
8/10
- Pedro da Silveira
- Manuel de Freitas
A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.
A nossa casa é onde a neve aquece.
A nossa festa, onde o luar acaba.
Cada verso em nós próprios apodrece,
cada jardim nos fecha a sua entrada.
- Eugénio de Andrade
- Miguel Manso

(...)
também tu,
também
te vais
embora?
poesia
propriamente dita
não há meio de acontecer,
é como matar um pássaro
ontem
com uma pedra
atirada hoje
mas
isso é o menos.
não tens nada para me dar?
não sintas nada.
eu já sinto
já cheiro
envolvendo-me,
o doce massacre.
não podia ser
mais aberto o meu amor,
aberto
à folha que sobrevoa
o meu corpo,
assim sem flor,
mas chegou o inverno.
fim
do alfabeto,
desta infâmia,
deste crime
letrado:
vou sentir
por dentro as coisas,
vou perceber.
(...)- Alberto Pimento
Imitação de Ovídio, & etc.
O revisionismo histórico que Tarantino faz neste filme é interessante nesta perspectiva: sendo ficção é falso, mas a partir desse falseamento, assinala uma possível brecha na História – cria, a partir do nada, um não lugar – onde o que retracta poderia ter acontecido. Essa ideia, que vai para além do conceito geral da Utopia, não é inovadora. Há quem o faça em inversão distópica.
É engraçado observar que sessenta e quatro anos após o fim da II Guerra, existem dois tipos de tendência: os que – como Tarantino – reescrevem a História terminando a Guerra prematuramente; e os que, invertem o seu resultado como, por exemplo, Philip K. Dick.
Mais do que pensar ou “falar” da conivência do mundo para com a Guerra, acho que este filme representa, a imensa necessidade que se sente em revisitar a História – alterando-a. Abrindo novos caminhos possíveis – sejam em que direcção for – nas fendas do tempo; explorando as milhares de possibilidades que existiram e que não foram consumadas. O que não aconteceu – o que não teve lugar nem tempo – é agora, o campo perfeito para a alteração efémera da História.
Quando se tenta mostrar a conivência do Mundo – achincalhar as mentes, apontar o dedo, enfiar-lhe à luz do interrogatório bem no meio dos olhos – já se sabe que pouco ou nada se obtém. Os julgamentos da História têm o peso que têm, e pesam muito pouco, porque a História não cessa de ser história. Vive em constante movimento. E, a menos que parássemos também, não a poderemos julgar e condenar.
Pessoalmente prefiro o fim que Tarantino – na farsa ficcional – lhe teria dado. Um fim irónico: Matar Nazis num cinema parisiense, tendo numa uma judia – que escapou do seu destino por mera sorte – o rosto “perfeito” da vingança. O cinema possibilita-o. Possibilita a transformação do passado. Surge como um poder. Um falso poder. Mas que como tudo: é também ele, História.Beatriz Hierro Lopes
- Rui Pires Cabral
![[1693poster.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgxBPln-WjdvtN0MRKGBTthJoh4Rq-QJlvSJvUpDZXFWMwd0c8WXxB1x59oy6ko-t7-tZeahw7EzcoSPp-ggjMaAWIE10IpzwU_Hdol-blHLXf6Lk3beG8j0fqBaiISNhjwaS8T/s1600/1693poster.jpg)
- Eugénio de Andrade
Chia a roldana do poço,
a água sobe até à luz e aí se funde.
Treme uma recordação no alcatruz colmado,
no círculo fechado uma imagem progride.
Aproximo o rosto de evanescentes lábios:
deforma-se o passado, fica avelhantado,
pertence a um outro...
........................................Ah range já na sua lide
a roda, entrega-te ao fundo escuro,
visão, uma distância nos divide.- Eugenio Montale
- Miguel-Manso
- António Franco Alexandre[As Moradas, 1987]
- Anna Akhmatova
- Anna Akhmatova
- Cesare Pavese
(...)
well I guess all that mad misery must make it seem to true to you
but money lights your world up, you're trapped what can you do?
you got Tennessee tendencies and chemical dependancies
you make the same old jokes and malaprops on cue
suffering jukebox such a sad machine
your filled up with what other people need
hardship, damnation and guilt
make you wonder why you were even built
suffering jukebox in a happy town
you're over in the corner breaking down
they always seem to keep you way down low
the people in this town don't want to know
-
- José Miguel Silva
Do filme do Manuel Mozos, 4 Copas, digo que gostei de o ver e que se lhe desculpam algumas indelicadezas porque esta é uma história que merece ser contada e que constrói suficientes momentos fortes, seja pelos personagens e através da representação, seja porque no fundo a ideia de que vive o filme é realmente uma boa ideia. Assim o que fica sobretudo é a sensação que era possível ter-se tirado mais desta. Mas o David, no post anterior, mostra muita atenção e consegue uma análise pela qual não tenho dificuldade nenhuma em alinhar. 6/10 é a nota que leva.
A este o David já não pôde acompanhar-nos. Chama-se Synecdoche, New York e dou-lhe 11/10.
Rebenta a escala? Sim. E sim, talvez eu seja muito dado a exageros, mas não consigo sequer começar por explicar como ou o quanto me entusiasmou este filme. Achei-o absolutamente genial. Sinto, por isso, que tudo o que posso fazer é ser o mais veemente possível ao recomendá-lo: O melhor filme que já vi! Vão vê-lo ou vão-se foder.
- Miguel-Manso
- Rui Nunes
- Manuel de Freitas
- Eloy Sánchez Rosillo
- João Miguel Fernandes Jorge
- Amalia Bautista
- António Franco Alexandre
[Os Objectos Principais, 1979]
- João Miguel Fernandes Jorge
- Renata Correia Botelho
- Miguel-Manso

Durante a próxima semana vou passar música nesta discoteca surrealista.
I
As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,
II
talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando
o papel,
III
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
como podem
crescer
de tal modo
IV
no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro
V
e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:
procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração
VI
quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai
e deixa
atrás de si
silêncio:
VII
é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitectura
duvidosa
de símbolos
VIII
que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.- Carlos de Oliveira
Podia contar-lhe o que se diz em Portugal dos artistas, e dos cineastas portugueses, mas não quero angustiá-lo... Mas, portanto, "Os Limites do Controlo" narra a história da vingança da margem sobre o centro?
A vingança é inútil [uma má escolha de palavras do entrevistador proporcionou a "recriação" de um diálogo do filme: na cena final, Bill Murray pergunta a Isaach de Bankolé "Isto é o quê, uma vingança?" e Isaach responde, exactamente como Jarmusch, "A vingança é inútil"]. É uma metáfora, uma metáfora de uma tomada de consciência e de uma afirmação da consciência contra todas as imagens e ideias que lhe são impostas de fora. A personagem de Bill Murray é uma representação dos poderes convencionais de todo o tipo, político, económico, cultural. Nunca pude com aquele cinismo disfarçado de pragmatismo, que agora está outra vez na moda, que nos quer convencer de que o mundo é "assim" e só "assim". O "vocês não sabem nada da vida", o "não é assim que o mundo funciona", seguido da conveniente explicaçãozinha cínica. Têm que escrever a pensar nisto, têm que fazer filmes a pensar naquilo - sempre "as massas" e, o que é igual, o "dinheiro". Abdiquem da vossa individualidade, abdiquem da vossa imaginação. Ao diabo com essa gente toda. O discurso da personagem de Bill Murray nessa cena é um repositório desse tipo de frases feitas.
excerto da entrevista hoje no Ípsilon
- Cesare Pavese
- Miguel-Manso
Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia balbuciar, balbuciar
sempre sempre
só só- Paul Celan
Eram lugares miseráveis. Mas ouvia-se,
tão perto, um riacho a correr.
Tábuas que nos pregam o coração.
Joaquim Manuel Magalhães
A árvore caiu
numa manhã
p'lo vento
de novembro.
Ao seu redor
rompe
a flor do aloés.
À superfície
resta
do nenúfar
a flor vermelha.
A árvore tombou
ficou em arco
rasando a água.
Curva perfeita
e longa e viva
e as folhas novas
no lago.
A flor
há-de voltar
no tempo certo
de março.- João Miguel Fernandes Jorge