Quarta-feira, Agosto 31, 2011

O falso mendigo

Minha mãe, manda comprar um quilo de papel almaço na venda
Quero fazer uma poesia.
Diz a Amélia para preparar um refresco bem gelado
E me trazer muito devagarinho.
Não corram, não falem, fechem todas as portas a chave
Quero fazer uma poesia.
Se me telefonarem, só estou para Maria
Se for o Ministro, só recebo amanhã
Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.
Diz a Amélia para procurar a Patética no rádio
Se houver um grande desastre vem logo contar
Se o aneurisma de dona Ângela arrebentar, me avisa
Tenho um tédio enorme da vida.
Liga para vovó Neném, pede a ela uma idéia bem inocente
Quero fazer uma grande poesia.
Quando meu pai chegar tragam-me logo os jornais da tarde
Se eu dormir, pelo amor de Deus, me acordem
Não quero perder nada na vida.
Fizeram bicos de rouxinol para o meu jantar?
Puseram no lugar meu cachimbo e meus poetas?
Tenho um tédio enorme da vida.
Minha mãe estou com vontade de chorar
Estou com taquicardia, me dá um remédio
Não, antes me deixa morrer, quero morrer, a vida
Já não me diz mais nada
Tenho horror da vida, quero fazer a maior poesia do mundo
Quero morrer imediatamente.
Fala com o Presidente para fecharem todos os cinemas
Não aguento mais ser censor.
Ah, pensa uma coisa, minha mãe, para distrair teu filho
Teu falso, teu miserável, teu sórdido filho
Que estala em força, sacrifício, violência, devotamento
Que podia britar pedra alegremente
Ser negociante cantando
Fazer advocacia com o sorriso exato
Se com isso não perdesse o que por fatalidade de amor
Sabe ser o melhor, o mais doce e o mais eterno da tua puríssima carícia.

- Vinicius de Moraes
in Antologia Poética, Dom Quixote

Mesa de café

Amigos e cerveja é a minha tarde.
A noite alinha-me os ossos.
Não fica, de tudo o que arde,
Mais do que uns tantos destroços.

Alguém pintaria a mesa:
Eu prefiro levantar-me.
A minha vida está presa
A outra espécie de charme.


- Vitorino Nemésio
(retirado daqui)

Terça-feira, Agosto 30, 2011

-
A poesia foi sempre a consequência do mal-estar que certos seres, entre os mais, experimentam, e num grau mais intenso que todos os outros seres, ao contacto com o real, com o inflexível real, uma tentativa de reduzir este real a qualquer coisa de dúctil, de flexível, que se possa formar, transformar e estreitar à sua vontade. A imagem é, por excelência, o meio de apropriação do real, com vista a reduzi-lo a proporções plenamente assimiláveis às faculdades do homem. É o acto mágico de transmutação do real exterior em real interior... A imagem é uma criação pura do espírito. Ela não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as relações das duas realidades aproximadas forem longínquas, tanto mais a imagem será forte, tanto mais ela terá potência emotiva e realidade poética. Se os sentidos aprovam totalmente a imagem, matam-na no espírito. A poesia não está na vida nem nas coisas - é o que fazeis dela e o que lhe acrescentais.

De resto, ele (o poeta) não conta as suas viagens, não sabe descrever os países que viu. Ele nada viu, talvez, e quando o olham, com medo de que o interroguem, baixa os olhos ou levanta-os para o céu onde outras nuvens se esvaem. O que importa ao poeta é chegar a pôr a nu o que nele há de mais desconhecido, de mais secreto, de mais oculto, de mais difícil de descobrir, de único. E se não se enganar no caminho, chegará em breve ao mais simples... E esta passagem da emoção bruta, pesadamente sensível ou moral, ao plano estético onde, sem nada perder do seu valor humano, elevando-se a uma escala superior, ela se alija do seu peso de terra e de carne, se depura e se liberta de tal sorte que passa de sofrimento do coração a gozo inefável do espírito, isso é a poesia.

- Pierre Reverdy
(tradução de António Ramos Rosa)
in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro

Arte de traduzir

Devemos celebrar as traduções felizes.
Como o Précis de décomposition
de Cioran, convertido
em Breviário de apodrecimento.
Em momentos de máxima insegurança cultural
a arte de traduzir ergue-se
como última forma de conhecimento.
Agora que a torre da história
sofre assédios que podem ser os definitivos
temos de recorrer aos especialistas
e aos que traduzem
sem precipitação e com audácia
intuindo o sentido final dos escritos.
Para compreender tudo
o que se passa nestes anos,
basta este livro
de Arnaldo Momigliano
que trata de uma outra época:
The Alien Wisdom, que alguém traduziu
de forma tão bela por A sabedoria
dos bárbaros.

- Juan Antonio González Iglesias
(versão de LP)

Segunda-feira, Agosto 29, 2011

Do not go gentle into that good night: o protocolo entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora

O pouco debate que têm suscitado as considerações de António Guerreiro sobre o “protocolo” entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora é preocupante. Parte da posição que o crítico do Expresso adopta, especialmente quando refere que “o «protocolo de colaboração» celebrado no final da semana passada entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora pode ser uma benéfica operação”, não deixa de me recordar Benito Cereno, o aristocrata e capitão de um navio mercante da história homónima de Herman Melville, que depois de um motim dos escravos que transportava a bordo do navio se vê obrigado por estes a pilotar o barco em direcção a África, totalmente contra a sua vontade.
Essa parte do texto de Guerreiro segue um princípio: este protocolo corresponde, no fundo, a uma aquisição do catálogo da Assírio & Alvim por parte da Porto Editora, a qual continuará a editá-lo, distribui-lo e, idealmente, expandi-lo na sua progressão lógica. Este princípio, contudo, peca pelo optimismo infundado em que se sustenta.
Esquece, em primeiro lugar, que este protocolo não é o equivalente a um tratado de amizade e cooperação entre dois grandes Estados. É, antes, um tratado de rendição entre uma potência vencedora e um pobre país derrotado. Esteja mascarado como estiver, a Assírio não deixa de ser o exemplo de uma editora derrotada e humilhada numa guerra instalada no universo das editoras em Portugal. Talvez a Assírio possa gozar do prestígio de ter sido uma das últimas “grandes” a cair, mas nem tanto assim. Há que culpar esta editora e os seus responsáveis por parte da derrota que sofreu. A política editorial da Assírio, especialmente no campo da poesia portuguesa inédita, há muito que tinha abdicado de concorrer com a Relógio d’Água e com a Cotovia, bem como com as pequenas editoras deste ramo. Na publicação de poesia estrangeira, a Assírio continuou a desempenhar um papel fundamental, mas isto resultou muito mais do esforço titânico do seu grupo de tradutores – encabeçado pelo enorme José Bento – do que de uma política editorial perfeitamente intencional e ponderada. A incapacidade que esta editora tinha vindo a demonstrar em renovar e aumentar este corpo de colaboradores era já um prenúncio de que uma meia dúzia de bravos soldados seria sempre insuficiente para evitar o descalabro.
Esquece, também, o caso da Quetzal. Não tendo um catálogo de poesia tão relevante quanto o da Assírio, era uma editora com uma razoável quota de publicação neste género, a qual, desde então, se varreu do mapa. Devemos, legitimamente, temer que a Assírio seja vergada a este mesmo destino.
Por último, esquece que na lógica comercial praticada por estes conglomerados a poesia é, quando existe, um parente pobre. A poesia não vende, porque não a vendem. A sê-lo, em condições aproximáveis dos romances, dos livros de crónicas e dos livros de auto-ajuda, o panorama não seria certamente o mesmo. A ideia de que a poesia não vende é muito menos uma conclusão óbvia do que é o resultado de uma vontade coerente com uma política de silenciamento ou emparedamento de qualquer oposição. O lugar reservado aos poetas nas editoras parece ser um só: o apodrecimento, com o acréscimo de que, agora, esse apodrecimento é aproveitado como espéctaculo de circo, como freak show de uns poucos loucos e aluados, de uns “alternativos”. Claro que a culpa disto é, em grande parte, dos próprios autores de poesia que usam e abusam da farda da marginalidade sem perceberem que não têm verdadeiramente a liberdade de o fazer, apenas lhes foi dada uma licença para tal e isto é devastador. O resultado é o nascimento de uma marginalidade fútil e ensaiada, como se o tema da poesia, em vez do humano, fosse agora esse circo. Neste espaço, cresce quase sempre uma poesia que ou brinca a ser poesia ou se ridiculariza a si própria. Aquele verso do Charles Simic que diz que “O tempo dos poetas menores está a chegar” mais tarde ou mais cedo vai ter que ser interpretado à letra: caminhamos para um tempo só de poetas menores.
Estes não são indícios favoráveis ao futuro do catálogo de poesia da Assírio. Aliás, se pensarmos no caso da publicação de poesia portuguesa inédita, que a Assírio já praticamente tinha abandonado, as palavras de António Guerreiro não são suficientes para expressar o risco mais natural deste protocolo: o abandono total da publicação de poesia inédita portuguesa ou, então, o abastardamento desta pela rejeição dos princípios editoriais que, apesar de trémulos, a Assírio ainda mantinha.
Não esquecendo as palavras de Vasco Teixeira, responsável editorial da Porto Editora, na sua “profecia” sobre a publicação de poesia, António Guerreiro não discute uma das partes essenciais dessa declaração: o papel das pequenas editoras na publicação de poesia. Estas têm desempenhado, em Portugal, as funções que noutros países cabem a grandes editoras. Basta olhar para Espanha e pensar na Hipérion, na Visor, na Bartleby e na DVD. Tirando a Assírio, as únicas editoras de maior dimensão a terem um catálogo de poesia relevante são a Cotovia e a Relógio d’Água. Em qualquer um destes casos, a publicação é parca e, aparentemente, indissociável dos seus editores específicos – André Jorge e Francisco Vale, respectivamente – que, melhor ou pior, têm tomado essa tarefa em mãos, parecendo, tal como no caso da Assírio, que com outras pessoas esses projectos já nem sequer existiriam. Neste espaço, as pequenas editoras têm florescido, apesar das dificuldades que todas elas enfrentam e, também, da dependência que algumas têm das fontes de financiamento exteriores à sua actividade. Elas são, também, projectos absolutamente pessoais: veja-se o paradigma cristalizado por Vítor Silva Tavares na &etc.
Estes projectos, quando referidos neste âmbito, têm sido quase sempre unanimemente enaltecidos sem que a verdadeira situação seja exposta: as pequenas editoras não são, para a poesia, uma solução viável. O seu reino instalado, na poesia portuguesa, não é uma solução, não é uma cura, é apenas um sintoma de uma grave patologia. Na melhor perspectiva, estas editoras são paliativos para um animal moribundo o qual, daqui a pouco, será mais recomendável para o abate que para o tratamento. Não se trata da morte da poesia, como a incompetência apocalíptica de alguns pressagia, mas antes da morte da sua acessibilidade, da morte de um circuito eficiente de distribuição que procure permitir que o número de leitores suplante satisfatoriamente o número de autores.
Este protocolo com a Porto Editora apenas será benéfico se o poderio financeiro do conglomerado sustentar um renascimento da antiga Assírio & Alvim. Isto não é um desejo pessoal, é uma obrigação que pesa necessariamente sobre uma editora que assumiu uma quota de mercado tão relevante da literatura em português. Se servir apenas para continuar o mesmo caminho estreito em que a Assírio já estava a entrar ou, pior, se servir para o estreitar ainda mais, estaremos cada vez mais próximos da morte.

Domingo, Agosto 28, 2011

.
I could be bounded in a nutshell,
........................
........and count myself a king of infinite space,
..................were it not that I have bad dreams.

-
Voltar a alinhar as palavras e sentir
uma sensação de já visto. Filme
que se passa ao contrário. Cenas
de praça junto ao rio; canais
iluminados; um barco ao longe.
Voltar então ao princípio: o fim.

Mas fazer disso mesmo profissão
de fé. Sem remorso. Agitar
o contorno das cidades, alterar
ruas, trocar avenidas, deixar
que o acaso decida o rumo
do caminho a percorrer.

Assim poderás, então, entrar
na tua cidade: nascer de novo.

- Eduardo Guerra Carneiro
in Profissão de fé, Quetzal

A vida é um sopro

Sábado, Agosto 27, 2011

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Furiosos

Para o David e a Golgona

J’ai plus de souvenirs que si j’avais mille ans.

Baudelaire

Ruas ainda incompletas, leves, musicais,
árvores estranhamente calmas e os postes
com os seus altos frutos eléctricos.
Os sinos lastimam a hora
enquanto a claridade abre por esse labirinto
de ecos com figuras assomando às janelas
nos seus pijamas de mijo, patéticas expressões
e essa embriaguez receosa do acordar.
O vento, entediado, arranca às paredes
os anúncios da vida dos outros, ambições
de lixo, a porca ilusão de sorriso usado
e nós, a ela encostados, as mãos
nos bolsos de um assobio assistindo
à debandada dos horizontes.

Amanhece então, e a luz entra-te descalça
no quarto, nasce mulher num espelho.
Toda vaidosa, nesses trejeitos de desgraça,
deixa-te aflito. Vais lá

abaixo, comprar cigarros, e demoras-te.
Ruelas, caminhos lentos, casas assentes
nas distâncias de ontem. O mel e o granito,
a conspiração dos gatos nos pátios,
e o teu, no fundo desinteresse da cozinha,
tombado num ângulo do meio-dia.
Forjas um pouco mais de noite.
Estores corridos, canções obsessivas
arranhando os braços e o tempo, levantando
as crostas do silêncio.
Parte-se o copo em que bebeste,
ficam aí, tremidas, letras líquidas
afogando sons.

Com olhos suavizados
no cego estudo dos astros, deito-me
sobre um espelho alucinado. Tenho imensidões.
Tantos sonhos por acabar. Levo as mãos
aos ninhos do delírio, leitos onde
o sangue gosta de inventar pulsos,
ritmos espantosos, mil corações a
avançar no mesmo sangue com a fúria
das antigas invasões.

É-se homem entre as coisas que partilham
os nossos pensamentos, como se tirasse
a roupa e fosse nu tocando tudo,
afinando-me em tudo. A repetição fascinada,
a soma dos detalhes – flores boquiabertas –,
ergue-se um hino num quarto perdido.
Nenhum outro gosto mudará este.

Só que, por vezes, este vazio
já não nos devolve. Lembra-me aqueles livros
que líamos juntos como se por medo
do seu esplendor. Lembram-se?
Aquela impulsão à força de prodígios,
cadências mágicas, lampejos de ouro,
sílabas que nos amadureciam a boca,
como raízes fracturando o silêncio,
criando o peso, um luto, esse enterro
a que chamamos alma.

Por isso nos ancoramos em alguém.
De tempos a tempos, os lúgubres jardins
das nossas longas conversas, pequenas
e doces intrigas, o alvo grotesco que é
o mundo e a nossa época, os impossíveis
pássaros em volta e os velhos ruminando
sempre a misteriosa palavra «etcetera».
Esta, a melhor hora. Seu arrepio prenhe
do melodioso cansaço dos insectos
por esses fins de tarde e de mundo. Depois,
só os grilos, arrumadores da noite,
cobrindo entre si toda a sua extensão.

Olho as luzes
intensificando-se, reconto cada uma
das razões porque sou fácil e deixo que
subam da rua à minha cama todas as
figuras dolorosas de sonho. Vou ateando
noutra pele o fogo, até que sossegue.

Como galos nocturnos, dispersas,
as estéreis noivas do sebastianismo,
suas viúvas também e as putas, essas sim,
verdadeiros pilares da noite.
Bares e boates, cabarés, pequenos manicómios,
os frágeis e os malandros. Rostos escurecendo,
unhas agudas na superfície das mesas,
um coral de copos, de melodias nocturnas,
miúdos de olhos vagos e com um ar
de crime. Magríssimos. Nos braços a mordida
das agulhas.

Rangeres de
dentes, resmungos perpétuos, choramin
-guices, soluços fabulosos, serenatas dementes
e súplicas que ninguém atende.
Cravam-se cigarros, adjectivos, levam-se
versos, os da carne, enlouquecida. Misturam-se
influências brutais, passagens lunares e sóis
puxados doutros mundos. Cá estamos,
sobrenaturalmente sóbrios, nesta arte de ir
perdendo o chão. Furiosos, no meio de tudo.
Uma gente que espera, murcha entre parêntesis
de treva. Gestos frios, prolongados, esculpidos.
Flores austeras. Tristes ossos. E toda a noite
escava-se. Enterram-se uns aos outros,
solidariamente. As reticências de tudo
em tudo, a eternidade desse último
suspiro. Este pressentimento de morte,
aquilo que, afinal, nos diz que estamos vivos.

Sexta-feira, Agosto 26, 2011

Os amorosos

Os amorosos calam.
O amor é o silêncio mais fino,
o mais temeroso, o mais insuportável.
Os amorosos buscam,
os amorosos são os que abandonam,
são os que mudam, os que esquecem.
O coração lhes diz que nunca hão-de encontrar,
não encontram, procuram.

Os amorosos andam como loucos
porque estão sós, sós, sós,
entregando-se, dando-se a cada instante,
chorando porque não salvam o amor.
Preocupa-os o amor. Os amorosos
vivem dia a dia, não podem fazer mais, não sabem.
Sempre estão a ir-se,
sempre, para algum lado.
Esperam,
não esperam nada, mas esperam.
Sabem que nunca hão-de encontrar.
O amor é a prorrogação perpétua,
sempre o passo seguinte, mais um, mais um.
Os amorosos são os insaciáveis,
os que sempre – que bom! – hão-de estar sós.

Os amorosos são a hidra do conto.
Têm serpentes no lugar de braços.
As veias do pescoço incham-lhes
também como serpentes para asfixiá-los.
Os amorosos não podem dormir
porque se dormem os vermes vão comê-los.

Na escuridão abrem os olhos
e neles cai o espanto.

Encontram lacraus debaixo do lençol
e a cama flutua-lhes como por sobre um lago.

Os amorosos são loucos, só loucos,
sem Deus e sem diabo.

Os amorosos saem das suas covas
trémulos, famintos,
à caça dos fantasmas.

Riem-se da gente que sabe tudo,
a que ama a perpetuidade, veridicamente,
da que acredita no amor como em lâmpada de azeite
inesgotável.

Os amorosos brincam a apanhar água,
a tatuar o fumo, a não partirem.
Jogam o longo, o triste jogo do amor.
Ninguém há-de resignar-se.
Dizem que ninguém há-de resignar-se.
Os amorosos envergonham-se de toda a conformação.

Vazios, mas vazios de uma costela a outra,
a morte fermenta-lhes por detrás dos olhos,
e eles caminham, choram até à madrugada
em que comboios e galos se despedem dolorosamente.

Chega-lhes por vezes um cheiro a terra recém-nascida,
a mulheres que dormem com a mão no sexo, satisfeitas,
a riachos de água carinhosa e a cozinhas.
Os amorosos põe-se a cantar entre lábios
uma canção não aprendida.
E vão-se chorando, chorando,
a formosa vida.


- Jaime Sabines
(tradução de Vasco Graça Moura)
in Os Amorosos e outros poemas, Quetzal

A linguagem dos pássaros

Esta é a linguagem dos pássaros
vem cá, não venhas cá
vai lá, não vás lá,
aviso, lá vem alguém
alguém voando, aviso
Este é o meu lugar, não o teu
meu teu meu teu. Canto para o ninho
para que seja ouvido no ovo em ti
para que seja ouvido no ovo
para que seja ouvido
um rosário de regras sem palavras,
mas leva-nos ao Egipto e mais além
e de volta novamente. Não percebes
a não-verbalidade? Às vezes percebes
e disparas e matas, ou então deixas

- Gunnar Ekelöf
(tradução de Vasco Graça Moura)
in Antologia Poética, Quetzal

Quando o homem entra na mulher

Quando o homem
entra na mulher,
como a rebentação
batendo na costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem
dentro da mulher
ata um nó,
de modo que nunca mais
possam voltar a separar-se
e a mulher
trepa a uma flor
e engole o seu pecíolo
e Logos aparece
e solta os seus rios.


Este homem,
esta mulher
com o seu duplo desejo
tentaram atravessar
a cortina de Deus
e conseguiram-no por um instante,
embora Deus
na Sua perversidade
desate o nó.

- Anne Sexton
(tradução de Jorge Sousa Braga)
encontrado aqui

Espelho de Outubro

os nervos rangem docemente no crepúsculo
que flui pardo e doce pela janela
as flores vermelhas magoam docemente no crepúsculo
e canta a lâmpada solitária ao canto

o silêncio bebe a chuva calma de outono
que à colheita não traz mais nada
as mãos juntas aquecem-se
os olhos fixos embaciam-se nas brasas

- Gunnar Ekelöf
(tradução de Vasco Graça Moura)
in Antologia Poética, Quetzal

Quarta-feira, Agosto 24, 2011

Isto era um anúncio da Levi's

1. O dia


Amanheceu sem ela.
Mal se move.
Recorda.

(Meus olhos, mais estreitos,
sonham-na).

Que fácil é a ausência!

Nas folhas do tempo
essa gota do dia
resvala, treme.

- Jaime Sabines
(tradução de Vasco Graça Moura)
in Os Amorosos e outros poemas, Quetzal

-
Minha mãe só, na sua velhice ensimesmada,
sem dor e sem lástima,
ferida por tua morte e por tua vida.

Isto deixaste. Sua paixão erguida,
seu zelo firme, seu labor sombrio.
Árvore de fruta a um passo da lenha,
seu curvo sonho que te ressuscita.
Isto deixaste. Deixaste-o mas não querias.

Passou o vento. E ficaram, da casa,
o poço aberto e a raiz em ruínas.
E chorar é em vão. E se bateres
às paredes de Deus, e se arrancares
o cabelo, a camisa,
ninguém te ouvirá nunca, nem te vê.
Não volta ninguém. Nada. Não regressa
o pó de ouro da vida.

- Jaime Sabines
(tradução de Vasco Graça Moura)
in Os Amorosos e outros poemas, Quetzal

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Uma orquestra desconcertante


[Texto de David Teles Pereira, publicado no Ípsilon de 19 de Agosto]

À leitura de “Vim porque me pagavam” (Mariposa Azual, 2011) pouco importa que Golgona Anghel tenha nascido na Ilíria Ocidental, como também pouco importa a sua língua materna e, até, pouco parece importar a história e a cultura do seu país, a Roménia. Tudo isto, aparentemente, foi afastado deste livro com uma precisão intencional, à excepção de uns poucos momentos em que se entrevêem algumas referências ao seu país de origem, ainda que estas surjam quase sempre como um mecanismo de auto-ironia da autora, não mais relevante que qualquer outro: “Não vou pedir asilo./ Desconheço os avanços/ ou retrocessos económicos do meu país./ Já falei de Drácula que chegue.” (p. 13). Diga-se já agora que, curiosamente, um dos poucos poemas em que se nota que Golgona Anghel é uma poeta estrangeira a escrever em português é o seu “Portugal, dia um de Maio de dois mil e oito”, onde a autora se relaciona com este país na segunda pessoa do plural, não conseguindo, apesar disso, estabelecer com ele uma verdadeira comunicação que não pareça algo forjada: “As nossas amantes baratas./ As nossas putas disponíveis – agora, se faz favor./ Os nossos sonhos transatlânticos./ Os nossos hábitos light, soft, ecológicos, se possível” (p. 70). Apesar de isto que se acabou de dizer, não deixa de ser verdade que é absolutamente central saber que o português não é a sua língua materna e, principalmente, que a sua aproximação e aprendizagem desta língua se fizeram muito mais pela via literária, do que pelo hábito de ouvir uma língua e pela necessidade de a falar.

Este segundo livro de Golgona Anghel, depois de “Crematório Sentimental – guia de bem-querer” (Quasi Edições, 2007), é um dos livros mais fortes entre aqueles que foram lançados pela Mariposa Azual, que, como outras pequenas editoras, tem vindo a ocupar o espaço que as editoras de maior dimensão, como a Assírio&Alvim, abdicaram conscientemente de ocupar. Na sua estrutura, “Vim porque me pagavam” encontra-se dividido em três partes – “Sem destino”, “Sem personagem principal” e “Sem tempo” –, sem que seja à partida perceptível ao leitor a razão de ser desta divisão. Não é necessária uma leitura particularmente atenta para ficar claro que o esquema de organização dos poemas é um dos aspectos menos conseguidos deste livro. Os poemas têm, entre si, muito mais coerência do que as partes pelas quais Golgona Anghel entendeu reparti-los, o que tem um resultado particularmente estranho: sendo coeso enquanto livro, porque todos os seus poemas são nitidamente impulsionados por um mesmo motor, as suas partes nunca o são, ficando a ideia de que um qualquer outro puzzle destes poemas continuaria, no final, a formar a mesma imagem.

Face a “Crematório Sentimental”, apesar de o parentesco entre estes dois livros resultar da partilha de mais alelos que apenas a autoria, há um notável progresso tanto a nível prosódico como estilístico. Um dos aspectos em que melhor se observa este progresso é na disposição dos versos em cada um dos poemas. O verso relativamente longo que abundava no livro de estreia é, em “Vim porque me pagavam”, substituído por frases ou versos mais curtos, que fazem os poemas convergir elipticamente para os seus momentos finais: “Escrevo a palavra vazio/ depois da palavra espera.// Pouso as mãos sobre os joelhos cansados./ Limpa/ mal vestida,/ – olhai –/ sou o novo modelo para o fracasso” (p. 22) ou “Eu fácil eu farto eu fome/ com a vida marcada na pele,/ olha-me de frente/ quando gritas e esticas a pernoca./ Quem manda aqui sou eu./ Agora abre a boca.” (p. 33).

Porque é que se disse que é central a forma de aproximação de Golgona Anghel à nossa língua e cultura, ao igual que às línguas e culturas francesa e espanhola, que por vezes surgem neste livro? Porque o resultado disto é uma composição prosódica dos poemas muito mais mecânica, porque advém da aprendizagem pela literatura do português, do que natural, apesar de os seus versos fluírem quase tão instintivamente como uma conversa e de abdicarem, em grande maioria, do refinamento lírico: “A depressão começa a andar na moda./ Fiz diabetes, cortei as veias duas vezes,/ fugi de casa, gastei uma mulher em cada livro,/ perdi a paciência, o rumo da história,/ perdi a memória,/ a cabeça, senhores telespectadores,/ (tinham entretanto inventado a televisão)/ no minúsculo/ buraco negro/ duma bala.” (p. 67). Neste nível, o trabalho poético de Golgona Anghel não é apenas admirável, é também completamente original.

“Vim porque me pagavam” é um livro desconcertante, o seu aparato de recursos não pode deixar de causar uma certa confusão no leitor. Utiliza do humor tanto o seu efeito cómico como a sua capacidade para humilhar a nossa natureza, principalmente quando vira esta contra si própria, contra o seu corpo [“Tudo tende à efabulação no nosso país/ e é com estes elementos alegres,/ que nós procuramos,/ se não restaurar o império de África,/ ao menos celebrar os santos populares.” (p. 52) ou “O meu corpo foi sempre um campo de batalha./ Passaram tantos soldados por aqui,/ mas a revolução ficará sempre sem futuro” (p. 20)]; cultiva uma pose aparentemente tão despreocupada quanto inofensiva, mas que, como um lobo que se disfarça de cordeiro, é uma ameaça, o que é evidente no próprio título do livro ou em versos como estes: “Obrigado por procurem a eternidade da raça./ Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça” (p. 26) ou “Vou esvaziando os copos/ e começo a compilar beijos,/ como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:/ somos todas putas, rapaz,/ com ou sem vodka.” (pp. 51 e 52). Repare-se que em contraste absoluto com o minimalismo estético da capa e da encadernação deste livro, a poesia de Golgona Anghel é extravagante, plena de exuberâncias e adornos, apesar de isto acontecer muito no seu aparato imagético e referencial e pouco na composição lírica dos seus poemas [“Vim porque me falaram de apanhar cerejas/ ou de armas de destruição em massa./ Mas só encontrei cucos e mexericos de feira, metralhadoras de plástico, coelhinhos de Páscoa e pulseiras/ de lata.// A bordo, alguém falou de justiça/ (não, não era o Marx).” (p. 58)].

Mas há uma outra razão, talvez mais importante ainda, para este ser um livro desconcertante. Ele revela-nos, com uma profundidade e uma honestidade que não podem deixar de ser notadas, alguém que tem uma visão do mundo totalmente mutilada, porque a vê com uma muralha de livros – com uma muralha literária – por intermédio. Este detalhe é, contudo, ambivalente. Mostra que Golgona Anghel é uma das poucas autoras que de forma sincera e, ao mesmo tempo, competente consegue traduzir esta condição de interpretação do mundo nas palavras dos outros. Contudo, ao mesmo tempo, essa muralha é uma fronteira que a autora coloca entre o leitor e uma chave de compreensão dos seus versos. À partida, daqui não resultaria necessariamente um problema de leitura, mas para isso acontecer, a abundância de referências a livros e a autores, personagens e lugares de livros deveria ser muito mais frugal ou, pelo menos, muito mais estruturada e menos orgíaca. É importante ter sempre em conta a lição de Mallarmé, a poesia é feita de palavras e não de ideias e, acrescente-se, muito menos de referências literárias cultas. Estas só muito tangencialmente atestam a qualidade de um poema e a sua profusão incorre não poucas vezes num resultado incómodo: a artificialidade [“Talvez o requinte em retardar,/ que fazia com que o marquês de La Fayette,/ dirigindo-se para a flor do seu desejo,/ tomasse séculos a chegar à hora H./ Sabe o que dava tanta pica à hora H/ nos tempos do rei Artur? Não sabe... Pois,/ resultados de não lerem/ Geoffroy de Monmouth (século XIII).” ou “Mas não foram estes floreados rimados/ que mais prejudicaram Dante aos olhos de Beatriz?/ Não dizia a própria Laura que Petrarca poderia ter tido acesso às suas graças se não falasse demais?/ Sem dúvida, tudo isto não está escrito/ na obra de Petrarca,/ mas o Dom Quixote insiste em confirmar a história” (repare-se que ambas as citações fazem parte do mesmo poema, pp. 53 e 54)]. Assim, a maturação a que os versos de Golgona Anghel conseguiram chegar, se nos detivermos no nível prosódico, não foi completada no que ao sentido e significado dos seus poemas diz respeito e isto, ao contrário do que possa parecer, não é de todo um trabalho de ideias, é sempre de palavras.

Há, no entanto, que colocar esta autora no seu enquadramento. A poesia de Golgona Anghel, na vertigem de uma procura identitária, arrisca muito mais do que aquilo que estamos habituados a ver em grande parte dos percursos poéticos dos autores portugueses, principalmente se nos centrarmos nos mais novos. Nesse risco, a sua poesia embate muitas vezes nos problemas referidos, mas, no cômputo final, a coragem com que o faz é compensada, porque consegue escapar tanto ao carimbo blasé, uma pose alternativa entretanto oficializada, como à poesia burocrática e ao seu programa de consumo arrumado nos balcões da tradição literária. Nos seus melhores poemas, esta autora não procura uma defesa fácil naquilo que seria o seu espaço de conforto, como também não se desperdiça no risco de tentar conquistar um espaço de originalidade unicamente pela aparência da diferença. Por isso mesmo, “Vim porque me pagavam” é um dos livros de poemas mais interessantes de entre aqueles que foram publicados nos últimos tempos em Portugal e um dos melhores escritos por uma jovem poeta, que colhe os dividendos ao mesmo tempo que paga as dívidas do projecto que honesta e conscientemente promete com os seus versos.


Nota: quatro estrelas

Golgona Anghel, Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011.


Quinta-feira, Agosto 18, 2011

Carlos Edmundo de Ory, Aerolitos


Se te agrada ser chamado poeta desde jovem, trata de viver pouco. Toda a longa vida com um pequeno mote é ridícula.

As rosas são radiografias de esqueletos de anjo.

É uma vergonha que vivamos todos os dias.

Se a morte surgisse como uma bicicleta sem ninguém!

Alimentares-te da carne de pássaros raríssimos.

Que me enterrem vestido de palhaço.

Desconhece-te a ti mesmo.

Levar sempre um circo ambulante na alma.

Ofereço a minha carne às tatuagens do quotidiano.

Só o estranho me é familiar.

Terça-feira, Agosto 16, 2011

Segunda-feira, Agosto 15, 2011

Elegiazinha

[i. m. nikita (gata da Inês)]

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

- Nelson Ascher

Mas al fin solitario herido de la noche
amó el dolor secreto de la época maldita
de las pasiones muertas y su fascinación

Carlos Edmundo de Ory

Noites sem história, desbaratadas,
um sono frágil como tudo, este pijama
irreal e o rosto puro, inexpressivo.
A lâmpada suspensa, flor trémula
sobre a mesinha negra e o copo
que nesta mão aguarda o amanhecer.
Miserável inventário este que me
assiste, enquanto acordo e acordo
e me levanto uma vez e outra
mijando-me pelas pernas de algum
sonho interrompido. Ando pelo quarto
e enfrento o susto do meu reflexo
na carne branca do espelho. Faço-lhe adeus,
ele segue-me mas sorri, eu não. Nunca
percebi a confiança, essa cumplicidade
com os espelhos. Só vejo escárnio.
Sinto-me separado, longe. Não eu,
mas outro, o tal, aquele que esperam.
E é disto que morro. Posso senti-lo
no sangue, um golpe frio, a transparência
desse veneno. E se se beija uma boca
é para fugir-lhe, dissolver o rosto na
proximidade doutro. Por isso acordo-a,
toco e acordo-a. Quero ajuda, preciso
de alguém que acredite, que faça
outra ideia de mim. Amo-a
pela criatividade, pela paciência,
mas se a escuto aborreço-me.
Alinho sinais de presença, faço que sim,
certamente, e a ideia que me vem
sobe por ela aos apalpões, pula-lhe
o ombro e vai-se.

Uma luz ansiosa quebra-se no vidro
da breve janela, e eu destaco os pássaros,
o voo curto que dá no enjoo da manhã.
A página, o tanque, uma brisa assanhada
enredando-se nalgum quintal sujo
onde não cheira a nada. Simples alfombra
de musgo, carpete em que arrastam os pés
as primeiras horas, enormes, e debaixo da qual
se escondem fantasmas sem família
aguardando a noite para saírem.

Logo, nas ruas, perco-me nalgum livro
tropeçando em expressões incríveis.
A voz, um perfume dias antes, ali mesmo,
e meus olhos, já exaustos de caçar,
perdoam o mundo por me deixar sempre
de fora. Passo a língua pelas suas
costuras, adivinho o gosto do que perdi.
À minha frente goza uma sombra,
desfigurando-me. Meu sangue
está velho demais para isto, meu coração
nunca foi muito dado a este mundo.
Mas porque adoro e detesto com toda
a naturalidade, tenho irmãos de sangue
por toda a parte. Partilhamos hábitos,
vícios, algumas noções e doenças hereditárias,
tão reconfortantes. Sou arraçado. Vadio,
pela parte em nós que é de cão, nobre,
pela parte que é de lobo. Entre o quotidiano
e o mito, coleccionamos debaixo da língua
as unhas de deus.
Escrevemos, eu escrevo. Meu breve rosto
gira melancolicamente, encontra a espaços
posição, fixa-se de queixo esmagado
pelo espanto. Falando baixo, pisando leve,
passo por sombras que conheço
neste pequeno cerco do sem sentido:
país de atalhos inúteis, paisagem
de uma doçura cruel, escombros e flores,
árvores que lembram viajantes solitários
descansando uns instantes; restos de casas,
pilhas de cascalho e lixo, bidões oxidados,
escadarias que terminam no vazio, ervas,
plantas biliosas, cardos… Tudo, só
a um gesto do mar. Que obstinação
silenciosa, que tristeza encantadora esta
que não nos deixa partir, e que vergonha,
que falta de cerimónia com os teus
quando finalmente partem. País de merda,
terra estéril, recreio de cretinos.
Mereces bem ser cada vez mais esta
pátria extinta, terra condenada e sem voz.

Dá-te por grata se ainda povoamos
os poucos cafés da tua memória, bebendo
os velhos sóis dos bons tempos, virando
a lata do tédio, velhos garotos, manhosos
sem idade, e se ainda nos rimos feito
uns perdidos, educando suspiros,
grandes romancistas de uma só página,
fria e inglória. Os nossos exercícios
de fúria, nossa ignorância esperta,
nossa cultura delirante, nossos contos
de fadas e morte/ vida agarrada pelo susto,
nossos versos e este seu gosto maldito
pela decomposição, sem esquecer as moscas,
nossa vastíssima e fiel audiência.

Escrevemos, eu escrevo
contra os funcionários, contra o verso-
-equilibrista, verso-empecilho, essa marcha
fúnebre, contra essas mãos negras
batendo texto nas máquinas de lepra,
contra esta paz negociada, paz criminosa,
contra o mundo – mais uma vez – minha mão
quase se esquece de mim e cria um inferno
onde me atiro convosco.

Leaves of Grass (2009)


6/10

To You

WHOEVER you are, I fear you are walking the walks of dreams,
I fear these supposed realities are to melt from under your feet and hands;
Even now, your features, joys, speech, house, trade, manners, troubles, follies, costume, crimes, dissipate away from you,
Your true Soul and Body appear before me,
They stand forth out of affairs—out of commerce, shops, law, science, work, forms, clothes, the house, medicine, print, buying, selling, eating, drinking, suffering, dying.

Whoever you are, now I place my hand upon you, that you be my poem;

I whisper with my lips close to your ear,
I have loved many women and men, but I love none better than you.

O I have been dilatory and dumb;

I should have made my way straight to you long ago;
I should have blabb’d nothing but you, I should have chanted nothing but you.

I will leave all, and come and make the hymns of you;

None have understood you, but I understand you;
None have done justice to you—you have not done justice to yourself;
None but have found you imperfect—I only find no imperfection in you;
None but would subordinate you—I only am he who will never consent to subordinate you;
I only am he who places over you no master, owner, better, God, beyond what waits intrinsically in yourself.

Painters have painted their swarming groups, and the centre figure of all;

From the head of the centre figure spreading a nimbus of gold-color’d light;
But I paint myriads of heads, but paint no head without its nimbus of gold-color’d light;
From my hand, from the brain of every man and woman it streams, effulgently flowing forever.

O I could sing such grandeurs and glories about you!

You have not known what you are—you have slumber’d upon yourself all your life;
Your eye-lids have been the same as closed most of the time;
What you have done returns already in mockeries;
(Your thrift, knowledge, prayers, if they do not return in mockeries, what is their return?)

The mockeries are not you;

Underneath them, and within them, I see you lurk;
I pursue you where none else has pursued you;
Silence, the desk, the flippant expression, the night, the accustom’d routine, if these conceal you from others, or from yourself, they do not conceal you from me;
The shaved face, the unsteady eye, the impure complexion, if these balk others, they do not balk me,
The pert apparel, the deform’d attitude, drunkenness, greed, premature death, all these I part aside.

There is no endowment in man or woman that is not tallied in you;

There is no virtue, no beauty, in man or woman, but as good is in you;
No pluck, no endurance in others, but as good is in you;
No pleasure waiting for others, but an equal pleasure waits for you.

As for me, I give nothing to any one, except I give the like carefully to you;

I sing the songs of the glory of none, not God, sooner than I sing the songs of the glory of you.

Whoever you are! claim your own at any hazard!

These shows of the east and west are tame, compared to you;
These immense meadows—these interminable rivers—you are immense and interminable as they;
These furies, elements, storms, motions of Nature, throes of apparent dissolution—you are he or she who is master or mistress over them,
Master or mistress in your own right over Nature, elements, pain, passion, dissolution.

The hopples fall from your ankles—you find an unfailing sufficiency;

Old or young, male or female, rude, low, rejected by the rest, whatever you are promulges itself;
Through birth, life, death, burial, the means are provided, nothing is scanted;
Through angers, losses, ambition, ignorance, ennui, what you are picks its way.


- Walt Whitman

Domingo, Agosto 14, 2011

Vultos

O que torna o passado uma morada de reconhecimento é a sua natureza extensiva. Alongado, esticado até ao limite, um habitante do reverso da pele, um vulto desaparecendo na janela. Pegar numa folha de papel, dobrar, vincar com as unhas, esmagar imagem contra imagem. Qual a original, qual a cópia? Guardar a folha num casaco que nos foi roubado. Perder tudo. Recordar a imagem da imagem. Regressar ao espaço imaginando-o tempo.

- Sérgio Lavos
(post retirado daqui)

www.fishfight.net

Sonêto do gato morto

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de electricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.


- Vinicius de Moraes
in O Operário em Construção e outros poemas, Dom Quixote

Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas súbitas estátuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam às origens — a realidade
Neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da espécie — tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio...


- Vinicius de Moraes
in O Operário em Construção e outros poemas, Dom Quixote

Sábado, Agosto 13, 2011

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


- Vinicius de Moraes
in O Operário em Construção e outros poemas, Dom Quixote

Valsa à mulher do povo

Oferenda

Oh minha amiga da face múltipla
Do corpo periódico e geral!
Lúdica, efêmera, inconsútil
Musa central-ferroviária!
Possa esta valsa lenta e súbita
Levemente copacabanal
Fazer brotar do povo a flux
A tua imagem abruptamente
Ó antideusa!

Valsa

Te encontrarei na barca Cubango, nas amplas salas da Cubango
Vestida de tangolomango
Te encontrarei!
Te encontrarei nas brancas praias, pelas pudendas brancas praias
Itinerante de gandaias
Te encontrarei. Te encontrarei nas feiras-livres
Entre moringas e vassouras, emolduradas de cenouras
Te encontrarei. Te encontrarei tarde na rua
De rosto triste como a lua, passando longe como a lua
Te encontrarei. Te encontrarei, te encontrarei
Nos longos footings suburbanos, tecendo os sonhos mais humanos
Capaz de todos os enganos
Te encontrarei. Te encontrarei nos cais noturnos
Junto a marítimos soturnos, sombras de becos taciturnos
Te encontrarei. Te encontrarei, oh mariposa
Oh taxi-girl, oh virginete pregada aos homens a alfinete
De corpo saxe e clarinete
Te encontrarei. Oh pulcra, oh pálida, oh pudica
Oh grã-cupincha, oh nova-rica
Que nunca sais da minha dica: sim, eu irei
Ao teu encontro onde estiveres
Pois que assim querem os malmequeres
Porque és tu santa entre as mulheres
Te encontrarei!

- Vinicius de Moraes
in O Operário em Construção e outros poemas, Dom Quixote

Soneto da intimidade

Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.


- Vinicius de Moraes
in O Operário em Construção e outros poemas, Dom Quixote

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Também já fui brasileiro

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

- Carlos Drummond de Andrade

Terça-feira, Agosto 09, 2011

Diabólica e requintada


(clica para aumentar)

Domingo, Agosto 07, 2011

O nosso amor não é coisa que se apresente

O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira a folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta


- Rui Caeiro
in O quarto azul e outros poemas, Letra Livre

solidança (II)

1
dom riso sacode o horizonte
nos cabelos esconde-se-me um rumor
fonte ébria rompe a treva os braços
cansados sobre a memória lume
disperso reflectindo atrás de si
fervor biografia natureza reescrita
a influência noites que passo mal
e o duvidoso rumo acerta o que penso
contar os ciclos uma vida tão poucas
palavras suspeitas águas muito quietas
estuário o sono a
adormecida imagem do corpo entorno
musical os pés enterrando-o na transparência
e corre esquecido

2
brusco consciente
o vento enrola devagar estranho céu
inerte uivos comungam num deserto
de barcos encalhados passos de menina corredores
quadros colecções de flores perseguindo
o movimento

3
salga o chão vestígios a ideia uma erva
brota peito lábio hálito bafeja avermelhada flor
percurso vago assobio arrastando-me preciso
de um sentido abrir uma cova fundar
quatro novas estações

4
sublime a negra chama de instantes
descrevo tudo as sombras erguem paredes sujas
quintais virados sobre prazer a doentia cor
na noite reabrem-se manhãs confins de frases
o olhar fixa-se seguro nas mãos a rosa
da insónia invenção de lábios figura do eco
sem destino na vida abriga-se a devastação
eu sonho a idade certa mulher rosto
oculto uma resposta entre as
manhãs colagem chego a mim
sempre só e ódio dor simples indiferença
de que me serve o silêncio sulca mais fundo
essências canso o universo fecho a janela
de que país que palavras emoção me lembra
que pátria a minha sombra reflexo desta
inquietação

5
pude descansar outro rumo abolidos os
astros sem guia a noite última agudíssima
velha já cega feridas mãos pedinte saciada
cada corpo moeda se deita nela eu
fico-lhe nos ouvidos tenho-a choro
escuro

6
um intervalo criança riso qualquer
paisagem sublinho vida claros sentidos
absorvendo luz sensível luz conciliadora
o amor que movimenta curso de um rio êxtase
um verso frágil cantando a tarde inteira

7
guarda-me a memória cor alguém
mesmo o olhar comum lugar da flor à
música sobreposta folhas notas caindo
no chão de um outono branco acesso
da respiração futura ventre divino

- Tiago Roldão

Moinhos

Ponho a palavra em plena boca
e digo: Companheiros. É belo
ouvir as sílabas que vos nomeiam,
hoje que estou (di-lo em voz bem baixa) sozinho.

...É belo ouvir a ronda
das letras, em torno
da palavra que abraça: C-o-m-p-a-
n-h-e-i-r-o-s. É como um sol sonoro.

O Douro. Os moinhos de Zamora.
A rubra luminosidade do céu.
Companheiros. Escrevo de memória
o que tive perante os olhos.

- Blas de Otero
in Pido la paz e la palabra, Lumen

Falando uma linguagem obscura...

Falando uma linguagem obscura
boca pedra o sexo aberto
Não toques nunca a seda
das tímidas trevas

Quem entenderá a voz velada
que depois de uivar se cala?
E já neste silêncio inodoro
morre um sino fresco

Sobre um poema cai a neve
Nenhuma impressão se insinua
Homem agasalhado pela noite
cheia de vento a página

- Carlos Edmundo de Ory

Monólogo

Linguagem meu juramento
Minha vingança meu delírio
Que fizeram de ti os homens
que não fosse apenas escarro?

Presença inaudita Palavra
Jóia ultramundana Umbral
Revelação da pomba
que nenhuma barbárie degola

Ruminas badalas trovejas
Embarcas fomentas electrizas
Gemes ruges oras gestas
Iluminas balbuceias irmanas

Solário das trevas
Covil de raios solares
Miolo da minha inspiração
Réptil de ovos quadrados


- Carlos Edmundo de Ory

Sábado, Agosto 06, 2011

solidança

1
tarde em chuva perdida e o corpo que me devolve
à justa solidão de amante incerta fala
lembra o gesto excesso palavras
enumeração obscura a antiga sensação
de ter tido vida o fogo subtil das frases
corpos canto rigoroso enxame
de sombras o brando furor em lábios de cinza
esquecer procurar o sono tão longe
de casa

2
dispersas palavras eco que encontram
volta a voz ao corpo e traz de longe
que distância de aves última migração canção
de regresso no rosto aberto a lâmina de luz
o riso perdida imagem e o sangue
que nos conduz os passos
chamam-nos negra corrente rima ritmo insone
anulado horizonte ouço apressada
o verso a respiração pulmão da página
que rompe na tua ausência

3
números na espera os poços abertos
é cedo para o fim não chega ainda
murmura adoece a linguagem queixas
últimas as palavras condenadas
boca alucinada eco sem passado sem
futuro isto e mais e nada despe-se
tem-se num fundo de casa ruína
que aguarda outro gesto abre-se
prepara o silêncio agora agora agora

4
olha-se ao espelho confunde o rosto devolve-o
às mãos deixa recados esconde-se
abre os pulsos do tempo seca as horas
espera a empregada e o aspirador
o movimento calmante a ordem gosto
que recorda da infância

5
em conversa alguém que morre um
nome serve arrastá-lo até ao esquecimento
despeça-se um nome o que o corrói o vento
agitará a noite contra as janelas

6
um sentimento à volta por fora querendo-o
névoa alguém um fogo apagado
na cama os dias possíveis depois
incerteza e silêncio vagueando cegando
docemente mãos estendidas
à treva noite muito depois
das pálpebras descerem o gesto dedos
amados o peito pousa ave extinta que
nem a memória perturbará

7
prometida a queda só outra flor matinal
reles luz que imita a criação

8
sabes a palavra precisa embalo
mágico curso desordem metamorfose
interior o rapto do mundo onde a
imagem música inesperada tudo entra
te entra pelos ouvidos gráfico cardíaco
de um trago só vidro
quebrado na mão um copo de sangue

9
degraus cegos doce visão pela dor
dizendo baixo pássaros decorando quantos
e quantos passos longe
sílabas que ignora a luz a dor
esculpe triste semelhança divina

10
responde-lhe a doença corpo deixado
pelo desejo tempo exacto
tocado dança com tudo
a morte mão breve do sonho e ir
enfim levado por alguém

- Tiago Roldão

Pavana dos Infantes

Para Bárbara, Gonçalo e Antônio José


Subiam aos meus joelhos e diziam:

— "Pai, naquele dia, entre bandeiras e clarins, tu entravas
na Plaza de Toros. E depois de trinta verônicas, os olhos
fulgurando mais do que os bordados de teu traje de toureiro,
com a mesma espada e o mesmo punho com que teu avô
atravessava a ilharga dos infiéis, atravessaste o coração de um
touro".

E como eu lhes dissesse, espantado, que nada disso
acontecera e tudo não passava de um poema de Olivério Girondo,
— "claro — contestaram. De há muito te plagiam os poetas e
as lendas. Desde o tempo em que as ninfas se entregavam a
Orfeu e nos bosques da Grécia tua lira chorava entre flautas
partidas, entre avenas, o pranto da lamentação por Linos.

Não te lembras, então, dos sombreros na arena, das mantilhas,
das rosas e da orelha do touro te sangrando entre
os dedos? E te esqueceste do cravo e da mão que o lançou? Pois
foi a mesma que te enlaçou a cintura e te levou à alcova e
em troca de seu cravo
lhe plantaste no ventre a rosa de teus filhos.
Olha para nós!"


E como eu lhes dissesse que era fantasia aquilo,
— "claro —,volveram. Tudo é fantasia em teus olhos de fei-
ticeiro, em tuas
mãos de taumaturgo.
Pois não te lembras que um dia eras tu mesmo
um touro
e carregaste no lombo
uma rapariga
e de sua graça e de tua
fúria
nos fizeste?
Por isso ainda às vezes
quando escarvas o chão enfurecido,
ela
desmaia de novo sobre ti."


Como eu tentasse contar-lhes a história da cegonha
e um tom de lendo me tremesse a voz,
— "claro — tornaram. Tudo é lendo em tua vida e tu mesmo és
a maior dos lendas. Pois nem sempre te ocupaste de touros. Não
te lembras, então, quando desabrochaste em cisne
e boiando no lago o corpo liso,
o colo arredondou-se e mergulhou
e boiavam também entre as águas as algas
e o pêssego de Leda à flor da espuma
e ali surgimos,
sobre os ombros o mesmo
orvalho que escorreu
dos cabelos de Vênus Calipígia."


E como eu lhes dissesse que era apenas uma história improvável
e antiga da mitologia,
— "claro — exclamaram. És
improvável o antigo como os deuses,
imemorial; e
tudo é mitologia:
teus dias, tuas noites e um dia
os outros deuses
invejosos de ti te amarraram a um monte e
as águias vinham almoçar teu fígado:
mas és mágico e forte e rompeste os grilhões e
disfarçado em criança
tuas irmãs te enviaram à ternura
da filha do Faraó,
a bordo de uma cesta sobre as ondas
de uma valsa ou de um Nilo. E
cresceste e conduziste
um Povo
e atravessaste
um mar
e tiraste
água da rocha.
O teu cajado elementar fendeu os elementos
e um Deus te pediu audiência na montanha."

Como eu lhes dissesse que não ficava bem inserir-me
na Bíblia,
— "claro — tornaram. Se
teu primeiro embarque foi no Gênesis
e em todas as esquinas te apontam
e apenas se confundem sem saber se
chefiaste o prodigioso motim dos anjos rebeldes
ou se
és o próprio Miguel
ou se
ao sopro do Senhor floresceste do barro
como de
tua costela e teu sono o enxerto da beleza
a que
enxertaste depois com nosso riso."

Como eu lhes dissesse que
nas esquinas apenas me davam boa noite e
não me envolvessem com anjos nem Adão,
— "claro — insistiram.
Nem teu rosto disfarça o Querubim
nem
o enigma de teus olhos a saudade do Paraíso de onde
foste expulso,
para onde
queres sempre conosco retornar
no carro de Eliseu."

Como eu lhes dissesse que sou apenas passageiro de um
automóvel alemão e não espero pelos carros de fogo,
— "claro — explicaram.
São eles que te esperam como outrora, quando vinhas da caça,
o palafrém, ou quando,
coberto de sangue e de poeira,
voltavas da batalha entre os barões feridos
ou dos muros de Tróia onde rugia
o ciúme de Helena que roubaras
para termos
um ventre de princesa onde medrar."

Como eu lhes dissesse que sua mãe era uma honrada
burguesa recolhida à mansidão do lar,
— claro — tornaram. Não te lembras
do dia em que a raptaste de tudo e de si mesma
e ainda agora a conservas
butim do coração
na pilhagem de todos os desejos.
E é por ela que colhes
da parede a bandurra pendurada
e danças no pátio e contos
tua cantiga andaluza com as mãos nos quadris."

Como eu lhes dissesse que não sei cantor e que jamais
dancei, nem mesmo a valsa humilde dos domingos,
— "claro — explicaram. Pois
a tua é a dança patética e
pregado na cruz tu a dançaste
quando
salvaste o mundo."

Como eu lhes dissesse que bastava desse jogo e não
ousassem blasfêmia e sacrilégio,
"— claro — exclamaram.
Tudo é blasfêmia
e tudo é sacrilégio e somos nós mesmos
em teus joelhos
testemunho sacrílego e prematuro
de tua ressurreição."

E numa risada gaia me saltavam dos joelhos e eram, na algazarra
matinal
meus filhos
e tuteando o rosto me encontravam
as feições do pai.


- Gerardo Mello Mourão

Sexta-feira, Agosto 05, 2011

A terra é das carícias

A terra é das carícias
do herói e do medroso
dos vivos os nascidos
com lágrimas ou com dinheiro
Tantos mortos levam consigo
para a morte um dente de ouro
As dores repugnantes
Os sopros de inspiração
O cretino e o kantiano
Os que deixam sobre a mesa
o génio e suas medalhas
e num recanto do quarto
a amante despenteada
Acordamos com dois olhos
sem nunca ver a mandrágora
nem o trono dos relâmpagos
Pisamo-nos os calcanhares
para ir à missa à fábrica
Sentimos a solidão
no cinema e na retrete
E tantos milhões de camas
para um sonho só um pão
Dormir depois de comer
Comer depois de dormir
A tristeza da alcachofra
o plátano desnudando-se
Preciosas são as pedras
e as pedras preciosas
A visão de um cimo branco
ou de uma mulher despida
E o sol e o cemitério

- Carlos Edmundo de Ory
(tradução de Herberto Helder)
in Doze Nós numa Corda, Assírio & Alvim

A Tecelã

Toca a sereia na fábrica
e o apito como um chicote
bate na manhã nascente
e bate na tua cama
no sono da madrugada.

Ternuras de áspera lona
pelo corpo adolescente.
É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho,
tomas teu café com pão,
tomas teu lugar no bote
no cais de Capibaribe.

Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita,
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia,
a carne-seca e o feijão.

De tudo quanto ele pede,
dás só bom dia ao patrão,
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.

Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?
Lembras o avô semeador,
com as sementes na mão,
e os cultivadores pais?
Perdidos na plantação
ficaram teus ancestrais.

Plantaram muito. O algodão
nasceu também na cabeça,
cresceu no peito e na cara.

Dispersiva tecelã,
esse algodão quem colheu?
Muito embora nada tenhas,
estás tecendo o que é teu.

Teces tecendo a ti mesma
na imensa maquinaria,
como se entrasses inteira
na boca do tear e desses
a cor do rosto e dos olhos
e o teu sangue à estamparia.

Os fios dos teus cabelos
entrelaças nesses fios
e noutros fios dolorosos
dos nervos de fibra longa.

Ó tecelã perdulária,
enroscas-te em tanta gente
com os ademanes ofídicos
da serpente multifária.

A multidão dos tecidos
exige-te esse tributo.
Para ti, nem sobra ao menos
um pano preto de luto.

Vestes as moças da tua
idade e dos teus anseios,
mas livres da maldição
do teu salário mensal,
com o desconto compulsório,
com os infalíveis cortes
de uma teórica assistência,
que não chega na doença,
nem chega na tua morte.

Com essa policromia
de fazendas, todo o dia,
iluminas os passeios,
brilhas nos corpos alheios.

E essas moças desconhecem
o teu sofrimento têxtil,
teu desespero fabril.
Teces os vestidos, teces
agasalhos e camisas,
os lenços especialmente
para adeus, choro e coriza.

Teces toalhas de mesa
e a tua mesa vazia

Toca a sereia da fábrica,
E o apito como um chicote
bate neste fim de tarde,
bate no rosto da lua.
Vais de novo para o bote.
Navegam fome e cansaço
nas águas negras do rio.

Há muita gente na rua
Parada no meio-fio.
Nem liga importância à tua
blusa rota de operária.
Vestes o Recife e voltas
para casa, quase nua.

- Mauro Mota

Quinta-feira, Agosto 04, 2011

Biografias

Virgílio cuspia sangue
São João da Cruz vomitava nos seus êxtases
Hafiz passava horas nas tabernas de Shiraz
Boccaccio arrependido insultou o Decamerón
Hölderlin tirava o chapéu para os miúdos do bairro
Shakespear nos seus Sonetos chama a si mesmo feio
Rilke falava como um monge russo
Kalidasa foi assassinado por uma das suas amantes
Lope de Vega flagelava-se para expiar os seus pecados
Hans Christian Anderson não recebeu mais do que uma carta de amor em toda a sua vida
Dostoyevski acabou escrevendo uma Vida de Jesus
Freud anuncia as grandes leis do sonho
Li-tai-po o bebedor morreu de uma bebedeira
Franz Kafka é amado hoje como um santo
Grimmelshausen sofria por seus cabelos ruivos
Gogol deixou-se convencer por um monge de que a poesia era pecado
George Trakl venerava Rimbaud como seu mestre
Dante atirava pedras a mulheres e crianças em Ravenna
Karl Kraus profetizou a destruição do mundo pela magia negra
Homero morreu de aflição por não conseguir resolver uma adivinha
Pope o misantropo era anão pequeno como uma criança
Schumann atirou-se à água e foi salvo por pescadores


- Carlos Edmundo de Ory

Carta do Morto Pobre

Bem. Agora que já não me resta qualquer possibilidade de trabalhar-me (oh trabalhar-se! não se concluir nunca!), posso dizer com simpleza a cor da minha morte. Fui sempre o que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anúncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja - a sua pobre carne o impusesse ao orgulho dos homens. Fui aquele que preferiu a piedade ao amor, preferiu o ódio ao amor, o amor ao amor. O que se disse: se não é da carne brilhar, qualquer cintilação sua seria fátua; dela é só o apodrecimento e o cansaço. Oh, não ultrajes a tua carne, que é tudo! Que ela, polida, não deixará de ser pobre e efêmera. Oh, não ridicularizes a tua carne, a nossa imunda carne! A sua música seria a sua humilhação, pois ela, ao ouvir esse falso cantar, saberia compreender: "sou tão abjecta que dessa abjeção sou digna". Sim, é no disfarçar que nos banalizamos porque ao brilhar, todas as cousas são iguais - aniquiladas. Vê o diamante: o brilho é banal, ele é eterno. O eterno é vil! é vil! é vil!
Porque estou morto é que digo: o apodrecer é sublime e terrível. Há porém os que não apodrecem. Os que traem o único acontecimento maravilhoso de sua existência. Os que, de súbito, ao se buscarem, não estão... Esses são os assassinos da beleza, os fracos. Os anjos frustrados, papa-bostas! oh como são pálidos!

- Ferreira Gullar

Sobre esta pedra edificarei

Testemunha sou de ti, terra nos olhos,
pátria aprendida, linha de minhas pálpebras,
lôbrega letra que entrou ensanguentada
na caligrafia de meus lábios.

E digo o gesto que é teu, dou detalhes
desse rosto, ofereço-os
amargamente ao vento nestas folhas.
Oh pedra fendida. Tu. Pedra de escândalo.

Atrasada Espanha,
água sem vazo, quando há água; vaso
sem água, quando há sede. «Deus, que belo
vassalo,
se ouvisse bem...»
__________Silêncio.

- Blas de Otero
in Pido la paz e la palabra, Lumen

Calaremos agora para chorar depois?
R.D.

Meus olhos falariam se meus lábios
emudecem. Tornar-me-ia cego,
e minha mão direita continuaria
falando, falando, falando.

Devo dizer «Eu vi». E calo-me
fechando os olhos. Juraria
que não, que não o vi. E mentiria
falando, falando, falando.

Mas devo calar e calar tanto,
há tanto a dizer, que cerraria
os olhos, e estaria o dia todo
falando, falando, falando.

Deus me livre de ver o que é evidente.
Ah, que tristeza. Cortaria
as mãos. E meu sangue continuaria
falando, falando, falando.

- Blas de Otero
in Pido la paz e la palabra, Lumen

No princípio

Se perdi a vida, o tempo, tudo
o que atirei, como um anel, à água,
se perdi a voz com o que era daninho,
resta-me a palavra.

Se sofri a sede, a fome, tudo
o que era meu e afinal era nada,
se ceifei as sombras em silêncio,
resta-me a palavra.

Se abri os lábios para ver o rosto
puro e terrível da minha pátria,
se abri os lábios até os rasgar,
resta-me a palavra.

- Blas de Otero
in Pido la paz e la palabra, Lumen

Quarta-feira, Agosto 03, 2011

À imensa maioria

Aqui têm, em canto e alma, o homem
aquele que amou, viveu, morreu por dentro
e um belo dia desceu à rua: então
compreendeu: e rasgou todos os seus versos.

Assim é, assim foi. Saiu uma noite
deitando espuma pelos olhos, ébrio
de amor, fugindo sem saber para onde:
onde o ar não cheirasse a morto.

Estendais de paz, pavilhões floridos,
eram seus braços, como chama no vento;
ondas de sangue contra o peito, enormes
ondas de ódio, vejam, por todo o corpo.

Aqui! Aproximem-se! Aí! Anjos atrozes
em voo horizontal cruzam o céu;
horríveis peixes de metal atravessam
o dorso do mar, de porto a porto.

Eu dou todos os meus versos por um homem
em paz. Aqui têm, em carne e osso,
minha última vontade. Bilbau, a onze
de abril, cinquenta e tantos.


- Blas de Otero
in Pido la paz e la palabra, Lumen

Abertura

Aqui foste infeliz e uma vez por outra benquisto.
Muitos anos foram já percorrendo estas ruas.
Como o lodo, a tua história submerge estes muros:
junto a eles amaste e vomitaste e morreste.

Derramaste a tua insónia ardendo ou embriagado
nas praças vazias, clementes, silenciosas.
De que fugias vagueando pela cidade? Que buscas
vagueando hoje, entre a soma das tuas fugas?

Estes edifícios antigos, estas calçadas
preservam teu fantasma. As pessoas retiram-se,
a escuridão adormece as ruas, e ficas
sozinho, entre vagas luzes, sozinho entre vagos anos.

Desesperado e lentamente, com emoção
caminhas na noite cheia de levedura.
Dir-se-ia que escutas um órgão: é o mundo
e o tempo, e um som de ilusão e orfandade.


- Félix Grande
in Una grieta por donde entra la nieve, Renacimiento

O desanimador

Ofendo, como ofendem os ciprestes. Sou
o desanimador. Eu sou aquele que contagia
com seus beijos um vómito de obscuros silêncios,
uma sangria de sombras. Ofendo, ofendo, amada.

Ofendi minha mãe e meu pai com esta
tristeza que eles nunca buscaram, nem esperavam,
nem mereciam. E vou ofender o meu século
com o frio e o nunca e o não das minhas palavras.

Ofendem-se perante mim os sorrisos, como devem
ofender-se os pássaros perante uma gaiola.
Ofendo como um rosto de náufrago num lago.
Ofendo como um coágulo de sangue numa página.

Ofendo como esse caminho que conduz
ao cemitério. Como a cera eu ofendo, amada.
Como a cera, mãe. Desanimo e ofendo,
mãe, como as flores que mentem nas lápides.


- Félix Grande
in Una grieta por donde entra la nieve, Renacimiento

Incendiário

1

Deste-me um quarto um outono
que te darei em silêncio
ilha de fogo verão em troca
dar-te-ei que incêndio
que sucesso que prazer que
força que solução que fome satisfaremos
que fogo para ti preparo
este verão
que outro lugar me darás
em silêncio este verão
que solidão preparamos que
lugar este verão
preparo um quarto em silêncio
e a chama da solidão


2

Utiliza-me as pernas entretanto
pode ser posição anestesia
febre ou peste ou tumulto ou festa ou cinza
temperamento anestesia tanto importa que

o verão me inutilize
me canse o fogo as pernas e avance
na areia a meu lado tanto cansa
o verão como tu tanto me cansa a cinza

tanto o quarto de fogo que me deste
tanto a esperança utiliza-me ainda
este verão apenas um incêndio

um beijo no verão inutiliza
o corpo pode ser
insucesso de fogo que utilizas


3

Depois do verão dar-me-ás talvez
o mesmo insucesso depois do verão quis
quero o tempo sossego sucesso depois
me dirás deitei-te no chão depois
do verão depois te direi que quero
deitar-te no chão a meu lado
quero incendiário depois do verão tua carne
estranha conservar doente depois
por enquanto enquanto arde o corpo embora
arda tarde teu corpo fechado depois do
verão depois de a saudade ter fechado
tudo a carne a idade o amor o fogo
ainda te dou o fogo que tenho
pois enquanto arde embora de tarde a noite
se mostre depois do verão quem de cinza quem
me alimentará me trará o fogo que tu
me ensinaste quem te beijará quando a noite
nasce ficarei estarei depois
do verão dar-me-ás a cinza depois do
verão o que me darás
o que me darás quando o dia vem que beijo
de cinza de outono trarás
ainda que venhas através das pálpebras e me
desconheças à lua do mar
que cinza de outono porás nos meus lábios
e que fogo fixo verás sobre o mar

- Gastão Cruz
in Os Poemas, Assírio & Alvim

Terça-feira, Agosto 02, 2011

http://1.bp.blogspot.com/-vMhi3DPubkA/TjfhLCTPBsI/AAAAAAAAHBs/PbX35eK34QY/s1600/hands_and_feet_by_ubermochi.jpg

De destroços canção somente a vida
não reduz do sossego destruído
de outro dia a lembrança ao pó que a traz

Gastão Cruz

O tronco nu, um cheiro a pesadelo,
suor e mijo. Sentado, fuma e põe
aquele olhar inútil folheando
a lista telefónica. A seu lado uma caixinha
toca música de trovoadas, os dedos tambori-
lando, e um candeeiro fraquinho lança
o seu círculo no meio da confusão.

Entre tudo o que se acorda a si mesmo,
também eu, sozinho, e outra
manhã de pássaros lentos, outra dor
de dentes, olhos fixos ainda, sem frescura.
Perdidos tons de azul, uma flor
subindo amarelo de nojo, restos de morte,
enquanto a minha cadeira vaga range,
balançam-se nela as mulheres que mais
me chamaram. Lábios frios, música de ódio.

Se tivesse que escolher, não
começaria assim, mas
esta caneta é obcecada, ao ritmo
do sangue, repete frases por vício e o rádio
salta frequências, suspira, cala-se ou alinha
e a luz deste tempo, caído podre de espera,
sublinha, corrige, antecipa-se/ faz a sua parte.
Olho longamente da inquieta janela,
debruço-me pra lá, sobre
a linguagem que amadurece nos muros,
prefiro-a a tudo o que vem
desses enconados
com os seus versinhos cortezes; apodrecido
mel e a alma asquerosa que entre eles
dividem.

Se leio poesia quero é vida, respiração,
uns ralhos, puxões de orelha.
Leio pela casa, para cima (bem alto!) e para baixo,
baixinho, ganho essa rouquidão
poética e saio, mãos nos
bolsos/ andar por aí, fazer alguma ideia
das coisas, saber de memória a canção
antiga destas ruas. Não conheço outro
modo. As palavras
enchem-se-me de ecos, os ventos referem-me
vagamente, alguém se pergunta
“Quem está aí?”, a resposta
dava-lha eu,
se alguma diferença fizesse.

Do lado de fora ou deste, demoradamente
aqui, onde tantas horas vi chover,
ouvi-a cair, a chuva
soletrando outro nome e outro
depois desse.
Um corpo e o que se lhe seguiu
nesta órbita que agoniza
em meus braços. Uma coisa de vontade
e engano. Assim mesmo,
tirar noites, engrandecê-las, queimar
fotografias. Como se o fogo
lhes repetisse os gestos. Eu já não sei.

Tudo é um mesmo tumulto, sangue
preso entre tanta força obscura,
as unhas de tudo o que foi, de tudo
o que ainda vier por aí.
E vivo disso, além de que
vivo sozinho, disponível, e durmo
e durmo e durmo.
Uns bochechos mal me levanto,
e que mistura, que fabulosa degradação
sonho, embriaguez, loucura –, as vértebras
desta quimera que me domina
e da dicção extrema que rompe, funde
em si real e fantástico. Tudo
o que alguma vez me interessou.

A posteridade – escutas-me? – já não
dá conta, baralha os nomes, esquece-se
simplesmente, ou, mais simples ainda,
já nem quer saber.