sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Lux/Frágil

Para a Kate

Primeiro que tudo vem o som,
a vontade de imaginar estas palavras
pronunciadas com algum feedback e distorção.
O poeta pede que assim seja, debruçado
sobre os seus medos litorais: a tristeza,
a promessa de amor encaixada nuns
skinny jeans inatingíveis, calcular mal
a noite no que a gastos diz respeito
e acabar a pedir dinheiro emprestado
para uma bebida e, depois, um táxi.

Há, claro, esconderijos perfeitos: Cais da Pedra
a Santa Apolónia, Armazém A, Sala 2 com
o rugoso paladar a fumo excessivamente caro.

Ele diz que ela dança com o rosto tão confuso
como a respectiva sombra, tem os cabelos pretos
ou castanhos, não sabe ao certo, justifica-se com
a falta de visibilidade, o número de copos e cigarros,
qualquer coisa, que não rime metaforicamente com amor.

De novo o poeta reflecte sobre a necessidade
de imprimir no som o relevo de uma certa
distorção, em sintonia com as músicas
que constantemente ouve. É disso que se trata
no fundo, do poema ser como nenhuma outra música
e mesmo assim nunca ser silencioso.

Ela já não dança, cansou-se de ser musa
a coitada, ainda por cima sem o saber,
e agora todos nos apercebemos disso.
Tem o dedo ferido de tantas vezes ter projectado
nele as esperanças de um futuro melhor.
E sente-se tão frágil
no exacto momento em que os recibos
e as facturas do mês chocam com o desejo
de ter a cama quente, por uma e só uma noite
... apenas. Não, já não é material
para um poema, nem sequer para
uma ligeira concessão aos olhos da tristeza.
O coração – simplifiquemos com simbologia
a questão – deixou de ser invisível, deixou
de ter o que dizer.

O poeta volta a olhar para a pista.
Já nem sequer sente vontade de escrever.
Só a uma centena de corpos a dançar a mesma
música se assemelha o poema.

Qualquer palavra agora seria escusada.

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