domingo, julho 31, 2011

Oito poemas de Luis Fernando Chivite


(Espécie de haiku da visão inicial
)

Aquela precariedade do princípio.
Aquela austeridade.
Quando tudo era claro, quando havia ainda tempo.



(Espécie de haiku daqueles que fogem)

Céleres mas silentes.
Os fugitivos.
Snifando a escuridão minguante agora que amanhece.



Poema da aterradora infância

O abismo podia aparecer
por trás da caixa dos lápis.

A noite parecia enorme a tal ponto
que bastava permanecer completamente quieto
para se sentir perdido.

O simples som de uns pés descalços
no piso de cima
podia deixar uma marca indelével
nos olhos fechados.



Transe kafkiano

Na noite anterior deixei tudo preparado,
tinha pressa de sair, queria
chegar à cidade logo que possível.

De modo que pela manhã
nem sequer fiz café, contentei-me
com beber água da torneira
e pegar numa maçã para a viagem.

Deixei a casa desordenada,
a cama por fazer, baixei as persianas
abotoando a camisa e ajeitando
o cabelo.

Mas ao abrir a porta era já tarde,
o ar tornava-se áspero, estava a escurecer
e recuei cansado e abatido.



Anotações para um futuro manifesto, 8

Como lema fundamental para estes estranhos
tempos de miragens e mutações:
não pertencer nunca a nenhuma matilha.

Não formar parte de nenhuma patrulha
de linchadores. Não se acercar jamais
de nenhuma espécie de grupo enaltecendo-se.

Nem agentes uniformizados, nem portadores
de insígnias, nem trauteadores de marchas
nacionais.

Compreendo perfeitamente onde isto me situa.
E compreendo perfeitamente que assim se corre o risco
de ser convertido em vítima da noite para o dia.

Sem se dar conta. Sem saber por quê.
Sem possibilidade de remissão. É sempre assim.
O que é que se há-de fazer.



Poema da não aceitação

A minha amada conserva em seu olhar
a luz de quem não aceitou ainda
o mundo.

É algo facilmente perceptível
em algumas pessoas,
só é preciso fixá-las por um bocado para notar
quem já aceitou o mundo
e quem ainda não o fez: apaga-se algo.

Não há que aceitar o mundo
antes dos quarenta.
Fazê-lo antes denota um suspeito
excesso de bons modos,
algo como uma interessada
convivência com o estabelecido.

Isto é apenas uma opinião minha, é claro,
e dou-me conta de que não soa
lá muito bem nos tempos que correm.
Nem noutros.

Mas o que posso fazer; a minha amada
ainda tem o brilho da negação.
É indómita, usa o cabelo solto, nunca
tira o corpo fora, nunca rejeita um desafio.

Ficar a seu lado pode ser perigoso,
mas, meus amigos, creiam-me se vos digo
que vale bem a pena correr esse risco.



Anotações para um futuro manifesto, 11

De repente estás vivo: e isso está bem.

É como pensar que poderias perfeitamente
estar morto, mas não é o que se passa.

Não é que isso signifique algo: não pretendo
dar a entender que radique aqui o segredo
para a felicidade, nem nada do género.

A única coisa que digo é que há vezes
em que repentinamente te dás conta
de que não estás morto: de que vives.

E isso é tudo.



Epitáfio sarcástico para si mesmo

Na realidade, estava ainda vivo
quando me enterraram.

Sempre consegui enganá-los
com uma certa facilidade.

Só que nunca
me serviu de nada.

in Apuntes para un futuro manifiesto, DVD

Uma faca só lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangur,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
co o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.


D

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
marébaixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esquleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E

Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
sseja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F

Quer seja aquela bala
ou outra qualque imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G

Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por algúem referida
de um homem que se fez
memória tão ativa

que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminia, apertada.

H

Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente

o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz ,
certa eletricidade,

mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.

I

Essa lâmina adversa,
como o relógio ou a bala,
se torna mais alerta
todo aquele que a guarda,

sabe acordar também
os objetos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha
a vida mais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.

Em cada coisa o lado
que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas como a cera

despem-se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas

Pois entre tantas coisas
que também já não dormem,
o homem a quem a faca
corta e empresta seu corte,

sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.

****

De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que ais condensa o homem
quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;

pois de volta da faca
se sobe a outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,

e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso
porém forte a dentada

e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pode a linguagem,

w afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,
prima e tão violenta
que ao tentar apreendê-la
toda imagem rebenta.

- João Cabral de Melo Neto

Morandi

Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.
Sem outra utilidade nem premência
que estar aí, que dar à consciência
um suporte casual. Que traço grafa

o gesto que uma acende os outros usa
para beber? Tudo foi clareado
ou coberto de cal e nada acusa
abandono, descuido nem cuidado.

A luz somente é familiar e reta,
o relevo eficaz; sombra direta
se alonga na toalha. O dia cedo

segue o passo do tempo, lento, a vaga
irrealidade. A tarde já se apaga.
Objetos se abraçam: sentem medo.

- Severo Sarduy
(tradução de Haroldo de Campos)
retirado daqui

sábado, julho 30, 2011

Cantiga de Malazarte

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.

- Murilo Mendes

Noturno de Petrópolis

Um grilo crepita seu alegre fósforo
invisível acendendo a escuridão da alma,
os mil outros momentos nos quais grilos cantaram
e que longe dormiam entre os vãos do silêncio
agora quase presentes, quase lembrança
mas tão de leve, que nos desenham o próprio esquecimento
como se olhássemos uma janela aberta sobre o jardim noturno
advinhando as rosas na limpidez da brisa.

- José Paulo Moreira da Fonseca

O diâmetro da bomba

Trinta centímetros era o diâmetro da bomba
cujo raio efetivo de ação
– cerca de sete metros –
continha quatro mortos e onze feridos.
E ao seu redor, aqui e ali, num círculo
mais amplo de dor e tempo,
há dois hospitais e um cemitério.
Mas a jovem enterrada em seu
lugar de origem
a mais de cem quilômetros de distância
amplia consideravelmente o círculo.
E o homem solitário que, num canto remoto
de um país do além-mar, chora-lhe a morte
inclui no círculo o mundo inteiro.
Não vou sequer falar do pranto dos orfãos
que alcança o trono de Deus
e o ultrapassa, criando
um círculo sem fim nem Deus.

- Yehuda Amihai
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

sexta-feira, julho 29, 2011

Homem e mulher passam pelo pavilhão de cancerosos

O homem:
A fila aqui são ventres podres
e aquela, peitos podres. Cama fede junto
a cama. As enfermeiras trocam de hora em hora.

Vem, ergue devagar esta coberta.
Olha: esta massa gorda com humores podres
já foi querida outrora por um homem,
era seu êxtase e seu lar.

Vêm, olha as chagas neste peito. Notas
o rosário de nós pequenos, moles?
Apalpa. A carne é mole e nada sente.

Esta outra sangra como que de trinta corpos.
Ninguém tem tanto sangue.
Tiveram que cortar,
daquele corpo canceroso uma criança.

Que durmam. Dia e noite. — Diz-se aos novos:
o sono aqui faz bem. — Mas aos domingos
deixam-nos acordar, para as visitas.

Comem um pouco. Suas costas cobrem-se
de chagas. Olha as moscas. A enfermeira,
às vezes, lava-os. Como se lavasse um banco.

A cova aqui já ronda cada cama.
A carne desce à lama. A chama some.
A seiva se derrama. A terra chama.

- Gottfried Benn
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

1952-2001

Sabes, Miguel? Tu não foste um morto
rentável, desses sobre quem muitos
depois escrevem prantos rimados
e apressados encómios. Não tiveste amigos
desses. Ainda bem. Faltou-te em obra
(escrita e publicada) o que ao fim da noite
te sobrava de vida – coisa tão pouco afim
de carpideiros que ignoram com devoção
a morte de que não morrem.

Não faz mal. Eu lembro-me:
dos copos quase adolescentes que trazias
nos bolsos à saída de bares na moda
ou daquele “poema” que gostarias de ter escrito
num computador portátil, só porque
um poeta – sim, o Fernando – te quis honrar
em vida o nome. O Zé estava lá, sorria,
e concordará talvez que esses gestos sem futuro
têm mais poesia do que tantas e prefaciadas
obras reunidas que fazem das livrarias
bordéis de pouca alma, hipóteses de terror.

Gente que escreve bem, admito,
merceeiros do sublime que ocasionalmente
te apertaram a mão nos engalanados
salões da cultura. Boa gente…
Eu, mais de fora, pouco tenho a dizer.
Eram antes roulottes, discotecas tristes,
o sorriso de álcool com que a manhã tomba
sobre nós e se despede para sempre.

O teu carro era veloz, tornava pequena
e sórdida a vinte e quatro de Julho.
demasiado veloz, o teu carro, a notícia
sem rasura que chegou de noite
ao silêncio dos corações disponíveis.

Não faz mal. São coisas que acontecem
a “esses gajos da noite”. Pois, sabemos muito
bem: a morte, essa certeza improvável.
Bebemos, claro, e fingimos que o nome
dos mortos se apaga na euforia
baça com que os dias se sucedem.
Também temos, por enquanto, uma razão
precária e urgente para fingirmos e ficarmos.
O que é muito humano – e um pouco desprezível.

Só nunca saberei o que me querias dizer
sobre Blanchot, l’entretien (in)fini. Não esperei
que regressasses do carro, com o livro anotado,
e o último copo parece-me agora
uma despedida incompleta, um rasto de cinza
que tinge de mágoa o balcão a que me encosto.

Deus, Miguel, é esse estafermo iletrado
a quem nunca dedicaste um verso. Fizeste bem.

- Manuel de Freitas
in [Sic], Assírio & Alvim

quinta-feira, julho 28, 2011

Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz

Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
mancebos,
senhoritas,
-chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2.000, que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias,
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o a.C., believe or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranqüilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São-Nunca.
Saiu pra não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplicemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando ele nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada
de Morro Velho
a paz
da
paz

- Carlos Drummond de Andrade


Quanto mais vais sabendo mais curtos ficam os dias. Estamos parados e a água vai subindo. Primeiro pelos calcanhares. Depois pelos joelhos, pela cintura e quando damos por nós estamos com ela por aqui. E começas a ter medo. Medo do escuro. Assim se lamenta um velho numa peça do José Maria Vieira Mendes, como se houvesse o que valesse mais a pena do que nos derrotarmos todos os dias, aos dias subtraindo o tamanho e a distância, preço muito em conta por um pouco de funda consciência. Não é um negócio segundo as normas, talvez seja mesmo gestão danosa, mas ainda não descobrimos outras maneiras de fugir ao coma.

- Pedro Jordão
(retirado daqui)

Instantâneos

Para o poeta admirável
e amigo querido, Haroldo de Campos

Aparecem, desaparecem, voltam, piam entre os
ramos da árvore dos nervos, bicam horas já maduras
– nem pássaros nem idéias, reminiscências, anunciações;

cometas – sensações, passos do vento sobre as
brasas vivas do outono, faíscas no talo da corrente
elétrica, surpresa, rosa súbita;

búzio abandonado na praia da memória,
búzio que fala a sós, taça de espuma de pedra, alfaia
do oceano, grito petrificado;

lenta rotação de países, incêndios nômades, paralisia
repentina de um deserto de vidro, transparências pérfidas,
imensidões que ardem e se apagam num piscar de olhos;

o sangue flui entre altos pés de hortelã
e colinas de sal, a cavalaria das sombras acampa
às margens da lua, rufar de tambores no areal
sob um planeta de osso;

melancolia de uma arruela oxidada, coroam um
escaravelho rei de uma xícara rota, mariposas velam sobre
uma fuselagem adormecida, girar uma roldana sonâmbula;
premonições e rememorações;

chuva ligeira sobre as pálpebras da aurora, chuva
tenaz sobre o verão devastado, chuva tênue sobre
a janela da convalescente, chuva sobre o confete
da festa, chuva de pés leves e sorriso triste;

caveira de quartzo sobre a mesa da insônia,
cavilações de madrugada, ossos roídos, tesouras e brocas,
agulhas e navalhas, pensamento; corredor de ecos;

discurso sem palavras, música mais vista que ouvida,
mais pensada que vista, música sobre talos de silêncio,
corola de claridades, chama úmida;

enxame de reflexos sobre a página, ontem e hoje
confundidos, o visto enlaçado ao entrevisto, invenções
da memória, lacunas da razão;

encontros, despedidas, fantasmas dos olhos, encarnações
do tato, presenças não chamadas, sementes de tempo:
destempos.

- Octavio Paz
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

quarta-feira, julho 27, 2011

Ilustrazione

Faço um poema e nasce uma cidade
invento o conteúdo geográfico das coisas.
Escrevo um nome e nasce Dublin
porque Dublin escrevi.
Se onde ponho um traço nasce uma via de ferro
então é um comboio em direcção a Roma.
Faço uma cidade e vejo-me um neón
ponho um anúncio e nasce uma cigaretta.
O italiano compõe o soar da palavra
eu dou uma entoação ao segredo do fim
Se há um horizonte para divulgar o Sol
há uma expectação para divulgar o coração
Se há um moinho para os lados de Perpignan
há Daudet a repousar o Sol numa cadeira
Se há Avignon, uma festa, a França, a Península Itálica,
Burgos e todas as catedrais espanholas
há uma cidade cheia de Sol a compor a direcção
Se o mar fica no fim
Lisboa fica ao pé de Lisboa fica súbito
como se o Tejo fosse um braço decepado
e um cacilheiro total o pano de uma bandeira
Pensa-se no rumor tribal que inunda todas as ruas
faz-se um boulevard duma avenida nossa
põe-se Lautéamont a inventar um prédio.
Há a loucura a inundar a parede
o relógio que
se primeiro bateu na cabeça de Poe
bate depois no sangue feito do conto
divulgado no livro
Lê-se o fígado do poeta no álcool derramado
sobre o desmaio de Ligeia
se esta tem as mãos ebúrneas nasce âmbar
nas mãos brancas duma conceição tripartida.
Ah, se onde ponho a imaginação nasce um lírio
derramem-me a história duma amante sobre a cabeça
pois sou o amante duma perversão absoluta.
Não rasgues o sentido do ombro aí onde tens o tatu do destino
e aí onde só a virgindade do teu androceu malino
pode factar a dimensão do totem a inundar de carácter
todo o céu africano.
Ah, nasça-me um árabe de luz com seu corpo moreno
contradizendo a logia
nasça-lhe uma idade de rosto sua idade gidiana
para compor a tenda com precaução indefinida.
Reveja-se o jeep inglês de Lawrence
que inundava o deserto duma celtidade absoluta,
o zénite solar sobre o bico da tenda.
Só a imagem dum rio pode dar ao poema
toda esta noção geográfica que o poema não tem.
Bramaputtra
se nasceres no papel vou dizer à ondina do gnomo
que a floresta não constrói.
Ponho uma fonte a cantar na cabeça do gnomo
e o gnomo surge e nasce
como o ícone divulgado.
É rica a mitologia germana
para dar um sentido ao godo que de chifres na cabeça
usa um segredo quotidiano pendular
que é o pulso esquerdo da fêmea.
Põe-se-lhe a data
e o poema nasce
rubicundo
como a ponta de um lápis
que escrevesse no registo
o nome macho dum bebé.
I achieve
I finalize
eu acabo
eu finalizo.
É o poema terminado.

- António Gancho
in O ar da manhã, Assírio & Alvim

Sem mais peso

para Ottone Rossi, 1934

Em prol de um Deus com riso de garoto
Tantos gritos de pássaro,
nos ramos tanta dança,

Uma altura se desfaz de todo o peso,
Os prados ganham tal ternura,
Um tal pudor renova-se nos olhos,

As mãos que nem as folhas
encantam-se na brisa...

Quem teme agora? Ou julga?

- Giuseppe Ungaretti
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915

Toda uma noite em claro
caído ao lado
de um companheiro
massacrado
com sua boca
arreganhada
exposta à lua cheia
com o hematoma
de suas mãos
cravado
em meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor

Não tinha nunca estado
tão
aferrado à vida

- Giuseppe Ungaretti
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

terça-feira, julho 26, 2011

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- Julio Cortázar

NOVO ENIGMA PARA ÉDIPO
(MONÓLOGO A DUAS VOZES)


É coisa? – Não.
Está vivo? – Sim.
É vegetal? – Não.
É animal? – Sim.
Rasteja? – Às vezes; nem sempre.
Qual é sua postura? – De pé.
Voa? – Cada vez mais.
Assobia? – Às vezes.
Ruge, muge, late, ladra, uiva, ulula? – Sim, quando quer, por imitação.
Sabe fazer ninhos para a cria? – Constrói todo tipo de alvéolos trêmulos.
Cava túneis subterrâneos? – Cada vez mais, porque voa e tem medo.
Alimenta-se de frutas, de plantas? – Sim, porque é frágil.
E de carne? – Muitíssimo, porque é cruel.
Fala – Demais: suas palavras enchem a terra inteira de barulho.
É portanto leão tigre e ao mesmo tempo gado e ao mesmo tempo papagaio gato cachorro macaco toupeira e castor? – Sim sim sim sim tanto isso tudo quanto ele mesmo e todos os outros.
Vive à noite ou de dia? – Vive à noite e de dia. Dorme às vezes de dia e trabalha à noite porque teme os próprios sonhos.
Pode ver e ouvir? – Vê tudo ouve tudo, mas tapa os ouvidos.
Que faz quando trabalha? – Ergue altas muralhas para ocultar o sol. Fala, canta, resmunga para encobrir o estrondo do trovão.
E quando não está fazendo nada? – Esconde-se. Treme com todos os membros sem saber porquê.
Dirige-se rumo a algo, alguém? – Pensa que sim, finge ser chamado, escolhido, coroado.
É mortal? – Julga-se imortal, mas morre.
Gosta da morte? – Detesta-a não a compreende.
Que faz contra a morte detestada? – Multiplica-a dentro e fora de si por toda a terra no mar e no ar, espalha-a nutre-se de vida, isto é, de morte.
Com todo esse massacre, que quer ganhar? – Pensa perder de vista o fim, borrar o horizonte.
Que espera afinal? – Sua morte, sua própria morte.
E quando sua própria morte enfim chega? – Não a reconhece: pensa que é a vida e prosternado chora.

- Jean Tardieu
(tradução de Nelson Ascher)
in Poesia Alheia, Editora Imago

What the Chairman told Tom

Poetry? It’s a hobby.
I run model trains.
Mr Shaw there breeds pigeons.

It’s not work. You don’t sweat.
Nobody pays for it.
You could advertise soap.

Art, that’s opera; or repertory—
The Desert Song.
Nancy was in the chorus.

But to ask for twelve pounds a week—
married, aren’t you?—
you’ve got a nerve.

How could I look a bus conductor
in the face
if I paid you twelve pounds?

Who says it’s poetry, anyhow?
My ten year old
can do it and rhyme.

I get three thousand and expenses,
a car, vouchers,
but I’m an accountant.

They do what I tell them,
my company.
What do you do?

Nasty little words, nasty long words,
it’s unhealthy.
I want to wash when I meet a poet.

They’re Reds, addicts,
all delinquents.
What you write is rot.

Mr Hines says so, and he’s a schoolteacher,
he ought to know.
Go and find work.


- Basil Bunting

segunda-feira, julho 25, 2011

-
Comove-me esse rapaz que está na biblioteca
a ver livros antigos
de Juan Ramón, de Rilke, de Alberti (de quem guarda
um autógrafo com foto).
Comove-me ver como passa a tarde
com tanta noite ao fundo.
Como uma voz o avisa, como apagam as luzes,
como ele se apaga, como
de regresso ao seu bairro onde ninguém o espera,
onde todos o esperam,
vai pensando uns versos, vai sonhando essa música
que não dirá aos outros.
Miúdo da rua que apedreja os candeeiros do jardim
e tenta fazer de mau.

- Ángel Mendoza
(tradução de Inês Dias)

domingo, julho 24, 2011

sábado, julho 23, 2011

Louvor do Bairro dos Olivais

Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes; eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das

pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d'asas

amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente

um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente

- Fernando Assis Pacheco
in A Musa Irregular, Assírio & Alvim

sexta-feira, julho 22, 2011

Vergonha da poesia?

Mas a «miséria» da poesia não é só caso de marginalidade económica e social. Ela resulta, talvez mais fundamentalmente, das dificuldades que tem hoje, mais do que outras artes, em desfazer-se dos clichés que não só mancham a representação que dela se tem comummente, como a atulham a si própria nas suas tentativas de evoluir. Daí um mal-estar que pode ir até à auto-repulsa: já ninguém se atreve a afirmar-se poeta, como se se tivesse vergonha da imagem que a corporação projecta muitas vezes de si própria. E, de facto, pieguice, velharia, sentimentalismo, grandiloquência, afectação de uma pose recolhida, logomaquia, excesso de obscuridade com vista à intimidação do leigo: tantos defeitos que contribuem para esse mal-estar que, mais cedo ou mais tarde, qualquer um pôde experimentar ao assistir a leituras de poesia.

Jean-Claude Pinson, in PARA QUE SERVE A POESIA HOJE?
retirado daqui

quinta-feira, julho 21, 2011

To Gottfried Benn

Poetry is not instruments
that work at times
then walk out on you
laugh at you old
get drunk on you young
poetry's part of your self

like the passion of a nation
at war it moves quickly
provoked to defense or agression
unreasoning power
an instinct for self-declaration

like nations its faults are absorbed
in the heat of sides and angles
combatting the void of rounds
a solid of imperfect placement
nations get worse and worse

but not wrongly revealed
in the universal light of tragedy

- Frank O'Hara
in Selected Poems, Carcanet

Os velhos

Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

- Carlos Drummond de Andrade

nos países democráticos

nos países democráticos
a cultura levou a
que o futebol e as telenovelas substituíssem as guerras

os danos
hoje
são irrisórios
a propagação da estupidez quase não tem efeitos
colaterais

- José Carlos Barros
in Rumor, edição do autor

Spleen

I know so much
about things, I accept
so much, it's like
vomiting. And I am
nourished by the
shabbiness of my
knowing so much
about others and what
they do, and accepting
so much that I hate
as if I didn't know
what it is, to me.
And what it is to
them I know, and hate.

- Frank O'Hara
in Selected Poems, Carcanet

Bridesmaids (2011)


7/10
The Dial Papers, 1919-1920
X

minha jovial senhora terá outros amantes
mas nenhum coração mais prostrado do que o meu
quando à minha luxúria,divertida, desvela
a fome excitante de seu corpo possível.

Nenhum terá braços de tão enorme grito
lábios mais esfaimados por abraçá-la –
nenhum jamais fará a minha senhora
o que faz meu sangue, quando a seguro e beijo

(ou quando desnuda me convida
a ganhar fundo toda a sua nudez
sua carne todos os violoncelos nocturnos
contra o solitário violino da manhã)

algo mais longínquo que navios ou flores,
seu beijo furioso compreende-me
floresta brilhante de árvores altas e fugazes
– que mais faz se tiver cem companheiros?

recordará, creio, minhas mãos

(nisto seria o ciúme descabido.)
Minha luxúria não terá mais senhoras.

- e. e. cummings
(tradução de Miguel Martins)

quarta-feira, julho 20, 2011

Esta sexta


_____________(clica para aumentar)

Repetição

As luzes engrossam o ar da noite
e logo um inferno se antevê numa estrela.

É fácil ao ouvir a chamada de um velho amigo
ir de encontro ao pedido e aceder
mil vezes aceder ao vício de articular o horizonte
por palavras que andam de terra em terra
em vida de circo.

Tapo a boca com um sorriso
reverto o reverso no seu lado único
e estoura-me um vulcão pequenino
com água quente e solidão à porta
da hora começada.

Molha-se o papel a história segue em parte
onde não escrevo deixo a luz apagar.

- Ana Salomé
-
Falo para ti à escuta.
Os passos não me levam e levam estes pés.
As palavras criam-me, não escutes
mais que este rosto sonoro.
Como se a água de um tanque
mostrasse musgos, folhas podres, rãs,
corpos que surgem dentro da casa. Não os vejas.
Entre ruídos e minuciosos sinais
à sombra do meu olhar
escuta-me ainda que oiças restos.

- Joaquim Manuel Magalhães
in Vestígios, Centelha

A Cirrose do Fígado é uma Flor Perniciosa

A cirrose do fígado é uma flor perniciosa
e o amor um longo caminho tortuoso
escoltado pelas altas e imensas falésias
donde caem pequenos calhaus que fendem os corações

A hora de nos retirarmos dos lençóis que se colam à carne
é um horror sem nome
Abrir portas descer escadas pisar
merda nas ruas
qualquer coisa como uma precoce descida ao túmulo

Escrever no côncavo da mão com
uma caneta verde
o número de telefone de uma mulher
que forçosamente destruiremos
será sempre um começo e um fim
de romance negro.

- André Laude
(tradução de Miguel Martins)

terça-feira, julho 19, 2011

-
Uma caixa de cimento fresco. Deita-o
lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não
penses mais nisso. A sul, há mulheres
cujo futuro é um avião que não deixa
traços no céu. A norte, se preferires,
há-as engarrafadas, em decilitragens
as mais diversas. Com os homens
é a mesma coisa, dois dedos de conversa
e uns quantos cubos de gelo. Meia
hora chega para ir repondo o stock
de episódios com que fingir que estamos
vivos. Isso deve bastar-te, excepto
se te achares mais do que os outros
e Deus te livre de uma coisa dessas.
É isso: aprende a metafísica das
t-shirts brancas, das curvas apertadas,
da velocidade calma. O resto é
conversa de poetas, filósofos, historia-
dores, que fumam mais do que vêem
e lêem mais do que assobiam ao sair
à rua. O resto é uma perda de tempo
e não eras tu o tal que tanto nos
maçava com a iminência da
morte, com a falência da Sociedade
por quotas, com a genealogia
dos suínos? Aproveita agora esta
oportunidade de não ser nada
contigo; juro-te que ninguém
te vai levar a mal; envia, apenas,
um postal de Tânger e um contacto,
para o caso de o Emanuel ou a
Angelina quererem ir de férias e
precisarem de um sítio onde ficar.
Não é pedir muito em troca da
tua liberdade. Vá! Uma caixa de
cimento fresco. Deita-o lá dentro.
Sabes do que estou a falar. Ver-
melho escuro. Isso. O coração.

- Miguel Martins

Dia 22, às 22h, no lugar do costume




Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi a Charlize Theron gorda no filme Monster.

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem com os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.

- Golgona Anghel
in Vim porque me pagavam, Mariposa Azual

segunda-feira, julho 18, 2011

Morte do familiar de estrelas

Devia morrer dizem
As estrelas eram-lhe mais próximas
Que os próprios homens

Comeram-no as formigas dizem
Pretendia que as estrelas
Engendram formigas e as formigas estrelas
E encheu a casa de formigas

As depravadas do céu dizem
Subiram-lhe à cabeça
São ridículas todas as querelas
Sobre o punhal com sinais humanos

Está já fora do mundo dizem
Procura um girassol

Onde os caminhos se cruzam
De cada coração e estrela

Devia morrer dizem

- Vasko Popa
(tradução de Eugénio de Andrade)
in A Religião do Girassol, Assírio & Alvim

Monsters (2010)


7/10

Solilóquio do Caladinho

Eu não sei o que diga
se me falam na rua.
Não estou preparado
para conversa no ar.

Não sei fazer visita
e dizer as amenas
frases que toda gente
traz no bolso da calça.

A mentira é difícil
e não por ser mentira:
porque exige da gente
a arte de inventar.

A alegria é difícil
de se manifestar,
não por ser alegria.
Porque é forte demais.

O sofrimento é fácil
de se exigir na face.
Tudo dói, tudo queima
sem fósforo aparente.

Os parentes me falam
uma língua só deles.
Eu entendo a linguagem
das pedras sem família.

Tudo é mais complicado
se se tenta explicar.
Um gato me fitou,
percebi tudo: nada.

- Carlos Drummond de Andrade

Procurar o quê

O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.
Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.
Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.
Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeiras, nas gretas do muro, nos espaços vazios.
Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.
Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.
Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.
Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.
Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.

- Carlos Drummond de Andrade

domingo, julho 17, 2011

Les petits mouchoirs (2010)


8/10
COISAS QUE NUNCA - 2

Coisas que nunca tivessem ocidente. Crianças
que nunca envelhecessem. Rios
que nunca desaguassem. Coisas
sem o engodo de crescer
em direcção à morte.

- Inês Lourenço
in Coisas que nunca, & etc.
ADVERTÊNCIA

Dizem-me distante da terra
e, qual judeu errante,
não pude criar raízes
(leia-se amigos
confrontos
países).

Que não vos espante
me sejam tão fáceis
os adeus.



ACENDEU-SE A LUZ

Acendeu-se a luz
e a casa ficou completa e perfeita
– um girassol esquecido
espera no jardim.

Toda a escuridão é exterior a si
– flor desmedida.

O seu cântico é sereno e lógico
como a explicação de um sonho.

Quando a corola
se fechar
para a noite
eis a morte
do poema.



CERTA MÃO

Sempre espanta a resignação tranquila
de quem no rodar de cada dia
se despede dos que ficam, renitentes.

Não existe uma arte de morrer,
mas certa mão que fecha os olhos
docemente.



MISERICÓRDIA

A vida faz-se com as desoras
dos ponteiros adiantados
e das cordas partidas
dos lentos saltos no infinito
e das bruscas quedas na praça.

Esta é a forma
da Providência nos poupar
à morte pontual dos condenados.

- Manuel Filipe
in O Rosto Remoto, edição do autor

sexta-feira, julho 15, 2011

Rua Imprensa Nacional, 116b (cave do restaurante BS)


NÃO TEMOS MUITO TEMPO PARA AMAR

Não temos muito tempo para amar.
A luz vai desaparecendo.
As coisas que amamos são as mesmas
que em breve perderemos.

Os piores vestidos são os que
diariamente se vão usar.
Os teus cabelos já te vi pentear,
em silêncio – íntimo,
escuro e caloroso.

Tentaria tocar-te num braço,
mas escolhi não o fazer.

Podia, mas não quis, quebrar
aquilo que se mantém imóvel.
(O mais ténue suspiro
quase seria um estridente grito).

Por isso, os momentos passam
como se quisessem ficar.
E não temos muito tempo para amar.
Uma noite. Um dia...

quinta-feira, julho 14, 2011

Cortázar, Los Amantes

Hoje é dia de receber




Manhã de Embriaguez

Ó meu Bem! Ó meu Belo! Fanfarra atroz em que já não tropeço! Cavalete feérico! Hurrá pela obra inaudita e pelo corpo maravilhoso, pela primeira vez! Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar. Este veneno vai ficar em todas as nossas veias, mesmo quando, regressada a fanfarra, formos devolvidos à antiga inharmonia. Ó nós agora tão digno destas torturas, cumpramos fielmente a jura sobre-humana feita ao nosso corpo à nossa almas gerados: esta promessa, esta demência! A elegância, a ciência, a violência! Prometeram-nos enterrar na sombra a árvore do bem e do mal, banir as honestidades tirânicas, afim de que pudéssemos nosso puríssimo amor. Isto começou com uma certa náusea e isto acaba - não podendo assenhorar-se já de tal eternidade - isto acaba por uma debandada de perfumes.
Risos de crianças, discreção de escravos, austeridade das virgens, horror destas caras e destes objectos, sagrados sejais pela recordação desta vigília. Isto começou com toda a grosseria, eis que isto acaba em anjos de fogo e neve.
Breve vigília de embriaguez, santa!, quanto mais não seja pela máscara que nos deste! Afirmamos-te, método! Não esquecemos que exaltaste outrora todas as nossas idades. Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos os dias.
Eis o tempo dos ASSASSINOS.

- Jean-Arthur Rimbaud
(tradução de Mário Cesariny)
in Iluminações, Uma Cerveja no Inferno, Assírio & Alvim

quarta-feira, julho 13, 2011

Rumor, José Carlos Barros

RUMOR. Poemas. Edição do autor.
Tiragem: 100 exemplares numerados.

Para adquirir um exemplar de RUMOR: enviar um mail para blogcacela@gmail.com indicando endereço postal completo e número de contribuinte (para ser possível a emissão de recibo). Nesse mail indicar-se-á que se procedeu já à transferência bancária (no valor de 11 euros) para a seguinte conta (NIB):

0033-0000-00060303349-05.

O livrinho seguirá de imediato por correio normal.

terça-feira, julho 12, 2011

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Noite no Inferno

Engoli uma notável poção de veneno.
- Três vezes seja bendita esta riquíssima ideia! – As entranhas ardem-me. A violência da peçonha galvaniza-me os membros, desfigura-me, atira-me por terra. Morro de sede, sufoco, não posso gritar. É o inferno, a pena capital. Vede como as chamas cobrem tudo! Ardo bastante bem. Aplica-te Demónio!
Estava eu a sonhar com uma conversão à ventura e ao bem, a salvação. Poderei descrever tal visão? O ar do inferno não suporta hinos! Eram milhões de criaturas amáveis, um suave conluio espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que sei eu?
As nobres ambições!
E é ainda a vida! – Se a danação é eterna! Um homem que quer mutilar-se está danado e bem danado, não é assim? Imaginar o inferno é ser inferno. É o cumprimento do catecismo. Sou escravo do meu baptismo. Ó família minha, fizestes o meu infortúnio e fizestes o vosso. Coitadinho do inocente – O inferno não pode engolir os pagãos. – É ainda a vida! Mais tarde, as delícias da danação irão muito mais fundo. Um crime, depressa, que a lei humana me precipite no vácuo.

- Jean-Arthur Rimbaud
(tradução de Mário Cesariny)
in Iluminações, Uma Cerveja no Inferno, Assírio & Alvim

segunda-feira, julho 11, 2011

domingo, julho 10, 2011

-
Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,
e a água onde mergulhas logo encerra
em fresca e fina luva o corpo inteiro
e sem pudor algum te abraça e beija.
Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,
pela nudez da carne se insinua
e entre as coxas flutua, como um peixe
mais branco, que outra sombra continua.
Mas eu, quando me cubro do teu rosto
e sou somente de água e fogo feito,
melhor ainda te conheço e quero,
e nada no teu corpo me é alheio:
em cada grão de pele te desejo,
em cada ruga leio o meu destino.

- António Franco Alexandre
in Duende, Assírio & Alvim

sexta-feira, julho 08, 2011

Primeira noite

Eu dormia debaixo de ti,
quieta e escura, tão deserta
como uma paisagem de campos, o meu sangue lentamente
secando entre nós, a brecha na minha carne
começando a sarar, aberta, uma fronteira
irreversivelmente abolida.
Os habitantes do meu corpo começaram a
erguer-se no escuro, a fazer as malas, a mudar-se.

Toda a noite, hordas de gente
em roupas pesadas mudaram-se para sul dentro de mim,
com as casas às costas, sacas de
grão, crianças pela mão, debaixo
de um céu como fumo. Os pastos
deslocaram-se centenas de milhas. Alguns animais,
de repente, quase se extinguiram,
uma ou duas formas singulares,
nodosas, nas partes opostas da terra.
Outras formas se multiplicaram,
massas de asas de um vermelho escuro
jorrando de parte nenhuma. Os rios mudaram de curso,
a linguagem deu uma volta
completa sobre si
e encaminhou-se na direcção oposta.
Ao amanhecer, as migrações tinham terminado. Secou
a derradeira orla do laço de sangue,
e como um animal recém-nascido prestes a ser ferrado
abri os olhos e vi o teu rosto.

- Sharon Olds
(tradução de Margarida Vale de Gato)
in Satanás diz, Antígona

(retirado daqui)

quinta-feira, julho 07, 2011

Poemas por dinheiro

António Franco Alexandre

-
tão pouco sentimento é a emoção, que quando
do chão a levantamos se fez leve
maneira de outras águas

os camiões caminham para o norte
com serenos destroços
as maquinetas baças da invenção

será verão, os panos levantados;
terás no espelho a idade, o jeito quase
infeliz de ser homem;

o pouco amor te imita; e nunca
chegarás a saber que não existes.


*


uma ternura, só, das tuas
não-palavras, as dóceis, as
migrantes, as sem

nome sequer, ninguém, algum
calor dos dedos quando, em torno,
o surdo som se alheia,

um rio, um riso, uma memória
do lado escuro
das mãos, grato

te escondo, esqueço, na
estéril noite agriceleste,
em neve, em chama, em terra

amordaçado,
em laço, em água, em chão
de chuva destrançado,

meu pouco amor de noitarder, de som
bra pequena em muramor, murmúrio,
meu morto corpo nu, meu cegamante.

in Poemas, Assírio & Alvim

Esboço para um poema de amor moderno

embora o branco
seja mais bem descrito pelo cinzento
o pássaro pela pedra
girassóis
em Dezembro

os poemas de amor de Outrora
eram descrições da carne
descreviam isto e aquilo
por vezes pálpebras

e embora o vermelho
deva ser descrito
pelo cinzento o sol pela chuva
papoilas em Novembro
lábios de noite

a mais tangível
descrição do pão
é uma descrição de fome
nela está
o caroço húmido e poroso
o interior quente
girassóis à noite
os seios ventre e coxas de Cibele

os seios ventre e coxas de Cibele

Uma primaveril clara
e transparente descrição
da água
é uma descrição da sede
cinzas
deserto
isso produz uma miragem
nuvens e árvores movem-se
para dentro do espelho

privação de desejo
ausência
de carne
tudo isto é uma descrição de amor
um poema de amor moderno

- Tadeusz Rózewicz
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Qual é a minha ou a tua língua, Assírio & Alvim

quarta-feira, julho 06, 2011

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.

Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.

Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.

- Luís García Montero
(tradução de Jorge Sousa Braga)
in Qual é a minha ou a tua língua, Assírio & Alvim

Rui Miguel Ribeiro

SAMIL, VIGO, 2011

Desde o mar vivo do olhar
doeu um pouco mais a água;
o areal da praia de Samil,
com a maré recuada do inverno.

Mar sem cantares, sem as ondas
de Vigo, não acerca a palavra
escrita, nem arrisca bailias.

Entre conchas e sombras
que se separam de um resto
de ter visto, não se vê chegar
e não se perde.

É a certeza de que sem regresso,
de tempo a tempo,
são os versos que se acabam.

in Telhados de Vidro n.º15, Averno

terça-feira, julho 05, 2011

Operário da palavra

Trabalhou toda a vida duramente, sem pretextos,
com ardor, com exaltação, quase com fé na imortalidade
e sem dúvida na sua imortalidade. Até que uma noite
de súbito soprou o vento. Soou sozinha a porta.
Via as estátuas cair de boca para baixo. Deu-se conta.
As palavras que tinham escrito assim calorosas, anos e anos,
petrificaram; sentiu-as sob os dedos
como a seca e neutral pele de um animal morto.

No dia seguinte, no entanto, prosseguiu regularmente o seu trabalho
e chegou a confundir imortalidade com mortalidade,
trabalho, embriaguez e esquecimento,
mas distinguiu com exactidão o que é o trabalho
do que é vaidade e orgulho. E o toque
do relógio tinha o som de um tambor dentro da noite
dando ritmo à marcha de sonolentos soldados
entre duas batalhas.

- Iannos Ritsos
(tradução de Amadeu Baptista)
XIII

O meu pai não é o mesmo desde então
e não o é porque talvez a ausência
esteja demasiado presente. Um vazio que o preenche
todo, que não o deixa ver para além dele próprio,
ocupa-lhe a mente e o peito.

Teria sem dúvida preferido uma espera
mais longa, percorrer aqueles corredores brancos
mais vezes, tornar a morte mais lenta...
e as pessoas não percebem todas estas coisas,
e olham-no e vêem-no afectado sem o compreenderem.

O meu pai, tal como o resto, não é o mesmo
desde então, a espera e o desenlace
confundiram-no.

Todos em alguma ocasião temos contacto
com a morte e sabemos sobrepor-nos;
mas alguma vez esperaste um telefonema
que te desse a saber o fim de alguém?

- Ignacio Escuín Borao
(tradução de Manuel de Freitas)
in Telhados de Vidro nº15, Averno
-
A calúnia eleva-se de modo indelével. Até quando?
Os abutres enlameiam os solitários com a sua própria ignomínia. Até quando?
A fronteira da vida privada e pública «napalmizada». Até quando?
Os violadores do indispensável segredo das nossas vidas satisfazem-se nas latrinas da história. Até quando?
Os matizes em torno do autor e sua obra nas mãos severas de exterminadores. Até quando?
As vítimas escarradas e pregadas ao pelourinho. Até quando?

Expressamos a nossa amizade e a nossa viva admiração por Milan Kundera, Outubro de 2008, em Paris.

- Fernando Arrabal
(tradução de Miguel de Carvalho)
in Telhados de Vidro nº15, Averno

segunda-feira, julho 04, 2011

O filho pródigo

Ao balcão do Danúbio azul
Bebo o café quente da manhã

Chegam peregrinos
Por caminhos e ruas, em mau silêncio

Na televisão, homens doutras eras
Falam de organismos especializados
De sacrifícios e responsabilidade

Nunca cantaria uma cidade
As ruas as pessoas as ladainhas
Nem as serras e os montes
Talvez um cão

- João Almeida
in Telhados de Vidro nº15, Averno

sábado, julho 02, 2011

-
Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.

Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida,
– olhai –
sou o novo modelo para o fracasso.

- Golgona Anghel
(inédito)

Canção da laranja vermelha

Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
– Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo –
doces iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.

Mudado para português por Herberto Helder
in
O Bebedor Nocturno, Assírio & Alvim

sexta-feira, julho 01, 2011

Alguns gostam de poesia, os outros ficam em casa

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhnXOX5cfVg5yZNGWsmlIb-RDUBKNPA_IsTemJhOarCoWk3juSpm364Cvup0PJgkdLRoQLnHSZh7qEKdCsqtB2ER8IEmntL5k4PlthuPT6VhssnViJvpzdii-tn8O0ckZNh3xjB/s1600/golgona.jpg
Esta noite, a partir das 22h.

Novo Dicionário do Islão - Margarida Santos Lopes

John Gray, em “Al-Qaeda e o Significado de Ser Moderno” (Relógio d’Água, 2004), afirma, num capítulo convenientemente intitulado “Aquilo que a Al-Qaeda destrui”, que “os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova Iorque a 11 de Setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Destruíram o mito dominante do Ocidente”. Uma visão igualmente polémica foi exposta por Jean Baudrillard num artigo originalmente publicado no Le Monde de 3 de Novembro de 2001, que coloca a imoralidade dos atentados em pé de igualdade com a imoralidade da globalização, ao mesmo tempo que afirma que os ataques foram uma espécie de sonho tornado realidade, num mundo que desejava interiormente a queda do poder norte-americano.
Estas teses, apesar das críticas que podem suscitar – e, como se sabe, suscitaram –, têm como pano de fundo uma questão cujo interesse não pode ser obscurecido: com a queda do Muro de Berlim, o mundo ocidental ficou sem o seu inimigo. Esta afirmação, podendo não ser absolutamente rigorosa, acaba por traduzir uma percepção mais ou menos generalizada e que, por isso mesmo, nos permite afirmar que após o colapso da União Soviética o inimigo do Ocidente, pelo menos, perdeu o seu rosto. E sem inimizade, não há curiosidade, não há o secreto desejo de afirmação da nossa identidade pelo confronto com aquela que é diferente da nossa.
Antes do 11 de Setembro, a curiosidade pelo Islão era de cariz antropológico e, seguramente, não era distinta da despertada por qualquer outra grande religião. O terrorismo islâmico dificilmente seria abordado fora da sua relação com o conflito israelo-árabe e como variante do terrorismo político clássico (hoje já lhe podemos chamar assim) na Europa após a Segunda Grande Guerra. Na trágica manhã de Setembro o inimigo ganhou um novo rosto – que, no entanto, já se nos vinha anunciando em atentados anteriores, sem que nos apercebêssemos bem disso. Nos escombros das Torres Gémeas, o Ocidente foi obrigado – dessa feita sem remédio – a virar a atenção para a mais recente alteridade: a Al-Qaeda e a sua jihad à escala global.
Desde então, embora infelizmente em menor expressão que o tema do terrorismo, têm surgido em quase todas as editoras um número particularmente significativo de publicações sobre o islamismo, a sua filosofia e as suas dimensões políticas. Criou-se, assim, um “rosto” de um novo inimigo e deu-se origem a um interesse sem precedentes religião em nome da qual, supostamente, os atentados foram cometidos.
Não se alheando deste processo e, também, dos perigos potenciais da identificação (abusiva e sociologicamente incorrecta) entre terrorismo e Islão, este “Novo Dicionário do Islão” (Casa das Letras, 2010) coloca, logo na capa, uma questão indispensável ao leitor: porque é que o Islão atrai e amedronta? No seu seio surgiu a terrível seita dos assassinos, mas nele nasceram os grandes poetas Al-Farazdaq (p. 113), Jarir – os dois grandes rivais – e Abu Nuwas (p. 24). É a religião dos filósofos Avicena (p. 159) e Averróis (p. 158), mas também de Sayyid Qutb (p. 297), o ideólogo da Irmandade Muçulmana (p. 167) – para sermos precisos deveríamos dizer do Islão político moderno revolucionário e anti-ocidental –, que a jornalista Margarida Santos Lopes, discutivelmente, qualifica como o “ideólogo da jihad”, colocando algo do definido na definição.
Esta nova versão do “Dicionário do Islão” (Editorial Notícias, 2002), revista e aumentada, tal como a sua primeira edição, corresponde a uma enciclopédia, organizada alfabeticamente, e completada por uma vasta cronologia do Islão, que começa em 25 a.C., muito antes do nascimento de Maomé, incluindo acontecimentos que pouco ou nada contribuem para a compreensão do Islão, a não ser numa visão excessivamente macro-histórica, como as guerras entre persas e romanos ou o édito de Milão. O “Novo Dicionário do Islão”, nas palavras da autora, procura “dar algumas respostas apresentando palavras, figuras e histórias que moldaram, e ainda definem, a fé revelada por um arcanjo, em 610 da era cristã, a um mercador a quem foi dado o nome até então invulgar de Muhammad (Maomé)” (p. 15).
Talvez a questão que se coloca na capa do livro e que autora, na sua introdução, reitera, seja demasiado ambiciosa para uma obra que está longe do “The Oxford Encyclopedia of the Modern Islamic World”, de John L. Esposito – lamentavelmente sem qualquer edição portuguesa – ou da profundidade do esforço de compreensão do “Islão – Passado, Presente e Futuro” (Edições 70, 2010), de Hans Küng, isto para não referir as obras de pensadores islâmicos modernos como Muqtedar Khan (1966), autor do importante “Debating Moderate Islam: The Geopolitics of Islam and the West”, ou de Syed Zafarul Hasan (1885-1949). Contudo, ao ler este “Novo Dicionário do Islão”, o leitor deve ter presente que a referida questão é mais um expediente editorial que uma declaração de intenções da autora, acabando por não prejudicar o propósito legítimo deste livro e a sua notável execução, tanto pelo vasto número de figuras e conceitos abordados, como pelo rigor que normalmente pauta a descrição desses conceitos, e, também, pela qualidade da escrita, de pendor jornalístico e com um grau satisfatório de acessibilidade e ritmo, o que faz com que o “Novo Dicionário do Islão” não seja apenas uma enciclopédia de consulta ocasional mas, também, uma pequena história do Islão, só que alfabeticamente organizada. Estamos, claramente, perante uma aposta ganha.
Há, não obstante, alguns reparos que podem ser feitos. Alguns conceitos centrais para a compreensão do moderno terrorismo islâmico e da sua ideologia encontram-se escassamente desenvolvidos como o de “jihad”, que mal ocupa uma página sequer, ou “jahiliyya”, este último um relevantíssimo conceito recuperado por vários estudiosos indianos nos anos trinta e quarenta do século XX, cujo significado arcaico de ignorância religiosa aplicado aos pagãos da Península Arábica que, nos tempos de Maomé, se recusavam a aceitar a unicidade de Deus, foi substituído pela ideia, central no pensamento de Sayyd Qutb, de uma influência nefasta da civilização ocidental nas concepções, instituições e valores da tradição islâmica, através da construção de um inimigo desumanizado (o “outro” na perspectiva do Islão político), objecto permanente de ataque, religiosamente legitimado, pelo verdadeiro “crente”. O mesmo acontece com o conceito de “ummah”, que estando inicialmente ligado a uma ideia de comunidade de fé (comunidade dos crentes), é substituído por uma versão mais expansionista, vinculada às ambições de uma autoridade política unificada, isto é, de um Império Árabe na mão dos califas omíadas, uma mudança de paradigma que, para utilizarmos a terminologia de Hans Küng, teve um impacto inegável no Direito islâmico, a ponto de este autor considerar que não se pode falar de um verdadeiro Direito especificamente islâmico nos tempos do Corão e do primeiro califado, anteriores à chegada ao poder dos omíadas.
Também se sublinha a ausência de referências a alguns dos mais importantes teólogos e pensadores islâmicos do século XX, como, por exemplo, o polémico Abu Ala Maududi, ou aos clérigos das facções mais radicais do Islão, como Safar al-Hawali, Abu Muhammad al-Maqdisi ou Abu Qatada. A verdadeira compreensão dessa parte do Islão que “amedronta” fica seriamente prejudica pela omissão de referência ao pensamento dos seus ideólogos.
Apesar destas omissões, o “Novo Dicionário do Islão” constitui um instrumento de consulta bastante completo não só sobre a religião islâmica, mas também sobre a história, a literatura, a filosofia e a política que a ela surgem associadas. Importa saudar, por exemplo, a inclusão de importantíssimos conceitos de Direito islâmico como o de descrença, ou seja, “kufr” (p. 204), o de “dhimmi” (p. 103), os não muçulmanos que viviam em territórios muçulmanos e que se encontravam protegidos por um tratado de rendição ou pacto de protecção, normalmente referido como “dhimmah”, ou o de retaliação, “qisas” (p. 291), que revelam um estudo particularmente aprofundado e especializado do vasto universo da cultura islâmica; é preciso ter presente que é na base da projecção manipulatória destes conceitos básicos que se estruturam muitos dos elementos da actualidade do fenómeno do islamismo radical e isso não passou desapercebido à autora.
Desde que o rosto de Bin Laden (p. 81) se tornou infamemente conhecido de todo o mundo, desde a aterradora execução do jornalista Daniel Pearl, filmada e divulgada por todo o mundo – e isto para fornecer apenas alguns exemplos –, o Ocidente tem observado o Islão com a desconfiança de quem se cruza com o seu inimigo mortal e absoluto. O resultado disto comporta riscos que são relevantes: se o Islão quer a qualquer custo a aniquilação do Ocidente, logo o Ocidente só poderia sobreviver mediante a aniquilação do Islão. Por isto mesmo, convém sempre saudar a publicação de obras como esta que, dando uma visão panorâmica do vasto universo da cultura islâmica, oferecem aos leitores instrumentos de compreensão e de respeito por esta cultura, possibilitando que a nossa curiosidade pelo Islão ultrapasse estereótipos e generalizações que, mais do que inexactas – que efectivamente o são –, representam um perigo largamente tributário do desconhecimento. É também neste sentido que o livro de Margarida Santos Lopes constitui uma aposta ganha.

Nota: quatro estrelas
*Texto publicado no Ípsilon de 1 de Julho
38.

A revolução é o permanente retrocesso do sim ao seu princípio, deslumbrado.

54.

Ide, ide, sem saber de quê. Há os poetas para raramente morrer disso.

e.

A classe operária é a vanguarda dum amor tão antigo que já nem lembra - a liberdade total. Não trair, não trair o prazer oficinalmente minucioso, o doce levantamento das flores, justiça da inacção embevecida.

125.


E qual corolo a boca do seu corpo se prepara, desatenta sob os festejos e a decepçao, para uma floração intensíssima.

130.

O alimento a legar será simples como uma palavra de desordem.

- Maria Velho da Costa
in Da rosa fixa, Quetzal