domingo, fevereiro 28, 2010

Ressurreição

Depois de tudo, termos ainda de acordar um dia aqui
ao som terrível de trombetas e clarins?
Perdoai-me, Senhor, mas consola-me
pensar que o sinal da nossa ressureição
será dado simplesmente pelo cantar do galo.
Ficaremos ainda uns momentos na cama.
A primeira a levantar-se
será a mãe. Senti-la-emos
acender o lume em silêncio,
pôr a água a ferver sem ruído,
retirar do armário suavemente o moinho de café.
De novo estaremos em casa.

- Vladimir Holan
(tradução de Eugénio de Andrade)
in Trocar de Rosa, Fundação Eugénio de Andrade
«TRILCE», LX


É de madeira a minha paciência
surda, vegetal.

Dia que foste puro, menino, inútil,
que nasceste nu, as léguas
da tua marcha vão correndo sobre
as tuas doces extremidades, esse taciturno
vinco de depois despia-se
não se sabe em que últimas fraldas.

Constelado de hemisférios de grumos,
debaixo de eternas e inéditas américas, de grande plumagem,
partes e deixas-me sem a tua ambígua emoção,
sem o teu nó de sonhos, domingo.

E já me apodrece a paciência,
e volto a exclamar: Quando virá
esse domingo bocarrão e mudo do sepulcro;
quando virá a carregar este sábado
de farrapos, esta horrível sutura
do prazer que nos engendra sem querer,
e o prazer que nos desteRRa!

- César Vallejo
(tradução de Eugénio de Andrade)
in Trocar de Rosa, Fundação Eugénio de Andrade

sábado, fevereiro 27, 2010

Heroes




... just for one day ...


Everybody knows that the war is over

Everybody knows the good guys lost

Todo o amor é fantasia;
ele inventa o ano, o dia,
a hora e a melodia;
inventa o amante e, mais,
a amada. Não prova nada,
contra o amor, que a amada
não tenha existido jamais.

- António Machado
(tradução de Eugénio de Andrade)
in Trocar de Rosa, Fundação Eugénio de Andrade

Sismo-gravura

Um rapaz foi a uma biblioteca em procura de uma biografia de Proust, e caíu a biblioteca e caíu o seu país que era uma ilha. Proust fica por ler. A terra tem razão, s seus desenhos são perfeitos e com o tempo adequam-se às mãos humanas. Há três exemplares de Proust na Biblioteca Nacional do Haiti, agora os que estão em estado razoável (sem faíscas dentro) são vendidos no mercado negro, as capas duras dos livros são usadas para cobrir um bocado de um tecto, para que a chuva não entre tanto. Mas o discurso meta-literário deve acabar por aqui. Porque ela não tem culpa (apesar de ser o próprio diabo e o paraíso) não tem, Não TEM culpa de tudo. Ao meu lado pedem um copo de água – Tadinho – Mal ele adivinha que está no inferno. Vai para Aveiro diz-me – Notando que eu estou bêbado e sou receptor passivo – Vou para a Aveiro. Se o Rober estivesse aqui ao meu lado espremia-o como um limão. E depois o limão ia para Aveiro e tinha um ataque cardíaco em Aveiro.
O mar entra no café del greco várias vezes, e traz a esperança e leva a esperança. Mantém o meu registo fútil, o meu e do Rober. Conheci verdadeiros Anjos. Apetecia-me agora mesmo cortar a cara, com uma faca perfeita, e depois sem cara entrar num café de espelhos e ser o espelho sem cara, mas isto diz Artur Thompson que sou eu e ferve – Quem está a trabalhar sou eu e não tu – Artur – Numa novela fragmentada, numa peça de teatro, numa vida paralela, numa auto-estrada, não sei, num caminho com pouca angústia ou seja pouco apertado, por onde escorra bem o vinho, de norte para sul e depois de sul para norte, se o vinho quiser que vá para oeste e se quiser que vá para inferno, ou sirva só de caminho estreito de ovelhas e recanto de quem o protege. Ligo o facebook e tenho uma mensagem de ânimo vinda do México e percebo, tenho muitos amigos. Acabei de ser internado, saí do internamento há um dia, e a hipótese que se põe é que seja internado novamente e sinceramente apetece-me cortar a cara. A mensagem mexicana diz – Escreve para te afastares do diabo. Tenho a cabeça tripartida mesmo assim ponho um bocado de Gel, ainda há gel e frio e vontade de qualquer coisa, luvas negras, blusão de cabedal, conheci verdadeiros anjos, em clínicas, em cafés em continentes quentes, em continentes frios. Não cortei a cara porque ela é o espelho da alma. Rezei à nossa senhora da vergonha que me trouxesse um gin – Olho-te nos olhos, só coisa que derrete e pinga sobre o pólo norte em forma de estrela líquida, só quente na queda, queima a boca / Pele Quê?

Quê? Ilumina e sustenta a alma fodasse. Pinga dentro dela, pede um café – Amo tudo quanto fluí…. Quê? Perguntei a um sábio com o cabelo empapado em gel, para que é que servia a mete-literatura e ele disse-me que servia como anzol fino, para apanhar desprevenidos os cavalos marinhos durante a amamentação, o mesmo fim, associou à critica literária e depois o sábio criou um blogue de crítica literária e deixou que o diabo lhe entrasse no corpo, e com os seus tentáculos, porque afinal era um polvo e não um velho sábio criticou todos as novelas do país. Depois sentiu o país a tremer e criticou o país a tremer, depois uma viga de sua casa caiu por cima dele e ele criticou a sua própria morte. Uma meta-morte que foi ao Mini Preço de Jerusalém comprar uma mortalha e um caixão de marca branca.



Artur Thompson

Nuno Brito

Uma orquestra que entrou pelo mar dentro

*

O que pensa do futuro?
Não se pensa, chega já - Einstein


Passava uma nuvem escura pelas praias de Minamara, quando uma orquestra entrou pelo mar dentro. Uma menina olhava do topo de uma duna, o fim ou o início de toda a música. A música a tornar-se subaquática assim que as tubas e trompas desciam o nível do mar. A menina olhava como se já não houvesse orquestra. É preciso ver todos os ângulos diz-nos Ortega y Gasset – Assim a menina estava no continente oposto esperando que a orquestra saísse do fundo do mar. Eram cantigas populares de Oklahoma que a orquestra tocava. Só a múltipla perspectiva nos salva, só vermo-nos de cima nos salva, só nos salva ser todos os outros. As curvas de uma laranja quando a vemos de frente assegura-nos, sem precisar de ver os outros lados, que não estamos diante de um fruto cúbico. O mesmo se passa com o tempo e a sua previsão.

Sobre a Verdade de Bernini




Sobre o gelo estava a Verdade de Bernini – O sonho não era novo, era vivo, como que soprado de um corno que percorresse toda a América Central. A estátua “A Verdade” um anjo em êxtase, uma figura feminina tombada para trás com os olhos revirados, como de um prazer extremo – E depois a pergunta – Porquê a Verdade ser uma mulher possuída de um prazer extremo. Porquê a Verdade ter os olhos revirados e os dedos das mãos unidos por um pequeno fio de cobre –
No sonho transformava-se em homem e possuía a Verdade … Como se fossem um corpo só, um só novelo de calor. Nunca chegavam ao orgasmo, nem ele nem a Verdade. O novelo era repetido na noite seguinte, no ringue de gelo, ele e a verdade. Pela manhã quando acordava sentia a falta do sexo viril e do calor dos braços dela. O abraço percorria toda a América Central, acordava os Atlantas e todas as estátuas, Acendia os faróis e adormecia os faróis.

Pela manhã imaginava a Verdade a nevar pelos olhos, sobre todos as patinadoras de Viena. Em cada ringue, pelas seis da manhã, a neve a cair, a encher também a Austrália de um manto branco. Porquê uma mulher? Quando acordou era verdade.



Nuno Brito

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Hoje no Santiago Alquimista

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim
Adormeceste para fugir ao passado e tive vontade de te morder a boca
inebriar-me com o seu sabor a laranjas da toscânia onde passeámos
em sonhos que foram meus e que tomaste emprestados certas noites
num quarto de hotel fechado por cortinas desbotadas pelo sol
adormeci e sonhei que tudo isto se passou exactamente assim
e acrescentei-lhe campos de madressilvas e becos sem saída
e luzes amarelas que faziam tudo parecer dolorosamente verdadeiro
como o sangue a escorrer de forma acidental do teu polegar direito
a única coisa no poema que verdadeiramente dói.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

Contaminações

Eu vi herberto uma actriz a incendiar palavras num palco quarto de hotel
as palavras dadas e as outras caladas num lugar saturado de vapor de água
e aquelas gravadas na calçada perdidas a tentar perceber como se escreve
um nome gritando um nome para a voz encurralada abandonar a cabeça

eu vi a cerzidura de cada palavra a resistir à dor à tristeza ao cansaço
de outras palavras arrancadas da sua pele na passagem dos dias
palavras que se contaminam e se perdem sem ela saber já de quem são
os rostos de mortos e vivos atropelados num caderno imaginário

eu vi um corpo curvado subitamente brilhar num campo de madressilvas
lá longe onde os amantes caminham sem rumo atrás de sombras amarelas
onde os amantes se perdem em dobras de esquinas e espelhos e olhares
os corpos traídos pela inesperada declinação da luz nos seus ombros

eu vi uns cabelos negros tornearem uma lágrima que escurece o dia
escurece a claridade de um gesto que vem de longe e se imobiliza
talvez uma borboleta negra como as que de dia nos dizem da noite
e nos fazem estancar o sangue que corre nas veias ávido de água e luz

eu vi resistir um corpo branco amarelecido por uma luz que não há
rodar na direcção da toscânia à procura da noite que nunca tem fim
porque há uma noite eterna para os que acreditam na noite sem fim
nos fios invisíveis que tecem palavras e pétalas de rosa e desejos

eu vi umas mãos delicadas a tomarem em cuidados uma menina perdida
a da memória emprestada daquele em quem as palavras são salvação
perdidos eu tu e ela em enredadas palavras demasiado frágeis para a verdade
num tempo em que já não florescem infinitos embrulhados em laços azuis

eu vi o horizonte recortado pela deusa magoada pelo amor que já não há
ou nunca houve e o silêncio a encher o quarto e a coarctar o sangue nas veias
subitamente substituido por um liquido verde que renova mitos e mundos
caminhos ladeados por anjos esquálidos e deuses de olhos vazados

eu vi a alegria quando se pensa que a tristeza são uns olhos castanhos
marejados de lágririlas ou apenas a aflorarem o lado mais difícil de dizer
do amor que já não virá das ilhas rodeadas por mar e por ilhas de ilhas
olhos castanhos a desafiarem deuses e os vazios oceânicos das distâncias

eu vi os teus olhos surpresos surpreenderem um homem sentado no sonho
das palavras que se misturam umas com as outras como contas coloridas
com imagens intermináveis semeadas de sonhos com plantas carnívoras
sonhos que invadem as noites e nos empurram para o sol que nos cega

eu vi nos teus olhos a ternura que submete os corações de touros selvagens
a frescura e a luz que inundam as terras devastadas e estéreis dos desamores
e resgatam da sombra das águas extenuadas as algas e os líquenes precisos
à renovação das palavras deslumbradas esmagadas por securas e tédios ~

eu vi a tua água límpida inundar os caminhos secos das nossas memórias
a seiva que limpa as veredas escuras do nosso sangue em vão derramado
o mel que suaviza as nossas gargantas secas e exaustas pelo inenarrável
o sangue rejuvenescido que expulsa das nossas veias o lixo do passado

eu vi a tua boca proferir fórmulas mágicas "Obedece-me, meu coração. Eu
sou o teu senhor. Enquanto estiveres no meu corpo não me serás hostil:"
e eu sentado no chão a mimar o canto mágico furtado ao livro dos mortos
com a esperança de acender na noite palavras e corpos e olhares novos

eu vi os teus olhos cravados no chão à procura de sinais cifrados
de enigmas que iluminem um pensamento novo ainda que breve
uma luz que obscuramente possa desvendar as trevas do mundo
e eu atarefado a desenhar no ar criptogramas para te oferecer

eu vi aproximares-te de mim arrastando uma longa cauda de fogo frio
e as tuas mãos a trespassarem sem dor o meu corpo desabitado e dócil
os meus pensamentos desenhados pela mão esquerda de uma criança
a minha alma que teimosamente busca ainda na lama as pérolas puras

eu vi e não vi tudo o que vi ou imaginei ou não imaginei e vi-te e não te vi
sonhei-te talvez só no meu sonho vagabundo de inventar seres e sonhos
fechado no quarto de hotel palco onde tu és verdade isso é mesmo verdade
tu em estado de graça a incendiar palavras que estalam como sal queimado

eu vi uma actriz a incendiar palavras
em estado geral de graça
a ser feliz
eu vi.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

Disposable teens



And I'm a black rainbow

And I'm an ape of god
I got a face that's made for violence upon
And I'm a teen distortion
Survived abortion
A rebel from the waist down

I wanna thank you mom
I wanna thank you dad
For bringing this fucking world to a bitter end
I never really hated the "one true God"
But the god of the people I hated

You said you wanted evolution
The ape was a great big hit
You say you want a revolution, man
And I say that you're full of shit

Shutter Island (2010)


8/10

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

A natureza em geral enfada-me com os seus fins de tarde melífluos
como aqueles no atlântico em frente ao convento de são francisco
onde só falta a santinha sob os últimos raios de sol entre as nuvens
por muito menos que isto já se escreveu muita poética e comadres
do mesmo santo ofício crítico se exauriram em sangues literários
e não é pois de espantar que versos como estes congreguem contra eles
as várias matilhas que salivam nos engenhos de mal-dizer – onde
o silêncio enraivecido de alguns amamenta úlceras e apoplexias
a história está a abarrotar de cobardes e assassinos
poderá titular-se assim o primeiro capítulo
de uma teoria geral do enfado.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim
(para o Ruy Belo)

Não tenho meu poeta a tua praia da consolação
nem o chichi das tuas senhoras no meu mar
não tenho aliás nada de que me lembrar
nem sequer a morte à bogart sob o olhar da marilyn
nada é tão apaziguador como uma morte
inventada às vezes a tua e a minha
nas praias sem consolação a norte a sul
a poente de um cabo raso
nascente.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim
Não preciso que me digam que é impuro o que escrevo
vê-se pelas cicatrizes nos dedos da mão direita (a calosidade
amarelada de nicotina no dedo anelar é trabalhinho escravo)
também a espinha lixada e a falta de dentes o mostram bem
não tenho biografia não a procurem no canto mal cheiroso
no meio da noite (o catecismo não é igual para todos não é?)
a minha biografia se quiserem começa e acaba no registo civil
em mil novecentos e cinquenta e quatro também tive direito
a nascer numa geração rasca a de pais anónimos e mães solteiras
o que escrevo é impuro como os sangues menstruais e o mijo
a destilarem amoníaco a federem como as fábricas da cuf
na outra margem onde se escrevia em peles curtidas pelo silêncio
ou como o sangue coagulado dos mortos na guerra colonial
pestes é que não têm faltado na minha vida
deambulo pelos sonhos onde me perco extenuado e amanheço
quase sucumbindo ao ar excessivo que me invade os pulmões
desremelo os olhos e a esbracejar inauguro o dia saído da noite
onde se pesca palavras e outros excrementos da alma.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

Adventureland (2009)


8/10

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

A casa vazia

Abre a porta e acende a luz.
____________________É muito tarde
e sabe que ninguém o espera em sua casa.
______________________________Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
______________Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
__________________Depois, ouve
enfadado uma música.
________________Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
______________Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.

- Eloy Sánchez Rosillo
(tradução de José Bento)
in As coisas como foram, Assírio e Alvim

Um brilho derramado, um ouro inútil

Penso na minha vida, depois olho a beleza
que tão alheia a mim amadurece e morre vertiginosamente.
Essa formosura efémera como um fruto perfeito
que se solta do ramo e desenha no ar
um brilho derramado, um ouro inútil.

___________________________E digo para mim:
«Se eu estendesse as mãos com o arrojo do valente, se soubesse
fazer meu outra vez o prodigioso meio-dia
em que a luz estava como ancorada no céu
num presente imóvel que em mim achava sua origem».

Mas sei-me vencido. E nada tento nas horas desertas
em que me fere a nostalgia de tanta plenitude.
E reconheço nesta paz vazia
que já tudo está longe e não se pode agora
voltar a essa ventura, ser de novo tão livre
como naquele tempo que o esquecimento arrebata à memória,
quando todas as coisas eram minhas e eu possuía o mundo
com a ousadia e a inocência de um deus adolescente.

- Eloy Sánchez Rosillo
(tradução de José Bento)
in As coisas como foram, Assírio e Alvim

Lembra-te

Quando o acaso ou o costume, dentro de muitos anos,
de novo aqui te tragam, se fores vivo, e a vida
para ti seja só lembrança dissipada
dos antigos dias, lembra-te que houve um tempo
em que as coisas, por milagre, foram de outra maneira:
lembra-te que hoje este jardim
te ofereceu sua paz, das roseiras
em flor, do sol que te acompanha
e te ajuda com a sua luz tépida
a ser feliz e a saber que és jovem.

- Eloy Sánchez Rosillo
(tradução de José Bento)
in As coisas como foram, Assírio e Alvim
Só, em meu quarto, escrevo à luz do olvido;
deixai que escreva pela noite dentro:
sou um pouco de dia anoitecido
mas sou convosco a treva florescendo.

Por abismos de mitos e descrenças
venho de longe, nem eu sei de aonde:
sou a alegria humana que se esconde
num bicho de fábulas e crenças.

Deixai que conte pela noite fora
como a vigília é longa e desumana:
doira-me os versos já a luz da aurora,
terra da nova pátria que nos chama.

Nunca o fogo dos fáscios nos cegou
e esta própria tristeza não é minha:
fi-la das lágrimas que Portugal chorou
para fazer maior a luz que se avizinha.

- Carlos de Oliveira

terça-feira, fevereiro 23, 2010

Party Down (2009)


7/10

O segredo

Entraste na noite
pelo lado da solidão.
A ela contas que sais com eles
a eles que sais com ela.
Encaminhas o velho Renault 4
para certo lugar desabitado
da cidade.
Fizeste entrar um corpo,
acenderam um cigarro enquanto
procuras um retiro pelas sombras.
Silencias a sua voz quando quer falar-te,
com um gesto decides
forma de desejo.
Entraste num corpo
pelo lado da solidão.
Por um instante sentiste-te bem
mas não o dizes,
embora não consigas reprimir
uma carícia no vidro embaciado.
Atrás da porta que fechou deixa-te
um rastro de perfume ignóbil
que aspiras com deleite:
como o símbolo o queres
para quando queimar a claridade
da manhã.

- José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in Antologia, Averno
[76ecfba65b257a66.jpg]
Chegas-me a boca em silêncio e
trazes o gosto amargo do café, duas
chávenas seguidas encurtando as
distâncias. Seria perto das nove,
talvez nem chovesse mais e
ficasse apenas o inverno a roçar-se
nuns primeiros indícios
de primavera, enquanto a luz
molhava os lábios e vinha descendo
cuidadosa os telhados, pisando
nos contornos derramados das coisas

recuperando algum detalhe, iam
crescendo aos poucos num enjoo
colorido com as sombras ajeitando-se
em volta.

Ao fundo a linha esborratada do rio,
grosseiro, arrastando o que pudesse
e ferindo os reflexos invertidos
das casas podres junto à margem.
Nós dois a uma mesa, sentados
numas cadeiras coxas de plástico verde,
e ao lado, no chão, páginas ensopadas
do jornal de ontem – o que se passou
na Madeira? –, este cheiro fodido
a abandono pela manhã, o tipo
atrás de nós fumando aborrecidamente,
outros bocejando de um sono já
definitivo. E aqui o que se passa?

Ias e vinhas nuns rodeios implausíveis
deixando às tantas uma frase a meio
como se lhe perdesses o interesse,
separando as contas no fio ao pescoço,
na tua t-shirt um Lou Reed muito quieto
deita um olhar lento e sem destino

dissolvendo-se daí a pouco na água
choca de um tanque pouco profundo,
rodeado por meninos de barro
numa inocência exagerada, enquanto
desfazíamos juntos uma mão-cheia
de margaridas, pétala a pétala.

Mostrei-te o que tinha já escrito
e trouxeste os dedos para um desenho
sobre os lábios, levaste um bocado
a fixar uma linha estreita, pouco menos
que um sorriso. Mas entendi e puxei
de volta o caderno.

Não há nada e o vento, no seu resmungo
incompreensível, explicou já tudo.
Com as duas mãos próximas repetias
um gesto meio absurdo, como se
pelasses uma nêspera invisível. No fim
ofereceste-ma.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

domingo, fevereiro 21, 2010

Os poetas, esses grandes ladrões

De Camões, nos Poemas Portugueses, p. 429, (re)encontramos este soneto:

A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo m' enoja e m' avorrece;
sem ti, perpètuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.


Mas de D. Manuel de Portugal (Évora, 1520? - Lisboa, 1606), na página 378 da mesma antologia, já tínhamos encontrado este

Soneto de dom Manoel de Portugal


A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra,
o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol polos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens polo ar a branda guerra;
e, enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece
me está (se não te vejo) magoando.
Sem ti tudo m'anoja e m'avorrece,
sem ti perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.


Quanto a "Camões dirige-se aos seus contemporâneos", o poema de Jorge de Sena, vem muito depois, nas páginas 1339 e 1340. Agora vá se lá saber quem roubou a quem...
(Referência bibliográfica: Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio da Vasco Graça Moura; Porto Editora, Porto, 2009).

Era como estar só. Mas
estar só e feliz.
A varanda envidraçada,
o cheiro do café, um ramo
chamado pelo sono.
Sombras de sol batiam
no chão de madeira velha.
Restos de água da noite
brilhavam nos vidros
os primeiros insectos.
A maresia das aves costeiras
lanceoladas de luz.
Os olhos pousavam à espera
de te voltar a ter.

- Joaquim Manuel Magalhães
in Uma Luz com um Toldo Vermelho, Editorial Presença

Poema um do segundo ciclo da música

A música regressa como um fio de sangue
arrastado pelo mar. Uma mulher aguarda
essa água que transforma as plantas e os
ombros num jardim. Tudo se passa depois
do silêncio, depois da fuga das aves para
o fundo de uma ilha. É ela que descobre os
ninhos e as cavernas onde habitam os peixes.
E nessa viagem os seus vestidos cobrem-se
do musgo e dos sons gravados nos rochedos.
Um homem contempla as árvores que defendem
as casas do ataque das ondas. O seu corpo é o
eco das marés, da lua que se esconde por detrás
de um grande morcego.

- Jaime Rocha
in Divina Música: Antologia de Poesia sobre Música

Voltaste à cidade, embora não saibas
muito bem a quê. Regressas com um fato
gasto, um chapéu azul de aba
levemente caída, um sobretudo mau
e a mala com o fecho estragado.
No passeio pousaste a tua mala
e com os braços queres erguer-te
sobre o muro. Aquele terreno vazio,
um tempo, protegeu as velhas paredes
de um hotel. Um hotel barato e sujo,
sem empregados à porta nem elevadores,
muito perto dos molhes de poente.
Porque voltas a este lugar decrépito,
sem carácter, que é agora um campo
de imundícies? Não haverá nada na tua vida
que te ofereça lembrança melhor? Nada
que te mostre uma imagem menos sórdida
de ti? Que te persegue até àquela
noite, até ao fio que beijava
os teus olhos e a tua testa, com violência,
em cada um dos abanões?
Nenhum outro lugar, outra memória?

- José Ángel Cilleruelo
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)
in Antologia, Averno

sábado, fevereiro 20, 2010

Isto não é Paris

Isto não é Paris
nem são cinco horas da tarde
nem chove
nem há cómicos na rua
e também não há nesta esquina
desta cidade que não é Paris
um realejo surpreendido
nem um pintor boémio
nem uma garrafa de vinho
porque às cinco horas da tarde
esta cidade não é Paris
e não há um amor curioso
escondido atrás das cortinas
enquanto Edith Piaf canta
Os amantes de Paris
nem a recordação do Sena
arrasta as minhas tristes memórias
desta cidade sem noite
nem espelhos de mel
e não minto se disser
que Paul Eluard saiu do meu quarto
com asas de melro branco
pela janela desta cidade
que não tem pombas nem bêbados alegres
porque às cinco horas da tarde
esta cidade não é Paris.

- Uberto Stabile
(tradução de Rui Costa)
in Só mais uma vez, Livro do dia

Amor e caracóis

Um dia que queiras
chamas-me e despedimo-nos um pouquinho
partilhamos o portal e fazemo-nos
um nó na garganta,
um desses nós que te deixam sem fala
dos que enchem o corpo de sextas-feiras e caracóis,
ou se preferes partilhamos um segredo
e a paixão por Nicarágua,
o mistério das 39 rosas roxas
e essa cor que a tristeza nunca teve.
Um dia que queiras
atas-me à cama e despedimo-nos
do poeticamente correcto
e em vez de escrever versos tatuamos um delírio
ou deixamos o tempo passar
e rebentamos de utopia
este momento de carne, suor e risos.
Um dia que queiras
enquanto alguém tenta explicar este poema
casamo-nos com a vida e enganamos o mundo
como o mundo engana o homem
e o homem os caracóis.

- Uberto Stabile
(tradução de Rui Costa)
in Só mais uma vez, Livro do dia

FADO ALEXANDRINO

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____foda-se

sexta-feira, fevereiro 19, 2010



Now the years are rolling by me

They are rocking evenly
I am older than I once was
Younger than I'll be
But that's not unusual
No it isn't strange
After changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje já é bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim

quinta-feira, fevereiro 18, 2010



Broken bicycles,
Old busted chains,
Rusted handle bars
Out in the rain.
Somebody must
Have an orphanage for
These things that nobody
Wants any more
September's reminding July
It's time to be saying... good-bye.

Summer is gone,
But our love will remain.
Like old broken bicycles
Left out in the rain.

Broken Bicycles,
Don't tell my folks;
There's all those playing cards
Pinned to the spokes,
Laid down like skeletons
Out on the lawn.
One wheel won't turn
While the other has gone.
The seasons can turn on a dime,
Somehow I forget every time;
These things you've given me
They always will stay
They're broken... but I'll never throw them away


Um amor é como um povo exaurido da distracção dos tiranos. Ao Sul uma enxada decepa-me das lágrimas, dessa surpresa sobre o teu peito, a guarda amena. Contrária a glória nos afasta, pequena boca ignota. Mas a siderurgia, amor, urbana, a letra em aço, haverá de impor aos teus dias um fulgor impassível.

- Maria Velho da Costa
in Da rosa fixa, Quetzal

terça-feira, fevereiro 16, 2010

O desespero fica-nos mesmo a matar

Pensei

Temos levado o maldito fim-de-semana
a arrastar-nos por cafés manhosos,
sentados em cadeiras desconfortáveis e rijas,
assistindo à sucessão dos dias grávidos
de chuva, pardos, densos, pesados,
vendo as gaivotas e os patos
flutuarem na lagoa numa inércia mecânica
de brinquedos, ouvindo o vento na flauta
dos pinheiros, cheirando os limos podres
e os caniços decompostos, já sem sangue,
da margem, e nisto
______________Acho melhor acabarmos,
Vou voltar para os meus velhos, Podes ficar
com a casa, De tempos a tempos
venho dar uma ajuda se quiseres,
________________________tudo,
em resumo, o que eu planeava dizer-lhe
antes de descobrir que gostava dela à séria,
que me fazias falta, porra, que não sabia
como aguentar-me à tona sem ti,
o mesmo discurso, as mesmas palavras,
quase a mesma entoação friamente amigável,
e eis-me de ovo cozido em riste, com o sal
e a pimenta a descerem-me pelo pulso,
tornado no manequim patético da surpresa.

- António Lobo Antunes
in Explicação dos Pássaros, Dom Quixote

Onde habite o esquecimento

Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.

Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.

Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor.

Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida,
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.

Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.

Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.

- Luis Cernuda
(tradução de José Bento)
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim

«Perhaps the world's empty»

Ninguém perde um livro
no comboio, ninguém o acha
inutilmente sublinhado
noutra terra, noutra cama.

Ninguém fuma na arcada
rente ao frio de Dezembro,
ninguém sangra no passeio
à mesma hora.

Ninguém parte de repente
à procura de mais mundo,
ninguém chega por acaso
ao seu nenhum sentido
olhando simplesmente
da varanda.

- Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira, Averno

Noi

Havia na Babilónia ou no Seixal, uma lei que obrigava as pessoas a entrarem umas nas outras e dessa união era feita canção nova que ia com o vento; Nesse bairro ou nessa cidade fazia-se canções de travões de camião – Obrigavam os anões a tocarem punhetas em grupos de seis - tudo começa a cada segundo, ensinou-me a Dona Joaquina, Henry Miller, ou o empregado do café.
O inferno é o que ficou por dizer e a Pena maior é quando não nos apercebemos que ela existe, o inferno passa sempre desapercebido.
, il cieolo é con noi.



Nuno Brito

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

At every occasion I'll be ready for a funeral

As mãos dos meus antepassados

As mãos dos meus antepassados trabalham em mim sem descanso
mãos esguias fortes ossudas hábeis em conduzir um cavalo de batalha
em manejar um gládio um sabre uma espada

– Oh quão sublime é a paz dum golpe mortal

Que me querem dizer as mãos dos meus antepassados
mãos cor de azeitona que eles estendem do além
não cederei provavelmente
então elas trabalham em mim como numa massa
de que se faz pão negro

E – isto ultrapassa a minha imaginação –
colocam-me brutalmente numa sela
e os meus pés nos estribos


- Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhido pelas estrelas, Assírio & Alvim

David Foster Wallace - A Rapariga de cabelos estranhos





A Rapariga de Cabelos Estranhos – 1989
David Foster Wallace




Trata-se de um livro de contos. Dez no total. Neste ensaio, serão analisados dois dos mais representativos: “Pequenos animais sem expressão” e “A Rapariga de cabelos estranhos” Conto que dá o novo ao livro.

Pequenos animais sem expressão


“Pequenos animais sem expressão” trata de uma rapariga Julie, personagem principal, irmã de um rapaz autista. São filhos de um casal conturbado. O pai sai de casa e a mãe é uma pessoa visivelmente perturbada, incapaz de prover à educação dos filhos. A educação do rapaz, carente de cuidados especiais é feita por Julie, ainda muito nova. A mãe está ausente. Julie passa a infância sozinha com o rapaz, no mesmo quarto com o mesmo livro. Os amantes que se aproximam da mãe e frequentam a casa, rapidamente se intimidam com a presença do rapaz autista. Julie e o irmão são abandonados pela mãe, em estado de grande fragilidade. O rapaz é internado numa clínica com o auxílio de alguns familiares. Julie faz todo o tipo de trabalhos para sobreviver. Desde pequena que passava a vida a ler obras de carácter geral sobre diversas curiosidades, vida animal, geografia, ciência. Obras para a infância. Julie concorre a um concurso de televisão, baseado em perguntas de cultura geral. Como vence o primeiro, vai no seguinte e volta a vencer. Vence sempre e por isso torna-se popular no mundo da televisão americana. Acerta em todas as perguntas. Entra aqui a capacidade fortemente imagética de David Foster Wallace, cujos cenários de muitos dos seus contos e novelas é o mundo dos bastidores da televisão, sobretudo das grandes produções da televisão americana. Noutros contos deste livro é abordada a questão dos talk shows. Foster Wallace aborda o fenómeno televisivo como uma realidade paralela, construída, mas recheada de caminhos escuros, entre eles a exposição da vida privada, levada ao limite. O oposto entre estes dois mundos é muito bem explorado neste conto. Uma das técnicas de som, Faye, do programa de televisão apaixona-se por Julie e as duas começam a namorar. A técnica de som procura sempre desculpas para o amor lésbico, Julie não procura desculpas. O apresentador do concurso, Alex, figura pública da televisão americana, frequenta um psicanalista, está inconscientemente apaixonado por Julie. Um dos métodos de terapia é a livre associação de palavras. E é neste exercício, que David Foster Wallace se esvai de forma absoluta, o conto possuí muitas livres associações de palavras, sobretudo por parte do apresentador, que vão desde o aforismo a frases de uma intensíssima carga erótica e sensorial. O irmão de Julie vai também um dia ao concurso e acerta em todas as perguntas sobre animais. Julie e o irmão tornam-se populares estrelas de televisão, com a perenidade que isso envolve. Mas as suas relações humanas privadas são exploradas por Foster Wallace até ao cúmulo da emoção. As descrições dos sonhos de Alex são relatos absolutamente geniais.

A rapariga de cabelos estranhos

Este conto é um relato na primeira pessoa de um advogado de uma grande empresa e do seu grupo de amigos punk. Todos vão a um concerto de música clássica, e é durante o concerto que se passa toda a acção deste relato. David Foster Wallace retrata uma sociedade de extrema, colocando-se na pessoa (voz, narrador principal) dos estereótipos que mais detesta. A personagem principal considera-se a si própria bonita (orelhas bonitos, cabelo perfeito). Diz para si próprio ser um homem de sucesso com muitos bons amigos. Durante o concerto conhece outros dois rapazes punk que os amigos lhe apresentam. Todos tomam LSD, menos ele. Antes do intervalo sai um pouco para o hall da sala de espectáculos com outro dos seus novos amigos e este pergunta-lhe como é que ele consegue ser tão feliz. E Diz – Se me explicares de onde provém a tua felicidade natural deixo-te ejacular para cima de mim e da minha namorada. Ele foge à pergunta, fala muito, três páginas mas fugindo à questão da facilidade. Acaba por dizer – Não respondi à tua pergunta, mas se te der 10.000 dólares deixas-me ir com a tua namorada. O relato é quase sobrenatural, completamente magnetizado pela presença no concerto de uma rapariga de cabelos muitos estranhos (a descrição não é feita) É apenas referido que são estranhos e isso contagia o grupo dos amigos a quem o LSD bateu forte.

David Foster Wallace consegue levar as descrições ao extremo, as descrições roçam a alucinação e em tudo provocam estados alterados. Falamos de alguém que percebe como ninguém o que é hiper realidade e a leva ao limite. Todos os contos parecem um riso interno e condensado, um Concentrar muito grande de emoções – Não só a partir das descrições extremamente sensoriais, mas também das elipses inteligentes.


Nuno Brito

Linha de Sintra

Alguém disse ao condutor da linha de Sintra que une as Caldas a São Pettersburgo, ó condutor de comboios, tu és um génio, porque nos levas na rota perfeita – E o condutor de comboios da linha de Sintra disse: Eu não sou um génio, sou só um conjunto de limões, vocês são guiados por um conjunto de limões que não sabe para onde vai e leva tudo consigo; Leva consigo várias carruagens e todas elas descarrila e volta a alinhar, um conjunto de limões pintado em todas as naturezas mortas do século XVIII, com limões de extrema direita e limões de extrema esquerda, um conjunto heterogéneo que usa ceroulas de todas as coras e chora na direcção do vento, se o vento vem de norte chora para sul, se o vento vem de sul chora para norte.
Alguém ejaculou por cima da natureza morta e esse sémen ficou na história da Arte europeia – Pense – Disse o condutor da linha de Sintra, com bons modos – Eu sou um espelho e um conjunto de limões em fuga e às vezes no meu comboio invoco um incubo para que lance um terramoto, e esse incubu lança o terramoto e o terramoto é de escala 7 e deita abaixo todas as bibliotecas, e o terramoto faz com que o comboio descarrile, e ao lado da linha de Sintra, corre um cavalo na direcção que lhe apetece, se lhe apetece correr para norte vai para norte, se lhe apetece cavalgar para o inferno o inferno abre-lhe as portas, então esse cavalo que às vezes bebe do Tejo e outras vezes bebe do Sado e quando quer ir para norte vai beber ao Douro, corre com medo do terramoto – O cavalo tem atrelado um arado e um carrilhão suíço que acorda as mulheres para irem extrair sal. E como a terra treme e o terramoto é muito intenso, o cavalo espalha-se pelo Alentejo e foge para um lado e depois para o outro, ao ritmo que a terra quer – E o arado deixa na terra uma sismo-gravura, ou um sismo-poema que a terra dita, em linguagem trémula ao cavalo que corre, O arado escreve – O Paraíso é igual a Paraíso + Inferno – Ou outro aforismo ridículo que só um tremor de terra poderia escrever. E vêm a chuva e apaga a frase que outrora se lia do alto.

Nuno Brito

Café Del Greco

O mancebo entrou no Café Del Greco e pediu organino à marinheiro e o empregado disse: aqui não servimos música tocada por marinheiro, e também não servimos os marinheiros que tocam música, só servimos pasteis de chaves com muito fermento e cerveja também com muito fermento. O mancebo disse: Quero que as coisas com fermento se fodam!! Foi até à máquina de dar dinheiro, no fundo do café e meteu lá dinheiro e ficou sem o dinheiro porque não há máquinas de dar dinheiro. Pediu um prego no pão e o dono do Café del Greco deu-lhe um prego no pão. O mancebo saiu e foi ver o mar, a lua estava cheia e o mar tinha-se ido embora, depois o mar voltou e o mancebo chamou por um mexicano e o mexicano veio a fumar pela praia, com um passo muito lento. O mancebo e o mexicano sentaram-se na mesma duna e o mar sentou-se também numa duna. O mar pediu lumes ao mancebo e o mancebo disse: Eu não tenho lumes – E o mexicano disse: eu tenho lumes – E o mar começou a arder, e depois calçou umas botas de saltos altos e dançou como um tornado de fogo, e o mexicano disse que o mar era sexy e masturbou-se enquanto o mar dançava – É que dá-me tusa! Fodasse ver o mar dançar – Voltaram ao café del Greco e comeram dois pregos cada um.

Nuno Brito

domingo, fevereiro 14, 2010

A Porta de Duchamp – Rosa Maria Martelo: Averno, Lisboa 2009


“Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rua Larrey, nº 11, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo” Assim começa “A Porta de Duchamp” de Rosa Maria Martelo, narrativa fragmentada de 17 partes, todas elas com um ponto em comum: as portas como ligação / o que abre / o que fecha - O que mesmo que esteja fechado está aberto. A reflexividade é marcadamente forte neste texto, injectado de uma emotividade sensorial muito acesa e de uma profunda e muito viva perspicácia. Logo no início, as citações iniciais revelam um pouco da narrativa:

“Ouvi bater à porta.
Não há porta. Porque haviam de bater à porta que não há?”
Mário Cesariny

“Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta, e me possa abrir com razão a inteligência do mundo? “
Álvaro de Campos

Duchamp, Fernando Pessoa, Cesariny abriram muitas portas, Rosa Maria Martelo também com este livro, sobretudo muitas perspectivas. Trata-se de um livro múltiplo, coerente e vital, sobretudo de grandes revitalizações.
A reflexão sobre a passagem / o abrir caminhos, é muito atenta e inteligente “Uma porta que ele abria quando a fechava (fechada mesmo aberta como, alguém disse acontecer com os livros”: A frase incluí reflexão sobre o fenómeno literário que continua no texto seguinte: “Há quem fale de livros entrados na carne, como agulhas, de venenos incolores descompassando veias”
O elemento – entrada / saída é revisitado em outras partes do livro – Entrar com força, sair com força. A viagem prossegue com outras pequenas histórias interligadas por este factor, A fotografia está presente. A fotografia usada como registo frágil, suporte perene, pode ser uma das múltiplas aberturas / perspectivas e interpretações do texto “Lama”: “O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas no meio da lama”. Em “Infância”, há uma Imagem fortíssima de grande carga sensorial mantendo um registo único: “subtrair à passagem das ondas e do tempo pedacinhos de nada, menos que conchas (búzios partidos, por exemplo de que ficara o centro em espiral). Há uma revitalização da infância: portas que se abrem e fecham na memória e são invocadas (abertas / ou fechadas) nunca por completo: “nada pode ser verdadeiramente deste mundo”. Em “Filme” são invocado Gregory Peck, Ingrid Bergman e Hitchcock: “É então que Hitchcock abre porta atrás de porta, naquele movimento contínuo de certos filmes que aceleram a vida das plantas para as vermos nascer e abrir e abri mais, mas não morrer”. É de grande importância o uso da repetição e a pontuação em “folhas nascem e abrem) e abrem) e abrem)” O parêntesis é fechado, mas não aberto – A abertura está na frase. Outros recursos de grande vitalidade criativa são usados na criação de palavras por repetição e hífen, como “porta-porta”: As palavras abrem.

Muito mais poderia ter sido dito de um livro que é uma porta aberta e de um livro que é uma porta fechada (aberta e fechada ao mesmo tempo). É um livro que Abre muitas portas / perspectivas, onde se deve entrar e sair várias vezes.


Nuno Brito

sábado, fevereiro 13, 2010

Logo à noite








[ENTRADA LIVRE]


sexta-feira, fevereiro 12, 2010

fragmento (de um conjunto)

*
o mundo ab-rogação cerce ao rosto sempre
intocado e a voz que constrói
ilhas dentro do vento e da lava

(e apenas eu para te tocar as mãos -
junto do odor dos cereais)

talvez isto seja um movimento impossível - os nomes



só as mãos conhecem os frutos

os rostos construídos unanimemente
fincados na iminência sonora da água
vindos da insondável sombra dos olhos


e ao largo em quintais
a plaina rasa
das paisagens

e a mão que procura atrás dos olhos
o encantamento
das sombras
e o fio-de-prumo
circunscrevendo as macieiras em flor

e depois o pó puro quadril encetado

leito melódico como se fosse

pele púrpura carne lenta ou os nomes

a tenra raiz do leite
(ou mater)
ou a tua mão na raiz dos meus olhos
fazendo(-me)

a oclusão da linfa nos recessos, ou (ainda)

o idioma de deméter, com
o seu ventre de água
o seu pulmão de enxofre, ou o rosto
de helena
aquela que me dá a mão no dia do juízo
sob a sombra da macieira, em quintais
- e a doçura das mãos


aquela que me segreda a cor das uvas
e o tear plantado na planície entre os cardos

aquela que me faz
(um verso absolutamente a-cronológico e geográfico)
o arado deixado entre o veneno e a saliva

aquela que é (palavra)
memória decantada desde o cume da sombra

aquela que me conhece os olhos por dentro do mel, e
quartzo arterial mediado por fala fome sede e asma

aquela em que conheço

o fogo da prata por dentro da sede


aquela que me faz

o lugar para a ausência viva

para a fermentação do sangue em poços



talvez me traga a fecundidade dos quintais
(e um ou outro sonho burguês amaldiçoado
diante das fontes)

ou as mãos como
um difusor de frutos
um íman de janelas
( ou a grécia face)

a pele como um fuso solar,
ou o dínamo alpestre das hortênsias

(e toda a culpa de não ter leis a que obedecer)


aquela que me planta

por detrás da laranjeira a hermenêutica
dos anjos teares
desfiados em transtorno e maresia

talvez seja aquela que me faz

o sol negro desenhado na face regada
desde da raiz do chão

a boca sublevada -
aquela que me matura - vertical face
ao crescimento da noite
e da água dentro dos olhos

(dos mortos)
perpendiculares no meu idioma
em silos

Assinaste o teu nome
em papel sufocante
impressão bem à vista
xis escudos por página
um livro repleto
de palavras amestradas
p'ra oferecer no natal
ou isso ou umas peúgas.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

Desconheço por onde as palavras me levam
talvez pela escuridão dos açougueiros
estas palavras delidas como as carnes
corrompidas nas bancas do mercado velho
quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes
esperanças sonhadas embebê-las em venenos
sentidos da noite onde a sua matéria se inventa
despedaço entre os dedos uma jaca madura
na garganta o vinho da palma alivia-me
de uma aspereza antiga digo
por onde me levam as palavras
entre carreiros de dejectos
procuro a foz.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

(variação em Lobo Antunes)


Encostada a uma pilha de almofadas
move os dedos em busca de nada no lençol
num abandono de tudo a respiração sumida
sonha com os jazigos transformados em casas de bonecas
com o cheiro das mimosas e o jogo da macaca sonha
é a mãe a chamá-la é hora do lanche!
sacode o vestido e pergunta que horas são agora?
vinte para as cinco que hora tão improvável diz
os dois gatos enrolam-se ao pé da cama de atalaia
e um mocho bate as asas contra a janela do quarto.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

É amanhã

[criatura4.jpg]

Roubo aos livros de aventuras
as minhas noites de menino.
Ergo a tenda com lençóis amarrotados
e faço de uma carcaça com manteiga e açúcar
a minha ração de combate e engodo.
Afio meticulosamente os lápis de cor
seguras armas contra as feras e esper.
Virão atraídas por comida e aventura.
Vislumbro-as já em sombra e luz.
De repente levanto um lençol e
as minhas aguardadas feras afinal fogem
surpreendidas na sua modéstia de ratos.

- Carlos Alberto Machado
in Registo Civil, Assírio & Alvim

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Come chocolates, pequena


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Posfácio

Os poetas, repito,
são os piores de todos nós.

Já alguma vez viste, por exemplo,
um poeta de dedo em riste
a escorraçar Deus da sua vida?

O dedo é um ceptro,
escorre autoridade.

Terminado o esconjuro,
o poeta sacode-se do pó
da debandada de Deus
assim como quem diz
"este já está, venha o seguinte",
convencido de que não há seguinte.

Mas há seguinte, e vem.
E reata-se a espiral do entremez.

Rectifico: os poetas, tigres de papel,
não são os piores de todos nós.
Serão talvez
os que mais se amotinam,
os que mais armadilham as palavras —

mas isso come Deus todos os dias
ao pequeno-almoço.

- A.M. Pires Cabral
in As Têmporas da Cinza, Cotovia

A melga

Matei a melga que me destroçava a noite.
Um golpe matreiro de toalha —
e resta um vestígio escarlate na parede,
só na aparência inofensivo.

É certo que
a melga perdeu de uma só vez
o clarim e a seringa.

Uma morte minúscula
e pouco estrepitosa
e — do meu ponto de vista —
muitíssimo oportuna.

Porém, o vermelho do sangue
(que por acaso era meu)
ficou noite fora a gritar na escuridão.
O quarto cheirou a morte
ainda durante muito tempo.

Tal como cheirará — calculo —
quando a toalha colérica de um deus
a quem, melga, perturbar o sono
com o tosco cornetim que me tocou em sorte
me esborrachar contra a parede,
expondo o sangue
(que por acaso também será o meu).

- A.M. Pires Cabral
in As Têmporas da Cinza, Cotovia

Caroço

O caroço deste fruto parece ser apenas
um invólucro frio, incomestível,
sem serventia alguma. Mas esconde
no fundo do seu poço uma vida
destinada a eclodir, mal sinta propício
o agasalho da terra.

Que o mesmo é dizer: está lá dentro
uma morte emboscada.

- A.M. Pires Cabral
in As Têmporas da Cinza, Cotovia

Lei do tabaco

[cigarros.jpg]
imagem roubada à dona lebre

terça-feira, fevereiro 09, 2010


as amoras caídas e os limos
subindo a encosta, este dia
mudo e a solidão

dos barcos que largam do porto
enquanto dormes




o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,

o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.

é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso.




o vento agita as sombras
na minha mão, lança-me
vultos, um nome em chamas, versos
afiados contra os dedos.

sempre pressenti a distância mínima
entre o poema e o medo
de não saber regressar a casa.




já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.

devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome

plantar sílabas frescas
que nos matem a sede

ter um pingo de esperança
na morte depois da vida.

- Renata Correia Botelho
in Um Circo no Nevoeiro, Averno
______________retirado daqui



com o devido agradecimento pela recomendação
[the_girl_on_the_carousel_by_Catliv.jpg]
Um dia, em miúdo, ao fim da tarde,
achávamo-nos na quinta e
um bando de pássaros levantou voo
do castanheiro do poço
na direcção da mancha da mata, azulada
pelo início da noite. As asas batiam
num ruído de folhas agitadas pelo vento,
folhas miúdas, fininhas, múltiplas,
de dicionário,
eu estava de mão dada contigo e pedi-te
de repente Explica-me os pássaros. Assim,
sem mais nada, Explica-me os pássaros,
um pedido embaraçoso para um homem
de negócios. Mas tu
sorriste e disseste-me que os ossos deles
eram feitos de espuma da praia,
que se alimentavam das migalhas do vento
e que quando morriam flutuavam
de barriga no ar, de olhos fechados
como as velhas na comunhão.

- António Lobo Antunes
in Explicação dos pássaros, Dom Quixote

segunda-feira, fevereiro 08, 2010


If we never write anything save what is already
understood, the field of understanding will never be
extended. One demands the right, now and again,
to write for a few people with special interests
and whose curiosity reaches into greater detail.

- Ezra Pound
fonte: trama

Paisagem

A noite está ventosa e deserta a estrada onde os exércitos do duque de Parma
deixaram os cadáveres dos cavalos
sobre a montanha calva brilham as ossadas dum castelo
recentemente conquistado
não há nada senão a pedra a areia o esterco e o vento sem cor nem desígnio

O que anima esta paisagem é a lua afiada cravada no céu
e algumas sombras sujas em baixo
assim como a forca branca da qual pendem como vagas secas
corpos aos quais o vento devolve a vida esse vento sem árvores sem nuvens


- Zbigniew Herbert
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Escolhido pelas estrelas, Assírio & Alvim

ou isto, Changuito, talvez fosse mais isto

[Drogue-et-Putes[5].jpg]
PASSAGEM DO ANTI-MUNDO DANTE ALIGHIERI

I

O amor que é só o amor é já o inferno
diz Dante
mas isso era antes de ser traduzido pelos palhaços
era quando os Titãs asseveravam
que só no interior de grutas inabordáveis
sob gigantescas moles de granito
haviam conseguido viver livres

Era quando o inferno queria ser inferno
e para aborrecimento dos tenentes do empíreo
não havia a menor possibilidade de drama
depois houve e logo um fez a todos palhaços
os que estavam em baixo alaram os pés, para cima
os que estavam em cima puxaram a pista, para baixo

Fez-se um grande intervalo
este intervalo onde ainda hoje a Terra rola à força de vácuo
com homens que crescem e minguam pela força de inércia do vácuo
abandonados pelos grandes faz-tudos
que riem lá muito em cima e ainda mais lá em baixo

E que quer dizer isso de amor só amor?
partes alíquotas de dois na cama
que Dante nunca viu aos pés de Beatriz

Petrarca também não ao pescoço de Laura
Abelardo esse então no ventre de Heloísa

Tudo isso são histórias de encarregados
que andam a ver se não pagamos a conta
se damos sem vencimento a letra antiga
marcada a hebraico na carcela da história
são contos miseráveis de miseráveis
com vinte e cinco séculos de ódio ao corpo
o único transporte navegável
a única matéria que se aguenta
e aguenta
com dentro dele a linfa que varre tudo

O amor que é só o amor é já o inferno?
Bandido

Inferno é o nome do primeiro amor?
Vadio

Vós que entrais perdei toda a esperança?
Gatuno

II

Primeiro segundo terceiro quarto quinto
ao homem dos elevadores o cuidado de prosseguir
mas que amplexo de homem poderá dividir
somar
subtrair
o amor seu amor todos os braços da esfinge?
essa que quatro ao raiar da manhã
essa que dois ao longo do sol a pino
essa que três quando caída a noite
os passos voam no areal do tempo

O amor só amor é já o inferno
diz Dante
mas é o amor que é um fogo devorante

Não me refiro à prestação do calor
o pra baixo e pra cima também os êmbolos fazem
e todos os dias vêm navios ao mundo
Refiro por exemplo a estrela sextavada
que há no corpo do rio que é o amante
é aí que o amor é um fogo devorante

III

Aqui o limbo além o paraíso além o inferno
que cheiro a despegado meu general

Eu__ todos os meus anjos vão juntos para a guerra
Se falta algum é como faltar o chão

- Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim

Paseo marítimo

Será porque el amor tenía entonces
el color de las lámparas de gas
y yo tan pocos años que miraba
caer en las hamacas
una lenta experiencia de cansado
septiembre.
Era en las tardes últimas.
Sentados sobre el porche veíamos la luz.
Finales de verano por las enredaderas,
en los olivos secos,
las palmeras desnudas de un jardín
donde nada pasaba,
solamente la vida.
Con qué coraje, amor, y qué deprisa
se nos llenó más tarde
de paseos franceses y de farolas viejas.

Y era un tiempo feliz el que vivimos,
según dijeron luego. De mi infancia recuerdo
dos zapatos vacíos y azules en el suelo,
el olor de la casa,
sus ojos y los tuyos que llegaron despacio
igual que aquellos sueños
heridos tibiamente por un lápiz de labios,
carmín desesperado de posguerra.
Crecimos
en la oscura presencia de su risa,
sobre balcones altos y glorietas,
de espaldas al temor, a la miseria
que nos miraba a veces
desdibujadamente
desde la ventanilla del último autobús.
Perdón si os hice trampa
pero pienso que nada queda ya
si no es la huella
de este extraño placer que siento al describiros
(y el viejo tema de nuestra amistad).

Porque no es ya su pelo
y ni siquiera el tuyo que vendría más tarde,
sino algunas mañanas en que fuimos al muelle
y vimos solitarias
las lámparas de gas en las paredes,
los charcos sucios
de lluvia y de petróleo,
el mar, el mismo mar
latiendo en las mamparas,
los adoquines húmedos del puerto.

Allí,
bajo los hierros verdes y las grúas,
yo conocí tus ojos cansados de café.
De mi infancia recuerdo la bruma de los barcos
y una luna deshecha, tatuada en el mar.

Cuando otra vez se posan
en las playas del Cable y El Poniente
las luces o los pájaros,
he regresado aquí.
Quizás por eso tenga
alquilado el recuerdo
igual que una pensión por unas horas
y espero a que regresen los barcos mientras busco
las sandalias doradas de tu juventud
en los papeles viejos
de mi vida que hoy rompo.

Todo me llega débil como un baile lejano.

El mundo tiene a veces sabor de Noche Vieja.

Será porque el amor soñaba entonces
el color de las lámparas de gas
y yo recuerdo ahora
su fría insuficiencia, colgada sobre un mástil
que nos dejó en la tierra.
Entonces,
tal vez tú lo recuerdes,
nos hablaba en voz baja la luz de la ciudad.

- Luis García Montero

Vai chegar a manhã.
A luz treme nos arbustos.
Algas, seixos, limos
guiam pelas fragas
a água sem fundura,
o ardor levantino do anil.

Ouves correr poalhas de bruma?
Silêncios do vento que renasce?

Seguro na mão que não seguras
uma lâmina de fogo, um erro
de árvores e olhas-me.

Pouso os lábios no teu pulso
para sentir o coração.
É tão perigoso ser feliz.

- Joaquim Manuel Magalhães
in Uma luz com um toldo vermelho, Presença