Sei-o porque os meus dedos
se transformaram em lápis de cor.
Sei-o porque com eles
desenho mulheres com rosto de epitáfio
nas paredes da tua casa.
Porque, ao toque da ponta,
começa o derrame dos cimentos
formando arco-íris na noite.
Porque, ao escrever testamentos
no chão, removem-se as vísceras
de açúcar e trepam as tuas raízes.
Gravo versos de cores frias
na tua pele, da arquitrave à base,
e chove sobre eles e diluem-se, e comprovo
que a chuva soa como os berlindes ao cair
brilhantes e alaranjados
que trocava no pátio do recreio,
pouco antes de vestir o meu primeiro biquíni.
Hoje guardo os berlindes, como um apagado
tesouro, nos buracos doutras costas.
Pinto também na varanda da frente
um jardim de lápides caídas e bonitas.
Traço – como uma medusa de bronze –,
um paraíso de cadeias abrindo no húmus
um vale diminuto que proclama que é frágil
e , não obstante, dirás tu, sobrevive.
- Elena Medel
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