Arte poética
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011
António Ramos Rosa
Domingo, Fevereiro 27, 2011
Morreu o pintor Renato Barreira
Renato [José Renato Barreira Dias Ribeiro] nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1949. Foi pintor e escultor. Estudou desenho e escultura no atelier dos escultores Vasco Pereira da Conceição e Maria Barreira.
António Ramos Rosa
Contra a poesia pura
Basta de estrelas
e de nuvens
e de pássaros
Falemos antes de gaiolas
que é tempo de conquistar o céu
Democracia
Punhos de redes embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuando de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão.
- Jorge de Lima
in Melhores Poemas, Global Editora
A torre
O meu avô materno, que teve dez filhos,
fez, para os domar, uma grande torre na horta.
Meio curral de camponês sem fechadura na porta
e meio parque de senhores com evónimos e grilos.
No meu tempo o jardim já era velho. Acolhia,
com uma confiada paciência de cão,
com saudades dos tios que já não brincavam,
todos os primos da segunda dinastia.
A casa era muito doce. Como um marmelo maduro,
com ninhos na sacada e gatos no telhado.
Cada Inverno apodrecia, bem fechada a sete chaves.
Agora que já sou grande, e sério, e duro,
revejo uns baloiços, um poço, uma estufa,
desenhados todos num azul decorado de milagre.
- Màrius Torres
(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas)
in A cidade longínqua, Ovni
Sexta-feira, Fevereiro 25, 2011
Hotel Insónia
Gostava do meu buraquinho,
com a janela virada para a parede de tijolo.
Na porta ao lado havia um piano.
Algumas tardes por mês
um velho aleijado vinha tocar
"My Blue Heaven."
Mas havia, normalmente, sossego.
Cada quarto com a sua aranha no seu pesado sobretudo
A apanhar a sua mosca com uma teia
De fumo de cigarro e devaneios.
Tão escuro,
que não podia ver a minha cara no espelho da barba.
Às 5 da manhã o som de pés descalços lá em cima.
O Cigano que lia a sina,
Cujo estabelecimento ficava à esquina,
A urinar depois de uma noite de amor.
Uma vez, também, o som de uma criança a chorar.
Tão próximo estava, pensei
Por um momento, que era eu quem chorava.
- Charles Simic
(Tradução de António Ladeira)
encontrado aqui
Quinta-feira, Fevereiro 24, 2011
SEIS POEMAS PARA UMA MORTE
1
Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá
e a morte restitui-nos ao silêncio.
2
Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão
e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.
3
Na noite clara da tua morte Pai
parto de vez para a margem da brandura
Levo nos olhos esta luz de dor
feixes opacos medas de cansaço
(como as que carregavas)
seara que nasce no sonho condenada
quando na alma a chama esmoreceu
Chegou-me a mim: já nada perdura
Querias saber o que era aquele nada
contra o qual lutava – sou eu
vazio de ti. Poupámos o Futuro.
4
Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite
a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).
E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.
5
Tinhas-nos a nós
como nos querias
não como nós somos
Partiste
olhando o ar
pensando o Vago
escutando o Ser
na boca o Fluido
a essência do Sangue
nós
em tudo isso nós
o imenso Amor
Em que pensaste, Pai, nessa semana
em que soubeste tudo isso
que dizias há tanto
e que os homens procuram?
O teu olhar tão calmo
as tuas mãos
só diziam Amor
e a respiração era a de que ele é feito:
com a Mãe
sabe Deus e o vosso Amor quando
connosco
dia a dia e a desoras
com tanta gente
que eu nem adivinho
na mudez superior de quem é grande
Toda a vida
só fizeste Amor
Perdeste a Palavra e o Movimento
usa o meu corpo se isso for possível
Nunca será a mesma coisa
mas vou portar-me bem
(a gente cá sabe o que isto quer dizer)
Há que roubar as flores ao abandono
6
Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.
Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia
e estarmos mortos como quem está vivo.
- Miguel Martins
in Seis poemas para uma morte, Fábrica das Letras
num lábio frio, segue a vibração
a alguma presa quando deixas a luz do sol
entrar de novo, dividindo o quarto
num tratado de tordesilhas.
Luz que segreda, preenche sem
derramar, toma a lenta rotação
do mundo e desfaz a tarde em tons
magoados, fios esquecidos
de sol emaranhados nas árvores,
aí onde balouçam frutos de sombra
prestes a cair, espalhando a noite.
O grilo já vai raspando no invisível,
nos pátios os miúdos recolhem os ecos
e as bicicletas, voltam para casa.
Fica só
esta criança que o vento diz, colando
pedacinhos de céu, o olhar que é fundo
desce o seu fio de mel no terror,
e o baloiço engole em seco.
Mais à frente essa porção de terra
enchendo um sapato.
Jardinzito de sombras esquisitas.
Guarda para memória um velho só
nalguma das suas mesas roídas.
Braços cruzados, a cabeça afundada,
contando em voz alta
para dar mais tempo aos amigos,
já todos escondidos uns palmos
abaixo da terra. Outra criança
sem nada que fazer. E a lembrança
de que a infância foi isso mesmo,
esse tédio-esperto,
largando transatlânticos
nas águas mortas de um chafariz.
Raspadas no coração dos muros,
essas primeiras frases, tão sujas
de intenção, tão longe dos poemas,
desse lirismo frouxo e da abulia
cruzando todos os seus sinónimos.
Também tenho ouvido as sinfonias dessas flores
sem retorno, a morte canta afinadinho e tudo,
mas não chega. Minha alma emputecida,
minha cabeça –dor doce de vertigem–,
um poço onde se afogam os sóis,
onde para cada imagem rasgo uma garganta,
numa aflição canora que não deixa
coser esta ferida.
E espero a lua desvairada, desordeira,
nosso signo e sinal. Contra a musiquinha
de passos dos que se escondem,
os nossos embebem as noites de calafrios.
Somos tantos aqui, tirando à sorte
nas esquinas, seduzindo Alices,
espreitando-lhes por cima do ombro
esse país que não há-de abrir-se
para nenhum de nós.
Falhamos e falhamos, pior e pior.
No fim só o cheiro usado destas mulheres,
mais tristes na hora de irem deitar-se,
arrastando desconhecidos.
E só então
todos esses fins de mundo reais,
com a luz que é expulsa de um quarto
e o arrependimento respirando baixinho,
capaz de dar uma costela por um fósforo
quando do silêncio chega
esse refrão súbito: «que caralho faço eu aqui?»
E ela corta os cabelos no escuro, deixa-os
cair como se chorasse, mas tão depois
das lágrimas. A boca
num desmancho, abusada, tirando os nomes
às coisas deste mundo para dá-los
às do outro. Chega-te aos lábios a loucura
e quer um beijo.
-Escrever é como a segregação das resinas; não é acto, mas lenta formação natural. Musgo humidade, argilas, limo, fenómenos do fundo, e não do sonho ou dos sonhos, mas de barros escuros onde as figuras dos sonhos fermentam. Escrever não é fazer, mas sim aposentar-se, estar.
IL TUFFATORE
Não nos demoramos à superfície mais do que o lapso de uma inspiração profunda que nos permita regressar ao fundo. Nostalgia das brânquias.
- José Ángel Valente
(tradução de António Cabrita)
encontrado aqui
Quarta-feira, Fevereiro 23, 2011
Probel/Problemas
O futuro é uma ciência fodida pelo tempo
O presente é isso aí
O passado é a gavetinha onde a memória brinca
de obra e Arte.
- Isabel Câmara
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
OUVIDO AO ACASO Nº477
avenida atlântica
interior de um táxi
chofer: padres mortos
_____ famílias destruídas
_____ guerras, milhares de mortos
_____ tudo isso pra vestir o índio
_____ E hoje, é o que se vê.
- Bernardo Vilhena
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
Lágrimas de boi ou falavera
às vezes eu fico olhando para o rosto
de qualquer pessoa
com um olho nero em fogo e outro bobo de atenção
de procuração para ver se enxergo as cooperativas vivas
de cada solidão
mesmo se não acho acredito até que cada cara
tem uma tarefa contínua e incessante
com as dores do parto
do instante
então me dá vontade quando agarro uma boca parada
de reclamação
de enfiar os dedos nela só pra ver
se encontro a língua falavera ou para ver se os dentes
mordem
mais e mundo além de alguém também me dá vontade
de beliscar
no ponto de consolo de uns olhos gelados
só pra desfiscalizar os nervos de controle e fazer
piscar três vezes uma lágrima
de boi
no matadouro.
- Leomar Froés
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
Carta
Olha eu te desejo
tanto que perdi
o recado.
Nada temo, tremo!
Sou poeta devassa
adorando a tua raça.
Lovely & lonely bird
of my Youth, tell
me how to reach
The South of your Mouth
- Isabel Câmara
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
9.
Pode a serenidade destas rosas
atravessar a noite
sem que a esfolhem
os comovidos ares?
Sem que este perigo
– este sabor a perigo –
empalideça as mais
sombrias pétalas?
Ou esperarão, acaso,
com seus olhos
impotentes de flor,
com seu disforme e pútrido
alimento,
esperarão, inclinadas,
exalando perfumes tumulares?
Vigiarão teu cerco, salivando,
escorrendo ânsias carnais;
seguirão o teu corpo,
palpitando,
inchadas como um sexo,
ouvindo as garras?
Assistindo ao amor,
aos instrumentos
e paixões do amor,
à crueldade,
mordem, pedindo sangue,
essas obscenas,
ferozes bocas:
com sua antiga vocação
de rosas
– a de vestir
cadáveres,
a de ornar
os vencidos despojos,
virão, sorrindo,
sobre a minha morte.
- Hélia Correia
in A pequena morte, Black Son Editores
Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011
Visão de São Paulo à Noite – Poema Antropófago sob Narcótico
Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cu nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-se na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo
- Roberto Piva
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
A piedade
Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas: por que navio bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos
- Roberto Piva
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
Praça da República dos meus Sonhos
A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
na Tarde de esterco
Praça da República dos meus Sonhos
onde tudo se fez febre e pombas crucificadas
onde beatificados vêm agitar as massas
onde García Lorca espera seu dentista
onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento desarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa
- Roberto Piva
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
Domingo, Fevereiro 20, 2011
Imperador Augusto
É terrível entrar no assunto habitual,
E mascarar com palavras
Aquilo que está escondido.
Ao som da trombeta
Chegam longos exércitos de cadáveres profanados.
É apenas o início do extermínio de sombra e noite
Com temporal
E os camaradas que ficaram barricados
No outro lado do dia.
Vou-me embora.
Talvez exista verdade nesta coisa de dizer que
Fui.
Inventário
um urso caolho
um piano antigo
seu silêncio de madeira
cheio de fugas para brincar lá fora
passarinho morto na janela que nem um tambor quebrado
- Antonio Carlos Secchin
in 26 Poetas Hoje, Aeroplano
Ao chegar
Há uma casa desabitada nas colinas de Chiavenne.
Os corações endurecidos deixaram de entender o rigor
Tecido nesta frase.
São frades idosos que podiam contar com o amplo regresso de
Deus, mas preferem a sentença
Indignados com o carrasco local
De mãos grossas, frescas de intriga
Da propriedade que foi a leilão no ano em que o papa beijou a terra.
Eu entro na sala da casa abandonada.
As janelas imprimem uma autoridade demonstrada nas réstias de luz
E no modo como as plantas vão negociando a sua sobrevivência.
Em Barcelona vi flores assim.Mas eram viçosas
E escrevi cartas cheias desse perfume que entraram
Pelo cheiro matinal e pelo pão na mesa de quem jogou comigo.
E hoje estou desabitado como uma casa que conheceu muita gente.
O vento vai espalhando notícias pouco reais daquilo que tenho sido.
Eu nada abandonei. Só esqueci
Deus
E uma casa
Parecida comigo.
Uma defesa do anonimato
(carta a George B. Moore para negar-lhe uma entrevista)
Não sei porque escrevemos, querido George
e muitas vezes me pergunto por que mais tarde
publicamos o escrito.
Quer dizer, lançamos
uma garrafa ao mar, que está repleto
de lixo e de garrafas com mensagens.
Nunca saberemos
a quem nem onde as arrojarão as marés.
O mais provável
é que sucumba na tempestade e no abismo,
na areia do fundo que é a morte.
E no entanto
não é inteiramente inútil este trejeito de náufrago.
Porque num domingo
liga-me você de Estes Park, Colorado.
e diz-me que leu quanto está na garrafa
(suplantados os mares: as nossas duas línguas).
E quer fazer-me uma entrevista.
Como explicar-lhe que jamais dei
uma entrevista,
que a minha ambição é ser lido e não “célebre”,
que importa o texto e não o autor do texto,
que descreio do circo literário.
Logo recebo um imenso telegrama
(o horror que há-de ter gastado ao enviá-lo).
Não posso responder-lhe nem deixá-lo em silêncio.
E ocorrem-me estes versos. Não é um poema.
Não aspira ao privilégio da poesia
(não é voluntária).
Vou antes usar, como o faziam os antigos,
o verso como instrumento de tudo aquilo
(relato, carta, drama, história, manual agrícola)
que hoje dizemos em prosa.
Para começar a não responder-lhe direi:
Não tenho nada que acrescentar ao que está nos meus poemas
não me interessa comentá-los, não me preocupa
(se algum tenho) o meu “lugar na história”
(tarde ou cedo a todos ceifa o naufrágio).
Escrevo e isso é tudo. Escrevo: dou a metade do poema.
Poesia não é sinais negros na página em branco.
Chamo poesia a esse lugar do encontro
com a experiência alheia. O leitor, a leitora
farão ou não, o poema que tão somente esbocei.
Não lemos os outros: lemos-nos neles.
Parece-me um milagre
que alguém que desconheço possa ver-se no meu espelho.
Se há um mérito nisto – disse-o Pessoa –
cabe aos versos, não ao autor dos versos.
Se por casualidade é um grande poeta
deixará quatro ou cinco poemas válidos
rodeados de fracassos e borrões.
As suas opiniões pessoais
são de verdade muito pouco interessantes.
Estranho mundo o nosso: cada dia
lhe interessam mais os poetas;
a poesia cada vez menos.
O poeta deixou de ser a voz de sua tribo,
aquele que fala pelos que não falam.
Evaporou-se em nada ou é mais outro entertainer.
As suas bebedeiras, as suas fornicações, a sua história
clínica,
as suas alianças ou picardias com os demais palhaços do circo,
com o trapezista e o domador de elefantes,
têm assegurado o amplo público
a quem já não faz falta ler poemas.
Continuo pensando
que é outra coisa a poesia:
uma forma de amor que só existe em silêncio,
num pacto secreto entre duas pessoas,
de dois desconhecidos quase sempre.
Acaso leu você que Juan Ramón Jiménez
pensou faz meio século editar uma revista.
Ia-se chamar Anonimato.
Publicaria textos, não assinaturas,
e se faria com poemas, não com poetas.
Eu gostaria como o mestre espanhol
que a poesia fosse anónima já que é colectiva
(a isso tendem os meus poemas e versões).
Possivelmente você me dará razão.
Você que me leu e não me conhece.
Não nos veremos nunca mas o nosso laço é firme.
Se lhe agradaram os meus versos
que importa o serem meus/ de outros / de ninguém.
Na realidade, os poemas que leu são seus:
Você, o seu autor, que os engendra ao lê-los.
- José Emílio Pacheco
(tradução de António Cabrita)
encontrado aqui
Sábado, Fevereiro 19, 2011
Que faremos contra
a eficaz maquinaria dos poderosos?
apenas isto e aquilo
o suficiente para que o dia acabe tranquilo
e a vida termine na sombra
pequeno bando de rapazes suburbanos sem voz
ilusoriamente à margem da ordem social
vou ao 4º esquerdo toco à campainha e depois fujo
ou fujo ou fico estático com ar alucinado e quando
me abrirem a porta em sobressalto
digo que me enganei no andar dói-me a criança
de choro contínuo e não quero que cresça num corpo de homem
de voz grave e mãos feridas vou tocar à campainha
até que um pormenor daquela história se altere e depois
subo exactamente vinte e oito degraus
informo o escritor misterioso da inevitável alteração
na narrativa e ele responde-me que ainda assim
cabemos todos nas páginas do seu compêndio
- Paulo Tavares
in Linhas de Hartman, & etc.
Sexta-feira, Fevereiro 18, 2011
Relatório
Pus o meu irmão debaixo da Terra
Porque desde ontem o meu irmão não falava mais
E não queria comer, não queria limpar a Kalashnikoff
Com os olhos muito abertos e leves de sono.
Este meu irmão ficou ontem muito diferente
Quando uma pequena ave imperialista
Um simples assobio cego e sem penas
Que vinha voando do outro lado da Alegria
Resolveu estupidamente ninhar aquele coração
Quando meu irmão estava mesmo na metade mesmo
De um passo, Camarada Comandante.
Está aqui tudo o que não era meu irmão
O cinturão, o camuflado, dois carregadores, a arma boa
O bornal, o cantil, o facão, esta pequena moeda estrangeira.
Está tudo em muito perfeito estado de conservação.
Faz favor dá Ordem para pôr dentro outro Irmão
Camarada Comandante.
- Multimati Barnabé João
in Eu, o Povo, Biblioteca Editores Independentes
Quinta-feira, Fevereiro 17, 2011
Elegia
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
and don't have any kids yourself.
Philip Larkin
Se tudo o que cresce e arde é brasa,
o amor é visão da pira.
Pensa no Verão,
que nasce a perder sangue
numa sorridente hemorragia de luz.
Aquilo que te é caro morre, aquilo que morre
é-te caro, se algo te é caro é porque morre. E eis o corolário:
"Aquilo que te é caro é apenas a sua morte."
É de noite, no quarto dos meus filhos.
Deitado, junto a eles ouço-os pigarrearem.
Um bosque no escuro. Pousam
sobre os meus ramos o peso quente e vivo da voz,
um peso-voo trepidante.
Ou deverei crer que sejam só as pontas
incandescentes de um fogo meio gasto,
desfeito, meio frio, de um tição
já negro e mudo, já mudo,
meio morto?
- Valerio Magrelli
(encontrado aqui)
Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011
Coro dos que se salvaram
Nós que nos salvámos,
De cujos ossos ocos a Morte já cortava as suas flautas,
Em cujos tendões a Morte já passava o seu arco -
Os nossos corpos ainda gemem
Com a sua música mutilada.
Nós que nos salvámos,
Ainda pendem os baraços torcidos para os nossos pescoços
Em frente de nós no ar azul -
As ampulhetas ainda se enchem com o nosso sangue gotejante.
Nós que nos salvámos,
Ainda em nós roem os vermes do medo.
A nossa estrela está enterrada no pó.
Nós que nos salvámos
Vos pedimos:
Mostrai-nos devagar o vosso Sol.
Levai-nos a passo de estrela em estrela.
Deixai-nos aprender devagar de novo a vida.
De contrário poderia a canção dum pássaro,
O encher do balde no poço
Fazer rebentar a nossa dor mal selada
E arrastar-nos em espuma -
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão que morde -
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó -
Perante os vossos olhos em pó nos desfizéssemos.
O que é que aguenta ainda inteira a nossa teia?
Nós que nos tornámos sem hálito,
Cuja alma fugiu para Ele da meia-noite
Muito antes de nos terem salvado o corpo
Na arca do momento.
Nós que nos salvámos,
Apertamo-vos a mão,
Reconhecemos o vosso olhar -
Mas só e ainda nos aguenta a despedida,
A despedida no pó
Nos aguenta convosco.
- Nelly Sachs
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Portugália
Gato, incapaz
Coisa imaginada, gasta
maquete de um gato,
brinquedo abandonado, trazido
da rua para casa:
o pêlo branco, hirto e cinzento,
desfaz-se até à raiz.
Vejo-lhe o focinho, a boca,
borracha esboroada, uma orelha
foi comida, o corpo magoado,
aos altos, como uma almofada
rota que espalhasse o estofo
numa toalha miserável. Sento-me
a ver a luz que se
degrada nos seus olhos.
Tenta e não consegue
subir a uma cadeira, refugia-se
a um canto da cozinha,
vexado, desnaturado. Já não é
nada que se pareça com um gato.
Um novo olhar
naqueles olhos
que se recusam a encarar os meus.
É a vergonha de ser
descoberto. Só isso.
E com essa
humilhação,
a sua cara, vejo,
tornou-se humana.
- Robin Robertson
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in The Wrecking Light (2010)
Terça-feira, Fevereiro 15, 2011
Velhos
Ali,
nas dobras desta estrela,
cobertos com um farrapo de noite,
estão eles à espera de Deus.
A boca pregada dum espinho,
sua língua perdeu-se-lhes nos olhos
que falam como poços
em que um cadáver se afogou.
Oh os velhos,
que trazem nos olhos a descendência queimada
como única pertença.
- Nelly Sachs
(tradução de Paulo Quintela)
in Poemas, Portugália
Já que não é uma questão de força
Tudo a mais frágil palavra quebra
Sombra de ideia ideia da sombra morte feliz
O fogo torna-se água tépida e o pão migalha
O sangue mascara um sorriso e o raio uma lágrima
O chumbo que o ouro esconde pesa sobre as vitórias
Nada semeámos que não tivesse sido destruído
Pelo minucioso bico das delícias íntimas
As asas penetram no pássaro para o fixarem.
- Paul Éluard
(tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge)
in Algumas palavras, Dom Quixote
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011
A Barca da Morte
I
Agora é o Outono, o cair dos frutos
e a longa viagem para o esquecimento.
As maçãs que caem como grandes gotas de orvalho
Conseguem ferir uma saída de si próprias.
É tempo de ir, do adeus
ao próprio eu, de encontrar uma saída
do eu caído.
II
Já construíste a tua barca da morte, a tua?.
Constrói a tua barca da morte, vais precisar dela.
Não tarda a geada impiedosa, e cairão as maçãs
pesadas, quase retumbantes, na terra ressequida.
E, no ar, a morte como um cheiro de cinzas!
Não a sentes?
E no corpo ferido, a alma assustada
fica encolhida, contraíndo-se do frio
que sopra sobre ela pelos orifícios.
III
E consegue um homem a sua quietude
com um punhal nu?
Com adagas, punhais, balas, um homem consegue
uma fenda ou ferida para sair a vida;
mas é isso a quietude, diz-me, a quietude?
Claro que não! como pode um crime, mesmo contra si
criar quietude?
IV
Falemos de quietudes que conhecemos,
das que podemos conhecer, de profundas e ternas quietudes
num coração forte e em paz!
Como tornar, isto em quietude nossa?
V
Constrói, pois, a barca da morte, que vais partir
na mais longa viagem, para o esquecimento.
E morre a morte, a longa e dolorida morte
que fica entre o velho e o novo eu.
Caíram-nos já, feridos, rasgados, os corpos,
esvaem-se-nos já as almas pela saída
dessa cruel ferida.
O oceano sombrio, infindável, do fim
espraia-se já pelas nossas rebentadas chagas,
abate-se já sobre nós o dilúvio.
Constrói a tua barca da morte, a tua pequena arca
abastece-a com comida biscoitos e vinho,
para o obscuro voo no esquecimento.
VI
Pouco a pouco o corpo morre, e a alma tímida
vê o suporte levado no erguer do negro dilúvio.
Morrendo, estamos morrendo, estamos todos morrendo
e nada deterá o dilúvio de morte que cresce em nós
e não tarda a erguer-se sobre o mundo, sobre o mundo exterior.
Morrendo, estamos morrendo, pouco a pouco morrendo
e abandona-nos o ânimo,
e abriga-se a alma nua na chuva negra sobre o dilúvio
abrigando-se nos últimos ramos da árvore da nossa vida.
VII
Morrendo, estamos morrendo, agora só nos resta
aceitar a morte, e construir a barca
da morte que nos leve a alma na mais longa viagem.
Uma pequena barca, com remos e comida
e pequenos pratos, e todo o apetrechamento
pronto e necessário à alma de partida.
Agora, lança à água a pequena barca, agora, que o corpo morre
e a vida parte, lança a alma frágil
na frágil barca da coragem, na arca da fé,
com os mantimentos, as pequenas caçarolas
e as mudas de roupa;
no negro deserto do dilúvio
nas águas do fim
no mar da morte, onde navegamos ainda,
às escuras, porque não temos leme nem existe porto.
Não há porto, nenhum sítio para onde ir
apenas o negrume que se aprofunda e escurece mais,
mais negro sobre o dilúvio silencioso e inagitado
escuridão após escuridão, para cima e para baixo
e pelos lados absoluta escuridão, já não pode haver direção.
E a pequena barca está lá, e contudo partiu.
Não pode ser vista, porque nada o permite.
Desapareceu! partiu! e contudo está
em algum lado.
Em lado algum!
VIII
E tudo partiu, o corpo partiu
submerso, desaparecido, inteiramente desaparecido.
A escuridão de cima é tão densa como a de baixo,
por entre elas a pequena barca
partiu
desapareceu.
É o fim, é o esquecimento.
IX
E, contudo, da eternidade separa-se
um filamento sobre o negrume,
um filamento horizontal
que se eleva palidamente sobre o escuro.
Será ilusão ou eleva-se essa palidez
um pouco mais alto?
Mas espera, espera, porque há a madrugada,
a madrugada cruel do regresso à vida
após o esquecimento.
Espera, espera, a pequena barca
à deriva, debaixo do cinzento mortal das cinzas
duma madrugada de dilúvio.
Espera, espera! mesmo assim uma réstea de amarelo
e, por estranho, alma cansada e fria, uma réstea de rosa.
Uma réstea de rosa, e tudo isto recomeça.
X
Desde o dilúvio, e o corpo, como uma concha polida
emerge extraordinário e belo.
E a pequena barca torna a casa, deslizando, trêmula,
100 sobre as águas do dilúvio róseo,
e a frágil alma desembarca, volta a casa
enchendo de paz o coração.
O coração renovado embala-se na paz,
mesmo na do próprio esquecimento .
Constrói a tua barca da morte, a tua!
vais precisar dela.
Espera-te a viagem do esquecimento.
- D.H. Lawrence
(tradução de Rui Rosado)
in A Barca da Morte, Hiena
E nós somos como os frutos. Pendemos do alto de ramos estranhamente tortuosos e suportamos bem os ventos. O que temos é a nossa maturidade, a nossa doçura e a nossa beleza. Mas a força para tal emana de uma raiz que se propagou até cobrir mundos e mundos em todos nós. E, se quisermos testemunhar a favor do seu poder, então devemos utilizar, cada um, o nosso mais solitário sentido.
Quanto mais solitários houver, mais solene, comovente e poderosa será a comunidade.- Rainer Maria Rilke
(tradução de Sandra Filipe)
in Notas sobre a melodia das coisas, Avernoretirado daqui
Domingo, Fevereiro 13, 2011
A Árvore
Ao pé da pedra a Árvore cresce. Prega o universo e ela retempera-se. As suas raízes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quase cobrem o prédio. Dum lado o Hospital, do outro a Árvore. Só eles prosperam. Deita a Árvore pernadas e a cada Inverno o granito aumenta, qual outra árvore de pedra. Num corre seiva, no outro gritos. O Hospital tem raízes em toda a cidade.
A Árvore é quase uma construção. O tronco é corroído e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raízes vão sugar no Hospital. Com os anos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-no, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miséria humana.
E para lá? o que há para lá? Ao findar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruídos, claridades, mistura de oiro e verde, gorgolejos de minas, chuva de sol e de água, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de árvores, murmúrios de fontes, o hálito das plantas ignoradas. Oh caem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lágrimas das noras paradas, caindo uma e uma na terra sequiosa e se pressentem diálogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...
E a Árvore, a este ruído, fica entontecida, abalada até às suas raízes mais fundas.- Raul Brandão
(excerto de Os Pobres)
Gencianas Bávaras
Nem toda a gente tem em casa gencianas
no sereno Setembro, pelo S. Miguel lânguido e triste.
Gencianas bávaras, grandes, escuras, só escuras
escurecendo o dia, como archotes com o azul em fumos da treva de Plutão
às nervuras, como archotes, com o fulgor da escuridão espalhada em azul
esbatendo-se em manchas, esbatida sob o impulso do dia branco
flor-archote de treva azul em fumo, no escuro azul ofuscante de Plutão
negros lampadários das mansões de Dis, ardendo azul escuro,
dando escuridão, azul escuridão, enquanto dão luz as pálidas candeias de Deméter,
guiai-me então, mostrai-me o caminho.
Traz-me uma genciana, dá-me um archote!
deixa-me guiar pelo archote azul bifurcado desta flor,
descendo degraus mais e mais escuros, onde em azul escurece o azul,
onde Perséfona agora vai saindo do Setembro das geadas,
rumo ao reino da treva onde no escuro a escuridão fica em vigília
e onde mesmo Perséfona não passa de uma voz
ou de uma invisível escuridão, envolta no mais escuro mais fundo
do abraço de Plutão, trespassada pela paixão da treva densa
entre o esplendor dos archotes de treva que derramam a noite
sobre a noiva perdida e seu esposo.
- D. H. Lawrence
(tradução de João Almeida Flor)
in Gencianas Bávaras e Outros Poemas, Regra do Jogo
Sábado, Fevereiro 12, 2011
Dor
Eu tinha visto que a dor era sempre necessária para se produzir alguma coisa de belo e de giganteu: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esquálidas fique um farrapo dessa figura de prodígio: para que a vida tenha um fim: para amar: para criar: para que alguma coisa de duradouro reste. Num grito existe sempre viva uma porção de beleza. Da cova nascem coisas materiais, formas, árvores, nuvens -- da dor jorra a beleza absoluta.
E com que fim? dir-me-ão.
Imaginem um estatuário: para compor uma marmórea figura, para realizar um fantasma entrevisto, precisa de sofrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E acaso se pergunta se o barro sofre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinário: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.
De que precisam os poetas para fazer uma obra de génio? De dor. O sofrimento cria. Lembram-se das figuras de mármore, para sempre debruçadas sobre os túmulos antigos? O luar que vem pela rosácea gótica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fá-las todas de poalha: estremecem, levantam voo, dir-se-ia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.
Para se criar é preciso sofrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida às coisas inanimadas. Com um escopro e um tronco inerte faz-se uma obra admirável, se o escultor sofreu. Mais: com palavras, com sons perdidos, com imaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lágrimas a outras criaturas. Com as simples e secas letras do abecedário, um desgraçado com génio, metido numa água furtada, edifica uma coisa eterna, uma construção mais sólida e mais bela, do que se fosse arrancar os materiais ao coração das montanhas.
O que é então a dor, milagre extraordinário, que consegue dar vida às fragas? o que é esse assombroso fluido, que se comunica, alma arrancada da própria alma e que se pode repartir como o pão? Nunca houve sob o sol criatura que sofresse da verdadeira dor cujo sofrimento não consolasse ou salvasse. Até as mais humildes, tal como árvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e alumiar os pobres.
A dor dá a vida e não é a própria vida: cria, redime, obra prodígios e nada há que se comunique, que convença, que torne os homens irmãos, como ela... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos num só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lágrimas? Deus?- Raul Brandão
(excerto de Os Pobres)
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2011
Requiem para Godot
Hoje é de morte o poema.
Não direi já do desejo azul líricos de fuga
pois todas as mãos erguidas se baixaram e depuseram as armas.
Quem um dia disse que tudo vale a pena
errou tão grandemente como o que disser que nada vale a pena.
A verdade é que não vale a pena.
Dizer tudo ou dizer nada é um excessivo e inútil esforço.
Hoje o poema é de morte, de abandono e nem sequer já de mãos crispadas.
E não direi do choro, já não direi do choro,
mas do sorriso branco da desesperança.
Não há mais cais, nem barcos, nem gares donde se sonhem idas, porque é inútil ir.
Sei, sei hoje muitas coisas porque é de morte o poema,
sei que o suicídio é um acto enorme de ilógica esperança
como a fuga ou o ódio ou o amor.
sei que o suicídio é um logro e que a verdade
está na rendição ou na quotidiana morte
que me faço.
Não direi hoje das portas que me trancam
ou dos braços que me sufocam e por estranho
que pareça as paredes são-me gratas e irmãs.
Só elas, as paredes brancas, conhecem o verdadeiro
desespero porque são irremediavelmente brancas e quietas.
O que dói é saber que seria igualmente amargo o oitavo continente.
- Maria do Céu Guerra
in São mortas as flores, Best-Sellers, 1963
Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011
-Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social.
Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias.
É isso a transfiguração poética.
O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias, que frequentemente são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.
Para evitar a contradição relativamente a nomes actuais, prefiro escolher o exemplo de um artista criador, de um género muito menos puro que a Poesia, mas em relação ao qual há unanimidade de simpatia: Charlie Chaplin. Criou um tipo de vagabundo, chamado Charlot, nitidamente imoral. Pontapés, rasteiras aos polícias sempre que os encontra; escarnece de todas as autoridades, não trabalha. Se trabalha, parte tudo, engana o patrão, não respeita a mulher de outrem, é rapinante quando a ocasião se apresenta, é um não-valor social e, contudo, ele teve uma tal influência, de tal modo reconciliou pessoas com a vida que o podíamos considerar um dos benfeitores da nossa época.
Não tenhamos pontos de vista professorais sobre arte. Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores?
Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência.
Por isso, em vez de os comparar a pregadores espalhando a boa ou a má nova, há que compará-los ao primeiro homem que inventou o fogo. Foi um bem, foi um mal? Não sei. Foi um novo começo para a humanidade. Uma sucessão de novos começos faz uma civilização. É isso também o que o poeta mais deseja, um novo começo, uma vitória sobre a inércia, sobre a sua, sobre a da época, sobre o entorpecimento sem fim dos reaccionários.
Vemos assim que a poesia, mais do que um ensinamento, mais até do que um encantamento, uma sedução, é uma das formas exorcizantes do pensamento. Pelo seu mecanismo de compensação, liberta o homem da atmosfera viciada, deixa respirar aquele que asfixiava. Transforma um estado de alma intolerável noutro satisfatório. É, pois, social, mas de uma forma mais complexa e indirecta do que se diz.
Sem o parecer, respondo desta maneira à pergunta: «Qual a finalidade da poesia?» ─ A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável.- Henri Michaux
(tradução Rui Caeiro)
in Nós dois ainda, Bonecos Rebeldes
Outono nas montanhas
É outono... A amada está longe, indistinguível
e na sua luz acaba a voz
sob a superfície da pedra...
É a proximidade a separação? Sabemos alguma coisa do encontro?
O que perturba secretamente
a recordação de um seio ainda não beijado,
e a alegria, incompreensível
como as últimas palavras dos moribundos?!
O olhar do desejo entende através das lágrimas
a margem acesa da medula das garças
a árvore sabe bem que oferecer
significa regressar,
e tu próprio não és outra coisa mais do que que a sensação
de que o abandono sem vazio
ou bem que engoliu o seu abismo
ou bem que não o encontrou ainda.
- Vladimir Holan
versão para português de Rui Miguel Ribeiro
Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011
1910
Aqueles olhos meus de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos,
nem a feira de cinza do que chora de madrugada,
nem o coração que treme acantonado como um cavalinho do mar.
Aqueles olhos de mil novecentos e dez
viram a branca parede onde urinavam meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma luz incompreensível que iluminava pelos cantos
pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.
Aqueles olhos meus no pescoço do poldro,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor, com gemidos e mãos sem vergonha
num jardim onde os gatos comiam as rãs.
Sótão onde o velho pó junta estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No sítio onde o sonho tropeçava na sua realidade.
Ali os meus pequenos olhos.
Não me perguntem nada. Já vi como as coisas
procuram a sua direcção e encontram o seu vazio.
No ar deserto há uma dor de ausências
e nos meus olhos pessoas vestidas, sem nudez!
- Federico García Lorca
(tradução de Aníbal Fernandes)
in Anjo e Duende, Assírio & Alvim
Terça-feira, Fevereiro 08, 2011
Domingo, Fevereiro 06, 2011
O senhor José
Lá vai a carroça com o senhor José e o mundo.
Há tanto tempo
Com o burro atrelado
E o cão de guarda.
Lá vai esse tempo e a carroça.
Do senhor José
Ficou este traço
Da minha memória
E um cão preso
A tudo isso.
Sábado, Fevereiro 05, 2011
Antes do sono
Dá-me vontade de rir
Esta indecência
De me deitar sem ninguém.
Com tanto mundo e meio mundo
Que não deitei
E que sempre esperei,
Eu
E esta cama, em aparente pureza.
Especially when the October wind
Especially when the October wind
With frosty fingers punishes my hair,
Caught by the crabbing sun I walk on fire
And cast a shadow crab upon the land,
By the sea's side, hearing the noise of birds,
Hearing the raven cough in winter sticks,
My busy heart who shudders as she talks
Sheds the syllabic blood and drains her words.
Shut, too, in a tower of words, I mark
On the horizon walking like the trees
The wordy shapes of women, and the rows
Of the star-gestured children in the park.
Some let me make you of the vowelled beeches,
Some of the oaken voices, from the roots
Of many a thorny shire tell you notes,
Some let me make you of the water's speeches.
Behind a post of ferns the wagging clock
Tells me the hour's word, the neural meaning
Flies on the shafted disk, declaims the morning
And tells the windy weather in the cock.
Some let me make you of the meadow's signs;
The signal grass that tells me all I know
Breaks with the wormy winter through the eye.
Some let me tell you of the raven's sins.
Especially when the October wind
(Some let me make you of autumnal spells,
The spider-tongued, and the loud hill of Wales)
With fists of turnips punishes the land,
Some let me make of you the heartless words.
The heart is drained that, spelling in the scurry
Of chemic blood, warned of the coming fury.
By the sea's side hear the dark-vowelled birds.- Dylan Thomas
Sexta-feira, Fevereiro 04, 2011
Vénus
I
À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.
O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...
E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.
II
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
_ Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
_ Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...- Camilo Pessanha
As vidas de Deus
Foi tão estranho.
Fomos feitos para o cheiro da velhice
Dos copos guardados no louceiro.
Não me apetece telefonar - em jeito de aviso - e
Interromper o jantar.
Quinta-feira, Fevereiro 03, 2011
PAISAGEM DA MULTIDÃO QUE URINA
(NOCTURNO DE BATTERY PLACE)
Eles ficaram sós:
esperavam a velocidade das últimas bicicletas.
Elas ficaram sós:
aguardavam a morte de uma criança no veleiro japonês.
Eles, elas, ficaram sós,
a sonhar com os bicos que os pássaros abrem na agonia,
com o guarda-sol agudo que fura
o sapo esmagado ainda há pouco,
sob um silêncio de mil orelhas,
e bocas de água diminutas
nos desfiladeiros que resistem
ao feroz ataque da lua.
Chorava, a criança do veleiro, e os corações partiram-se
angustiados pelo testemunho e a vigília de todas as coisas
e porque assim mesmo nomes escuros gritavam
no chão celeste de negras pegadas,
gritavam salivas e rádios de níquel.
Não importa se a criança deixa de chorar quando lhe espetam o último alfinete,
nem a derrota da brisa na corola do algodão,
pois há um mundo da morte com definitivos marinheiros
que hão-de subir aos arcos e congelá-los por detrás das árvores.
É inútil procurar o cotovelo
onde a noite se esquece da viagem
e espreitar um silêncio que não tenha
fatos rotos e cascas e pranto,
pois basta o banquete da aranha, minúsculo,
para desfazer o equilíbrio de todo o céu.
Para o gemido do veleiro Japonês não há remédio,
nem para esta gente oculta que tropeça nas esquinas.
Para unir as raízes num só ponto o campo morde o seu próprio rabo
e o novelo vai procurar na erva a sua ânsia insatisfeita de longitude.
A lua! Os polícias! As sereias dos transatlânticos!
Semblante de crina, de fumo; anémonas e luvas de borracha.
Tudo está roto nesta noite
aberta de pernas em cima dos terraços.
Tudo está roto por esses canos mornos
de uma terrível e silenciosa fonte.
Ó gente! Ó mulherzinhas! ó soldados!
Temos de viajar nos olhos dos idiotas,
campos livres onde silvam mansas cobras deslumbradas,
paisagens cheias de sepulcros que produzem maçãs fresquíssimas,
para nos chegar a exorbitante luz
que os ricos temem por detrás das suas lupas,
o cheiro de um só corpo com vertente dupla de lírio e rata,
e queimar-se então esta gente que pode urinar à volta de um gemido
ou nos cristais que explicam as ondas nunca repetidas.
- Federico García Lorca
(tradução de Aníbal Fernandes)
As palavras
Vira-as,
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
- Octavio Paz
(tradução de A.M.)
Vento
Afinal não houve ciclone
Na casa emparedada de lixo e sacos de areia.
Alguma angústia ruminante
E a mesa redonda
Esperando a tempestade.
A casa não abriu janelas. Nem houve vento
Gritando nas frestas.
E eu grito às portas fechadas
Da noite menstruada
Deste dique.
Domingo
De quem é a canção
Onde existe um baile
Com grades de janela?
Que flores servem esta serventia
Chamada poesia?
De que rumo se fala
Quando um avião sobrevoa os areais
E não há ninguém no vento dunar?
Foi num Domingo. Fiz algumas perguntas, em jeito de criança.
E alguém ousou responder.
Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011
é uma palavra de olhos abertos
quando os dias ficam mais curtos
preparo o quarto para o rigor do inverno
não se trata de um vazio mas
de um lugar preparado para
todas as palavras que ficaram nas rugas
- Maria Sousa
Puzzle
We look at the world once, in childhood.
The rest is memory.
Louise Glück
Solitário
como uma civilização extinta,
sou o que resta e o que ficou aqui
a aguar o tempo, amolecê-lo
no silencioso desmoronamento
em amargos países como este,
onde tudo nos leva
à invenção do exílio, esse grito degolado.
A ideia em seu peso inconstante, enjoativa,
ecos sempre mais surdos
nestas páginas já sem margens.
E como entre elas cada um de nós
risca todos os outros ou juntos
somos enfim devorados
pelas nossas próprias imagens.
A manhã com as suas nuvens
rastejando e as ruas mergulhadas
num ardor meditativo,
envolvido por esta luz de fim de mundo.
O borrão dos pássaros que não souberam
escapar-lhe, simples nódoas. Cai um
e outro a seguir,
uma chuvada deles. Às sombras,
deixo-as vir, fazendo destas mãos
um ninho. Entre o bocejo e o abandono,
este fluxo, esta náusea que se ergue
roçando arestas vivas, estilhaços
que me pedem as mãos. Tudo isto
que me arruína o sangue
e alimenta tremores,
murmúrios debaixo da pele.
Na escura água deste baptismo,
crianças como astros arremessados
de infâncias miseráveis, seu ímpeto
negro: os nomes tristes
que dão às coisas
arrastando-as para o seu mundo,
seus jogos cruéis e estratégias de intimidação,
e como depois de uma frase aterradora,
algumas engolem a própria língua,
outras cospem-na tão longe
e enfim esvaem-se silenciosamente
numa abstinência atroz.
Como de uma pele envelhecida,
a cidade desfaz-se de nós
e segue, arrasta-se sobre as suas
escamas de vidro, vultos
despedaçados, engates entre reflexos,
este cerco infernal.
Cartomantes e videntes, traficantes
de tudo. A mesma noite há anos.
E volto a deixar-me cair sem resistência,
cair noutros olhos, deixar que me cante
essa voz de sombra, coberta de musgo,
soprando a luz, animando os contornos
deste pesadelo de ossos e músculo
prestes a tornar-se em algo
simplesmente sujo e aborrecido.
No fim, a inútil metamorfose
de que ainda nos servimos
neste apartamento obscuro e comovido.
Por todo o lado pedacinhos de unhas.
Às vezes gato, outras cão ou anjo,
passa as noites esgaravatando o soalho,
escavando o seu pequeno abismo.
A cama exausta
envolvida pelo odor macio
de putrefacção, o sexo que ali deixei
como uma página arrancada
e o choro da pequena flor negra
à cabeceira, como se um último suspiro
rasgando a memória, aninhando-se
nesse pescoço fácil.
De uma boca a outra o ar
como uma música gelada, e esta dor
que nos partilha quando de novo encaixamos
a derradeira peça neste puzzle grotesco.
Terça-feira, Fevereiro 01, 2011
Luís Filipe Nunes
Apesar de se esconder atrás do anonimato, a persistência conduziu a um erro e à confirmação da identidade. Assim ficamos todos um pouco mais esclarecidos sobre o 'poeta' Luís Filipe Nunes.
Poeta negro
Poeta negro, um seio de virgem
te persegue,
poeta agre, a vida ferve
e a cidade arde,
e o céu desfaz-se em chuva,
a tua pena arranha no coração da vida,
Selva, selva, pululam olhos
nas multiplicadas cúspides;
cabelos de tempestade, os poetas
montam cavalos, cães.
Os olhos enraivecem, as línguas volteiam
o céu aflui às narinas
como um leite vigoroso e azul;
estou suspenso das vossas bocas
mulheres, duros corações de vinagre.
- Antonin Artaud
(tradução de Joaquim Afonso)
in O Pesa-Nervos, Hiena












