Mas al fin solitario herido de la noche
amó el dolor secreto de la época maldita
de las pasiones muertas y su fascinación
Carlos Edmundo de Ory
Noites sem história, desbaratadas,
um sono frágil como tudo, este pijama
irreal e o rosto puro, inexpressivo.
A lâmpada suspensa, flor trémula
sobre a mesinha negra e o copo
que nesta mão aguarda o amanhecer.
Miserável inventário este que me
assiste, enquanto acordo e acordo
e me levanto uma vez e outra
mijando-me pelas pernas de algum
sonho interrompido. Ando pelo quarto
e enfrento o susto do meu reflexo
na carne branca do espelho. Faço-lhe adeus,
ele segue-me mas sorri, eu não. Nunca
percebi a confiança, essa cumplicidade
com os espelhos. Só vejo escárnio.
Sinto-me separado, longe. Não eu,
mas outro, o tal, aquele que esperam.
E é disto que morro. Posso senti-lo
no sangue, um golpe frio, a transparência
desse veneno. E se se beija uma boca
é para fugir-lhe, dissolver o rosto na
proximidade doutro. Por isso acordo-a,
toco e acordo-a. Quero ajuda, preciso
de alguém que acredite, que faça
outra ideia de mim. Amo-a
pela criatividade, pela paciência,
mas se a escuto aborreço-me.
Alinho sinais de presença, faço que
sim,
certamente, e a ideia que me vem
sobe por ela aos apalpões, pula-lhe
o ombro e vai-se.
Uma luz ansiosa quebra-se no vidro
da breve janela, e eu destaco os pássaros,
o voo curto que dá no enjoo da manhã.
A página, o tanque, uma brisa assanhada
enredando-se nalgum quintal sujo
onde não cheira a nada. Simples
alfombra
de musgo, carpete em que arrastam os pés
as primeiras horas, enormes, e debaixo da qual
se escondem fantasmas sem família
aguardando a noite para saírem.
Logo, nas ruas, perco-me nalgum livro
tropeçando em expressões incríveis.
A voz, um perfume dias antes, ali mesmo,
e meus olhos,
já exaustos de caçar,
perdoam o mundo por me deixar sempre
de fora. Passo a língua pelas suas
costuras, adivinho o gosto do que perdi.
À minha frente goza uma sombra,
desfigurando-me. Meu sangue
está velho demais para isto, meu coração
nunca foi muito dado a este mundo.
Mas porque adoro e detesto com toda
a naturalidade, tenho irmãos de sangue
por toda a parte. Partilhamos hábitos,
vícios, algumas noções e doenças hereditárias,
tão reconfortantes. Sou arraçado. Vadio,
pela parte em nós que é de cão, nobre,
pela parte que é de lobo. Entre o quotidiano
e o mito, coleccionamos debaixo da língua
as unhas de deus.
Escrevemos, eu escrevo. Meu breve rosto
gira melancolicamente, encontra a espaços
posição, fixa-se de queixo esmagado
pelo espanto. Falando baixo, pisando leve,
passo por sombras que conheço
neste pequeno cerco do sem sentido:
país de atalhos inúteis, paisagem
de uma doçura cruel, escombros e flores,
árvores que lembram viajantes solitários
descansando uns instantes; restos de casas,
pilhas de cascalho e lixo, bidões oxidados,
escadarias que terminam no vazio, ervas,
plantas biliosas, cardos… Tudo, só
a um gesto do mar. Que obstinação
silenciosa, que tristeza encantadora esta
que não nos deixa partir, e que vergonha,
que falta de cerimónia com os teus
quando finalmente partem. País de merda,
terra estéril, recreio de cretinos.
Mereces bem ser cada vez mais esta
pátria extinta, terra condenada e sem voz.
Dá-te por grata se ainda povoamos
os poucos cafés da tua memória, bebendo
os velhos sóis dos bons tempos, virando
a lata do tédio, velhos garotos, manhosos
sem idade, e se ainda nos rimos feito
uns perdidos, educando suspiros,
grandes romancistas de uma só página,
fria e inglória. Os nossos exercícios
de fúria, nossa ignorância esperta,
nossa cultura delirante, nossos contos
de fadas e morte/ vida agarrada pelo susto,
nossos versos e este seu gosto maldito
pela decomposição, sem esquecer as moscas,
nossa vastíssima e fiel audiência.
Escrevemos, eu escrevo
contra os funcionários, contra o verso-
-equilibrista, verso-empecilho, essa marcha
fúnebre, contra essas mãos negras
batendo texto nas
máquinas de lepra,
contra esta paz negociada, paz criminosa,
contra o mundo – mais uma vez – minha mão
quase se esquece de mim e cria um inferno
onde me atiro convosco.