Sábado, Dezembro 31, 2011
Sexta-feira, Dezembro 30, 2011
Eruditos no Campus
São quantos são.
Aprazíveis, pacientes, divagando
em pequenos rebanhos
pelo recinto ajardinado,
_________________olhem-nos.
Ou melhor, escutem-nos:
mugem difusas ciências,
comem folhas de Plínio
e de alface,
devoram hambúrgueres,
textos gregos,
diminutos testículos em sânscrito,
________________________e depois
fertilizam a terra
com detritos clássicos:
________________alma mater.
Arrotam-se,
um erudito dictum
perfuma o campus de sabedoria.
Se, silentes, meditam,
rápidos, indecifráveis silogismos,
iluminando um universo puro,
deixam fatigados os neurónios.
Buscam
– de olhar perdido no futuro –
resposta para os enigmas
eternos:
Que salário estarei a ganhar dentro de um ano?
Hoje é quinta-feira?
______________Quanto
ainda levará toda esta neve a derreter?
- Ángel González
in 101+19=120 poemas, Visor
[Com a tradução deste poema celebramos, neste fim de ano, o inestimável contributo daqueles que, descalçando-se na Academia, não resistem a chutar as sandálias (cheirosas, diga-se) para o espaço da Poesia.]
Penso tanto na rosa,
desejo-a tantas vezes nesse seu jeito de sonho,
que quando vejo uma rosa
verdadeira
lhe atiro
desdenhoso,
virando as costas:
– mentirosa.
- Ángel González
in 101+19=120 poemas, Visor
Há três momentos difíceis, e um quarto
Há três momentos difíceis na vida de um homem,
a saber:
quando nasce,
e quando perde o uso dos entes queridos.
Depois o tempo passa,
e entra-se no esquecimento,
e é já como se nada,
como se quase nada,
sentimo-nos a viver num lugar estranho.
O quarto é-nos familiar;
infelizmente tudo o que tem são móveis.
- Ángel González
in 101+19=120 poemas, Visor
Iludidos os Ulisses
Sempre, após uma viagem,
um teimoso olhar se aferra ao que busca,
e é uma sombra oca, uma luz pavorosa,
tudo o que encontram os olhos de quem regressa.
Fidelidade, afã inútil.
Quem teve a arrogância de o tentar?
Ninguém foi capaz
– nem sequer os que morreram –
de destecer a trama
urdida pelos dias.
- Ángel González
in 101+19=120 poemas, Visor
Filmes do ano
- The Tree of Life, de Terrence Malick
- Beginners, de Mike Mills
- Drive, de Nicolas Winding Refn
- Pina, Wim Wenders
- Melancholia, de Lars von Trier
- 50/50, de Jonathan Levine
- Midnight in Paris, Woody Allen
-
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
Death Snips Proud Men
DEATH is stronger than all the governments because the governments are men and men die and then death laughs: Now you see ’em, now you don’t.
Death is stronger than all proud men and so death snips proud men on the nose, throws a pair of dice and says: Read ’em and weep.
Death sends a radiogram every day: When I want you I’ll drop in—and then one day he comes with a master-key and lets himself in and says: We’ll go now.
Death is a nurse mother with big arms: ’Twon’t hurt you at all; it’s your time now; you just need a long sleep, child; what have you had anyhow better than sleep?- Carl Sandburg
(retirado daqui)
ANIMA, de José Manuel Teixeira da Silva
Em As Súbitas Permanências, segundo livro de poemas editado por José Manuel Teixeira da Silva, o poeta viaja por espaços mais ou menos definidos, em que as cidades são captadas pela sua visão, os monumentos também, as imagens sempre. Permitam-nos citar a voz autorizada do poeta no poema “Ilha de Malta, o Tempo” incluído nessa publicação: “A frivolidade imensa das viagens/disso se faz o trânsito e a vida”.E é a vidas em trânsito que o poeta de Anima vai beber os motivos poéticos que hoje nos chamaram a este lugar, de novo enveredando por uma viagem, como se de um migrante se tratasse. Só que, desta vez, o poeta viaja dentro de um espaço-casa que se faz mundo a cada palavra escrita, a cada imagem desvelada. A escrita precipita-se sobre o papel, tal qual a “cesura das coisas” e a “dor” reveladas se aceleram, numa voragem de tempos dolorosos, vividos em “cozinhas negras”, espaços onde aconteciam vidas, as das “batatas”, as das “borboletas” , as das “raparigas”. É certo que, como sugere o primeiro poema, “batatas” e “vida” são vidas que não rimam, ainda que a brancura, que as "raparigas" dolorosamente procuravam, as forçasse a viver, a sobreviver na própria “batata”. Trata-se aqui de uma simbologia do castigo, de uma austera disciplina, como mostra a ilustradora Ana Luísa Abreu, no belíssimo texto que inaugura esta viagem poética: “ As meninas em internamento, com uma disciplina severa, num espaço-tempo estruturado, segmentado, vigiado, transformavam-se, à luz dos valores morais vigentes na instituição, em pessoas humildes, virtuosas e geradoras de proventos”. A palavra “transformação” acompanhará também todo o processo de construção desta escrita comprometida com a luz, ainda que, muitas vezes, circulando na profundidade da sombra. Assim, a batata floresce, esparzindo os seus “olhos” pelo universo, numa permanente busca das notas certas para uma sinfonia de renovação, de purificação. Considerava o disciplinador sistema que um tão prosaico elemento seria o veículo para a renovação moral, espiritual de cada corpo que tocava cada “batata”, num movimento criador de espaços e de tempos.
Neste primeiro poema, “Há nas vidas a vida das batatas”, parece brotar a dor em cada poro de cada criatura que nelas toca, num ritual inevitável de caminho em direcção à luz, a luz daqueles que desenhavam o sistema.
Não sabemos se por acaso, se intencionalmente, a imagem que abre esta obra é a de uma borboleta, geograficamente renascida e a renascer, num processo metamórfico que, a qualquer instante, poderá ser interrompido. Há cortes que irrompem e suspendem essa metamorfose que poderá ter a duração de uma vida, a vida de cada uma das raparigas que povoaram o Corpus Christi, na “surda floração de cada tempo”. Tratar-se-á, talvez, de um tempo cristalizado em cada exemplar de “borboleta”, de “batata”, de “rapariga”. E, já no segundo poema, cruzamo-nos com a segregação profunda e estruturalmente enraizada nos alicerces da casa, desta casa. Fundações criadas com a “nossa pele” ou será antes a pele das “batatas”? Num rito de sangue, suor e lágrimas, a luz permanece encarcerada nos “ferros” que dividem a clausura do espaço e do tempo, tempo vivido com a lentidão própria de quem procura avidamente a luz, mas que, inevitavelmente, padece na sombra. O “silêncio tão pisado / ou os gritos de tachos e talheres” referidos, numa composição ondulante, com os “fulgores” das “meninas”, geram um frenético encontro de corpos, que se tocam, encontrando o seu lugar, um lugar nas trevas, ainda que, sempre, com um vislumbre de sol na retina.
No terceiro poema, o poeta animiza a “batata”, mostrando a sua vertente autofágica, num avanço de liberdade apenas sonhada, de libertação quase ansiada. Os seus braços, que domesticaram as “presas”, abrem-se, como que dizendo às “meninas que bordam”: - Vão, parti, ide em direcção à Luz… e elas, as “meninas”, com a sua referencialidade restringida, limitada pelas grades da clausura, conquistam a vida bem viva nas ditas “naturezas mortas” que vão criando.
E avançando nos poemas, conhecemos agora o castigo supremo, pois “descascam-se batatas toda a noite”, numa tortura de “frieiras” que condenam as almas, através do suplício dos corpos. Cada gota de sangue que possa jorrar da “imprecisão dos golpes” será o renascimento, a fenda do tempo por onde perpassará o “dia”, a “janela”, as “cascas nacaradas”, o “rio”, o “ouro”. E é assim que, vinda do mais profundo das trevas, renasce a esperança de um dia menos gradeado, menos descascado, que conferirá um lampejo de vida nova a quem tanta casca desbravou!
Continuando num ritmo de tempo avassalador, o poeta encontra na linguagem pictórica, explicitamente, o desenho das “hastes do tempo” que, afinal, se foram desenhando nas “batatas”, colocando em suspenso o próprio tempo, em “tempos que elaboram tempos”. As “meninas perdidas” poderão ser a metáfora da ascensão e da queda de cada um de nós que, no labirinto da arquitectura existencial e numa verticalidade ontológica, nos movemos na perda, no encontro, no reencontro, na conquista, na vitória, na derrota, na vida.
E os “poços”, que acolhem a escuridão, a sombra, as trevas, “encostam as meninas às paredes”, numa assunção de humanidade e com “tantos olhos atentos”, não sabemos se das “meninas”, se das “batatas”, num testemunho de intensidade dos “corações” muito ou pouco “trespassados”. Parecendo esboçar por palavras o desenho das “meninas”, do coração das meninas, o poeta dialoga, uma vez mais e sempre, com as imagens de Ana Luísa Abreu e os seus traços diáfanos e profundamente intensos. As palavras do poeta emergem da densa tessitura, delineada finamente, até ao mais ínfimo pormenor, pela pintora. A imagem de uma, e permitam a ousadia linguística, batata-coração ilumina toda a página dezassete, lançando esgares às palavras ditas até ali, aos “corações trespassados” como se de um encontro inter-artes se tratasse. E é nesta movimentação dialógica, entre o artista da palavra- imagem e a artista da imagem que se faz palavra, que a possibilidade da construção de sentidos humano-arquitectónicos cresce, numa conversa de “olhos”, de “batatas”, de “metamorfoses”, de “meninas”.
Um grande poeta da nossa contemporaneidade, Herberto Helder, num pequeno conto-poema de Passos em Volta dá conta da densidade metamórfica de um pintor diante do seu referente (…). O olhar observador do artista de imediato se apercebe das nuances que estavam a acontecer e, assim, o “vermelho”, cor do peixe real, passa a “amarelo”, após uma pequena viagem pelo “preto”. A relação do artista com o real foi metamorfoseada pela “imaginação”, permitindo-se voar pela verdadeira representação, aquela que a varinha de condão mágica metamorfoseia explicitamente. Esta visão do mundo será, certamente, a do pintor, a do poeta, a de quem ouse observar o mundo com os seus próprios olhos. Em Anima, o poeta ousou olhar o mundo do antigo Corpus Christi com um olhar singular, juntando-se ao olhar pictórico da Ana Luísa Abreu.
Voltando aos poemas, em “Íntimos nós da sombra, os corações” deparamo-nos com as fundações de um edifício que se fez vida, a partir das “pedras parideiras/de corpos”, de “corações” que respiram ao ritmo da casa, deixando-se inundar pela “luz” que surge viva, muito viva, “em carne viva”. A casa respira intensamente a vida de cada uma das suas habitantes…
Dando voz à metamorfose, eis que nasce a “borboleta”, “para que se ilumine “a reserva/ da batata” , trazendo consigo a esperança da renovação, da transformação, evoluindo nas suas asas. Malgrado a dor de uma “casa” que grita, invade-nos a “luz”, a certeza de uma saída, a libertação, a distensão de corpos até então contidos. É o partir das coisas, o quebrar das amarras, vislumbre anunciado da “Luz”. Em osmose quase perfeita, “nascem borboletas de asas tão pesadas”, numa emanação de transparência vinda de “despensas do mais antigo negrume”. É que aquelas “borboletas”, antes da metamorfose absoluta, viveram um doloroso processo:
"Borboletas provêm de batatas/ de ranho, baba, extensões difíceis / como as bruxas que surdem das portadas/ trazendo o lume de buracos negros/ e asas trabalhadas pela ferrugem/ se se estendem os dedos de lixívia/ brilhando as chuvas de uma luz arruinada".
O negro pré-metamórfico vai-se desvanecendo, até se deixar eivar pela luz, ainda que essa claridade possa ser fruto dos “dedos de lixívia” que poliram ferozmente o negrume das coisas, o negrume da vida. Numa quase esperança de luz derradeira, absoluta, confrontamo-nos com o desânimo da ruína, “a luz arruinada”. Mas logo pressentimos a permanência dessa mesma Luz, iluminada pelo verbo brilhar, que rege o verso em questão.Num contínuo poético, as “borboletas” continuam a esvoaçar nos poemas e “trazem nas asas fios de humidade”. A liberdade das “borboletas” coabita com a contenção física e moral das habitantes dos “quartos”, vigiadas até pela paisagem envolvente. O percurso purificador avança, a alquimia acontece a cada instante. Num jogo disjuntivo de “luz” e de “sombra”, de “abismo” e de “céu” aproxima-se a metamorfose final. Agora, todos os elementos se conjugam e vemos com nitidez de alma "as batatas ao tempo", as “borboletas douradas”. As “meninas”, essas, continuarão a reinar “em seus tronos de pedra, chapa, lousa”, matérias pouco preciosas para “meninas” tão preciosas! No final, talvez o ouro do rio que se espelha na casa tenha sido o pintor das borboletas. A dúvida permanece, uma certeza porém: o pintor de palavras José Manuel Teixeira da Silva metamorfoseou-se, numa sintonia perfeita, com a poeta de imagens, Ana Luísa Abreu. Os traços de um e de outro fundaram um novo Corpus Christi, criaram novas “meninas”, novas “batatas”, novas “borboletas”, nova “Anima”…
- Rosa Mesquita
apresentação no Coro-Alto do Convento Corpus Christi, em 12/11/2011
Quarta-feira, Dezembro 28, 2011
O poeta ezra pound desce aos infernos
O poeta ezra pound desce aos infernos
não para o limbo
dos que jamais foram vivos
nem mesmo
para o purgatório dos que esperam
mas para o inferno
dos que perseveram no erro
apesar de alguma contrição
tardia e da silente senectude
- diretamente com retitude -
o velho ez
já fantasma de si mesmo
e em tanta danação
quanto fulgor de paraíso
- Haroldo de Campos
(retirado daqui)
Denominação de origem: Extrangeiro
A pátria é estar longe da pátria:
uma nostalgia da infância em noites
em que te sentes velho, uma nostalgia
que sobe à tua garganta como o agre
sabor do vinho nas ressacas mais duras.
A pátria é um estado: mas de ânimo.
Uma estufa de antigas paixões.
A pátria é a família: esse lugar
em que aos domingos há paella.
Uma pátria é a língua em que sonhas.
E o pátio do colégio onde um dia
debaixo da lâmina de um céu escuro
decidiste escapulir-te pela primeira vez.
A minha pátria está no corpo da Patrícia:
o meu hino é o seu gemido, a minha bandeira
a sua nudez de doce da noite
às oito da manhã. A seguir ao duche,
a minha pátria vai pró trabalho, eu exilo-me.
- Juan Bonilla
in 10 menos 30, Pre-Textos
Fumar em Saraievo
Com cinco maços de Marlboro
podes sussurrar obscenidades
a uma garota comprazida
sobre quem derramarás um filho
que não conhecerá o teu nome.
Com três consegues uma lata
de carne com um selo da O.N.U.
mas sem prazo de validade.
A fome é um alucinogénio barato
que converte gatos em vitela.
Um cigarro chega para se entrar
no Obala, o único cinema
que ainda funciona em Saraievo.
Agora projectam uma do Woody Allen.
Já sabes, os problemas quotidianos
de uns burgueses que se procuram
a si mesmos no imenso caos urbano
e as perguntas sem resposta:
de onde venho? aonde vou?
pode viver-se bem só com um salário?
é pecado roer as unhas durante o Jejum?
- Juan Bonilla
in 10 menos 30, Pre-Textos
Cordura de Deus que arrancas o pecado do mundo
Pai nosso que estás em parte
incerta, livra-nos de Ti.
Não nos enchas o tempo com a tua ausência.
Tu utilizaste o fogo do inferno
para acender o sol da nossa infância.
Não nos dês a certeza dos teus olhos
quando os nossos não possam já
olhar a rosa negra da vida.
Oh cordura de Deus que tiras
o pecado do mundo,
despende a tua piedade com os covardes,
os que te encontram em qualquer fenómeno
de meteorologia, os que impõem
o teu Nome em leis e orações.
Conforma-te com seres um hóspede
da nossa infância desfeita em mil pedaços.
Esvazia-nos de Ti,
regressa às tuas origens,
àquela imensa noite de tormenta
em que o medo de alguns imbecis te inventou.
- Juan Bonilla
in 10 menos 30, Pre-Textos
Saldos do Ano Acabado
De entre as manifestações recitadas, e não foram poucas, que no ano passado surgiram destinadas a fazer conhecer poetas, ou novos poetas, só a uma me foi dado assistir: avisado a tempo por voz amiga de que ia dar-se não sei que provocação na sala – o salão da Sociedade Nacional de Belas Artes – não pude deixar de ir, para o caso se ser preciso observar. Para conforto e sossego de todos, tal não chegou a acontecer. Iniciada a sessão, cujo projecto de base era porem-se os poetas que vivem em Lisboa, e alguns de fora, a dizer os poemas próprios para regalo de pública assistência – projecto que logo falhou porque alguns resistiram, não foram, outros, como o autor destas linhas, foram mas não quiseram – iniciada a sessão, e depois de bem enxovalhado o poeta Almada Negreiros, que a abrira, esta caiu no normal e vulgar assassinato amador de poesia que é regra no nosso tempo, nos nossos salões, e entre o nosso público, por mais que uma ou duas consciências mais avisadas se misturem às organizações e tentem promover.
Na parte que mais de perto me tocou, a grande actriz Mariana Rey Monteiro, dignando-se ler um pequeno poema meu, enganou-se logo no primeiro verso, e a sua voz bem modulada e o sortilégio da sua figura levaram o público, a galope, para as montanhas da Hélada, a mim aquele erro soube-me a aviso sumário. Seguiu-se o grande actor Paulo Renato que também leu um poema. Estava despachado. E diga-se: sem especial motivo de queixume, pois, embora a minha recusa (desagradável), os meus pequenos poemas haviam sido confiados a artistas probos, do melhor que o nosso teatro tem e que sem dúvida deram o melhor que o seu tempo e a sua arte permitem. Mas eis que entram os revolucionários! Contra a minha expectativa, que os esperava na sala, no meio do público aturdido, eles estavam no estrado dos recitadores, eram eles os recitadores! Ouvi um poema de Alexandre O'Neill dito por Fernando Ribeiro de Mello, que era uma carnagem sem freio, a dente e a cutelo, à obra lida. E o «recitador», agradecendo as vaias e os aplausos, batia com a mão no papel lido, exclamando: É assim mesmo! Toma lá cinco! Tintos, respondiam da sala! Seguiram-se outros poetas, também por leitura: irreconhecíveis! Às duas da manhã ainda havia gente a ver passar os enterros. A alegria era geral. Salvavam-se do massacre Natália Correia, António Gedeão, que disseram muito bem os seus poemas, David Mourão-Ferreira, bastante ovacionado, Armindo Rodrigues, apesar da voz sumida. Os outros, eram um chão de Alcácer-Kibir.
Esclareço que não é minha intenção atacar este recital, ou pseudo-recital, de poesia, ou este em especial. De há alguns anos para cá, com a chegada de uma gente nova – que responde, aliás, ao rabo-leva de «novíssima» que está a dar na poesia última em data – que estes recitais (poesia lida) se sucedem com o agrado evidente de quem lê não lhes custa trabalho nenhum, é abrir o livro emprestado e zás, dar à língua e altear a dextra mantendo firme a canhota, e a admiração de quem escuta, que também não dá trabalho; é conservar a cadeira e voltar para casa incólume. Era minha intenção, sim, mas não sei se o faça já, se o faça já aqui, pedir às pessoas idóneas, mas, mais lato e mais forte, se possível, à em princípio bela, magnífica juventude por conta da qual corre, na sua maior parte, a organização destas leituras, que se deixem disso, porque estão a ser enganados: por si próprios, pelo público e pela crítica.
- Mário Cesariny
in as mãos na água a cabeça no mar, Assírio & Alvim
história de cão
eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento
tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros
entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada
depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou
ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia
então ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar
e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo
o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória
dos lados não ficou nada
- Mário Cesariny
in Uma grande razão, Assírio & Alvim
Pedra negra sobre uma pedra branca
Morrerei em Paris com aguaceiros,
num dia do qual já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris – daqui não saio –
numa quinta-feira, como hoje, de outono.
Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hoje
voltei, com todo o meu caminho, a ver-me só.
Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte
com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...
- César Vallejo
(tradução de José Bento)
in Antologia Poética, Relógio d'Água
Terça-feira, Dezembro 27, 2011
Pessoas
Às vezes as pessoas
salvam-nos de outras pessoas
resgatam-nos do fedor da sua carne putrefacta
arrancam-nos aos braços do rancor
recordam-nos por que estamos neste mundo
emprestam-nos o coração sem juros a fundo perdido
erguem-nos do chão ou descem-nos de novo à terra
e seu calor protege-nos dos gelos
que nos aparecem em casa se estamos sós.
São pessoas apenas e parecidas
com as outras pessoas, estão aí
são a solução do mundo.
- Lucas Rodríguez
(tradução de A.M.)
Segunda-feira, Dezembro 26, 2011
JARDIM ZOOLÓGICO, 24.12.2011
Eu não queria escrever um poema
assim, muito menos hoje.
Mas são demasiado óbvios os teleféricos
vazios, os velhos sentados em bancos
de jardim, indiferentes ao flagelo da música
e à morte que lhes desbota o vinco das calças.
Ou ainda os estores corridos, junto à esplanada
onde até os pavões preferiram recolher-se
e esta água das pedras gostava de ser um whisky.
O teu corpo não responde, as árvores,
ao sacudirem devagar o vento,
fazem-me ameaças imprecisas.
Desaba, sobre mim,
a beleza nenhuma do Natal.- Manuel de Freitas
(inédito)
Os Arautos Negros
Há pancadas tão fortes na vida... Eu sei lá!
Pancadas como do ódio de Deus; como se sob elas
a ressaca de todo o sofrimento
estagnasse na alma... Eu sei lá!
Poucas; mas acontecem... Abrem leivas escuras
no rosto mais duro e no dorso mais forte.
Serão talvez os potros de átilas selvagens;
ou os arautos negros que nos envia a Morte.
São as profundas quedas dos Cristos da nossa alma,
de uma fé adorável que o Destino blasfema.
Tais pancadas sangrentas são as crepitações
de um pão que na porta do forno se nos queima.
E o homem... Pobre... Pobre! Volta os olhos, como
quando sobre o seu ombro uma palmada o vem chamar;
volta seus olhos loucos, e todo o já vivido
como um charco de culpa estagna em seu olhar.
Há pancadas na vida tão fortes... Eu sei lá!
- César Vallejo
(tradução de José Bento)
in Antologia Poética, Relógio d'Água
Domingo, Dezembro 25, 2011
Desterrado afinal, vagas em ti,
e em ti bates sonoro, sino humano,
enroscado em teu som, cocheado ser,
pobre lesma de rasto luminoso
Jorge de Lima
Não durmo. Não sei o que faço, o que
fiz à cama? Viro-me
terrivelmente, viro mesmo o sangue,
empoleirado como um galo diabólico,
levanto os telhados, toco o meu sino,
desperto as débeis legiões, solto
os rafeiros, ladro-me, louco,
mijando os cantos deste velho dia
que não me deixa. Nenhuma manhã
me leva daqui, me risca. Sucessivos
lances de dados e as mesmas letras
sobre a linha do sono, agitações,
fantasmagorias. Uns lábios quase
apagados e umas palavras possuídas –
falo de vozes, certos timbres de sombra
que me lembram alguém.
Levo uma eternidade esvaziando
os bolsos, essas coisas falhadas, o que
sobrou e ficará para a mal contada
história das minhas gavetas.
Uns botões perdidos, partículas rebeldes
desabadas de estrelas, pedrinhas de altas
torres demolidas, algum retrato, cabelos
que passei a infância mendigando a brisas,
antigos projectos de assombração,
os meus números, os meus rapazes,
coitados... Caímos nas coisas afundados.
Temos frios tão nítidos e choros,
rangeres de dentes tenebrosos, graus
de febre, e embalamo-nos nestas canções
de hospício e miados. Gera-se um grito de
tantas vozes, todos, atrás desse gesto
imenso, recitando a imperiosa confusão
deste quarto – meus sete palmos –,
lugar renhido entre o sonho e as realidades
inquietas que a ele trepam. Essa pequena
luz que nos despedaça, rodando solidões,
plantando marcos. Fazemos tempo,
esperando e esperando, alinhados,
marchamos, para cá, para cá,
entre continências ao gato – essa altivez
governando as sombras, hipnotizando
os pássaros que nos visitam nas horas
mais apagadas. Arrastamos os móveis
até jardins, extraindo-lhes música, notas
doridas.
Que duração mágica a destas últimas cores
derramadas pelo sol enquanto a tarde morre
elaborando algum sarcasmo. Montras frias
na ressaca de outro Natal – espelhos
tão fatigados. Os candeeiros de iluminação
lançam o seu encantamento e as ruas
engasgam-se numas figuras remotas, frágeis,
colhendo girassóis nocturnos entre a neblina,
trocando olhares sem cor nem vontade.
Arranco nomes à carne, as mãos fundo
na terra em busca de lágrimas, e pergunto-me
que porra me deixou assim? Bebi o quê,
com que lua, para esquecer o nome
de que puta? Que cada noite
peça a tua morte, o meu inferno
só aguarda o momento para erguer-se
e te aplaudir. Bem o mereces.
Embebo-me na chuva, cedo eu próprio
à vertigem. O baloiço do mar
numa garrafa, os meus vinhos tristes
e cada um dos meus náufragos
dando à costa entre soluços musicais,
cadências ignoradas, ritmos de poemas.
Dançamos nesses ameaçados confins
onde bêbedas caravelas se enchem
e partem noutra direcção.
A canção do suicida
Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.
Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.
Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.
Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
in O Livro das Imagens, Relógio d'Água
O tanque do jardim pôs-se a cantar.
A ravina do chão, o arco-íris
crescem nos meus ombros.
Vou morrer, estou vivo,
o poço da cabeça está cortado
Esta exaltação alcança os mortos.
Ao pó do luar eles caminham
entre os arbustos, nas madeiras caídas.
Este espaço canta, eles vigiam.
Coberta de erva, minerais, adubos,
animais escuros, brisas,
a terra deles é a minha água.
Esta exaltação mata-os de novo.
- Joaquim Manuel Magalhães
in Dos enigmas, Moraes
Sábado, Dezembro 24, 2011
O jogo em que andamos
Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores,
que jogo com a morte.
- Juan Gelman
(versão de Luís Filipe Parrado)
Sexta-feira, Dezembro 23, 2011
António Gregório, Criatura 6
[post retirado daqui]«MATRIOSCAS
Nasciam umas das outras parecidíssimas
como matrioscas uma crescendo apenas
para que a seguinte lhe coubesse dentro e
o ciclo se perpetuasse regulares
amantes de indistintos colectores de
cartão usado donos de motorizadas
sebosas e ladrões mal sucedidos de
electrodomésticos amiúde presos
que os entretanto soltos revezavam entre
as pernas delas: um qualquer numa qualquer. » 1
há alguma coisa de paradoxal na revista Criatura. a elementaridade de meios e de processos torna surpreendente a eficácia do resultado. é aqui manifesto que o que funda um projecto literário colectivo é a existência de critérios. opções assumidas, conduzidas com a intransigência possível. no estado de rarefacção do meio editorial, um projecto como este é valioso. valioso, mesmo se aqui ou além o critério editorial talvez pudesse ser um pouco mais apertado.
neste número, há vários motivos de leitura. o regresso de António Gregório é claramente um deles. com uma escrita mais contida e imediata do que em momentos anteriores, os textos são aqui curtos e directos. a tendência narrativista, que curiosamente atravessa a maior parte dos autores neste número (e não apenas), surge aqui reduzida a uma formulação muito elementar dos traços diegéticos. a percepção de que, para contar uma história, não é preciso recorrer a todos os factos, nem a todas as palavras, confere a esta poesia uma força singular.
o tom é tendencialmente amargo, raramente cínico. da reprodução da miséria ao reconhecimento da identidade, o que está em causa não é construir um correlato escrito do mundo, mas reconstruí-lo segundo o sentido do texto:
«ESPLANADA
Tornou-se um hábito confirmar no placard
necrológico à entrada da Praça a minha
não-morte (vida seria exagero) antes
de pedir o café: poupo sessenta e cinco
cêntimos não envergonho a cafeína — e
ser-me-ia insuportavelmente triste o
sorriso da rapariga que o traz à mesa. » 2
a penetração desta escrita revela-se no modo como, por exemplo e neste texto, todo o poema aponta voluntariamente desde o início numa direcção equívoca, segundo um processo que é o de criativamente proceder à manipulação das expectativas do leitor. aquilo que se inicia num registo quase analítico, produzindo uma cortina de cepticismo, prepara, sem antecipar, a transformação da percepção nos versos finais. e se a irrupção de subjectividade dos dois últimos versos se sustenta no despir da máscara de cepticismo, ela envolve-se nela, apesar de tudo.
- H.G. Cancela
1. António Gregório, in Criatura 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011, p. 49.
2. Idem, p. 51.
Quinta-feira, Dezembro 22, 2011
que quis passar as Índias impossíveis,
dobrando cabos, moçambiques, bacos,
nadando em Africas desertas e armadilhas.
Ó herança em meu sangue devastada!
Ó piloto afogado, ó rei sem nau!
Mas é preciso vento, não torpores,
caravelas mais bêbadas no mar.
Ó manjares de Goa, ó fel dos mouros!
Ó melindanos, ó grandezas minhas!
Ó naufrágios finais com vastos sons
da tuba dos avós descobridores!
Amo-vos sons em formas de aventuras,
heróis de mares, terras de mourama,
silvos de combates, chinas inventadas,
ocidentes, orientes, suis sem água,
e nortes, nortes nunca conquistados.
Amo-te "idioma - vasco", sempre ouvido
no clima dessas quíloas afogadas,
esses mares antigos navegados,
escorbuto comendo a língua viva,
sebastianismos vendo irreais reinos,
essa linguagem toda, minha fala.
Língua remota, língua de presenças,
de suscitadas ressonâncias, amo-a,
que me deu a experiência dos abismos
e também das realidades inefáveis
e também de saudade amarga e doce,
e também das verdades mais ardentes.
Em suas ressonâncias ouvi esses
países que ficaram no subsolo
enoitados, sonhados, pressupostos,
dentro de mim, incrustados, refrangidos,
contrapostos, aliás inquisidores,
aliás, ó outra língua, doce língua.
Sobrevivente modo de falar,
das bocas soterradas em meu sangue,
coração missionado diz por ele
os dons que a divindade lhe outorgou.
Aceitamento desde zero idade,
continuada porfia de meus anos.
- Jorge de Lima
in Invenção de Orfeu (excerto do Canto VIII), Record
Resolvemos destruir distâncias entre.
Já me falais sem sopro se eu vos ouço,
somos mudos futuros e presentes.
E se o passado fala é que o passado
era a voz predizendo, pregustando
o pranto deglutido com as palavras.
Mas não sejamos trágicos nos tédios,
gozemos esse som sempre monótono,
essas florestas todas, esses rios
com esses mesmos espelhos fatigados,
e durmamos o sono refletido
dessas coisas sonhadas e mentidas.
Encantos diurnos, sombras projetadas
dos ossos sobre as carnes flageladas,
dos olhos entre os cílios ensombrados,
da luz inexistente, onde a cegueira
enxerga a flor com os dedos, ou com as ventas,
e o mar é apenas o murmúrio da água.
E não sejamos cegos, nós videntes,
noturnos enxergados, antevistos
por olhares tão rentes que parecem
a treva nos fitando, fria treva
que nos fixa com os olhos e com o sono,
que nos faz móveis, nós os seres hirtos.
E, não sejamos fúnebres e espessos,
sejamos gaios, todavia leves,
as mãos unidas sobre ramilhetes,
sem tanger moscas, ceras ogivais,
parados cogumelos em que houve óleos
de perpétuas unções e extremas preces.
Nesse poema informe e sem balizas
recria-se uma ilha repetida
com seu tomo de pedra adormecido.
Seu rochedo de sono é tão fechado
que ele vale na vida como um fado,
sete cordas caladas em seu gole.
- Jorge de Lima
in Invenção de Orfeu (excerto do Canto VIII), Record
O céu visto de cima
Tu já estavas prometido à tristeza
da cidade mais pequena. Mas a noite
tinha passagens secretas, bastava seguir
os sinais.
Uma sombra avançava muito fundo
nos teus estratos, tacteavas um território
de pedras difíceis, às vezes perigosas.
Depois imergias e a boca estava amarga
outra vez, a roupa amontoada na cadeira
como o princípio de um poema indesejado.
Reflectido nos teus olhos, o céu
era um lugar inabitável.
- Rui Pires Cabral
in A Super-Realidade, Língua Morta
Quarta-feira, Dezembro 21, 2011
-"Quando me levanto, não sei se estou doente ou se é só a solidão." Foram estas as tuas palavras ao balcão, entre as pessoas que entravam e saíam, e nenhuma reparava que havia alguém ali a gritar uma dor que de tão funda não se ouvia. Mal te conheço, mas depois disto é como se nos conhecêssemos. Talvez um dia use esse batom vermelho, esses brincos dourados de metal barato a coroar o penteado de cabeleireiro, e no sorriso a mesma largura triste de uma distância que jamais se alcançará (será ela que nos une uma vez mais). Antes disso, vou falar-te das minhas manhãs quando me levanto. Um peso no corpo, uma morte no olhar, corredor estreito por onde os passos avançam em direcção ao copo onde dissolvo a vitamina C em água. Logo o cigarro, a primeira baforada, como se uma esperança, embora uma esperança de nada. Seguir para o banho, copo e cigarro, o espelho em frente, cercado por azulejos brancos macabros. O resto já sabes, não preciso dizê-lo. Somos assim dois, eu e tu. Guarda segredo.- Jorge Roque
in Telhados de Vidro nº14, Averno
“A arte é, em primeiro lugar, a consciência da infelicidade, não a sua compensação”
Maurice Blanchot
Uma prática muito comum, que consiste em falsificar os tops dos livros mais vendidos, explica-se pelo efeito performativo que tem a publicação dessas listas: aparecer no top potencia o número de vendas, segundo um mecanismo tautológico que nos garante que tudo o que é bom aparece e tudo o que aparece é bom. Os tops não são um mero dado de um sector económico, não são uma informação sobre um estado de coisas, não são uma simples constatação: são um ato que produz efeitos ou que, pelo menos, pretende produzi-los. Tal como produz efeitos outro tipo afim de exibição quantitativa: as grandes torres de exemplares de um mesmo título à entrada das livrarias servem para incitar à compra por impulso e estimular a “rotação rápida”. A glória da quantidade que os tops celebram não tem mais de meio século. Até ao final dos anos cinquenta, o número de cópias de um livro vendidas não era do domínio público, até porque a regra da consagração, tal como ela tinha sido instituída pela autonomia do campo artístico, na segunda metade do século XIX, implicava o princípio de uma economia às avessas: o mais provável é que um livro que vendia muito estivesse naturalmente arredado da consagração. Por essa mesma razão, os escritores e os artistas fugiam das honrarias (“Les honneurs déshonnorent”, dizia Flaubert). A última coisa que um escritor queria era entrar num top club ou ver o seu nome associado a um hit-parade. Esse gesto não pode ser apenas interpretado como um puritanismo herdado da concepção heróica do artista; era um modo de assegurar a autonomia da literatura. No campo da arte, o correspondente aos tops de livros é a exibição pública dos valores de mercado de uma obra. Os contemporâneos de Picasso conheceram-lhe a fama, mas, a não ser já no final da sua vida, não conheciam a lista dos preços dos seus quadros. Também aqui o objectivo é o mesmo: fazer crescer aquilo que, aparentemente, só se está a medir.
- António Guerreiro, «Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 26.11.2011.
texto retirado daqui
Terça-feira, Dezembro 20, 2011
Há casas assim, existências destas capazes de deixar estupefactas as pessoas de senso. Ser-lhes-ia impossível compreenderem uma desordem que parecia não poder durar quinze dias e durava anos. Ora há muitas destas casas, destas existências problemáticas, ilegais, por impossível que isso pareça. Mas numa coisa a razão se não engana; se a força das circunstâncias é uma força, acabará por fazê-las sossobrar.
Os seres singulares e os seus actos associais são todo o encanto de um mundo plural que os repele. É angustiosa a velocidade adquirida pelo ciclone em que respiram estas almas trágicas e volúveis. Tudo começa por infantilidades; de começo tudo são brincos.- Jean Cocteau
(tradução de João Gaspar Simões)
in Os meninos diabólicos, Editorial Inquérito
Mais magro
Mais magro
Meu amigo está mais magro
Volto a encontrá-lo
dois ou três verões mais tarde
e chego mesmo a dizê-lo:
Você está mais magro.
Problemas de intestino…
responde-me esquivo
…já estive pior, agora
voltei a engordar
Não peço detalhes
mas vejo o ombro mirrado
entre as alças da regata
Evito tocá-lo
pois a mera proximidade física
parece estranha agora
que meu amigo está mais magro
Novamente juntos
caminhamos pela orla marítima
Eu lhe recito algum verso
ele me ensina outro insulto
e há quase alegria de trégua
não fosse o fato
dele estar mais magro
Se ainda ontem tocassem
os telefones insones
na barra da madrugada
e meu amigo dissesse
palavras de testamento
eu sairia correndo
para deitar-lhe compressas
na testa já repartida
Se fosse eu o afogado
dentro da onda invisível
de bílis, lua e silêncio
ele pagava o resgate
limpava o sal de meus cílios
me devolvia em segredo
sobre a toalha mais limpa
Mas hoje estamos exaustos
há um dreno em nossa bondade:
minha boca só tem dentes
e meu amigo
está mais magro
- Fabio Weintraub
in Novo endereço, Nankin
Contrabando
Há ciência em dividir cama
com uma mulher grávida
Nos abraçamos de lado
ela me rouba costelas
e vira um barco
que eu reboco com medo
Como saber a latitude exata
de quem navega e dorme
dar nome à suave tripulação?
A alfândega cobra multa
por excesso de peso
Os papéis estão em ordem
Meu contrabando é inocente
Num porto bem próximo
alguém agita um lenço
em nossa direção
- Fabio Weintraub
in Novo endereço, Nankin
Pai
Desempregado há três anos
no país do futuro
Batendo perna nas ruas
com o mostruário de meias
Adivinhando
o signo da morena
o ascendente da loira
Jogando xadrez
assobiando um samba
colecionando borboletas
descobrindo a fórmula exata
da tinta para balão
(tinta que não racha
sobre a pele inflável)
Contra as determinações médicas
filando cigarro
fazendo piada com a perna
que pode ser amputada
louvando as próteses modernas
dizendo que morre antes disso
que não vai dar trabalho
que some de casa
vai pro asilo
Meu pai de novo ao volante
guiando o negro Landau
O velho e bom batmóvel
rodando sem freio ou cinto
o vento de Gotham no rosto
minha cabeça no banco de couro
Meu pai cantando alto
limpo e bonito como só ele
numa estrada clara
sem pedágio ou limite
de felicidade
- Fabio Weintraub
in Novo endereço, Nankin
Segunda-feira, Dezembro 19, 2011
Domingo, Dezembro 18, 2011
O roubo do silêncio
Viver ensina a esperar a vez e a conviver com a dor. É o que me segredam as mãos brancas do dentista, quando finalmente a obturação sem anestesia define o limiar da própria dor, dá lições de autocontrole. Quando a fala do médico é curta, chegar até ele é raro, pois ele detém o poder da anestesia, e é preciso oferecer a vida antes da hora para merecê-la; quando o livre curso da natureza é ainda caminho mais manso na direção do fim; quando o melhor é espantar o meu presságio e plantar sua comida - não há poesia que valha uma vida. A vida vai bem em prosa, quando a violência lhe rouba definitivamente a liberdade de corte. Quando minha morte não me pertence, o modo de morrer não me pertence, esse expatriamento vai entrando dentro da vida. Quando minha morte me é roubada, é o roubo que corre para dentro de mim. Para a terapêutica sem recursos, o diagnóstico mais generoso é sempre a eutanásia generalizada, a expansão da autoridade para dentro do corpo do outro, a faxina em seus farrapos de vida. O silêncio é o sofrimento da palavra, quando a poesia do silêncio lhe é roubada. A vingança dos desapropriados é o barulho da prosa do mundo. Se eu pudesse falar, pegaria andorinhas em pleno vôo.- Marcos Siscar
in O roubo do silêncio, 7 letras
Sábado, Dezembro 17, 2011
Poesia
Não te devolverá o que te tiraram
– pessoas, paisagens, comboios, noites, dias –,
mas dará nome àquilo que se foi
e haverá menos silêncio nas tuas mãos vazias.
Não serás mais feliz por estares com ela,
se calhar mesmo nada quase sempre,
mas não deixará, como o irmão bom,
de te murmurar cúmplice que se aprende com a dor.
Não te defenderá de quem te humilhar,
não apagará a sombra das dúvidas,
estará apenas ali, com a sua parca presença,
pondo letra em cada música triste.
Quem sabe se vais preferir não ter
nada a ver com essa forma rara
que te ensinou o teu pai de não dizer as coisas
ou de dizer as coisas com muito poucas palavras.
- Ángel Mendoza
(tradução de Inês Dias)
in criatura n.º6
pode tornar-se dura e seca
não por ser pobre mas
para não ajudar à riqueza oficial
pode ser o seu modo de protestar de
tornar-se fraca já que existe fome
amarela de sede e queixosa
da pura dor que existe pode
em troca abrir os becos do delírio e as bestas
cantarem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
até negar-se a si mesma enquanto outra
maneira de vencer a morte
tal como chorar nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo
apartaram-nos da grei sei lá o que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
suceder o que há-de suceder mas
toda a poesia é hostil ao capitalismo
- Juan Gelman
(tradução de A.M.)
Sexta-feira, Dezembro 16, 2011
Lapinha
Às 21h25 a ilha fecha,
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo, amigos
que invocam em silêncio as estações
e recordam ainda a Criação,
camada por camada.
Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens, que a estrela
única vem selar. Cada um risca
as fronteiras do sonho com sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.
E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.
- Inês Dias
in Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado, Tea For One
Quinta-feira, Dezembro 15, 2011
O deus
Quando a noite é só o barulho
de um galo desregulado
e o apito distante de um guarda-noturno
Nesta hora
em que os corpos procuram a ausência
tão necessária
e a dor
um ponto-de-vista
Procuro
em cada canto do quarto
- olhos de treinada coruja -
o deus que me pronuncia.
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Amanhã
dia 16, às 22h30, no Bartleby Bar.
Leituras de Marta Chaves e Solange F.
-
Também há as naus que não chegam
mesmo sem ter naufragado:
não porque nunca tivessem
quem as guiasse no mar
ou não tivessem velame
ou leme ou âncora ou vento
ou porque se embebedassem
ou rôtas se despregassem,
mas simplesmente porque
já estavam podres no tronco
da árvore de que as tiraram.
- Jorge de Lima
in Invenção de Orfeu (Canto V)
Nem tudo é épico e oitava-rima
-
Nem tudo é épico e oitava-rima
pois muita coisa desabada
tem seu sorriso cotidiano
e uns dorsos suados, pés humanos,
dois utensílios: João e Joana
com seus pequenos firmamentos
entre corujas e cumeeiras.
Ruas e ruas com as esquinas
e com os prostíbulos disfarçados
e essa mulata ausente ali,
com seu sorriso maternal
que uns homens míopes não percebem,
indo ao nível desses táxis,
bondes repletos de marítimos
que vêm de barcos gusanados,
atrás dos barcos, - limpas aves,
mais adiante os negros cais,
e contra os cais será que há mar?
Será que há mar para um herói
olhar o céu à flor das águas?
(...)
- Jorge de Lima
in Invenção de Orfeu (Canto V)
Quarta-feira, Dezembro 14, 2011
Sexta-feira
p/ Paulinha
Calcanhares pontudos
caminham pelo andar de cima.
Calcam angústia
vontade de mudar de nome
endereço
de vida -
nessa ilha
de paredes brancas
Robinson urbano
diante da fatalidade
irremediavelmente só.
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Ficção
Sabendo-me defunto
com todas as barbas de molho
acompanho o dobre sineiro
pela escada
em caracol de pedra
Na extrema-unção
meus passos escavam
pouco mais
seus degraus
São séculos arrastados
em arenoso silêncio.
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Noite no quintal
p/ Noeli Pomeranz
A noite no fundo do quintal
lembra o cinema de sombras na parede
vento no arbusto sacudindo medo
(formas de bruxas noturnas
terror de mula-sem-cabeça)
- o fundo da noite
estampado na memória
________me puxa pelos pés
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Na medida certa
Procuro um cinzeiro
preciso muito desse cinzeiro
de vidro
suas três pequenas depressões
onde apoio o cigarro
enquanto nado
na inconsequente fumaça
Esse cinzeiro ajuda a compor
o ambiente
a janela que dá para o pátio
Não é um deus de vidro
nem nada que o transcenda
É a piscina de cinzas
o arquivo morto
das descobertas pessoais
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Explicação
Não sei explicar
o que me motivou
a colocar fogo
naquele pinheiro
em frente de casa
Não era a beleza
"da chuva vermelha"
Nem a necessidade de calor
numa manhã sem abrigo
Havia um fósforo
uma caixa de fósforos
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Terça-feira, Dezembro 13, 2011
O lago secreto
Tua cabana entre duas camas
o "esconderijo secreto"
as crianças cavam buracos
no chão
(uma, satisfeita, diz que
fez o lago Titicaca - a outra
procura um balde de água)
Pelos buracos fugiram 19 presos
que estavam nas celas do 23º DP
Os helicópteros sobrevoam
nossa casa, voam baixo,
com metralhadoras suspensas
Meu irmão morreu em cima da ávore
As crianças se escondem
dentro de túneis de lata
Procuro a senha (uma data)
- Heitor Ferraz Mello
in Coisas Imediatas, 7 letras
Mozart, Requiem
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Camilo Pessanha
Na pauta, ora choram aziagas
arcadas de violoncelo, que nos levam
à raia do inferno e nos trazem de volta,
transidos de pavor;
ora vibram e suplicam
intensos violinos semelhantes
a insectos que pela noite fora
vão estridulando sem saber porquê.
Oh, os violentos violinos
que gemem aflitos,
rasgando a punhais de gelo
o seio da lacrimosa!
Tudo tão humano. E aspirando tanto
ao aconchego de um lugar cativo
à mão direita - de quem?
E a partitura segue salpicando angústias -
farrapos de ansiedade misturados
com farrapos de medo.
Amadeus devia ser chamado à ordem:
nenhuma música dói tanto, e nenhuma
cumpre tão severamente o seu papel
de demonstrar o avesso que há nas coisas.
- A. M. Pires Cabral
in Cobra-d'água, Cotovia
Segunda-feira, Dezembro 12, 2011
Tirai-nos as nossas casas e chamai-lhe planificação regional.
Humilhai-nos e chamai-lhe assistência social.
Tornai-nos loucos e chamai-lhe higiene mental.
Envenenai-nos e chamai-lhe conservação do meio ambiente.
Adormecei-nos e chamai-lhe ideologia de consumo.
Deixai-nos no desemprego e chamai-lhe reconversão.
Confundi-nos e chamai-lhe publicidade.
Vendei os nossos corpos e chamai-lhe liberdade sexual.
Enganai-nos e chamai-lhe política de rendimentos.
Coisificai-nos e chamai-lhe nível de vida.
Escarnecei do nosso trabalho e chamai-lhe jubilação antecipada.
Menti-nos e chamai-lhe liberdade de expressão.
Tiranizai-nos e chamai-lhe democracia.
- Claes Andersson
(versão de LP)
Montagem
E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a
estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel
- José Manuel Teixeira da Silva
in As Súbitas Permanências, Quasi
Elegia 1969
Arrastas a escravidão até à velhice
e nada que faças te vale de muito.
Dia após dia passas pelos mesmos gestos
tremes na cama, tens fome, desejas uma mulher.
Heróis representando vidas de sacrifício e obediência
enchem os parques por onde caminhas.
À noite, no nevoeiro, abrem as umbrelas de bronze
ou então refugiam-se nos vestíbulos vazios dos cinemas.
Amas a noite pelo seu poder de destruição,
mas enquanto dormes, os teus problemas irão morrer.
Acordar só prova a existência da Grande Máquina
e a luz árdua cai nos teus ombros.
Caminhas entre os mortos e falas
de tempos por vir a assuntos do espírito.
A literatura fez-te desperdiçar as melhores horas de amor.
Fins-de-semana perdidos, a limpar a casa.
De pronto confessas o teu fracasso e adias
a alegria colectiva para o próximo século. Aceitas
a chuva, a guerra, o desemprego e a distribuição injusta da riqueza
porque não podes, sozinho, rebentar a ilha de Manhattan.
- Mark Strand
(tradução de José Alberto Oliveira)
in Rosa do mundo, Assírio & Alvim
retirado daqui
Domingo, Dezembro 11, 2011
Perguntas
Alguém me permitiu que chegasse a esta idade
fazendo perguntas. Boa alma, essa
que leu em mim o aguilhão das dúvidas
e o achou legítimo e me permitiu que às vezes
fizesse umas perguntas de trazer por casa.
As outras perguntas, as menos correntes,
aquelas a cujo cofre só sábios têm acesso
(e para as quais aliás nunca encontram resposta,
tal qual eu para as minhas – estou vingado),
essas foram-me escondidas
como de uma criança o frasco da compota.
Ainda assim, impostos dessa forma
limites aos meus passos inquietos,
agradeço o benefício. Porque enfim
podia ter nascido sem a urgência
de inquirir coisa nenhuma.
Podia dar-me por satisfeito assim,
aninhado numa rábula qualquer.
Ronronar como um gato que o dono afaga
maquinal atrás da orelha enquanto lê.
Com acesso garantido a um lugar de balcão
com vista para a bem-aventurança.
- A. M. Pires Cabral
in Cobra-d'água, Cotovia
Sábado, Dezembro 10, 2011
-Vida, e vida presa, e apenas por um fio, é coisa que toda a gente tem. Embora nem toda a gente saiba que tem, ou dê por isso. Nem toda a gente está cá para o efeito. Dar por isso não deixa de ser, não obstante, a melhor das razões para cá se estar. E não há assim tantas.- Rui Caeiro
in Um fio que te prende à vida, Língua Morta
Sexta-feira, Dezembro 09, 2011
Eu me disse com a boca dos do inferno
Jorge de Lima
tudo largado, sem corda, horas mais
horas desmesuradas em que te sucedes
debaixo da ameaça de uma luz
que levou tantos à loucura.
Retomas essa antologia de cinzas
e de passos perdidos, molhas o dedo
na boca, viras, viras, até te subir
o gosto, essa pequena mancha
de sangue alado. E dobras a página.
Um único pássaro negro troca ideias
contigo, arrastando a sua sílaba triste
por este fim de tarde. A chuva ocupa-se
desatando o contorno das coisas
sem consolo. Casulos de nada, flores
suspensas num ódio à primavera.
Inúteis composições de opacos sons
de cor, ácido pólen queimando
uns trilhos vulgares, gatos já só
sombra, empurrando os ninhos
das árvores. E muros vencidos, ecos
que sobem anos mais tarde do fundo
dos poços, reflexos antigos fixados
em espelhos de treva. Um rio desaparecido
e restos de barcos, cães e sinos roendo
os ossos do tempo.
Trazes os teus papéis e essa história perdida
às mesas dos Cafés que restam à ironia:
“Desolação”, “Vertigem”, “Déjà vu”.
Cai há muito nesse rosto impreciso
uma lágrima morta. Olhas em volta as
distâncias paradas, confusas. A flor imaginária
que, de tédio, fica engolindo insectos e a
sombra na parede que vos imita a todos.
Há uma brisa pegajosa que vem como
vai, enxames lentíssimos, canteiros
de lumes circunvoantes, janelas mortas
de casas deformadas, dissolvidas na névoa,
e as raízes afundando-se nesta terra
que a si própria se devora.
E esses a quem sempre recorres,
feitos de noite, jogos de paciência,
memórias absurdas e sussurros sombrios,
erguem novamente o mar exausto
dos seus cochichos de cova, salmos miados,
ruídos de língua e tragos fundos entre luas
de néon e fantasias alcoólicas. Música fria
num fundo mais frio ainda.
E tem-los aí, de castigo, como anjos
macabros, os derradeiros bêbados.
Devotas personagens, obrigadas
a esta tua ficção barata – reconciliam-te
com essa dor solitária, atrasam
a simples evidência de que falta alguém
a estes versos. Falta desejo, falta algo
de perturbador, como um nome,
uma razão qualquer. No fundo,
faltou aqui uma dose melhor
do bom e já velho fingimento.
Antes da Paixão
Oh, Tu assim o quiseste, não devias
ter nascido do corpo de uma mulher:
é preciso extrair Salvadores de montanhas ínvias,
onde se separa o que é duro de outra dureza qualquer .
Não Te dá pena assim devastar
o Teu querido vale? Vê a minha fraqueza;
apenas tenho ribeiros de leite e lágrimas para ofertar,
e Tu viveste sempre nessa sua largueza.
Com tal excesso me foste prometido
por que não saíste de mim em estado selvagem?
Se apenas de tigres precisas para ser dilacerado,
porque fiz na casa das mulheres a aprendizagem
De um pequeno vestido puro e macio Te tecer
sem que nele te pudesse magoar a aspereza
da menor costura; assim foi todo o meu viver,
e agora de súbito transtornas a Natureza.
- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria Teresa Dias Furtado)
in A Vida de Maria, Portugália Editores
Quinta-feira, Dezembro 08, 2011
Panic attack
De súbito a estranheza cicatriza em cada
objecto, esmalta-os de treva
e o ar da tua habitação é povoado
pela cinza azul desse olhar
que te lança do espelho um intruso.
Pede-te que o soltes. Não o abras.
As palavras formam no teu cérebro
um pelotão de fuzilamento. São já velhas
todas as tuas recordações como números
de empresas falidas há muito.
Fechas os olhos, tremes: um barco
abandonado a um mar calcinado
pelo esquecimento. Um terror lento encharca-te
o peito e o futuro apodrece no passado.
- Juan Bonilla
in El belvedere, Pre-Textos
A ambição de Gottfried Benn
Com um poema devolver às tabernas o alcoólatra
que havia prometido nunca mais provar vinho;
com um poema dar a sentir síndrome
de abstinência a quem havia jurado
não voltar a injectar nem mais uma gota de heroína:
com um poema erguer nas entranhas de um amante
a certeza de que se destrói
de cada vez que o amor lhe rouba um gesto.
Com um poema fazer que abandonem toda a esperança
aqueles que sonham com um mundo melhor.
No final da sua vida Gottfried Benn buscava esse poema
e para sorte de todos nós não conseguiu encontrá-lo.
Mas pulsando no seu fracasso ainda podemos escutar esse rumor:
a poesia propõe-se pronunciar uma verdade intolerável,
se as suas palavras não te alcançam de uma maneira física
- soco no estômago, mordida nos lábios, vertigem no olhar -
então não passa de ilusório onanismo.
- Juan Bonilla
in El belvedere, Pre-Textos
Quarta-feira, Dezembro 07, 2011
o amanhã não passa de um vazio
há uma mesa posta, um cigarro aceso
e em cada sílaba histórias por acabar
como quem está de passagem
corro a cortina
tudo o que se agarra a mim são sombras
podia ter escrito sobre a tua ausência
é tarde
e com os lábios feridos
não consigo dizer coisas bonitas
- Maria Sousa
A pintura
6
Quando a luz se apaga
geme a mansa fera dos quadros.
O caos apodera-se da explícita
superfície em que canta a sua mensagem
e nos apresenta um anjo disfarçado de extenso tema
no qual brincam linhas sem transvio.
Foge a luz, e a pintura
recolhe-se em si mesma. São indistintas
as cores que lutam até ao contacto
do luminoso ponto
o que desperta clamor, ruído de espadas,
explosão de matéria nos beijos.
Aniquilada fica aos nossos olhos
que gostam de procurar o que os seus lábios
nunca dizem às escuras,
aquilo que só é possível
quando de súbito invade o nosso sangue,
se derrama
fervilhando pelos íntimos
leitos da nossa luz,
se converte em nós.
A luz que colabora, que desperta
o adormecido animal da pintura;
a luz desperto agora,
a qual nos leva conduzidos por suas mãos
a interpretar os sinais,
a estremecer ante o golpe fulminante
de verdades que perfumam
subitamente um ser diferente em si;
a luz que ressuscita
a adormecida, aniquilada, informe,
matéria escurecida,
que coloca alma no homem e nas suas ruínas:
a luz que, de manhã,
abre as flores da cor com que se abre.
- Ángel Crespo
(versão de José Eduardo Simões)
Terça-feira, Dezembro 06, 2011
Oráculos de cabeceira
O arrabalde tem isto: é um verão
que não acaba.
Dão nisto os centros:
carentes de resina, do cheiro a mar,
surdos ao ópus n.3 para vento e jacarandá,
ao relapso movimento da alegria,
contraem úlceras
que desditosamente se disfarçam em paus de incenso,
em certos livros tardios e vinhos mais caros
e lacónicos. O vento
é todos os ventos, escrevia Hugo,
mentindo a si mesmo, em Guernsey.
O arrabalde tem isto:
tatuado na retina é quase tudo,
pois à míngua de uma ideia de futuro
só o presente nele s’excelsa.
Ler oráculos de cabeceira,
por exemplo, enquanto lá fora,
sobre a pele do Índico,
num flamingo, bifurca a sombra.
- António Cabrita
Quase bonita
I am mainly an idiot
you are almost beautiful
Robert Creeley
eu julgo que és quase bonita
ao ver-te duplicada na janela
imunda de um comboio de inverno
ajeitas dois fios do teu cabelo
metes a mão à cara, porventura
a cheirar nos dedos o almoço
conferes o bilhete, o telemóvel
o conteúdo da mala não sem peso
toda a soma de últimos valores
de boa passageira infrequente
é que és mesmo quase de se amar
mirando a paisagem desolada
comigo, o maior dos idiotas
suspeitando de repente alguma morte
vagão quinze, pela tarde
körmend-szombathely
- João Miguel Henriques
Relatório
É um mundo pequeno,
habitado por animais pequenos
– a dúvida, a possibilidade da morte –
e iluminado pela luz hesitante de
pequenos astros – o rumor dos livros,
os teus passos subindo as escadas,
o gato perseguindo pela sala
o último raio de sol da tarde.
Dir-se-ia antes uma casa,
um pouco mais alta que um império
e um pouco mais indecifrável
que a palavra casa; não fulge.
Em certas noites, porém,
sai de si e de mim
e fica suspensa lá fora
entre a memória e o remorso de outra vida.
Então, com as luzes apagadas,
ouço vozes chamando,
palavras mortas nunca pronunciadas
e a agonia interminável das coisas acabadas.
- Manuel António Pina
in Como se desenha uma casa, Assírio & Alvim

















