Deus é uma blasfémia neste tempo negro
Alberto de Lacerda
Água, pedrinhas e círculos. As fontes
esgotando o reflexo que
um pássarocruza sem dificuldade, até lhe tocares.
E já morde os lábios a primavera,
já é de entusiasmo que apura a linguagem
e sentidos, a luz ansiosa, soluça, e
melhor pressentes a métrica oculta
sustendo esta arquitectura.
A brisa mede de um sopro a altura
destas casas enquanto a
língua negra dos sinosdobra na sua prece uma ideia de Deus,
e a beleza fica de castigo entre os muros
recortando o centro da vila.
Leva-te mais longe
a flor do tojo e dos caminhos, essas
sem nome, a que chamavam
beijinhos nos tornozelos. Sentados,
os antigos,
separando as noitese o dia com polegares encantados.
Sobre a mesa, os círculos de vinho
onde pousou a garrafa, e no teu
ajustas dois ponteiros,
acertas a hora. Mãos graves
nesse avanço tão mudo quanto doce,
como o silêncio que ai se
estende criando bicho. A tarde tem
o seu fim, apertando a garganta de
destroços flutuantes, enumerações caóticas,
toda a sorte de estranhas sementes
coladas na minha sebenta com
o cuspodos oceanos. Não sou dos mais sós agora,
conto com eles,
escribas alados,
embaixadores de países
ignorados, desenhando sempre os mapas,
destinos sem sentido, regressos impossíveis.
Num balanço sem grande estudo
mas de uma graça solar, vem esse corpo
e a noite fica sem tamanho.
Dezassete anos de certeza, olhar directo e
ritmado num alcance tão natural,
entressonho de um mundo
onde ainda valem todas as apostas. Repara só
como chega dando vida. Quando sai
é um massacre.
Com a língua junto um cabelo ao céu
da boca, é o que basta. Sou mais desse gozo
canalha e vou-me com um sorriso cheio
de razões loucas e o vento arrastando
pela noite esse seu violino chorão.
Asseado e maldito no meu quartoonde arrulham pombas e soa o apito de navios
encalhados no fundo do atlântico a embalar-me
o ouvido. Olhos bem fechados
enquanto a lâmpada aquece, depois esqueço
linhas sobre a
monotonia espantosadestas progressões rítmicas. Como uma
gota noutra cai, alaga, música
de torneira. A casa enche um copo,
esse abalo íntimo na minha mão,
pequena inundação. Pago cada verso.
É-me impossível escrever mais vezes a palavra
dor, sussurro já ferido de tanto esforço.
A morte põe a sua flor,
busca um nome, esvazia-lhe o eco.
Tombado brilho, desce-me ao canto da boca
essa lágrima com gosto de tempestade.
Resto indigno da juventude.
A ternura é trágica, pior é a inocência.
Chegado à parede, o cavalo de pau já só
é esporeado pela memória.
Dá uma dor nos joelhos só de olhar.
Como quem mais não pode, estendes-te
na cama, pedindo sono,
puxas o teu cordelinho e encontras
os lugares escondidos no sonho.