Tara
(II)
(Sou Salomão. Estou a pensar em construir um altar secreto para os domingos.
Não procuro em vocês uma mão para as costas, mas sim que a tenhais para me ajudar
a escapar da maré.
O rio ao qual caí multiplica o seu caudal conforme os outros choram.
O meu coração é uma esponja, uma caixa negra que recolhe
tudo quanto sucede.
A casa mortuária, entretanto, exerce a sua função. Aluguer igual ao frio.
Uma mulher loira, pálida, dá-me as boas vindas. Sou Salomão.
Mostrar-te-ei o meu altar secreto
se me guiares até onde descansa)
Ofélia do outro lado do vidro, Angélica depois de quatro anos,
respeitada pelas águas,
enquanto eu esperneio para não me afogar. Pronuncio água
e choro por aquilo de que careço. Como carregar num botão
no profundo das minhas costas. O que conheço cansa-me.
Disseste dois dias antes: quando melhorar, vou à cabeleireira
para arranjar este desastre.
O vidro mostrava o contrário: no teu cabelo antes cinzento,
desalinhado, brilharão os caracóis durante quarenta dias
e quarenta noites.
Nunca vulnerável, nunca morta: tão formosa como a
última vez em que nos vimos.
(Deus, então, poisou as suas mãos sobre os meus ombros
e senti-me sozinha)
Releitura do Livro do Apocalipse
(I)
Reservaram no inferno um sofá propício para as minhas irmãs.
Eu estou sentada, adormecida perto Dela,
e recolho a sua pequena mão que sangra,
recolho a sua pequena mão com força até que oiço
quebrar-se-lhe o dedo anelar, mas a dor sou eu que a sinto,
perto dela;
ainda que se continuasse a fragmentar, ainda que se convertisse
em terra e origem, as lágrimas, o grito,
pertencer-me-iam.
Abro-me lentamente à penumbra, como se viesse de leste,
minha gémea. Rebelião descalça, corvos à chuva.
Agora é inverno e nego-me a jazer ao pé da carne
da qual me multipliquei.
A que sabe tudo isto. A prateado e panorâmica, digo-te. Cala-te
E engole tudo, mando-te.
(tradução: David Teles Pereira)
1 comentário:
muito bem, tiago nen... err... david, digo
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