domingo, outubro 31, 2010


Fui dar com ela no quarto a chorar, o telemóvel
Atirado para um canto. Entre lágrimas, foi dizendo
(E tem doze anos) que seu amigo decidira que deviam
Esperar. Sua mensagem: «Só o amor verdadeiro está
Por vir». É ténue a diferença (pensei) entre um galã
E um filósofo. Mas ela, sobretudo, descobrira que os
Novos instrumentos «mordem» tanto como os antigos,
Salvo que muito mais depressa. A mentira vende. Para
A publicidade, na nova comunicação é impossível a má
Notícia. Por que não trocam com os jornais?

- Maria Gabriela Llansol
in O começo de um livro é precioso, Assírio & Alvim

Rain

I love all films that start with rain:
rain, braiding a windowpane
or darkening a hung-out dress
or streaming down her upturned face;

one big thundering downpour
right through the empty script and score
before the act, before the blame,
before the lens pulls through the frame

to where the woman sits alone
beside a silent telephone
or the dress lies ruined on the grass
or the girl walks off the overpass,

and all things flow out from that source
along their fatal watercourse.
However bad or overlong
such a film can do no wrong,

so when his native twang shows through
or when the boom dips into view
or when her speech starts to betray
its adaptation from the play,

I think to when we opened cold
on a starlit gutter, running gold
with the neon of a drugstore sign
and I’d read into its blazing line:

forget the ink, the milk, the blood -
all was washed clean with the flood
we rose up from the falling waters
the fallen rain’s own sons and daughters

and none of this, none of this matters.

- Don Paterson
in Rain

sábado, outubro 30, 2010

Para uma arte poética

O excesso de sinceridade na poesia, como no convívio, é um egoísmo e, em última análise, uma falta de educação.

A poesia não busca o mistério, mas a verdade: por isso é misteriosa.

Poesia sem contradição é tanto como contradição sem poesia.

É uma imoralidade confundir poesia com a moral.

Quando se tem uma ideia é ainda cedo para escrever poesia. É preciso esperar que ela fuja de nós, nos engane ou, melhor, nos deslumbre. Então é o momento de persegui-la, de tentar o poema.

- Ángel Crespo
(tradução de José Bento)
in 30 poemas, Gota de água

sexta-feira, outubro 29, 2010

Cobardia

Génio derrotado, com os quatro ossos
escondidos em roupas elegantes, cada um exibe
um rosto atento, em que os outros possam

colar uma suspeita; nos cafés, de dia,
à noite, nos salões: mas em vão cada um procura
decifrar no rosto alheio o regresso

da esperança antiga: e se nele descobre
alguma esperança, é uma esperança inconfessável,
no jogo da procura e da oferta,

e o olhar parece ser apenas o espasmo
de uma ferida íntima: que nos torna exangues,
inertes, descontentes, e conduz a uma greve

dos sentimentos, a uma pausa culpada
da consciência, a uma paz malsã,
que só dá dias cinzentos, de tragédia.

Assim, se olho para o fundo das almas
dos grupos de indivíduos que vivem
no meu tempo, próximos de mim ou meus vizinhos,

vejo que dos mil sacrilégios possíveis
que qualquer religião natural
pode enumerar, aquele que permanece

sempre, em todos, é a cobardia.
Um sentimento eterno - uma forma
de sentimento - petrificado, imutável,

que deixa em qualquer outro sentimento,
directa ou indirecta, a sua marca.
É essa cobardia que faz do homem um descrente.

É uma espécie de profundo impedimento
que rouba força ao coração do homem,
calor ao raciocínio,

que o faz falar da bondade
como se fosse só comportamento,
de piedade como se fosse apenas norma.

Pode torná-lo feroz, por vezes,
mas sempre o torna prudente:
mesmo que ameace, julgue, ironize, escute,

está sempre, intimamente, apavorado.
Não há ninguém que escape a esse medo.
Por isso, ninguém é, de facto, amigo ou inimigo.

Ninguém pode sentir uma paixão verdadeira:
a chama apaga-se de repente,
como por resignação ou arrependimento,

nessa antiga cobardia, nessa hormona
misteriosa que os séculos engendraram.
Reconheço-a, sempre, em qualquer homem.

- Pier Paolo Pasolini
(tradução de Maria Jorge Vilas de Figueiredo)
in Poemas, Assírio & Alvim

6 de Novembro

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgzmHZJLjoS-xrQAjGZ6EKK1R62IqX6W_qtcpRUCe-YB_7NQ8PHU8q0E7wTWD5zT3PeXepHQLU2a0t40Gjlb-rG30hg10UoJ3ULyjfWA1TIKNuoLb8A0Wl3bWjqLjhaJ7QMS6Hq/s1600/BABA11.jpg

Anthero Areia & Água, Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim, 2010


Em famosa carta a Wilhelm Storck, Antero falava de «uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana». Anthero Areia & Água cria-lhe uma autobiografia em fiapos, uma apocrifia poética capaz de apropriar-se (sem arcaísmos) da raiz anteriana para florescer com outra seiva, mais estranha e brutal, a da (re)invenção, mais de cem anos após esses «dois tiros/ Filósofos» (p.60), justamente, geometricamente desferidos: «Na boca,/ Exactamente,/ Sem qualquer espécie de retórica.» (p.7). Um percurso que a insidiosa, subterrânea, operação de sabotagem de Armando Silva Carvalho – «Fraques, ervilhas, cornetins, colchões, lampreias de ovos/ (de imortal ovário)» (p.32) –, em ecos e repercussões fónicas e semânticas – «As palavras ressoam, ressonam, no sono incontinente/ De quem trabalha o corpo noutros corpos» (p.33), soube caldear para o destempero, para o sem regresso da criação, como se fosse do zero – sem, no entanto, inevitavelmente o ser.

O poema não ficou escravo de um modelo retórico e estilístico, de uma época, apenas pressuposta, antes se subverteram fronteiras, por via de uma certa atemporalidade – «A ética também é irmã/ Do efeito de estufa das ideias» (p.41) – sabiamente perversa, que cruza o pior de dois mundos – «O presente alimenta-se da confusão dos euros e muito futebol.» (p.86), para deles extrair uma súmula muito pouco heróica, de granjeios assinaláveis. O tempo do poema, por um lado, centra-se num ponto retoricamente formulado para ser o do presente; o seu tempo é, porém, o do abismo, o da suspensão. O poeta, esse, é, aqui, duplamente o agente de um tempo que quase o não é, o canal de uma temporalidade desprovida de nexos seguros. Uma situação que se engendra, igualmente, nas sementes imponderáveis deixadas nas frestas dos poemas – «Falemos de pureza/ Como quem fala de casas» (p.16), onde se activa a lembrança do Herberto de «Falemos de casas, da morte. Casas são rosas/ para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança/ nos abandona para sempre.» Como em «Pesado lodo às pobres vestes preso,/ Quem lho atirou aos pés de desgraçada?» (p.17) parece reviver o Pessanha de «Ó Madalena, ó cabelos de rastos», sombriamente presente, ainda, nesses «pedacinhos de osso» (p.20), contíguos à ambiência assustadora de uns «poços de luto/ No fundo do coração» (id.). Por outro lado, um poeta e uma obra como o inviável Soares de Passos, e o seu ominoso «Noivado do Sepulcro», conhece, a certo trecho, uma notável descaracterização que o deixa reconhecível, mas apenas como eco distante, neutralizado – «Ia alta a lua nas mansões da vida» (p.28). De resto, essa acção de submersa evocação é sibilinamente estendida à própria poética de Antero, nos seus motivos e gestos estilístiscos, como até na brevíssima alusão a um título da produção anteriana como Raios de Extinta Luz – «Entre a beleza funérea/ E a pouca areia e água em que vejo afundar-se/ A minha vida/ Corre a extinta luz de um mundo/ Já sem mundos» (p.9). Estratégia reforçada pela máscara de uma primeira pessoa que tem menos de extravagância do que de um trágico medido a ferros – «Talvez eu tenha dito, numa estrofe aguda,/ Num soneto brônzeo em que ninguém hoje toca,/ E no qual o solene ressoa» (p.9) –, por uma tomada de consciência da tensão entre o tempo do autor e o seu estatuto hodierno, simbolizado, talvez, a título de exemplo, nas objurgatórias com toda a marca epocal e temática do poeta dos Sonetos – «Ó pobres flores pensantes, do mal, do bem» (p.83) –, como nas antinomias (ir)resolúveis que são, bastas vezes, o núcleo dos seus poemas – «A morte é sempre morte ou vida» (p.83).

A «autópsia ao século que nascia» (p.43) é, sobretudo, uma análise ondulante e imponderável de qualquer século – «tudo é ou parece descontínuo» (p.53) –, de qualquer caminho para a morte, tomando por base o edifício poético e filosófico de Antero, esse «palácio de ideias, no dizer de Sérgio,/ Que durante tanto tempo construíste» (p.7).

Nunca deixa de ser um poeta do século XXI a escrever sobre/como Antero, esse fascinantemente contraditório «condenado à cabeça» (p.65) – e a própria grafia Anthero cria a ilusão de distância e a fantasia histórica. Felizmente para a poesia, nunca envereda pelo pitoresco (pinturesco, como então se diria) e refaz a partir do ponto desequilibrado em que se encontra – por acúmulo de informação e de reflexão –, tentando, conseguindo, que o saber não embote a criação, a trabalhada espontaneidade do fazer do poema. A fecunda contradição de Antero, «entre a neve do luxo e a leve, rigorosa seda/ Do Infinito» (p.23), é a do aristocrata tentado pela luta do povo, o homem com posses que quis aprender o mister de tipógrafo, que mergulhou nas lúgubres condições do operariado – intoxicado por «ilusões de proletário» (p.22) –, mas que se deixava enlevar pelas miragens do ideal – «Do mundo vário, da turba hostil que sempre desfalece/ Como a areia e a água num sonho/ Embevecidas» (p.20). Uma contradição cabalmente enunciada, por exemplo, num verso em que «o corpo da mente» (p.13) une, conciso, pólos discordes, de uma rede existencial e poética em malha bem apertada no poema. A neurose de Antero – um passante espectral em adiado, permanente, «turismo da morte» –, a neurastenia, como se diria, então, é disposta no poema em esquiços narrativos, evocativos de um Antero «enfermo de feminina doença» (p.28), remexidos pela disposição desreguladora dos versos.

- Hugo Pinto Santos

Até breve

Amigos,

Na vida existe um tempo para tudo: escrever num blogue, escrever um livro em papel, etc. Por agora, vou deixar "o melhor amigo" um pouco de parte. Estou à procura de um laboratório mais silencioso (talvez seja uma forma de solidão) onde possa escrever os meus poemas.
Escrever num blogue é, em meu entender, um processo de escrita e de aprendizagem. Nunca senti pudor em mostrar a fragilidade da construção de um verso, comum a todos os poetas.
Boas leituras e uma vida muito feliz com pouco circo e um profundo sentido da poesia.
Abraços,
Rui.

quinta-feira, outubro 28, 2010

"con este poema no tomarás el poder"



A Saudade no Vento


O Pai trazia flores para casa
como se trouxesse os campos
e neles nos ensinasse o valor da vida e da beleza,
o orvalho das manhãs, a canseira do vinho,
o Japão das ameixas e as raízes do sonho.

Porque sabia que os poemas se escrevem com poucas palavras
– sempre as mesmas –
e que a linha do horizonte é uma veia perdida,
a única verdadeiramente necessária,
a que nos leva o sangue de viagem
à lonjura que há dentro de nós.

E, com as flores, o Pai trazia frutos
carnudos, doces, suculentos
como se trouxesse o Verão, a Paz, a Alegria,
uma sesta à sombra da enorme laranjeira
de madeira odorosa, espessas folhas verdes
e cem sóis comestíveis pendurados nos ramos.

Na outra mão, o Pai trazia livros
e as paredes da casa aprendiam o mundo,
quase todo invisível, quase todo impossível
a quem nunca anteviu o futuro de tudo
numa romã morrendo
ou nadou pelas mãos de uma mulher aquática.

As duas mãos repletas, o Pai
trazia, ainda, espalhada pelo corpo, a tristeza das almas
esquecidas de si mesmas na mordaça do tempo,
insensível à morte do nosso amor primeiro,
o amor da liberdade sem palavras pelo meio.

O Pai trazia o hálito do olvido comprado
na taberna da esquina mais esquecida do mundo,
por entre espectros vivos da cidade ambulante,
neles depositada sem esperança de resgate
mas como quem se entrega ao colo de uma puta,
à falta de outro colo tão sujo e inebriante.


Porque também sabia, como coisa mais certa,
o lodo que há no leito dos rios mais cristalinos
e lhes permite alimentar os peixes.

O Pai trazia sempre o cardo e a balsamina,
um verso de palavras com um sabor de antanho,
que tombam como chumbo num algar que há no peito
e lhe fazem vibrar as cordas mais estranhas
da sua água última infestada de ardis.

O Pai trazia, enfim, um homem como os outros,
mas não porque quisesse – acontecia, apenas,
que este lhe preenchia a silhueta breve,
mesmo quando dormia um sono sem repouso,
condenado que fora ao pouco mais além
que há nas flores e nos frutos, nos livros, no bagaço,
nas putas, nas palavras antigas e pesadas
dos santos mais insones dos dias mais iguais.

Só não trazia ódio, nem rancor, nem desejos
mesquinhos e egoístas como o fausto, a preguiça
e a vaidade senil da frase derradeira
com que selar, para sempre, a caixa da partilha.

Porque sabia, ainda, que a certeza é um veneno
capaz de asfixiar o fôlego de lume
em que as vozes se fundem e se fazem sagradas,
indiferentes à crítica de qualquer razão bruta
que não saiba o que é a saudade no vento.

- Miguel Martins
in Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia), Língua Morta

quarta-feira, outubro 27, 2010

Campo dos infelizes

Farto da minha busca de ilhas,
rebanhos mudos, verde morto,
quero ser margem, ser baía,
de belos barcos ser um porto.

A minha praia quer sentir-se
pisada a vivo com pés quentes;
queixa-se a fonte a oferecer-se,
quer refrescar sedes ardentes.

E tudo quer a sangue estranho
subir, ir afogar-se a esmo,
até um outro ardor de vida,
nada ficar quer em si mesmo.

- Gottfried Benn
(tradução de Vasco Graça Moura)
in 50 poemas, Relógio D'Água

Ameaça

Mas sabe-o:
Vivo dias de fera. Sou uma hora de água.
À tarde isto adormece-me as pálpebras como floresta e céu.
O meu amor sabe só poucas palavras:
Tão bem se está junto ao teu sangue.

- Gottfried Benn
(tradução de Vasco Graça Moura)
in 50 poemas, Relógio D'Água

Nós, os ricos

No blogue do Jesús Jiménez Domínguez, a propósito de um post que referia o lançamento do último número da revista criatura, surge o seguinte comentário:

Se fosses português e conhecesses bem os tipos que estão por detrás desse projecto, se soubesses que não têm o menos carácter e que se auto-publicam, criando até uma editora para o efeito, decerto não terias muito orgulho em constar junto deles: são gentinha, rica que compra tudo e todos, excepto honestidade e ética pois ignoram o que seja.

O tipo que escreveu isto anda a apertar o cerco, multiplica-se em esforços e por vários blogues com acusações sempre acutilantes e, como aqui, prefere não se identificar, o que seria, aliás, desnecessário quando o que importa não é saber quem diz o quê mas apenas se o que diz é ou não justo. E sim, o anónimo, seja quem for, revela finura e perspicácia (se calhar é poeta), não lhe escapa nada. Temos gasto somas astronómicas, comprámos muitos dos leitores de poesia portugueses (vá lá que não abundam). Os críticos juntam-se-nos nos bolsos, tilintam lá dentro como trocos. Se é desonesto? É, alla Capone. E a ética? Para que quereríamos essa merda? Nós o que queríamos mesmo era plantar a pose, vir dizer ah e tal, umas cenas e coiso, profundo..., e pimba: é poesia!, embrulha. Já estávamos fartos de gastar tudo em viagens, putas e drogas. E é isso, está tudo a ir mesmo mega nice. Antes, não sabíamos o que era a felicidade.

____(clica a imagem para aumentar)

.

Os conquistadores

Between my finger and my thumb
The squat pen rests.
I'll dig with it.

Seamus Heaney

Os conquistadores
desembarcaram na praia com o seu armamento
tecnológico, com as suas doutrinas soporíferas,
com o seu opulento vestuário impermeável,

e nós, de início deslumbrados,
deixámos que nos enchessem os olhos de adornos
e nos ocupassem o espaço dos sonhos.

Agora lá estão, nas nossas casas.
Deitam-se nas nossas camas, afagam
venenosamente o cabelo das nossas amantes
e pegam os nossos filhos ao colo.

Que faremos nós, crentes da arte da vida,
tão sós e tão dispersos pela floresta?

Uma palavra não basta,
escavar com a caneta não chega.

- Paulo Tavares
in Ítaca, n.º2, Coisas de ler

terça-feira, outubro 26, 2010

-
Like the train's beat
Swift language flutters the lips
Of the Polish airgirl in the corner seat,
The swinging and narrowing sun
Lights her eyelashes, shapes
Her sharp vivacity of bone.
Hair, wild and controlled, runs back:
And gestures like these English oaks
Flash past the windows of her foreign talk.

The train runs on through wilderness
Of cities. Still the hammered miles
Diversify behind her face.
And all humanity of interest
Before her angled beauty falls,
As whorling notes are pressed
In a bird's throat, issuing meaningless
Through written skies; a voice
Watering a stony place.

- Philip Larkin
XII, The North Ship
3

Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rasto
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois...serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

- António Franco Alexandre
in Duende, Assírio & Alvim
Emancipei-me no ritual.
Vestira-me a rigor para encontrar no teu corpo o teu melhor.
A minha vaidade residiu sempre neste gesto: nunca desprezei a indumentária,
O momento em que sinto que estou pronto a encontrar-te, para te perder, muito provavelmente (há muito de queda no modo de vestir, existem sombras no teu corpo quando te despes nesta noite de frio).

Lá fora, flores despontavam em polifonia.
Tinham deixado a adoração dos deuses em colectivo;
Abraçavam agora a individualidade
(tudo isto por causa de um programa de Pedro Amaral,
Onde passei a admirar Palestrina, neste meu véu diáfano
Que, de fantasia, terá muito pouco
Apesar da linha canónica de vozes que nunca terão existido
Ou que foram apenas registo em monodia).

E deixo-te, leitor, neste encontro ou desencontro.
Não sei se escutaste o que eu disse. Não sei se ouvi
O teu sussurro no cerejal ou quando procuras adubar os campos
Com os Nitratos do Chile, que compraste na loja que já não existe.

Falaremos mais tarde, se quiseres, do resultado das colheitas.
Por agora, deixo-te com a música
Ou seja, queria muito que te revelasses,
Que fosses como as plantas que despontam do anonimato para a autoria
Para serem, mais tarde, aquilo que tiverem de ser:

Flores violentas,

Rosas aveludadas.

Uma qualquer coisa neste grito chamado Mundo.
Eu escrevo muito bem
Mas dou tareia na mulher,
E daqui a 100 anos
Apenas dirão que fui um bom poeta.

segunda-feira, outubro 25, 2010

-
So through that unripe day you bore your head
And the day was plucked and tasted bitter,
As if still cold among the leaves. Instead,
It was your severed image that grew sweeter,
That floated, wing-stiff, focused in the sun
Along uncertainty and gales of shame
Blown out before I slept. Now you are one
I dare not think alive: only a name
That chimes occasionally, as a belief
Long since embedded in the static past.

Summer broke and drained. Now we are safe.
The days lose confidence, and can be faced
Indoors. This is your last, meticulous hour,
Cut, gummed; pastime of a provincial winter.

- Philip Larkin
XXX, The North Ship

Fábrica de arroz

Quando deixei a pequena e banal aldeia,
Larguei um morteiro que explodiu e quase matou uma égua.
Coisas destas, como um estrondo
Só se ouvem em tempo de chuva, na planície
Onde morri de amor e pneumonia
E a minha mãe chorava e torcia as mãos
Por mim e pela vida manchada de salgueiros
À quarta rua em frente.

Prometeu 15 escudos à minha cura
No rio lavado
De sável, ao qual respondi sem certezas

Quero a vida toda, sem retalhos.

Trinta anos depois,
Ainda quero o que sobra
Ao rio que foi pintando sabão.

Ode que ferve

…………………………………………………………………………………………

Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea
à noite com muitos pirilampos acesos:
fervem e cruzam-se todas as linhas -
uma pirâmide de olhares cruzados em fogo,
muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,
linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade
e caio rotundo para o chão -
sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o
Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro (Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a
Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –
O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos túneis, contigo em cada esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pulsos – a injectar o sol líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo – Sinto o calor de todos os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca, quando te abraço faço um pacto com a Vida
A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futuristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados
estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos operários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos a tua boca os teus dentes os teus pulsos os teus medos as tuas inseguranças as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos deste Verão – continuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro
Vejo por trás de ti
Por trás de nós
Por dentro de nós,
a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve
a noite láctea que te atravessa o peito de Calor
Ode que ferve e liga pelo skype,
nado por ti adentro

Dizia-se em Oachaca

Falava-se em Oachaca da tua sede e de uma menina que injectou petróleo no peito – Cristalizou da sua boca um líquido em fogo a formar-se no canto do lábio em ponto de açúcar, em ponto de sol e fuga e conjunto de limões e conjunto de homens que acedem os faróis: e descia da sua boca, pela casa, pelo chão, descendo as escadas, descendo o passeio, descendo a montanha, e pela montanha abaixo descia um sol líquido adocicado pela memória de todos – toda a memória do mundo a descer como um degelo solar pela montanha abaixo, todas as montanhas abaixo: À beira do mar pensava-se que o Vesúvio tinha irrompido; Todos saíam para os seus trabalhos e acendiam todos os faróis vermelhos que anunciam a nova era e os faroleiros entravam com uma mensagem nova, e as mulheres dos faroleiros iam aos faróis levarem um tupperware com sopa e trazer a roupa suja para levar, e sacavam a roupa suja e voltavam a levar a roupa suja. E faziam amor com eles no cimo de todos os faróis. E da montanha descia a memória em direcção ao mar, em ponto de sol, em ponto de fuga adocicada: Fizemos um pacto com a vida e com tudo quanto flui. A santa injectou petróleo e cristalizou da sua boca um fio que caía ardente – Todo o sol, carregado de sal e doçura a entrar na veia de cada heroinómano, de todos os amantes… Iam para perto dos faróis: às seis e trinta: por baixo da ponte da Arrábida um carro estacionado com dois amantes, os vidros embaciados. Depois ele abre o vidro e acende um cigarro de haxixe, o vento do mar entra-lhe no carro e bate fresco e quente ao mesmo tempo na cara dos dois. Ela baixa-se, encosta-se contra o peito dele. Sente-lhe o coração. Leve e seguro. Ele passa-lhe suavemente as mãos pelos cabelos. Beija-lhe as orelhas. A menina em directo para a CNN a injectar leite condensado no peito para afastar todas as nuvens que são rios inteiros em forma de vapor a flutuarem. Não era o quê? Dizia-se o quê? Em Oachaca. Falava-se de febre e limões, de beijos na boca que podem não acabar, de línguas entrelaçadas, de mãos dadas, de mergulhos no mar. Falava-se de Pedro Abellardo e Heloísa, de Mariana Alcoforado e de Alejandra Pizarnik.
Diziam as raparigas de cabelo curto, com a boca cheia de cerejas negras, que o sol podia um dia não vir. Os Atlantas esperam-no, fazem um pacto com ele, nós com a vida. Créme de la creme pela montanha abaixo. O padre de Hiroshima a apanhar o sol no fundo da montanha. O padre de Hiroshima a meter um bocado na boca. A beber o degelo: a apanhar as sombras do chão. A prendê-las com molas no estendal - E o padre de Hiroshima, como a mulher dos faroleiros e dos cortadores de carne,, a estender também a sombra dos cogumelos e dos prédios que derreteram para o chão e a sombra dos lírios e dos corvos e a pegar fogo com o seu isqueiro, às sombras das girafas, de todos os homens, animais, plantas e coisas: Adora, como todos a palavra “húmido”e o seu deus não é palavra e não se escreve por palavras e não sabe ler nem escrever. E ler nem escrever ajuda a encontrá-lo e ler e escrever não é nenhum deus: Dizia-se em Oachaca que o sol viria sempre e isso chegava aos homens que levavam os seus burros pela manhã nos caminhos de Oachaca. Passava um carro, um camião, os dois amantes por baixo da ponte Arrábida. Vão à bomba de gasolina comprar tabaco e cerveja em lata. Voltam para o carro abraçados. Dizia-se em Oachaca que o sol lhes ia entrar no peito: Dizia-se em Oachaca que nós somos todos os outros. Uma roleta russa de mel, para diabéticos enquanto descem flocos de neve para dentro das bocas negras. Um nevão que cobre África. Falava-se em Oachaca da minha vontade de te abraçar. Falava-se de um derrame, na artéria do coração, um derrame de petróleo doce e branco como o leite condensado ou o leite gordo das baleias. Um petróleo injectável: Falava-se disso em Oachaca enquanto todos os carros passavam para o trabalho. Falava-se com febre e as mãos a tremer, outras vezes com calma e com a ajuda do mezcal e tequilla. A sombra dos lírios violava a sombra dos homens. E a febre dos homens entrava nas mulheres: Dizia-se tudo isso em métrica sáfica e escrevia-se nas paredes dos cafés, das casas, das escolas e de todos os edifícios públicos, o quanto te Adoro. O Padre de Oachaca ouvia e secava as sombras e secava os rios e esvaziava os mares com o seu balde de plástico: um trabalho como o de Sisifo. De cada vez que se contém o choro os rios sobem mais um pouco. Falava-se em Oachaca da febre dos búzios, de pernas entrelaçadas, de braços entrelaçados, de estrelas entrelaçadas. As mulheres dos pasteleiros acordavam a meio da noite, com as suas meias de lã grossa, para virem abrir a porta à estrela que com todas as suas pontas batia em cada porta, e entrava dentro das casas: Uma estrela feita de solidariedade, que cresce quando as pessoas se abraçam, que é só febre, sensação e calor. Contavam-se histórias da estrela, de todos nós, novelos inteiros, falava-se de cristais líquidos, do sonho das gémeas siamesas, da febre que causa o degelo: de tudo isso se falava em Oachaca.

Os principiantes no séc. XXI

os cigarros, em muitas páginas, são um erro de principiante;
felizmente, não falo muito do silêncio nem da noite.


Miguel-Manso

Agora fumamos charutos pela manhã
enquanto fazemos um chinfrim
que mata de susto os galos.
-

Não há favores

Quem quer editar os meus poemas?

domingo, outubro 24, 2010

Bar Velho

Lembras-te do número do quarto?
Ficava no prédio da rua cinzenta.
Havia uma garrafa de scotch na mesinha de cabeceira
E da janela viam-se os atacadores de sapatos grossos
E arma em punho.

É engraçado - o rapazinho parecia um pateta
Que ralava os nervos, de minuto a minuto
Porque tinha saído da escola e não gostava desses
Modos pedagógicos da permanente dos 40 anos.

Foi simpático ter vindo cumprimentar-me
À cidade, onde fui estudante míope
De fórmulas escritas
E de noites sem dormir,
Por causa da dispensa de favores
Em lençois manchados da calculada carícia
E da nobre solidão da luz do gasómetro.
Pois foi.

Estive muito tempo por outras paragens.
Apaixonei-me por uma mulher
Que colocava a hipótese de não gostar de mim
E depois gostei do marido.
Pelo menos, apanhei um táxi
E rasguei o fato de corte turco
Ao dar meia volta à minha vida
Fugindo dessa guerra onde se fecha suavemente os olhos.

Depois andei por aí
Na meiguice do vento e das tabernas,
Onde se aprende as coisas da terra.

Eu gostava da vida.
E as coisas passavam em filme
Nos vagos movimentos
Da película calada desses primórdios.

Vai um copo de vinho, leitor?
Perguntava o bibliotecário das lunetas.

Vai sim, meu amigo.

Deixe-me fechar o livro.
-
The bottle is drunk out by one;
At two, the book is shut;
At three, the lovers lie apart,
Love and its commerce done;
And now the luminous watch-hands
Show after four o’clock,
Time of night when straying winds
Trouble the dark.

And I am sick for want of sleep;
So sick, that I can half-believe
The soundless river pouring from the cave
Is neither strong, nor deep;
Only an image fancied in conceit.
I lie and wait for morning, and the birds,
The first steps going down the unswept street,
Voices of girls with scarves around their heads.

- Philip Larkin
XVI, The North Ship

O detalhe das palavras*


Um dos versos iniciais do poema The Rival, de Sylvia Plath, cumpriria eficientemente a função de epígrafe aos melhores momentos de Small Song (Averno, 2010): “you leave the same impression of something beautiful, but annihilating”. O livro tem, neste sentido, uma aproximação mais óbvia a Avulsos, por causa (2005) do que a Um Circo no Nevoeiro (Averno, 2009). A principal diferença entre Small Song e Avulsos, por causa, é que, enquanto a separata da revista Magma recorria, com maior ênfase, à primeira parte do verso de Sylvia Plath, este livro mais recente reparte a beleza (“pela manhã, junto as pétalas tenras/caídas no lençol, e rezo baixinho,/com os pardais um verso branco.”) e a aniquilação (“oiço ainda os corpos a vincar a noite,/um campo minado de corações tristes/explodindo o rosto na parede”) numa tensão substancialmente mais ponderada.
A morte – e não só a de Lhasa de Sela, embora esta seja o detonador do livro – é uma das notas repetidas ao longo de Small Song. Surge nos seus traços mais intuitivos e, por isso, mais espectáveis, como a ausência (“sabemos que uma voz não volta/a coincidir com o seu rosto”) ou a sua aproximação no corpo (“o tempo, espelho tosco com que/fintamos a morte, apontado para nós/como a lança do arqueiro;/hesita, por um instante apenas,/para depois avançar, implacável/ e sem retorno, na nossa direcção.”). Neste aspecto, Renata Correia Botelho não consegue escapar de um espaço bastante reconhecível na poesia portuguesa mais recente. Por vezes, no entanto, consegue surpreender em detalhes mais inesperados, com anotações que denotam, de igual forma, uma sensibilidade individualizadora e um investimento na reflexão, como, por exemplo, no momento em que reconhece, com uma ideia simples mas desarmante, o impacto da morte na capacidade de a expressarmos num tempo exacto: “é o que acontece à alma,/em dias destes, quando janeiro/ só se pode dizer em março,/ sem primavera.”.
Num livro dividido em duas partes (A minha rua e O anjo errante), os versos que se acabaram de citar abrem a sua segunda parte, ao mesmo tempo que provocam uma viragem que redirecciona o livro para o seu verdadeiro aspecto triunfal. Até Rising, o poema que contém esses versos, os textos correm o risco de ou parecem fungíveis ou não serem mais do que aproximações àquilo que a segunda parte melhor consegue expressar. Excepcionam-se, porém, alguns versos em que a especial capacidade da autora para conjugar efeitos líricos bem executados com observações delicadas dos detalhes aparece de forma mais evidente ao leitor: “fui fechando atrás de mim/as alamedas de Manderley,/ e saí para comprar um magnólia” ou “dizias-me, com um cigarro/ e um rosto por acender,/ como quem se prepara/para um golpe de estado.”.
Reeditando o enredo com que se iniciou este texto, a autora escolheu uma citação de Jorge Luis Borges para inaugurar a primeira parte do livro: “Yo soy el único espectador de esta calle;/ si dejara de verla se moriría”. É raro a opção por uma epígrafe conseguir captar tão profundamente a força do livro que dela se serve. RCB, embora não seja a única espectadora dos pequenos detalhes que por aqui vão surgindo, mostra-se capaz de notar e encadear, de uma forma tão singular e aguda, os terramotos que, por vezes, abalam o quotidiano de cada um e que se manifestam em factos tão comuns, como a perda de uma referência que nos habituámos a ter como garantida. Sem Small Song, é bem provável que grande parte desses detalhes não se votassem a outra coisa que à ausência.

Nota: 4 estrelas
*Crítica publicada no Ípsilon de 22 de Outubro

Uma canção para Lhasa de Sela*

Não tem sido comum, na poesia portuguesa mais recente, um livro ter no seu centro uma história tão honesta e tão fortemente impressa no seu propósito, contra o imediatismo a que a sua autora, Renata Correia Botelho (n. 1977), se poderia muito bem arriscar ao publicá-lo apenas nove meses depois da morte de Lhasa de Sela – cantora nascida nos Estados Unidos –, o acontecimento que serviu de ignição para o livro mais recente da poetisa natural de S. Miguel, Açores: Small Song (Averno, 2010).
Este é o segundo volume de poemas de Renata a ser publicado, no espaço de um ano, na editora de Manuel de Freitas e Inês Dias. A sua estreia em livro, na Averno e em edições de maior tiragem e distribuição, foi Um Circo no Nevoeiro (2009), com ilustrações de Luís Manuel Gaspar. Anteriormente, a autora já colaborara com a mesma editora, através das suas participações com poemas e, num dos casos, um conto, nos números 2, 6 e 12 da revista Telhados de Vidro, e já publicara outros dois livros: Avulsos, por causa (primeiro em edição privada e depois em separata da revista Magma número zero, 2005) e 21 Haiku com Asas, Urbano e Cabras (edição da Galeria 111, 2008), este último em parceria com Urbano, o ilustrador de Small Song, e Emanuel Jorge Botelho, pai da autora e, também, poeta com obra publicada.
Renata Correia Botelho vive em S. Miguel, Açores, o que condenou à partida a possibilidade de a entrevistar pessoalmente. O recurso à troca de e-mails e à conversa por telefone foi a solução óbvia e, curiosamente, aquela que mais se aproxima à forma primordial de participação da autora no meio literário português. Nestes tempos de correios electrónicos e blogues, Lisboa e S. Miguel podem ser exactamente a mesma cidade, tudo depende daquilo que o poeta esteja disposto a diligenciar nesse sentido. Prova disso mesmo é notoriedade que a poesia de Renata conseguiu alcançar no quadro dos poetas mais novos, desmistificando profundamente as supostas dificuldades insuperáveis de publicação e divulgação para aqueles que vivem fora dos dois grandes centros da cultura literária portuguesa, Lisboa e Porto.
Qual é, então, a perspectiva que Renata Correia Botelho tem sobre a sua situação periférica, a sua insularidade e o impacto que isto tem na sua produção poética? A sua resposta acaba por ser mais ou menos expectável: “apesar de todas as condicionantes, como ter de viajar imenso para matar saudades de um quadro ou de um rio, viver nos Açores, longe do mundo mas perto do céu, é uma bênção.”. Depois, recordando Cecília Meireles, diz que “os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros”. Árvores e pássaros povoam o vocabulário deste livro. A poesia portuguesa que a precedeu tratou de carregar de significados e referencias estas duas palavras. Basta-nos pensar em Eugénio de Andrade. A juventude da autora, felizmente, não a impede de construir, em pé de igualdade com as figuras tutelares, um espaço próprio em redor destas palavras: “os pássaros morrem sempre/ de noite, e os sinos tocam/ os seus nomes pela madrugada.” ou “fingindo a vida e logrando/ a morte, recolhendo à terra,/ passarinho, sem nada temer,// recolhendo à terra.”. Ainda em relação aos Açores, Renata refere que a sua poesia se constrói, numa primeira camada, no seu contacto intenso com a natureza e a sua ilha funciona, aí, mais como uma montra privilegiada do que como uma limitação.
Mas regresse-se à história deste livro. O ponto de viragem de Small Song e, correspondentemente, da sua própria estrutura, foi a tarde do primeiro dia deste ano de 2010, data da morte de Lhasa de Sela, encapsulada num dos poemas centrais do livro, intitulado de Rising: “hoje é início de janeiro/mas só consigo escrevê-lo/dois meses depois: morreu/a cantora Lhasa de Sela, / li no canto do ecrã,/ assim, em letra corrida,/ ainda a manhã mal tinha/ chegado às mãos.”. Foi este “acontecimento devastador”, confessa Renata Correia Botelho, marcado pela perda de alguém que lhe era tão próximo, que acelerou tudo, que tornou urgente a conclusão de um livro que era, até então, pouco mais que uma “ideia vaga” contida em poemas escritos e, em alguns casos, publicados anteriormente. E Rising, o poema atrás citado, foi o primeiro nessa viragem e aquele “que acendeu todos os outros, como uma vela”.
Há, nas palavras da autora, a permanente sugestão de uma certa co-autoria deste livro, a qual se passa a dois níveis. No primeiro deles comanda a voz de Lhasa que, pela sua ausência, fez da premência de uma memória a necessidade de um livro. No segundo nível intervém a irmã de Lhasa, Sky de Sela, um dos destinatários da dedicatória do livro. Após a morte da cantora e motivada pela necessidade “de a sentir para além das canções”, o contacto postal com a irmã, Sky de Sela, pareceu a Renata uma forma óbvia de manter a sua ligação com a voz da cantora que, durante tanto tempo, a acompanhara à distância. Quando os poemas começaram a surgir, pareceu-lhe que estes apenas fariam sentido se Sky os pudesse ler, pelo que se dedicou afincadamente à tarefa de traduzir o livro para francês. A passagem dos poemas para outra língua e, também, a leitura atenta da irmã de Lhasa colaboraram para que o livro nascesse uma outra vez: “foi aí que o livro começou a existir realmente – quando senti que, através da Sky, tinha a Lhasa ali tão perto, a mostrar a cada verso o seu verdadeiro caminho.”.
Não se pode deixar de notar que esta história ultrapassa a mera curiosidade, cedendo ao livro um coração que lhe permite escapar, ao mesmo tempo, à artificialidade de muitas construções narrativas que servem de base a livros de poesia, ao imediatismo tão à moda do século XXI e à pura pornografia da morte. Quando muitos elogios se atrevem a recair sobre poetas que cultivam as curiosidades ou em que alguns poetas parecem esperar apenas que apareça um corpo para depositar naquele poema da morte há já muito escrito, o livro de Renata Correia Botelho, pela sua honestidade e pela forma como aborda a morte de Lhasa, a partir daquilo que dela permanece vivo – a família e as músicas – não é apenas mais uma adição a essa biblioteca negra que precede qualquer poeta e torna-se, por isso, digno de destaque.
É preciso destacar outro ponto, tão marcante em Small Song como em obras anteriores de Renata Correia Botelho: a interacção entre os poemas, as ilustrações que lhes servem de apoio e o aspecto visual dos livros. A propósito da composição geral dos seus livros, Renata destaca a liberdade criativa de que tem podido gozar na escolha do artista com quem quer partilhar o trabalho, das ilustrações, do formato e, até, do papel e do tipo de letra. Todos estes detalhes fazem, para ela, parte da alma dos seus livros, principalmente as ilustrações. Confessa-se fascinada pelo processo de pintar um quadro: “as várias camadas de tinta, as cores que se sobrepõem para criar matizes, esse aspecto implacável da primeira pincelada sobre a tela. Acho que escrever não é diferente e compor música também não deve ser.”.
Num livro que coloca como primeira urgência a memória de Lhasa de Sela, que lugar ocupam as suas músicas ou, melhor, que lugar ocupa a música? “Os meus livros sempre tiveram a sua música imaginária, aquela que oiço fora e dentro”, assim nos apresenta a autora esta intimidade do seu processo criativo, “As canções de Lhasa foram, desde o início, a presença mais forte. Porque sempre foi muito claro, na minha maneira de habitar o mundo, que há as músicas de que gosto, há aquelas que até amo, e depois há a Lhasa”.
O corpo e a memória encontram-se em rota de colisão, um dia embatem e, depois, o seu caminho nunca mais se há-de voltar a cruzar: “eu nem me atrevera a falar disso:// da morte, da solidão a abater-se,/ como uma longa noite,/ quando sabemos que uma voz não volta/ a coincidir com o seu rosto.”. Esta é uma das grandes tragédias da nossa condição, tão exaltada quanto mutilada por demasiadas histórias, imagens e músicas. As melhores histórias e imagens, as melhores músicas acabam, quase sempre, por disparar na nossa direcção os destroços desta inevitabilidade. É por isso que, como escreve Renata Correia Botelho, “há músicas que só podemos/ ouvir de joelhos.”.

*Texto publicado no Ípsilon de 22 de Outubro

Arrumações

Há muito tempo que tenho um caixote do lixo e uma árvore bonita. São coisas que não rimam. Mas faz-me falta um sítio onde coloque as folhas secas dessa árvore que fui regando, enquanto conversava com o vizinho do cão doente. Isto de termos um caixote, parece estranho. Eu - que nada deito fora - abro a tampa e percebo o quanto sou cruel com a árvore linda, mais bonita da minha vida.
E quando fecho a tampa, fico feliz, pois guardo o melhor para mim.
Num caixote do lixo.

O outro homem

Eu estou nas costas da tempestade.
O vento foi tocado por uma brisa mais forte
E recolhi-me na cabana de Pandora
Prevendo os estragos na casa que José
Habita com a mulher gorda.

Eu estou no vento dessa casa.
Sei de tudo entre a mulher de José
E o outro homem, que sou eu.

E quando José chega a casa
E pressente habitação,

Viro costas à tempestade.

O Sítio

A vida é um simples murmúrio.
Foi ter tocado na brasa que se acendia no molhe
Onde os barcos atracavam e os rostos acendiam farois
Nesse tempo novo
Em que olhar deitava vistas a uma cama
E às veredas verdejantes de pinhais deitados na nortada.

A vida. Tanto e tão pouco
Dessa água onde nasço e posso morrer
Em cada dia.

Tão simples ter sentido a brisa cortando a face
E as sombras de cada manhã
Dessa antiga madrugada.

O pão novo. Esse sol.

O carroceiro caminha só. Leva o cão numa trela
E roupa de estampar
Como a dos pescadores, que se afoitam
No canhão da Nazaré e no nevoeiro
De Dom Fuas
E
Talvez seja um pouco tarde.

Vou dormir,
Antes que a mulher do pescador
Acorde e olhe o mar, a praia, essa ideia de tempo,
Um rosário, a Igreja onde casou com esse homem
Que é do mar.

E é tudo. Boa noite. Não acordem.

sábado, outubro 23, 2010

sexta-feira, outubro 22, 2010

Amanhã

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjrAPsMFOU6IJuwSfWBtFvgXIApD_bNEfK6zz8IXLN064BjAfMgangFM4AeXFHKsE0oFV11lf3AlNwx3WTl7-J2vrYk7QDGuucnUs1FcXysTcqq4QjeoVrmvYcS5E2HcKc6uF20/s1600/porta5.jpg

Dever do poeta

Àquele que não escuta o mar nesta manhã
de sexta-feira, e encarcerado está dentro de algo,
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua ou mina ou árido calabouço...
a esse acorro eu e sem falar nem ver
chego e abro a porta da clausura
e ao abri-la um vago burburinho ouve-se dentro,
um longo trovão desfeito encorpora-se
ao peso do planeta e da espuma,
surgem rios rumorosos do oceano,
vibra veloz no seu rosal a estrela
e o mar palpita, fenece e continua.

Assim pelo destino conduzido
devo sem descanso ouvir e conservar
o lamento marinho na minha consciência,
devo sentir a pancada violenta da água
e recolhê-la numa taça eterna
para que aonde esteja o encarcerado,
aonde sofra o castigo do Outono
esteja eu presente com uma onda errante,
circule eu através das janelas
e ao ouvir-me o olhar levante
dizendo: como chegarei eu junto do oceano?
Então sem dizer nada transmitirei
os ecos rutilantes da onda,
uma derrocada de espuma e areais,
um sussurro de sal que se afasta,
o grito cinzento da ave do litoral.

E assim, a liberdade e o mar responderão
por mim ao sombrio coração.

- Pablo Neruda
in Plenos Poderes, Dom Quixote
No fim de qualquer coisa (até de um olhar)
Há sempre uma pausa.
E nesse espaço em branco
E nesse espaço em branco,
Por vezes,
Hesitamos e mudamos de cor.
Eu pedi tanto à vida,
Que enganei-me na forma como ia fazendo perguntas.
É que as nossas questões
Não são as respostas dos outros.

Mas os rios estão misteriosamente cruzados
Nesta dúvida que alimenta
Este desencontro.
Eu sou a vida entristecida de Robert,
O falso justificador de verdades alucinadas.
Ligo o torno,
Escrevo no quadro branco dos profetas
E observo ilustre fotografia desse amor,
Em alameda de plátanos
E folhas caídas de rosas vermelhas.

Vou gostando de um caixote do lixo,
Forrado a plástico.
Não por ser de metal, mas pelo último destino
Que dei à toalha que limpou o teu rosto.

Gosto de ser importante, entre dois.
De estar à altura da minha vaidade, ou seja,
Do amor que debita códigos de sorte
E projecções pouco aritméticas
Dos corpos que vão abraçando
Uma espécie de apatia.

Eu gosto de sair de casa e de voltar.
E nesta decisão de abrir ou fechar a porta,
Cumpro as coisas derradeiras.

E regressei ao lugar de origem - esse ponto,
Lá fora (dentro de mim), a porta sempre aberta, que fechei
Antes de poder entrar nesse espaço
De onde se pode sair do inominável lugar.

Princípio do escuro

Acordei hoje como se fosse natural-
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem

Vês daí como tudo ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a libido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo,
encho-me, ao invés, de fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria a indagar
se são de facto compatíveis nossas
espécies, se nisso há inevitabilidade,
ou onde preciso das tuas carícias
nos anéis das cervicais ou dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.

- Margarida Vale de Gato
in O prisma das muitas cores, Labirinto

quinta-feira, outubro 21, 2010

A visita

Ontem dormia à noite – e, eis que desperto,
Sacudido dum vento agudo e forte,
Como um homem tocado pela Morte,
Ou varrido dum vento do deserto.

Acordei – era Deus, que de mim perto,
Me dizia: Alma céptica e sem norte!
É preciso que creias e te importe
Adorar o Deus Uno, Eterno, e Certo!

É preciso que a fé cresça em tua alma,
Como no inútil saibro a verde palma,
Verme! filho da Dúvida – Eis-me aqui!

Eu sou a Espada, o Antigo, o Omnipotente!
Crê, barro vil! – Mas eu, descortesmente,
Voltei-me do outro lado e adormeci.

- Gomes Leal
in Claridades do Sul, Assírio & Alvim

Crise lamentável

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente.
Não ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força num dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai:
– Não mandar telegramas ao meu Pai,
– Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
– Pôr termo a isto de viver na lua,
– Perder a “frousse” das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada...

- Mário de Sá-Carneiro

Soneto dum poeta morto

Achado nos seus papéis


Bem sei que hei-de morrer cedo e cansado,
Alguma cousa triste em mim o diz...
E vagarei no mundo, desterrado,
Como o Dante, chorando a Beatriz.

Pelos reinos, irei talvez curvado,
Como um proscrito príncipe infeliz,
Ou como o índio pálido e exilado,
Chorando o vivo azul do seu país.

Mas no entanto, ah! ninguém, ao Sol divino,
Abrasou mais as asas, derretidas
Ante as duras, ferozes multidões.

E ninguém teve a torre d’ouro fino,
Aonde, quais princesas perseguidas,
Morreram minhas doidas ilusões!

- Gomes Leal
in Claridades do Sul, Assírio & Alvim

Y los poetas acaban así: heridos, anulados, muertos-vivos, y por eso los llamamos poetas
¿Así? La crucifixión de algunos no es tal vez un sino sino un signo,
y es el equilibrio de otros su grandeza y su muerte,
y la fosforescencia de Yeats (Bizancio, como un gong en el crepúsculo) el precio que pagamos
por aquel cuyo nombre estaba escrito en el agua
Porque algún precio debe pagarse, podéis estar seguros: Eurídice yace aún muerta
sobre los conmutadores eléctricos y el azul de una sabia tibia como la caja de un piano de caoba.
El mundo de Orfeo es el de detrás de los espejos: la caída de Orfeo,
como el retorno de Eurídice de los infiernos

- Pere Gimferrer

quarta-feira, outubro 20, 2010

Quando ficas sozinho

Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
__________uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares tão sozinho.

- Ángel Crespo
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Selecção e Tradução de José Bento, Assírio & Alvim

Os pequenos objectos

Os pequenos pormenores da casa:
o fio abandonado no tapete,
o fósforo no chão,
a cinza,
que no ladrilho põe sua frágil contextura,
a unha recortada do menino
ao lado do sapato,
dão prazer aos olhos que, alheados,
coleccionam imagens de objectos inúteis.

Ama-se mais a mãe por esse fio,
e recorda-se o pai
pelo fósforo e a cinza
e o menino pela unha e o sapato.

Os pequenos objectos que se varrem,
que já ninguém apanha,
sumamente importantes, recordam-nos
os pequenos desgostos quotidianos
e os pobres prazeres, tão pequenos.

- Ángel Crespo
in A Realidade Inteira, Poemas escolhidos (1949-1990)
Selecção e tradução de José Bento, Teorema

terça-feira, outubro 19, 2010

O amor, suponho

Tenho andado a pensar em escrever
um poema de amor
dedicado à minha mulher,
a verdade é que não sei
porquê mas fico
incrivelmente triste e os poemas
de amor não me têm saído
suficientemente bem – ou talvez eu nunca
me tenha esforçado de forma séria –;
suponho que o amor
deve ser
como esses raríssimos instantes
de felicidade:
se por um momento
os vives
eu diria
que não é conveniente
andar a perder tempo
com poemas.

- Roger Wolfe
(tradução de Luís Filipe Parrado)
in Criatura n.º5
A devacle dos signos biográficos

Oh signos de ouro frágil que vertem sobre as trevas
Copistas miseráveis, calígrafos da névoa
Que nomeiam dos Outonos botânicas matérias
E cifram o meu voo em números e letras,
Eu nada tenho a ver com tais existências,
Por mais que me esconda debaixo dessas tétricas
Imagens do abandono e fotos bolorentas
Que mostram do meu corpo efígies já decrépitas

A história vai-se urdindo em rios sobre a terra
Que descem das cidades envolvidas em secreta
E lenta mansidão, por isso desvelam-me
Os símbolos que descem, à luz da decadência,
Mas nada me vincula a mim com essas velhas
Estéticas caducas, estúpidas misérias,
Que nunca olhei as luas, a luz das suas esferas
Querendo achar a essência histórica da era.

- Manuel Forcadela
(tradução de Luís Filipe Sarmento)
in Refutação da musa, Teorema

segunda-feira, outubro 18, 2010

-
Não posso, para ser sincero, dizer que o não entenda. Sei que a deseja como poucos. É óbvio no jeito como a segue e vigia à distância, feito um rapaz que envelheceu sem querer e que se viu sem desculpas para o fracasso de a não ter tido ainda. Basta ler-lhe nos lábios a constante sombra dela, o seu peso, a sua ausência. É impossível não reparar naquela ardência e ansiedade de quem precisa desesperadamente de se livrar da virgindade e anda dobrado de carregar para cima e para baixo com cestos de flores, bombons e postalinhos cheios de elogios trapalhões.
Aposto que sempre que a vê nos nossos braços tem de reprimir o impulso de a chamar de puta. Não quererá arriscar a pequena chance que julga ainda ter com ela, por isso chama-nos a nós de chulos. E assim somos nós que a rebaixamos, que a fazemos ridícula.
Guardará a memória de um beijo que lhe roubou, e posso imaginar a quantidade de vezes que leva a mão à face, ao lugar onde ainda lhe arde a bofetada que recebeu.
É triste. Não posso, pois, dizer que o não entenda. E é impossível fazê-lo entender que ela, como qualquer beldade, está cheia de direito de escolher com quem se deita.

domingo, outubro 17, 2010

Lançamento do n.º5

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgNwWzL6k4HO9sDTACwFhuopUGFLSZNy5wGr-6wZejz8t10FcFU0TNkvLzYWvSVu6SkCZE4HnXPiNS3zVhWDz3-QCDjV-h05O9Tsgb9rtXs9K-jl2Dqzr7ztrXhAv-fWA-vqPGq/s1600/criatura.jpg


Perda

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma viagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida

- Ernesto Sampaio
in Feriados Nacionais, Fenda

Tão pouco

Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas

Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo

Ser um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência

Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco

- Ernesto Sampaio
in Feriados Nacionais, Fenda

Para lavar uma criança

Só o amor mais velho da terra
lava e penteia a estátua das crianças,
endireita as pernas, os joelhos,
eleva a água, faz resvalar os sabões,
e puro sai o corpo respirando
o ar da flor e da mãe.

Ó vigilância clara!
Ó doce perfídia!
Ó terna guerra!

Já o cabelo era um emaranhado
tecido entrelaçado por carvões,
por serrim e azeite,
por fuligens, arames e caranguejos,
até que a paciência
do amor
instituiu os baldes, as esponjas,
os pentes, as toalhas,
e com âmbar perfumado, limpo, penteado,
com antiga parcimónia e com jasmins
ficou mais novo o menino todavia,
e soltando-se das mãos da mãe
correu a montar novamente no seu alazão,
buscando lodo, azeite, urinas, tinta,
ferindo-se e espojando-se entre as pedras.
E assim recém-lavado salta o menino pró mundo
porque mais tarde só terá tempo
para andar limpo, mas já sem vida.

- Pablo Neruda
in Plenos Poderes, Dom Quixote

Pedro Cardoso

Oração aos vivos para que sejam perdoados por estarem vivos


Eu suplico-vos
fazei qualquer coisa
aprendei um passo
uma dança
alguma coisa que vos justifique
que vos dê o direito
de vestir a vossa pele o vosso pêlo
aprendei a andar e a rir
porque será completamente estúpido
no fim
que tantos tenham sido mortos
e que vós viveis
sem nada fazer da vossa vida.

- Charlotte Delbo
(versão de LP)

O menos possível

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães

- Ernesto Sampaio
in Feriados Nacionais, Fenda

sábado, outubro 16, 2010

HOJE


18.30h, no Bar do Teatro A Barraca
apresentação de Maria do Céu Guerra
-

O tempo

Não se diga que não há coisas verdadeiramente boas na blogoesfera, o que é preciso é afastar a teimosa mediocridade e o seu lixo, que nubla a superfície. Fica mais um exemplo:

A Angustia

Final do dia e vou até Betanzos. O passeio é agradável. Os diversos tons de verde misturam-se e passo por uma terra que se chama A Angustia. Depois de fazer o que tenho a fazer e depois de elogiar uma casa magnificamente restaurada, a pedra, os barrotes de madeira, o minimalismo, a suficiência energética, sendo tão convincente que até me surpreendo, aproximo-me do rio. A verdade é que a convicção deixa-me esgotado. E animo-me quando vejo os barcos abandonados, apodrecidos nas margens do rio, com as tábuas ressequidas pelo sol e algum sal da foz. Não há uma única mesa, com quatro cadeiras, na margem do rio. Para velhos beberem cerveja toda a tarde. Animados porque nunca mais navegarão. Como os barcos. Abandonados nas águas quietas. A ruína é que é a medida pensada à nossa escala.

[Samuel Filipe]

sexta-feira, outubro 15, 2010

Rastilho

O padre José de Anchieta, no fatal dia
4 de Agosto de 1578, teria dito
ao capitão Miguel de Azevedo que
el-rei perdera a batalha, mas não morrera,
e que, ao cabo de muitos anos,
voltaria a tomar posse de seu reino.

Diferentemente dos homens, as mulheres
não espalhavam profecias, acolhiam
sinais, revelações, coisas mais conformes
à modéstia feminina, imagens escondidas
sob uma camada grossa de lama
e sedimentos, ou então num buraco
da parede, para serem achadas noutro tempo,
como provas de um antigo povoado.

Deste modo, a incisão cutânea ficou feita.
Ao princípio ninguém sabe como vai o corpo
reagir. Mas no fundo as pessoas
são sentimentais. Pelo menos algumas são.
Depois a corrente de ar propaga
o fogo. De cima vê-se melhor.

- Vítor Nogueira
in Quem diremos nós que viva?, Averno

The Town (2010)


7/10

quinta-feira, outubro 14, 2010

Lamento e exortação

Que chegámos demasiado tarde ao leito
da vida para qualquer sonho de emancipação
revolucionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma palavra em esperanto
e a lei o mero eixo onde gira o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.

Resta-nos perder a última ilusão: a de que
haja ainda espaço, nesta feira popular
da mediocracia, para uma escrita que não
seja celebração do estúpido, estridente
Carrossel do embuste, da Grande Roda
que nos entontece de riso (em voltinhas
de onde a alma sai torcida e sem emprego),
do Túnel de Horrores Publicitários, da Barraca
de Tiro em que fazemos de patos; espaço,
enfim, para que dois dedos de beleza se
entrelacem, ou dois dedais de inteligência
se toquem num brinde ao farrapo da verdade.

Quando percebermos também isto, amigos,
saberemos que a Gloriosa Era da Literatura
Ocidental chegou ao fim, derretida (como
aliás sugere o seu acrónimo) pelo aquecimento
da emoção global; que não viemos aqui
para tentar ressuscitar um moribundo
(como crêem os mais optimistas), mas sim
para animar um velório. Carpideiras somos,
de violino ao ombro. O funeral está na rua.
Se queremos brilhar ainda um pouco,
é agora ou nunca. Afinemos as cordas,
as lágrimas, em dó maior. Vamos a isto?


- José Miguel Silva

quarta-feira, outubro 13, 2010

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjqc8UHJ-ao6iCcD0joqH5YAFk1vOnHTI-sBSCA65Z2BwWHIMJDBbqBai4K7elJrVLhu9z2JPlxtmSirvzZhZM6NLEjAvKCoFCDPLQPCwTMLsHMDamkyZHJeQicsyL7NRMtgbcc/s1600/menor-ap.jpg
A casa não existe.
É uma invenção,
Uma ilusão burguesa e triste.
E como não há calor
(num quarto ou num salão) - rima tão bem - não há amor.

Sanguinhal

Eu vi a roda feita pelo sol
E conheço as manhãs nas searas e nos ombros da cidade.

Sou sempre atento ou desatento
E isso quer dizer que perco e ganho
Em cada jogada
Ao abrir a janela,
No dia que sucede a cada enterro.

Sou um gato de sete vidas
Indiferente ao amor, à dor (digo eu)
E já basta o que vi

Uma criança pela mão do avô, numa estrada comprida
Do Sanguinhal.

Dá vontade

Paralelo W

Largos largos largos LARGOS HORIZONTES
- não te recordarei. Há um país fatal,
existe uma zona de aventura, um segredo.

O amor possui o tempo - Ignora
que já não há velas nem os capitães
são agora donos de seus barcos.
Tudo que nos transporta participa
do nosso imparável movimento.

Ignora

que os ancoradouros são para navios
mas os navios partem
e por vezes não regressam

Todos os meus amigos são rosas brancas
todo o meu amor é ave lenta

No entanto

prefiro-me veneziano rápido
oferecendo anéis aos mendigos
vestir-me de rubro e negro para ti
ao som dos clarins
fluir viagem de flores súplice de perigo

os navios partem
por vezes não regressam e todavia
eis O SUL - uma palavra, um gesto
um lugar, um anel
- rápido som de clarim
Viagem de Flores
Perigo

este é o tempo em que morrem os príncipes
ao sol posto num final sereno
e se iniciam os ritos bárbaros
da Grande Velocidade

manchas no céu da noite
quebram e reunem seus corpos
em cósmicos espelhos
enquanto um mágico aceno de fluor
descreve a partida das nossas frotas
na imensidão azul escura
cristalizando no oculto um sentido
para a vida e para a morte
concretizando o movimento dos nossos músculos
- um brilho que cheira a limo e sal.

Sobre os cadáveres assim incorruptíveis
dos velhos príncipes desagregados no mar
passam os navios
e a geração angélica e terrível
talha o seu destino sobrehumano
onde a noite vai expulsar os astros
iniciar-se, e ter um nome diferente.

- Manuel de Castro
in PARALELO W, Edição do autor

roubado aqui

terça-feira, outubro 12, 2010

Manobras de Outono

Não digo: isso foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio-dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas cenas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-de-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

- Ingeborg Bachmann
(tradução de Judite Berkemeier e João Barrento)
in O Tempo Aprazado, Assírio & Alvim

segunda-feira, outubro 11, 2010

sábado, outubro 09, 2010

-
O mundo sem Joana parece aquele que vivemos juntos, mas não é o mesmo. Algumas pequenas diferenças fazem-me ver que as pessoas, os lugares, as coisas, já não nos são familiares. Enfrento, assim, o terror mais puro, quando as coisas quotidianas não se reconhecem e se tornam ameaçadoras. Por isso, às vezes choramos, a Mariona e eu, perdidos na estranha paragem na qual nos abandonou a morte da nossa filha. O corvo de Poe já não deixará de repetir dentro de mim o seu seco nevermore.

(excerto do prólogo)


MÃE E FILHA

Todo o passado dela são as tuas mãos:
trinta amorosos anos no fundo das tuas palmas.
Velaste-a toda a noite:
estendes-te na cama junto a ela,
teu peito cálido contra as suas costas,
os seus cansados cabelos no teu rosto.
Abraça-la e falas-lhe em voz baixa
e, ao mesmo tempo, acaricia-la.
São as últimas noites, e sentes o calor
do seu corpo extenuado que tão bem conheces.
Agora aprenderás a tomar conta dela na morte.
Sempre foi uma menina: tens que velar o seu sonho,
que se assemelha, mais e mais,
à profunda sombra de alegria
por onde desliza entre as tuas mãos.

- Joan Margarit
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgkMkMku-wJ6b2OorHc7USDk5aC_cQ9D3ecKAjlFDBxg5N0cfN0Q2p0BR9eaGwihWrRbdmeFO0gIIWpJug2RrsUJCL94ibws7eIZHItQxHXhoOS6CV3EqAb2DUEeEmMs0IEYh2l/s1600/Diaphanous_by_iNeedChemicalX.png

O Mel

Muito depois do nosso tempo
enfim lá perguntaste
como foi que nunca mais
me ouviste uma só palavra,
e aí pude dizer-te que
há mel no silêncio, e o coração
é a mais atarefada das abelhas.

Voz