domingo, fevereiro 01, 2009

Até que os anjos morram

Naquela história da menina de 7 anos
grávida pela segunda vez, era ele o pai
de quem nunca se chegou a falar.
Falou-me disso e de outras coisas. Lia sobretudo
jornais, e adorava os suplementos culturais,
os críticos e as suas receitas, figuras endeusadas,
personagens da semana, a imortalidade morta
de um país que há muito desistira de pensar.

Encontrei-o a beber – como de costume –
«até que os anjos morram». No rosto um sono de dias
arrastado, ou talvez fosse apenas um cansaço de sentir
o que chovia lá fora. A sombra embrutecida
caía-lhe para a frente, sobre a mesa, parecia vomitar.
Escreveu mais duas ou três palavras (um verso?),
imitando a falta de cor que lhe feria os lábios.
Nos dedos recuava o cigarro mais lento,
metáfora displicente no canto da boca
desse fim de tarde. A sua vida sem índice
e sem esforço de revisão, uma leitura insuportável.

O que mais lhe admirava era a camisa de flanela,
tão mas tão usada, cheia de borboto, listrada de azul
e um vermelho tímido de que em tempos
elas aprendiam a gostar, e muito. Assim o ouvi
tantas vezes explicar os botões que lhe faltavam.
Mas ultimamente foder, mesmo a ideia, já nada
parecia entusiasmá-lo,

e as poucas mulheres a que se chegava
aturavam-lhe as piores acusações, ralhava
ao mesmo amor a que converteu
outras noites, miúdas evidentemente feias,
mais propensas à solidão e à tristeza. Alguma
o desiludiu, pensávamos, e quando
lhe caía uma mão no ombro ou sorríamos,
ele dizia «Eu sei o que vocês pensam,
mas quem tem pena sou eu
e não gostava de estar no vosso lugar».

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