sexta-feira, fevereiro 27, 2009

For Real - Okkervil River



À atenção do David

Dois poemas de Elena Medel

Tara
(II)


(Sou Salomão. Estou a pensar em construir um altar secreto para os domingos.
Não procuro em vocês uma mão para as costas, mas sim que a tenhais para me ajudar
a escapar da maré.
O rio ao qual caí multiplica o seu caudal conforme os outros choram.
O meu coração é uma esponja, uma caixa negra que recolhe
tudo quanto sucede.
A casa mortuária, entretanto, exerce a sua função. Aluguer igual ao frio.
Uma mulher loira, pálida, dá-me as boas vindas. Sou Salomão.
Mostrar-te-ei o meu altar secreto
se me guiares até onde descansa)

Ofélia do outro lado do vidro, Angélica depois de quatro anos,
respeitada pelas águas,
enquanto eu esperneio para não me afogar. Pronuncio água
e choro por aquilo de que careço. Como carregar num botão
no profundo das minhas costas. O que conheço cansa-me.
Disseste dois dias antes: quando melhorar, vou à cabeleireira
para arranjar este desastre.
O vidro mostrava o contrário: no teu cabelo antes cinzento,
desalinhado, brilharão os caracóis durante quarenta dias
e quarenta noites.
Nunca vulnerável, nunca morta: tão formosa como a
última vez em que nos vimos.

(Deus, então, poisou as suas mãos sobre os meus ombros
e senti-me sozinha)



Releitura do Livro do Apocalipse
(I)


Reservaram no inferno um sofá propício para as minhas irmãs.
Eu estou sentada, adormecida perto Dela,
e recolho a sua pequena mão que sangra,
recolho a sua pequena mão com força até que oiço
quebrar-se-lhe o dedo anelar, mas a dor sou eu que a sinto,
perto dela;
ainda que se continuasse a fragmentar, ainda que se convertisse
em terra e origem, as lágrimas, o grito,
pertencer-me-iam.
Abro-me lentamente à penumbra, como se viesse de leste,
minha gémea. Rebelião descalça, corvos à chuva.
Agora é inverno e nego-me a jazer ao pé da carne
da qual me multipliquei.

A que sabe tudo isto. A prateado e panorâmica, digo-te. Cala-te
E engole tudo, mando-te.

(tradução: David Teles Pereira)

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Reduziu a juventude à ambiguidade dos lábios.
À perfídia dos estreitos pulsos.
Aos cabelos crescidos acima de todo o entusiasmo.
À procura de uma qualquer verdade
música guerra fidelidade.

A errância é o seu estado, a ilusão.
O corpo largado para a pequena marcha do comboio
entregue ao movimento da memória
de nada serve uma árvore seguindo
uma casa de outra casa.

Vazio o quarto do hotel. Vazio o corpo demais.
Vinha do tempo dos quinze anos e pousava uma estranha
dor, a amizade do pátio do liceu.
Era antes da aula de latim e o latim referiu todo esse
tempo,
antes, depois, na aula de latim,
e o dia em que não havia aula de latim.

Foi antes, disseste «empresta-me o teu dicionário».
Respondeu-te «dá-mo no fim da aula».
E mais nada.
E, no fim, devolveste-o sem uma folha à pressa arrancada.
Uma folha referente à letra v, onde vinha virtus
que nunca traduziste por coragem
sempre por virtude.

Essa folha ainda está em casa dos teus, numa velha
gaveta de secretária. Lembras-te?
Por agora chega. Volta depressa para o teu lugar.

- João Miguel Fernandes Jorge
À beira do mar de Junho, A Regra do Jogo, 1982

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Quarta-feira de cinzas

V
If the lost word is lost, if the spent word is spent
If the unheard, unspoken
Word is unspoken, unheard;
Still is the unspoken word, the Word unheard,
The Word without a word, the Word within
The world and for the world;
And the light shone in darkness and
Against the Word the unstilled world still whirled
About the centre of the silent Word.

O my people, what have I done unto thee.

Where shall the word be found, where will the word
Resound? Not here, there is not enough silence
Not on the sea or on the islands, not
On the mainland, in the desert or the rain land,
For those who walk in darkness
Both in the day time and in the night time
The right time and the right place are not here
No place of grace for those who avoid the face
No time to rejoice for those who walk among noise and deny the voice

Will the veiled sister pray for
Those who walk in darkness, who chose thee and oppose thee,
Those who are torn on the horn between season and season, time and time, between
Hour and hour, word and word, power and power, those who wait
In darkness? Will the veiled sister pray
For children at the gate
Who will not go away and cannot pray:
Pray for those who chose and oppose

O my people, what have I done unto thee.

Will the veiled sister between the slender
Yew trees pray for those who offend her
And are terrified and cannot surrender
And affirm before the world and deny between the rocks
In the last desert before the last blue rocks
The desert in the garden the garden in the desert
Of drouth, spitting from the mouth the withered apple-seed.

O my people.

- T.S.Eliot

terça-feira, fevereiro 24, 2009

[road2.JPG]

Quilómetro 148

Seguíamos na A2, sentido Norte-Sul,
fugindo ao carnaval na cidade
quando parámos para meter gasolina.
Na bomba ao lado um tipo atestava o depósito
enquanto da boca lhe pendia
o mais despreocupado dos cigarros. Os dois
vimos a cinza assentar entre o nosso silêncio
sem acender o menor temor ou sinal de pânico.

Em frente à estação de serviço algumas mesas
e cadeiras de plástico improvisavam
uma pequena esplanada, sentámo-nos por ali
junto a uma miúda dessas com quem
nos cruzamos para nunca mais, ou apenas
para as breves fantasias uma vez
por outra entre noites de amor
com nós próprios
. Tinha a cosmopolitan aberta
nos joelhos e lia-a mastigando folhas de alface,
uma salada com molho de iogurte (natural,
suponho eu), bebendo pela palhinha
um sumo de laranja, e nós, sobre duas latas
de cerveja, estendíamos o olhar
em anúncios sem efeito e desistíamos,
antes de tentarmos de novo.

Pagámos um primeiro e um segundo café,
e assim estávamos como dois deuses sem ideias,
absortos, numa tarde só nossa. Uma brisa
ia ou voltava e o sol enlouquecia
desfeito em rubores pouco acima da lâmina
do horizonte. Por desfastio, talvez,
fomos falando. Tinhas uns problemas
no trabalho e eu assentia ou fazia por seguir-te
de perto mas mesmo a minha voz sugeria
um despejo distante e só já te escutava
a dócil e ociosa sombra
suspensa dos nossos gestos.

Rasgaste várias vezes o mesmo guardanapo
e eu guardava a vaga intenção de uns versos
para mais logo. Frases inacabadas, a tarde toda
esperando que o sangue me subisse à cabeça
abrindo-a numa metáfora subtil, mas não,
não me veio nada senão a imagem
de mais um dia amarrotado, ainda ia a meio.

Quando regressámos ao carro quis pedir-te
para nos afastarmos em direcção à fronteira,
Espanha e depois França, até ao caralho se fosse
preciso – o mais longe possível de tudo isto.
Não disse nada. Baixei o vidro e deitei o braço
fora da janela, ondeando entre o vento.
No auto-rádio a música que nos levava
era Oltremare de Ludovico Einaudi. Agora
queria engolir cada nota – cheguei a tê-las
na garganta –, houve ali um instante
em que não pude distinguir dor e beleza,
e antes que me arrependesse gritei,
como fazíamos muito há muito tempo,
depois ri-me até te contagiar
e enfim tive a sensação
que estávamos no caminho certo.

sábado, fevereiro 21, 2009

caminhei por essas esquinas até cair de cansaço,
testemunha de um vulto que desaparece pelos passeios,
que se alonga durante um breve instante
- a febre aos meus olhos -
e depois se some.

tanto que ainda podia ser feito com esta energia de pedra contra o muro
esperei enquanto caminhava a epifania de um verso perfeito - tu sabes:
o princípio da incerteza - uma coisa que me pudesse levar a qualquer lugar,
a correspondência do infinito nas minhas mãos gastas
nas solas dos meus sapatos
gastas
no meu casaco
preto
e gasto
agora já estou longe de tudo isso

enquanto subo e desço a rua
este vago calor de março em fevereiro a vaga memória
da conjugação de essere em italiano εἰμι em grego
também eu sou,
tu sabes,
enquanto subo e desço a rua
estes princípios práticos primordiais
coisas básicas para me despir do betão e do cinzento

tudo isto que me distrai do corpo
que me adia do corpo
da promessa do corpo
gasto já em cada esquina
para escapar a este aceno de despedida
o último que é a mão que por dentro se fecha sobre a garganta

e toda esta energia
e no fim toda esta estúpida energia
coisa do vinho e da vinha e de dioniso também
o mais ambíguo dos deuses gregos
esse que mete morte e vida tudo dentro do mesmo saco
como se fosse tudo a mesma coisa

e caminhei
fui por essas esquinas
para me despedir do mar
e da memória do mar
e do mar e do mar
tantas milhas sem saber para onde vou
e a solidão a puta da solidão.

caminhei até cair de cansaço.

Manuscrito C de Santa Teresa

Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É por uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu

Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência – há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura

Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro.

- Daniel Faria
escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, vendo num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona de água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam.
se não for isso, pode ser, exactamente,
ter um profundo conhecimento da palavra
garrotilho, ter estado de cama com sarampo
e a janela para a rua resguardada
por um pano vermelho que vai do chão ao tecto,
sentindo muita sede, sem poder
sequer molhar os lábios, ou, então, ouvir
a tarde toda os gemidos de alguém
a quem diagnosticaram esclerose múltipla, a regredir
na idade e a ir morrendo aos poucos
de drageias brancas. escrever pode ser, exactamente,
ter um medo mortal de ir à escola, e sofrer
os efeitos maiores da crueldade
que os mestres manifestam nas crianças,
as páginas à deriva entre a baba e o ranho,
as pernas aflitas por todo aquele pânico,
doridos nós dos dedos e o coração
aos saltos, não sendo isso,
escrever pode ser, provavelmente,
um ajuste de contas com o passado,
ou até mesmo a lembrança dessa noite
em que o vento varreu o nosso quarto
e destelhou as casas circundantes, vitimando
o garboso pundonor do gato que cruzou
a estrada e foi atropelado por um balde
amolgado. não sendo isso, pode ser o cavalo
inquieto que no prado, certa vez, se vislumbrou, ou animais
degolados, com as vísceras entrançadas
num novelo no alpendre, perto da roupa
pendurada na corda de secar. ou a noite,
imensa e perdurável, em que alguém
bateu à nossa porta e não entrou,
e nós com a lanterna tentámos ver
sob a chuva que vergasta ainda
as sebes que há em volta do cercado,
o cata-vento em forma de avião, os cardos
do baldio, se não foi isso, será, precisamente,
aprisionar o rosto a um lugar
para não ceder, ir com o corpo adiante procurar
o ritmo das paixões, as mais vorazes,
as que podem produzir assassinatos, estontear
as cabeças, irromper de um céu de sombras
verdadeiras, mesmo que não haja céu,
mesmo que não haja sombras
e nas letras resplandeça
pouca coisa.

- Amadeu Baptista
Os selos da Lituânia, &Etc, 2009

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Grão-de-lobo

...Oh,
Flores da Alemanha, oh, o meu coração torna-se
Um cristal infalível que
Põe à prova a luz quando a Alemanha...
(HOLDERLIN, "Vom Abgrund namlich...")

... como nas casas dos Judeus (para lembrança
da Jerusalém destruída) sempre alguma coisa
tem de ficar inacabada...
(JEAN PAUL, "Das Kampaner Thal")


Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

(Lá longe, em Michailowka, na
Ucrânia, onde
eles me mataram pai e mãe: que
floria aí, que
floresce aí? Que
flor, mãe,
te fazia doer aí
com o seu nome,
mãe, a ti,
que dizias grão-de-lobo, e não
lupino?

Ontem
veio um deles e
matou-te
outra vez no
meu poema.

Mãe,
mãe, que
mão apertei eu
quando com as tuas
palavras fui para
a Alemanha?

Em Aussig, dizias tu sempre, em
Aussig junto
ao Elba,
durante
a fuga.
Mãe, aí moravam
assassinos.

Mãe, eu
escrevi cartas.
Mãe, não veio resposta.
Mãe, veio uma resposta.

Mãe, eu
escrevi cartas a –
Mãe, eles escrevem poemas.
Mãe, eles não os escreveriam
se não fosse o poema que
eu escrevi, por
ti, pelo
amor
do teu
Deus.
Bendito, dizias tu, seja
o Eterno, e
louvado, três
vezes
Amen.

Mãe, eles ficam calados.
Mãe, eles consentem que
a ignomínia me difame.
Mãe, ninguém
cala a boca aos assassinos.

Mãe, eles escrevem poemas.
Oh,
mãe, quanto
chão do mais estranho dá o teu fruto!
Dá esse fruto e alimenta
os que matam!

Mãe, estou
perdido.
Mãe, estamos
perdidos.
Mãe, o meu filho, que
se parece contigo.)

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

- Paul Celan
(tradução de João Barrento)

não é certo este dizer

Certezas, disso enchem-se os idiotas. E é tão fácil escrever baixando o pensamento a uma série de convicções e seguir afirmando coisas segundo a disposição do momento, falar de pessoas e situações, envolvê-las numa moral de circunstância. Mas a literatura se alguma vez teve algum interesse, foi exactamente quando tentou fugir disso e de si mesma, anular-se, despretensiosa, numa imitação da vida.
Há um momento de muita força perto do final do filme The Reader em que a personagem de Ralph Fiennes procura uma mulher judia (em tempos vítima de um campo de concentração Nazi) para lhe entregar todas as poupanças feitas pela personagem de Kate Winslet (ex-guarda prisional nesse campo de concentração) e que entretanto se suicidara. A primeira reacção da mulher é de irritação, mostra-se revoltada vendo este gesto não como o último gesto de uma condenada mas como mais um desses insignificantes actos de contrição, um pedido de desculpa, como se a perseguição e os mortos pudessem ser desculpados. A certa altura ela chega mesmo a dizer qualquer coisa próxima disto: "Se o que querem é catarse vão ao teatro, sirvam-se da literatura (...). Ainda nos perguntam o que aprendemos nos campos de concentração! Mas não se aprende nada... Aquilo não era uma Universidade!"
Outra frase que me vem agora à cabeça é uma de Henrique Solari que diz «Procuram o significado da vida?... é dar-lhe significado.» Esta frase parece-me bem, interessante e tudo isso. Acontece que se a vida tem o sentido que lhe damos, a nossa pequena ficção até pode ser elegante, bem alimentada, polida e razoável, mas se há uma experiência que constrange (atordoa, anula, mata) esta invenção, já não será possível voltar atrás sem antes esquecer alguma coisa.
Entende-se que cada um queira oferecer-se um papel com significado no meio de uma história qualquer, mas no fundo se andamos à volta disto ou daquilo é apenas porque aí encontramos senão um entusiasmo ao menos um alívio ou consolo. A vida, como já foi dito, é um dia e depois outro. E a literatura pode dizer isto de muitas maneiras, com mais graça ou dor, até pode dizer outra coisa, o contrário, não interessa. Entretanto haverá sempre quem se chateie (ou nos chateie) com a importância que isto ou aquilo deverá ter, e eu continuo a gostar muito mais dos outros, os que não precisam de perfumar o que dizem ou escrevem num tom de seriedade e que, ainda assim, se tornam importantes. Voltamos a eles porque não têm pressa de nos ensinar alguma coisa, simplesmente fazem-nos (boa) companhia.

Toilet

Let’s start a publishing house
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean

get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace

- e. e. cummings

Café do Molhe

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

- Manuel António Pina

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Just as fucked up as you are

Enquanto os outros melhores amigos andam lá fora a ganhar a vida, ou cá dentro a apostar jantares, eu, pelo meu lado, vou trabalhando. Não acreditam? Apanhem esta:

Banquinha das apostas (3)

Isto é um boletim de apostas:

Melhor filme: Slumdong Millionaire
Melhor Realizador: David Fincher
Melhor Actor: Sean Penn
Melhor Actriz: Kate Winslet
Melhor Actor Secundário: Heath Ledger
Melhor Actriz Secundária: Penelope Cruz

Isto é uma zooey deschanel com um cão:

Banquinha das apostas (2)

Isto são as minhas apostas e não as minhas preferências.

Melhor filme: The Curious Case of Benjamin Button
Melhor Realizador: David Fincher
Melhor Actor: Mickey Rourke
Melhor Actriz: Kate Winslet
Melhor Actor Secundário: Heath Ledger
Melhor Actriz Secundária: Viola Davis

Banquinha das apostas

Aqui fica uma aposta para os Óscares. Desafio o Luis e o Diogo. Quem acertar menos paga jantar no Kebab. São apostas, não preferências.

Melhor filme: Milk, provavelmente vou perder aqui, mas não resisto.

Melhor Realizador: Danny Boyle

Melhor Actor: Mickey Rourke, se bem que adorava não acertar esta.

Melhor Actriz: Kate Winslet

Melhor Actor Secundário: Heath Ledger

Melhor Actriz Secundária: Penelope Cruz e vai ser tão giro vê-la discursar em inglês.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Era mais ou menos isto...


à atenção do Senhor Changuito
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Acompanhantes

Apenas um poderoso cadáver que sonhasse
nos poderia criar desta maneira.

Francisco Brines

Foi tudo muito sério, cheio de juras
que agora não quero recordar, e não sei
até que horas errámos, vagueantes sombras
de um desejo tão experimentado.
Levavas-nos pelos atalhos que conhecias,
tinhas já uma lista de coisas que não
podíamos dizer e corrigias
os meus versos até todos serem teus.
Tantas dessas noites, na cama, já me virava
para a madrugada em que acordei
sobre palavras destroçadas, gastas ou vazias,
ferido por uma infecção de luz
que rompia através das janelas
para me encontrar sozinho.
Podia ter sido ontem, mas deixei
passarem-se uns meses antes
de recuperar a voz e,
nesta pronúncia de sangue, ver a boca
estoirada numa frase tão curta.

Num dos cafés em que não chegaste
a entrar foi onde tive tempo
para observar esse meio-corpo entregue
a uma qualquer inclinação, envelhecido,
morrendo nos seus próprios braços.
E foi isso o que tentei escrever antes
de se tornar claro que terias de o ver
por ti mesma.
Ancorado, aquele rosto entre vírgulas
– garrafas é óbvio, e um cinzeiro também (estes
cenários não se inventam) –,
os olhos drogados nas suas distracções,
sorviam os curtos espaços de luz
que percorriam a divisão enquanto eu
vigiava a sua sede. Sem o saber então,
nessa tristeza, entendi melhor que nunca
porque foi que mentimos e o que tentámos
esconder. A carne inquieta dos dias,
depois de ter oferecido alguma luta,
acabaria por assentar ali mesmo,
nos ossos do tédio.

Hoje acatamos de modos diversos
um destino que quer dizer
sempre só uma coisa.
Inundamos de canções o silêncio,
mal doseados refrões, e voltamos mais cedo
do que esperávamos
aos enganos mais acessíveis,
carícias duvidosas, engates e outros
compromissos, até não nos restar
nenhum dos fogos que ateámos
na infância.

Tornei-me o hábito de estar cá,
ir e sair da cama, sozinho, seja como for.
Andar por aí e calar-me, assim como deixo
esta folha a ouvir
a mansa desconversa das horas,
a pedir sono e esquecimento. Nisto
vou lavando as minhas mãos, e sei
que tu me poderás mostrar
que a alternativa teria sido pior.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas há violentos vôos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaços
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura

na sala escura, de infância

- Luiza Neto Jorge

Quis ser jornalista

Quis ser jornalista,
e até entrei para a faculdade
para aprender os ofícios da profissão.
Mas eles só queriam saber,
Mas eles só queriam saber,
Mas eles só queriam saber,
e eu não.
Não quero saber de nada.

Quis ser realizador (realizador de cinema),
e até entrei para a faculdade
para aprender a profissão.
Mas eles só queriam realizar,
Mas eles só queriam realizar,
Mas eles só queriam realizar,
e eu não.
Não quero realizar nada.

Quis ser crítico de arte,
e até entrei para a faculdade
para aprender o ofício da profissão.
Mas eles só queriam criticar,
Mas eles só queriam criticar,
Mas eles só queriam criticar,
e eu não.
Não quero criticar nada.

- Tiago Guillul

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O indie rock em 2009



À noite,
sozinho e com as luzes apagadas,
sonho com
discos conceptuais sobre
góticas na praia.

Lição nº 1: Como comprar a Revista Criatura

O crepúsculo das tabernas

Apagam-se com vagar na impiedade do tempo.
Ouço o seu clamor enfraquecido, um gemido impotente
a que em breve ninguém se poderá converter.
Eram os únicos lugares onde sabia estar.
Sem obviamente saber estar, visto a imperícia
me ser tão sanguínea – excepto quando por teimosia
roçava a mais feroz inconsciência e nada então
importava. Mas foi sempre mais frequente ter
de prémio uma excessiva consciência de tudo, da
inexorável tristeza de tudo, embora ali agraciada
com um encanto cáustico:
a possibilidade de reivindicar um inferno.

A pouco e pouco morrem as portas largas
de ruas estreitas que, à parte outros méritos, ensinavam
com mestria o abandono e a eternidade da sede.
Tive a má sorte de serem meus estes anos que de algum
modo testemunham a despedida dos últimos exílios,
desses redutos sombrios onde se podia renegar
a luz perversa do mundo.

Abuso mais uma e outra vez os pequenos templos
que perduram. Aproveito como posso a demora
da sentença, mas sei próximo o dia, a furibunda
manhã em que se apagarão de vez os fogos
em que mais apetecia ser lentamente devorado.

- Manuel de Freitas

O tesouro

Quando me levaram de casa dos meus pais
guardei comigo o meu tesouro. Uma caixa
de cartão, que um elástico fechava, dormia comigo
escondida dentro dos lençóis. Coisas de que
só eu sabia o nenhum valor. O carimbo de
borracha do avô Jaime, um dente meu, de leite, que
eu mesmo arrancara,
um coral da ilha de Moçambique que me dera
o tio Patuleia, duas moedas com as efígies de
D. Luís e de D. Carlos. Mais umas coisas que
o tempo perdeu na jornada da infância.

Mas uma noite o tesouro
ficou dentro de uma gaveta, não mais o levei para
atravessar comigo a jaula do sono. De
gaveta em gaveta, descubro-o
quando mudo de casa. Não é fácil afastar a caixa
esmaecida onde adormeceu. Primitivo, como os
primeiros princípios da filosofia ou
os primeiros sons de um verso. Hei-de por fim
perdê-lo, como no horizonte se forma e desfaz a
arte poética de um arco-íris.

- João Miguel Fernandes Jorge

domingo, fevereiro 15, 2009

habitámos por três meses a mesma casa desconexa
depois avançou sobre nós o ombro, o esquerdo, o do silêncio

ficámo-nos pela porta

a minha solidão recente em Heidelberg e na penumbra
vista de olhos abertos como provas de revisão para as asas
as últimas
para
dizer
o voo impossível

mais três meses entre cidades-dormitório
pernoitando aqui e ali apanhando comboios e morcegos
procurando chegar a algum lado

trago vistas muitas madrugadas
as muitas faces da moeda e as duas faces da moeda
no ritmo lento da cidade ensonada
agora vou mesmo apanhar aquele último avião

a minha solidão em Heidelberg descendo pela penumbra
três meses desconexos em casa
por três vezes a ausência batendo-me à porta
tacteando-me escuro
pelos ombros na penumbra

surpreendi ontem os nós dos dedos no gesto vago da indecisão
distraídos para sempre diante do portão

palavras feitas há três dias apodrecendo junto ao leite de mais perto a boca da raiz remoendo o vulto do meu braço, os passos no meu braço, o direito...

pensei que depois de ter dito isto eu

eu devia servir para alguma coisa
para alguma espécie de coisa
uma vez que o corpo conserva a memória dos gestos
e o rumor do silêncio na cidade
e os pequenos esgares que estranhos lançam uns aos outros procurando a palavra já perdida galgando por entre carris
num regresso desajeitado aos dormitórios
onde o tempo lhes trepa pelas costas

a memória possível acontece algures e não regressa mais
é o vidro partido

agora que o conheço, o meu desespero é último

(primeira versão no blogue do mathew)

S. Jerónimo

Flor
de velhice
bebeu a cólera a luxúria o apaziguamento da vida
o corpo é uma longínqua perdida cidade
não quer saber do prazer de outro corpo
de nuvens
de árvores
onde o esquilo e a ave têm seus ninhos de vida
os olhos vêem a sábia palavra na distância
além da página do livro

carne inquieta
verso triste
que não pode já cantar
a voz amarga
doce voz de solidão o nodoso dedo indica
o crânio despejado de sentidos – beleza
in hora mortis
ermo branco
branco e negro de negra rosa cediça
boina negra afoga-lhe a cabeça
imóvel frio impossível palavra envelhecida envelhecido

- João Miguel Fernandes Jorge

sábado, fevereiro 14, 2009

sobre nós cai a mão do silêncio o cinzento silencioso da noite esta coisa poder desaparecer em cada esquina em todos os cantos
isto
o rosto dissolvido o quase não ter identidade estas sete palavras que risquei do teu ouvido
não me procures mais - devia ter-te dito algures - há este pesadelo que tenho recorrentemente, sonho que regresso lá que estou lá durante dois dias, revivo tudo aquilo e depois, passado dois dias, tento voltar, tento telefonar mas não me recordo do número ou tu não atendes, tento então ligar para casa
a minha
angústia
a minha angústia tem braços
tentativas
tentativos braços
sobre nós caiu a pesada mão do silêncio há palavras que nem sei já pronunciar ou fingir que sei como se dizem, como o nome do primeiro corpo, o próximo, o mais familiar que apaga tudo, como o nome que se dá a uma vela acesa na janela, como o nome que se dá aos sapatos que pela última vez usámos antes de partir, como o nome para o tempo que medeia até ao regresso, como o nome que fala entre um e outro gesto, como entrar no rio pela última vez antes do fim do verão
os pequenos nomes dos actos os pequenos nomes
como se pudessem adiar o tempo da angústia
a cegueira

A dança começa

et pas de comissions

Não me trancaram em nenhum sótão tendo eu treze anos, fui eu
quem trancou o mundo no exíguo espaço que resta fora desta divisão:
não aceito nada que me não caiba nos pulsos ou que já me circule no
sangue; o máximo que posso é forrar as paredes e o triunfo da solidão
com reproduções fac-similadas de um mapa desenhado em estalagem incerta
por um galego desencantado que, no ano da graça de mil quinhentos e setenta,
acrescentava porções de terra e mar consoante o estado do seu estômago
ou - fonte bem menos credível - relatos de marinheiros, elidia penínsulas
e arquipélagos para os substituir por extensas áreas azuis de corpos insepulcros,
ou apagava civilizações inteiras para colocar a inscrição “terra incógnita”,
supremo gesto de humildade comparticipado por gravuras de monstros amorosos.
Um mundo redutível a meia dúzia de graças e um vago sentido de partida
eis tudo quanto estou disposto a ceder.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Lux/Frágil

Para a Kate

Primeiro que tudo vem o som,
a vontade de imaginar estas palavras
pronunciadas com algum feedback e distorção.
O poeta pede que assim seja, debruçado
sobre os seus medos litorais: a tristeza,
a promessa de amor encaixada nuns
skinny jeans inatingíveis, calcular mal
a noite no que a gastos diz respeito
e acabar a pedir dinheiro emprestado
para uma bebida e, depois, um táxi.

Há, claro, esconderijos perfeitos: Cais da Pedra
a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com
o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.

Ele diz que ela dança com o rosto tão confuso
como a respectiva sombra, tem os cabelos pretos
ou castanhos, não sabe ao certo, justifica-se com
a falta de visibilidade, o número de copos e cigarros,
qualquer coisa, que não rime metaforicamente com amor.

De novo o poeta reflecte sobre a necessidade
de imprimir no som o relevo de uma certa
distorção, em sintonia com as músicas
que constantemente ouve. É disso que se trata
no fundo, do poema ser como nenhuma outra música
e mesmo assim nunca ser silencioso.

Ela já não dança, cansou-se de ser musa
a coitada, ainda por cima sem o saber,
e agora todos nos apercebemos disso.
Tem o dedo ferido de tantas vezes ter projectado
nele as esperanças de um futuro melhor.
E sente-se tão frágil
no exacto momento em que os recibos
e as facturas do mês chocam com o desejo
de ter a cama quente, por uma e só uma noite
... apenas. Não, já não é material
para um poema, nem sequer para
uma ligeira concessão aos olhos da tristeza.
O coração – simplifiquemos com simbologia
a questão – deixou de ser invisível, deixou
de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista.
Já nem sequer sente vontade de escrever.
Só a uma centena de corpos a dançar a mesma
música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.
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Bonus Track

Não sei o que foi hoje, se um descanso
ameno no inverno ou
se a terna velhice deste céu a empurrar-me
pelas ruas de sempre, disperso, um gosto
menos pela vida que pela paródia
de dejectos que ainda me comove.
A gramática ordinária dos lugares
que vão servir-nos pelo menos
até às duas da manhã, uma narrativa
pousada sobre os cotovelos, vigiando
os primeiros, mais suaves passos
da noite, o azar e a sorte de quem possa
aparecer e despertar-nos curiosidade.

Não há muito, houve uma mulher
nem feia nem bonita, estudando
as suas fracas opções, tímida
prostituta que se acercando quis
saber se eu tinha horas ou tesão
para daqui a um bocado. Eram vinte e uma
e dezasseis no meu relógio, calculei
se seria suficiente o que tinha nos bolsos
– dificilmente. Talvez até desse
para um desarranjo mais breve, mas nada
que fizesse as molas num refúgio pago à hora
cantar para nós, sossegando a história
de amor que não nos quis.

Beijinhos, é pena, as putas não dão.
Ou pedia-lhe que se sentasse, pagava-lhe
uns adocicados golpes de álcool e podíamos
ficar aqui mesmo, trocar cuspo e imo-
deradas coincidências que nos aproximassem
como a um casal de namorados. Por vezes
sinto falta dessa outra solidão.

Na realidade ainda se sentou mas não quis
saber mais nada. Houve alguém que depois
a levou para longe destes versos, onde
houvesse acção a desenrolar-se. Fiquei eu
e uns tipos bebendo, dedos tamborilando no tampo
da mesa, este piano mudo. A melodia derramada
no chão e nós meio tocados pela tristeza
uns dos outros – um vazio que transbordou
dos nossos copos.

Daker, OR

como um urso que desperta da hibernação
o nosso ford vai derretendo a neve do pára-brisas
ponhos as malas no assento de trás olho de novo o mapa das
___________________estradas

agora chegas tu meio a dormir
sem estares pintada por arranjar quebrada pela noite que passou
uma noite de perguntas de medo de roupa que entra

e sai dos armários uma noite de frigorífico desligado
mas hoje é diferente e sentas-te a meu lado como dantes quando
___________________viajávamos sem pressa
através de bosques e campos de milho nessas noites
de faróis acesos à procura do oceano

o ford sobe lento pela colina
quero viajar para o sul para o sul de todos os projectos

- Pablo García Casado

Aldeia do Cadafaz

de ano para ano o primo Albertino tem menos dentes
e neste Agosto não haverá baile nem matraquilhos
sentei-me no coreto da Junta olhei as casas da aldeia
enquanto que atrás de mim o Ivo e os outros miúdos
alheios e ainda bem a contemplações menores
me atiram sábias merecidas pedras que só por
azar e algum desprazer me não acertam

- Miguel-Manso

The Reader

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Caramba pá!, vai ver este filme - 9/10

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Sunday smile

LADRÕES DE BICICLETAS — VITTORIO DE SICA (1948)


Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.

- José Miguel Silva
Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005.

Criaturas, seguindo Ruy Belo

Reunidos em torno da revista Criatura, Diogo Vaz Pinto, Hugo Roque e Pedro Jordão são, em maior ou menor grau, extremamente atentos à possibilidade de sentido que o literal pode fazer deflagrar no poema. Cenários urbanos, cafés, bares, discotecas, mas também a Bíblia, Deus, paisagens industriais, uma total (propositada?) ausência da rima, mas uma curiosa impressão rítmica fazem destes três poetas vozes muito originais que, esperemos, não se tornem epígonos de uma qualquer tendência meramente literal. Há poemas de Diogo Vaz Pinto (n. 1985) em que os ecos de Ruy Belo são evidentes: a torrencialidade discursiva, um tom de pequeno conto, mas elidindo os versos, um entrecruzamento de referências eruditas (Debussy) com um léxico ao mesmo tempo prosódico, a sua poética define-se pela assunção do falhanço da poesia: «Pratiquei em verso a arte de abrir sorrisos/ a quem não tem dentes./ Falhei».
Já em Hugo Roque qualquer coisa de Cesário parece reencontrar-se connosco. Baudelaire e Hart Crane são leituras que se pressentem. Também Roque nos vem falar do dióxido de carbono social, da cidade como espaço do vazio, do quotidiano mais ignóbil porque exausto. Neste poeta, em cujos poemas há a tentação da quadra, ou do poema vertical, atomizado, à Carlos de Oliveira, igualmente se indicia a ironia deceptiva à O'Neill: «Estou demasiado cansado/ agora que dormi horas a mais/ estou com tempo/ ia bem um lanche ao final da tarde/ à noite uma peça de teatro/ que já faz tanto tempo [...]». Todavia, Hugo Roque (n. 1978) é, parece-nos, um trabalhador do verso, um cinzelador não de palavras, mas das sensações: uma extenuação, um abatimento, a recordação do tempo, a certeza de estarmos em tempos do fim farão de Hugo Roque um autor a seguir com toda a atenção.
Relativamente a Pedro Jordão (n. 1977), a sua escolha poética é marcadamente inglesa. Há uma vontade de internacionalizar a mensagem e uma bem conseguida oscilação entre o aforismo e o poema em prosa: «os mais perigosos são os desejos com arestas/ tão exactos. Ensina-nos a prudência/ a arredondar-lhes os cantos a desenhá-los/ ambíguos mas a ambiguidade/ sempre tão frágil e não sincera [...]». Jordão, apesar do que fica dito, exprime um confessionalismo por vezes saborosamente adolescente: «não os dias mas as noites/ as noites são mais honestas/ pelo que escondem e/ pelo que nelas se acende». Uma curiosidade: em muitosdos poemas reunidos na revista Criatura, Pedro Jordão, parece deixar sugerida a lição de Manuel de Freitas: o único real absoluto é não haver real absoluto nenhum, muito menos o da poesia.
Estes rios vão desaguar onde? Lirismo, ou haverá outro caminho?


- António Carlos Cortez, in Jornal de Letras n.º 1001

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Projecto de vida eterna

E depois de acabar, voltar ao mundo
após uma curta eternidade, já sereno
voltar de novo ao mundo, a este que sei,
com uma repetida juventude, e junto a mim
seu corpo como fora em sua idade de ouro
perdida, e assim admitir que a vida é infindável
como não pôde ser (agora já eterna),
porque houve um adeus, e o tempo envelhecia
não o tempo, que em si é sempre eterno,
mas o que ele tocava: o mundo,
e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.

- Francisco Brines

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A prova do humano

Quem terá notado o gesto subtil do velho quando,
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um culto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvir o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?

- Nuno Júdice

The boy in the striped pyjamas

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8/10
.

domingo, fevereiro 08, 2009

Doubt

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Um filme pesado, mais desafiador talvez para aqueles que de algum modo acreditam que o pensamento é uma forma de arranjar certezas e não apenas um balanço entre as nossas dúvidas - 7/10.
mais uns anos disto - assim e a este ritmo - e algo me diz que estarei como pier della vigna


é preciso parar
às vezes, sabes

era preciso parar e era preciso
a memória de mim a minha fotografia impressa
regularmente no b.i.
morada fixa e outras merdas assim
uma vida normal sempre quis uma vida normal
ou outras coisas mas neste mesmo género

apagada no sofá da sala escura sou eu no meu corpo
o meu corpo entornado na penumbra
a consciência do corpo contra
o vento vermelho-intermitente
a consciência aqui e ali
as mãos lavaram do chão as manchas do meu sangue

é preciso não incomodar ninguém diziam
uns para os outros
é preciso apagar isto do chão e que ninguém se incomode
com isto
era isto o que sobrou de mim
para dizerem entre si enquanto despachavam o trabalho

ninguém me procurará
como filha
ou como mãe
ou como esposa
nenhum desses papéis que cabem à mulher moderna
e à antiga também

intimamente sou o desejo apenas o desejo como uma coisa

bruta coisa essa
cumprir os tímidos fins dos dias
há uma vingança cobarde em fazer cada uma das pequenas coisas que nos pedem
em humilharmo-nos a nós mesmos no nosso apagamento

eu fui aquela última luz
no vento que se vai vazando na tempestade
numa amargura pálida e constante

mas terei sido eficiente
terei sido uma espécie de puta eficiente e séria

deve ser isso que de mim se espera porque
outra merda não se espera da mulher moderna
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O espaço que nos resta

A tarde, em tão poucas palavras, atravessada
no fígado. Miradouros, pequenos bancos
de pedra, um olhar no declive que seguia
até ao Tejo e um desses gestos
que nunca mais acaba.
Parei junto à escola a ouvir aquele fragor
que por mais anos que passem
não deixa de ser como eu o lembro.
Depois desci pela linha do eléctrico,
e almocei no Ali, esse que é o melhor kebab
de Lisboa. Fui fazendo a digestão,
entrando e saíndo de lojas sem ver nada,
antes de recolher a um café
onde tudo o que vi foi uma mulher.

Estivemos a sós em duas mesas chegadas,
enquanto eu lia Heiner Müller e ela
tudo o que tinha a ver com teatro
e cinema no ípsilon. Por uma ou outra vez
inclinei-me pedindo que reparasse em mim,
mas ainda não estava no ponto.
Depois do empregado ir e vir mais umas
vezes lá se virou com a voz ardida
de whisky e um acento de pro-
vocação que nos levou para fora dali.

Tinha um sítio não muito longe e eu segui-a
menos por vontade do que como quem
se deixa ir. Chegámos e ela fez-me acordar
com a mão que me pôs na parte de trás da cabeça,
o desejo a sombrear-lhe o rosto e a boca em jeito
de súplica, enquanto eu queria
uma razão para recuar.

Não encontrei. Entretanto foi tirando a roupa,
pôs-se a brincar em pose de cristo rei,
dizia umas banalidades
salvíficas, e eu só reparava nos ombros
pequeninos, as ancas e os joelhos depois, a crua nudez
daquelas abusáveis linhas, esboço de nada,
esperando que eu me dispusesse
ao déjà vu, ou a sensação de um corpo
sucedendo à desolação nos versos
dos últimos meses.

Mais uma aspirante a actriz (pelo que vim a saber
mais tarde) tropeçando na cama de quem
soubesse bater palmas. Tem graça
como me habituei
ao quase famoso desespero que vem subindo
ao palco destas tão comuns desilusões
no final de mais um dia.

Não devemos ter ido além de um
quarto de hora entre aliterações, hipérboles,
suor e enfim um orgasmo envergonhado
da parte dela. Eu já não fui a tempo.
Ficámos por um bocado
ainda próximos, despenteados,
a olharmo-nos já depois dos estragos, meio tristes,

meio arrependidos – nos lençóis o espaço
que vai do Nada ao Pouco, e nós aí,
presas fáceis do murcho encanto que então
se sente. Nas minhas veias tocava em dó menor
um nocturno de Chopin (nº1, op. 48).
Já não lhe perguntei, nem quis saber,
que espécie de música lhe doía a ela.

Alguns gostam de poesia...

como diz o título daquela antologia de Milosz e Szymborska. E depois, bem depois há aqueles que nem são esquisitos e até parece que têm umas opiniões sobre o assunto. Mas isso já pouco nos interessa.
Venham daí os poemas e então, se valer a pena, logo passaremos a essas importâncias.

Slumdog Millionaire

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Tem um final tão feliz que chega a ser trágico, mas de resto o filme é muito bom - 8/10

sábado, fevereiro 07, 2009

Cântico mudo

Meu pai que chega do trabalho,
o cheiro material das oficinas
acompanha-lhe a pele e as vestes,

vem cansado, preocupado, desiludido
e ainda tem forças para não esperar um sorriso.

- Paulo José Miranda

A casa

O vaso na casa, a terra húmida trazida do jardim.
Acendo um cigarro, espero o nascer... a rosa ou o sangue ou o dia.
Ocupo os olhos através da janela,
nas árvores sem nada, pobres, enraizadas no outono.
O silêncio, de quando em quando, ilumina a casa.

O corpo, só de o pensar, mexe.
Agito as mãos como se agarrasse um piano.
A janela ensina que o mundo se revolve lentamente.
As amoras abeiradas do muro
delimitam o espaço que a voz alcança.

O vaso alimenta uma solidão pequena.
Acaricio-o pela cor fresca do barro. Ainda ontem repartia a ternura
com as laranjeiras que trouxe do poço para a casa.
Com os passos veio alguma lama.

Os pássaros mais fiéis pousam no parapeito da janela,
é como se perguntassem: então, a terra ainda é só terra?
O vaso permanece no silêncio, não arreda,
acompanha a casa, acompanha o corpo.

Saio para os cogumelos nas traseiras,
fazem parte da sombra da casa, dos ruídos de vida dos insectos.
As pinhas abertas sobre o musgo acendem a lareira.
O vaso não arreda, nem com o lume.

Vem a noite.
A janela é só sombras e gritos.
Para lá do muro há rio.
Ninguém mo disse, oiço-o.

Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte,
então verei o homem que aí vive com as cabras.
Está sempre só. Atira pedras para longe, atinge a saudade.
Dantes tinha mulher, agora só frio e passos.

O vaso na casa, a terra húmida trazida do jardim.
Acendo um cigarro, espero o nascer... a rosa ou o sangue ou o dia.
Gostava de ter mais um corpo, vê-lo crescer.
Ainda ontem gritei para encher a casa.

Bem cedo os carros cantam nas avenidas
e o homem que se levanta hoje, levanta-se para todos os dias.
Pé ante pé, amaldiçoa a vida.

O vaso mantém-se silêncioso, e nem arreda.
Devora a terra, devora a água.
A casa alimenta-se de vida,
tudo o que é morte lhe não interessa.
Escuto apenas os ruídos da madeira a ceder ao fogo.

Escuto de mim para mim estes versos.
Queimo-me a respirar o ar
com os olhos parados frente às maçãs de verão.
Sim vejo a mão, sim vejo o vaso, sim vejo o fogo.
Mas sim não chega.

As cidades têm portas que se fecham,
carros por onde fugir,
janelas por onde desejar.
As cidades têm pontes aonde vâo buscar pessoas.
Mas sim não chega.

O vaso mantém-se silencioso, e nem arreda.
Alimenta uma solidão pequena.
Um homem debruça-se sobre folhas brancas,
desce junto ao vaso ou junto ao verso.
Lá fora, nuvens caminham perseguindo rios.

Que ramo prende um corpo a uma casa,
que água se transporta nessa vontade,
o fogo, o ar, as cinzas, os olhos?

A chaminé ensina, não é a memória
mas o fumo que que assinala vida.
A casa alimenta-se.
Tudo que é morte lhe não interessa.

Era aqui nesta sala contígua à cozinha
que se matava a criação.
Comiam até serem comidos.
E ninguém perguntava porque é que se crescia.
O abandono. O erro. O silêncio dos gansos.
Eu e o vaso.

Eduquei a sensibilidade para sofrer mais tarde.
Quando amanhã for dia, o sol iluminará o monte,
então verei o homem que aqui vive, só, como um grito.
E alguma geada cobrindo os marmelos.

- Paulo José Miranda

Psique traída

psique traíu-se pela primeira vez aos dezoito anos depois de um breve silêncio acerca de um homem que não por acidente adormecera no seu leito e cujo rosto ela nunca vira até que finalmente o conheceu. traíu-se. aos dezoito anos. exactamente como disse. e ele continuou a dormir até que compreendeu que ela o vira. depois veio sofrer. de mãos pousadas nos joelhos na penumbra um olhar tombado sobre a água à espera de endoidecer pela terceira vez sobre o sono há uma caixa que psique nunca abriu o rosto dele que surge e se some intermitente como escavar o chão na penumbra com as unhas. na penumbra como no leito está não há a pequena vida de psique. e ela traíu-se.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

[penelope.JPG]

Sufjan Stevens - Decatur

Valkyrie



"We have to show the world not all of us were like him."
7/10

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

God's special little creature



Eddie Barzoon! Eddie Barzoon! Ha! I nursed him through two divorces, a cocaine rehab, and a pregnant receptionist. God's creature, right? God's special creature? Ha! And I've warned him, Kevin, I've warned him every step of the way. Watching him bounce around like a fucking game, like a wind-up toy! Like 250 pounds of self-serving greed on wheels! The next thousand years is right around the corner, Kevin, and Eddie Barzoon - take a good look - because he's the poster child for the next millennium! These people, it's no mystery where they come from. You sharpen the human appetite to the point where it can split atoms with its desire, you build egos the size of cathedrals, fiberopticly connect the world to every-eager-impulse, grease even the dullest dreams with these dollar-green gold-plated fantasies until every human becomes an aspiring emperor! Becomes his own God! Where can you go from there? And as for scrambling from one deal to the next, who's got his eye on the planet? As the air thickens, the water sours, even the bees honey takes on the metallic taste of radioactivity! And it just keeps coming! Faster and faster! There's no chance to think, to prepare, it's `buy futures, sell futures' when there is no future! We've got a runaway train, boy! We've got a billion Eddie Barzoons all jogging into the future. Every one of them reading to fist-fuck God's ex-planet, lick their fingers clean as they reach out with their pristine cybernetic keyboards to total up their fucking billable hours! And then it hits home! It's a little late in the game to buy out now! Your belly's too full, your dick is sore, your eyes are bloodshot, and you're screaming for someone to help! But guess what? There's no one there! You're all alone, Eddie!
You're God's special little creature!
Maybe it's true. Maybe God threw the dice once too often. Maybe He let us all down.

O meu primeiro biquíni

Só eu sei quando sobrevivemos.

Sei-o porque os meus dedos
se transformaram em lápis de cor.
Sei-o porque com eles
desenho mulheres com rosto de epitáfio
nas paredes da tua casa.
Porque, ao toque da ponta,
começa o derrame dos cimentos
formando arco-íris na noite.
Porque, ao escrever testamentos
no chão, removem-se as vísceras
de açúcar e trepam as tuas raízes.

Gravo versos de cores frias
na tua pele, da arquitrave à base,
e chove sobre eles e diluem-se, e comprovo
que a chuva soa como os berlindes ao cair
brilhantes e alaranjados
que trocava no pátio do recreio,
pouco antes de vestir o meu primeiro biquíni.

Hoje guardo os berlindes, como um apagado
tesouro, nos buracos doutras costas.
Pinto também na varanda da frente
um jardim de lápides caídas e bonitas.
Traço – como uma medusa de bronze –,
um paraíso de cadeias abrindo no húmus
um vale diminuto que proclama que é frágil
e , não obstante, dirás tu, sobrevive.

- Elena Medel

3 poemas de Elena Medel

Espiral

Para saber de que fujo
Adivinho se o céu gótico cor Ucrânia
Volta a insinuar-me – joelhos circunflexos –
Que segue o meu caminho ainda que me escape.

Se tudo é imóvel,

Sou eu quem se arrasta até ao presente?


Ânimo

Preciso dum sinal cirílico no ombro
Que me anime a continuar a respirar
Neste idioma perverso.

Quero deixar de ser
Amarga
Como os planetas que a árvore chora
Ao começar o tempo
E que se quebram – são filamentos de lâmpada –
se chocam com o mapa das minhas mãos.

Selo de pirilampo,
Os olhos de Croácia perseguem-me.


Ragazza

«Desculpe-me»
– sonho que o interrompo em plena rua –:
«leva o meu coração
colado à sola do sapato-»
E então,
descubro que também me envolve
o violeta doce e calmo dos seus olhos.

Blow

Eu só acredito numa Branca de Neve que acorde o Príncipe
e não o contrário.

The Black Donnellys



É do Paul Haggis, e vale a pena ver - 7/10
.
"All of us are in the gutter,
but some of us
are looking at the stars."
- Oscar Wilde

Alquimia do Verbo

A mim. A história de mais uma das minhas loucuras.
De há muito que me gabo de
possuir todas as paisagens possíveis e que acho ridículas
as celebridades da pintura e da poesia moderna.

Amei pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas,
panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas,
literatura fora de moda, latim eclesiástico,
livros eróticos sem caligrafia, romances antigos,
contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas,
refrões ingénuos, ritmos simplicíssimos.

Sonhei com cruzadas,
com viagens de descobrimento das quais não existiam relatos,
repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas,
revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes:
acreditei pois em todas as magias.

Inventei a cor das vogais! - A negro, E branco,
I vermelho, O azul, U verde
Determinei a forma e o movimento de cada consoante,
e, com ritmos instintivos,
procurei inventar um verbo poético acessível, custe o que custar,
a todos os sentidos. Guardei a tradução.

Era acima de tudo um esboço. Escrevi os silêncios,
as noites. Anotei o indizível. Firmei vertigens

- Arthur Rimbaud
(tradução de Rui Bebiano)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

“1948: o meu pai foi às Finanças fazer um requerimento, e como de costume fez questão de que eu o acompanhasse. Para “aprender a vida”.

Em casa explicou-me minuciosamente a fórmula e o motivo do requerimento. No fim, meteu dentro da folha uma nota de 50 escudos, e disse-me: – Esta é a parte mágica da fórmula. Quando tiveres um pedido a fazer, já sabes, o segredo é este.

Passados uns meses enviei a minha primeira declaração de amor e, como 50 escudos era muito para as minhas posses, juntei uma moedinha de 2$50.

Nunca tive resposta, decerto foi por ser tão pouco.”

- Alberto Pimenta
Repetição do Caos, & etc, 1997

Rosas secas de vermelho coagulado

E de repente temos os filhos casados e
netos à nossa volta e mais rápido ainda
os netos dos filhos. Vocês
não têm coisa nenhuma; umas cadeiras velhas
que geração de gatos ou de cães destruiu
memórias por entre o persistente cheiro de
qualquer corpo; rosto que nem sabem
identificar, luz apaziguadora que se desfaz
na distância; poeira
um serrote que corta membro e outro membro
no negro vermelho de uma noite infinda. A
casa vazia; talvez a cama final de uma
enfermaria surja de um modo mais heróico.
______________________Nem isso.

Devias ter pensado duas e outras mais vezes
antes de dizeres no alto coração blindado da
tua vida
palavras que consigo arrastam dilacerante
ruído de alumínio, ferro, esmalte, engrenagens
metálicas e amolgadas – sombra
no extremo de um cordel
aflige e mortifica o empedrado de íngreme
_____________________calçada.
No limite, inatingível, o céu e o inferno,
um rio de água estagnada rodeia o
que julgavas estar e não existe «amor».

Não percebo o que dizes. Não entendo: os
filhos e já os netos e a cama do hospital com
falhas de tinta; e apesar de tanta solidão
______________________que me é anunciada,
não percebo o porquê da tua mão que procura
o antigo corpo.

Rosas secas de um vermelho coagulado, a vaidade,
____________________a natureza morta.

- João Miguel Fernandes Jorge

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Game Over

O corpo.
Uma duração precisa,
que se despede informalmente
nos beijos que já não dá.
Ó meu bom Jesus de Braga,
eu não saberia como ficar,
remendando os dias
com o apressado amor das coisas.

Tudo finalmente finda.
Na calamidade das mãos,
um cigarro que arde impróprio
sobre as manhãs exaustas.
E ninguém me quis,
pelo menos.

De que vos falarei,
com palavras póstumas
onde o rancor se apaga?
Era uma vez

aquele jogo triste que não sei jogar.

- Manuel de Freitas

Às vezes escrevo num caderno
pequenas frases. Coisas sem
nexo e sem nenhuma legitimidade
para um dia poderem dar lugar a
um verso. Escrevo-as de noite
a meio do sono e no dia seguinte
não sei que sentido lhes possa
atribuir. E que quererão dizer
as que p'la madrugada de ontem
anotei?
«O chão sêco da tua morte. O
duplo touro.
Cilindros de oiro. De quem era
a sala das sombras? Coisas de
vaidade, o meu relógio, o globo
onde lês as cidades do mundo.»
Às vezes deixo-me ficar sentado,
como agora estou a esta mesa no
quarto do hotel
e os sentidos prendem-se a essas
palavras que valem o que vale
uma viagem ao extremo da maior
melancolia da noite.

- João Miguel Fernandes Jorge

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Valsa melancólica

Esta manhã,
ao ritmo de uma chuva que caía estéril
na zona da Trindade, tomava a bebida da paciência
de frente para uma dessas ruas a virar pela
angústia onde ultimamente venho notando
como deus copia descaradamente a pintura
de Van Gogh. Às vezes parece até desmazelo,
mas com calma percebe-se. Repara
como mesmo debaixo da fraca luz deste inverno
as cores parecem berros, aflição, suores,
contrastes grosseiros que nos assaltam
a pele, o sangue e o pensamento, intensi-
ficadas ainda pelo fedor que aqui e ali
se mete às costas do vento e penetra
estas linhas um nadinha antes de se perder.

Depois de ir aos saldos na Cotovia
– até dia 14 de Fevereiro (tempo de vida
útil que estimo para estas palavras) –,
desci ao Camões, as escadas rolantes,
e já na carruagem fixei os dedos de um puto
que desenhava mistérios, algum
oriente infantil, na janela suja do metro.
A meu lado, meiga, uma mulher sorria-lhe do alto
de uma ternura maternal. Fez-lhe uma festa na mão
que só o envergonhou, recuando subitamente feio
e real entre as pernas da avó que
não prestava atenção, distante,
algures nos podres elísios da sua velhice.

Tive pena que não fosse para esta mão
aquela carícia, teria retribuído de outra maneira.
Assim, continuou a segurar friamente
um livro com desconto rodeando
ou fugindo do desejo.

Puxei o ar mais fundo,
senti-lhe os pêssegos presos no cabelo e vi-lhe
o sorriso que ainda rastejou, magoado,
antes de chegar a resignação. De novo
endireitou-se, abriu o telemóvel, premiu dois botões
e começou por estragar a beleza que lhe emprestei
com uma pronúncia áspera, beirã,
aos solavancos. Pior ainda,
do lado de lá, demorei pouco a perceber
que algum namorado respondia, mais letra
menos letra, levando-a a descruzar as pernas
e soltar risinhos de calor, satisfeita

no consolo de um amor brejeiro
que acabou com as esperanças deste poema.

No tempo distante de ontem

Estava farto de tudo. Estava farto de todos.
Não se ralava muito com o liceu – escola como
se diz agora –, nem sequer o meigo vendedor
de gelados com o seu rosto cada vez mais gentil
o comovia. Ficava horas seguidas, sozinho, rindo-
-se de tudo, de todos. Tinha tanto orgulho nos
poemas de Herberto Helder, como se tivesse sido
ele próprio a escrevê-los. Muito possivelmente
não os percebia. O tormento era o destino.

Vejo-o à distância de tantos anos, deitado na
cadeira de lona do terraço. Foi preciso a lonjura
de todo este tempo para reparar em como era
bonito. E agora não lhe posso estender as minhas
mãos. Somente o meu olhar quebra a lonjura entre
nós e apetece gritar «olhem, vejam como é de
facto bonito».
As raparigas estavam apaixonadas, mas ele não ligava
nenhuma às raparigas. Estendido na cadeira de
lona, vejo-o ao sol de outubro, pelo começo das
aulas.

O gasto casaco de linho creme, os sapatos de
atacadores, mal engraxados e, um deles, mesmo sem
atacador. Uma meia, irritante, de cada cor: azul,
vermelha; amarela, preta. E assim por diante
com o sorriso amargo que exibia quando atormentava
os outros. E eu
olho-o, agora, ao passar de todos estes anos,
eu vejo a sua beleza, os compridos dedos
acariciando o dorso do gato; e os seus cabelos
negros estriados ainda de mais negro.

E se eu fosse ontem
aquele que sou hoje
ter-lhe-ia dito «que pena um rapaz
tão bonito» misturado nos meus dezoito anos
com os primeiros versos publicados por Herberto
Helder
rodeados eu e ele, por extenso muro de pedra e
coberto nos cimos por aguçados vidros de garrafa.
Vidros verdes de garrafa
eram os seus olhos.
Só o gato, com as almofadas das mansas patas, no
andar cimeiro prosseguia, entre os vidros, como quem se
deixa beijar por quase todos.

- João Miguel Fernandes Jorge

Castelo da Baixa-Chiado

As escadas, no coração da terra.
à hora tardia de julho. Cantava, na galeria
deserta, um mundo a que nunca pertenci.

Cantava, cantava sempre. A ondulação do verso subia
das águas fundas do Tejo, desfazia num murmúrio
a mágoa da sua voz

lançava, não a parede
de um fado, mas o túmulo do destino: violência inerte e fértil
dissolvia no céu vazio do verão

nos azulejos em eco
viajava no pátio e nas veias da cidade
sem valor e sem préstimo a que possa recorrer, sem
vislumbre de qualquer esperança

era a toada mercadora dos vermes brancos do fado
«que queres ouvir e ver e tão perto?» (parecia perguntar-me) e
avançava na espessa noite da terra
deteve-se no meu caminho

junto ás ribeiras do rio, perdia-se
resto de lívida luz. A voz já não cantava
medida da perdição

bem próximo da minha pele. Alguém
apaixonado, compreenderia num olhar
o que não tinha nome em nenhuma outra língua

nem lugar em nenhuma outra pátria. A carruagem corria (taça de
metal branco) o timbre da sua voz
pela noite de Lisboa
sorte que está connosco
pronta a gerar plantas que envenenam a vida

num leito de folhas mortas.

- João Miguel Fernandes Jorge

domingo, fevereiro 01, 2009

[Can_you_feel_it__by_rooze.JPG]

Até que os anjos morram

Naquela história da menina de 7 anos
grávida pela segunda vez, era ele o pai
de quem nunca se chegou a falar.
Falou-me disso e de outras coisas. Lia sobretudo
jornais, e adorava os suplementos culturais,
os críticos e as suas receitas, figuras endeusadas,
personagens da semana, a imortalidade morta
de um país que há muito desistira de pensar.

Encontrei-o a beber – como de costume –
«até que os anjos morram». No rosto um sono de dias
arrastado, ou talvez fosse apenas um cansaço de sentir
o que chovia lá fora. A sombra embrutecida
caía-lhe para a frente, sobre a mesa, parecia vomitar.
Escreveu mais duas ou três palavras (um verso?),
imitando a falta de cor que lhe feria os lábios.
Nos dedos recuava o cigarro mais lento,
metáfora displicente no canto da boca
desse fim de tarde. A sua vida sem índice
e sem esforço de revisão, uma leitura insuportável.

O que mais lhe admirava era a camisa de flanela,
tão mas tão usada, cheia de borboto, listrada de azul
e um vermelho tímido de que em tempos
elas aprendiam a gostar, e muito. Assim o ouvi
tantas vezes explicar os botões que lhe faltavam.
Mas ultimamente foder, mesmo a ideia, já nada
parecia entusiasmá-lo,

e as poucas mulheres a que se chegava
aturavam-lhe as piores acusações, ralhava
ao mesmo amor a que converteu
outras noites, miúdas evidentemente feias,
mais propensas à solidão e à tristeza. Alguma
o desiludiu, pensávamos, e quando
lhe caía uma mão no ombro ou sorríamos,
ele dizia «Eu sei o que vocês pensam,
mas quem tem pena sou eu
e não gostava de estar no vosso lugar».