domingo, janeiro 31, 2010

Luanda começou por ser
um pobre cais sem majestade
cujos armazéns ondulavam
na humidade e no calor. A água
assemelhava-se a creme solar turvo
a luzir sobre pele suja e velha que
cordas podres sulcavam de veias
ao acaso. Negros desfocados
no excesso de claridade trémula
acocoravam-se em pequenos grupos,
observando-nos com a distracção
intemporal, ao mesmo tempo aguda
e cega, que se encontra nas fotografias
que mostram os olhos voltados
para dentro de John Coltrane
quando sopra no saxofone
a sua doce amargura de anjo bêbedo,
e eu imaginava adiante dos beiços grossos
de cada um daqueles homens
um trompete invisível, pronto a
subir verticalmente no ar
denso como as cordas dos faquires.

Pássaros brancos e magros
dissolviam-se nas palmeiras da baía
ou nas casas de madeira da Ilha
ao longe, submersas de arbustos
e de insectos, nas quais putas cansadas
por todos os homens sem ternura
de Lisboa ali vinham beber
os últimos champanhes de gasosa,
à maneira de baleias agonizantes
ancoradas numa praia final,
movendo de tempos a tempos
as ancas ao ritmo de pasodoble
de uma angústia indecifrável.

- António Lobo Antunes
in Os Cus de Judas, Dom Quixote

sábado, janeiro 30, 2010

sexta-feira, janeiro 29, 2010

estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria
conversamos enquanto queimamos a noite
junto ao mar
o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas
em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar
não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos
sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso
eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras
pouco tenho a dizer-te
toco-te no ombro faço promessas e tu ris
enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho
treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai
sobreviveremos ao desgaste do amor
bebemos mais
para que haja só desejos e não amor entre nós e
o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura
no ombro do mar
La vie est une gare, je vais bientôt partir,
je ne dirai pas où.
calei-me
sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia
cambaleantes
e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos
não partirás tenho a certeza
com a tua jaula cheia de luas mansas
apaziguadas.

- Al Berto


Para o Changuito, até logo

E acordei muitas vezes,

________________sozinho,
em quartos de hotel impessoais
como expressões de psicanalistas,
unido por um telefone sem números
à amabilidade vagamente desconfiada
da recepção, a quem
a minha bagagem exígua
intrigava. Estraguei os dentes
e o estômago em casas de pasto
todas semelhantes aos restaurantes
das estações de caminhos-de-ferro,
de que a comida sabe
a carvão de coque e a lenços húmidos
do ranho já saudoso das despedidas.

Frequentei sessões da meia-noite,
de nuca arrepiada pela tosse
do solitário do banco de trás,
que lia as legendas em voz alta
para se inventar uma companhia.
E descobri, uma tarde, sentado
numa esplanada de Algés,
na borbulhosa presença de uma garrafa
de água das Pedras, que estava morto,
entende, morto
como os suicidas do viaduto que
de quando em quando cruzamos na rua,
pálidos, dignos, de jornal dobrado
no sovaco, os quais
desconhecem que faleceram e
cujos hálitos cheiram a almôndegas
com puré de batata e a trinta anos
de funcionário exemplar.

- António Lobo Antunes
in Os Cus de Judas, Dom Quixote

2

dq-Memória de Elefante dq-Os_Cus_de_Judas

Lê-se isto e depois parece até que os outros andam só a fazer a coisa por brincadeira, porque com um tipo a escrever deste jeito olha-se do fim das frases dele e o que se podia dizer já ganhou uma outra distância.

Divago,

______divago como um velho
num banco de jardim perdido
no esquisito labirinto do passado,
a mastigar recordações
no meio de bustos e de pombos,
de bolsos cheios de selos, de palitos
e de capicuas,
movendo continuamente os queixos
como se premeditasse um escarro
fantástico e definitivo.

- António Lobo Antunes
in Os Cus de Judas, Dom Quixote

De sol a sol

1

O sol nasceu agora
E a matéria
Da noite
Foi deixada aos deuses do sono
E aos seus auxiliares
No pesadelo.

Lavo o rosto do sol,
Beijo-lhe as crinas, os seus olhos
De animal incendiado.
Levanto-me com o destino marcado
Pelo seu relógio ardente
E atravesso o caos da manhã
Como um atleta
Que vai inaugurar a limpidez do mundo
Com um verso ainda nebuloso
E trôpego.

2

Meio-dia, severo e uno, sol duro.
As mães cruzam com os filhos
À hora de repartir
A justiça.
Os corpos sabem da separação
E não conseguem falar.
As mãos fazes e desfazem
Os jogos.
O cérebro reflecte o sol,
O rigor da ciência,
A lúcida tristeza, a exacta natureza
Da lei.

Caminhamos ao lado do mundo
E não aceitamos
Este sol
Impiedoso da verdade.
E vamos a meio do rio, destacados,
E nítidos.
A erva já não canta, e de manhã cantava
A inocência.
A luz cega agora os passos
Que parecem dançar à beira dum passado
Pessoano,
Fluentes, independentes,
Pós-modernos.
Aqui à beira do sol fixo
Como uma planta asfixiada pela luz
Que lhe dá vida.

3

Só temos a certeza de que tudo declina.
Os verbos, o amor, o saber,
O sol.
É quando a beleza mais se exibe,
Quando a carne é madura
E a sombra cresce
Como outro ser ao lado do ser
Quando a memória
Acompanha o curso desse rei que vai nu
E ninguém denuncia.
Quando a paixão tem o canto do cisne
Ou o fulgor que não queima
A voz de quem cantou.

É então que uma curva se desenha
No céu e a moeda da vida
Paga
O percurso do fogo,
Que é como dizer tempo
O poente descrito em vários céus
De cinza.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Salinger' s not dead!

"(...)
- O pai mata-te. O pai mata-te - repetiu ela.
Mas eu nem a ouvia. Estava a pensar noutra coisa, uma coisa estúpida.
- Queres saber o que eu gostaria de ser? Isto é, se pudesse escolher?
- O quê?
- Conheces aquele poema: Quando Duas Pessoas Se Encontram no Centeio. É um poema de Robert Burns.
- Eu sei que é um poema de Robert Burns - respondi. Mas, é claro, não sabia.- Pensei que era Quando Duas Pessoas Se Procuram no Centeio - disse eu. - Ando sempre a pensar em dois miúdos que brincam num grande campo de centeio, ou, melhor, milhares de miúdos, e não há por ali uma única pessoa crescida a não ser eu. E eu estou mesmo à beira de um grande precipício. O que tenho a fazer é agarrar os miúdos que estão já à beira do precipício, isto é, quando estão distraídos e andam a correr por ali. É nessa altura que eu apareço para os salvar. Gostava de fazer isso o dia inteiro. Seria apenas o vigia do campo de centeio. Sei que é uma parvoíce, mas seria a única coisa que me agradaria. Mas sei que é uma parvoíce.
Phoebe nada disse durante algum tempo. Depois apenas repetiu:
- O pai mata-te.
(...)"
(Este é um dos muitos excertos sublinhados no meu Uma Agulha no Palheiro, na tradução de João Palma-Ferreira, Livros do Brasil, Lisboa, edição datada de 1999, pp. 195-196. E eu nem tenho o hábito de sublinhar livros...
Aqui pode ser lida outra citação de um outro livro do autor e aqui um comentário crítico com o qual em parte não concordo, - mas a leitura e a literatura não se alimentam de consensos, bem pelo contrário.)

Transcrição de Maria Puig - ode menor

Decidi transcrever, tal como o encontrei, o poema de Maria Puig, escrito na parte de trás de uma novela de Roberto Bolaño, “Estrela Distante”. Esqueceu-se do livro em minha casa, esqueceu-se de muitos livros em minha casa. Ou melhor, em minha casa deixou muita coisa: Muitos textos a meio ou muitos textos completos. Para ela, nada estava completo. Poemas escritos na parte de trás de um recibo, nas margens apertadas de um flyer publicitário, de uma agenda cultural, aproveitando a parte branca dos anúncios. Nas margens brancas do Ípsilon e do Expresso, que são curtas e não permitem o verso livre. Os textos desenvolviam-se numa caligrafia tosca, a que já me tinha habituado. Fosse a caneta vermelha ou ao lápis grosso que estivesse mais à mão. Transcrevi por completo um caderno cheio de poemas seus. Foram muitas outras coisas que deixou em minha casa.

Transcrevi o poema, como um paleógrafo atento e imparcial. Às vezes tive de usar uma lupa em forma de régua, para perceber se determinada letra era um “a” ou um “o”: Isso era importante porque muitas, eram criações de palavras novas. Transcrevia enquanto ouvia Bil Evans, música que associava sempre à sua chegada e à sua permanência em minha casa. Esquecia-me, muitas vezes, que estava com o Gmail aberto, em estado on-line, e era consecutivamente interrompido da minha função de paleógrafo. Então parecia que se abria o mundo de dentro rede: Várias pessoas que nos chamam e de que gostamos e que esperam isto e aquilo de nós.


O poema falava de gatos e fora escrito em Portugal, país onde viveu por quatro anos, como prostituta na cidade do Porto perto do Marquês. Imaginei o quarto da pensão cheio de livros, de camionistas e advogados que entram e saem, agora com outra brasileira ou ucraniana no seu lugar. Imaginei Maria Puig, a travesti, que em breve se tornava a Hermafrodita associada à cidade do Porto. Imaginei a gaveta cheia de preservativos, cuecas e soutiens vermelhos; Com alguns poemas no fundo escritos de forma desordenada entre um ou outro cliente. A pronúncia do Recife. O portátil sempre aberto no Messenger, com várias janelas de gente do Brasil a falar, antigas companhias, ou um ou outro cliente.
A guardar em Word, um anúncio publicitário a enviar para o jornal: “Maria – Hermafrodita – Marquês – 30 beijinhos” – Às vezes actualizando, dando mais descrições: “Gulosa, Morena, Faço tudo”. Depois um número de telemóvel que era só usado para as marcações.
Imaginei todas as conversas que ela deixou na minha memória. Pensando onde estaria neste momento. Num avião, num voo Rio-Lisboa, ou morta no fundo do poço como acontece a alguns travestis europeus, perseguidos por um bando rapazes da vida e com pouca sorte, de extrema-direita ou sem qualquer ideal. Um ou outro grupo a quem correu pior a noite.
Mas havia uma certa segurança na vida de Maria enquanto esteve no Porto. Tinha a protecção de muitos e era prostituta de luxo, signifique essa palavra, seja o que for.


Perdia constantemente os cadernos cheios de poemas. Deixava-os numa mesa de café, num clube, no cabeleireiro, enquanto atendia uma chamada no telemóvel, deixando-os em cima da mesa. Daí a minha necessidade de registar tudo o que deixou escrito aqui em casa. Salvaguardar pelo menos essa parte da sua produção.
Cada dia, como um arqueólogo da escrita, descobria coisas novas, um poema nas margens de um livro de Pavese, nas traseiras de um jornal desportivo, de uma revista cor de rosa, nas colunas de um desdobrável do supermercado. Copiava o que estava escrito na sua caligrafia tosca, fosse aquilo a letra vermelha ao lado da fotografia de uma actriz famosa, de um jogador de futebol, a quem também tinha rabiscado os calções, ou feito uma tatuagem nazi com a bic azul. Tudo isso passava a computador, sem qualquer interpretação. Limitando-me a registar, segundo normas específicas de transcrição, que seguia rigorosamente: documento que havia pendurado num painel de cortiça ao lado de computador. Ouvindo sempre o mesmo disco que associava à sua vida em minha casa.


Aqui fica a útil transcrição de “Ode menor”
.................................................................................

Ode menor (Gato único em queda*)
Maria Puig

*

Um jardineiro muito curioso, acabou de plantar margaridas e girassóis, depois pousou os instrumentos de jardinagem e caminhou em direcção a casa. Não encontrou o caminho de regresso a casa, e percebeu que estava no fundo do mar. Mandou os séculos em espera sentarem-se, nas cadeiras do jardim. Os séculos olharam-se ao espelho e viram um gato negro de olhos verdes. Viram-se reflectidos cheios de espuma. O jardineiro contou-lhes três histórias e eles adormeceram. Não se sabe se o seu sonho foi o de uma nova era, mas quando despertam tinham os olhos cheios de azul e alegria subaquática. O jardineiro bebeu aguardente de anémona marinha e adormeceu. Todo ele espera subaquática e monólito aceso. Acordado por um tubarão martelo ou um peixe espada, regressou para o seu jardim e não para casa.

*

Vi várias coisas de cristal que confundiam poesia e prosa e que eram também eu própria; Confundiam também noite e dia, vida e morte, homem e mulher e eram hermafroditas como todos os milénios a vir.
Vi essas coisas de cristal a olharem-se ao espelho, a porem gel com as suas mãos peludas. Pagavam-me. Penteavam-se com o orgulho de um ditador asiático já morto, que escrevia poesia nos anos oitenta e que escrevia poesia nos anos noventa. Governador de um país de nome estranho, que escrevia livros de poemas que eram de leitura obrigatória na quarta classe e que todos os meninos do país acabado em “ão” deviam recitar: Três poemas escolhidos pela professora, no início e no fim de cada aula, antes do hino nacional e depois do hino nacional. Mandou construir várias estátuas suas em ouro que ocupavam toda a capital.
Vi todos os gatos que te morderam o pescoço fino. Perversos e queridos dentro das galerias da piscina ou do inferno - Ouvi o que eles te diziam, os ossos finos que te partiam: Gatos escritores e contabilistas que me ligavam às quatro da manhã ou cinco da manhã, com uma paciência de girafa. Gatos que me fodiam na pensão de manhã e me fodiam na pensão à tarde e me fodiam à noite e nos dias seguintes, como se fosse um dia único feito de silicone - Um gato único, num milénio cheio de cio. Gatos advogados, gatos camionistas ou montadores de andaimes que poupavam todo o mês só para me foderem. Trinta euros que deixavam e não gastavam em vinho ou na alimentação dos filhos. Camionistas, empresários, traficantes, professores de informática, gatos divorciados que me pagavam em droga.
Um gato único de olhos verdes e inchados pelo cio, como se olhasse para dentro e para fora ao mesmo tempo (E nisto lembrei-me de Battaille, do seu olhar estrábico; E de me dizeres que os estrábicos são os mais inteligentes e a maior parte das vezes sobredotados, porque a própria natureza já lhes deu um olho para cada lado, uma visão múltipla, ou mais abrangente, reconhecida pela ciência). Jorge Luís Borges também o era. Nessa altura deste-me uma lista de mais de dez autores estrábicos. Nunca nenhum estrábico ganhou o Nobel, dizia o início da lista.

*
O gato parecia que olhava para um aquário de peixes dourados, mas o aquário estava dentro de si, então o gato olhava ao mesmo tempo para dentro e para fora como um vento confuso, ou um tornado que perdeu a direcção e se come a si próprio: Os peixes dourados de fora, como eu, e os de dentro; Sei de um museu de História Natural em Toronto que possui um cavalo-marinho hermafrodita conservado em etanol. Foi descoberto por uns pescadores do Quebec em 1914, e que os biólogos acharam por bem conservar. O gato único já tinha ido a esse museu e tinha pago caro para ver o cavalo-marinho, que guardou na memória e que depois apagou da memória, ou seja: A reforçou. Na memória do gato já não era só um cavalo-marinho hermafrodita, era mais do que isso. Um gato único que descobriu a América e me possuiu – Um gato que lê romances cor-de-rosa e joga pólo aquático ao fim da tarde. E depois me liga, depois do treino, ainda no balneário, pergunta se eu estou disponível. Desliga o telemóvel, vem ter comigo. Liga o telemóvel, deita-se com a mulher. Volta a ligar o telemóvel em silêncio. O seu nome aparece depois na necrologia do jornal e nos registos electrónicos do banco. O seu nome desaparece depois. O jornal extingue-se, extingue-se o uso do papel como veículo de informação, extingue-se a necessidade de suporte. Desaparece toda a memória do cavalo-marinho e do gato.


*

Gatos que metem processos e os ganham ou os perdem. Que pedem às suas avós para lhes cozerem a camisa ou para lhes cozerem os calções da equipa.
Pedem um café e possuem-me rápido e automaticamente como um avião que passa,
Gato único que desenrola todos os fios. Faz deles um só, Fio ou antena. Gato que se esqueceu da sua cara e passa sem memória:




Já não gato, mas só cio
que escreve e abraça
Cio que precisa de calor e de
Chover: tropical na queda e na descida
amigo na chegada e na partida

Cio que é fumo industrial e Gelatina de hormonas que nutre as plantas

Gatos que têm um ataque cardíaco por segundo e
se vêem para cima da novela que mais gostam, deixando
que uma marca de esperma cole duas ou três páginas de uma Obra Prima da Literatura Universal, de um trabalho de uma vida de um escritor esquecido.
Para que a leiam e construam por cima (incorporando o passado)
…………………………………………………………………………………………….

Gatos de montanha e gatos urbanos que desdobram e cozem os séculos para com eles fazerem uma mini-saia vermelha. Que violam de manhã e à noite (analmente e não só) os professores de História Clássica e os professores de História Contemporânea – Gatos que me possuem ao som de Nina Simone e de Dina e que vêem com os olhos a piscar, o festival da canção. Gatos-Cio que vestem a História Universal, vermelha e curta,
Que saltam milénios e telhados só para me possuírem e serem já Coisa única:

Homem e mulher, dia e noite, vida e morte – Em tudo hermafrodita, à chegada e à partida, a vontade de ser toda a coisa ao mesmo tempo – Um milénio hermafrodita e de sexo curto, com o seu bikini vermelho a mergulhar, a sair da piscina mais fresco – A possuir-me e a esquecer-me: Múltiplo.

Maria Puig

Nuno Brito

Spritz*

II.


Aconteceu a uma irmã de Medusa cortar
os dois pulsos com vidro e esperar assustada em frente ao espelho,
Percebeu que não era sangue que lhe saía dos pulsos mas musgo,
Dos pulsos lácteos nascia-lhe musgo verde e fresco, que torneava o azul
das veias mais pequenas, musgo verde e fresco como das fontes de Minos, então voltou a olhar-se ao espelho e percebeu que não podia morrer

Não por já estar morta, mas por ser condenada à mais doce pena, a de renascer
sem dar conta disso; o que a olhava no espelho beijou-lhe os pulsos, lambeu o fresco musgo cheio de vida; ela deitou a cabeça por cima do que faz adormecer e sentiu o seu batimento cardíaco, beijou-lhe e lambeu-lhe os pulsos frescos e quentes,
Então ela riu-se e bebeu vinho de Marsala e com vinho de Marsala desenhou nas costas do que faz adormecer, uma letra e outra letra e outra letra – Mandou que lhe trouxessem papoilas e margaridas, algumas comeu, com outras decorou o cabelo

Adormeceu*



Nuno Brito

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Of asphodel, that greeny flower,
like a buttercup
upon its branching stem-
save that it's green and wooden-
I come, my sweet,
to sing to you.
We lived long together
a life filled,
if you will,
with flowers. So that
I was cheered
when I came first to know
that there were flowers also
in hell.
Today
I'm filled with the fading memory of those flowers
that we both loved,
even to this poor
colorless thing-
I saw it
when I was a child-
little prized among the living
but the dead see,
asking among themselves:
What do I remember
that was shaped
as this thing is shaped?
while our eyes fill
with tears.
Of love, abiding love
it will be telling
though too weak a wash of crimson
colors it
to make it wholly credible.
There is something
something urgent
I have to say to you
and you alone
but it must wait
while I drink in
the joy of your approach,
perhaps for the last time.
And so
with fear in my heart
I drag it out
and keep on talking
for I dare not stop.
Listen while I talk on
against time.
It will not be
for long.
I have forgot
and yet I see clearly enough
something
central to the sky
which ranges round it.
An odor
springs from it!
A sweetest odor!
Honeysuckle! And now
there comes the buzzing of a bee!
and a whole flood
of sister memories!
Only give me time,
time to recall them
before I shall speak out.
Give me time,
time.
When I was a boy
I kept a book
to which, from time
to time,
I added pressed flowers
until, after a time,
I had a good collection.
The asphodel,
forebodingly,
among them.
I bring you,
reawakened,
a memory of those flowers.
They were sweet
when I pressed them
and retained
something of their sweetness
a long time.
It is a curious odor,
a moral odor,
that brings me
near to you.
The color
was the first to go.
There had come to me
a challenge,
your dear self,
mortal as I was,
the lily's throat
to the hummingbird!
Endless wealth,
I thought,
held out its arms to me.
A thousand tropics
in an apple blossom.
The generous earth itself
gave us lief.
The whole world
became my garden!
But the sea
which no one tends
is also a garden
when the sun strikes it
and the waves
are wakened.
I have seen it
and so have you
when it puts all flowers
to shame.
Too, there are the starfish
stiffened by the sun
and other sea wrack
and weeds. We knew that
along with the rest of it
for we were born by the sea,
knew its rose hedges
to the very water's brink.
There the pink mallow grows
and in their season
strawberries
and there, later,
we went to gather
the wild plum.
I cannot say
that I have gone to hell
for your love
but often
found myself there
in your pursuit.
I do not like it
and wanted to be
in heaven. Hear me out.
Do not turn away.
I have learned much in my life
from books
and out of them
about love.
Death
is not the end of it.
There is a hierarchy
which can be attained,
I think,
in its service.
Its guerdon
is a fairy flower;
a cat of twenty lives.
If no one came to try it
the world
would be the loser.
It has been
for you and me
as one who watches a storm
come in over the water.
We have stood
from year to year
before the spectacle of our lives
with joined hands.
The storm unfolds.
Lightning
plays about the edges of the clouds.
The sky to the north
is placid,
blue in the afterglow
as the storm piles up.
It is a flower
that will soon reach
the apex of its bloom.
We danced,
in our minds,
and read a book together.
You remember?
It was a serious book.
And so books
entered our lives.
The sea! The sea!
Always
when I think of the sea
there comes to mind
the Iliad
and Helen's public fault
that bred it.
Were it not for that
there would have been
no poem but the world
if we had remembered,
those crimson petals
spilled among the stones,
would have called it simply
murder.
The sexual orchid that bloomed then
sending so many
disinterested
men to their graves
has left its memory
to a race of fools
or heroes
if silence is a virtue.
The sea alone
with its multiplicity
holds any hope.
The storm
has proven abortive
but we remain
after the thoughts it roused
to
re-cement our lives.
It is the mind
the mind
that must be cured
short of death's
intervention,
and the will becomes again
a garden. The poem
is complex and the place made
in our lives
for the poem.
Silence can be complex too,
but you do not get far
with silence.
Begin again.
It is like Homer's
catalogue of ships:
it fills up the time.
I speak in figures,
well enough, the dresses
you wear are figures also,
we could not meet
otherwise. When I speak
of flowers
it is to recall
that at one time
we were young.
All women are not Helen,
I know that,
but have Helen in their hearts.
My sweet,
you have it also, therefore
I love you
and could not love you otherwise.
Imagine you saw
a field made up of women
all silver-white.
What should you do
but love them?
The storm bursts
or fades! it is not
the end of the world.
Love is something else,
or so I thought it,
a garden which expands,
though I knew you as a woman
and never thought otherwise,
until the whole sea
has been taken up
and all its gardens.
It was the love of love,
the love that swallows up all else,
a grateful love,
a love of nature, of people,
of animals,
a love engendering
gentleness and goodness
that moved me
and that I saw in you.
I should have known,
though I did not,
that the lily-of-the-valley
is a flower makes many ill
who whiff it.
We had our children,
rivals in the general onslaught.
I put them aside
though I cared for them.
as well as any man
could care for his children
according to my lights.
You understand
I had to meet you
after the event
and have still to meet you.
Love
to which you too shall bow
along with me-
a flower
a weakest flower
shall be our trust
and not because
we are too feeble
to do otherwise
but because
at the height of my power
I risked what I had to do,
therefore to prove
that we love each other
while my very bones sweated
that I could not cry to you
in the act.
Of asphodel, that greeny flower,
I come, my sweet,
to sing to you!
My heart rouses
thinking to bring you news
of something
that concerns you
and concerns many men. Look at
what passes for the new.
You will not find it there but in
despised poems.
It is difficult
to get the news from poems
yet men die miserably every day
for lack
of what is found there.
Hear me out
for I too am concerned
and every man
who wants to die at peace in his bed
besides.

- William Carlos Williams

“I wish someone could explain to me why nothing in this country ever changes,” a character in “The Inquisitors’ Manual” moans. Fado singers paraphrase this complaint when they air lovelorn grievances; the same choral lament can be heard everywhere in Portugal, as people wonder why their new freedoms and the shiny electronic gadgets they can now afford haven’t made them any happier. But if this were the whole truth, Lobo Antunes would remain a local, even a provincial, writer. Luckily, he has a remedy for the national malaise; true, nothing changes, but everything metamorphoses when described by Lobo Antunes, whose style triumphantly flouts the stagnation of his society. His most gleefully outrageous inventions waive physical laws and challenge the dreary natural order of things, and it is this quality that gives his work an appeal that extends beyond the borders of his country. A widowed engineer falls in love with a mannequin he sees in a shopwindow and pays a prostitute to sleep with it. A genial lunatic flaps his arms and takes flight, like the storks that used to nest on chimneys in Portuguese villages. On another occasion, Lisbon commits suicide, its “slit veins bleeding bronze generals, pigeons and dairy bars into the Tagus.” Death, as always for Lobo Antunes, is life arrested and arranged into a picture, and postmortem decay produces poetry as delicate as lace or cobwebs. A shop selling woollen goods is taken over by moths, which multiply into white-winged angels and litter the counters with wriggling larvae; these gluttonous seraphs reduce synthetic fabrics to “a skeleton of threads, a ribwork of filaments, fringes of veins.”

“Hatred is vital to good health,” a character declares in “Act of the Damned.” As a medical diagnosis, this seems questionable, but in Lobo Antunes’s case it is a prescription for fine, furious, often spectacularly excessive writing. Hatred, in his attitude toward Portugal, may be a synonym for a rankling, incurable love. The tottering country is Lobo Antunes’s subject, and as a physician he considers it to be his personal responsibility. How can a doctor give up on a patient who has been ill—tantalizingly near death, though never quite ready to die—for the past four hundred years?


Parte final do artigo sobre António Lobo Antunes (Doctor and Patient) publicado na New Yorker.

terça-feira, janeiro 26, 2010

É quando suspeitamos da nossa identidade
que a escrita fecha a vida
em túmulos minúsculos no templo
duma refeição de pé,
num ofício reles, inacabado.
Muitas vezes não passa dum romance ébrio
que a nós próprios narramos
nas noites inquietas e nas crises de angústia
mais precipitadas.
E nesses espaços ínfimos
que são opulentos vasos de cicuta
fingimos que dançamos, ousamos que bebemos
e julgamos que ouvimos a voz feliz
de deus, sujeita a transfusões,
às cargas e descargas
das ternas libações duma mesa de Outono.
Assim a natureza nos provoca
sabendo que a distância
entre a mão que escreve e o olhar que lê
é infinita.
Por isso nos seduz o cão da morte.
Como se fosse a vida que conformada insiste
e ataca ao entardecer
depois dum filme russo que era só névoa
só sobre vivência.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim

1

Oniros (exercício)
“A função da crítica devia ser mostrar como é o que é, ou mesmo que é o que é, em vez de mostrar o que significa. Em vez de uma hermenêutica precisamos de uma erótica da arte.”
Susan Sontag

1
é como se fosse uma viagem,
a aorta aberta por detrás
da boca

as cerejas adormecidas atrás do sono

os nomes
noites sem cúpula, e,
sem face também a música

e a imagem, também,
a leira de cinza lavrada a zelo e luto

(ah) solene naco de babel (ter apenas)
(e depois) o éter no peito

o interlúdio a despeito da árvore

o esto mineral
o tom de ser o estilo
linguagem
toda a terra sem sal
imune ao luto,
e ao pavor

mas) a noite é sempre uma coisa sem nome em redor
e toda a teogonia é púrpura, contra-hermenêutica
bússola sem norte dentro do sangue, e depois, as imagens

érebo com o anel na garganta,

e as décadas, como as árvores
caídas
sempre tardias

ao pé da estátua cor de cobre

2

um motivo contorna o sono e a deriva da letra

a fera ânsia de ser
pessoa nome

todo o tártaro
sem rosto,

(o inferno é apenas um trejeito de estilo)

o espaço é sempre mais nobre
que o caminho

3
nada como ser vertical sobre a água
e semear cinza, como os patriarcas sem nome

sem esperar nada do mundo
a não ser

perséfone estéril por delicadeza

a circunscrever o hades na leira heliotrópica
e a pôr o ovo no centro da mesa

4
todo o lirismo é coisa de vime

é sempre o declive mineral
das portas
e depois a,
a boca sitiada de neve
com o corpo pedaço negro todo em volta

os nomes são coisas minerais
coisas que nunca se dizem,
sem

Água que espera

Às vezes acontece ser um meta-barco
ou um meta poço que desalinha a sua rota concêntrica
só para te ver sorrir, e é só fundo e água ainda por vir

o seu meta-capitão assustado e de
cara nenhuma a comprimir nos dedos finos o musgo que lhe serve de gel ao cabelo ondulado

Saber-se viagem de cais nenhum, A mulher e o relâmpago que o espera
Todos os baús que abre,

A rota que lhe adoça a boca



Nuno Brito

O Atlanta


A arte nunca é terminada, só interrompida e abandonada

Leonardo da Vinci



Lembro-me muitas vezes das histórias dos Atlantas que me contavas, na sua rota geométrica que era só tinta e malhada na espera,
esperavam virados para o mar, os europeus, Um amigo que acendesse Tudo

quero-te tornar o Atlântico num sopro,
numa Sofia que cresce num búzio e que é salgada como a voz búlgara
e é também minha mãe
o oceano que nos une, chuva que te cai na cara
que te cai no passeio, na pedra trabalhada
que incendeia Tikoman, a minha mãe, o vento
sinto pena de não te ter beijado em bombazine claro


Pensei que este poema nunca fosse escrito, porque seria sempre acrescentado
Dama aflita que uiva e grita em frente à Calvin Klein, procurei uma forma clássica
de te dizer que te Adoro, não há forma para a amizade, o que cresce está sempre incompleto, a vontade de rechear o mar de relâmpagos que sentia Luís Miguel Nava,
O abraço que te serve de Escada

Cantiga de Amigo eterna e a ser feita, Sempre em Ti
a luz está acesa



Nuno Brito

Fila para Avatar

O meu avatar fala sozinho e
tem um gorro azul feito de memória e loucura
está recheado de sombra roxa e pôr do sol, Outro dia
na fila do cinema disse-me que criou dez heterónimos,
perguntei-lhe porquê o número redondo e porque confundia
sempre poesia e prosa,

O meu avatar é só riso espalhado
Sinto nos seus olhos azuis e cabelo ondulado
a vontade de ser toda a gente, Ladrão na Austrália, pregador escocês,
professora de Yoga, Prostituta no Marquês,
vendedor de alhos filipino, sucateiro na Amadora,


O meu avatar criou dez heterónimos de olhos cansados - disse-me na fila do cinema,
que tinha medo do escuro

Medo que o escuro o recheasse por dento, como uma procissão silenciosa de virgens negras ou búfalos subaquáticos
Contou-me que os seus heterónimos são gente educada com corpos de silêncio, desejam uma boa jornada a este e àquele que passa, perguntam mutuamente a hora, mesmo sabendo sempre que hora faz.


Têm necessidade de falar, às vezes entram todos num café e pedem um copo de água. Seguem o telejornal às riscas com os seus gorros azuis e escrevem no seu gesto quadriculado um ou dez poemas de amor:

O meu avatar chama os heterónimos dos seus jogos de azar, e conta a todos eles uma história de amor, encomenda-lhes um ensaio sobre este ou aquele autor, uma corrente de vanguarda, coze-lhes os calções rotos da jornada,

Leva-os a ver o pôr do sol e a todos eles alinhados diz que a paisagem é bonita, mete-os na fila do cinema enquanto vai comprar bombocas, manda-os ir evangelizar a Escócia, enquanto fuma um cigarro em todo o lado, já só átomo com vontade de se fundir a outro átomo, para que a União seja a calma.

Vejo nos seus olhos, vária gente que escreve
Às vezes enquanto tira as meias ou as calça, pergunta-me sobre a utilidade da literatura e reparo que ele se parece uma nuvem,
Uma nuvem carregada que se olha ao espelho, guardo no vidro transparente a sua calma e chuva tropical , e vejo no espelho toda a gente com máscara e sem a Máscara,

a máscara é também gente:
O que se calca é também o que se é)

É então que ele diz: Tu és queda livre e curva que não passa mensagem nenhuma.
………………………………………………………………………………………………………...

Não tenho argumentos contra esse gorro azul

Recheio-o de medo e vamos ao cinema – Preenchemos todo o quarteirão Coppedé, esperamos que o sol se ponha, olhamos as máscaras gregas de pedra, a coluna clássica de cada varanda, vemos sem ver a gente lá dentro, descalça a ouvir o seu Tango, - às vezes atira-se de uma varanda e dá-me a mão pequena dizendo – Tu não passas mensagem nenhuma, és só queda e confusão – O Vento tira fotografias às máscaras e a nós todos, revela-nos, no musgo, nas paredes no riso, no fundo de todos os poços, no espelho – Este querer estar sempre em ti, ser já só fronteira, o avatar a comer com a boca cheia de espuma de morango, diz esta e aquela sentença, ouço-o com atenção – Pergunta-me sobre a necessidade de registar? Diz depois parecendo um triângulo – Toda a memória provém do sol –

Guarda muita coisa ao mesmo tempo e é só riso a espalhar,
escreve a negrito as sentenças de maior relevo,

Umas vezes não pergunta e é só dança outras é
fronteira e meta-susto que se alimenta,
recheia-se a si próprio de vento
Estamos na fila, na tela e no acento.



Nuno Brito

meta barco

Pudéssemos ser um meta-barco
ou um meta-poço no seu fundo sonho de abelha
E já nem barco nem poço - Só mel e asa torta
Te faça explodir em riso e brilhar – meta barco e meta poço,
vontade de te abraçar.



Nuno Brito

Spritz*

A noite tem a veia inchada e a cara múltipla e acesa
que tudo guarda – a noite não trabalha os seus textos e é a realizadora
mais perversa, tem as suas próprias leias e viola as suas próprias leias,
feitas de fio grosso de ovelha com que coze a mini-saia vermelha, A noite não usa metáfora
e varre com a sua enchada todos os que a usam, faz curtas metragens que não regista, porque não é preciso registar que aquele não pagou e ficou no
fundo do rio com a barriga inchada; a noite apagou essas provas e organiza festas no Lusitano, é travesti que entra em todos os bares e pede um Spritz, perguntei o caminho para a biblioteca a vários gatos negros, todos me indicaram o caminho ou a perca, com a sua voz que parecia de Gente


As suas leis são parecidas às do voleibol com bola em chamas ou aos mais complexos jogos de Azar,

*

Toca Óscar Petterson e Carlos Parede com os seus dedos escuros e Acende-os, é apenas um cartógrafo com coragem, que traçou vários equadores no seu próprio peito para que não
Dormisse nunca e tornasse
qualquer registo fútil
A noite disse:

Tu usas a metáfora meu filho!


…………………………………………………………………………………………

Frita com areai fina
em vez de pão ralado
tatua em agulha fina, os braços magros do injectado
e as bordas dos sonhos dos que dormem Muitos na Estação Termini

A noite não permite o poema social, veste o seu soutien de estrelas ou areia Fina
Entra na Brodway – Kadoc – Na ourivesaria para roubar,
Viola as prostitutas que não aparecem no dia seguinte na Estrada Nacional,
Em que século foi? O crime da Gucci? Onde comprou esse gorro?

A noite é a fingir

Nuno Brito

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Nouvelle vague : In a manner of speaking



"(...)
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything
(...)"

(original dos Tuxedomoon)

domingo, janeiro 24, 2010

Up in the air (2009)


7/10
algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me,eu e
minha vida fecharemos em beleza,de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos

- e.e. cummings
in xix poems, tradução de Jorge Fazenda Lourenço

A inquietante procura de grandes escritores faz com que a maioria dos recém chegados tenham ar de sair duma estufa: dominam-se, trabalham-se, martirizam-se, aperfeiçoam-se, querem estar à altura do que deles se espera, à altura da sua época. O crítico, esse, não desiste : descobrirá custe o que custar, é a sua missão. Esta não é uma época como as outras. Todas as semanas lhe é preciso um novo objecto para lançar na arena ao som de fanfarras: um filósofo tahitiano, um grafito, Rimbaud redivivus; dir-se-ia por vezes, no meio da fiesta ritual e colorida que se tornou a nossa «vida literária», uma corneta enlouquecida que tocasse para tudo ao mesmo tempo com medo de se esquecer de alguma coisa: a saída do toro e a do cavalo do picador. A "saída" dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo – nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a mangedoura; já não presta senão para arengar ou repetir-se, ou para meter num júri literário, onde por sua vez incubará qualquer novo potro de pernas e dentes longos.

- Julien Gracq
in A literatura no estômago, Assírio & Alvim
trad. Ernesto Sampaio

post roubado aqui

Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.

- Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, janeiro 23, 2010

Tinta esperando

Quem como eu tem sempre qualquer coisa
para ir contando ...

João Miguel Fernandes Jorge

Por qualquer coisa, alguma simples
soma. Dos livros
o enfraquecido fio de palavras ainda
apalpando uma distância, tentando atar
qualquer ausência. Bon Iver,
nove canções das de ficar
à janela, dobrado para uma dor
de barriga, a puxar vómito
às memórias. Parece cedo mas
o sol adoça já o horizonte e faz
que trema essa linha de onde
o olhar recomeça alguma contagem
deixada a meio, um poema que deixei
em inícios de janeiro.

Chego cá fora então, a ver
se me apanho na surpresa de algumas
impressões, se oiço aquele murmúrio
no aguacento leito das horas, doçura
dolorosa que sobe em mim
como uma náusea. Pouso o cigarro
sobre um muro e ponho-me
a urinar um carreiro de formigas,
desalinhando-o. Dou-me muito a isto,
de novo este gozo
com os pequenos estragos à ordem
das coisas. Sou realmente um parvo
e deus, acredito, tem-me até
um certo nojo. Deixá-lo.

Há uns gemidos do vento foçando
por trás da casa, o jardim triste que
se estende por diante e segue a espaços
numa luz usada, um lençol húmido
de folhas, flores inchadas, enxertos
de cor e nódoas um pouco nervosas,
sangrando curtas pausas líquidas.
Entre duas árvores apodrece
uma rede e na relva segue um trilho
de caroços cuspidos, isto e o cinzeiro,
sobre a mesa de pedra, devolve-me
esse hábito, a manhã caída
de entre as mãos do meu avô.

Uma vagarosa brisa leva um gosto...
sei quando estou em Loulé
entre os de sempre, só meio acordados
no tardio derrame das ruas. Corpos
encostados, juntos, nos dois cafés
depois da biblioteca – homenagem
a Sophia, a essas ondas tombando
ininterruptamente,
à queimadura de sal que nos fere
os lábios...

Numa das mesas, à sombra sem intenção
de uma figueira cansada, apeteceu-me
um gesto mínimo, Ana,
um resto de calor e companhia,
esse ar, como te disse já, de flor
carnívora, cabelo curtinho e escuro,
com um sorriso de quem sabe e de leve
me faz que sim com a cabeça. A quê

não sei, mas parece-me certo,
e a tinta que esperava acabou por secar.

Texto lento / texto rápido

Texto lento: O velho e a escada

O velho…
Enfrentou as escadas e ficou ofegante.
Muito alta, muito íngreme, muitos degraus…
Muitos pecados tem uma vida que conta todos aqueles degraus.
Não se sentia com fôlego.
Não criava coragem.
Olhou de novo.
Era muita escada; muito degrau.
Tentou contar; perdeu-se na conta.
Contou em grupos de dez; perdeu-lhes a conta.
Descansou.
Deitou o peso do corpo sobre uma perna.
Pensou… se descansar uma perna, essa pode ir à frente.
Mas a perna que suportava o peso gemeu com a ideia.
A cabeça pensou em sentá-lo mas as costas proibiram-lhe o movimento.
Como é que voltaria a pôr-se de pé a partir da baixeza do chão.
Muito baixos os degraus para servirem de banco.
Muito alta a escada…
Agarrou o corrimão e atreveu um pé.
Balançou o corpo para a frente num movimento rígido de articulações com artroses.
E o degrau cresceu, subiu, fez-se muro.
Tropeçou-lhe o pé.
Valeu-lhe o corrimão com que se fundiu a sua mão; dedos enclavinhados a lutarem pela posição de homem: de pé!
Olhou de novo aquele degrau tão alto.
Olhou a escada.
Muito grande a escada; muito degrau.


Com gritos e risos numa corrida desenfreada três rapazotes saltaram a escada de três em três.
Galgaram a escada.
Ganharam a escada.
O velho emprestou-lhes a sua alma e viu-se moço a atacar outras escadas. Íngremes, mal cortadas nas terras; a resvalar de pedras, húmidas de erva lavada de orvalho.
Puxou o lenço; limpou o suor
Virou as costas e seguiu a rua.
Melhor ir à volta.


____________


Texto rápido: o assalto

Foi um estampido a abafar o rugir da ordem: O dinheiro para cá! Rápido!
E o tiro a partir, o sangue a correr, ainda antes da palavra se calar.

Já sabes? Perguntavam no outro dia na rua.
Quem morreu?

- Autor desconhecido

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Sobre Criatura nº 4

"Leituras e mais Leituras"

Podemos seguir o ano com mais um número da Revista CRIATURA cujos editores escolhem para antologiar poetas e poemas variados, nos temas e julgo que nas idades. Há um lugar para os jovens, com os seus primeiros versos (o Diogo Vaz Pinto que me corrija se estou enganada) e para autores já com obra feita. Bom espaço, boas escolhas - esta é uma qualidade rara que me faz ler a revista com interesse e cuidado.

Claro, como todo o leitor, não sou inocente na leitura, tenho preferências que me fazem voltar a alguns autores que vou acompanhando e conhecendo melhor.

Outros vou descobrindo.

Desta vez, e fazendo sempre jus às vozes femininas, escolho um pequeno poema de Ana Salomé, uma espécie de diário de intenções que me recordam o conselho de Rilke nas Cartas a um Jovem Poeta: se está a começar não escreva poemas de amor...esse amor que julgamos único na realidade torna-se banal pois o amor é de sempre, é de todos, e de início vivido de forma igual.

Ora a grande poesia é feita da diferença e não do mesmo que possamos julgar, por ingenuidade, diferente e inovador. Há que ler muito, ler tudo, até chegar à desejada diferença.

DIÁRIO

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.

Todo o poema que não revolucione, fora.

Todo o poema que não ensine, fora.

Todo o poema que não salve vidas, fora.

Todo o poema que não se sobreviva, fora.

Vou deixar um anúncio no jornal:

Procura-se poeta. Trespasso-me.

(Ana Salomé, p.13)

Este é um Manifesto que bem podia comparar-se ao de Álvaro de Campos, também ele cultor de uma prática poética que se quis directa e quotidiana, sem resquícios de alguma evocação mais sentimental, ele que disse na altura que todas as cartas de amor eram ridículas...

É muito interessante descobrir nestas novas vozes poéticas uma herança que ali permanece viva, ainda que não explícita, e vai conduzindo o fio da experiência - que hoje em dia é narrada sem qualquer ocultação ou pseudo- timidez.

Tudo mudou na vida, nas opções mais sinceras ou mais de ocasião, cigarros e bebidas de mistura com sexo ora insípido ora mais feliz (passa por aí o Sexo e a Cidade da série conhecida) - tudo atravessa a linguagem poética como atravessa os chats, o face-book, o you tube e é essa trivialidade mesma que nos traz a mudança própria do século, e de que esta nossa poesia se faz eco. Forma, deforma, informa, num modelo que transforma estas vozes em mais do que poesia, documento social.

Poesia documental pois, viva e vivida, citadina, juvenil e jovial, também por vezes um pouco melancólica, como se os poetas soubessem de antemão que alguma vez os poemas terão fim.

Disse citadina: e também muito lisboeta, da Lisboa da moda, dos sítios da noite preferida, como por ex. vemos em David Teles Pereira, de que cito um excerto:

LUX/FRÁGIL

...

Há, claro, esconderijos perfeitos: Cais da Pedra

a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com

o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.

....De novo o poeta reflecte sobre a necessidade

de imprimir no som o relevo de uma certa

distorção, em sintonia com as músicas

que constantemente ouve. É disso que se trata

no fundo, do poema ser como nenhuma outra música

e mesmo assim nunca ser silencioso.

...

O coração - simplifiquemos com simbologia

a questão - deixou de ser invisível, deixou

de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista,

Já nem sequer sente vontade de escrever.

Só a uma centena de corpos a dançar a mesma

música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.

( D.Teles Pereira, pp.19-20)

Assim nos confrontamos com uma prosa poética, descritiva, (como a poderíamos ler no Livro do Desassossego, com a Rua dos Douradores de Pessoa, o mundo que o poeta vê à sua volta de um modo desprendido, de coração esvaziado ele também).

Neste poema observou-se primeiro uma rapariga que dança, e se torna cada vez menos interessante à medida que o tempo (o poema) corre: porque para o poeta a pulsão reside no poema e é mesmo assim que deve ser. O corpo é o corpo da escrita, a rapariga na noite do LUX é meramente um transitório foco de (des?) inspiração.

Quanto aos espaços, a música ouvida por todos com a tal centena de corpos a dançar - é mais uma manifestação do viver em comum ( no espaço do colectivo) uma vida que se torna talvez difícil de viver sozinho.

Sinal dos tempos.

Mas é bom que se saiba, com Rilke, e mesmo com Pessoa, que a flor do poema só abre na solidão.

José Carlos Barros traz neste número as várias evocações dos seus escritores preferidos: Florbela Espanca, Bernardo Soares; e Luís Filipe Parrado fala-nos de Gauguin, no intervalo de falar de outras coisas, mais próximas e mais íntimas, como no poema da Natureza Morta Com Maçãs:

É triste

o espectáculo do amor

apodrecendo aos poucos,

na fruteira

as maçãs que te trouxe

têm agora a pele seca e enrugada.

(p.106)

Poderia continuar por mais tempo, mas é o espaço que me limita no blog.

O importante é ler e dar a ler; está feito. E só mais uma chamada de atenção, last but not least: esta é uma poesia culta, de poetas que vão aos museus, aos concertos, compram livros para ler ...para além das noites e dos dias de que nos falam.

E agora vou, como diria o L.F.Parrado, à minha vida: levanto-me/ para tratar dos pratos e talheres (no meu caso dos netos)/O blog, desculpem, tem que ficar por aqui."

Yvette Centeno

in Literatura e Arte

(Ainda sobre Criatura nº 3)



Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive – tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso – estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amassando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
– o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
ou é Deus que nos olha em cheio: dentro

-Herberto Helder
in Ofício Cantante, Assírio & Alvim

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Sententiae

Não assentes os lábios numa ferida duvidosa.
E por mais submisso que ele seja
não ates o teu cão a um fio de seda.

Não corrijas a História com o teu juízo abstracto.
Nenhum morto voltou para acabar as palavras.
Elas saberão acabar contigo quando lá chegares.

Não tentes o perverso com outra perversidade
que não seja a tua. Nenhuma lâmina será
igual a outra lâmina. Nem nenhum cordeiro.

Não digas desta água nunca ninguém bebeu.
A água é sempre a mesma. As bocas sim
é que são diversas.

Não cuides do mercado infeccioso das almas.
A peste é infinita. Só é breve o teu tempo.

Não procures no olhar do gato a indiferença.
Passa-lhe a mão pelo pêlo e depois chora.

Não digas que o teu pai não te conhece.
Pergunta-lhe primeiro se alguma vez
se conheceu.

Não rias em frente duma máquina.
Só Deus sabe qual é o mais ridículo.

Não saias da tua casa à procura do mundo.
Ele já te conhecia e não te veio procurar.

Não dances com o Rei a pensar na Rainha.
A Corte tem ouvidos dentro do teu cérebro.

Não penses no dilúvio universal.
Pensa no teu e aprende a nadar em vão.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim
Ainda hoje a devoção me inflama
quando a vejo nos outros
repetida.
Nas piscinas urbanas, pias baptismais,
crianças aventuram os sentidos
até não terem pé e tocar Deus.
O sol sacode a crina, molhada ela também
pelas flautas do delírio,
pelas lágrimas dos homens.
Percorro este fragmento de água
e bebo a Natureza
que, segundo disse o guarda,
está devidamente limpa
e desinfectada.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim

Pendura de padre

Lembro-me de viajar no selim da moto, agarrado ao padre. O padre gostava daquela moto que só lhe dava desgostos e gozava com ele, como e quando queria, empanando num sítio descampado, deixando de pegar em horas de aflição. Era um amor tempestuoso aquele, entre o padre e a moto. Se ela o arreliava, obrigando-o a puxar centenas de vezes pelo motor de arranque, o padre que era um bom homem sanguíneo, começava a praguejar, olhando para um lado e, para outro, com medo de ser ouvido. Lembro-me de viajar agarrado ao padre no selim da moto, atravessando pinhais, lugares brutos e feios, de geadas que mordem e nevoeiros e ventos que parecem ser o único sustento do mundo. O padre cantarolava, compondo de ouvido música sacra que a Sassetti em Lisboa recusava porque não rendia. Eu balbuciava versinhos breves sobre a Senhora de Fátima ou punha-me a pensar em coisas que o vento fazia arrastar consigo: se o mundo alguma vez me aceitaria sem metamorfose ou enredo fútil. A noite então fechava-se e as línguas íntimas da terra pareciam também recitar coisas incoerentes aos ouvidos duma criança, que viajava agarrada ao dorso negro dum padre. Portugal era, nessa altura, um salazar de lés a lés e Deus um padrasto a quem se devia prestar pontualmente contas. E eu um acessório de padre: como o turíbulo e a estola, o breviário ou a virgindade apetecida.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim
Um dia encontrei Deus num poema
histórico.
Debaixo daqueles versos tão explicativos
em que a gente podia ver suar os reis
e urinar rainhas e até os ferros das montadas
se soltavam das sílabas histéricas
Deus quisera estar escondido como uma
criança.
Não tinha filosofia aquele poema.
Eu sabia-o de cor por isso encontrei Deus
e à noite num balcão duma taberna
recitei-o aos bêbados sonâmbulos da chuva.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Armando Silva Carvalho



OS ALMAVIADAS


Sem culpa, aproximam-se das praias,
não querem inventar seja o que for
que não seja o prazer de estarem vivos.
Extenuados riem,
e um cão que nada ao longe apoquentado,
faz chorar de ternura os olhos deles
que os óculos de sol transformam em imagens
cruéis e passageiras.
Não lerão nunca este poema,
não sabem, nem desejam saber
que Ulisses se perde às mãos de Joyce
como o mundo se perde às ma~so de Deus.
Eles nascem da indiferença.
São os assassinos puros da Verdade
e verdadeiros profetas denunciam que o Rei,
o grande Rei das putas pensativas,
está nu, está velho e lambe os beiços
na única toalha que lhe resta:
estes versos inúteis do remorso.
Filhos do Instante, dominaram a Esfinge
que agora nos cinemas se exibe já lograda.
Penteados e calmos abrem os braços
às sedutoras ondas da preguiça.
Estão na minha tarde à luz fria do Sol
e matam os Heróis à minha frente.
Como um farol demente a cabeça do Tempo
rebola incontrolada.
A matéria mais frágil é mais potente
que toda esta memória amedrontada.
Filhos da lua dúbia
cavalgam sem parar suas velozes damas
e vão fazer amor sobre os ossos dos mortos
entre copos de espuma.
Eu dava a vida inteira
por um complexo de Édipo
que o grupo americano engole
em coca-cola.
Mas Freud está com sono
e Tirésias consegue por fim
recuperar a vista.
Sem culpa – o temor dos deuses
não povoa os seus sonhos.
Netos da Hora, filhos do Segundo,
são eles afinal que dão desejo ao mundo
e na tarde do mar o som das suas bocas
faz que tombe do céu o último sinal.
Vê-lo chegar será para a minha alma
um balouço de cinzas
onde a criança oscila, oscila
até tocar o fogo.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim

Cesário Verde

É cavar fundo
absorver
a terra
com os poros
da alma.

Saborear
o chão
e mastigar
de leve
como se fosse
açúcar.

Ouvir
os engenheiros
urinar do alto
dizendo sons obscenos
e fazendo contas.

E ver
e ver depois
o sol dos piqueniques.

A arte
delicada
de chupar os ossos.

A sede
de lamber nos
dedos a gordura.

O espanto
do trinchar
o peito das galinhas.

E afastar
as álgidas fibras
da memória.

E contornar
delicada-
mente
a infância.

E cheiras
os lugares
macios.

E pegar nos seixos
que a solidão
cristalizou.

E apalpar
as carnes
carcomidas do tempo.

- Armando Silva Carvalho
in O que foi passado a limpo, Assírio & Alvim