Esta manhã,
ao ritmo de uma chuva que caía estéril
na zona da Trindade, tomava a bebida da paciência
de frente para uma dessas ruas a virar pela
angústia onde ultimamente venho notando
como deus copia descaradamente a pintura
de Van Gogh. Às vezes parece até desmazelo,
mas com calma percebe-se. Repara
como mesmo debaixo da fraca luz deste inverno
as cores parecem berros, aflição, suores,
contrastes grosseiros que nos assaltam
a pele, o sangue e o pensamento, intensi-
ficadas ainda pelo fedor que aqui e ali
se mete às costas do vento e penetra
estas linhas um nadinha antes de se perder.
Depois de ir aos saldos na Cotovia
– até dia 14 de Fevereiro (tempo de vida
útil que estimo para estas palavras) –,
desci ao Camões, as escadas rolantes,
e já na carruagem fixei os dedos de um puto
que desenhava mistérios, algum
oriente infantil, na janela suja do metro.
A meu lado, meiga, uma mulher sorria-lhe do alto
de uma ternura maternal. Fez-lhe uma festa na mão
que só o envergonhou, recuando subitamente feio
e real entre as pernas da avó que
não prestava atenção, distante,
algures nos podres elísios da sua velhice.
Tive pena que não fosse para esta mão
aquela carícia, teria retribuído de outra maneira.
Assim, continuou a segurar friamente
um livro com desconto rodeando
ou fugindo do desejo.
Puxei o ar mais fundo,
senti-lhe os pêssegos presos no cabelo e vi-lhe
o sorriso que ainda rastejou, magoado,
antes de chegar a resignação. De novo
endireitou-se, abriu o telemóvel, premiu dois botões
e começou por estragar a beleza que lhe emprestei
com uma pronúncia áspera, beirã,
aos solavancos. Pior ainda,
do lado de lá, demorei pouco a perceber
que algum namorado respondia, mais letra
menos letra, levando-a a descruzar as pernas
e soltar risinhos de calor, satisfeita
no consolo de um amor brejeiro
que acabou com as esperanças deste poema.
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