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para nós perdida nas perspectivas inquietas da nossa contemplação. E recomeça-se. O mesmo, sempre. Nada. (...)"- Herberto Helder
A nuvem de calças
Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom.
Se quiserem,
serei impecavelmente delicado;
não serei homem, mas uma nuvem de calças!
Acham que é um delírio de malária?
Mas isto aconteceu:
aconteceu em Odessa.
Disse Maria: «Virei às quatro.»
Mas deram as oito.
E deram as nove.
E deram as dez.
E a tarde
da janela fugiu
para o nocturno horror,
umbroso
e dezembrino.
Ninguém poderia agora reconhecer
este gigante musculoso
que geme
e se contorce.
De que vale
ser de bronze
com um coração de ferro frio?
Entretanto fervem e saltam as rimas
de amor aos rouxinóis e outras bagatelas
e a rua contrai-se em pantomima –
não tem com quem cantar e discorrer.
Os Krupp fazem as cidades
com o cenho franzido
e a boca
cheia de palavras como mortos:
só duas vivem, engordando:
«sacana»
e ainda outra qualquer -
«sopa», parece.
Os poetas,
amolentados com soluços e choros,
abandonaram as ruas de melena no ar:
«Como se pode cantar com tais palavras
a mulher,
o amor
e as florinhas orvalhadas?»
Atrás dos poetas,
toda a nação:
estudantes,
prostitutas,
capatazes.
Senhores,
parem!
Não sois mendigos,
nada de pedir esmola!
Tirai, transeuntes, as mãos dos bolsos –
pegai em pedras, bombas e facas,
e quem não tiver mãos venha dar cabeçadas!
Venham, famintos,
suados,
sujos, submissos
e mordidos pelas pulgas!
Ai, para que é isto?
Donde vem isto?- Vladimir Maiakovski
Alberto de olhos cristalinos
e azuis de bons,
percorrendo passo a passo
a dor do homem,
repetindo erros, amarguras,
sofredor, tímido,
enamorado de Raquel sua colega.
Alberto não sabe ainda:
o amor é possuir
o nome de outro ser e dizê-lo
com a frescura, na voz, da água.- António Osório
terça-feira, junho 09, 2009
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.
Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.
Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em
desejo.
Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta
ninguém sabe.
- Luis Cernuda
Bar do Acaso
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.
Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.
- Rui Costa
no meu olhar perdi tudo.
é tão longe pedir. tão perto saber que não há.- Alejandra Pizarnik
A bela do bairro
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque
ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor
- Fernando Assis Pacheco
segunda-feira, junho 08, 2009
é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.- Renata Correia Botelho
Silogismos da Amargura
§ Falhar a vida é aceder à poesia - sem o apoio do talento.
§ Despojar a literatura do seu disfarce, ver o seu verdadeiro rosto, é tão perigoso como desapossar a filosofia da sua algaraviada. Limitar-se-ão as criações do espírito à transfiguração de bagatelas? E apenas existirá alguma essência fora do articulado, no rito ou na catalepsia?
§ As "fontes" de um escritor são as suas vergonhas, aquele que as não descobre em si, ou que se lhes furta, está votado ao plágio ou à crítica.
§ Quem se apoderou dos rudimentos da misantropia, se quiser ir mais longe, deve ingressar na escola de Swift: aí aprenderá a dar ao seu desprezo pelos homens a intensidade de uma nevralgia.
§ Embuste do estilo: dar às tristezas habituais um aspecto insólito, embelezar pequenas infelicidades, adornar o vazio, existir pela palavra, pela fraseologia do suspiro ou do sarcasmo!
§ Para quem respirou a Morte, não há desolação maior do que os odores do Verbo!
§ Mais do que ser um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte nem sequer a poesia conseguem corrigir.E. M. Cioran (edição Letra Livre e traduzido por Manuel de Freitas)
e isto é só o princípio...
![[2009_the_hangover_002.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjSKo0pwrCXfTl-1SOHnagKufxfdQfVeRnh3jddbSR6CJJtBVe-fZGxnrfDQSTcwhA8K-dNbsPnIeYQRW5vI-FnJHvFVlxH-HvyhNTmwU8RP0-gzyaAd6Gu1u0lemKQZfW4Fe6K/s1600/2009_the_hangover_002.jpg)




