quinta-feira, março 31, 2011

Da janela do Colégio

O esplendor das tílias pesadas de sol e adormecidas
Chega até mim, vacilante, e sobe a parede do Colégio.
Em baixo, o relvado, sob a sombra azul e suave, mantém
A espuma silenciosa das margaridas em amena escravidão.

Para lá das suas folhas suspensas sobre a rua,
Na calçada de lajes varridas e de um branco estival,
Há a multidão que com sombras a seus pés
Caminha de um lado para o outro.

Distante, ainda que oiça a tosse do pedinte,
Vejo os dedos cintilantes da mulher a dar-lhe uma esmola.
Estou sentado, sem culpa e certo de ser para mim melhor
Ficar longe de um mundo a que nunca me hei-de juntar.

- D.H. Lawrence
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
in Os animais evangélicos e outros poemas, Relógio D'Água

Revistas de poesia no final dos anos oitenta

AS REVISTAS E AS SUAS SOMBRAS
António Guerreiro

AS ESCADAS NÃO TÊM DEGRAUS
HÍFEN - CADERNOS SEMESTRAIS DE POESIA -3


O mínimo que se pode dizer, hoje, do nascimento de uma revista é que se trata de uma extravagante pretensão. Houve tempo, em que assim não era: os focos de interesse e de irradiação da vida literária desenvolviam-se em torno de revistas que abriam, no mundo literário, espaços de inclusões e de exclusões. A revista literária era, na maior parte dos casos, um lugar de experimentação e de defesa de um território definido por valores estéticos. E aí temos, para nos limitarmos ao nosso século, projectos em forma de revista - a «Presença», por exemplo - e revistas em forma de projéctil - como o «Orfeu».
Mas a vida literária, hoje, é diferente. Já não há «ismos»; já não há programas colectivos; já ninguém precisa de defender, nos mesmos moldes, a sua produção literária contra quem quer que seja. Em suma: já não há guerras que impliquem a frontalidade combativa de uma revista - há apenas inimizades miudinhas feitas à imagem de um qualquer grupo sócio-profissional. Antes - digamos: no tempo das vanguardas - a revista podia ter um carácter transgressivo, quase trágico (como é precisamente o caso do «Orfeu»), hoje, quando muito, apenas pode haver errância porque não há uma lei a transgredir. Também na literatura, a disseminação do poder deslocou a lei do seu lugar central e irradiante. Aquilo que sustenta hoje uma revista já não é qualquer espécie de solidez programática.
Num horizonte deste tipo, não diria que as revistas literárias se tornaram inúteis - mas tornaram-se, pelo menos, intransitivas, objectos anómalos que não estão suspensos de qualquer espécie de dialéctica, que nascem mais de cumplicidades afectivas do que de afinidades literárias e que irrompem como um puro «nonsense» de que o exemplo mais ilustrativo é um título como As Escadas não têm Degraus.
Por isso não se justifica mais do que uma lacónica nota de abertura onde Joaquim Manuel Magalhães (que, como João Miguel Fernandes Jorge e António M. Feijó constituem a direcção desta «publicação não periódica» nos vem dizer que «com todos os outros colaboradores deste primeiro volume (sem nenhum programa de intenções, pois tais coisas nos são alheias), procuramos um lugar de afirmação inquieta do nosso entendimento cultural. E também um lugar de repouso, o dos próprios textos que formos publicando, que poderão, aos poucos e sobretudo, mostrar aquilo a que determinadas pessoas foram alheias através das suas claras intenções». Ou seja: se alguma intenção existe nesta revista (ou «publicação não periódica») é a de contrariar as «claras intenções» alheias. E assim ficamos a saber que, apesar de tudo, a nossa vida literária, sem o empolgamento dos grandes lances polémicos, ainda é habitada por algum dramatismo que tem a configuração indefinida de um teatro de sombras. Porque, não tenhamos dúvidas, se o «inimigo» não é hoje facilmente localizável num lugar fixo, isso não significa que ele não exista de uma forma mais ou menos disseminada e anónima. As guerras acabaram mas algumas tensões permanecem. Talvez esta dialéctica «debole» seja a única possível na nossa vida literária de hoje. E Fernando Luís, num pequeno artigo sobre um livro de Gil de Carvalho, dirá: «Quando nos jornais se promovem coisitas que não passam de charadas, se incensam artes de humor caseiro de onde toda a inteligência e criatividade verbais desertaram, é bom confrontar-nos com objectos assim para, no mínimo, não nos sentirmos míopes.» Evidentemente, formuladas as coisas deste modo vago e indefinido, há sempre lugar para pensarmos até que ponto é que vai a convicção com que se diz isto, ou se não estamos perante um expediente retórico que serve apenas para engendrar estilo. Porque há quem escreva melhor (e há mesmo quem só consiga escrever) se projecta no seu horizonte um alvo, mesmo que abstracto, contra o qual dirigir as suas palavras. E num outro artigo sobre o último livro de António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães insurge-se contra «os faladores actuais sobre a poesia» que, por tudo e por nada, utilizam o qualificativo «o maior» «para referir o poeta de quem gostam e sobre quem num dado momento se prontificam a falar». J.M.M. detecta aqui um dos maiores vícios do mundo literário (o nosso, mas talvez também todos os outros) que é o de fazer da literatura uma espécie de olimpíada com os seus vencedores e derrotados, erguidos sobre pódios hierarquicamente alinhados. E J.M.M. observa certeiramente: «A existência de poetas maiores não transforma nenhum deles no maior. Pobre duma literatura que soubesse qual era o seu maior poeta.» Mas se não há a possibilidade nem a conveniência em detectar o maior, já os menores são facilmente identificáveis, o que não deixa de ser algo falacioso, sobretudo quando para isso se lança mão de uma metáfora da disputa guerreira: «António Franco Alexandre (...) é um poeta que escreve em português. Inúmeros há que tentam sê-lo, escrevendo linhas do tamanho mais ou menos regular na mesma língua, mas não iria eu chamar-lhes poetas. Quando muito seriam mais um nome inscrito na Sociedade Portuguesa de Autores ou na Associação Portuguesa de Escritores ou promovido por qualquer capanga de uma clique em exercício de ringue.» E não menos falacioso é falar-se no «desbordado coro de encómios pessoanos» (J.M.M.) quando hoje existe um não menor e não menos «desbordado coro» de anti-encómios pessoanos. A dialéctica tem destas armadilhas: mal nos descuidamos, já estamos a entrar na lógica daquilo a que nos opomos.

As Escadas não têm Degraus é uma revista heteróclita que cobre áreas de ensaio (um interessante artigo de António Cerveira Pinto sobre a situação da arte neste fim de milénio e outro, não menos interessante de João Pinharanda sobre «As histórias da fotografia»), de recensões críticas a livros de poesia (Joaquim Manuel Magalhães e Fernando Luís - que escrevem, o primeiro sobre Franco Alexandre e um poeta quase desconhecido chamado José António Almeida, o segundo sobre Assis Pacheco e Gil de Carvalho) e a romances (Fernando Pinto do Amaral e António M. Feijó escrevem sobre V. Ferreira e Agustina), artigos sobre pintura (de João Miguel Fernandes Jorge), um guião de um filme de Joaquim Pinto e também um curioso (e paradoxal, pelo lugar em que se encontra) estudo de Paulo Lobato Faria e Pedro Afonso Branco sobre «Problemas Jurídicos da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida». E há ainda inéditos de um poeta ainda pouco editado, Jorge Fazenda Lourenço, que, não sendo propriamente entusiasmantes, merecem toda a atenção. Mas talvez o núcleo forte da revista seja uma selecção de poemas de um dos grandes poetas espanhóis ainda vivos - o catalão Jaime Gil de Biedma - que, à parte alguns poemas que dele foram traduzidos na antologia da poesia espanhola de José Bento, continua quase desconhecido entre nós. Joaquim Manuel Magalhães é o autor desta selecção, e manteve-os sem serem traduzidos, o que parece ser uma óptima solução (afinal, qualquer português que lê poesia está em condições de ler castelhano).
Menos pertinentes serão talvez três «Flashes» - texto em prosa - mais ou menos inócuos de Mécia de Sena, num registo autobiográfico e mais ou menos indigente a provar que não se é escritor por afinidades conjugais; ou os três contos de José Dinis Fidalgo que não passam de um bordado mais ou menos gratuito de palavras, nem sempre alinhadas por critérios de bom gosto. Um conto que começa desta maneira: «Desde quando não sei, o João gostava de me levar por lugares perdidos a brindar os nossos olhos que, reconheçamo-lo, são os dentes maiores da imaginação» não prenuncia, de facto, nada de bom.
Uma outra revista que nos chega do Porto e já vai no seu terceiro número (a sua periodicidade é semestral) é Hífen - cadernos semestrais de poesia. Dirigida por Inês Lourenço, esta é uma revista exclusivamente de poesia. Não é heteróclita mas ecléctica. Nela cabem nomes consagrados, (como Ramos Rosa, Gastão Cruz, Eugénio de Andrade, Nuno Júdice, Luís Miguel Nava e outros) e nomes quase desconhecidos como Rosa Alice Branco ou José Alberto Quaresma. Graficamente bem cuidada (por vezes, talvez, excessivamente cuidada...) não há propriamente neste terceiro número da Hífen grandes revelações. Vale a pena ser lida pelo conjunto de bons poetas que aglomera, mas não nos permite detectar nomes prometedores, pelo menos por agora. A não ser, talvez, Jorge Figueira, que é, entre os desconhecidos, o que se revela mais interessante. Hífen é sinal de pacífica justaposição, uma espécie de comunidade de amigos da poesia para quem esse traço comum basta.
-
Quanto a cultura ou seja o que for, sempre fui contra a ideia de que um poeta para ser importante deve ser estúpido ou analfabeto. Eu considero que se eles não são estúpidos ou analfabetos (o que muitos deles são) temos de aceitar como parte do ser, do viver, a experiência e contacto com os seres humanos, que é essencial para mim, tudo quanto é humano me interessa. Eu diria – mesmo que isto choque algumas pessoas –, a natureza interessa-me se os seres humanos ou marcas humanas estão nela. De outro modo, não estou nada interessado na natureza.

- Jorge de Sena
(excerto de uma entrevista)
via portugal dos pequeninos

quarta-feira, março 30, 2011

Dia 1 de Abril, sexta-feira, no Bartleby

O Bartleby inaugura a exposição de poemas manuscritos intitulada HAND MADE.



Decidimos fazê-la por nos parecer importante tornar visível a singularidade das caligrafias de vários poetas que nos são caros, mas também por acharmos que um poema merece a mesma dignidade de um desenho, de uma fotografia, de uma escultura. Participam nesta exposição, alguns deles com textos inéditos, os seguintes poetas:

A.M. Pires Cabral, Ana Paula Inácio, António Barahona, Armando Silva Carvalho, Carlos Bessa, Carlos Mota de Oliveira, David Teles Pereira, Diogo Vaz Pinto, Emanuel Jorge Botelho, Gil de Carvalho, Herberto Helder, Jaime Rocha, John Mateer, Jorge Roque, José Alberto Oliveira, José Amaro Dionísio, José Carlos Soares, José Miguel Silva, Levi Condinho, Luis Manuel Gaspar, Luís Pedroso, Manuel António Pina, Manuel de Freitas, Maria Sousa, Mariano Peyrou, Marta Chaves, Miguel de Carvalho, Miguel Martins, Paulo da Costa Domingos, Renata Correia Botelho, Ricardo Álvaro, Rosa Maria Martelo, Rui Caeiro, Rui Miguel Ribeiro, Rui Pires Cabral, Silvina Rodrigues Lopes, Tiago Araújo, Vítor Nogueira, Vitor Silva Tavares.


Todos os manuscritos (ou dactiloscritos assinados) estarão à venda ao preço único de €30.

A língua portuguesa

Esta língua que eu amo
Com seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças Esta voz esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(Eganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem
Minha eterna
Virgindade.

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional
-
Com a tarde
cansaram-se as duas ou três cores do pátio.
Esta noite a luz, o claro círculo,
não domina o seu espaço.
Pátio, céu demarcado.
O pátio é o declive por onde se derrama o céu na casa.
Serena,
a eternidade espera na encruzilhada de estrelas.
Grato é viver na amizade escura
de um saguão, de uma latada e de uma cisterna.

- Jorge Luis Borges
(tradução de Fernando Pinto do Amaral)
in Obras Completas Vol1, Teorema

terça-feira, março 29, 2011

Gerard Manley Hopkins



The Leaden Echo And The Golden Echo
(Maidens' song from St. Winefred's Well)

THE LEADEN ECHO

How to keep--is there any any, is there none such, nowhere known some, bow or brooch or braid or brace, lace, latch or catch or key to keep
Back beauty, keep it, beauty, beauty, beauty, . . . from vanishing away?
O is there no frowning of these wrinkles, ranked wrinkles deep,
Down? no waving off of these most mournful messengers, still messengers, sad and stealing messengers of grey?
No there's none, there's none, O no there's none,
Nor can you long be, what you now are, called fair,
Do what you may do, what, do what you may,
And wisdom is early to despair:
Be beginning; since, no, nothing can be done
To keep at bay
Age and age's evils, hoar hair,
Ruck and wrinkle, drooping, dying, death's worst, winding sheets, tombs and worms and tumbling to decay;
So be beginning, be beginning to despair.
O there's none; no no no there's none:
Be beginning to despair, to despair,
Despair, despair, despair, despair.


THE GOLDEN ECHO

Spare!
There is one, yes I have one (Hush there!);
Only not within seeing of the sun,
Not within the singeing of the strong sun,
Tall sun's tingeing, or treacherous the tainting of the earth's air.
Somewhere elsewhere there is ah well where! one,
One. Yes I can tell such a key, I do know such a place,
Where whatever's prized and passes of us, everything that's fresh and fast flying of us, seems to us sweet of us and swiftly away with, done away with, undone,
Undone, done with, soon done with, and yet dearly and dangerously sweet
Of us, the wimpled-water-dimpled, not-by-morning-matched face,
The flower of beauty, fleece of beauty, too too apt to, ah! to fleet,
Never fleets more, fastened with the tenderest truth
To its own best being and its loveliness of youth: it is an ever-lastingness of, O it is an all youth!
Come then, your ways and airs and looks, locks, maiden gear, gallantry and gaiety and grace,
Winning ways, airs innocent, maiden manners, sweet looks, loose locks, long locks, lovelocks, gaygear, going gallant, girlgrace--
Resign them, sign them, seal them, send them, motion them with breath,
And with sighs soaring, soaring sighs deliver
Them; beauty-in-the-ghost, deliver it, early now, long before death
Give beauty back, beauty, beauty, beauty, back to God, beauty's self and beauty's giver.
See; not a hair is, not an eyelash, not the least lash lost; every hair
Is, hair of the head, numbered.
Nay, what we had lighthanded left in surly the mere mould
Will have waked and have waxed and have walked with the wind what while we slept,
This side, that side hurling a heavyheaded hundredfold
What while we, while we slumbered.
O then, weary then why should we tread? O why are we so haggard at the heart, so care-coiled, care-killed, so fagged, so fashed, so cogged, so cumbered,
When the thing we freely forfeit is kept with fonder a care,
Fonder a care kept than we could have kept it, kept
Far with fonder a care (and we, we should have lost it) finer, fonder
A care kept. Where kept? Do but tell us where kept, where.--
Yonder.--What high as that! We follow, now we follow.--
Yonder, yes yonder, yonder,
Yonder.

Álamos de Binsey

(abatidos em 1879)

__Meus álamos amados, cujas aéreas gaiolas enlaçavam
__Enlaçavam o sol aos saltos e em folhas o abrandavam –
__Por terra derrubados, todos, todos derrubados;
____De uma viçosa fileira de álamos, braços dados,
____________Nenhum poupado, nem um
____________Que embalava aquela sombra
________De sandálias, que singrava e sumia
Na alfombra, no rio, nas bordas d'ervas serpeantes,
______ventos- errantes.

__Ó, se a gente tudo que faz soubesse
________Quando escava, decepa –
____Retalha, esfola o verde que cresce!
________Pois que o campo é tão frágil
____Ao toque, tão tenro e grácil,
____Como estes globos macios – olhos meus –
____Uma farpa em seus refolhos – e, olhos, adeus!

____Assim, mesmo que pretendamos
____________Melhorar, nós devastamos
________Quando abatemos ou escavamos:
Os que vêm depois não adivinham a beleza que se desfez
__Dez ou doze, doze ou dez
____Golpes de maldade – e esvai-se a identidade
________Da doce cena especial
____Cena rural, uma cena rural,
____Doce, especial, cena rural.

- Gerard Manley Hopkins
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)
in Poemas, Companhia das Letras

-
Tu que me dominas,
Deus doador de hálito e alimento,
Amarra do mundo, controle do mar,
Senhor dos vivos e dos mortos;
Tu me ligaste ossos e veias e me colaste a carne
E após, quase desfizeste, quem sabe, por medo,
O teu feito: e ora pões-te de novo a tocar-me?
Mais uma vez te encontro, sinto o teu dedo.

- Gerard Manley Hopkins
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

segunda-feira, março 28, 2011

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Cântico

Não consentir a fórmula
Não produzir nenhuma
Nunca pisar os calos
Não desmanchar a cama
Dos sonhos necessários
Não lançar mais tinta
Sobre a mesma tela
Volvidos tantos anos –
Não deixar de beber
O vinho da esperança
Dizer dizer tudo
Dizer quase tudo
Em palavras sem jaça
E um amor sem limites
Por todos por tudo

- Alberto de Lacerda
in Oferenda I, Imprensa Nacional

sábado, março 26, 2011

ré menor, Patrícia Baltazar (Língua Morta)

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The City

You said: “I’ll go to another country, go to another shore,
find another city better than this one.
Whatever I try to do is fated to turn out wrong
and my heart lies buried as though it were something dead.
How long can I let my mind moulder in this place?
Wherever I turn, wherever I happen to look,
I see the black ruins of my life, here,
where I’ve spent so many years, wasted them, destroyed them totally.”

You won’t find a new country, won’t find another shore.
This city will always pursue you. You will walk
the same streets, grow old in the same neighborhoods,
will turn gray in these same houses.
You will always end up in this city. Don’t hope for things elsewhere:
there is no ship for you, there is no road.
As you’ve wasted your life here, in this small corner,
you’ve destroyed it everywhere else in the world.

- C.P. Cavafy
(tradução de Edmund Keeley e Philip Sherrard)
in Collected Poems, Princeton University Press

quinta-feira, março 24, 2011

Na Poesia Incompleta




ORIENTAÇÃO


Escrevi milhares de versos
para esquecer. Amei algumas mulheres
para lembrar. Agora já posso dizer
o som em carne viva.

A cidade assemelha-se a um acampamento
abandonado no deserto. Os nómadas
partiram nos seus camelos, com provisão
de tâmaras e água.
Há restos de detritos, sinais de trânsito,
folhas arrancadas a revistas pornográficas,
ao sabor do vento, por entre pétalas
sêcas de flores mortas.

Há resíduos de sítios onde estive contigo,
fragmentos de versos de vidro, tudo
muito nítido, anotado, vincado a oiro.

- António Barahona
in O som do sôpro, Poesia Incompleta

quarta-feira, março 23, 2011

Os Poetas

Para o Rui, o Manuel e o Diogo

À mesa os poetas
trocam imagens e calibram versos
como se procurassem a letra
certa para o seu mapa.
Guardam silêncios sobre folha de ouro
ou constroem pontes súbitas
entre o Amor – assim mesmo, maiúsculo –
e a infância. Salvam raparigas em flor
mas sacrificam a Primavera só
para depois poderem recolher
a beleza, ainda viva,
ainda trémula, do chão.

Ouço-os e espero o regresso a casa
para enterrar finalmente o pássaro morto
e o gato que agonizava no dia do meu aniversário.
Escolho uma música que me devolva
repetidamente todos os amigos
e torne, por isso, menos desolado este final.

E passo as mãos devagar,
com a curiosidade e avidez
que reservava antes para os tesouros
– ou os primeiros beijos – no final de cada livro,
pelas memórias que os poetas abandonaram sobre a mesa
e eu guardei ciosamente nos bolsos.

- Inês Dias

terça-feira, março 22, 2011

Esta sexta-feira, às 22h, no Bartleby

Desta edição fez-se uma tiragem especial de 30 exemplares, numerados e assinados pelo autor, que estarão à venda na noite do lançamento.

Bartleby Bar / Rua Imprensa Nacional, 116b (cave do restaurante BS)

John Mateer

Adenda

Para a Inês e à memória
de quantas andorinhas matei

Como a fotografia que tiras, a pedra
que vos lancei desde essa primavera
da minha infância
tinha (se me perdoares a franqueza)
a mesma intenção: capturar o momento.
Mas um jeito rude, cretino, o desejo
quando só sabe ser grosseiro, antes
de ganhar bons modos, mais artísticos.
Em vez de «para sempre»
ou apenas «para mais tarde recordar»,
ali mesmo se precipitava, atropelando
a realidade nesse seu golpe possessivo.
Não sabendo reproduzir, criar igual,
vai destruir – para ter pelo menos
mão na coisa, um papel qualquer
ainda que seja o de vilão.

Não espero que o entendas. Por sorte,
eu entendo-te. E o que nos separou
talvez recorde aos dois o nosso papel.
Chama-se educação, professora.


Lisboa, madrugada de 21.03.2011

Este Sábado

segunda-feira, março 21, 2011

O que vais fazer com o resto da tua vida?

Não sei.
Vou ficar pelo movimento circulante da bicicleta que parou, agora,
À minha porta.

Sentar-me,

Pedal
A
Pedal

E revisitar
A infância
Traquina
E inocente
Do primeiro beijo
E das flores nos valados.

Vou pegar na bicicleta
E rodar tudo de novo

Até ser feliz.
-
«A poesia já não se impõe, expõe-se»
Paul Celan


-

domingo, março 20, 2011

-
Em vão desenhas corações na janela:
o Duque do Silêncio
arregimenta soldados no pátio do castelo.
Iça na árvore o seu estandarte – folha que azula quando o outono entra;
distribui pelo exército as folhas de erva da melancolia e as flores do tempo;
com pássaros no cabelo parte a enterrar as espadas.
Em vão desenhas corações na janela: há um deus entre as legiões,
envolto no manto que um dia te caiu dos ombros sobre as escadas da noite,
um dia, quando em chamas o castelo se erguia, quando falavas como falam os homens: Amada...
Ele não conhece o manto e não invocou a estrela e segue aquela folha ondeando à sua frente.
«Oh, folha de erva», julga ele ouvir, «oh, flor do tempo»

- Paul Celan
(tradução de João Barrento e Yvette Centeno)
in Sete Rosas Mais Tarde, Cotovia

sábado, março 19, 2011



Escavo o rasto dos teus passos:
o mundo
derrama-se
na cavidade que fica,

volto a amar-te
no limite febril de mim mesmo,

tu folheias, agora terra fina,
os meus remotos
testemunhos.

- Paul Celan
(tradução de João Barrento)
in A morte é uma flor, Cotovia

Retrato de uma sombra

Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campos de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, alámos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

- Paul Celan
(tradução de João Barrento)
in A morte é uma flor, Cotovia

Rango (2011)


7/10

Noites estrangeiras

Há muito que amo os ínfimos pormenores da estranha janela de sacada.

O sol deparava-se com a minha companhia
Nos tristes anos de um jardim obedecendo ao rigor das estações.
Existira sempre uma alma desesperada
Procurando luz
E a fachada da casa enegrecida.

Crescera musgo
Nesse tempo de abrir a janela
E fechar o Verão
No rigor das sanefas e do vento de Outubro.

Era como se chovesse nos livros
Em que os jardins se despem como dois amantes.
Como se um grito invadisse a porta exterior do pátio
Reaparecendo em sonhos no quarto verde,
No quarto dos ferrolhos
Por causa dos pés de altura
Numa noite de larápios.

E,
No escuro apreensivo,
As mãos eram ternas
Macias
Como o vento pousado
Cansado de enormes pregos
E de relâmpagos
Nas noites estrangeiras.

sexta-feira, março 18, 2011

Os movimentos da poesia

No segmento introdutório de Tatuagem & Palimpsesto (Assírio & Alvim, 2010), Manuel Gusmão escreve que “[n]o seu movimento perpétuo, a poesia reinventa a sua origem ou o seu modo de chegar” (Manuel Gusmão, p. 9). À imagem sugerida e associada pelo poeta e ensaísta a este movimento há que reconhecer todo o seu poder criador: uma chama que, até morrer, “oscila e ondula segundo a vertical de uma árvore” (Manuel Gusmão, p. 9). Não deixa de ser curioso e, já agora, indicativo que Rosa Maria Martelo, também no segmento inicial do seu livro, A Forma Informe (Assírio & Alvim, 2010) invoque uma ideia particularmente próxima: “Faz parte do movimento construtivo da poesia um certo desencontro do poema com ele mesmo, isto é, o desajuste das suas próprias estruturas e a possibilidade de fazer «oscilar» (o termo é de Luiza Neto Jorge) os pressupostos que lhe serviram de ponto de partida” (Rosa Maria Martelo, p. 9).
Desse movimento estes autores dão-nos, em primeiro lugar, um movimento de leitura, descendente, cujo ritmo nos empurra em direcção ao fim da página e, também, em direcção ao chão, porque o poema, como sempre há-de lembrar Luiza Neto Jorge, ensina a cair. Neste último apartado, pode afirmar-se com segurança que tanto Manuel Gusmão como Rosa Maria Martelo, para regozijo dos seus leitores, fornecem através das suas interpretações inúmeros exemplos em que se manifesta o poder avassalador do texto poético no seu momento de leitura. Veja-se, a título de exemplo, em Manuel Gusmão, o fortíssimo Leiam Herberto Helder Ou o Poema Contínuo, “porque o que temos para ler é um livro fulgurante e estarrecedor” (Manuel Gusmão, p. 365) ou o ensaio O fio das sílabas, de Rosa Maria Martelo sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, em cujas páginas finais a ensaísta observa, numa leitura singularmente interessante, que “o que a poesia de Sophia nos mostra não é só a possibilidade de um caminho de justiça e de justeza, porque é muito mais do que isso. Ela diz-nos que a perfeita inteireza do ser é uma exigência humana e que [...] tal exigência ganha forma na travessia da imperfeição” (Rosa Maria Martelo, p. 33).
Este é, talvez, um movimento do próprio poema, seja ele expresso através da chama que, pela oscilação do ar, nunca permanece hirta ou pela tensão constante entre equilíbrio e desequilíbrio. Nesta perspectiva, e apesar do recurso a imagens tão diversas, há uma proximidade óbvia entre Tatuagem & Palimpsesto e A Forma Informe. O seu ponto de partida é, também, próximo: ambos os livros são maioritariamente compostos por ensaios anteriormente publicados pelos autores com a poesia portuguesa do século XX como pano de fundo, à excepção dos textos que Manuel Gusmão dedica ao poeta francês Arthur Rimbaud e a Cesário Verde e do ensaio O poema como amostra-de-mundo, de Rosa Maria Martelo, a propósito de João Cabral de Melo Neto, um poeta brasileiro. Coincidem, igualmente, em alguns dos seus vectores, podendo encontrar-se nos dois livros ensaios sobre Sophia, sobre Herberto Helder e sobre Carlos de Oliveira.
O movimento é também, há que afirmá-lo, um movimento para o poema. Aqui o trabalho do ensaísta deve colaborar activamente com o poeta. Imagine-se alguém que, sem qualquer outra fonte de luz, faz incidir uma vela sobre um objecto com múltiplas faces. O movimento da fonte de luz implica uma opção necessária entre iluminação para uma das faces do objecto e sombra e negrura para as restantes. Um poema de Luiza Neto Jorge citado por Rosa Maria Martelo fornece, deste processo, uma poderosa imagem: “Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo. / De só imaginá-lo a luz fulmina-me, / na outra face ainda é sombra” (Rosa Maria Martelo, p. 123). Do que aqui se fala é do importante labor de perspectivação que se deve exigir ao ensaísta no fornecimento de pistas e ferramentas de leitura e, por que não, de impossibilidade de leitura. A poesia tem a sua medida de entendimento e comunicabilidade e a sua medida de algo que, à falta de melhor palavra, se pode chamar de intuição.
Tatuagem & Palimpsesto é um livro com um ritmo de leitura substancialmente mais complicado de encontrar do que aquele que pauta A Forma Informe. Esta tendência é mais evidente na primeira parte, que nos apresenta uma estrutura de textos temporalmente sequenciados cujo tema condutor é o acto, o sentido e a condição do texto poético. Aqui, as intenções do autor e o seu domínio pleno da linguagem e do universo teórico da poesia, por mais dignos de reconhecimento que sejam, nem sempre conseguem evitar um resultado ligeiramente maçador para o leitor. Diferentemente, na segunda parte, em que Manuel Gusmão escreve sobre outros poetas – a grande maioria seus contemporâneos –, os textos pautam-se, quase sempre, pelos melhores momentos da parte antecedente. Nesta secção, deve ser dado destaque aos textos sobre Sophia – em que, curiosamente, a sua leitura se aproxima um pouco da de Rosa Maria Martelo – e sobre Fernando Assis Pacheco.
Em A Forma Informe, sem qualquer cedência à comodidade e a uma leitura de primeira camada, Rosa Maria Martelo consegue dar aos seus textos um ritmo célere e directo, ao mesmo tempo que confronta o leitor com referências literárias, comunicações de textos e perspectivas de leitura bastante profundas e imaginativas, mesmo quando trabalha sobre argumentos já anteriormente expostos por outros ensaístas e, até, por si em textos. O ensaio que a autora dedica à poesia de Herberto Helder, mais especificamente ao seu livro A Faca Não Corta o Fogo – Súmula & Inédita, pode servir de exemplo. O mesmo acontece com Alegoria e autenticidade, em que Rosa Maria Martelo desenvolve, a propósito de textos poéticos e críticos de Manuel de Freitas, um tema já estudado num outro ensaio incluído na sua obra Vidro do Mesmo Vidro (Campo das Letras, 2007).
Há que reconhecer, apesar disto, que os propósitos ensaísticos enunciados por estes dois autores são absolutamente diferentes. Rosa Maria Martelo publica uma série de ensaios mais próximos de uma estrutura tradicional do texto académico. O seu núcleo de leituras é, também por isso, mais objectivável e de apreensão mais imediata. Pelo contrário, as principais valências dos textos de Manuel Gusmão encontram-se no poderio imagético a que frequentemente recorre, seja ao escrever sobre poesia ou sobre outros poetas, o que acaba por resultar em momentos sublimes de prosa não tão frequentes em A Forma Informe. Atente-se, por exemplo, naquilo que Manuel Gusmão escreve a propósito da poesia de Carlos de Oliveira: “é daquelas que nos obrigam a uma maneira de usar uma palavra que elas próprias usam, mas que caiu em desuso: a palavra beleza. Com os seus poemas, fazemos frequentemente a experiência daquilo a que chamávamos beleza. Que fulmina como um relâmpago, queima como uma ponta de gelo ou é já só um brilho restante à beira da exaustão, o fulgor do halo de uma coisa que vai extinguir-se” (Manuel Gusmão, p. 338).
Se algo se pode afirmar acerca destes dois livros de Manuel Gusmão e de Rosa Maria Martelo é que ambos revelam um conhecimento vasto, tanto do universo poético como do seu aparato teórico, conferindo aos versos e à sua leitura um trabalho notável ao nível ensaístico. O poema tem uma dimensão historiográfica, ainda que fragmentária, ao revelar-se como uma forma de dizer o mundo através das suas anotações. Tendo presente esta ideia, os dois autores oferecem sobre a poesia uma visão nada parcelar, convocando noções puramente literárias, mas, também, conceitos do léxico filosófico ou, até, do léxico histórico-político, que procuram captar toda a panóplia de intenções de leitura que os poetas – propositadamente ou não – deram aos seus versos. Acontece, porém, que A Forma Informe tem uma leitura mais sequencial e apreensível, sem que disso resulte qualquer prejuízo para o leitor ao nível da informação disponível e da elevação do discurso. Já Tatuagem & Palimpsesto revela, em alguns momentos, as dificuldades inerentes à segunda palavra do seu título: nem sempre é fácil ler o texto tapado pelo texto.

*Texto publicado no Ípsilon de 18 de Março

The Company Men (2010)


8/10

quinta-feira, março 17, 2011

She's such a charmer

IV

Enquanto escrevo, a realidade nem
se importa muito, nem pouco, nem nada:
o dia nasce após a madrugada,
a luz do Sol dissipa negra nuvem,

desperta sons que voam, dá passagem
à procissão da voz na curta estrada;
um eco branco vem da passarada,
quebra no espelho sobreposta imagem.

Este regresso foi saber que recomeço
realmente na lenda, a qual of'reço
à realidade; e, em troca, nada espero,
sim, salvante o reflexo nesse espelho,

agora, em mim, reconstituído liturgia:
dor de prazer da variante que se expraia.

- António Barahona
in O sentido da vida é só cantar, Assírio & Alvim

quarta-feira, março 16, 2011

O caçador

Volto a atravessar os campos
onde as andorinhas escondem
seus ninhos azuis.
E a raposa amaldiçoada em todos os quintais
me acompanha entre moitas.

Inocência, orvalho, evaporado!
Joguei pedra em passarinho.
Arranquei as asas das tanajuras.
Mutilei lagartixas e borboletas.
As flores não apagam meu cheiro de sangue.

Pelas folhas frementes ouço o avanço
rancoroso e fraterno desse bicho
que vê nascer no meu ombro a espingarda
de um encontro futuro. E me punge
a dor de ser um homem.

- Lêdo Ivo
in Calabar, Record

Homenagem a um semáforo

Aquele semáforo junto ao mar, na minha infância.
Sempre amei as coisas que indicam ou significam algo
– tudo o que, em silêncio, é linguagem.

- Lêdo Ivo
in Calabar, Record

terça-feira, março 15, 2011

Yo La Tengo

Gentle hour





(Da colectânea Dark was the night, 4AD, 2009)

Jesús Aguado

Filha



sorris-me com tudo
com os teus pés e as tuas mãos com o ar
com a tua boca que continua a sugar
quando dormes
com a tua origem diáfana oferta da luz
com a raiz da tua pele e perfume e tempo
com o teu choro
esse monte que escalas devagar e de cujo cimo
te atiras para o sonho como um pardal para a água
sorris-me
e então eu que te tenho esperado
como os carris esperam o comboio que lhes trará
destino e música
de súbito paralelos no seu infinito
sorrio-te
e saímos nos meus braços
dois nascidos a jogar a inventar a vida
a acariciar o gato que persegue
a bola de lã de algum mundo

dois nascidos que inventam o jogo da vida
e sorriem
enquanto passam as nuvens
e a chuva descansa de ser chuva



(Versão minha; poema incluído em Cambio de siglo - Antología de poesía española (1990-2007), selecção, prólogo e bibliografia de Domingo Sánchez-Mesa Martínez, Hiperión, Madrid, 2007, p. 98).

The Adjustment Bureau (2011)


8/10

The Rite (2011)


7/10

Sempre odiei a subtileza

Voltaste a deixar
as minhas malas à porta
como um conselho subtil
de um bom amigo.

Sinceramente,
preferia ver voar
os jarros chineses da tua mãe.
Sempre odiei a subtileza
e tu sabe-lo.

Não sejas tonta.
No fim de contas
se eu me for
quem é que te trará insegurança.

- Santiago Nuñez Pedregosa
(versão de LP)

segunda-feira, março 14, 2011

Anti-corpos

O velho do Restelo agora escreve crónicas num blogue
e dá entrevistas à rádio a propósito de qualquer tema,
mesmo que seja o amor que nunca recebeu de uma mulher dez anos
mais nova e quarenta quilos mais magra.

David Teles Pereira

Esta água-choca já tem imagem de marca, é engarrafada e dada a beber como se extraída à pia baptismal da poesia, e vai vendendo o exemplo da mediocridade como uma opção estratégica, revoltosa. Vem um padreca de circunstância, falar em nome de deuses sem elevação nem ocupação, organiza um culto dos mortos à revelia das vidas que levaram e do exemplo que deixaram, anuncia greves de fome, distribui cartazes entre alheados e turistas, com frases e noções subtraídas ao seu contexto, veste o ressentimento de protesto, fala em ruptura, na importância de cortar com o passado, e atira muitas pedras a muitas janelas. No elástico à volta destas, seguem desamparadas muitas das palavras que temos como sérias, ali em jeito de bocejo.
Chega tarde e cheio de pretensões, como quem liga a televisão e apanha a meio o episódio da novela. Põe-se a defecar nos quintais, diz que é a sua opinião, como se uma opinião muitas vezes não fedesse mais e não pudesse ser uma agressão maior aos sentidos do que verdadeiras excreções físicas.
Num meio condenado ao silêncio por serem tão poucos aqueles que podem levantar a voz com alguma propriedade e estabelecer um juízo sério relativamente a qualquer esforço poético, individual ou colectivo, fingir que não se entende como pode tornar-se desagradável e, sobretudo, desmotivador que a primeira voz a levantar-se venha bradar levianamente pela falta de perspectiva e validade de qualquer empresa é de uma inconsciência imperdoável. Há nisto tudo uma dose incrível de desconsideração, uma cegueira e uma desonestidade intelectual que assusta quando se verifica que se tornou bitola para uma série de pessoas que continuam a falar de uma (sua) paixão frustrada. Mas o que é isso?
O desafio mais imediato das iniciativas poéticas dos nossos dias, mais ainda do que a dificuldade de encontrarem uma massa crítica de leitores, é superar esta operação de descrédito da parte destas casas de velhos (e reformados) do Restelo, que se servem de quaisquer ruínas históricas da lógica e do pensamento para alimentar a ideia de que vivemos num ambiente criativo frouxo, e assim nutrir apenas o sentimento de que tudo é apenas um mesmo mal que se multiplica.
O que é dito no editorial da revista Agio e ali é subtraído à sua função e instrumentalizado a favor do grande bolo de desentendimentos que essa garganta cresce, é que o novo pelo novo não apresenta por si um desafio ou sequer um valor afirmante. Procurar a ruptura a todos os custos é uma facilidade discursiva e uma opção que se pode tornar um castigo sacrificando a poesia a favor de experiências sem qualquer espírito de investigação, e só alicerçadas nesse breve entusiasmo que leva um miúdo a fechar-se, entre químicos que não domina, num laboratório. Os próprios versos de quem profere estas urgências confirmam que está longe de arriscar uma direcção nova, antes se perde em círculos, revelando tantos dos tiques associados muitas das vezes à mais cansada das noções de poesia. No fundo, e depois de toda a vozearia e barulheira gerada, sempre que metemos o pé nestas águas apenas confirmamos que não têm profundidade, não escondem nada nem levam para lugar algum. No máximo, ali, podem juntar-se uns desconsolados e chapinhar à toa, cansando-se em frente ao espelho e debaixo da excessiva maquilhagem das indignaçõezinhas que afixam a cada dia.
São os do costume, como já os havia no século XIV e antes, mas hoje nem precisam de sair à rua e enfrentar o ânimo daqueles que interpelam. Têm blogues e opiniões, muitas. Mas não percebem que a ruptura (se é verdadeira) surge quando para continuar e levar em frente se torna necessário vencer uma resistência imposta pelo hábito que se gerou na maioria, levando a crer que a poesia de algum modo pode estar mais apegada a uma tendência, e os livros de poesia mais aparentam manuais de etiqueta existencial. Mais apegada a um âmbito restrito e restritivo do que à necessidade de se empenhar na urgência da sua revelação, desabrochando perpetuamente, uma flor que cheira os tempos e se vai despetalando através deles, só por instantes sendo surpreendida, deixando a descoberto o coração. E logo que o revela imediatamente se defende, revestindo-o de uma nova camada de pétalas. Sensibilidade é isto, e a poesia é uma arte de precisão. Dispensa bem estas ansiedades egoísticas camufladas de boas intenções.

sábado, março 12, 2011

-
Sobretudo as vozes. O que passa em campos e não é comum. Magnetiza, desvia. As palavras tornam-se infinitas, fios segregados em incontáveis relações. Formam teias que a consciência não domina. "Eu" é uma palavra para o conflito, paragem mínima em que instinto, hábito e potência criadora tocam limites, que confirmam e repudiam.
Não me digam que a chávena sobre a mesa, o cheiro do cigarro ou um olhar oblíquo se bastam e nos desprendem de sermos nós, cabisbaixos, a caminho do caminho já feito - a glória. O que nos requer a cada instante, a vida, não prescinde da floração das ideias, do desequilíbrio das interpretações. Da dor, sobretudo, e do seu não poder ser assim.

- Silvina Rodrigues Lopes
in
Sobretudo as vozes, Vendaval
-
Tudo o que é importante se passa no mais profundo segredo. Assentes as regras de um jogo sem lances nem parceiros, nem mesmo casa ou endereço, fica a liberdade. Um poeta disse "a liberdade é detestável". Quero contrariá-lo: a liberdade é terrível. Vem dela o segredo e a impossibilidade de o dizer, é ela que o dissolve no sangue, que o faz idêntico à tinta cor de sangue, idêntico ao voo. E até ao sol, assim o espero.
Estar na luta contra a pedra fria e a ruína. Para que não dominem o mundo. A dedicação, o luxo, a memória irrompem em vestes, pregas, sombras, pressentimentos vários.

- Silvina Rodrigues Lopes
in
Sobretudo as vozes, Vendaval

Hoje, no Bartleby

sexta-feira, março 11, 2011

TAL
QUAL
PAUL
VALÉRY


dorenavant, doravante,
(somente em algum caso específico
com calculado efeito retroativo)
cada poema
...onde tudo é equilíbrio
e cálculo
como na música de Stravinsky.
Valéry não é arremedo de escudo
para o acuado remoedor do ar de medo:
um poema deve ser uma festa do intelecto.
E poemas e festas e intelectos implicam riscos.
Cuidado para não escrever:
ali, onde tudo não é senão ordem e beleza,
luxo, calma e volúpia.
Mas nada de emenda
pois este paraíso-artefato
só se atinge de fato no poema.
Por que proibi-lo de ser o delírio das sensações?
Por que propor, ó fedelho, um cinto de castidade
e uma presilha para uma donzela-musa
deflorada e redeflorada cuja virgindade
só se recompõe por gosto de ser
deflorada e redeflorada mais?
Às vezes, ela clama para ser estrupada
mas não por você que fede a cueiros.

Sei, com os antigos e alguns vivos,
que a fobia castra os ritmos
e as formas da coragem.
Sá de Miranda, Camões, Cesário,
João Cabral, Augusto, Ashbery:
a resolução de ser poeta
sem precisar o peito
estufar
de vãvaronice.
E, no mais,
POESIA É O AXIAL.


- Wali Salomão
in Algaravias, Quasi
LAUSPERENE


Quase qualquer antologia
da atual poesia nacional:
sequência segue sequência
de poema-piada
e pseudo-haicai.
Ou o pior de tudo
e o mais usual:
brevidade-não concisão
brevidade-camuflagem
de poema travado
engolido para dentro.
Belo é quando o seco,
rígido, severo
esplende em flor.
Seu nome: Cabral.
Nome de descobridor.


- Wali Salomão
in Algaravias, Quasi

Paisagem de fundo

Nunca pude ligar-me cruamente a coisas novas,
Pois vi a luz pela primeira vez numa cidade antiga
Na qual telhados em confusão desciam desde a minha janela
Até um singular porto de abrigo, rico em visões.
Ruas com portas-de-entrada entalhadas
Cujas velhas bandeiras
E pequenas vidraças os raios do sol-poente banhavam
E campanários georgianos encimados por agulhas douradas –
Eram essas as paisagens que meus sonhos de criança modelavam.

Tais tesouros, deixados por um tempo não corrompido
Não podem senão fazer-nos desdenhar das quimeras sem sentido
Cuja presença de confusa fé se esgueira por mutáveis vias
Entre os muros que à terra e ao céu enchem os dias.

Cortam as amarras do momento e deixam-me em liberdade
Para ficar só e de pé diante da eternidade.

- H. P. Lovecraft
(Tradução de Nicolau Saião)
in Os Fungos de Yuggoth, Black Sun Editores

quinta-feira, março 10, 2011

quarta-feira, março 09, 2011

-
MSV: Em quais autores e literaturas do atual século pode ser percebida a trilha de experimentação e atrito traçada em seus ensaios mais recentes?

SRL: Os autores que neste século são para mim da maior importância para o pensamento vêm de séculos anteriores. Dentre os que publicaram poesia, posso referir seis, sobre os quais tenho escrito e em quem encontro sempre incitação à experiência do pensamento: Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Mário Cesariny e Herberto Helder. Já deste século, refiro duas revistas que se caracterizam pela distanciação em relação à pertença ao campo literário, afirmando o que talvez se possa chamar um “direito à poesia” independente de qualquer reconhecimento. Telhados de Vidro corresponde à instauração desse movimento em que a afirmação e a perseverança prescindem de quaisquer fatores de sucesso. Mais recentemente surgiu outra revista, Criatura, na qual se lê certo tributo a Paul Celan, implicando também que a poesia é parte da vida e da sua morte.

excerto de POESIA E TEORIA NA ERA DA INDIFERENÇA, uma entrevista a Silvina Rodrigues Lopes

Aqueles que vivem agora

I

Um dia, em Kharkov, num bairro popular
(Oh, essa Rússia meridional, onde todas as mulheres
Com o seu manto branco sobre a cabeça, têm ar de Madonas!),
Eu vi uma jovem mulher voltar da fonte,
Trazendo, à moda de lá, como no tempo de Ovídio,
Duas selhas suspensas nas extremidades de um tronco
Em equilíbrio sobre o pescoço e os ombros.
E vi uma criança em farrapos aproximar-se dela e falar.
Então, inclinando gentilmente o corpo para a direita,
Ela fez com que a selha de água fresca tocasse o chão
Ao nível dos lábios da criança, que se pôs de joelhos para beber.


II

Uma manhã, em Roterdão, sobre o cais de Boompjes
(Era o dia 18 de Setembro de 1900, pelas oito horas),
Eu observei duas raparigas que iam para os seus ateliers;
E frente a uma das grandes pontes de ferro, se despediram,
Os seus caminhos não eram o mesmo.
Beijaram-se ternamente; as mãos trémulas
Queriam e não queriam separar-se; as bocas
Afastavam-se dolorosamente para se reaproximarem logo
Enquanto os seus olhos fixos se contemplavam...
Assim ficaram um longo momento muito próximas,
Em pé e imóveis no meio dos trauseuntes afatigados,
Enquanto o som dos rebocadores ressoava sobre o rio,
E os comboios entravam a assobiar nas pontes de ferro.


III

Entre Córdova e Sevilha
Há uma pequena estação, onde, sem razão aparente,
O Sud-Express pára sempre.
Em vão o viajante procura com os olhos uma aldeia
Além da pequena gare adormecida sob os eucaliptos.
Só avista o campo andaluz: verde e dourado.
E no entanto, do outro lado da via, mesmo em frente
Há uma cabana feita de ramos enegrecidos e de terra.
E, ao som do comboio, sai um bando de miúdos esfarrapados
A irmã mais velha vai à frente, e chega mesmo ao pé do cais,
E, sem dizer uma palavra, mas sorrindo,
Dança para receber moedas.
Os seus pés na poeira parecem negros;
A sua cara obscura e suja não tem beleza;
Ela dança, e pelos buracos largos da saia cor de cinza,
Vemos as coxas magras agitarem-se
E o seu pequeno ventre amarelo a rodar;
E a cada vez alguns cavalheiros troçam disso
Por entre o cheiro de charutos, na carruagem-restaurante.


Post-scriptum

Ó meu Deus, não será nunca possível
Eu conhecer aquela doce mulher, lá, na Pequena-Rússia,
E as duas amigas de Roterdão,
E a jovem mendiga da Andaluzia
E que eu me ligue a elas
Numa indissolúvel amizade?
(Ah, elas não lerão estes poemas,
Elas não conhecerão nem o meu nome, nem a ternura do meu coração;
E no entanto elas existem, elas vivem agora.)
Não será nunca possível que essa grande alegria me seja dada,
Conhecê-las?
É que não sei porquê, meu Deus, mas parece-me que com elas quatro,
Eu podia conquistar um mundo!


- Valery Larbaud
(tradução de Alexandra Lucas Coelho)
in Les Poésies de A. O. Barnabooth, Gallimard

terça-feira, março 08, 2011

Walking around

Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas
abatido, impenetrável, como um cisne de feltro
vogando numa água de orizem e de cinza.

O cheiro das barbearias faz-me gritar em lágrimas.
Eu só quero um descanso de pedras ou de lã,
eu só quero não ver as lojas e os jardins,
mercadorias, óculos, ascensores.

Acontece que me canso destes pés, destas unhas,
e do cabelo e da sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

E no entanto seria delicioso
assustar um notário com um livro cortado
ou dar morte a uma freira com um soco no ouvido.
Seria lindo
ir pela rua com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, tiritando de sono,
para baixo, nas tripas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, comendo dia após dia.

Não quero para mim tanta desgraça.
Não quero continuar raiz e sepultura,
subterrâneo solitário e adega com mortos,
transido, morrendo de desgosto.

Por isso a segunda feira arde como o petróleo
quando me vê chegar com esta cara de cárcere
e uiva no seu decurso como roda ferida,
e dá passos de sangue quente em direcção à noite.

E empurra-me para certos cantos, certas casas húmidas
para os hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias que cheiram a vinagre,
para ruas espantosas como fendas.

Há pássaros cor de enxofre com horríveis intestinos
pendentes da entrada das casas que eu odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deviam ter chorado de vergonha e de espanto,
há guarda chuvas em todo o lado, e veneno, e umbigos.

Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,
com fúria, com esquecimento,
passo, atravesso escritórios e centros ortopédicos,
e pátios onde há roupa a secar num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sujas.

- Pablo Neruda
(tradução de Fernando Assis Pacheco)
in Antologia Breve, Dom Quixote

The kids are all right (2010)


7/10
-
Tive em miúdo uma doença
E fome e medo. Grossas escamas soltando-se
Dos lábios, que eu humedecia. Nunca esqueci
Esse sabor, salgado e frio.
Mas não parava de andar, andar, andar.
Sentava-me nos degraus do alpendre ao sol,
Caminhava no meu modo leve como se dançasse
A melodia do caçador de ratos, no rio. Sentava-me
Ao sol nos degraus, a tiritar.
E a mãe vinha ali, acenando, parecia
Tão perto, e eu sem poder tocar-lhe:
Movo-me para ela, que sete degraus acima
Acena; movo-me para ela, que acena
Sete degraus acima.

Sentia-me quente,
Desapertei o colarinho e adormeci,
As trombetas soaram, cavalos a galope, a luz
Batia suave minhas pálpebras, a mãe,
Que voava sobre o caminho, acenando,
Partiu...

E agora sonho com
Um branco hospital entre as macieiras,
E um lençol branco sob o meu queixo,
E um médico de branco que olha para mim,
E uma branca enfermeira à cabeceira
Batendo as asas. Estavam todos ali.
Quando a mãe veio, acenando —
E partiu...

- Arsenii Tarkovskii
(tradução de Paulo da Costa Domingos)
in 8 ícones, Assírio & Alvim

segunda-feira, março 07, 2011

Louvor de Luís Manuel Gaspar

Há um príncipe que desenha letras, chaves,
principalmente turbulentos ventos,
cobras e lagartos em encostas suaves
batidas pelo som de muitos pássaros

Há um príncipe, sim, alguém de sangue
misturado com tinta, vinho d'arco-íris,
que abre as veias cada vez que sente
sede de dar a beber às águas grandes

Encantador d'imagens muito lentas
em ilhas apressadas no exílio
d'armários com brinquedos e sebentas

meticuloso até ao calafrio
a pontuar as biografias brancas
na revisão das provas de ser rio

- António Barahona
in O sentido da vida é só cantar, Assírio & Alvim

domingo, março 06, 2011

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgikz5ArEbHVeIbgjpISSt9Ec9r8c6P8-8Qd-Lb9JLBMM4OJi24BLwFj70EESnfOe_VSlvFvNMFyHl30MkMM6Ll6bH1L15fHBfXXbXNOKU09j0vQq-VahPRW3FboT4itspymUFD/s1600/hands_by_nikolinelr.jpg

Poema de amor

A dor serve sempre para alguma coisa.
A tua mãe faz malha.
Despacha cachecóis em todos os tons de vermelho.
Eram para o Natal, e mantinham-te quente
enquanto ela casava, uma vez e outra, levando-te
consigo. Como poderia ter dado certo
se ela escondeu o seu coração de viúva todos esses anos
como se os mortos pudessem regressar.
Não admira que sejas como és,
com medo de sangue, as tuas filhas
como paredes de tijolo, uma após outra.

- Louise Glück
(tradução de António Ladeira)
encontrado aqui

sábado, março 05, 2011

Huis Clos

Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosh
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo: por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que, em meio a fezes e urina
sangue e dor, nascemos para lendas
mares amores mortes serenas.

- Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Quasi

Um século a arrotar

Aos que não nos podem ler, mas não deixam de falar de nós.

E essa poesia só o seria como uma vaga reminiscência,
um pedacinho de unha roída a um dedo majestoso,
caída e descoberta entre as páginas de um século
em que cada verso segurasse bem alto esse tal arroto.

Merde de Poète

Quem gosta de poesia "visceral",
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.

- Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Quasi

A Cidade e os Livros

para D. Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia – e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim –, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
Da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

- Antonio Cicero
in A Cidade e os Livros, Quasi

sexta-feira, março 04, 2011

Uma guerra como nenhuma outra*

Cerca de vinte anos antes de ter publicado o seu Leviatã, Thomas Hobbes traduziu para inglês um dos colossos da cultura ateniense, a História da Guerra do Peloponeso de Tucídides (460-399 a.C.). Apresentando a obra, Hobbes escreveu, com alguma polémica, que Tucídides é o mais político dos historiadores.
Não pode surpreender-nos este epíteto com que o pensador inglês celebrou Tucídides: a análise da natureza humana e das suas motivações primordiais, que prepara a edificação do Leviatã hobbesiano, descobre inúmeros exemplos nas páginas da História da Guerra do Peloponeso. O pessimismo antropológico que marca grande parte do pensamento de Hobbes certamente encontrou alicerces seguros no cepticismo com que Tucídides encara a preeminência de princípios éticos nas atitudes humanas. Veja-se, por exemplo, aquilo que Tucídides põe na boca dos atenienses no seu diálogo com os Lacedemónios: “De facto nada há de extraordinário nem contrário à natureza humana em fazermos aquilo que fizemos, ao conservarmos um império que nos era oferecido e recusarmo-nos a abandoná-lo, submetidos que estávamos a motivos de enorme peso, como a honra, o receio e o interesse.” (p. 121). Agora compare-se com aquilo que Hobbes escreve no capítulo XIII do seu Leviatã: “De modo que na natureza humana encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória.”.
Estas características tornaram Tucídides um autor clássico bastante atípico, tanto para os seus defensores como para os seus detractores, o que explica, em parte, o pouco destaque a que grande parte dos humanistas dos séculos XV e XVI – com algumas excepções, como Lorenzo Valla, tradutor para o latim da obra de Tucídides –, votaram o seu texto, contrastante com a notoriedade que Maquiavel ou os autores da época moderna lhe deram, num período de profundas transformações e mudança de paradigmas na teorização do político, propício como nenhum outro ao florescimento da perspectiva que Tucídides fazia incidir sobre as grandes questões políticas “que sempre aconteceram e acontecerão, enquanto a natureza do homem continuar a ser a mesma” (p. 317).
Outras interpretações para este singular epíteto, o qual ainda mantém em grande medida o seu vigor, podem ser procuradas. A História da Guerra do Peloponeso narra as origens e o desenrolar de um dos mais longos conflitos bélicos da história que opôs Atenas e os seus aliados à Liga do Peloponeso, liderada por Esparta. Trata-se, por isso, de um texto marcado, em algumas das suas mais memoráveis passagens, por profundas oposições, cuja relevância no campo do político é inegável: de um lado, uma potência marítima do Mediterrâneo Oriental, Atenas, do outro a cidade-estado de Esparta, uma potência militar essencialmente terrestre; de um lado, o totalitarismo dos Lacedemónios, do outro o espírito democrático ateniense, apesar de estes, como repara Raul Rosado Fernandes no prefácio a esta tradução, serem “imperialistas e mais do que autoritários nos territórios que dominavam” (p. 10). Pode-se citar, a este propósito, uma passagem do famoso “Diálogo dos Mélios” (pp. 507-517) peculiarmente ilustrativa da postura dos atenienses durante o conflito:
"Mélios – Dessa forma vós não permitis que ao sermos neutrais, sejamos vossos amigos em vez de inimigos, sem sermos aliados de nenhuma das partes?
Atenienses – Não é assim. A vossa hostilidade não nos fere tanto quanto a vossa amizade, porquanto esta será uma prova da nossa fraqueza frente aos que são nossos súbditos, enquanto o ódio é a prova do nosso poder.".
Uma vertente da teoria política ensina, com reminiscências da conceptualização de Carl von Clausewitz, que a guerra é a realização extrema da inimizade e, nessa medida, é a realização extrema do fenómeno político. Encarada nesta perspectiva, a visão cínica ou, melhor dito, realista que Tucídides oferece sobre o comportamento humano em tempo de guerra, capaz do mais heróico dos actos ou da mais vil traição ou barbárie, coloca a História da Guerra do Peloponeso num lugar de relevo entre as reflexões histórico-políticas, a par das Histórias Florentinas de Maquiavel ou do Behemoth de Thomas Hobbes. Cite-se, por exemplo, o elogio fúnebre de Péricles àqueles que morreram em nome de “uma forma de governo que em nada se sente inferior às leis dos nossos vizinhos mas que, pelo contrário, é digna de ser imitada por eles” (p. 200) ou, no plano oposto, as barbaridades cometidas pelos Trácios que “saquearam as casas e os templos, assim como matavam as pessoas, não poupando nem velhos nem novos, mas matando todos de enfiada, onde quer que os encontrassem, matando até crianças e mulheres e mesmo bestas de carga e todos os seres viventes que porventura vissem” (pp. 623-624).

Esta edição recente da História da Guerra do Peloponeso vem suprir uma lacuna já antiga no estudo e divulgação desta obra em Portugal. O excepcional trabalho de Raul Rosado Fernandes e Gabriela Granwehr apresenta, pela primeira vez, este gigante da cultura clássica traduzido directamente do grego, numa edição que, além do texto propriamente dito, inclui um extenso prefácio assinado por Raul Rosado Fernandes, um índice onomástico satisfatoriamente completo e útil e vários mapas e figuras que auxiliam a compreensão, a localização espacial e a visualização de alguns dos elementos menos familiares aos leitores do texto. Merece especial destaque o prefácio, não só pelas pistas de leitura que oferece, mas também pela constante alusão a factos históricos, obras literárias e, até, obras cinematográficas cuja leitura comparada com a História da Guerra do Peloponeso confirma as palavras do próprio Tucídides quando este escreveu que a sua obra “não foi concebid[a] para ganhar prémios ao ser ouvid[a] de momento, mas como um legado para sempre.” (p. 82).
Num memorável poema intitulado, com bastante propriedade, “Porquê os Clássicos”, Zbigniew Herbert aborda um dos episódios da Guerra do Peloponeso mais marcantes para Tucídides, a tomada de Anfípolis por Brásidas. O historiador, na altura estratego, conta que estando em Tassos, a cerca de meio dia de distância de Anfípolis, acorreu de imediato ao pedido de auxílio por parte daqueles que resistiam no interior das muralhas ao exército de Brásidas, mas não conseguiu chegar à cidade a tempo de evitar a sua ocupação. Herbert escreve que “Tucídides diz apenas/ que tinha sete barcos/ que era Inverno/ e que navegou com celeridade”, pelo contrário, “os generais das guerras mais recentes/ se algo de semelhante lhes acontece/ choram de joelhos perante a posteridade/ e louvam o seu heroísmo e inocência”.
Um pouco à margem do efeito pretendido pelo poema, o episódio do Livro IV da História da Guerra do Peloponeso a que o poeta polaco alude, revela, como em muitos outros exemplos, um historiador dotado de um singular espírito crítico. Ao contrário de Heródoto, nascido cerca de trinta anos antes de Tucídides e que frequentemente abusava dos privilégios da ficção, como diria Edward Gibbon, há nas páginas da História da Guerra do Peloponeso uma preocupação diligente em destacar com clareza e objectividade as verdadeiras causas dos acontecimentos, procurando deixar sobre os factos um testemunho histórico-político suficientemente sólido e perene. Tucídides é, nesta linhagem da historiografia, o primeiro de todos os historiadores.

Tucídides, História da Guerra de Peloponeso, tradução de Raul Rosado Fernandes e Gabriela Granwehr, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010
Nota: 5 estrelas


*Texto publicado no Ípsilon de 4 de Março de 2010

Rua do mundo

para o Jorge Fernandes da Silveira

Onde morou a Luiza.
Passei por ela, a rua, muitas vezes.
Chama-se agora "da Misericórdia"
e sabe de cor seu caminho

que desce à beira do rio
no alto de um ramo de alecrim,
como um Tejo miúdo, todo de pedras
e seu aluvião de pastelarias, alfarrabistas.

O cano que rebentou junto ao passeio,
sim, se calhar,
inda não foi consertado,
que as coisas são lentas.

Chama-se agora "da Misericórdia"
a antiga Rua do Mundo.
Era talvez pequena
para nome tão afastadamente,

para a Terra toda e os astros,
mas Luiza era um corpo celeste
a vigiar o andamento, o ruído,
o silêncio, o istmo,

as variações possíveis,
imprevistas, o sangue,
a asa, o sal inesgotável
do vário, o jogo.

Rua do mundo fora,
de seres que se queimavam à luz.
Rua do mundo sensível,
onde Luiza metia o nariz.

Abarcar o mundo com as pernas,
afundar no poema, cair
no mundo, ganhar mundos,
fundos nenhuns, perder.

Era uma rua qualquer, mas
a chuva sabia seu nome, bem como
os males irremediáveis, as ventanias,
os alvoroços de verão, os insetos.

Mesmo a felicidade tantas vezes
desceu e subiu tal qual uma vaga
desordenada, descalça, as pedras
daquela via sem reis nem padres.

Os sábados enchiam as calçadas de pernas.
Luiza ouvia o fragor. Os telhados ruíam.
Luiza ouvia os cacos, cada um.
A rua frágil, a palavra disparada.

Já não se chama "do Mundo".
É agora "Rua da Misericórdia".
Já não é a vastidão do orbe,
mas, de joelhos, ora pro nobis.

O sol vinha reto varar a janela
da louca que atravessara
a noite à procura do verso
mais irritado, mais de si.

Do punhal ali, rente aos olhos,
ao fígado, ao coração, a mulher sabia
que só uma palavra a salvaria:
misericórdia. Não pediria?

De longe, era possível ouvir um grito
(mas talvez fosse apenas eu) a pedir compaixão.
Mas era menos para ela que para o mundo,
menos para ela que para a rua do.

- Eucanaã Ferraz
in Rua do mundo, Quasi

Exercício de escrita

É deste rumor que falavam quando eu era de fraldas no início de ser feliz.
A casa era imensa e alguém mergulhava
Nessa aflição de sermos muito novos
E do perigo na escada
E na janela de sacada.

Não havia défice
Mas havia alguma alegria por não haver excesso.

Isso foi no tempo dos amigos. Das crianças que se sentavam soltas de baldes de areia e rodas desdentadas.
E agora
Quando perguntam quem és
Só dá vontade de abrir a casa da bicicleta e ser o pequeno rapaz
No lugar de qualquer poema.

quinta-feira, março 03, 2011

-
É quase um invisível que brilha,
rasando a colina alada;
sobra ainda um pouco de noite,
numa liga de claridade prateada com o dia.

Vê, a luz nem sequer pesa
sobre os obedientes contornos de além
e, lá longe, há sempre alguém que consola
os lugarejos da dor de ser distante.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria Gabriela Llansol)
in Frutos e Apontamentos, Relógio D'Água

Somewhere (2010)


6/10

quarta-feira, março 02, 2011

Gansos

Um homem muito idoso adiantou-se ao silêncio prometido.

Eram 4 horas da tarde.
O quintal ia morrendo
Nessa luz de Inverno
De certeiras sombras.

Esse homem entendia as razões dos gansos.
Abria o milho, ignorava
A refeição diária do fogão.

A qualquer hora
Estendia a porta e as mãos
E fixava aquele instante
Com um saco perdido no ar
E uns animais perdidos pelo chão.

António Ramos Rosa

Onde a poesia...



Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia



(Poema publicado inicialmente no livro O sol é todo o espaço, de 2002, e incluído na antologia O poeta na rua, selecção e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, Quasi, 2ª edição, Famalicão, 2005, p. 83).

Blue Valentine (2010)


6/10
38

Aos olhos dos Anjos, os cimos das árvores
são talvez raízes que bebem os céus;
e, no céu, as raízes profundas de uma faia
parecem-lhes cumeeiras de silêncio.

Não será que, para eles, a terra é transparente,
face a um céu cheio como um corpo?
Esta terra ardente onde o olvido dos mortos
se lamenta e chora – à beira das nascentes.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria Gabriela Llansol)
in Frutos e Apontamentos, Relógio D'Água

Concerto de Bach

De manhã nunca dormi muito tempo;
os eléctricos acordavam-me
tal como os meus próprios versos.
Arrancando-me da cama pelos cabelos,
eles arrastavam-me atá à cadeira
e obrigavam-me a escrever
assim que tinha acabado de esfregar os olhos.

Religado por uma doce saliva
aos lábios de um instante singular,
eu não pensava de maneira nenhuma
na salvação da minha alma miserável;
mais do que um eterno bem estar,
desejava um breve momento
de prazer efémero.

Levantavam-me em vão os sinos do solo;
eu aderia-lhe com os meus dentes, as minhas unhas.
Ele estava cheio de perfumes
e de segredos provocantes.
Quando, de noite, eu olhava o céu,
não era o céu que procurava.
Assustava-me muito mais com os buracos negros
escancarados algures no fundo do cosmos
e ainda mais assustadores
que o próprio inferno.

Mas eu pude escutar os sons do cravo.
Era um concerto
de Johan Sebastian Bach
para oboé, cravo e instrumentos de cordas.
De onde provinha? Ignoro-o.
Mas não era do solo.
Ainda que então não tivesse bebido vinho
eu cambaleava ligeiramente
e tive de me prender com grampos
à minha própria sombra.

- Jaroslav Seifert
(versão de L.P)

terça-feira, março 01, 2011

Madison Avenue

Convém fugir das pessoas. Os amigos
têm palavras, gestos e olhares
com uma pedra dentro que faz mal.

Convém fugir das pessoas. A família
é a mão que segura a cabeça
para que esta debaixo de água permaneça.

E o amor é apenas essa palavra
que uma mulher nos atira para os braços.
Ao ir-se a mulher, seu nome dói.

É grato à alma estar-se isolado.
É grato ao corpo estar isolado.
Morrer é só isolar-se um pouco mais.

- J.M. Fonollosa
(tradução de Júlio Henriques)
in Cidade do Homem: New York, Antígona

Spring Street

Não me venham com histórias. Que a vida
é do domínio espiritual e por isso
bem superiores os bens do espírito.

Quer ser útil, cuidar de enfermos,
o teatro, a pintura, livros, a música,
desporto, cinema, o grão-dinheiro...
esse ânimo enchem de delícias.

Não me venham com histórias infantis.

O deleite supremo é o orgasmo.
Os outros são apenas sinais leves,
sugestões pobres do prazer
que com moças na cama se consegue

nelas ejaculando como um deus.
Para outros esses gostos secundários.
Para mim o gozo intenso: a mulher

- J.M. Fonollosa
(tradução de Júlio Henriques)
in Cidade do Homem: New York, Antígona