quarta-feira, junho 29, 2011

Rua da Academia das Ciências

Procurei os teus olhos quis achar
nos teus olhos a luz que nos salvasse
mas tu não tinhas olhos tinhas plateias
no Liz, no S.Luiz e no Terrasse

Busquei teu coração, não desisti à primeira,
teu seio arfava arfava docemente
por força que por baixo que por dentro
tinhas um coração terno como gatinhos
mas afinal não tinhas coração tinhas um saco
com Jean-Paul Sartre e rendas a cinquenta o metro

De forma que o entrar nas tuas pernas
foi como entrar num Tribunal de Contas:
não tinhas sexo, tinhas um juiz de paz,
arroz, licores, outro noivo, e gritinhos


- Mário Cesariny
in nobílissima visão, Assírio & Alvim

Secretário de Estado da cultura


Diga-se, sem reservas nem ironia: seria difícil encontrar um secretário de Estado da Cultura tão perfeitamente identificado com o mundo cultural como Francisco José Viegas. O seu currículo é o do perfeito agente cultural: o indivíduo que tudo converte à linguagem da cultura e a amplifica nas suas saborosas astúcias. Escritor, o seu mundo é o da cultura literária; editor, a sua tarefa é a cultura editorial; diretor de uma revista literária, a cultura foi no entanto o seu verdadeiro sacerdócio; comentador de futebol, ele responde às exigências profanas da cultura futebolística; homem de gostos mundanos, sejam eles a gastronomia regional, os vinhos ou os charutos, ele inscreve-os na ordem dos requintados interesses culturais. Eis alguém que faz a síntese total com que sempre sonharam os espíritos iluminados pela chama da cultura. A sua vocação de agente cultural é um percurso de santidade: é uma capacidade pacificadora que consiste não apenas em conviver com tudo, mas em fazer com que tudo conviva com tudo, sem exclusões nem conflitos.
Os ofícios sacerdotais da cultura, tal como FJV sempre os exerceu, são uma esponja que apaga rugosidades e anula asperezas: constroem o consenso, exaltam o conformismo, glorificam uma arte de viver que sabe aderir, em cada momento, à superfície lisa do tempo. A cultura — sabe muito bem o mestre dela, agora secretário de Estado — rege-se pelo princípio da conformidade. Com os seus mecanismos mediáticos bem afinados, a cultura nada tem de irredutível, de resistente. É uma matéria plástica, pronta a ser moldada, convertida, traficada — tarefas que os mais dotados agentes culturais exercem com zelo. O poder da cultura é mimético e extensivo. Sem reservas nem ironia: quem agora acedeu a secretário de Estado da Cultura sabe, das argúcias culturais, tudo o que há a saber.

- António Guerreiro
«Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 25.6.2011.

Recensão crítica à revista criatura n.º5

«Criatura [não] é movimento». eppur si muove.


por Rita Taborda Duarte
in Relâmpago n.º27

Criatura

Nº5, Outubro, 2010


Criatura, já no seu quinto número, é uma revista de poesia com uma concepção muito particular, cuja simplicidade e sobriedade, no que toca à organização, surge como parte de um conceito geral bem mais reflectido, que transforma a diversidade dos autores apresentados num todo coeso e convincente.

É na ambiguidade entre a revista e a antologia que a publicação se move. Relegada para a página de rosto, temos a indicação do número do volume, assim como da data (mês e ano, como tradicionalmente cabe a uma publicação do género). À partida, pareceria não existir um editorial a assumir um intuito programático, ou pelo menos a estipular a sua ausência, como na tradição modernista, por exemplo; os poetas apresentam-se em simples sucessão, sem indicações bio-bibliográficas, sem índice ou explicações, sem qualquer explicitação de ordem ou organização do conjunto que se tem em mãos, salvaguardando a excepção dos dois autores traduzidos e que se fazem acompanhar por uma breve nota curricular. Poetas reconhecidos do panorama poético português (António Barahona ou Jaime Rocha) convivem com novos autores, já editados, maoritariamente fora mainstream (existe um mainstream para a poesia?), e poetas inéditos, desconhecidos, e que terão aqui a sua estreia editorial. A presença de poetas espanhóis (ou que escrevem maioritariamente em castelhano), como Roger Wolfe e Jesús Jimenez Domínguez, alarga este número, como aliás o anterior, a um diálogo poético que procura esbater fronteiras, esforço que reconhecêramos também em publicações dos finais dos anos noventa como Hablar/ Falar de Poesia ou Boca Bilingue, por exemplo, ou até a muito recente Suroeste que alarga a colaboração, também, ao texto ficcional. A grande diferença é que, em Criatura, estes autores são traduzidos na ausência do texto original, transformando, muito subtilmente, a revista num volume misto de poesia e tradução.

É sabido que as revistas literárias «constituem, no dizer de Paul Valéry, um laboratório onde se experimentam novas ideias e formas, onde se confrontam as mundividências e se ensaiam outras maneiras de as explicitar»[1]. Também aqui, mesmo camuflado numa superfície lisa em que só os textos parecem sobressair, se experimenta relações da poesia com a vida e suas razões (necessariamente irracionais) de ser. A poesia surge como criatura quase autónoma do criador, mas a ele intimamente ligada (não é de uma poesia impessoal que se trata): «Como uma sombra que projectaste e que ganhou vontade, a criatura ir-se-á recortando contra a luz e movendo-se entre tempo perdido, num grito sem voz, repetindo-se para a eternidade como uma espécie que se equilibrou entre a loucura e a beleza», escrevia-se no número 4, com uma certa aura que convoca reminiscências românticas.

A simplicidade na organização do volume é sublinhada por um grafismo despojado e discreto que acaba por se tornar expressivo (na capa a negro, só o título a branco): nada do que é novo surge isoladamente, trazendo consigo, por afirmação ou negação, por acumulação ou disjunção, o peso das criações anteriores, as antepassadas, já distantes, que sobrevivem somente na memória e as contemporâneas, com quem se medem ombro a ombro, para conquistarem o seu lugar na actualidade. E assim, num breve apontamento, é difícil não traçar um paralelo, opondo o conceito desta publicação e o de outras revistas de poesia aparecidas (algumas reaparecidas, até) nos finais da década de noventa. Aí, um nítido empenho vanguardista buscava conciliar texto e imagem, num esforço gráfico muito assumido, em que por vezes o próprio design aglutinava o discurso poético. As revistas Bíblia, Número, Boomerang ou Erros são disto exemplo, assim como a Ópio, que, como Criatura, teve também o seu gérmen no contexto universitário (Núcleo Cultural da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa): Como se indica na ficha técnica Criatura é “organizado pelo Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, com o apoio da Associação Académica”. Assim vem escrito, sem mais justificações.

Apesar de toda esta superfície de uma revista que se quer mais texto e menos revista, enquanto aparato editorial, Criatura tem, não um programa, mas um projecto que a percorre e marca genuinamente, até mais pela postura crítica que se sobrepõe, do que pelos poemas que encerra. Não tendo um editorial, identificado expressamente, acrescenta aos poemas uma nota introdutória, sem título, nem assinatura, deduzindo-se, portanto, que seja da responsabilidade da direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto; trata-se, aliás, de um pequeno poema em prosa, sendo também, em simultâneo, uma subtil injunção programática, que discretamente se firma à cabeça da publicação. E numa calculada circularidade, um poema intitulado Nota Final fecha o volume, mas fá-lo de modo tão subtil e imperceptível que, se não se desse o caso de este título «Nota Final», se repetir de número para número da revista, facilmente poderia acontecer atribuir-se o texto, distraidamente, ao último autor coligido na antologia, perdendo-se o seu significado geral para a recolha poética.

Existe, afinal, um fundo projectado, pelo menos uma concepção de poesia que não se dá por outro meio que não o da expressão literária: a poesia como forma natural de referir a poesia. Não é uma ideia nova, mas ganha aqui fôlego, por não surgir como manifesto ou programa, mas por se ostentar no próprio formato da colectânea como facto, como algo in fieri. Os dois textos (a prosa introdutória e o poema «nota final») propõem um percurso, uma linhagem, que condiciona o critério de selecção dos poemas; corre, assim, no subtexto da revista um esboço de reflexão teórica, camuflado por um pudor em lhe acrescentar algo que exceda o próprio discurso poético, mascarando e refreando todo impulso crítico com as vestes do poema, ou, se quisermos usar o jargão teórico, transformando o que bem poderia ser paratexto em texto, como se a cada momento se reafirmasse: a poesia basta-se a si mesma.

Leia-se em parte esse texto inicial, espécie de arte poética, ou prefácio de feição metafórica, que abre o volume:

Absoluta na sua tensão mais rudimentar, a escrita é a única forma directa de agredir o vazio[…]. Obsessiva e perversa: uma matemática que adora o erro; uma investigação que se envaidece com o caos e o desentendimento que produz. Na pura rejeição de qualquer dieta estética ou formal, a criatura é movimento, espírito de uma época que ora se fascina ora se desilude para começar de novo. É vária. É um tremendo gozo colectivo e um horror. Na escrita encontramos possivelmente a única medida real para a vida. Escreve.

Sobressai, nestas palavras, a sombra de um Romantismo perene, não programático, que retoma os grandes temas, o belo e o terrível ou a relação, sempre labiríntica, mas ainda assim relação, entre poesia e vida; feições que, por vezes, nem todos os poemas assumem com o mesmo ímpeto. Desdenha-se aqui, como se sugeria na «Nota Final» do número anterior da revista, de uma arte de «arrotos místicos», para se propor «em cada verso/ um nó de sangue/por uma poesia que/ encha a boca com o mundo». E não será por acaso que se insiste na ambiguidade gerada pela polissemia, ao repetir-se que «criatura é movimento/ olhar intenso/ um tremor encantado colhendo imagens (…)» mas «fora/longe de todos os círculos surdos/de bordadeiras estúpidas//ralhando a oca literatice dentes/podres que aos pés lhes caem/ e por aí ficam(…)».

Podemos dizer que nos poemas de David Teles Pereira e de Diogo Vaz Pinto e de um modo diferente, com um diverso impacto verbal e alcance imagético, em textos de Rui Caeiro e Rui Pedro Gonçalves ou Tiago Araújo encontramos, de facto, uma linha poética que busca resgatar às palavras «este fulgor/que à própria vida/oferece/uma medida». Impressões do quotidiano, vivências biográficas, percursos trilhados tentam ser agarrados com vigor da palavra poética, pela força da imagem verbal, que transforma e desacata o que parecia ser o mundo comum, o quotidiano reconhecível. Assim os poemas de Diogo Vaz Pinto, que num ou noutro momento convocam, mesmo de longe, uma toada decadentistas: «Nas ruas o ar move um lerdo/registo, flanando, pega o que quer. / Uma ideia metida com épocas/passadas, mais bicicletas e miúdos/ escanzelados, a minúscula feira com as/barracas de quinquilharia, as merdas/ regionais e o enjoo dos carrosséis/ao som da macarena./ um cego de mão estendida, a soprar uma flauta como se fora um apito.». Mais adiante, um poema intitulado «Outra Educação» parece corresponder aos intuitos insinuados para o processo poético presentes no texto introdutório: «A poesia é o menos. Serve/se der com o ritmo e souber guiar/essa nuvens ralas/ os rebanhos do céu,/ suster o barulhinho intermitente/desta chuva de Agosto nos vidros,/ o vento gemendo de gozo e a respiração/funda do mar.». Mais adiante no final do mesmo poema redunda um esboço de arte poética: «(…) eu escrevo./Quer dizer que abro cortes na ponta/dos dedos, mergulho-os como isco/no escuro, e aguardo.».

É uma revista que procura, mesmo que de modo difuso, um projecto de unidade. E, ao percorrer-se esparsamente os textos, sente-se o espectro de Herberto Helder a assombrar o processo de escrita, não ainda conflituoso, como talvez se quereria, lembrando H. Bloom, mas como uma espécie de busca ou horizonte reverencial.

Os poemas de António Barahona (assinando aqui Muhammad Abdur Rashid Ashraf) abrem a colectânea com um questionar da tensão poética acrescido do distanciamento irónico que lhe é reconhecido, atingindo uma fortíssima coesão entre pulsão criadora, ritmo, sonoridade e construção de sentidos. O soneto «Pulsação», que cito na íntegra, será disto um muito feliz exemplo: «Perene é ser soneto: eis do futuro,/ essa canção com oitocentos anos:/sábios mil sons ecoam bons sopranos,/no timbre d’árias tensas de ouro puro//Catorze versos a fundir degraus/(ligas de cobre e prata e elixir)/refeitos pra durar até que expire/seu último cantor à flor do caos.//Perene é ser soneto, que reside/ na cópia essencial do verbo:/tal como a roda, o cubo e o triângulo,//vem inscrito no código soberbo/de quem tece um casulo e sente livre/ o sopro do seu sangue num coágulo.».

Por outro lado, a sequência de Jaime Rocha, com a concisão de um lirismo muito contido, que arrasta consigo um forte escrúpulo cultural e uma observação refigurante do mundo, sempre serena, activa, mas sem a aspereza impetuosa da verve e das imagens, sobressai também do que parece ser, ainda que vagamente, o fio condutor da publicação. Veja-se o poema seis, da sequência «As Aves»: «O rio seca. Ouvem-se sirenes./ Os barcos apitam como se/tivessem chegado os dias de/festa. Os pedreiros não têm/braços para todo o lixo. Nada/ distingue as ruas de um grande/vale de narcisos.»

Na impossibilidade de referir todos os poetas presentes (cerca de quinze) saliente-se ainda que de raspão, a originalidade do tom poético dos poemas de Margarida Vale de Gato, com uma feição feminista que retorce a tradição formal, e se exibe como força provocatória e prenhe de ironia: «Um homem pode ser/ discricionário/encarnar o mal/ e não olhar a quem;/há certos que se mandam para o mar/ e firmam fama de artistas-/sei de cor a epopeia/venda-se o olho sendo a vista dura.//Um homem inclusivamente pode/pular na lua/ e urinar no espaço/e reluzir ao léu.//O que não pode um homem/segura a dama sua.»

Para finalizar uma boa descoberta: a poesia de Roger Wolfe, nascido em 1962, traduzida por «Luís Filipe Parrado» a convocar para as páginas da revista «Toda esta poesia que nunca cabe num poema.», assim como o humor desarmante de uma lógica que se constrói por dentro do poema, mas que pode atingir, com lucidez e acuidade, o centro nevrálgico do humano: «(…) suponho que o amor/deve ser/como esses raríssimos instantes/de felicidade:/se por um momento /os vives/eu diria/que não é conveniente/andar a perder tempo/com poemas.».

É este um bom exemplo de uma colectânea que inclui textos de grande qualidade e que ganha forma e consistência enquanto conjunto, mesmo na sua diversidade. É um volume que fica e, mesmo que não se preste a representar uma muito definida linha poética, estilística, distingue-se pelo menos por dar a conhecer (e a reconhecer) duas mãos cheias de bons poetas que, na sua maioria, parecem ter suficiente impulso para deixar pelo menos uma marca no contexto literário actual. No entanto, o destino da poesia é imprevisível, já que um poema, citando um dos textos de Roger Wolfe, é «Artigo não sujeito à legislação em vigor», «alguns funcionam/outros não./Se o que queres/é uma garantia,/ então compra um televisor.».



[1] Daniel Pires, Dicionário das revistas literárias do século XX, Lisboa, Contexto Editora, 1986, p.19

Cansaço

Caminho dia e noite
Como um parque desolado
Caminho dia e noite entre esfinges desmoronadas de meus olhos
Perscruto o céu e sua erva cantante
Olho o campo ferido por gritos desmesurados
E o sol no meio do vento

Afago meu chapéu cheio duma luz incandescente
Passo a mão sobre o dorso do vento
Os ventos que passam como as semanas
Os ventos e as luzes com gestos de fruta e sede de sangue
As luzes que passam como os meses
Quando a noite se apoia sobre as casas
E o perfume dos cravos gira sobre seu eixo
Sento-me como o canto pássaros
É o cansaço longínquo e a neblina
Caio como o vento sobre a luz

Caio sobre minha alma
Eis o pássaro dos milagres
Eis as tatuagens de meu castelo
Eis as minhas plumas sobre o mar que se afasta
Caio de minha alma
E desfaço-me em pedaços de alma sobre o inverno

Caio do vento sobre a luz
Caio da pomba sobre o vento

- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena

terça-feira, junho 28, 2011

-
Basta senhora harpa das belas imagens
Dos furtivos cosmos iluminados
Outra coisa outra coisa buscamos
Sabemos pousar um beijo como um olhar
Plantar olhares como árvores
Engaiolar árvores como pássaros
Regar pássaros como heliotrópios
Tocar um heliotrópio como uma música
Esvaziar uma música como um saco
Degolar um saco como um pinguim
Cultivar pinguins como vinhedos
Ordenhar um vinhedo como uma vaca
Desarvorar vacas como veleiros
Pentear um veleiro como um cometa
Desembarcar cometas como turistas
Enfeitiçar turistas como serpentes
Colher serpentes como amêndoas
Descascar uma amêndoa como um atleta
Abater atletas como ciprestes
Acender ciprestes como faróis
Aninhar faróis como cotovias
Exalar cotovias como suspiros
Bordar suspiros como sedas
Derramar sedas como rios
Tremular um rio como uma bandeira
Depenar uma bandeira como um galo
Apagar um galo como um incêndio
Vogar em incêndios como em oceanos
Ceifar oceanos como searas
Repicar searas como sinos
Esquartejar sinos como cordeiros
Desenhar cordeiros como sorrisos
Engarrafar sorrisos como licores
Engastar licores como jóias
Electrizar jóias como crepúsculos
Tripular crepúsculos como navios
Descalçar um navio como um rei
Pendurar reis como auroras
Crucificar auroras como profetas

- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena

Nascer do dia

Está bem, é dia – e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?
Deitámo-nos nós porque era de noite?
O Amor, que apesar do escuro nos trouxe aqui,
Deverá, a despeito da luz, manter-nos juntos.

A luz não tem língua, é toda só olhos.
Se pudesse falar tão bem quanto espia,
O pior que diria é que, estando bem,
Eu quero gostosamente continuar
E que amo tanto o meu coração e honra
Que, de quem os guarda, não me apartaria.

São os negócios que daqui te afastam?
Oh, essa é a pior doença do amor:
O pobre, o louco, o falso, podem o amor
Acolher, mas nunca o homem atarefado.
Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.

- John Donne
(tradução de Helena Barbas)
in Poemas Eróticos, Assírio & Alvim

Just a slogan

Um destes dias também quis saber disso do amor. Escolhi uma mulher, dessas que por aí se ajeitam mais à mão, ou ao pé. Cheguei-me, fiquei junto dela e esperei que lhe crescesse um coração. Como não crescia e eu tinha pressa, inventei-lhe um. Ofereci-lho. Ela, com olhinhos a fazerem-se grandes, tomou-o como a um estranho fruto, e meio sem saber o que lhe fazer, fez como os bichos: desfê-lo, devorou-o. Não lhe caiu bem, no peito que é o lugar onde devia. Deu-lhe uma dor de barriga, inchou e foi-se às suas necessidades. Voltou depois mal digerida, disse-me que, nestas coisas, seria melhor ficarmo-nos pelas flores. Dão a vida por um suspiro de beleza, enfeitam-nos por um instante e morrem no instante seguinte para não se afeiçoarem a nós.

-
Que é sempre tarde. E é cedo sempre. Independente do cadáver adiado e da sua circunstância histórica, o real movimento do espírito humano não cultiva relações com cronómetros e calendários, as ondas magnéticas vertiginam por espaços e eras, sem atrás, sem à frente, sem baixo, sem cimo, sem ida e sem volta. O que é que pois importa, nesta irradiação, sublinhar-se primeiro como certificado de valor ou louro de efeméride se de cada «novidade» na anedota dos ismos se desenha apenas o jeito da farpela, o ademane?

- Vítor Silva Tavares
in De ombro na ombreira do surrealismo,
prefácio a Anos 70 / poemas dispersos de Alexandre O'Neill, Assírio & Alvim

Memória

Sobre a tijoleira manchada pelo sol
esboroada por muitos invernos e chuva
os pés bem assentes, o tronco nu; era
num mês quente de um verão de sessenta –
_há muitos anos, portanto. E
o cabelo mais escuro do que negro –
_nem um tigre negro nem um gato preto
nem o escuríssimo corvo. E
a pele que permanecia muito branca
como se nenhum sol a quisesse. É
escusado dizer que perdia no mar, na maior
distância de um barco
os sentidos. E da figueira que rompia
escassos ramos do elevado rochedo
queimados do sol
e da figueira fugiu uma sombra e era um pássaro.

Da porta do terraço vi-o
nesse instante longínquo
pela última vez.

(Sempre que vinha a minha casa
trazia um jornal velho e a minha avó
lia-o durante toda a semana.)

- João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores

segunda-feira, junho 27, 2011

Cashback (2006)



7/10
2.

O sol nasce em meu olho direito e põe-se em meu olho esquerdo
Na minha infância uma infância ardente como um álcool
Sentava-me nos caminhos da noite
a escutar a eloquência das estrelas
E a oratória da árvore
Agora a indiferença neva na tarde de minha alma
Abram-se em espigas as estrelas
Quebre-se a lua em mil espelhos
Torne a árvore ao ninho de sua amêndoa
Apenas quero saber porquê
Porquê
Porquê
Sou protesto e rasgo o infinito com minhas garras
E grito e gemo com miseráveis gritos oceânicos
O eco de minha voz faz ressoar o caos

Sou desmesurado cósmico
As pedras as plantas as montanhas
Saúdam-me As abelhas os ratos
Os leões e as águias
Os astros os crepúsculos as auroras
Os rios e as florestas perguntam-me
Então como tem passado?
E enquanto os astros e as ondas tiverem algo
para dizer
Será pela minha boca que falarão aos homens
Trazei-me uma hora para desfrutar a vida
Trazei-me um amor pescado pela orelha
E deixai-o aqui a morrer perante meus olhos
Que eu role pelo mundo a toda a brida
Que eu corra pelo universo a toda a estrela
Que me afunde ou me levante
Lançado sem piedade entre planetas e catástrofes
Senhor Deus se tu existes é a mim que o deves

- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena

Astro

O livro
____E a porta
___________Que o vento fecha

Minha cabeça inclinada
_________________Sobre a sombra do fumo
E esta página branca que se afasta

Escuta o rumor das tardes vivas
______Relógio do horizonte

Sob a encanecida névoa
Dir-se-ia um astro de volúpia
______Minha alcova balança como um barco

Mas és tu

______Apenas tu

______O astro que me ilumina

Contemplo tua desvanecida imagem

______E aquele cândido pássaro
______Bebendo a água do espelho

- Vicente Huidobro
(tradução de Luis Pignateli)
in Natureza Viva, Hiena

As trevas da tua dor

E também te podem dizer
sê servil na pátria dos outros
pois a tua terra deixou-te nascer
somente para a fome ou para que vivas
no chiqueiro de um porco. Emigra e
volta da pátria dos outros
sem palavras, mas carregado de coisas
se, acaso, tiveres sorte, isto é,
se fores suficientemente servil.
Podes depois voltar
com alma de aluguer
abandonada que foi a tua terra
para te sujeitares ao trabalho que
te envergonharias de fazer. E
quando regressares – julgando que
regressar é verbo que se conjuga –, vais
julgar-te um herói, qualquer coisa,
só porque andas com máquina de vídeo
choldreando por todo o lado. Isto é
também a tua pátria, a tua vida. E
não há cão que
uive às trevas da tua dor.

- João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores

domingo, junho 26, 2011

Cemitério dos Prazeres

Para a Golgona

Sim, a vida é tantas vezes
um carro alheio que nos obrigam
a conduzir. E o amor
um casaco que nos pousam
sobre os ombros, como se isso bastasse
para reanimar o coração
quando tocamos às portas
e ninguém responde.

Mas agora que já passou
o dia mais longo do ano
e a noite apaga todas as sombras
do caminho, os amigos emprestam-nos
o seu peso, puxam-nos os cabelos
e o olhar até aprendermos de cor
o código de acesso ao mundo.
Sabemos finalmente quantos somos.

Olhamos de frente o muro que deixa
entrever algum anjo cansado
de velar o sono eterno dos homens
e podemos virar as costas:
continuamos, por enquanto, do lado de fora.
Sobreviveremos à demasiada solidão,
mesmo que nenhuma outra porta
se venha a abrir para nós.

- Inês Dias
25/06/2011

A voz

A voz
que entoava
essa ave pequena
o mínimo pássaro

não é outra coisa
mais
do que
minha alma

hei-de
ouvir
canção

por
sobre a névoa
da ilha

- João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores

Estrada do Pico d'El Rei

Sob a chuva conduzia a
carroça. Levava as bilhas
do leite.
A borracha negra do
capote protegia-o, não muito,
da tempestade. Em baixo voo
a gaivota feria a desfortuna
e o cão de fila, ao seu lado,
tão encostado, queria do seu
magro calor.
Sob a chuva seguia o clamor
campestre de uma ilha.

- João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores

sábado, junho 25, 2011



... repetimo-nos, preferimos assim. Melhor que perambular entre as novidades de um mundo que continua a envelhecer de forma estúpida e desinteressante.

Referência

Nuno Júdice numa entrevista conduzida por Clara Ferreira Alves, publicada hoje na revista Única, do Expresso.

Nativo de Leão

-
Não somos bons de despedidas.
Passeamos lado a lado, os ombros tocando-se.
Já está começando a escurecer.
Estás pensativo, eu não digo nada.

Entramos nesta igreja para ver
alguém sendo enterrado, batizado, se casando:
depois vamos embora, sem olhar um para o outro.
Por que é que para nós nada dá certo?

Vamos sentar na neve pisoteada
do cemitério, suspirando de leve.
Com a ponta da bengala, traçarás palácios
em que viveremos felizes para sempre.

- Anna Akhmátova
(tradução de Lauro Machado Coelho)
in Poesia 1912-1964, L&PM Editores

sexta-feira, junho 24, 2011

Feira Laica

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhLtdxSnRtVmPtMbduBeIyoi5dKNZ5X0CSYUWDJsduNi2MxGrehmr0n6X6iZUCpm5_Ia99v4SRzR5224KxTT713aE-gpbM9bXgRj5UY7UUJqAtBqOVbBxeWiqvwAVc4n3ELje8J/s1600/Feira+Laica.jpg
-
Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.

E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo rupturas
e cantando canções de amor.

Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes cairá o silêncio...
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

- Anna Akhmátova
(tradução de Lauro Machado Coelho)
in Poesia 1912-1964, L&PM Editores

A musa do baile

Vestia de palco,
atrás dos montes que um foguete
bifurcava.
Com meneios de cortesã experimentada
e arejada blusa que lhe vinha
descendo os ombros
instigava a corte embasbacada
feita de antigos cavadores.
Um holofote emendava-lhe a boca
sempre que do microfone
se abeirava.

Ao sabor do sismo do bombo
coreografava o sucesso dos emigrados,
fazia dos seios empenas,
pedia palmas, e a máquina de fumo
com redobrado silvo respondia.

Os pares do reino iam portanto
dando início à debandada.
O largo alargava, delfins aportavam
suas corsárias de alça descaída
e à bolina partiam, içando vela
à vista de outras costas
onde leve penugem se arrepiava,
pois um vento canino farejava
e dentes de chuva iam roendo
côdeas de pó.

Agosto viera morrer a casa.

Tudo ao fundo o celerado metia:
a pátria vestia de palco
mas Setembro, infantil,
a despia.

- Rui Lage
in Um Arraial Português, Ulisseia

quinta-feira, junho 23, 2011

and at once I knew I was not magnificent

Uma Carta

Caros filósofos, fico triste quando penso.
Passa-se o mesmo convosco?
No preciso momento em que me preparo para ferrar o dente no númeno,
Vem uma antiga namorada para me distrair.
«Ela nem sequer está viva!», grito aos céus.

A luz invernal põe-me a caminho.
Vi camas cobertas de mantas igualmente cinzentas.
E homens sombrios a segurar uma mulher nua
Enquanto a molhavam à mangueira com água fria.
Seria para lhe acalmar os nervos, ou seria castigo?

Fui visitar o meu amigo Bob, que me disse:
«Chegamos ao real transpondo a sedução das imagens.»
Eu rejubilei, até que me apercebi:
Esta abstinência não seria possível para mim.
Dei por mim a olhar pela janela.

O pai do Bob estava a passear o cão.
Mexia-se com dores; o cão esperava por ele.
Não havia mais ninguém no parque,
Só árvores com uma infinidade de formas trágicas
Para dificultar a vida ao pensamento.

- Charles Simic
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Selected Poems1963-2003, Faber and Faber (2004)

Os Pequenos Alfinetes da Memória

Um fato domingueiro de criança estava preso
Por alfinetes a um manequim de alfaiate
Numa vitrina poeirenta.
A loja parecia fechada há anos.

Perdi-me lá uma vez
Num silêncio de domingo,
À luz de domingo à tarde,
Numa rua de edifícios de tijolo.

Olha qu’esta!,
Disse para ninguém.
Olha qu’esta!,
Disse-o outra vez hoje ao acordar.

Aquela rua prolongava-se indefinidamente,
E todo o caminho senti os alfinetes
Nas costas, a picar-me
O escuro pano pesado.

- Charles Simic
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Selected Poems1963-2003, Faber and Faber (2004)

Danças Clássicas de Salão

Avós que engelham o pescoço
De galinhas; velhas freiras
Chamadas Theresa, ou Marianne,
Que puxam rapazolas pela orelha;

Os intricados passos dos carteiristas
Batem a multidão dos curiosos
No palco do acidente; o passo lento
Do evangelista entalado entre dois cartazes;

A hesitação do cliente matutino
Que espreita pelo gradeamento da janela
De uma loja de penhores; as extensões de uma miúda
Que vai para a escola de olhos fechados;

E os velhos amantes, cara na cara,
Na pista de dança do Union Hall,
Onde também se fazem rifas
Em chuvosas noites de segunda-feira de um eterno Novembro.

- Charles Simic
(tradução de Hugo Pinto Santos)
in Selected Poems1963-2003, Faber and Faber (2004)


encontrado aqui

Morgue

Ali jazem em ordem como se
à espera de algum ato tardio
que os pudesse ligar entre si e
reconciliá-los com aquele frio;

tudo está por enquanto inacabado.
Por que, dentro dos bolsos, um cartão
com o nome de cada? O ar de enfado
nas suas bocas, foi esforço vão

tentar lavá-lo: só ficou patente.
Mais áspera, a barba ainda nos rostos:
o zelador da morgue tem seus gostos;

nem os de boca aberta lhe dão náuseas.
Com os olhos revirados sob as pálpebras,
os mortos vêem-se agora interiormente.

- Rainer Maria Rilke
(tradução de José Paulo Paes)
in Poemas, Companhia das Letras

quarta-feira, junho 22, 2011

-
Hoje contemplei Sujata a beber chá em frente do jardim
de Pangim com gestos de pomba escura até à alva
e a ossatura de platina fluorescente, a cabeleira
fulminada numa pose que o vento ventilava fulva

Sujata sorriu como de costume no romance por escrever
que eu jamais escreverei (a acção não se desenrola)
e o poema nu também não há: havia, há, haverá uma veia
aberta de onde emergem as linhas de uma epopeia em transe

Nessa polpa amarga me situo e o sumo do fruto escorre
aos cantos do luto, não dos lábios, aos cantos do palácio
andorinha fugitiva que ri com a boca toda numa rosa

Voltavam as asas, voltavam, as inúmeras espécies de voo
estudadas inculcavam o cubo: voltavam as aves, voltavam
com romãs no bico e cada uma com um verso, todas as manhãs

Naga Masjid/Curti
Monção de 1982
- António Barahona
in Livros da Índia, Imprensa Nacional



encontrado aqui

Dá-me

Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra

Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

- Carlos Edmundo de Ory
(tradução de Herberto Helder)
in Doze nós numa corda, Assírio & Alvim

terça-feira, junho 21, 2011

Tal vez amor

Abro el paraguas
____________y es un sol oscuro.
Mañana de San Juan.

El asfalto reluce como una lengua sucia

y las gotas de lluvia
suenan como mosquitos contra el cristal del coche.
Atravieso la calle,

sólo me cruzo con desconocidos.

Cuántas veces parado en un semáforo,
en la barra de un bar
_______________o en una librería
no habremos coincidido con alguién que más tarde
se convirtió en amigo o tal vez en amor.

Me reflejo en el agua de los charcos.
No me doy por vencido:

También para el dolor existen límites.

- Josep M. Rodríguez
in Raíz, Vísor

only trying to spell a loss

Barney's version (2010)


7/10

Cancion triste de cabaret

Le tuve tan cerca,
sólo tengo una noche para ti,
me dijo, y te la entrego
entera. Tan cerca, el aire
plateaba color de mar.
Nos besamos sobre la ciudad encendida.
Entonces lo dijo, con una voz
a medias melaza a medias
salitre. Más salitre ahora
que me repite en el ápice
del recuerdo. Cada noche
acudía al regazo de mi sueño
y ese día, nos besamos,
tan cerca.

Pero tuvo que decirlo
tuvo que abrir los labios
que habían sido míos eternamente
y decirlo con estas palabras,
sólo tengo una noche para ti.
Algo reventó en mis entrañas,
sé que sangraba, que acabó
la noche y sangraba.

- José Ángel Cilleruelo

segunda-feira, junho 20, 2011

«Para onde vai a poesia?»

Uma pergunta que se faz muitas vezes aos poetas. A resposta rápida é: para lado nenhum. «Isso não pode estar certo», estará a pensar. Já leu muitos poemas em que há poetas que caminham por bosques, rebolam no feno, ou até fazem uma excursão ao Inferno. Bem verdade. No entanto, os poetas, mesmo quando fazem a guerra, raramente tiram os chinelos. A cegueira de Homero não provará a minha tese? Aposto que cada um daqueles relatos testemunhais de Gregos e Troianos que se massacram mutuamente, as maravilhosas aventuras de Ulisses, na sua travessia do Mediterrâneo, sonhou-os Homero enquanto esperava que a mulher lhe servisse o almoço.
Claro que muitos poetas o negariam. Aqui, nos Estados Unidos, falamos com reverência de uma experiência autêntica. Escrevemos poemas sobre os nossos papás, que nos levavam à pesca, e nos partiam o coração, quando nos obrigavam a atirar os peixinhos de volta ao rio. Até dizemos ao leitor que tipo de carro guiávamos, o ano e o modelo, para dar a impressão de que tudo aquilo é verdade. É porque pensamos que somos uma espécie de jornalistas. Como eles, vamos a qualquer lado por uma história. Não acredite numa só palavra. Como qualquer poeta lhe poderá dizer, muitas vezes vê-se melhor de olhos fechados do que de olhos bem abertos.
É provável que se esteja a perguntar se eu defendo que a maior parte do que acontece nos poemas não é, de todo, verdade. Longe disso. Claro que é verdade. O que acontece é que os poetas têm de desperdiçar muito tempo para chegar à verdade. Repare-se no meu caso. Um dia, sem mais nem menos, aparece-me a memória do meu avô, há muito morto. Os olhos ficam-me rasos de água quando o vejo no último ano de vida, uma perna de pau, a mancar pelo quintal e a atirar milho às galinhas. Lembro-me do rafeiro que ele tinha, e pu-lo num poema. Há mesmo um velho camião ferrugento no quintal. O sol põe-se, a minha avó afadiga-se à volta do fogão, o meu avô está sentado à mesa da cozinha, a pensar nos revezes da sua vida, a estupidez do treinador da equipa de futebol local e o cheiro da sopa de feijão no fogão. Gosto do que pus no papel, até agora, e adormeço nessa noite convencido de que tenho um poema em progresso.
No dia seguinte, não tenho assim tanta certeza. O pôr-do-sol é demasiado poético, o retrato dos meus avós demasiado sentimental, tanta coisa a cortar. Semanas mais tarde – uma vez que não consigo deixar de retocar o poema –, chego à conclusão de que aquilo de que mais gosto é do velho cão, a arrastar-se pelo quintal, as galinhas em volta, a debicar, o galo. O sol, alto no céu, uma cerejeira em flor, e o avô sai do poema por completo. Normalmente, não faço a menor ideia se alguma vez haverá poema. Só Deus sabe, e eu tento não me meter nos assuntos dele. Limpo as lágrimas e olho fixamente para a página em branco até que uma palavra, uma imagem, venha ter comigo. Não se pode pretender nada de genuíno num poema, pelo menos foi isso que eu aprendi às minhas custas. O que faz da escrita de poesia uma actividade incerta e muitas vezes exasperante. E, entretanto, não há nada a fazer, só esperar. Emily Dickinson olhava pela janela para a igreja, do outro lado da rua, enquanto esperava; eu olho pela minha janela para os primeiros sinais da escuridão sobre os campos, na vastidão da neve.
“A poesia vagueia na sua própria utopia perpétua”, escreveu William Hazlitt. Temos a esperança de que o poema consiga libertar-se de todas as costuras e hesitações, e saia para o mundo, capaz de convencer um perfeito desconhecido de que o que descreve, realmente aconteceu. Com sorte, até pode levá-lo para a cama, ou podem levá-lo de férias para uma ilha tropical. Um poema é como a rapariga da festa que beija toda a gente. Não, um poema é um segredo partilhado por pessoas que nunca se viram. Comparados com as outras artes, os poetas passam a maior parte do seu tempo a coçar a cabeça no escuro. Por isso é que a sua viagem preferida é ir à cozinha ver se há presunto e cerveja no frigorífico.

- Charles Simic
in The New York Review Of Books, 7 de Fevereiro de 2011
(tradução de Hugo Pinto Santos)