Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Basquiat (1996)


8/10

Sharon Olds

(...)

Cada poeta tem uma voz diferente, resultado de uma vida diferente. Esta é uma das formas da poesia se renovar continuamente.
(versão minha das duas últimas frases do depoimento da autora em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 128).

(À maneira de Cesário Verde, propositadamente)

A agitação dos dias de baleia!
Marinheiros correndo para o porto.
Iguala o Universo num grão de areia
e o Nada é um doutor de olhar absorto.

A bomba que rebenta na vigia
sacode o ar num sobressalto de asas.
A vida igual de sempre dir-se-ia
outra na lida habitual das casas.

Mas à agitação se segue logo
uma ansiedade vã sobre a paisagem:
em cada coração crepita um fogo
à espera apenas de uma leve aragem.

Depois, qualquer sinal no horizonte
parece um barco – e uma baleia morta?
Um binóculo espreita, ali defronte,
E um vulto de mulher assoma à porta.

Inquieto, alguém pergunta: – Que é? Que foi?
Um coração lento cruza a dúbia praça;
reflecte a placidez do boi
a morna placidez da tarde baça.

Mas não há uma vela pelo mar!
As horas passam, moles, arrastadas...
A noite vem... Os botes sem chegar!
E um choro enche as casas desoladas.

- Pedro da Silveira

Sub rosa

para o Herberto Helder

Não somos os últimos, pois se
há coisa que o mundo sempre fez bem
foi acabar. De novo e sempre: acabar.

Mas já não trabalhamos com o ouro
e temos um certo pudor tardio
em falar de deus, do amor ou até do corpo.

As metáforas arrefecem, talvez contrariadas.
São casas devolutas, mães risonhas
ou sombrias cujo grito deixámos de escutar.

Do lixo, porém, temos um vasto
e inútil conhecimento. Possa
ele servir de rosa triste aos
que não cantam sequer, por delicadeza.

- Manuel de Freitas

Domingo, Agosto 30, 2009


A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.

A nossa casa é onde a neve aquece.
A nossa festa, onde o luar acaba.
Cada verso em nós próprios apodrece,
cada jardim nos fecha a sua entrada.

- Eugénio de Andrade

I. VIDEO ART
planos soltos para Velvet Undergroud

A poesia, tipo,
não precisa de, bom,
não é exactamente uma canção, uma praça ou um parque no Outono,
indícios, unicórnios, um capitel clássico
helenicamente erguido sob a librina e o néon

Costumavas sentar-te sobre os Romanos na library
nesse Verão algemámos deus
ao gradeamento de uma janela em Portland Road
o ano: 1967 e uns copos a mais

Uma oração, dizia-se, desliza como pedra solta até
ao Palladium; na Primavera seguinte estudavas semiótica
e aprendias a escolher legumes no centro da Babilónia
com uma amiga pelo braço, atonal, primeiro, depois
descendo a Avenida A

Duchamp tornou-se uma súbita porção de silêncio arroxeado
colado à folhagem: acácia gelada na manhã de um jardim
pequeno em Nova Iorque

Drella dizia estar farto de pintura e brincava de
marinheiro ou bronze etrusco ou rainha barroca
decapitada, enquanto nós dormíamos cansados de amputar as
pétalas de Nico, dormíamos sobre
o sangue de uma figura de Fellini e não sonhávamos com o
guerreiro moribundo do frontão oriental do Templo de Égina -
caído e sorrindo - nem com o mercado de Benavente

Mas a poesia, tipo
é um dragão em origami, um isqueiro zippo
um riff de guitarra uma aventura espaço intermédio
a soma das partes a sua exclusão

Deitada sobre a cama, usando um espelho entre as pernas
desenhaste a cona a lápis, nas costas
de um menu de restaurante

Que faço agora com as fotografias, as caixas de sapatos
os anos sessente, a romã podre sobre o tampo da mesa, a cidade
de Damasco?

Muito antes, suponho, e muito depois
de consoar a música o poema o receituário sonoplasta
a Vénus tatuada, o recipiente adequado
a cidade coroava a ferida como se tudo tivesse
promovido o eco
que não termina

A arte, a ironia? por um triz, quase nada
e resta-nos qualquer coisa entre a noite e o mar
um táxi, a garrafa de gin, a morte
porque não? refazendo tudo a partir daí
um trabalho imenso

- Miguel Manso

Sábado, Agosto 29, 2009


(...)
também tu,
também
te vais
embora?

poesia
propriamente dita
não há meio de acontecer,
é como matar um pássaro
ontem
com uma pedra
atirada hoje

mas
isso é o menos.

não tens nada para me dar?
não sintas nada.

eu já sinto
já cheiro

envolvendo-me,
o doce massacre.

não podia ser
mais aberto o meu amor,
aberto
à folha que sobrevoa
o meu corpo,
assim sem flor,
mas chegou o inverno.

fim
do alfabeto,
desta infâmia,
deste crime
letrado:

vou sentir
por dentro as coisas,
vou perceber.
(...)

- Alberto Pimento
Imitação de Ovídio, & etc.

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Inglourious Basterds

[ib-laurent.jpg]

O revisionismo histórico que Tarantino faz neste filme é interessante nesta perspectiva: sendo ficção é falso, mas a partir desse falseamento, assinala uma possível brecha na História – cria, a partir do nada, um não lugar – onde o que retracta poderia ter acontecido. Essa ideia, que vai para além do conceito geral da Utopia, não é inovadora. Há quem o faça em inversão distópica.

É engraçado observar que sessenta e quatro anos após o fim da II Guerra, existem dois tipos de tendência: os que – como Tarantino – reescrevem a História terminando a Guerra prematuramente; e os que, invertem o seu resultado como, por exemplo, Philip K. Dick.

Mais do que pensar ou “falar” da conivência do mundo para com a Guerra, acho que este filme representa, a imensa necessidade que se sente em revisitar a História – alterando-a. Abrindo novos caminhos possíveis – sejam em que direcção for – nas fendas do tempo; explorando as milhares de possibilidades que existiram e que não foram consumadas. O que não aconteceu – o que não teve lugar nem tempo – é agora, o campo perfeito para a alteração efémera da História.

Quando se tenta mostrar a conivência do Mundo – achincalhar as mentes, apontar o dedo, enfiar-lhe à luz do interrogatório bem no meio dos olhos – já se sabe que pouco ou nada se obtém. Os julgamentos da História têm o peso que têm, e pesam muito pouco, porque a História não cessa de ser história. Vive em constante movimento. E, a menos que parássemos também, não a poderemos julgar e condenar.

Pessoalmente prefiro o fim que Tarantino – na farsa ficcional – lhe teria dado. Um fim irónico: Matar Nazis num cinema parisiense, tendo numa uma judia – que escapou do seu destino por mera sorte – o rosto “perfeito” da vingança. O cinema possibilita-o. Possibilita a transformação do passado. Surge como um poder. Um falso poder. Mas que como tudo: é também ele, História.

Beatriz Hierro Lopes

Marvin Bell

Como a maioria dos jovens da pequena cidade onde cresci, eu fiz o ensino secundário a achar que a poesia era escrita numa linguagem antiquada, expressando sentimentos cheios de floreados de formas embaraçosas para qualquer rapaz ou rapariga americanos de sangue na guerla. Estava enganado.
Bem, é claro que eu deveria ter percebido que a poesia pode ser moderna porque a música popular é sempre moderna. As palavras das canções são uma espécie de poesia, e eu sabia montes de canções.
Escrever poesia é sempre uma maneira de ser jovem, porque cada poema é um recomeço, um novo mundo de palavras a explorar, a possibilidade de uma surpresa ou de um milagre. Escrever é uma espécie de brincadeira, mesmo quando o tema é sério.
Além disso, nunca perdemos a nossa ligação à infância, o tempo em que começamos a ganhar consciência dos nossos sentimentos. A poesia encontra as palavras que dizem o que desejamos da vida, e os sentimentos têm o poder de perdurar.
(versão minha; depoimento reproduzido em The invisible ladder, selecção e organização de Liz Rosenberg, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 7).

Cinco cidades

Paris

Quando vi o mar nas janelas, achei que podia alterar
o meu itinerário. Ao descer para a praia
já era quase escuro, havia um casal de aspecto aborrecido
sentado nas dunas. Não estava à espera de nenhuma revelação
mas as ondas recurvavam com fastio e eu regressei ao molhe
onde todas as famílias eram negligentes
e estavam em férias.

O coreto tinha sido assaltado
por jovens excursionistas no engate, velhos em calções
falavam nas cervejarias a coçar os joelhos, riam com estridência
para dentro dos copos. O verão ia no seu segundo dia
e parecia ter-se desdobrado no céu da Gasconha
como um lençol gasto. Não saberei nunca
se havia uma história à minha espera na Gare du Nord essa noite.



Budapeste

Frau Szabo está a pôr flores
na entrada, faz estalar a madeira junto ao vão
das portas. Parece-me que já conheço
este lugar, esta espécie de verde
nas paredes, a clarabóia toldada pela fuligem.

Ainda há pouco eu era um forasteiro a olhar
na ponte. Uma criança atirou papéis para o rio
e foi castigada, falava-se uma língua
assustadora.

Vir de tão longe para encontrar a sombra
de uma casa demolida. Jesus com olhos de corça
e o coração à mostra. E na casa de banho
a grande banheira de esmalte, com pés.



Münster

Os jovens turcos viviam com desenvoltura
a rotina dos subúrbios, tinham herdado a consciência
do exílio e um bigode etnográfico. Podiam ser vistos
a vender haxixe na zona de Hiltrup, discursando
no seu alemão indeclinável.

À noite vingavam a raça com os carros remendados
nas grandes avenidas, circundavam as rotundas cheias de coelhos
a pular na relva. Diziam caralho enquanto enrolavam
um charro, julgo que em nossa homenagem.



Veneza

Falaste a noite toda sobre a vida na Colômbia
com o rastro dos postes intermitindo no teu rosto
atento, quase hierático. Tinha havido a comoção
provocada por Gabriella na cabine dos jugoslavos
e aquele italiano ruivo repetindo pedagogicamente
paesi, castelli, àlberi, uma ladainha para pontuar
o curso obstinado da nossa travessia.

Por fim restava a madrugada sobre a água recolhida
na laguna – por que me senti tão desarmado quando vi
as fachadas de Veneza? E tu disseste que talvez
nos voltássemos a encontrar, eram seis da manhã no silêncio
por onde os canais cumpriam mais depressa
a sua lenta função.



Salamanca

À Sónia

Telepizza para a Pensão Albacete, cinco pessoas
num quarto disposto para o teu aniversário
com tequilla e paredes que entortam junto ao tecto.
Aqui somos todos amigos mas nada é tão simples
como parece, o truque é não pensar muito nisso.

No Potemkin já pedrados, o serão inflecte
perigosamente nas esporas da electricidade
e há estilhaços por todo o lado, na boca do estômago,
no campo armadilhado sob os nossos pés.
Não sabemos onde estamos e se calhar é por isso
que nos serve tão bem esta jornada.

- Rui Pires Cabral

Inglourious Basterds (2009)



Uma pequena vingança, mas de muito bom gosto - 8/10

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

The hottest state (2006)

[1693poster.jpg]

Não é um grande filme. A realização é até bastante pobre quando não desastrada, e o casting no mínimo duvidoso - faz-nos pensar noutras escolhas, escolhas melhores -, nem o argumento é sequer original, mas tem frases que deixam buracos, vidro partido... É uma boa forma de dizer adeus a alguém, ou ficar calado, não dizer mais nada.

Acerca de gatos

Em abril chegam os gatos: à frente
o mais antigo, eu tinha
dez anos ou nem isso,
um pequeno tigre que nunca se habituou
às areias do caixote, mas foi quem
primeiro me tomou o coração de assalto.
Veio depois, já em Coimbra, uma gata
que não parava em casa: fornicava
e paria no pinhal, não lhe tive
afeição que durasse, nem ela a merecia,
de tão puta. Só muitos anos
depois entrou em casa, para ser
senhor dela, o pequeno persa
azul. A beleza vira-nos a alma
do avesso e vai-se embora.
Por isso, quem me lambe a ferida
aberta que me deixou a sua morte
é agora uma gatita rafeira e negra
com três ou quatro borradelas de cal
na barriga. É ao sol dos seus olhos
que talvez aqueça as mãos, e partilhe
a leitura do Público ao domingo.

- Eugénio de Andrade


Chia a roldana do poço,
a água sobe até à luz e aí se funde.
Treme uma recordação no alcatruz colmado,
no círculo fechado uma imagem progride.
Aproximo o rosto de evanescentes lábios:
deforma-se o passado, fica avelhantado,
pertence a um outro...
........................................Ah range já na sua lide
a roda, entrega-te ao fundo escuro,
visão, uma distância nos divide.

- Eugenio Montale

Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Liz Rosenberg

Introdução



"(...) Não interessa o que gostas de fazer - reparar bicicletas, correr longas distâncias, rezar, cozinhar, jogar à apanhada, escrever poemas. O importante é que o faças o melhor que sabes. O poeta Rainer Maria Rilke escreveu, "Deves mudar a tua vida". Também nós poderíamos começar agora."
(versão minha do último parágrafo da "Introdução" a The invisible ladder - an anthology of contemporary american poems for young readers, Henry Holt and Company, Nova Iorque, 1996, p. 5).

Terça-feira, Agosto 25, 2009

Celebridades

Desde Artaud: um e-mail

à décima noite em Paris
sonhei que viajava enfim para
Paris

chove
a noite entra na casa
na mesa de trabalho dois copos vazios de Suze
à frente de um poster de Artaud que demorei a
decifrar

à direita
um desproporcionado mapa-mundo onde
quase só há oceano (custar-te-ia crer também
no intricado jogo de palavras de um cartaz
na parede do lado esquerdo)

a imaginação
pode ser fatal
lembro a primeira frase de Os passos em volta
onde

querendo
se enlouquece

a estranha posição de um homem fotografado junto à
Torre de Saint-Jacques que se apresenta há muito
tapada em lento trabalho de restauro

há uma baleia perdida
subindo o rio Amazonas em direcção a quê

uma multidão em Bagdad rising from the
typewriter of William S. Burroughs

é tarde
a noite tomou esta sala de silêncio como se
fosse crude devagar pelo casco de um navio
no fundo do mar

escrevo-te desde Artaud até à saudosa
casa nos arredores de Amesterdão onde terás chegado hoje
uma casa que conheces bem onde sabes o lugar
dos pratos dos talheres a tonalidade

das estações nas janelas

a casa já não é tua mas
reconheces o conforto dos sofás
o prazer antigo de estar na sala
o avançar tímido da luz no soalho

como dizia
sonhei que viajava enfim
para Paris

falo de um tempo de espera
de um delay entre a matéria e a consciência
o éter o tempo em que vão cair as pétalas a

todas as palavras a
todas as palavras
a todas as
palavras

- Miguel-Manso

[2the_kitchen_by_optical_flare.JPG]

Emersoniana

a oeste são os planaltos, a vida selvagem
que um céu de água recolhe,
um horizonte de coisas por dizer, por acontecer
mas a verdade mais abstracta é a mais prática:
let him look at the stars. tão longe
do seu próprio quarto como da multidão.

por isso os selvagens, que não têm mais
que o necessário,
conversam em figuras.
esta dependência imediata da linguagem
esta radical correspondência das coisas visíveis
nunca perde o poder de afectar-nos.

devemos ir sós, vivos e sós. i must
be myself.
tudo quanto Adão teve, o céu a terra a sua casa,
tudo podes e tens.
keep thy state; come not into their confusion.
constrói, sim, o teu reino, o teu mundo: natureza.

- António Franco Alexandre

[As Moradas, 1987]

Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Taken By Trees - My Boys



Uma cover genial da música mais genial do álbum mais genial de 2009, sobre o qual já salivei o suficiente aqui. Agradeço à Menina Limão pela descoberta.

Não me interessam as hostes das odes
Nem o encanto das fantasias elegíacas.
Quanto a mim, nos versos tudo deve ser a despropósito,
Não ao modo das outras pessoas.

Se soubésseis de que porcarias
Crescem os versos sem terem vergonha,
Qual pampilho marelo nas cercas,
Qual bardana ou celga-brava.

Grito irritado, cheiro do pez fresco,
Misterioso bolor na parede...
E já soa o verso, fogoso, terno,
Para vossa alegria, e minha.

- Anna Akhmatova

Domingo, Agosto 23, 2009

Em loop



por contágio aqui ao lado

Quando sepultam uma época,
O salmo fúnebre não soa,
Às urtigas, aos cardos
Caberá enfeitá-la.
E apenas os coveiros vivazes
Trabalham. As coisas não esperam!
E um silêncio, Senhor, um silêncio tal
Que se ouve o tempo passar.
Mas depois ela assoma,
Como um cadáver no rio primaveril, -
O filho, todavia, não reconhecerá a mãe.
E o neto desviará os olhos com enfado.
E as cabeças inclinam-se mais,
Como um pêndulo a lua move-se.

E eis – sobre Paris tombada
Agora um silêncio destes.

- Anna Akhmatova

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Desenraizados

Chega de mar. Já vimos mar que chegue.
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos de uma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos. O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isto. De olhos postos no copo,
vê-se erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me; e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.

Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado. O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.

- Cesare Pavese

suffering jukebox

(...)
well I guess all that mad misery must make it seem to true to you
but money lights your world up, you're trapped what can you do?
you got Tennessee tendencies and chemical dependancies
you make the same old jokes and malaprops on cue

suffering jukebox such a sad machine
your filled up with what other people need
hardship, damnation and guilt
make you wonder why you were even built

suffering jukebox in a happy town
you're over in the corner breaking down
they always seem to keep you way down low
the people in this town don't want to know

-

Não sei se são os trinta anos

Não sei o que se passa comigo:
cada vez me assusta mais a solidão.
Aos vinte anos, aos vinte cinco,
figurava o paraíso como um quarto vazio,
onde o silêncio de um livro ressoava
pela noite dentro. Protegia dos amigos
minhas horas, dos irmãos, dos apelos
do telefone. Como um cego de nascença,
estudava a escuridão. Sonhava-me
recluso numa ilha de fragais, rodeado,
de trincheiras, distante de pracetas,
acenos, convites pra jantar.
O lamento era o meu hobby preferido.

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes colectivos,
a queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego a casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.

- José Miguel Silva

[Prison_Break_by_jennifah.jpg]

Poema

De rosto empapado numa manhã que
dormiu pouco com o mar,
estranho ainda os lugares de ontem.
Espreguiço-me e empurro a colcha da cama,
cheia de desenhos de criança
e barulho. Um recreio ou assim,
aquele balanço todo
a apertar-se em cada gesto.

E a luz chega louca atrás das coisas, meio
desajeitada, uma fibra de doçura
alargando em nosso redor a mancha de cores
lentas e os frutos sobre a mesa
comendo-me os olhos.
Fica o que as palavras, desde cedo,
aprendem com isto
de nos deixarmos quietos, às vezes
beber, fumar um cigarro.
Distâncias maiores ou menores
que se põem e sobram para os lábios.

Vou sair, vens?
Olha como se dão as ruas, como as desço
a esta voz que murmura a si mesma,
ou assobiadas com as mãos indo
fundo demais nos bolsos.
E agora deixa-me mostrar-te,
ali, defendida entre valados, o sumo
e as sombras na azinhaga das nespereiras.

A cinco minutos, nem tanto,
a barraca do Cabral que prefiro a esta hora
quando a maré aviva, soa
junto à infância e assim dá para ouvir
a minha mãe: Diogo, não te afastes
muito. E eu: muito não, mãe.

Só vejo este, não sei outro jeito –
perco-me por detalhes, sirvo-me
e sigo que a estória é minha para contar
o que me apetecer.

Então o que fazia sentido há muito, era eu puto,
volta a ter sentido agora. Os livros sem ilustrações
que se fodam, e os poemas que não invejam
letras de canções ou onde, também,
não acontece nada e só ficam para colar sons
com imagens aborrecidas… Lembra a estúpida
da televisão ligada aqui atrás.

Mas chega-te mais, olha aquela,
a do cabelo apanhado num lápis, ou solto
se escreve. Vigia e morde-lhe a ponta,
absorvida no último derrame
do sol – que artista! – antes mesmo
de o vermos desistir.
Vamos chamar-lhe Beatriz.

E a esta? Trigueira, corte à rapaz, espetado
em tantas direcções. A blusa de alças
de um rosa garrido, aqueles pés descalços e cruzados
sobre o banco, e eu que se soubesse desenhava-os,
mas assim digo-te que são bonitos, imagina,
tão certinhos. E é isso,

manténs a afluência, uns riscos,
umas linhas até nos pegar
o sono, borrando tudo,
empurrando-nos levemente
sobre as margens do sonho.

Um filme respeitável e depois um genial

Do filme do Manuel Mozos, 4 Copas, digo que gostei de o ver e que se lhe desculpam algumas indelicadezas porque esta é uma história que merece ser contada e que constrói suficientes momentos fortes, seja pelos personagens e através da representação, seja porque no fundo a ideia de que vive o filme é realmente uma boa ideia. Assim o que fica sobretudo é a sensação que era possível ter-se tirado mais desta. Mas o David, no post anterior, mostra muita atenção e consegue uma análise pela qual não tenho dificuldade nenhuma em alinhar. 6/10 é a nota que leva.




A este o David já não pôde acompanhar-nos. Chama-se Synecdoche, New York e dou-lhe 11/10.
Rebenta a escala? Sim. E sim, talvez eu seja muito dado a exageros, mas não consigo sequer começar por explicar como ou o quanto me entusiasmou este filme. Achei-o absolutamente genial. Sinto, por isso, que tudo o que posso fazer é ser o mais veemente possível ao recomendá-lo: O melhor filme que já vi! Vão vê-lo ou vão-se foder.

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

II. ORLANDO PANTERA
I am a professional


e dançámos
lentos & digestivos

mas tentemos antes passar
o dia a limpo:

o Peugeot 205 vermelho embalado no auto-
-rádio a praia pequena a seguir ao Guincho
deserta

o teu peito nu mulato
contra as ondas o riso ladrado
da cadela entrando e não entrando
no mar

as rochas o mexilhão a navalha
o regresso aos poucos a tua casa
coentros água doce tachos

o lume
onde cozeste o pão
e que ateaste usando as páginas da lista telefónica
– queimando toda a rede fixa de Carcavelos –
o pássaro
morto na escrivaninha
o desenho a meio

depois a noite a lua

o alpendre onde já não se ouvia o mar
a cadela fingia o sono no tapete suspirava
no fumo dos cigarros

ao fundo do jardim sobre a relva
deixámos várias caixas de sapatos
adaptadas para a fotografia pinhole
abríamos o obturador e o tempo de
exposição era toda a madrugada

- Miguel-Manso

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

vésperas do luto

a dor traça-me na mão as coordenadas,
silenciosas linhas que se cruzam
num ponto que explode no desenho
de meu pai curvado sobre as pernas
como se acarinhasse a gestação
de uma palavra terminal

era um homem sem medo
daquela última sílaba em que a vida
parece apoiar-se para morrer,
fechou a palavra que esperávamos
num lugar resguardado dos seus olhos
e com a melancolia dos que têm
uma vida secreta para trás,
sorriu ao branco da parede
e afastou a casa com as mãos

- Rui Nunes

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Evening empire

A respiração contida num último esforço,
imitando o movimento entre as cores e
como a luz algumas vezes se fixa e cansa,
se perde em cada objecto, outras vem
lançada, passa e deixa tudo a meio –
os olhos mal têm onde criar um hábito.

O café trouxe um reforço aos contornos
que a tarde de agosto abandonava. E eu
estava só, com uns versos desses parvos,
sem nada, a apanhar sêcas e escuras bagas
que se desprendiam do silêncio, um pouco
antes de nos encontrarmos.

Para a minha t-shirt branca com duas nódoas,
tinha ela um padrão monótono e flores depois
atiradas sobre o pano cru, com botões enormes
e um bolso rasgado. O forte bronze sazonal
escondia-lhe a breve idade, e entre as mãos
trocava um copo de vinho ou fazia-o demorar
sob a tremida linha da boca.

A noite foi ficando caída naquele terraço,
um bar improvisado e aquela gente toda
que chegava – tão poucas horas depois
seria difícil adivinhar, mas quase ninguém
se conhecia. Veio um gajo, foi buscar outro
ainda, ocuparam-se de nós. Evidentemente
se alguma coisa queriam era com ela.

Fazia calor e deram-nos de uma mistura
doce, que doce ao arrastar-se na garganta.
Uns goles e consegui descobrir a hortelã,
a canela, uma aguardente qualquer. Depois
deixei ir e desisti contente.

Lá nos deixaram e continuámos a falar.
Os olhos dela entretanto pareciam-me mais
crescidos, bailando num tom hesitante,
quase azuis e lentos a acompanhar, como se
me lessem nos lábios só o que queriam.
Obediente à música, desfazia-se se as letras
lho pediam e levantava-se quando vinha
um ritmo mais dançável. Era coisa de
uns vinte, trinta e tal segundos e voltava.

Falámos demais e o interesse morria sempre
antes ou depois do que conseguíamos dizer.
Os dois ali, sentados, e eu só via já essa noite
como uma sombra a atrasar-se sobre os dias
seguintes. Apeteceu-me abrir-lhe as mãos,
deixar-lhes uma ferida, o desenho de uma rua
na manhã que ia nascer.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Zulmira, ao entardecer

Encontrei-a talvez pela última vez
na rua limpa de um «sábado morno».
Fingi não a ver, vergonha
de um rosto outrora deposto
à sombra de um mínimo reino
– de nós dois, de outros mais.
Foi seu o apelo, um largo sorriso cariado
no intervalo de varrer o passeio
«só até às três horas», para de novo
abrir a taberna onde ninguém lhe suplicará
a alegria falsa de copos de vinho capazes.

Minha mãe podre, ignorante para sempre
de o ser, acumulou naquele sorriso
já velho as duas únicas profissões
de atestada nobreza: o cuidado raso das ruas
(tardia esmola municipal) e o ofício
de calar a sede. Ela só me há-de um dia velar
num íngreme adeus sem regresso.

Encontrei-a ali, talvez pela última vez,
no coração deserto da cidade
que reneguei. Minha pobre mãe que o foi
e não tive, a sorrir p'ra mim
o mesmo sorriso mais velho que iluminou
incertas inúteis tardes. Que só ela saiba
o luto de eu ter nascido para vinhos
fortes, afectos cansados, desígnios nenhuns.

- Manuel de Freitas



Isto é um cinzeiro
e eu estou a tomar café contigo.
- João Miguel Fernandes Jorge

Light Unfolded

the shade beguiles me
it plays back and forth with that vague song
that used to remain between us
in the spring of your voice
it caught me a long time ago
by the eye by the moving stillness
that is concealed by a shift of your eyelids

a long lost song that comes from a distance
and scatters me to pieces
that song guarded by a slight shade of your eyes
in a rapid motion of your eyelids
a shade that beguiles me like
some unknown distances do to newcomers
in small winter cities enclosed with fog at day break

no emotion there though
just the proximity of a familiar movement
of light fast shaped and unfolded

Apontamento de uma tarde

Que outros cantem as armas e os heróis,
os abismos do ser
ou a complexidade do universo.

Deixai que eu diga a graça irrepetível
desta tarde de abril, a efémera beleza
da luz, que é minha amiga e tranquilamente
acaricia o papel onde escrevo.

- Eloy Sánchez Rosillo



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Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Primeiro de Dezembro

O Primeiro de Dezembro é um café pobre. O dono
se reconhece a sua casa neste verso
não vai gostar. Que posso fazer? Recordo a sala ampla;
deu lugar a várias divisões – salas de restaurante e
café – o espaço de soalho carcomido; estremecia ao
passo dos clientes. Cheiro a café de saco bem quente
servido em copo. E o vinho que bebiam ao balcão, Gaeiras
de reduzida colheita de lavrador, quando a luz incidia,
brilhava como telha vermelha magoada de luar.

A vila – se alguma coisa de qualidade em
Portugal deixasse um dia de ser pobre – tem hoje arre-
medos de casinha de chocolate.
Fico-me pela esplanada no desvão do largo irregular e
perfeito. Em frente, o portal da ermida de São Martinho;
dois túmulos prendem-se à estreita frontaria. À direita, a
parede lateral da igreja de São Pedro; ao lado esquerdo,
armas plenas do reino, coroadas, dão corpo ao edifício da
câmara. Buganvílias crescem na diferença do vermelho e do roxo.

Cimeira à ermida, uma velha casa aluga quartos. Um dia
hei-de fazer de turista e alugar a divisão fronteira à mesa
em que, por hábito, me sento. Não é golpe narcisista
para ver o lugar da minha ausência. Vou querer abrir e
fechar a empenada janela de guilhotina e voltar a abri-la
para assim permanecer toda a noite.
Hei-de sentar-me na cama, despir-me com o vagar de gestos
de quem nunca teve um ombro onde pousar a cabeça; de
súbito, quando for já madrugada, hei-de ouvir

vozes alegres, risos, chamamentos, respostas
joviais, hei-de chegar à janela, hei-de ver
os mortos de Óbidos
abandonados nas posições mais cruéis.
Feira de cadáveres e de porção de ossos; e uma festa ao mesmo
_______________________________________tempo
com um tilintar de campainhas a carruagem de não sei que
capitão de praça vai passar pelo meio dos despojos
levada por um cavalo branco. E na boleia, os gémeos
que conheci na casa logo abaixo da Misericórdia. O mais bonito
segurava as rédeas e o chicote. O que não era bonito –
_leitura difícil, rosto e corpo genuinamente iguais – tocava
_______________________________o serpentão.

- João Miguel Fernandes Jorge

A ponte

Se me disserem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e que me esperes,
eu vou atravessar essa ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e eu atravesso-a.

- Amalia Bautista

Domingo, Agosto 16, 2009

all the wine



[national.jpg]

A questão urbana

1.
estas cidades, grés animal, as garrafas de sangue nos passeios,
prenunciam devagarmente um acordar translúcido. o que
movimentam no espaço, e aos bandos
os pássaros decifram sobre o musgo e a hera,
é o mesmo ar que na traqueia queima; e o cimento,
translúcido, o mesmo que nos braços percorreu as veias,
que nos olhos foi lava, que nos brilhou na boca
dizendo: estas cidades, grés animal, um acordar sem boca.

2.
movem nos muros, a vagina mineral das mães
adormecidas, entre os apitos trémulos do aço
e lenços verdes onde ocultam a cara. prenunciam, é certo,
algum visível afastamento das madeiras, algum
pensamento violentado, por isso as coisas permanecem sentadas
e compreensíveis, afastadas de súbito pelo vento oco.

3.
arrebanhados, como cães feitos de água, os dentes
entendem, decifram sobre o grés as patadas da terra,
espalham na violência um musgo que prenuncia a
transparência. foram construídas, assinaladas sobre o mapa por
bandos de pássaros, respondem a algum ódio decisivo,
algum afastamento da violência; o grés, os olhos,
e o próprio desenho aéreo das lágrimas, aonde
se perde pé muito de repente e se afundam as asas
como uma lava dividida, um vidro, a soar junto à boca.

4.
separam, mas esse
é o seu rancor exaltado, a madeira onde furam
as gengivas dos cães, e muito depois brilha o calcário dos dentes.
nasceram de um modo diferente de pousar os ossos
contra o peso da tarde, alguma raiva, algum pedal minucioso,
como quando a sombra do pianista oculta um muro baixo
onde está sentada, ausente ao musgo, a mulher que um dia desejámos.
[...]


- António Franco Alexandre
[Os Objectos Principais, 1979]

Sábado, Agosto 15, 2009

E o chão fosse meu coração

Partira. E por isso me doía a cabeça e não
dormira toda a noite. Ficara enrolado nos
lençóis, à escuta, esperando um regresso,
esperando não sabia o quê.
Compreendia que continuava ainda na mesma
sensação de expectativa,
à espera de qualquer coisa, numa ansiedade que
não passava como se a vida não pudesse mais
ser a mesma, apesar do próximo inverno
apagar inexoravelmente todos os sinais.

Partira. O inverno encarregar-se-ia, pouco a
pouco, de tudo esbater. Aqueles meses tão
cheios da sua presença haviam de recuar, de
perder importância, de desbotar e de se
irem fundindo noutros dias.
Perder-se-iam no abusivo uso dos infinitos que
dão sempre uma poesia frouxa,
uns versos de incidente
na pressa de registarmos um acontecimento
extravagante.

Partira. Não deixaria de tirar daí algum proveito,
um pano torcido acima de um balde como se
se lavasse o chão
e o chão fosse o meu coração.

- João Miguel Fernandes Jorge

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

next parlor

it occurred to me suddenly
when I was sitting by the fire
I thought you were standing there by the parlor
your body covered by a silent still light
no sounds no movements no games of shade and light
just your body
and then
then for the last time
a sudden irretrievable impulse
forced me to stay

I wanted to haunt you I guess one last time
I wanted to tell you some tale
words of kindness made not of fire nor ice
a green shadowed word where your shape
could grow and dance with no soil resistance
where it could pay me a visit from time to time

but I’ve grown impatient full of doubts and woes
no green god will grant me more time
just this dull silence
imposed by my body standing at the door
thinking you're neverthless standing there
naked in the next parlor

no thoughts no words no gesture
it figures
just your body
that kinship bond of your silent presence
(what in you makes me resemble to closeness)
no word can restore me to

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

Deus nos lírios

para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monte. olham por mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

- Renata Correia Botelho

Public enemies (2009)

[public-enemies.jpg]

9/10

Terça-feira, Agosto 11, 2009

WIM MERTENS
Stratégie de la Rupture

o Pragal (e evitámos sempre
peregrinações que fossem para lá
da praia mais a sul da Caparica) era
uma manhã muito branca

vindos de Lisboa e da Noite
ainda os olhos ruminavam os reflexos do rio
que havia maquinado beleza e cegueira
dentro do comboio da ponte e de nós

a sala de desenho
– com a palavra Deleuze a giz no quadro negro
seguida de mais uma daquelas citações bastante
herméticas e, diga-se, cheia de erros ortográficos –
era tão branca como a manhã do Pragal

alguns de nós eram os menos talentosos
artistas do Reino

eu, por exemplo, que preferia mil vezes
o almoço na cantina, a comer o coração da mãe
para entender a linguagem dos pássaros
e apreciava a chegada do bom tempo
cultivando a preguiça nos jardins
a minha produção, é verdade, caminhava já
para um lugar etéreo, ténue, um desses lugares
que podemos encontrar apenas no Dicionário de
lugares imaginários (nem deve ter sequer entrada)
limitava-me a marcar em algumas folhas
uns insuspeitos carimbos
que comprara

em lugar das académicas vaias
havia para nós, Joana, músicas

- Miguel-Manso

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Escrito na areia

Um resto de alegria desatenta
era o que aguentava a vila
até inícios de junho. Traços firmes
carregando a dimensão útil do abandono,
dias conseguidos a uma visão
interminável: o galope de uníssonos
cavalos de cinza na eterna viagem
que faz o mar. Sítio onde me foi fácil
passear, beber, entristecer-me
– assim mesmo – de propósito.

O arco do peito sustido
sobre tons leves, a base de uma doce
pintura, espalhando acertadamente
um certo rubor sedativo. As casas abaixadas
pelo sol: esmerava-se a luz, adocicando
a pequena inclinação entre as ruas
mais de trás e as primeiras esplanadas.

Não foi de muitos a brisa amorfa
que desenhava os toldos, escorrendo
sobre o nosso colo.
Alguém trouxe um rádio a pilhas
pelo pulso, sentou-se e deu folga
a uma musiquinha invertebrada que veio,
se agachou aos nossos pés, dobrando-se
no calor do fim de tarde.

Pude jurar que tive intervalos sem nada,
sem pensar, melhor ainda: sem um sinal
de mim. Mas a distância é uma razão
pontual, e junto a essa hora
viu-se tocada. Talvez fosse
um eco, o movimento
dos tecedores de rede emagrecidos
contra aquele fundo azul cansado.

Os lábios esses comia-os o silêncio,
a língua voltando sobre o pequeno
abismo que me dispõe a prosa
nesta mancha vertical.

Aos poucos uma sombra ganhava
outra, juntavam-se muitas
e vinham ganhar-me a voz e dar-se
em lenta descrição. O mar também,
adiantando-se calmamente,
para ler o que deixei escrito na areia.

Só estragos e insistências, uma força a que
já não quero chamar desejo. A feia flor
extraída de uma juventude inútil;
deuses comuns e outros murmúrios,
uns quantos golpes – tudo isto que
tenho contra ti.

Dessa vez e só dessa, soube-me bem levar
com os pontapés e gritos das crianças
bordadas ali, na linha d’água.
Pequenos estupores quase felizes
que mesmo o mar cansavam. Este,
para seu gozo, lá agarrava um
a ver se o afogava.

Voltei atrás, pedi lume e dei
com um sorriso brusco batendo
certo com gestos iletrados. Um gajo
que depois, talvez por piada, se fez
de tímido, deitando-se nuns olhares
de menina,
a beijar leves, vagas sugestões.

Devia ser normal aquilo, uma rotina
sem preocupações de estilo, mas tão viva.
E quando em mim não via já nada
ainda tirou do saco que tinha
uma maçã,
trincou a parte bichada do fruto
e estendeu-me o que restou.

Domingo, Agosto 09, 2009

Rua Cecílio de Sousa, 11, Lisboa

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Durante a próxima semana vou passar música nesta discoteca surrealista.

Sábado, Agosto 08, 2009

Árvore

I

As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,


II

talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando
o papel,


III

seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:
como podem
crescer
de tal modo


IV

no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro


V

e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:

procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração


VI

quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retrai
e deixa
atrás de si
silêncio:


VII

é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitectura
duvidosa
de símbolos


VIII

que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.

- Carlos de Oliveira

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

No Limits No Control


Podia contar-lhe o que se diz em Portugal dos artistas, e dos cineastas portugueses, mas não quero angustiá-lo... Mas, portanto, "Os Limites do Controlo" narra a história da vingança da margem sobre o centro?

A vingança é inútil [uma má escolha de palavras do entrevistador proporcionou a "recriação" de um diálogo do filme: na cena final, Bill Murray pergunta a Isaach de Bankolé "Isto é o quê, uma vingança?" e Isaach responde, exactamente como Jarmusch, "A vingança é inútil"]. É uma metáfora, uma metáfora de uma tomada de consciência e de uma afirmação da consciência contra todas as imagens e ideias que lhe são impostas de fora. A personagem de Bill Murray é uma representação dos poderes convencionais de todo o tipo, político, económico, cultural. Nunca pude com aquele cinismo disfarçado de pragmatismo, que agora está outra vez na moda, que nos quer convencer de que o mundo é "assim" e só "assim". O "vocês não sabem nada da vida", o "não é assim que o mundo funciona", seguido da conveniente explicaçãozinha cínica. Têm que escrever a pensar nisto, têm que fazer filmes a pensar naquilo - sempre "as massas" e, o que é igual, o "dinheiro". Abdiquem da vossa individualidade, abdiquem da vossa imaginação. Ao diabo com essa gente toda. O discurso da personagem de Bill Murray nessa cena é um repositório desse tipo de frases feitas.

excerto da entrevista hoje no Ípsilon


Segunda-feira, Agosto 03, 2009

A estrela da manhã

O homem só levanta-se quando o mar ainda está escuro
e as estrelas vacilam. Uma tepidez de hálito
eleva-se da margem, onde o mar tem o seu leito
e adoça a respiração. Esta é a hora em que nada
pode acontecer. Até o cachimbo entre os dentes
pende apagado. Nocturno é o marulhar tranquilo.
O homem só acendeu já um grande fogo de ramos
e vê-o avermelhar o terreno. Também o mar
dali a pouco será como o fogo, flamejante.

Não há coisa mais amarga do que a aurora dum dia
em que nada acontecerá. Não há coisa mais amarga
do que a inutilidade. Pende cansada no céu
uma estrela esverdeada, surpreendida pela madrugada.
Vê o mar ainda escuro e a mancha de fogo
a que o homem, para fazer alguma coisa, se aquece;
vê e cai de sono entre as pardas montanhas
onde há um leito de neve. A lentidão da hora
não tem piedade de quem já nada espera.

Vale a pena que o sol se levante do mar
e o longo dia comece? Amanhã voltará
a cálida aurora com a diáfana luz
e será como ontem e nada mais acontecerá.
O homem só apenas gostaria de dormir.
Quando a última estrela se apaga no céu,
o homem prepara lentamente o cachimbo e acende-o.

- Cesare Pavese

Mareógrafo

a folhagem
agita-se sobre os bastidores
deste texto

leio:
“quem passa o cabo Maleia abandona a pátria”
na esplanada do Príncipe Real a copa
oferece uma folha à mesa onde reúno ruína e Agosto
reorganizo a rota o plano de voos

belas são as rosas deste mês quente nas bermas
em todos os quintais das casas
na estrada para Góis
sobrevivem ao tráfego violento
dos motards

vejo-as excessivas junto ao lago do Jardim da Estrela
quando corro para o eléctrico que tardará como tu
nesta holocénica época da minha espera

dentro da noite

tomo nota de dispersas canções em guardanapos
palavras estrangeiras o comércio dos olhares
a água doce dos gestos o latido de um cão

Lisboa caminha em geral para o Oriente Próximo
do Outono

na mesa atrás alguém nomeia os sábios do Séc. XVI
esses que considerariam escandaloso o erotismo sonoro
da palavra Macintosh

leio hora a hora o desenho dos polígrafos
meço marés com o rigor nefelibata dos amantes
espalho na superfície interior dos lugares
barómetros, barógrafos, anemómetros

insisto em espiar o gelo da Antárctida
mas a vida segue o seu ciclo desmedido
na completa ignorância deste poema

- Miguel-Manso

(em tempo de silêncio e destruição)


Se viesse,
se viesse um homem
se viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
patriarcas: só poderia,
se falasse deste
tempo, só
poderia balbuciar, balbuciar
sempre sempre
só só

- Paul Celan

Domingo, Agosto 02, 2009

[0000308975-62548L.jpg]

Eram lugares miseráveis. Mas ouvia-se,
tão perto, um riacho a correr.
Tábuas que nos pregam o coração.

Joaquim Manuel Magalhães

A luz beliscava ao amanhecer,
demorando-se a atravessar o espaço
e tocar nas coisas para lhes dar começo.
Teus, os cabelos desgrenhados que
compunhas, meu era o hálito amargo
e a ressaca da pele sobre a carne
– mais difíceis de disfarçar.

Sentada na borda da cama deixaste
seguir o olhar, derramando-o.
Ias dizer qualquer coisa, mas não.
E talvez não fosse para mim.
Puxaste o cobertor aos poucos
sobre as pernas, deste-me tempo
se quisesse acrescentar alguma coisa,
mas não. Os dedos lentos e sujos
abotoando a camisa, a prendê-la
depois nas calças.

Saí. A pé e devagar, no caminho,
peguei num calhau, puxei bem atrás
e dei cabo de um vaso num rés do chão –
a planta estendeu-se à sombra,
babando-se tristemente.
Agarrei outro calhau mas esse
guardei-o entre uns versos,
para o atirar mais tarde.

Subi a casa, lavei a cara e voltei a descer
para cair num Café, ali: à esquerda, alto,
com um ar meio indefinido e sozinho,
sou eu desdobrando um postal. Vem de lá
a berraria nas margens do riacho.
Rapazes nus, da cor da terra: um a mijar
sem as mãos, os outros três
à bulha por coisas que não sei já
com quem ficaram.

Acho que foi isso a infância. Tive um cão
que me mordia, os piriquitos que esquecemos
debaixo do sol e nunca mais cantaram,
a minha mãe de costas agitando-se
sobre o lava-loiça. Lembro-me
como parava às vezes
e largava aquele suspiro terrível.
Ainda o oiço, parece uma melodia.
À tarde as mãos chegavam primeiro:
as cerejeiras e o muro logo atrás
da capela onde escrevi vários nomes
antes do teu.

Perdia os meus treze, catorze anos
com toda a pressa, achava que ia chegar
a homem. E foi por aí como agora,
em finais de julho, que te vi. O azul clarinho
do perfume primeiro, o corpo a seguir.
Trazias uma pequena flor menstruada
presa no cabelo e fingias
que não olhavas, mas também
não te afastavas muito.

Assim que deu lá nos conhecemos.
A princípio a minha letra tremida
junto à tua voz – ainda o mesmo riacho
indo para os lugares onde (disseste-me
bem mais tarde) se escondem as aves
quando o silêncio lhes acerta em cheio.

Não levou muito para que riscássemos
juntos algumas frases, eu tinha tantas
e perdia horas a convencer-me
de cada uma. Vejo bem que é ainda
o que faço. Também fiz vinte e quatro
há menos de uma semana. Agora sim,
correm, mas sem grande vontade
nem significado, os lábios caindo
suavemente sobre nada, o rosto
atingido, só vagamente familiar,
e o vento a dar-lhe, seguindo depois
no seu manso desinteresse.

É disto que me vejo a morrer,
de estender num fio as noites e roubar
peças no estendal dos vizinhos,
de uma leitura para outra, com os sons
largando as palavras, misturando-se
num sono apodrecido.

A minha vida toda não vai dar
para acabar este poema.
Não faz mal. Se isto chegar a alguém,
faltando-lhe o ar entre duas sílabas,
talvez diga que nos viu. E isso
é o suficiente.

Terra nostra

A árvore caiu
numa manhã
p'lo vento
de novembro.

Ao seu redor
rompe
a flor do aloés.

À superfície
resta
do nenúfar
a flor vermelha.

A árvore tombou
ficou em arco
rasando a água.

Curva perfeita
e longa e viva
e as folhas novas
no lago.

A flor
há-de voltar
no tempo certo

de março.

- João Miguel Fernandes Jorge

Escrever

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever.
- Jean de La Bruyère

Sábado, Agosto 01, 2009

40

folhas amarrotadas uma mancha
de tinta alastrando sobre a mesa
a mão que pende da cadeira
enquanto indolentes entramos
pelo cinzento da tarde
um raio de sol dança-te na cabelo
há dias assim
nada acontece

apenas tu me chegas à memória
cheio de dúvidas percorrendo
leis que regem um idioma estranho
que tu e eu jamais falaremos
por sobre as mesas estavam os primeiros
papéis dos tempos em que comecei a ouvir falar
o idioma estranho dos gregos
e aprendi a forma como eles diziam o mar
o mar percorríamos os cafés da baixa
e pela primeira vez ouvíamos falar
da forma como a luz pode
percorrer a sombra
quanto nos corpos há de incêndio e cinza

era um nome com ventos e marés
o lugar de onde deste
os primeiros passos que cindem
a tinta ferida com que às vezes me escreves
penso – sem certezas
se terá deixado alguma margem para dúvidas