Não se ralava muito com o liceu – escola como
se diz agora –, nem sequer o meigo vendedor
de gelados com o seu rosto cada vez mais gentil
o comovia. Ficava horas seguidas, sozinho, rindo-
-se de tudo, de todos. Tinha tanto orgulho nos
poemas de Herberto Helder, como se tivesse sido
ele próprio a escrevê-los. Muito possivelmente
não os percebia. O tormento era o destino.
Vejo-o à distância de tantos anos, deitado na
cadeira de lona do terraço. Foi preciso a lonjura
de todo este tempo para reparar em como era
bonito. E agora não lhe posso estender as minhas
mãos. Somente o meu olhar quebra a lonjura entre
nós e apetece gritar «olhem, vejam como é de
facto bonito».
As raparigas estavam apaixonadas, mas ele não ligava
nenhuma às raparigas. Estendido na cadeira de
lona, vejo-o ao sol de outubro, pelo começo das
aulas.
O gasto casaco de linho creme, os sapatos de
atacadores, mal engraxados e, um deles, mesmo sem
atacador. Uma meia, irritante, de cada cor: azul,
vermelha; amarela, preta. E assim por diante
com o sorriso amargo que exibia quando atormentava
os outros. E eu
olho-o, agora, ao passar de todos estes anos,
eu vejo a sua beleza, os compridos dedos
acariciando o dorso do gato; e os seus cabelos
negros estriados ainda de mais negro.
E se eu fosse ontem
aquele que sou hoje
ter-lhe-ia dito «que pena um rapaz
tão bonito» misturado nos meus dezoito anos
com os primeiros versos publicados por Herberto
Helder
rodeados eu e ele, por extenso muro de pedra e
coberto nos cimos por aguçados vidros de garrafa.
Vidros verdes de garrafa
eram os seus olhos.
Só o gato, com as almofadas das mansas patas, no
andar cimeiro prosseguia, entre os vidros, como quem se
deixa beijar por quase todos.
- João Miguel Fernandes Jorge
Sem comentários:
Enviar um comentário