quinta-feira, dezembro 30, 2010

A terceira manhã II

É de novo uma manhã do mundo: Dormia leve no sono
e sente que te levantaste. Procura-te e estás ali na varanda
da frente. Está frio e dizes que tens calor.
Fumamos contra o negro que reflui muito lento.
O estarmos ali os dois é um vago som de um rio entre nós.
Até que quase de súbito se expande um branco baço –
é a névoa do dia que começa. Apagam-se as luzes de presença
depois os candeeiros na rua. O céu, a montanha, o rio
e a ruína que a todos interrompe são apenas tons
de um branco que fosse uma imensa paz ou
uma morte quase
quase já reconhecida.

Pássaros e gatos povoam o pequeno mundo de aloendros,
palmeiras e silvas, cujas cores escrevem a névoa branca
que as apaga esquece e escuta.
Aquele procura alguma coisa perto da sebe que guarda a ruína.

Entre a febre e o frio somos também nós que nascemos?
ou estamos já morrendo?

- Manuel Gusmão
in Teatros do Tempo, Caminho

Mammuth (2010)


6/10

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Piazza della Signoria

Ora, pobres sempre houve, senhor.
E todos sabemos, foi assim ordenado,
que não há mal que não venha por bem.
Muito mesquinhos seríamos nós,
muito egoístas, se não nos alegrasse
que do nosso suor tenha nascido a arte
de gastar dinheiro, para que dentro
de cem ou mil anos também os nossos
descendentes possam ter o direito de
cagar sentados, ouvir música de câmara
ou sair do dentista com um sorriso
nos dentes. Se valeu a pena o sacrifício?
Isso nem se pergunta. Pessoalmente,
só lamento não ter podido dar mais
do que uma vida, mas era a única que tinha,
e morro, por isso, de consciência tranquila.

- José Miguel Silva
in Erros individuais, Relógio d'Água


Estou certo de que isso não tem qualquer interesse, mas não faço listas, nem elenco preferências: por autores, género a género, ou saltando modos e gavetas. Suponho que isso faça tanto sentido como listar o melhor bar ou boteco, melhor uísque ou café, a melhor cerveja ou ginja, o melhor dia de sol ou tempestade, etc. Posso, no entanto, dizer que, tendo em conta o ano de 2010, e pensando em qualquer coisa como a poesia que por cá se publica, nada se aproxima de um livro, saído, sem pompa nem alacridade, quase o ano dava a curva: Erros Individuais, de José Miguel Silva.

Quando um poeta passa três anos sem publicar (desde Walkmen, de 2007, com Manuel de Freitas), é legítimo alimentar uma certa expectativa em redor de um livro seu que esteja para sair. Quando um poeta, além do exposto, se mantém equidistante em relação a tricas e mercadejos, a ditos e pregões, firme no seu intento de produzir – avaro nas suas palavras, contido nas suas pistas –, uma obra que está liberta da salsugem do torpe todos os dias, mas que sabe dizer, como poucas, o núcleo fundente que faz esses mesmos dias, então, está-se perante qualquer coisa que se pode aguardar com redobrado entusiasmo. No caso em apreço, a expectativa não foi gorada.

A sequência publicada por Silva sob o título de Erros Individuais é uma poderosíssima e devastadora leitura do tempo e do mundo que nos cabe – que nos vai cabendo (até quando?). Dizê-lo sem a rezinga sabichona de quem desse conselhos, sem a pose de arauto de melhores dias, é, talvez, um dos sulcos por que corre a força deste livro. Por outro lado, a posição – cautelosa, ainda que sumamente consciente, céptica, posto que longe da desistência –, de quem aqui toma a voz, é um dos garantes desta poesia contra a demagogia e a banha da cobra. Felizmente, versos destes nunca querem vender nada: sejam ideias, sejam caminhos, projectos ou oásis. E é assim que a poesia de José Miguel Silva – poderei, por certo, dizê-lo – será das poucas que não desliza na ranhura fácil da alienação, nem traz na boca, pronta a colher, a hóstia ou o óbolo. Ser radicalmente, ser, ferozmente, uma voz individual que fala de erros (o qualificativo «individuais» surge pluralizado, o que talvez nos autorizasse a pensar em «universais», como junção de todos os «individuais») que nos fazem e que nós fazemos, poderia ser um fardo custoso de carregar: se esta poesia não demonstrasse – como um fulcro numa balança – um trabalho notável (e, no entanto, discreto) sobre a língua e sobre a disposição dos seus materiais, um investimento sóbrio mas laborioso no modo como as estruturas retóricas e poéticas se passam à prática. A escolha do vocábulo certo – «No lagar da contingência,/ reconhecem quase a gosto/ a astenia da azeitona,/ fazem migas do orgulho,/ fazem figas, queimam velas» –, sem preciosismos pífios, afinal de contas; o manuseio sábio da sintaxe – «As viagens propiciam o descaso,/ certamente, de razão e sentimento./ Doutro modo não se explica que/ assim que vi as casas de colina/ que rodeiam Fiesole tenha logo/ reduzido de seis maços para cinco/ a minha dose de cigarros semanal.» –, mas capaz de manter a respiração conversada e terrestre (sem estratosféricas ‘elevações’ de dicção) do discurso demonstram, se este livro o não dispensasse, altivo e insurrecto, a simplicidade desta língua e a sofisticação que essa mesma singeleza sublima – o topete de um estalo, uma palma rude que o pode dar.

É isto, mais ou menos. Mas não faço listas.

- Hugo Pinto Santos

Cantilena para um tocador de flauta cego

Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

E pois que as escalas que cansas
Nos dizem que o dia acabou,
Faz-nos crer que os céus dançam
Porque um cego cantou.

- Marguerite Yourcenar
(tradução de Mário Cesariny)
in A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim

terça-feira, dezembro 28, 2010

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Isto não é um poema

Mas é, se visto de perto, um cachimbo.
Pousa-me tensamente este instante
nos lábios, golpeando o ar com o aroma
adocicado do tabaco, especiarias
colhidas às mais exóticas distâncias.
E empresta-me, como testemunharão,
este ar sábio, enquanto, sentado,
vos escrevo das minhas mansas
aventuras por esse mundo fora.
Tão variado, e cabe-me, afinal,
inteiro, amarrotado, na algibeira.
Truques de experiente navegador.
Uma vasta geografia à disposição
dos mais afoitos. Buscas aleatórias e
espírito de falsário, mais não se pede.
O século XXI pode confiar no célere
motor do Google e, mais ainda,
no vosso dócil, exultante e sempre
disponível amém.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

-
Vê-se a gaiola, ouve-se esvoaçar. Distingue-se o inconfundível ruído do bico a afiar-se de encontro às grades. Mas pássaros, nem sombras.
Foi numa dessas gaiolas vazias que ouvi o mais forte chilreio de periquitos na minha vida. Vê-los, claro está, não via.
Mas que ruído! Como se houvesse três, quatro dúzias na gaiola:
«...Nesta gaiola pequena não ficam apertados?», perguntei por perguntar, mas acrescentando à pergunta uma inflexão trocista, conforme a ouvia sair-me da boca.
«...Ficam..., respondeu-me o dono com firmeza, por isso fazem tão grande algazarra. Gostariam de ter mais espaço.»

- Henri Michaux
(tradução de Aníbal Fernandes)
in
No páis da magia, Hiena Editores

domingo, dezembro 26, 2010

Fair Game (2010)


8/10

Céspede inglesa

Os segadores
têm uma rara vocação para a simetria.
E recortam as palavras sicómoro,
sorveira, abeto, carvalho.
Guardam as proporções
como guardam as suas partes pudendas.
E exercem sem condescendência
a ordem universal
porque o homem
– como o pasto –
também deve ser cortado.

- Damaris Calderón
(tradução de Jorge Melícias)
in Poesia Cubana Contemporânea, Antígona

Quando lhe disseram

___Quando lhe disseram que estava vigiado
que à noite quando ele saía
alguém com uma chave-mestra entrava na habitação
e remexia nos frascos de aspirina
e nos consabidos, indiferentes, livros;
___quando lhe disseram que dezenas de polícias
em sua honra se afadigavam,
que tinham conseguido subornar os seus familiares mais
___chegados,
que os seus amigos íntimos
ocultavam atrás dos testículos pequenos livretes
onde anotavam os seus silêncios e vírgulas,
_______________________não sentiu medo,
mas sim uma certa sensação de enfado
que instantaneamente soube controlar:
Não vão conseguir, prometeu a si mesmo, que me considere
___importante.

- Reinaldo Arenas
(tradução de Jorge Melícias)
in Poesia Cubana Contemporânea, Antígona

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Mas claro

Abertura

Eu abria o rádio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava música com as várias mãos
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as várias mãos escreviam um
piano por cima de teclas grãos vários
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de grãos
por dentro dos grãos mesmos
unidos que eram em dimensão de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
não era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da música
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sultão da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e então
e era então que me soava dentro da manhã
do quarto
uma música desfibrada de tempo serôdio
como se tudo me fosse em longe
como se a música levasse longe
o céu.

- António Gancho
in Edoi Lelia Doura, Assírio & Alvim

Sintaxe

Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.

- António Gancho
in Edoi Lelia Doura, Assírio & Alvim

Música

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro a falar do comprimento.

- António Gancho
in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Pergunta ociosa

Os gregos ensinaram «paciência»
e «modera o apetite», os cristãos
acrescentaram «compadece-te e perdoa».
Sugestões orientadas para os dias
rigorosos da pobreza ou da velhice,
quando resta carrilar no conformismo
a empenada carruagem do possível.

Numa época, porém, em que os velhos
nada contam e ninguém se penaliza
por viver a curto prazo, na corrida
milionária ao armamento do desejo
(pois o pleito do consolo não se trava
já na alma mas na quina dos sentidos),
a que podemos nós chamar «sabedoria»?

- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio D'Água

Boas Festas

Queridos Amigos,

Bom Natal
Com o Menino Jesus
Ou com a sua ausência.

Beijos e abraços. Rui

terça-feira, dezembro 21, 2010

Água

Tudo na terra se eriçou, a sarça
criou raízes e a linfa verde
mordia, lentamente desprendeu-se a pétala
até ser a queda a única flor.
A água é diferente,
não tem regras, somente formosura,
desliza por cada sonho colorido,
recebe lições claras
da pedra
e nesses misteres elabora
os deveres intactos da espuma.

- Pablo Neruda
in Plenos Poderes, Dom Quixote

Carta de Outubro

Quão distante me pareces agora,
eco de uma era mais instável
do que a infância, do que a morte!

– um durável momento que passou
casualmente. E partiste, magoada
pela queda progressiva dos anos –

grandiosos e ridículos
os meus sonhos, suas emendas
não adoptadas na margem de risada.

É um tom
que tocámos: tu
que eu nunca conheci,

que nunca me conheceste, senão
por essa corda
infinitamente vibrada entre nós.

Por isso agora reconheço também
muitas ocasiões que nunca foram,
palavras por dizer, gestos
incompletos, a eterna
natureza de desperdiçada
e desconhecida intimidade.
Como agora estamos perto!

– o conjuro ecoante me liga
totalmente: um segredo, também,
sem o mínimo som.

- Peter Jay
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

A galeria

Há dias em que a mente pasce,
girando como uma resposta
com insolência imaginando a pergunta.
Lentamente se juntam, um
a um: alguns cujas faces
brilham com o sorriso de certos
gestos há muito recordados,
outros nos recessos sombrios,
insubstanciais; raro,
o mais raro dos amores, que nunca
deixou a sua clara marca,
mas que parece um instante
justamente encarnar –
para nunca ser reconhecido, nem
vencido no coração. No quedo
centro, a galeria da mente,
saúdo tudo o que é ausente.

- Peter Jay
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

Ars política

Que se há-de fazer com os poetas? Tão incómoda gente.
Todos sabemos que não têm importância:
porque nos havemos de ralar com eles?
– Escrevem, mas pouca gente os lê;
isso torna-os influentes.
Dêem-lhes prémios, metam-nos na prisão.

- Peter Jay
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

Não era um homem à moda

Duvido que as camisas do meu pai
lhe tivessem custado algum dia mais de cem paus.
Ele nunca desarregaçou as mangas.
Tinha gostos simples: cada camisa que comprava
era uma réplica da anterior.
Usava fatos simples de xadrês escuro,
e no bolso de cima
– que nunca um lencinho adornou –
trazia uma fila
de canetas, lápis e chaves-de-fendas
em vez dele.
Não era, então, um homem à moda,
nem tinha nada que ver com a elegância.
É pois estranho pensar
que o gato-pingado lhe vestiu
o que minha irmã descreveu
como «uma bela camisa de seda
com rendas no peitilho».

- Allan Burgis
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Isto está é tudo fodido



«Preciso de uma arte que estilhace o espelho onde posamos.»
Howard Barker
in Os Europeus

Almirante Reis

A nossa solidão é esta avenida decotada,
do passeio do acaso, do furtivo e escancarado,
artéria tantas vezes paralela ao coração,
onde ninguém serve a nenhuma arquitectura;
onde sobe a miséria do terminal do eléctrico
até à igreja fronteira à sopa dos pobres,
temporárias sentinelas armando cartões
nas fachadas das lojas, trastes e artigos
de ocasião (apanham-nos de dia noivos
investindo num projecto de família).

O nosso é este meio de solidão, que se carrega
de qualquer coisa que não é bem perpétua
atmosfera de névoa, nem sujidade, que também
é terna, pena suspensa (corvos de Lisboa, naus
gastas no chão), saudade, por que não, sentimento
de povo sem pátria em que descreio; crer
creio
nisto que na indigência e vício coexiste a gente
dá-se e da carência faz-se uma disciplina às claras
e por muito pouco desprende-se quase nada
que se tem

(31/01/08)
- Margarida Vale de Gato
in Seixo Review, 10, 2009

domingo, dezembro 19, 2010

Memória de António José Forte

Um pássaro suspenso da canção,
quarenta noites retirado no deserto,
sem Deus, sem paz, e com a morte perto
___ e grande coração.

A voz da raiva vem-lhe das entranhas,
ríspida, nas insónias de revolta:
arroubos de ódio amoroso, à solta,
___ a pôr no ar montanhas.

Poeta livre, em fúria, e tão maior,
pródigo de utopia e desespero,
que dá a ver nos versos, bem sincero,
___ seu viril esplendor.

7.IX.010
- António Barahona
in Coelacanto, n.º1

Bombardeamento

A cidade abriu-se para o sol.
Como um lírio aberto, vermelho de mil pétalas
Ela revela-se, surge incompleta.

Um céu ardente vem pintar
Miríades de chaminés reluzentes no seu topo,
Enquanto ela, lenta, exala para o sol.

Criaturas apressadas correm
Pelo labirinto da sinistra flor.
De que é que fogem?

Uma ave negra cai do sol.
Curva-se de repente para o coração da enorme
Flor: o dia começou.

- D.H. Lawrence
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães)
in Os Animais Evangélicos e outros poemas, Relógio d’Água

sábado, dezembro 18, 2010

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Esta noite ao meio-dia

(para Charles Mingus e os Clayton Squares)

Esta noite ao meio-dia
Os supermercados anunciarão DESCONTO em tudo
Esta noite ao meio-dia
As crianças de famílias felizes serão mandadas para um asilo
Os elefantes contarão uns aos outros anedotas humanas
A América vai declarar paz à Rússia
Generais da Grande Guerra venderão capacetes nas ruas no 11 de Novembro
Os primeiros narcisos do Outono hão-de aparecer
Quando as folhas caírem para as árvores

Esta noite ao meio-dia
Os pombos vão caçar gatos pelos quintais
Hitler dir-nos-á que lutemos nas costas e nas praias
Um túnel será aberto sob Liverpul
Serão avistados porcos voando em formação sobre Woolton
e Nelson não só receberá o olho de volta mas também o braço
Os Americanos brancos exigirão igualdade de direitos
em frente da Casa Preta
e o Monstro acaba de criar o Dr. Frankenstein

Moças em bikini estão a banhar-se na lua
Canções populares estão sendo cantadas por autêntico povo
As galerias de arte são interditas a maiores de 21 anos
Os poetas vêem os seus poemas no Top 20.
Os políticos são eleitos para manicómios
Há empregos para todos e ninguém os quer
Em ruelas escusas amantes adolescentes beijam-se
à luz do dia
Em campas esquecidas em toda a parte os mortos calmamente
enterrarão os vivos
e
Tu dir-me-ás que me amas
Esta noite ao meio-dia

- Adrian Henri
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

Teologia

Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Corrupção dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
É este o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Digere a refeição no paraíso -
Sorrindo ao ouvir
Deus rezingão a chamar.

- Ted Hughes
(tradução de Manuel Seabra)
in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, Livros Horizonte

Le concert (2009)


8/10

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Agora a sério

Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.

Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.

Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.

No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas

de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,

com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:

piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.

Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço

(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça

triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.

- José Miguel Silva
in Erros Individuais, Relógio d'Água

Na aldeia dos ancestrais

Alguém me abraça
Alguém me fita com olhos de lobo
Alguém tira o chapéu
Para que eu o veja melhor

Todos me perguntam
Você sabe quem eu sou

Velhotes e velhotas desconhecidos
Apoderam-se dos nomes
De rapazes e garotas de minha lembrança

Pergunto a um deles
Se ainda está vivo o rico
Gueórguie Kúria

Eu sou ele responde-me
Com voz de outro mundo

Acaricio-lhe a face
E com os olhos peço que me diga
Se eu estou vivo ainda

- Vasko Popa
(tradução de Aleksandar Jovanovíc)

terça-feira, dezembro 14, 2010

Coimbra

Elegância

Parece-me que a invisibilidade é a condição para a elegância. A elegância acaba se for notada. Sendo a poesia a elegância por excelência, não sabe ser visível. Então, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a vê? Ninguém. O que a não impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a glória.
A glória é absurda por resultar de um ajuntamento. A multidão cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o até se transformar noutro.
O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre hábitos adquiridos e hábitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo hábito for adquirido, o acidente deixará de ser acidente. Far-se-á clássico e perderá a virtude de choque. Por isso uma obra nunca é compreendida. É admitida. Se não me engano, a observação pertence a Eugène Delacroix: «Nunca se é compreendido, é-se admitido». Matisse repete com frequência esta frase.
As pessoas que realmente viram o acidente afastam-se, perturbadas, incapazes de dar por ele. As que o não viram, testemunham-no. Exprimem a sua ininteligência através de um pretexto, que é darem importância a si próprias. Mas o acidente permanece na estrada ensanguentado, estupidificado, atroz de solidão, presa das loquacidades e dos relatórios da polícia.

- Jean Cocteau
in Visão Invisível, Assírio & Alvim

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Ensinando o macaco a escrever poemas

Não tiveram grandes dificuldades
para ensinar o macaco a escrever poemas:
primeiro prenderam-no à cadeira,
depois amarram-lhe à mão o lápis
(o papel já tinha sido pregado à mesa).
Então o Dr. Bluespire inclinou-se no ombro dele
e sussurrou-lhe ao ouvido:
"Pareces um deus aí sentado.
Porque não experimentas escrever alguma coisa?"

- James Tate
(tradução de Ricardo Marques)

“Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a tua filosofia"

Bem pior, certamente, seria se a crítica toda se deitasse com um só poeta. Era capaz de achar que só existe um, e em vez de meter os olhos no céu talvez ganhasse miopia a fabricar bandeirinhas e t-shirts sempre com a mesma cara.
Antes um céu cheio e conturbado do que um caderninho de adolescente.

domingo, dezembro 12, 2010

Criatura n.º5, Outubro de 2010

O mais recente número da revista Criatura revela-se o seu maior conseguimento até à data. Reúne um núcleo fortemente significativo de poetas, que formam um friso amplo e importante da poesia actual. Contou com a colaboração de nomes como António Barahona – «Agora já posso dizer/ o som em carne viva» (p.11) –, numa poesia que revela a arte de um «procurador/ extintor de sono» (p.14) –; Jaime Rocha – «Uma velha sentada/ num banco de madeira sorri como/ se bebesse veneno por uma palha.» (p.67) –, um contributo marcado por um impressivo fulgor imagético, assinalável força metafórica – «A cidade acorda como sempre/ debaixo de um suor agitado./ As formigas invadem os restos/ de fruta e as baratas iniciam o/ seu ciclo instável.» (p.71) –; ou Rui Caeiro – «E se por acaso quiseres beber, tens/ não direi toda a terra pois tudo/ aquilo que nela há é escasso» (p.127).

Merecem lugar de destaque os poemas de David Teles Pereira – «As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios/ e o pior de todos é chorar-te» (p.19) – e Diogo Vaz Pinto – «Quer dizer que abro cortes na ponta/ dos dedos, mergulho-os como isco/ no escuro, e aguardo.» (p.48) –, que se afirmam hoje como autores de alguma da poesia mais relevante e que mais interessa da actualidade. Uma poesia que, na melhor tradição, deixou todos os tronos, qualquer verborreia, e está mais próxima do sangue – «Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.» (Golgona Anghel) (p.63) –, acolhe os mais ínfimos filamentos da vida – «Toda esta poesia que nunca cabe num poema.» (Roger Wolfe) (p.l17), que não se enamora do «pus das imagens» (p.43) (DVP). Uma poesia que se dessacralizou, mas em que são, com desvelo, mensurados, pesados, escandidos, os seus materiais, palavra e som – «A poesia é o menos. Serve/ se der com o ritmo» (p.45) (DVP). No entanto, está perdida, neles, para sempre, qualquer possibilidade de valia descontextualizada, no ar – «Os poemas?/ Alguns funcionam,/ outros não./ Se o que queres/ é uma garantia, então compra um televisor.» (p.115) (RW) Trabalho do poeta, «constatar o óbvio» (RW) (124). Fazê-lo, porém, com um investimento linguístico, literário, e de si, que o isente da banalidade – «Há corpos que buscam as luzes dos bares/ nas cidades de passagem como as traças nocturnas/ buscam a bugia do último coração aceso.» (Jesús Jiménez Domínguez) (p.85) Entende-se, nestes versos, a possibilidade de, na nossa passagem por aqui, dizer o que o próprio viver cala – «Viver é outra coisa:/ deixas a gaveta fechada/ e arrancas tudo/ com unhas e dentes,/ o sabor amargo da casca,/ de tão doce,/ não o esqueces.» (Luís Filipe Parrado) (p.89) A poesia, enfim, como possibilidade de criar um espaço onde ele escasseia, um fluxo de dizeres onde se erguem, calados, todos os muros – «A imaginação é a melhor bebida, a água/ do mescal e o mescal da água, urgente, in-/ adiável» (Miguel Martins) (p.107).

Uma das virtualidades desta publicação estará, porventura, na riqueza que lhe advém da disparidade de estilos, da variedade de registos – «não um poeta/quando mais são mais/ dezenas insolentemente/ passando fogo» (p.153). Num cruzamento de planos em que estão em causa vectores aparentemente desavindos, obtêm abrigo seguro as palavras – «as formas de conhecer-te são só duas/ ou três; esta é a que demora mais tempo./ a chuva parou e continuamos distraídos neste/ amor de cabotagem» (p.149) (Tiago Araújo). Como é, ainda, possível encontrar num metaforismo bem calibrado um verso seguro, de tom claramente peculiar – «A carne da tua visão será o labirinto das paredes do teu quarto/ Abertas sobre o tempo/ Em exaustão/ Estranharás as camadas de cal a cobrirem o corpo lúcido do pátio/ O teu mundo será uma cesta de frutos na maturidade das raízes.» (p.139) (Rui Pedro Gonçalves) É possível encontrar, num uso mais escasso, mais visceral, da metáfora e da acção do tropo, um terreno interessante – «E assim, cada coisa é uma hemorragia, cada coisa está fora/ de cada coisa, é todas as outras menos ela mesma.» (p.83) (JJD) Numa abordagem destemida da narrativa que é, ao mesmo tempo, depara-se com um modo de revolver as estruturas típicas da história, através da elipse, das suspensões, das inflexões do sentido – «Estava quase a nevar. O radiador, a roupa, as canecas/ e as colheres com cheiro a mel e leite azedo,/ tudo deixado a um canto, à espera de arrumação,/ tal e qual os dias.» (p.21) (DTP) Uma via em que o relato é viabilizado e sabotado pela poesia, que a torna, a um tempo, mais sintético e mais imponderável – «O verão regressa lembrado apenas/ das repetições mais inúteis. O ar/ brinca com a luz, levanta-a ainda/ nos ombros. Em bando e à velocidade/ do grito que queimou esses caminhos/ quase a pique, parecíamos mais.» (p.33) (DVP)

Aqui se revela uma poesia desconfiada do lirismo – «só poemas,/ traições assim, bem delicadas.» (DVP) (p.40) – e do cânone – «Não quero que me façam nenhuma análise do poema.» (GA) (p.63) –; uma poesia que não alimenta brumas, sublimes, outras falhas – «Por aqui se compreende,/ obliterada poética,/ que a poesia não se escreve todos os dias/ se há despesas a liquidar» (LFP) (p.90). Sem literatismo, com um desprendimento que será tudo menos desapego que ignore – «Mas nesse rasgo de luz logo regressa a abominação/ do costume, e tu sentes o gelo dos sonhos,/ a ferrugem dos livros cheios de saliva, o asco/ e a suspeita pregados com chumbo ao peitoril/ dos teus olhos negros que não compreenderão/ jamais como, alguma vez, pudeste escrever/ a palavra vida a seguir à palavra sentido.» (L.F.P.) (p.93) – há uma atitude poética livre de servilismos, da sarna da idolatria – «murchas prateleiras/ de uma biblioteca rançosa» (RW) (p.114). Em inspirada nota final se lê que «a poesia antes de tudo/ é um feroz instinto» (p.151)

- Hugo Pinto Santos
versão aumentada da crítica publicada no Atual, 11.12.2010

-
Em ti encontro nos reunidos ramos
a flor que se estende em onda sobre os ombros
O teu rosto abriu-se e a secreta sombra
azulou-se em imagem luminosa
Amo-te nascendo virada para o teu lume
A tua ignorância é música das nascentes
e na tua cabeça há nervos de água
e no teu rosto um timbre de mercúrio
E quanto em ti é sombra
Como se reúne pressentindo a árvore
que não deslumbra mas é doçura e morte
mais una em seu outono do que a luz sem sombra

- António Ramos Rosa
in O Livro da Ignorância, Signo

sábado, dezembro 11, 2010

-
amanhã vou afundar-me no outono
passar para além do reflexo do espelho
a palavra que se dissolve na respiração

onde está o coração? é como metáfora do
silêncio que ocupa o teu lugar

e eu estou no meio de um mapa de medos
a cruzar imagens para definir a estrutura da memória

- Maria Sousa

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Estado de excepção como estado de normalidade?*

Apesar de esta edição portuguesa a isso não fazer qualquer referência, Estado de Excepção (Edições 70, 2010) é a segunda parte de um outro livro de Giorgio Agamben (1942), Homo Sacer, publicado em Portugal sob o título O Poder Soberano e a Vida Nua – Homo Sacer (Editorial Presença, 1998). A estreita ligação entre as duas obras, estabelecida em grande medida a partir de um dos conceitos centrais na teorização política de Agamben, a ideia de vida nua, consubstanciar-se-ia num importante elemento de interpretação do texto que, infelizmente para o leitor português, nem o tradutor nem o editor optaram por acrescentar. A conceptualização desenvolvida em Estado de Excepção é, sem dúvida, devedora desse obscuro e arcaico conceito de Direito Romano – homo sacer –, que o pensador italiano acordou do sono de mais de dois milénios. Este “acordar” tardio é tributário dos trilhos políticos percorridos no último século. A proximidade de leitura e de compreensão entre os dois textos é tal que esta segunda parte recorre não poucas vezes a conceitos anteriormente expostos e estudados em Homo Sacer, como o de Friedlosigkeit (“perda de paz”) ou o de wargus (aquele que, no Direito germânico medieval, ficava numa situação de desprotecção total relativamente à sua comunidade e cujo estatuto era simbolizado na figura do lobo).
O que é o estado de excepção? Numa formulação simples, corresponde à faculdade supostamente inerente ao exercício da soberania de suspender/transcender a ordem jurídica face a uma situação de conflito interno extremo e em nome da preservação do bem comum. Este estado de excepção, enquanto estado de excepção constitucional, surgia, por exemplo, no controverso artigo 48.º da Constituição de Weimar que tanto ocupou o juspublicistas alemães nos tempos que antecederam a ascensão do Terceiro Reich. Trata-se, assim, de um mecanismo que se situa numa zona cinzenta entre democracia e absolutismo e entre facto político e Direito, sob o qual paira um dos maiores desafios jurídicos: como disciplinar juridicamente aquilo que, pela sua natureza, ao pretender ultrapassar a disciplina jurídica existente, não deveria ser disciplinado?
Tendo presente a concepção do estado de excepção, herdeira do pensamento de Carl Schmitt (1888-1985), um dos mais polémicos pensadores do século XX, Agamben propõe-se indagar acerca dessa “terra de ninguém entre direito público e facto político, e entre ordem jurídica e vida” (p. 12) na qual se movem os meandros do estado de excepção. Este propósito encontra-se, desde logo, implícito na epígrafe do livro, ao subverter a célebre máxima de Alberico Gentili, “Sileti theologi in munere alieno” (Calai-vos teólogos naquilo que não vos diz respeito), transformando-a numa questão/acusação particularmente interessante no tema do estado de excepção e da sua inserção na teoria política: “Quare siletis juristae in munere vestro?” (Porque vos calais juristas naquilo que vos diz respeito?). Jogando com os potenciais sentidos da expressão “in munere” – uma vez que a palavra “munus” significa, em primeira linha cargo, ofício ou serviço, mas tem igualmente a acepção secundária de favor, graça, presente ou benfeitoria –, Giorgio Agamben inicia, com esta provocação preambular, o seu esforço de resposta à conceptualização do estado de excepção devedora da construção canónica de Carl Schmitt, em especial no seu diálogo com a tese de um outro pensador alemão, Walter Benjamin, desenvolvida no texto de 1924, Zur Kritik der Gewalt (Para uma Crítica da Violência). Carl Schmitt arquitectou, como Giorgio Agamben não deixa de reconhecer, “a tentativa mais rigorosa para construir uma teoria do estado de excepção” (p. 55), primeiro na sua obra Da Ditadura (1921) e, posteriormente, na Teologia Política (1922). A ele devemos a originalidade com que liga a questão do estado de excepção à da soberania, ao afirmar, de forma particularmente incisiva, que “O soberano é aquele que decide sobre o estado de excepção”.
O pensador italiano liga este Ausnahmezustand (estado de excepção) schmittiano, na sua origem, aos conceitos jurídicos romanos de iustitium e auctoritas – cuja compreensão e desenvolvimento não se apresentam como totalmente satisfatórios –, culminando numa teorização do estado de excepção enquanto paradigma de governo, no qual não é, de todo, líquida a distinção entre excepção e regra, o que leva Agamben a concluir, numa formulação especialmente radical, que do “estado de excepção efectivo em que vivemos não é possível o regresso ao Estado de direito, visto que estão agora em questão os próprios conceitos de «Estado» e de «direito».” (p. 131). Assim, para Agamben, aquilo que foi concebido como o poder de suspensão provisória da normalidade transformou-se, no testemunho do século XX, na normalidade, tornando a própria ordem jurídica refém dos fundamentos sempre ambíguos e tão passíveis de controlo do poder.
A propósito da complicada relação entre estado de excepção e Direito, pode recordar-se a conhecida lenda do aprendiz de bruxo que invocou um demónio, o qual, posteriormente, escapou ao seu controlo, acabando esse aprendiz por perecer às mãos do terror por si desencadeado. A experiência do século XX e, porque não, da primeira década do século XXI, mostram que não é pequeno o risco de o estado de excepção se transformar num demónio indomesticável invocado pelo Direito, no lugar do aprendiz de bruxo.
Claro que nesta perspectiva, a construção teórica de Agamben desempenha um papel que, embora importante, apenas concretiza com exemplos aquilo que no discurso de Schmitt já se prognosticava. Quase na mesma medida em que o homo sacer do autor italiano se situava bem perto das fronteiras do foe (inimigo absoluto), recuperado para o léxico político por Carl Schmitt, George Schwab (1931) e Julien Freud (1921-1993), o estado de excepção e a teoria política que Agamben constrói à sua volta não escapa a esse “demónio” invocado pela teoria política do jurista alemão: verdadeira “mente perigosa” do século passado.
Uma última nota para os trabalhos de tradução, de Miguel Freitas da Costa, e de revisão: apesar de genericamente competentes, detectam-se alguns problemas no aspecto da revisão, por vezes com impacto indesejável na leitura do texto. Exemplo disso é a utilização da expressão “hostis indicatio” quando o que está escrito no original é, antes, “hostis iudicatio”.

*texto publicado na edição de hoje do ípsilon, com algumas adendas que certas pessoas me fizeram ver que fui parvo em não incluir no original.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg7DpGYG7bGC0JusAHfEMGAi-R0Hl6B_EAAYPpF4ZqfZg5QM0YFS9wTbKRTHHIX5N0bJ5W9GZnBtTQVO7jldYW4nT-N_8WfPFF40IkQCnklkOiWkECWX14TCvo3KqfY4EaFjwuf/s1600/c7a1dba78e0324b4ba115e0a5a6de6e3.jpg

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Voz e Contra-voz

I. DAQUELA VEZ

É de noite. No balcão do club nocturno servem-te a última
sempre com envergonhada compaixão... Mas atrás de ti
o corpo de algum desgraçado, solitário até à loucura,
caído de bêbado de mariposa a larva,
caído de desespero entre ele e ele mesmo,
de onde já não escapará,
recorda-te alguma coisa não alcançada, e veladamente
duas determinadas ladeiras estropiadas pelas rochas,
as árvores de ocasião, a fornicação acumulada na fila das mustelas,
e o brancazul conhecimento dos gaviões.
Entre as ladeiras delirava o riacho
como um punhado de balelas atirado ao rosto do ouvido.
Então eras jovem... Não te davas conta
do quão cruelmente gasto estava o batente do cemitério...
«Outra, por favor!»... Sim, e o sol
era um grande grão como o sangue do pavão,
e tu, através dessa corrente de água, de margem a margem ,
colocavas calhau atrás de calhau...

Ao anoitecer ela os pisou ao atravessar.


II. E HOJE

É de noite. No balcão do club nocturno servem-te a última
com rezingona fadiga. Mas não falemos disso,
não nos conhecemos e tudo sucede como quando nos encontramos nas escadas:
um sobe e o outro desce...
Ali embaixo estás tu agora,
por sorte o rum não pergunta o que te aconteceu,
já que ele não é ainda pó nem saliva
e não lhe chove no túmulo.
O rum é, pois, bom: primeiro bebes depois dele,
como o outono bebe, depois das falsas lágrimas, o vinho das chaminés,
ao aspirar ao deus do momento...
Do momento? Não, permanente e desgarradamente
sabes pelo contrário onde vive aquela que te amava,
ah! Ansiosamente o sabes e é como um milagre.
Mas estás aqui com um desejo tão lascivo e sem saída
que até a paisagem deveria ter um poente derrubado...

- Vladimir Holan
(tradução: RMR)

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Lobos

Já não quero reflectir,
Sentir inveja, desprezo, pela irreflexão das coisas,
Encontrar o pathos em cães, ou numa caligrafia subdesenvolvida,
Em raparigas que arranjam o cabelo, todos os castelos de areia
Caídos por terra à hora de dormir das crianças, à beira-mar.

Vem a maré e some-se de novo; não quero
Sublinhar para sempre o seu fluxo, a sua permanência,
Não quero ser um coro trágico ou filosófico,
Quero apenas olhar de frente o futuro próximo
E antes disso deixar que o mar nos cubra.

Então, venham todos, aproximem-se, formem um círculo,
Dêem as mãos, façam de conta que, ao darem as mãos,
Mantêm ao largo os lobos da água
Que uivam junto à costa. E que se saiba
Que ninguém os ouve, por entre conversas e risos.

- Louis MacNeice
(tradução de Hugo Pinto Santos)
Olivais (ou um simples cipreste)
para o Manuel de Freitas
Pois é, meu amigo.
É tão certo perdermos os laços
Na escadaria que chega à casa mortuária.

Essa terra e o teu pai não são, afinal, a estrada em cotovelo
Por onde passo distraído, com os ciganos em motivos ambulantes.

Nesse dia, parei.
É preciso andar muito para chegar a um sítio desses;
Sobe-se a escada de pedra
E chegamos
A esse lugar na infância onde não havia morte.

Faz frio
E o azevinho pica por todas as evidências.
Meto a marcha na segunda.
O carro passa pela fonte das colunas e pela curva mais temida.

Foi um jogo de bilhar, que aconteceu há muito tempo.

Vou fazer uma fogueira, para tornar mais quente este Natal.

Uma apresentação




Exercícios para Endurecimento de Lágrimas, Maria Sousa, Língua Morta, Dezembro, 2010

A apresentação de um livro pressupõe que há nele um elemento, ou elementos, de desconhecido. Só em parte isso é verdade em relação a este novo livro de Maria Sousa. Publicados previamente em linha, convocam uma questão que poderá vir a revelar-se profícua, se um dia vierem a estudar-se estes dias que nos couberam. A publicação na Internet é hoje comparável ao que, noutro tempo, foram as revistas de primícias literárias, ou consolidadas aventuras. Se, de facto, mais tarde houver quem olhe para trás, em busca destes passos que damos, poderá historiar-se esta liberdade que dá azo pleno ao caos da incipiência, mas que alberga, por vezes, uma flâmula que não se consome nas cinzas em que arde. A poesia de Maria Sousa situa-se nesse território perigoso em que se atravessam todas as dificuldades. Que passam pela procura de uma capacidade de calibrar, com as palavras e sua disposição – como na prestidigitação da elipse – «o aconchego de se ainda voltasses/ abre-se em palavras surdas» (p.12) –, o que é matéria incandescente e queima, ainda que com resultados díspares, a produção do poema.

Como quem intentasse, pertinaz, traçar um círculo – «regressos que desenho para portas por abrir» (p.23) –, em camadas sucessivas, ou cavasse na terra a sua própria lura, em derredor, em gestos que anulam as mãos e se fixam no próprio solo, no corpo que lhe cabe – «como movimento imperfeito da respiração/ aceito lágrimas» (p.11) –, os versos de M.S. volteiam, ondeiam; não, como em Sá-Carneiro, no ar, mas no terreno, núcleo problemático de um caminho que se faz refazendo-se, desfazendo atrás de si todos os sinais, todas as pistas. Assim, não há ajudas ao viandante que se faz à viagem, antes se ataca o mais incauto passante onde ele menos espera. Esse, um dos feitos destes poemas. Apesar de indícios de sinal oposto – «para não te perderes pensas/ em deixar marcas pelo caminho/ guiar-te pelo barulho dos carros» (p.10) –, em que vivem os gritos abafados de uma contradição, que se escava entre a desolação dos caminhos e as luzes mais triviais, nada existe para auxiliar o leitor – mas para acossá-lo, deixá-lo presa da dúvida, esbulhá-lo das suas certezas. Os melhores destes poemas são aqueles em que o descontrolo que parece subjazer à feitura dos versos é contrabalançado pelo que parece ter sido um exame rigoroso da sua orgânica, a vigia formal, a atenção às ataduras da sintaxe, o trânsito do encavalgamento, a selecção do léxico – «o tempo é um argumento que nos fecha a porta» (p.34).

É antiga, e de notáveis consecuções, a tradição de uma poesia que se conjuga pela estranheza, pelo inesperado. Esta poesia faz-se, pelo contrário, com materiais bem simples. Não se caça a incidência rara, o material invulgar, o brilho fátuo da pedraria preciosa. Por outro lado, não se cai nos baixios do simplismo, na microleitura torpe, ineficaz. Ao arrepio de outras tentativas, não temos aqui a sensação de estar a ver um diaporama miniatural, uma pequeníssima encenação que apenas poderá interessar às mãos por trás do títere. Esta poesia ainda não perdeu (esperemos que não perca) o tino da leitura (ainda que tempestade adentro) em potência – «escrevo o que ainda conheço» (p.22). Nos seus melhores momentos, esta poesia consegue significar sem abusar da retórica, abalar sem perpetrar histerismos – «explico-te então as repetições onde lentamente/ envelheci no teu corpo» (p.16).

Quando se opta (ou se é levado a tomar a opção) por fazer das palavras um veículo para emoções filtradas por uma película friável, o resultado é, muitas vezes, desapontante. Nestes poemas, felizmente, são menos os casos em que isso acontece, e não será despiciendo anotar o modo desabrido como a exploração emocional – desabrigada como «um nervo exposto da memória» (p.23) – é, nos poemas, domesticado por um pulso firme, o mesmo que controla o sangue que nele vibra, cercado pelos limites da respiração, do verso e do branco que o rodeia. Questões como a da forma dos poemas (bem manobrada, nestes textos), ou a do próprio livro (unido num caderno que evoca a parte da escrita que temos mais perto da mão, a de um bloco-notas justamente encadernado, ou de folhas volantes sabiamente cosidas), hoje, apesar de tudo, pouco habituais, deveriam, aqui, talvez, equacionar-se. Notas, estas, as dos poemas, para bem da sua consecução, longe de soltas, unidas por um fio que, se não é de Ariadne, não se perde, também, no labirinto que engendra – embora poucos indícios deixe, poucos traços permita, que se sigam.

Se, ao falarmos de pendor lírico, fixarmos o âmbito de tão resvaladia designação numa matriz individualizante, fortemente subjectiva, conducente a uma leitura não excessivamente realista de coisas e seres, então, teremos de reler essas apelações – «o coração é um órgão que/ espreita pelos buracos da gramática» (p.9). Haverá que procurar no corpo dos poemas o esbracejar tenso de uma entidade (des)reguladora que luta entre a dissolução e a unidade, que luta, friso, entre o desgoverno e a temperança. Como se porfia para conseguir ver por entre a construção inapelável dos códigos, a solidez impassível das normas, a «gramática».

Talvez de modo significativo, o livro escolhe, ou foi escolhido por, uma epígrafe de Sarah Kane. A morbidez que sobre os versos poderia lançar a projecção da autora de Psicose 4:48 não tolheu a poesia deste livro. Exercícios para Endurecimentos de Lágrimas gera, porém, uma natural contiguidade temática e de tom com a malograda inglesa – por meio da disposição melancólica, elegíaca, da citação inicial. Acresce que, após uma leitura menos superficial, as palavras de Kane desmontam a dor para melhor a entenderem. Desenrolam a esteira desolada em que estes versos se estendem, situados para lá das lágrimas, ou aquém dessa expressão fisiológica e emocional. Um estado de coisas que o título de Maria Sousa cristalizou, petrificou, diríamos, na fórmula achada, que endurece o que fora líquido e não poderá mais sê-lo.

- Hugo Pinto Santos


terça-feira, dezembro 07, 2010

-
Há noite.
Há.
Mas não bastante
para me encontrar para lá do oceano
e das suas ruínas inconstantes
naufragadas aí,
já vegetais e ternas.
Há uma noite toda ela Espanha,
outra ilha de conchas,
pedacinhos,
mas em ambas detenho, ainda, pés
e os pés são a nossa languidez
de monos que a si mesmos se confiam.

Não há
(também não há)
manhã que nos recorde
a luz que nunca vimos nem veremos,
apenas o diáfano debique
dessa tuba atulhada de detritos
a que parece que se chama Sol.
Há as manhãs de serrubeca nova
e as alvoradas Índicas,
azues,
mas das duas não sobra quase nada
uma vez almoçada a fuça ao porco
que nos ulcera a fé, prendendo o ventre.

A tarde é outra coisa.
Não existe.
É entre sono e sono abandonada
sobre um manto de pálpebras, retalhos
do que foram dos outros as lentilhas,
miragens breves em crudes afogadas.
Há-as, é certo, dúbias ou roubadas:
ou malte o mosto, ou cama ou desafio,
jamais a longa tarde entronizada
em cem tambores de fogo na savana,
que ecoassem, perpétua maravilha,
os cardíacos pontos cardeais,
a excessiva mesura que eu queria.

- Miguel Martins
17 RESPOSTAS POSSÍVEIS À PERGUNTA (BASTANTE ESTÚPIDA, ALIÁS) «QUAL É O TEMA DA SUA POESIA?»

para o Miguel Martins


É sobre os problemas de auto-estima das bonecas insufláveis.

É sobre a vantagem das navalhas em relação às máquinas de barbear.

É sobre os efeitos da nicotina no acasalamento de lagartixas.

É sobre Super Bock, Famous Grouse e, em dias melhores, Glenlivet.

É sobre as ruas de Lisboa, quando as acho suficientemente tristes.

É sobre o nada, minha única «matéria» (Drummond).

É sobre tremoços, amendoins e Domenico Scarlatti.

É sobre as alterações climatéricas no Bairro da Serafina.

É sobre gatos mortos e outros que ainda não morreram.

É sobre os seios de Jeanne Hébuterne e as mãos de Glenn Gould.

É sobre o bife de lombo à portuguesa do Trivial e os filetes de polvo do Apuradinho.

É sobre política internacional, obviamente.

É sobre a cona da tua mãe, leitor.

É sobre a minha vida, que nunca daria uma telenovela.

É sobre Copenhaga, Barcelona, Madrid, Paris e Celorico da Beira.

É sobre cáries dentárias, fundamentalmente.

É sobre coisas que preferia ter calado.

- Manuel de Freitas

Trivial, 7.05.2010, depois de meia garrafita de Monte Velho tinto

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Convite


_______________(clica para aumentar)

domingo, dezembro 05, 2010

Neve

O quarto, de repente opulento. Da grande janela,
Brotavam neve e rosas contra ele,
Em silêncio, colaterais e incompatíveis:
O mundo é mais repentino do que nos parece.

O mundo é mais louco, muito mais do que julgamos,
Incorrigivelmente plural. Descasco e parto em gomos
Uma tangerina, e cuspo os caroços, sinto
A bebedeira de as coisas serem várias.

E as chamas do fogo, com um barulho fervilhante, porque o mundo
É mais desprezível e alegre do que supomos
– na língua, nos olhos, nas orelhas nas palmas da mão –
Há mais do que vidro entre a neve e as rosas desmedidas.

- Louis MacNeice
(tradução de Hugo Pinto Santos)

Casa na Falésia

Dentro, o cheiro intenso de um pequeno candeeiro a óleo. Lá fora,
O incerto sinal luminoso de desperdícios no mar.
Dentro, o soprar do vento. Lá fora, o vento.
Dentro, o coração trancado e a chave perdida.

Lá fora, o frio e o vazio, a sirene. Dentro,
A dor do homem forte que descobre frio o seu sangue rubro,
Enquanto cresce o ruído do relógio cego, mais rápido. Lá fora,
A muda lua, as marés loquazes que ela governa.

Dentro, a antiquíssima bênção fundida com a maldição. Lá fora,
A cúpula vazia do céu, as funduras do vazio.
Dentro, um homem decidido fala sozinho
Contra si, um sono estilhaçado.

- Louis MacNeice
(tradução de Hugo Pinto Santos)

sábado, dezembro 04, 2010

Aviso

Por causa da greve dos controladores aéreos em Espanha, a Renata Correia Botelho ficou retida em trânsito para Portugal. Estaremos à hora marcada no local da apresentação. Aos que aparecerem a Língua Morta oferecerá um exemplar do livro.

Última chamada

Nesta técnica ou arte soturna

Nesta técnica ou arte soturna
Que tento na noite tranquila
Açulada apenas pela lua
E deitados os amantes prendem
Nos braços tudo o que lhes dói,
Eu labuto à melodia da luz
Não por vanglória ou pão
Ou alarde ou comércio de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelos salários comuns
Do seu mais secreto coração.

Não para os arrogantes alheados
Da devastação da lua escrevo
Nestas páginas ao pó da espuma
Nem para os mortos altaneiros
Com seus rouxinóis e salmos
Mas para os amantes, seus braços
A prender as dores dos tempos,
Eles não elogiam nem pagam
Nem cuidam da minha técnica ou arte.

- Dylan Thomas
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

Vinte e quatro anos

Vinte e quatro anos recordam as lágrimas dos meus olhos.
(Enterrem os mortos, ou eles caminharão entre dores para a cova.)
Nas virilhas da porta natural acocorei-me como um alfaiate
A coser um sudário para uma viagem
à luz do sol carnívoro.
Vestido para morrer, pronto para o garbo sensual,
As veias vermelhas cheias de dinheiro,
No rumo final da cidade elementar
Avanço por tanto tempo quanto para sempre é.

- Dylan Thomas
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

sexta-feira, dezembro 03, 2010

quinta-feira, dezembro 02, 2010

A Rimbaud

Assim que Rimbaud se tornou negreiro
e começou a lançar as redes
sobre a Abissínia
a caçar o leão negro
e o pelicano negro
abandonou a poesia
Como era leal, esse rapaz
Mais numerosos são esses que permaneceram poetas
e se tornaram negreiros
usurários
sem ainda assim abandonarem a poesia
Tornaram-se representantes de agências de publicidade
vendedores de quadros falsos
sem ainda assim abandonarem a poesia
Nos palácios dos déspotas os seus poemas transformaram-se
em portas e janelas
mesas e tapetes
mas eles não abandonaram a poesia
Dispuseram-se ao louvor
e receberam medalhas e honrarias de todos os potentados do mundo
a taça de ouro, de prata e de pedra
mas não abandonaram a poesia
A chancela dos polícias
as marcas das solas desses polícias cobrem-lhes os poemas
mas eles não abandonaram a poesia
Que nobreza, a de Rimbaud
como era leal, esse rapaz

- Mou'in Bsissou
(versão de L.P.)
-
como sou incapaz de contar histórias fotografo corpos
muitas vezes como maneira de agarrar o vento
faço construções de quem conhece por dentro a monotonia
e para aumentar o grão
anoto o vermelho que trespassa o olhar vazio

- Maria Sousa

quarta-feira, dezembro 01, 2010

CANÇÃO
(Álamo branco)

No alto canta o pássaro,
em baixo canta a água.
– Lá no alto e em baixo
abre-se a minha alma. –

Embala a estrela o pássaro;
à flor, embala-a a água.
– Lá no alto e em baixo
treme a minha alma. –

- Juan Ramón Jiménez
(tradução de José Bento)
in Antologia da poesia espanhola contemporânea, Assírio & Alvim