terça-feira, fevereiro 24, 2009

Quilómetro 148

Seguíamos na A2, sentido Norte-Sul,
fugindo ao carnaval na cidade
quando parámos para meter gasolina.
Na bomba ao lado um tipo atestava o depósito
enquanto da boca lhe pendia
o mais despreocupado dos cigarros. Os dois
vimos a cinza assentar entre o nosso silêncio
sem acender o menor temor ou sinal de pânico.

Em frente à estação de serviço algumas mesas
e cadeiras de plástico improvisavam
uma pequena esplanada, sentámo-nos por ali
junto a uma miúda dessas com quem
nos cruzamos para nunca mais, ou apenas
para as breves fantasias uma vez
por outra entre noites de amor
com nós próprios
. Tinha a cosmopolitan aberta
nos joelhos e lia-a mastigando folhas de alface,
uma salada com molho de iogurte (natural,
suponho eu), bebendo pela palhinha
um sumo de laranja, e nós, sobre duas latas
de cerveja, estendíamos o olhar
em anúncios sem efeito e desistíamos,
antes de tentarmos de novo.

Pagámos um primeiro e um segundo café,
e assim estávamos como dois deuses sem ideias,
absortos, numa tarde só nossa. Uma brisa
ia ou voltava e o sol enlouquecia
desfeito em rubores pouco acima da lâmina
do horizonte. Por desfastio, talvez,
fomos falando. Tinhas uns problemas
no trabalho e eu assentia ou fazia por seguir-te
de perto mas mesmo a minha voz sugeria
um despejo distante e só já te escutava
a dócil e ociosa sombra
suspensa dos nossos gestos.

Rasgaste várias vezes o mesmo guardanapo
e eu guardava a vaga intenção de uns versos
para mais logo. Frases inacabadas, a tarde toda
esperando que o sangue me subisse à cabeça
abrindo-a numa metáfora subtil, mas não,
não me veio nada senão a imagem
de mais um dia amarrotado, ainda ia a meio.

Quando regressámos ao carro quis pedir-te
para nos afastarmos em direcção à fronteira,
Espanha e depois França, até ao caralho se fosse
preciso – o mais longe possível de tudo isto.
Não disse nada. Baixei o vidro e deitei o braço
fora da janela, ondeando entre o vento.
No auto-rádio a música que nos levava
era Oltremare de Ludovico Einaudi. Agora
queria engolir cada nota – cheguei a tê-las
na garganta –, houve ali um instante
em que não pude distinguir dor e beleza,
e antes que me arrependesse gritei,
como fazíamos muito há muito tempo,
depois ri-me até te contagiar
e enfim tive a sensação
que estávamos no caminho certo.

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