Sábado, Abril 30, 2011

-
Amor, maneja com muita atenção
os conceitos

chama brilho fumo cinza
por exemplo

e coloca-te fora do seu curso breve
e infernal

No rosto o sorriso invencível dos
perdedores

(Variante)

Porque a verdade é esta: se tu levas a vida
a sério, a morte vence-te com a maior das limpezas

Se a levas a brincar, ela vence-te à mesma
porém sem glória: o que é vencer um brincalhão?

- Rui Caeiro
in O Quarto Azul, Letra Livre

The Breakfast Club (1985)

http://3.bp.blogspot.com/-clX4w8VJkOs/TbuEG2KOxyI/AAAAAAAAG70/l3Lc2J9Ofbc/s1600/the-breakfast-club.jpg

Sexta-feira, Abril 29, 2011

-
Porque
amar é
meter na boca uma pedra
e aguardar
o despertar das papilas
o seu recreio
e abandono
o seu desvario

e
também é
a gente perguntar-se
o que fazer
com as sobras
a saliva
os sonhos enregelados
a pedra

- Rui Caeiro
in O Quarto Azul, Letra Livre

Quarta-feira, Abril 27, 2011

II

Retiram a louca do quarto.
Acordam a louca (de onde?)
É bela, tem olhos fixos
de quem morreu por se ver.
(Deixai-a dormir, dormir,
que eu mesma já bem dispenso
a horizontal no tamanho
deste meu corpo imprevisto).

Ela é grande e não me vê,
deixa nos linhos sem mancha
o seu repouso, tão longe,
tão longe... aqui?

Estou. Presa mudez que a louca
trouxe consigo. E penso?
Me inclino para revê-la.
O corredor – uma esquina –
eu vim de onde seguiu.

Que leito longo, que altas
estreitas paredes estas! Brancas
Piso o ladrilho. Este esquadro
na porta... (Vai ser fechada)
sobre quê?
– sobre este corpo vazado
naquela porta, seu fim

Sou eu me ouvindo? Sim, falo.
E voz, se voz, se desata
nalguma raiz de língua, para o alto.
– Garganta da que se foi
e agora está me vestindo?
Pergunto? – Não – que diria –
e não quero me dizer.
Vontade, vontade ainda, só esta
de compreender. Compreender?

– Em tanto pano estendido, os meus cansaços
dobrados. Em tanto pano, nadando
este meu pequeno corpo
não se sabe flutuando. Nem me deito.
Suspender-me? Só eu posso,
e quero estar,
à beira do leito longo, quero estar.

- Maria Ângela Alvim
in Superfície, Assírio & Alvim

Pleased to watch you dance alone



Kids are always honest
Cause they don't think their ever gonna die
Oh your the pretty smartest captain of the team
I love you more than being seventeen

http://3.bp.blogspot.com/-mXR7jACVbBg/Tbdkv0BSEdI/AAAAAAAAG7k/dt3tA_kklKA/s1600/ela.jpg

Terça-feira, Abril 26, 2011

-
Meus olhos são telas d'água,
não ferem a perfeição.

*

Rosas floresceram em meus cabelos.
Negras rosas do Egito.
Meu corpo espera há séculos
e a alma o presencia.
Só a morte compreende.

*

As papoulas são estrelas que caíram de sono.
Elas têm o segredo.

*

Mar.
O pássaro feriu o espelho e libertou a imagem.
Ouço o canto dos náufragos, dos reencontrados.
Espumas. Véus.
Boiaram os pensamentos das virgens.
São mensagens.
Eu descerei para as núpcias.

*

Há espigas adolescentes na madrugada.
Ela veio ceifar.
Pela madrugada escorreu o sangue da noite
e meus iguais se foram numa língua de sede.

*

Mãos, raízes de desejo.
Eu as vi
cruzadas
sobre o ventre da morta,
grávida do Mistério.

- Maria Ângela Alvim
in Superfície, Assírio & Alvim

Catfish (2010)



Um filme-documentário, uma estória impressionante.

Segunda-feira, Abril 25, 2011

Jane Eyre (2011)


7/10

Matéria de testamento

A meu pai, como convém, de Coquimbo a Lebu, todo o mar;
a minha mãe, a rotação da Terra;
à asma de Abraham Pizarro, ainda que não me entenda, um trem de fumo;
a dom Héctor, o apelido May que lhe roubaram;
a Débora, sua mulher, o terceiro dia das rosas;
às minhas cinco irmãs, a ressurreição das estrelas;
a Vallejo, que não chega, a mesa posta com um só serviço;
a meu irmão Jacinto, o melhor dos concertos;
ao Torreão do Renegado, onde nunca estou, Deus;
à minha infância, esse potro vermelho;
à minha adolescência, o abismo;
a Juan Rojas, um peixe pescado no redemoinho com sua paciência de santo;
às borboletas, os alerces do sul;
a Hilda, l’amour fou, e ela está aí dormindo;
a Rodrigo Tomás, meu primogênito, o número áureo da coragem e do alumbramento;

a Concepción, um espelho quebrado;
a Gonzalo filho, o salto alto da Poesia por cima de minha cabeça;
a Catalina e Valentina, as bodas com formosura – e espero que me convidem;
a Valparaíso, esta lágrima;
a meu Alonso, de 12 anos, o novo automóvel século XXI pronto para o voo;
a Santiago do Chile, com seus cinco milhões, a mitologia que lhe falta;
ao ano de 73, a merda;

ao que cala, e pelo visto outorga, o Prêmio Nacional;
ao exílio, um par de sapatos sujos e uma roupa baleada;
à neve manchada com nosso sangue, outro Nüremberg;
aos desaparecidos, a grandeza de terem sido homens em seu suplício e terem
morrido cantando;
ao Lago Choshuenco, a copa púrpura de suas águas;
às 300 à vez, o risco;
às adivinhas, sua esbeltez;
à rua 42 da cidade de Nova York, o paraíso;
a Wall Street, um dólar e meio;
à torrencialidade destes dias, nada;
aos vizinhos, com esse cão que não me deixa dormir, coisa nenhuma;
aos 200 mineiros de El Orito, a quem ensinei a ler no abecedário de Heráclito, o encantamento;
a Apollinaire, a chave do infinito que lhe deixou Huidobro;
ao surrealismo, ele mesmo;
a Buñuel, o papel de rei que se sabia de memória;
à enumeração caótica, o fastio;
à morte, um grande crucifixo de latão.

- Gonzalo Rojas
(tradução de Fabiano Calixto)
encontrado aqui

Madame Mouton

Passo a partir de agora,
caro leitor,
a escrever poemas com direito a admissão:
só serão aceites os sarcásticos.
És testemunha e, por isso, selas a ouro,
leitor,
esta promessa de tempos escassos e cínicos.
(Quem disse que os meus poemas eram bucólicos,
quem me colou o selo e me expediu para a província?)
Porque a poesia,
Edward, dear,
não me abriga da morte,
é no máximo um cárcere frio
onde nem tu, meu amor, entras
ponho-te um prato de amor de fora
para que te consoles aos fins-de-semana e dias festivos.
Que não seja uma feijoada fria
ou qualquer outro tipo de vingança
porque da janela do meu cárcere
não avisto mar nem Tabacaria.
E para ser franca, leitor,
nem por ti anseio
ou por ti, meu amor [outra vez]
nem por Pavia ou Roma [ao contrário]
que não se fizeram num dia.


- Ana Paula Inácio
in Telhados de Vidro n.º 11, Averno

Domingo, Abril 24, 2011

-
Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calhar em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc. são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.

- Miguel Martins
(retirado daqui)

Sábado, Abril 23, 2011

Não procures mais o teu caderno de geografia

Não procures mais o teu caderno de geografia.
Eu tirei-o da tua mochila.
Não quiseste ir à matiné comigo,
no domingo passado.
Os meus amigos contaram-me
que estavas acompanhada pelo Bermudez,
o grandalhão que pratica luta livre.
Contaram-me que estavas muito linda,
e que te rias a cada segundo.
Não procures mais o teu caderno de geografia
Agora que está a chover,
aproxima-te da janela,
e verás passar oitenta barquitos de papel
Não procures mais o teu caderno de geografia.


- Jairo Aníbal Niño
in A alegria de gostar, Boca

Capitalismo, um conto de fadas

Last Night (2010)


7/10

Sexta-feira, Abril 22, 2011

Desobediência – Eduardo Pitta


[Texto de David Teles Pereira, publicado no Ípsilon de 22 de Abril]


Devemos ser menos exigentes com a construção de um livro de poemas escolhidos e condescender como nunca o faríamos caso se tratasse de um livro individualmente considerado? Diga-se, já à partida, que não.

Quando Stéphane Mallarmé, em carta a Paul Verlaine, fala de “um livro que seja um livro, arquitectural e premeditado, e não uma colectânea de inspirações de acaso”, não esboçou uma enunciação que pesa apenas sobre a cabeça do poeta, mas, também, sobre a do antologiador, mais ainda – e com acrescida responsabilidade –, quando é o próprio poeta a desempenhar essa função, como sucede em “Desobediência” (D. Quixote, 2011). E não devemos ser condescendentes a este propósito, principalmente, quando no seu trabalho de selecção o poeta decide substituir a sua Obra por uma obra, como Eduardo Pitta deixa bem claro na nota de abertura do livro ao declarar como “definitiva a presente fixação de texto e excluídos da obra os poemas que o autor deixou de fora”, num gesto que não pode surpreender qualquer leitor de poesia, especialmente de poesia portuguesa, tão frequente ele tem sido.

“Desobediência” reúne num só volume, definitivo e excludente, a obra poética de Eduardo Pitta, publicada entre 1971 e 1996, composta agora por sete livros amputados em relação ao seu original, e dois poemas em prosa que terminam a parte de poesia deste livro. A obra escolhida de um poeta, para ter outro mérito que ultrapasse a mera republicação de textos que eventualmente poderiam estar arredados dos leitores, deve oferecer a mesma estrutura “arquitectural e premeditada” que se exige a cada livro de poemas que pretende ser algo mais que uma simples recolha de poemas escritos entre este e aquele ano. Este ponto de partida, dentro do qual Eduardo Pitta claramente se coloca – é sempre bom repeti-lo – permite-nos exigir à construção de “Desobediência” dois trabalhos essenciais: coerência e ritmo.

Relativamente ao primeiro aspecto, apenas cumpre destacar a coesão temática deste livro. A maioria dos seus poemas procura construir, através de um roteiro de impressões, a sua vivência pessoal, quase sempre em poemas de amor ou sobre o amor, na impossibilidade ou falibilidade da sua expressão, tanto através do corpo como através das palavras: “Queria que ficasses/ naquele olhar/ a caminho da curva/ do meu ombro.” (p. 35) ou “Ficamos de pedra/ logo no acto de nascer./ – tropeçamos no limiar/ da palavra” (p. 51). Nestes meandros, a tentativa de acesso à lição de Eugénio de Andrade é um traço marcante na poesia de Eduardo Pitta, tal como o é a aproximação a alguma poesia anglo-saxónica ou a alguns poetas de língua portuguesa mais próximos desta cultura, como Rui Knopfli ou João Miguel Fernandes Jorge.

É em poemas curtos, como estes que se acabaram de citar, que se encontra o melhor que “Desobediência” tem para oferecer ao leitor. Mas são também estes poemas, ao mesmo tempo, que expressam, em sintoma, uma das maiores incapacidades desta poesia: dar o salto, prosódica e retoricamente, para poemas mais longos que os quatro ou cinco versos onde, por vezes, consegue encapsular as suas imagens mais atraentes. E mesmo nestes poemas, muitas vezes pouco mais se entrevê que o efeito vibrante da sua impressão, dando ao trabalho de depuração ou desornamentação uma dimensão na fronteira do artificial, quase como se fosse uma veia em que corre sangue porque uma máquina o empurra, mas onde não bate qualquer coração.

Há, noutra perspectiva, algo de importante a reter a propósito da economia discursiva que parece levar tantos poetas ao erro: ela não vale só por si, nem tão pouco vale apenas por ser deliberada. Um aríete pequeno e menos ornamentado que não consegue derrubar a mesma porta que um aríete maior e mais elaborado, não é outra coisa que uma insuficiência. A eficiência, transpondo para o domínio deste livro, seria demonstrada, por exemplo, através de um domínio irrepreensível dos recursos da linguagem. Acontece, porém, que esse trabalho é muitas vezes perturbado nesta poesia: aliterações mal executadas [“ontem choveu chuva cinza”, “e a volúpia volatiza-se” (ambos p. 32) ou “Verde de excessos/ excedidos e excessivos, em Poros.” (p. 90)]; imagens gastas ou banais [“silêncio de paredes/ brancas e esquecidas” (p. 100)]; paradoxos muito pouco exigentes [“Audível/ o silêncio pressagia/ naufrágios” (p. 70) ou “Tamanho ímpeto de silêncio/ fazia imenso barulho” (p. 153)]. Quase parece que a impossibilidade de expressão última da linguagem, tão cara a alguns poemas de Eduardo Pitta, é, afinal de contas, algumas vezes, apenas uma incapacidade da linguagem do poeta. Por outro lado, mesmo quando o domínio estilístico do poeta surge em melhor forma, os versos esbarram em enunciações inconsequentes ou postiças: “Deixara em Edinburgh três irmãs,/ solteironas todas, e todas, como ela, enfermeiras/ no front norte-africano, sob Montgomery./ Retornava a York, aigrette na capeline/ e um fundado desprezo pelo nosso Observer.” (p. 105).

Relativamente à possibilidade de leitura sequencial deste “Desobediência” – que atrás se procurou sintetizar na ideia de ritmo –, há que concluir que a execução final deixa o seu propósito absolutamente desamparado e, logo, de duas formas diferentes: por um lado, cada parte destes poemas escolhidos, a que anteriormente correspondia um livro, não sobrevive intacta aos cortes, perdendo por completo a sua unidade; por outro lado, este sacrifício é absolutamente inglório porque, no cômputo geral, não é feito em favor de uma possibilidade de leitura unitária de “Desobediência”, sequência ou demasiado lacunar ou, então, demasiado sujeita a sobressaltos no seu ritmo. Quando Eduardo Pitta declara como definitiva a fixação destes poemas e da sua sequência, não pode, depois, excluir-se da responsabilidade que isso acarreta e esta não era outra que construir, verdadeiramente, uma possibilidade de leitura para esta sua obra e não apenas limitar-se a juntar uns poemas e tirar outros.

Uma última referência deve deter-se sobre uma opção de inclusão nesta obra que, apesar de não ser inédita, nem por isso se justifica melhor. A parte final de “Desobediência”, a que Eduardo Pitta dá o nome de “Marginália crítica seleccionada” (pp. 201 e ss.), é composta por excertos de críticas ou recensões a livros deste autor, quase sempre num sentido elogioso. Não seria de estranhar tal inclusão caso este livro fosse responsabilidade de outra pessoa que não o próprio poeta e, com tal, pretendesse, de certa forma, legitimar o seu trabalho. Não seria também de estranhar que esta sequência de textos surgisse num blogue ou num sítio do autor, como aliás acontece (consulte-se o sítio: www.eduardopitta.com). Não sendo este o caso, qualquer das interpretações possíveis para esta decisão pouco abonam a favor do poeta: ou Eduardo Pitta acha que tem legitimidade para exercer sobre a crítica que a ele se dirigiu a mesma selecção que exerceu sobre os seus poemas; ou trata-se de um mero exercício auto-congratulatório pouco compreensível em alguém que exerce, ao mesmo tempo, actividade enquanto crítico literário.

Fica-se, por tudo o que se disse, com uma convicção: a próxima edição de “Desobediência” muito provavelmente não acrescentará à sua marginália crítica seleccionada este texto que agora acaba.

Nota: duas estrelas e meia.

Quinta-feira, Abril 21, 2011



You want me?
Fucking well come and find me
I'll be waiting
With a gun and a pack of sandwiches
And nothing
Nothing

À espera

Também eu continuo à espera, Ferlinghetti. À espera da libertação instantânea que só uma mulher nos pode dar (libertarmo-nos é moroso e incompetente e tão aborrecido e ineficaz). Continuo à espera de quem me ame ininterruptamente, como se fosse cem irmãs, numa açoteia onde seja sempre Verão, sobre uma cidade de poesia árabe, erigida ao redor da minha flauta, para cantar as doçuras da carne. Ansiosa e exasperantemente à espera da transição pacífica para a inebriante República das Línguas, das línguas nas línguas nas línguas, numa roda sã, quase infantil. Continuo à espera de não temer nem desejar a morte, de aceitar a sua chegada como aceito que há campos de flores tão extensos que o olhar não lhes alcança o fim. Continuo à espera de um burro que seja o limite de velocidade de tudo e de um mar que administre sozinho a sua própria gravadora de discos. À espera de um pão ázimo de geração espontânea sobre o qual, às vezes, cairão flores de ameixoeira. Continuo à espera de um céu riscado apenas pelo reflexo do sol nos olhos dos velhos que não hesitarão em olhá-lo de frente, num comprazimento de jogo de damas. Continuo, sim, mas até quando?, à espera de não ter de esperar mais.

- Miguel Martins
(retirado daqui)

O verdadeiro charme

Memória de Jean Cocteau

O amor está tão perto de ser ódio.
Não dispenso a cratera dos boémios,
onde se encontram místicos e génios
___ unidos ao distúrbio.

O ódio está tão perto do amor.
Não dispenso a cratera d'homens santos,
onde se encontram bons boémios bentos
___ bem unidos à dor.

Os extremos não se tocam: fundem-
-se até se tornarem num só traço,
muito cingido, em truculento abraço
___ d'infinita vertigem.

Dificuldade de ser: não mentir,
não escrever mais poemas, não falar;
apenas, ao de leve, expirar
___ e morrer a sorrir.

- António Barahona
in O som do sôpro, Poesia Incompleta

Quarta-feira, Abril 20, 2011

Amanhã, no Bartleby

Lançamento de UM ESTRANHO NO MEU TÚMULO (Averno 036), romance policial de Margaret Millar, traduzido por Inês Dias,
ao qual se seguirá uma prova informal de bourbon Woodford e de scotch The Balvenie 12 anos «Signature».


Cais do Sodré, a desoras

Espera-se a alba e o verde do semáforo.
Ordinário, o taxista identifica
em voz alta duas velhas raparigas,
corpos cansados mas em forma
de pergunta. Há gente que se questiona
como consegue sobreviver a tanto azar.
Costuma encontrar-se gente dessa
em paragens de autocarro,
à medida que vagueia entre mundos
irreais, lugares extremamente verdadeiros
onde o que conta é a sinceridade.
A moral, quando muito, vem depois.


- Vítor Nogueira
in Bagagem de mão, & etc

Terça-feira, Abril 19, 2011

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Constantino

Cinco horas, às cinco da tarde
uma sede imensa de sombra, de pôr a boca,
baixá-la e vir beber em mãos de pedra
remordida, aqui, neste jardim que se vai safando
à vulgar retórica de mármore. Sem elevação
sobre o rio ou sobre a história,
fica mais virado para o esquecimento.
Na cartada, a sua turma de velhos meninos,
erguendo os castelos que defendem
estas tardes. A brisa, acanalhada,
num murmúrio de lata, comovente assobio
de ferrugem inventando lábios
para tudo. Faz o seu caminho,

chega a querer como eu esses caracóis azuis-
-negros, cabelo descido até à loucura suave
do ombro para onde agora
inclina a cabeça. Curioso como
uma boca triste sublinha na perfeição
uns olhos tão vivos. Fala muito,
está na idade, aquela que há pouco deixou
de nos querer, com a voz trémula
de auroras, temperada
por uns acentos de sal marinho.
E tem graça como mesmo ardida pelo gosto
nocturno desta cidade, ainda se deixa
apanhar numa pronúncia
que veio de fora, coisa p’ra doce e
delicado tropeço.

Tem as pontas dos dedos levemente
queimadas de virar a lua, traça em saliva
órbitas de breve mágoa.
Blusa cor-de-ameixa, a saia,
num papel de chocolate, luzindo de
migalhas. Em redor

os miúdos fazem praça, toureiam
os pombos – confundimo-los nessa alegria
retardada. Jardim Constantino,
famoso pela canção da sua fonte que hoje
leva arranjo de clarinete, suave revoluteio
levando o ouvido. E como nos perde, nos
serena o olhar, deixa-nos em jogo,
a adivinhar a letra, ou
meras sílabas, incandescências.

Entre as mesmas seis notas
de um piano, mais tarde, alguém nos levará
mais longe. Um corpo trepando
a si mesmo como a uma
árvore carregada de gritos, em flor, fruto.
A troca da cerveja pelo vinho, de uma mirada
por um olhar que treme de tão nu,
e aí já reclamamos sinais,
algo que fique para contar
uma estória a nosso respeito, dar algum
descanso à solidão.

Mas depois de certa hora, bem para lá
das dez, já nenhum dos nossos gestos se explica.
O coração estala-nos do lado errado
do peito e a derrota parece ao mesmo tempo
mais desafiante e mais doce.
Mal corrigidos versos, um pasto de ruínas,
deixo-os, simples, como se perdesse
a vontade. A meio ou
na margem, e a entretê-los,
desenho, copio
de memória um pássaro. Só lhe fico
com a sombra. Não faz mal.
Amanhã há-de lá estar esse pássaro
ou outro, a miúda talvez,
eu, com toda a certeza.

Paisagem voando para o orgasmo

Trens sonolentos resfolegam
na gare do escuro rostos antigos se alumbram
e nos sorriem discreta-
mente a razão se estilhaça os sentidos
se destapam os cheiros se condensam os sabores
se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento
nos penteia e espalha
por coloridas areias os dias nos dividem
os horários nos limitam a memória escasseia o mar
devolve ondas vazias
em que já fomos levados
nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro
nos sedimenta em nosso desvario
e ensina um corpo à solidão
o outro ampara a nossa queda beija
nossos pudores e a boca
sempre entupida de espanto o canto explode
o gato canta a cama range o ar se fende o riso
nos comunica o gosto diferente
desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas
de nossa servidão coitidiana.

- Leonardo Fróes
(encontrado aqui)

Segunda-feira, Abril 18, 2011

How to make it in America (1ª temporada)



8/10

Metafísica e biscoito

no meio dos latidos da noite
quando o silêncio atinge a qualidade
dos latidos da morte e as folhas caem
impressionavelmente sangradas;
no meio frio de um colchão inquieto
com os olhos pensativos resvalando no teto
e as mãos descendo pelo corpo
como a buscar sua realidade longínqua
quando os morcegos da melancolia
atravessam sem bater entre as árvores
e alguma coisa enraizada confusa
parece brotar de novo entre as pernas;
nesse espaço fundamental reduzido
onde as idéias se sucedem largadas
numa associação intempestiva
que é impossível deter ou compreender;
no cerco sem limite de um quarto
que roda em vários mundos e alterna
com a sensação de não haver nada disso
que dá contorno e forma à própria insônia —
— o homem dá um salto e se puxa
para fora do pântano
e devora um biscoito
e bebe um copo d'água e acende
um cigarro e mais outro.

- Leonardo Fróes
(encontrado aqui)

Domingo, Abril 17, 2011

Source Code (2011)


8/10

Sábado, Abril 16, 2011

-
Desde o mato sufocante que me cerca,
vejo-o brilhar, alto, grave.
Arde imóvel sobre o seu próprio cimo:
choupo de luz, coluna de música,
jacto de silêncio.

Vendo-o lá em cima, o meu orgulho
acende feixes de palavras,
fragmentos de realidades,
realidades em fragmentos.
Folhagem morta, chama feita fumo!
E os juízos do meio da noite,
as risadinhas em fila indiana,
precipitam-se, gatos insidiosos,
sobre o meu fracasso.
As frases feitas piscam-me o olho,
a sabedoria excomunga-me,
os rifoneiros puxam-me pela manga.
Arrisco o chapéu, cruzo o manto, e vou-me.
Mas não adianto. E enquanto marco passo,
lá longe, sobre a rocha, ele arde,
inaudito.

Sei que não basta queimar
o que em nós se queimou.
Sei que não basta dar,
que é preciso darmo-nos.
E que é preciso receber.
Não basta ser planalto mondado,
o osso polido, o seixo.
Para o canto, não basta a língua.
Há que ser orelha,
a concha humana sobre a qual
João grava os seus desvelos,
Maria os seus vaticínios,
Isabel seus gemidos,
Joaquim o seu riso.
O que em nós aspira ao ser,
não é, não será nunca.
Ali onde se extingue a minha voz,
onde a tua começa, nasce o canto,
nem solidão, nem companhia.

Mas quando o tempo se desliga do tempo
e se transforma em boca,
grandes molares negros
e garganta sem fundo,
queda animal num estômago
animal sempre vazio,
engano com canções selvagens a sua fome.
Face ao céu, equipado para o nada,
canto o canto do tempo.
No dia seguinte, nada me fica
destes gargarejos.
E digo-me: a hora não é de canções,
mas de balbuceios.
Deixa-me contar as minhas palavras,
uma a uma.
Arrancadas à insónia e à cegueira,
à cólera e ao nojo
- são tudo o que possuo,
tudo o que possuímos.

Ainda não é tempo. O Tempo, não veio.
É ainda a desora, ainda é muito tarde,
pensamento sem corpo, corpo bruto.
E marco o passo, o passo.
Mas tu, hino livre do homem livre,
tu, dura pirâmide de lágrimas,
chama lapidada nos píncaros da insónia,
brilha no mais alto da cólera e canta,
canta-me, canta-nos:
pinheiro de música, coluna de luz,
choupo de fogo, jorro de água.
Água, água enfim,
palavra do homem para o homem!

- Octavio Paz
(tradução de Mário Cesariny)
in «Livro IV de Libertad bajo palavra»

Sexta-feira, Abril 15, 2011

Responsabilidade penal

Sete Rios

para a Marília


Domingo à tarde no Jardim Zoológico,
mais até pelos miúdos. Entretidos
uns com os outros, enquanto a vida finge,
como sempre, à nossa volta. Vista assim,
atravessando-nos à frente, a imortalidade
até parece um volume ao nosso alcance,
daqueles que vão saindo por fascículos.

No reinado de D. Carlos instalou-se por aqui
este jardim politicamente correcto.

Já não vinha longe o regicídio. E de facto
deste lado a monarquia, o leão, o rei sem selva;
daquele lado uma república de bananas
e macacos enjaulados. Eles e nós,
olhos nos olhos, como que esquecendo
a morte, afinal a democracia mais antiga,
sabiamente aprofundada até aos ossos.

- Vítor Nogueira
in Bagagem de mão, & etc

-
guardas a chuva
na concha da mão,

colo de águas
daninhas

onde bebo
a nostalgia das marés.


*


um seixo em cada mão e o mar
às costas. a tua ausência será

um calendário de pedras.


*


ler o teu rosto

é abrir um livro ao acaso
numa aflição.

- Renata Correia Botelho
in Um circo no nevoeiro, Averno

Quinta-feira, Abril 14, 2011

Reverso

Eu sei que me vais encontrar, morte,
em cada senda de atormentadas almas,
em cada falésia onde contive o suicídio e as
lágrimas,
eu sei que em cada recanto, em cada ferida
aberta e luminosa,
há um labirinto sem fim,
um jogo de nocturnas deambulações, uma
embriaguez ao acaso de tudo o que nasce e
nascendo
começa a perder-se, devastando as páginas
com os seus insectos negros,
as suas letras que se unem sempre aquém do
pensamento,
tal como outrora se uniam os amantes em seu
jardim.

- José Agostinho Baptista
in Agora e na hora da nossa morte, Assírio & Alvim

Terça-feira, Abril 12, 2011

Olha Inês...

http://3.bp.blogspot.com/-Hmn03m0mGzA/TaTI7vraTgI/AAAAAAAAG6s/ZJy-I5_FUJs/s1600/mildred-pierce-poster.jpg

aqui está mais uma para a tua lista.

HOMENS SEM MULHERES

Durante meses ou anos (ou,
em todo o caso, um múltiplo
de semanas) trazia debaixo
do braço, com os livros da lei,
Men Without Women,
de Ernest Hemingway.
Hábito exterior de mostrar
leituras ou de passear,
como legendas, frases sintéticas
e duras, não o tolerava
nos outros, mas só em mim,
na minha edição velha
e laranja da Penguin.
Eu não queria que o livro
terminasse, e o plural
do título era um disfarce.

- Pedro Mexia
in Menos Por Menos, Dom Quixote

Babel

Homens e viaturas em direcções diversas.
Para onde vai, quer-se dizer, toda a gente?
Espiral que no limite só terá uma saída,
a vala comum em que não quero pensar
agora. É domingo na esplanada da Suíça,
uma cegueira branca de pálpebras e sol.

O coração de Babel fica a nordeste da praça,
o grande harmónio crioulo que se contrai
e dilata. Sinhóra (a caixa traz pensos-rápidos,
a outra mão vem estendida, em linguagem
universal). Sorry, dear. No tengo monedas. Feridas
que cicatrizam no momento em que se abrem.

De súbito, um improvável grupo de zés-pereiras.
Não há, convenhamos, elegia que consiga resistir
a tantos bombos. Albo lapillo diem notare.
Marcar de novo certos dias com uma pedra
branca, os mais nefastos com uma pedra negra.
Calçada tristalegre de Lisbuna.

- Vítor Nogueira
in Mar Largo, & etc

Segunda-feira, Abril 11, 2011

MC Trocas-te in da House

http://2.bp.blogspot.com/-aUu5JQwBmvM/TaJQmiLXR0I/AAAAAAAAG6k/8O_-NmEn_DQ/s1600/ef4d68daa4ebae9aa76311d67a59a86c-d2zng3r.jpg

-
Rebentados vasos, a brisa baloiçando-se
nas flores, sacode-lhes as cinzas, e,
de um salto, revela-se a cor e esse perfume
que entorna a boca da memória.
Olhos escuros, estes teus, indo como se
crescessem ainda sobre distâncias
de cegueira. Árvores sem vida, os galhos
suportados por pássaros doentes e a luz
cortada nesses caminhos em que
sentimos a curvatura da terra,
o seu gemido entre tantos instrumentos
de sopro e os trabalhos da chuva,
devagarinho, abrindo esse umbigo
de barro e empurrando alimentos.

Vai ficando tarde,
os candeeiros derramam nas ruas
uma luz engelhada, nestes bairros
onde perduram ainda alguns
dessa geração das varandas, indiferentemente
elevados sobre um tempo que nunca
lhes disse grande coisa. Sangue antigo
que o coração já só coça, e de que aos poucos
se enjoa, mas bate ainda, mais por hábito
que por gosto.

Debaixo das estrelas, da sua adorável dispersão,
estas demoras quiméricas, mais sombra já
que corpo, trocos com que a alma
se desfaz em soluços entre morosos vinhos
e canções sem vergonha, só doçura.
Aí estão, caídos e dispersos, como se os deuses
houvessem virado os bolsos e pago
outra noite à dor.

O copo deixa-te um reflexo perturbado
no fundo, os dedos que o envolvem longos
como presságios, essas mãos como animais
dos que fizeram companhia à loucura,
deixados por fim ao abandono. Esfomeados,
perdidos.

A sumária inscrição de néones, o assobio
nesse ânimo compositor e cada um
dos teus passos a que os grilos
vão deixando reticências. Fazes assim
esse eixo entre a espera magoada
dos antigos cafés e os bares que
esquinam com as simples idades do desejo.

Tudo o que já quiseste, tudo o que
quererás alguma vez. Um traço
de mel no sangue, ter um verso onde ameigar
a tarde, e acabar os dias de roupão, atrás
desse comboio de corda. Passar mais tempo
à varanda, regar umas flores, vigiar a rua
enquanto pensas mais e mais na morte.
Sem entender a diferença.

Domingo, Abril 10, 2011

a máquina de enganar espanhóis

el autor más importante que ha dado la literatura portuguesa en la última década

Vidas Vividas

a Bartímeo, cego

Perceber pode não servir, neste excessivo azul-luz,
no sol que continua a esburacar Fevereiro (olhos
sem olhar postos em negras andorinhas de Maio), coisas
por dizer que são caladas: um exausto meio-dia
num cenário de carnaval incerteza (está cheio
de beleza o vazio que no fundo da nossa procura
reaparece sempre) inundado pelo sol de uma graça
animal e mulher. Fico é aqui com os meus bibelôs.

As preces esperaram pelas palavras. A camisola
de lã suada, arrepios de febre, colada às costas.
E edificámos contentamentos por instinto
de conservação, o gesto e o saber viver. Morrer.
Depois reencontrarmo-nos por cima das coisas
perdidas quando os ventos não cessam, motes e esperas, no coração
da noite, um só é o vento quando nos pomos à escuta...
as cãibras, as insónias com geometrias de sombras
e luzes, mas também isto, acreditar por instinto de conservação,
também isto é
sublime e quotidiano.

- Gabriel del Sarto
(encontrado aqui)

Sábado, Abril 09, 2011

Mundo feérico

Quinta-feira, Abril 07, 2011

O ponto de situação

Almanaque Lobisomem



Vídeo promocional

Ora aí está uma proposta literária arrojada, um gesto de uma desmesura e alcance que impressiona, agride, agita e entusiasma. Não vale a pena tentar explicar o monstro. É coisa de um gajo se encher de coragem, apagar as luzes e abraçar-se a ele debaixo da cama.

Aqui fica o link para fazer o download desta edição já de Maio do ano passado.

Pós-apocalípticos

Heróis pós-apocalípticos sairão das chamas
renascerão das cinzas do ontem inextinguível.
Ao som de bossa-nova, rock ou blues
dirão do sonho impossível?
Virão nos recordar, não somos androides
nem escravos, e a Terra é um planeta azul.

No caldo cultural afogados, se instauraram
outras ditaduras. Sedutoras, insidiosas nos cegaram.
Tateamos: ao som de M.P.B., rock ou blues
nostalgia do não vivido? Seremos libertos
aponta o guro: no cinza crasso o Cruzeiro do Sul.

Meus super-heróis, meus poetas, meus profetas
utopias românticas, gritos de protesto, canções de liberdade.
Explorar lateralidades, de cada mil facetas
não sobrepuja a História não impede a verticalidade.
Viriam em naves de fogo, sementes vibrando metálica luz?
Ao som de bossa-nova, rock e blues.

- Adriana Montenegro
in
Roteiro da Poesia Brasileira anos 2000, global

Quarta-feira, Abril 06, 2011

Pausa

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


- Antonia Pozzi
(tradução de Inês Dias)

Terça-feira, Abril 05, 2011

Poética

Todos temos um amigo morto
e um amor que se foi, ao amanhecer,
e nos deixou a luz feita em pedaços.

Um pai e uma mãe que se esgotam,
uma foto em Lisboa, um cão tonto,
dois ou três livros, quatro ou cinco quadros.

Todos temos uma rua escura,
uma avenida que nos reconhece,
uma árvore velha e um antigo pátio.

E a certeza de que tanto é nada,
a desgraça de ser o que perdemos,
a sorte de viver para contá-lo.


- Ángel Mendoza
(tradução de Inês Dias)
in Cercanías, 2002

Solidão

Nunca sei o que as pessoas pretendem ao queixar-se da solidão.
Estar só é um dos maiores prazeres da vida, é pensar os seus próprios pensamentos,
é fazer as suas pequenas tarefas, ver o mundo além
e sentir-se completo numa enraizada ligação
com o centro de todas as coisas.

- D.H. Lawrence
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
in Os animais evangélicos e outros poemas, Relógio D'Água

Democracia

Sou um democrata até ao ponto de amar o sol livre nos homens
e um aristocrata até ao ponto de odiar as pessoas néscias e possessivas.

Amo o sol em qualquer homem
quando o vejo na sua fronte
límpido e sem temor, mesmo que seja pequeno.

Mas quando vejo aqueles homens cinzentos e bem sucedidos
tão hediondos e semelhantes a cadáveres, totalmente sem sol,
como escravos gordos e bem sucedidos, meneando-se mecanicamente,
então sou mais que radical e quero servir-me da guilhotina.

E quando vejo os homens que trabalham
pálidos e miseráveis como insectos, apressados
e vivendo como piolhos, com pouco dinheiro
e sem nunca prosperar,
então desejo, como Tibério, que a multidão tivesse apenas uma cabeça
para que eu a pudesse decepar.

Sinto que as pessoas para quem o sol não existe
não deviam viver.

- D.H. Lawrence
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
in Os animais evangélicos e outros poemas, Relógio D'Água

Segunda-feira, Abril 04, 2011

LEGENDA PARA UMA FOTOGRAFIA
DO AUTOR COM HERNÂNI TAVEIRA
NO JARDIM CONSTANTINO
EM 1959

Passaram alguns anos:
uns suicidaram-se outros não têm o braço esquerdo
as mil e uma noites surrealistas
já foram escritas
hoje uma elegia amanhã o amor louco
para o ano uma viagem religiosa
ao lugar do crime

éramos nós
tu o amigo dos óculos chineses
do gato voador no vidro
dos cavalos azuis a emergir dum espelho
eu de semblante vítreo taciturno
olhando a morte que te escolheu primeiro

1970
- António Barahona
in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta

Domingo, Abril 03, 2011

«Not likely to be there, if still alive»

Primeiro quarto em Lisboa
onde vivi oito meses: da janela
sobre o beco via o tráfego nocturno
entre muros com recados e desenhos
obscenos, sob o castigo da música
de um bar entretanto extinto.
O lugar era assombrado

pelo cheiro da doença
e o velho senhor da casa, sentado
junto ao retrato do que fora
aos vinte anos, guardava a sua
distância: lacónico, preocupado,
quase não saía à rua, as tardes
passava-as de chinelos

e roupão. Mas era um homem
cortês, e no meu último dia
deu-me um livro do Eugénio
que mantinha à cabeceira, esquecido
por outro hóspede "dado às letras"
como eu. Penso muitas vezes nele
e naqueles que lá moravam

em plenos anos noventa, gente
que eu só encontrava a desoras,
na cozinha, à volta do frigorífico
de serventia comum. Era no tempo
dos versos que levavam a outras
praças — chegava tarde do Bairro,
o torpor entre as paredes

incitava à procura das palavras
de um poema que me ajudasse
a mudar. E quando me lembro disso
penso no muito que quis encontrar
uma saída, e nas portas que fechei
e nas esperanças que traí desde então
na minha vida.


- Rui Pires Cabral
in Oráculos de Cabeceira, Averno

Memória de Laura

Cresceu a guardar cabras em Trás-os-Montes.
Quando a conheci, num bar de putas,
vestia um vestido branco, às riscas
vermelhas, e os seus olhos eram verdes.

Havia luz no seu sorriso terno,
tanta candura que surpreendia
encontrar tal mulher em harmonia,
toda no paraíso em pleno inferno.

Analfabeta, não sabia menos:
a mim me ensinou tudo; e a ler também
o som do coração, mais do que mãe,
puta, minha senhora, pés pequenos.

18.XI.09
- António Barahona
in O Som do Sôpro, Poesia Incompleta

Sábado, Abril 02, 2011

Desgraçadinhos

Felizes da vida

"Num momento em que o espaço mediático está todo ocupado por crises económicas, crises políticas e números negativos, é bom verificar que há pelo menos um ramo de actividade em Portugal que cresce: o dos festivais literários. Já existiam dois muito importantes: o Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, em Fevereiro; e o Literatura em Viagem, em Matosinhos, no mês de Maio. Este ano passa a haver este Festival Literário da Madeira, em Abril; e o FLIS (Festa Literária Internacional de Sintra), em Novembro, uma espécie de franchising da Festa Literária Internacional de Paraty. É um aumento de 100%. Conhecem algum sector da economia portuguesa com um crescimento semelhante? Eu também não. No campo literário, não há agências de notação a quererem transformar-nos em lixo, nem raspanetes de uma qualquer alemã que só quer controlar os nossos défices.
Enquanto os economistas ponderam uma “ajuda” (entre muitas aspas) do FMI, que nada garante não venha a ser um flop; nós vamos ao Brasil buscar o conceito da FLIP. O Medina Carreira pode achar que lá para o fim do ano devemos atirar-nos todos ao mar, no maior suicídio colectivo da História, porque o país já não existe, e o Vasco Pulido Valente bem pode considerar que esse gesto é redundante, porque 1) Medina Carreira no fundo não passa de um optimista que está cinco séculos atrasado no seu diagnóstico, e 2) é impossível acabar com o que nunca existiu (ou seja, nós, os portugueses). As Cassandras continuarão a abrir diariamente a vala comum onde supostamente acabará o nosso futuro, mas nós (os leitores, escritores, editores) estaremos em Novembro na FLIS, felizes da vida, como estamos aqui hoje e amanhã, na Madeira, não menos felizes da vida, a falar de temas muito mais interessantes do que os juros da dívida soberana a cinco e a dez anos (que na verdade ameaçam ser juros a 50 ou a 100 anos)."


- José Mário Silva

coordenador da secção de Livros do suplemento Actual (semanário Expresso)

Meio Dia

O sol aqui não brinca – furioso sol, omnipotente,
com suas sobrancelhas unidas, seu queixo quadrado,
com seu tronco peludo nu até ao mar.

Um mês, dois meses, muitos meses –
contámo-los carregando ao ombro a pedra e o medo,
dando estalos com o nó dos dedos no bojo do cântaro
para escutar o som da água
como escutamos por detrás da porta a voz da mulher
como escuta a mulher a voz até da mais pequenina estrela
como escuta a estrela o balido do entardecer.

O meio dia é sempre muito grande
como um Domingo no campo sem crianças
– de manhã à noite dura o meio dia.

Se tivéssemos menos sede não pensaríamos nisso,
se houvesse uma árvore numa encosta ou no cume da ilha,
se houvesse um punhado de sombra, menos amargor, menos injustiça.

Não recordamos a forma da árvore – será acaso
como uma grande bandeira de água?
será como um obrigado que alguma vez te disseram?
será como uma mão querida que encontra a tua mão?

Depois de amanhã plantaremos milhares de árvores.

- Giánnis Ritsos
(tradução de Custódio Magueijo)
in Antologia, Fora do Texto

Sexta-feira, Abril 01, 2011

Uma palavra

Depois de esgotar tudo à sua volta e dentro de si,
e quando estava como que a naufragar, – então lembrava-se de pronunciar
uma única palavra: estátua (e, naturalmente, pensava
em estátua grega, nua). E logo à sua volta
se abriam nomes-ilhas; um joelho brilhava
frente ao mar; a aljava do pequeno arqueiro
distinguia-se enterrada num montículo de areia fina.
Vestia-se, saía para a Ágora. "Bom dia", dizia.
Talhos, olarias, frutarias. Comprava uvas,
libertando aquele profundo, sereno e inesgotável
gesto dum braço de mármore amputado.

- Giánnis Ritsos
(tradução de Custódio Magueijo)
in Antologia, Fora do Texto

Contradições habituais

As palavras – disse – as palavras silenciosas, nossa única companhia;
procuramo-las, prolongamo-las, prolongam-nos – a paisagem aprofunda-se;
descobres não só os ossos, mas também belos corpos, e asas –
veste-las, elas vestem-te; volatilizas-te; partes.
Encontram-nos atrás das portas,
atrás de paredes altas, bolorentas. Tu sabe-lo –
este é o único meio de comunicação. O tabique de madeira
a separar os quartos transforma-se em vidro. Vês as palavras
cair sobre a mesa nua da cave com um ruído cavo
juntamente com os insectos da noite à volta da lâmpada clandestina.

- Giánnis Ritsos
(tradução de Custódio Magueijo)
in Antologia, Fora do Texto

Um crime constante*

Os judeus foram responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Morreram por isso. Os judeus roubavam hóstias consagradas para reencenar nelas a morte de Jesus Cristo. Morreram por isso. Os judeus utilizaram sangue de crianças em rituais demoníacos, os judeus envenenaram poços, os judeus espalharam a peste negra, o capitalismo, o bolchevismo. Morreram por tudo isso. Não é preciso ler mais que as primeiras cem páginas da “História do Anti-Semitismo” (Edições 70, 2010) para perceber que muito antes dos primeiros centímetros cúbicos de gás terem atravessado as canalizações de Treblinka, muito antes de Paul Celan ter escrito sobre essa morte que foi um mestre aus Deutchland, já o “ódio que visa os judeus só por serem judeus” (p. 15) tinha cumprido uma longa e infame história. Aliás, os próprios judeus participaram do fenómeno ao construírem e teorizarem o ódio auto-referente, ao qual o filósofo alemão Theodor Lessing (1872-1933) se referiu num livro, editado em 1930, “O ódio judaico de si próprio” (Der jüdische Selbsthass), que está na origem da categoria do “self-hating jew”.

“História do Anti-Semitismo” é o livro mais recente da cada vez mais louvável colecção Lugar da História, das Edições 70 – a juntar à “História dos Judeus Portugueses”, de Carsten L. Wilke, publicado em 2009 –, que traduz para português a obra colectiva “Jødehat: Antisemittismen historie fra antikken til i dag”. Assinada por três historiadores noruegueses – Trond Berg Eriksen, Håkon Harket e Einhart Lorenz – é composta por trinta e cinco textos, em forma de ensaio curto, apresentados numa sequência mais ou menos cronológica que procura descrever alguns dos episódios centrais da história do ódio para com os judeus.

Nesta perspectiva, uma das críticas que pode, desde logo, ser apontada a esta obra é o parco desenvolvimento dado ao período que vai desde a Antiguidade ao século XVIII, que cabe em pouco mais de duzentas páginas, contra as mais de 400 páginas dedicadas aos últimos três séculos. Contudo, tal disparidade seria facilmente esquecida se a informação fornecida nessas duas centenas de páginas ultrapassasse, em densidade e em profundidade, uma consulta às várias páginas disponíveis na wikipédia sobre o tema. Seria útil, também, que a sequência dos primeiros ensaios, para além da simples cronologia, investisse em dar ao leitor chaves de compreensão histórica do tema, a qual, infelizmente, aqui é dificultada pelos saltos temporais, espaciais e, até, temáticos do narrador que, muitas vezes, pouco ajudam à leitura. Para dar um exemplo, as importantes disputas medievais entre os teólogos judaicos e os teólogos cristãos, modelos proverbiais do anti-judaísmo de motivação religiosa, na sua génese histórica, não merecem mais que dois parágrafos centrados no episódio de Paris, em 1240, não se descortinando qualquer referência às disputas de Barcelona (1263; de longe a mais importante de todas, convocada pelo Rei Jaime I de Aragão, na qual se destacaram Raimundo de Peñafor e o teólogo judeu Nahmanides) e à de Tortosa (1413-1414).

No sentido oposto, a tendência desproporcionada para focalizar e desenvolver o conceito de anti-semitismo no período que vai da Kristalnacht à Solução Final, que ocupa grande parte dos estudos históricos dedicados a este tema, é aqui habilmente moderada pelos três historiadores sem que, com isso, tenham corrido o risco de confundir o “ assassínio de seis milhões de judeus” (pp. 497 e ss.) como apenas um episódio entre muitos, diluindo na história a singularidade do genocídio hitleriano.

O que é o anti-semitismo? O ódio aos judeus por serem judeus. A definição convocada pelos três autores no prefácio à obra é simples, mas perfeitamente operacional para um trabalho desta envergadura. Talvez fosse excessivo e, em certa medida, descabido exigir a uma obra que se propõe narrar e interpretar “a história do ódio europeu aos judeus (...), uma narrativa sombria das nossas relações históricas com o «outro»” (p. 19) o aperfeiçoamento de um conceito de anti-semitismo com horizontes mais restritos. Quanto à vertente narrativa, esta “História do Anti-Semitismo” é um trabalho importante, com uma prosa pouco floreada e verdadeiramente eficaz – num estilo conciso próprio da historiografia anglo-saxónica –, e com uma cadência de leitura que nunca é prejudicada pelas várias mãos que tocam no texto. Merece especial destaque o texto de Håkon Harket intitulado “Dinamarca e Noruega: a chegada dos Judeus ao Reino” (pp. 215 e ss.), um estudo sobre o impacto do anti-semitismo no espaço geográfico dos autores. Refira-se, não obstante, que mesmo assim esta obra fica um pouco aquém, por exemplo, de uma das obras de referência nesta temática, a “História do Anti-Semitismo” de Léon Poliakov, da qual é possível encontrar, traduzido para português, o volume respeitante aos anos 1945-1993 (Instituto Piaget, 1997).

Diferentemente, na vertente interpretativa, isto é, na análise das causas e efeitos – principalmente dos efeitos culturais e políticos – do anti-semitismo, a “História do Anti-Semitismo” fica algo aquém da expectativa despertada no prefácio, relativamente à interpretação desse mundo sombrio das relações históricas com o «outro». A este propósito, é útil chamar atenção para algumas passagens do “Tratado Teológico-Político” de Espinosa, que Trond Berg Eriksen apenas refere de passagem, nas quais o filósofo caracteriza o ódio relativamente aos judeus como factor de unificação e, curiosamente, de identidade da própria comunidade judaica na sua afirmação identitária. A história do anti-semitismo é, também, uma história da alteridade, uma história da inimizade. E a inimizade tem efeitos políticos fortíssimos que o discurso contemporâneo, artificialmente neutralizado nessa dimensão, raramente se atreve a reconhecer.

Na altura de explicar o papel da perseguição aos judeus, da aposição a estes da tenebrosa figura do “judeu errante”, nenhum dos autores desta obra chega o suficientemente longe: o anti-semitismo não compôs apenas um retrato demonizado do judeu que até a nossa linguagem corrente, sabe-se lá vindo de onde, preserva – basta pensarmos no significado do verbo judiar. O anti-semitismo compôs também a identidade dos próprios judeus e, por mais estranho que isso pareça, compôs a identidade do ocidente não-judaico naquilo que, na oposição aos judeus, este projectava de si próprio. Com efeito, paradoxalmente, foi um “ódio a si próprio”, ao conceito de Humanismo e à raiz judaico-cristã do pensamento ocidental, que presidiu ao objectivo de extermínio sistemático da Judiaria europeia pelo III Reich.
4 estrelas *Texto publicado no Ípsilon de 1 de Abril

O cigarro mais pesado do mundo




REVOLUTIONARY ROAD

Chega a noite com os seus pequenos
golpes e revoluções esmagadas,
todos os teus planos voltando para ti
um olhar subitamente frágil e ridículo.
Continhas esse suspiro ferido enquanto
os minutos arrastavam a vida até esta
não fazer mais sentido nenhum.
E seguravas entre os dedos
o cigarro mais pesado do mundo.
Na tua última noite entre os vivos.

Enumeração

As pessoas demoram-se pouco na rua; olham.
Os números sobre as portas não significam nada.
O carpinteiro prega uma mesa estreita e comprida.
No poste telegráfico colam uma lista de nomes.
Um pedaço de jornal ficou preso nos espinhos: zumbe.
Sob as folhas das videiras estão as aranhas.
Uma mulher saiu de uma casa e entrou noutra.
A parede amarela, de fresco, com reboco caído.
Uma gaiola com um canário na janela do morto.

- Giánnis Ritsos
(tradução de Custódio Magueijo)
in Antologia, Fora do Texto