Certezas, disso enchem-se os idiotas. E é tão fácil escrever baixando o pensamento a uma série de convicções e seguir afirmando coisas segundo a disposição do momento, falar de pessoas e situações, envolvê-las numa moral de circunstância. Mas a literatura se alguma vez teve algum interesse, foi exactamente quando tentou fugir disso e de si mesma, anular-se, despretensiosa, numa imitação da vida.
Há um momento de muita força perto do final do filme The Reader em que a personagem de Ralph Fiennes procura uma mulher judia (em tempos vítima de um campo de concentração Nazi) para lhe entregar todas as poupanças feitas pela personagem de Kate Winslet (ex-guarda prisional nesse campo de concentração) e que entretanto se suicidara. A primeira reacção da mulher é de irritação, mostra-se revoltada vendo este gesto não como o último gesto de uma condenada mas como mais um desses insignificantes actos de contrição, um pedido de desculpa, como se a perseguição e os mortos pudessem ser desculpados. A certa altura ela chega mesmo a dizer qualquer coisa próxima disto: "Se o que querem é catarse vão ao teatro, sirvam-se da literatura (...). Ainda nos perguntam o que aprendemos nos campos de concentração! Mas não se aprende nada... Aquilo não era uma Universidade!"
Outra frase que me vem agora à cabeça é uma de Henrique Solari que diz «Procuram o significado da vida?... é dar-lhe significado.» Esta frase parece-me bem, interessante e tudo isso. Acontece que se a vida tem o sentido que lhe damos, a nossa pequena ficção até pode ser elegante, bem alimentada, polida e razoável, mas se há uma experiência que constrange (atordoa, anula, mata) esta invenção, já não será possível voltar atrás sem antes esquecer alguma coisa.
Entende-se que cada um queira oferecer-se um papel com significado no meio de uma história qualquer, mas no fundo se andamos à volta disto ou daquilo é apenas porque aí encontramos senão um entusiasmo ao menos um alívio ou consolo. A vida, como já foi dito, é um dia e depois outro. E a literatura pode dizer isto de muitas maneiras, com mais graça ou dor, até pode dizer outra coisa, o contrário, não interessa. Entretanto haverá sempre quem se chateie (ou nos chateie) com a importância que isto ou aquilo deverá ter, e eu continuo a gostar muito mais dos outros, os que não precisam de perfumar o que dizem ou escrevem num tom de seriedade e que, ainda assim, se tornam importantes. Voltamos a eles porque não têm pressa de nos ensinar alguma coisa, simplesmente fazem-nos (boa) companhia.
Há um momento de muita força perto do final do filme The Reader em que a personagem de Ralph Fiennes procura uma mulher judia (em tempos vítima de um campo de concentração Nazi) para lhe entregar todas as poupanças feitas pela personagem de Kate Winslet (ex-guarda prisional nesse campo de concentração) e que entretanto se suicidara. A primeira reacção da mulher é de irritação, mostra-se revoltada vendo este gesto não como o último gesto de uma condenada mas como mais um desses insignificantes actos de contrição, um pedido de desculpa, como se a perseguição e os mortos pudessem ser desculpados. A certa altura ela chega mesmo a dizer qualquer coisa próxima disto: "Se o que querem é catarse vão ao teatro, sirvam-se da literatura (...). Ainda nos perguntam o que aprendemos nos campos de concentração! Mas não se aprende nada... Aquilo não era uma Universidade!"
Outra frase que me vem agora à cabeça é uma de Henrique Solari que diz «Procuram o significado da vida?... é dar-lhe significado.» Esta frase parece-me bem, interessante e tudo isso. Acontece que se a vida tem o sentido que lhe damos, a nossa pequena ficção até pode ser elegante, bem alimentada, polida e razoável, mas se há uma experiência que constrange (atordoa, anula, mata) esta invenção, já não será possível voltar atrás sem antes esquecer alguma coisa.
Entende-se que cada um queira oferecer-se um papel com significado no meio de uma história qualquer, mas no fundo se andamos à volta disto ou daquilo é apenas porque aí encontramos senão um entusiasmo ao menos um alívio ou consolo. A vida, como já foi dito, é um dia e depois outro. E a literatura pode dizer isto de muitas maneiras, com mais graça ou dor, até pode dizer outra coisa, o contrário, não interessa. Entretanto haverá sempre quem se chateie (ou nos chateie) com a importância que isto ou aquilo deverá ter, e eu continuo a gostar muito mais dos outros, os que não precisam de perfumar o que dizem ou escrevem num tom de seriedade e que, ainda assim, se tornam importantes. Voltamos a eles porque não têm pressa de nos ensinar alguma coisa, simplesmente fazem-nos (boa) companhia.