segunda-feira, março 30, 2009

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Estes poemas

Estes poemas têm saudades da sua terra.
Continuam a emergir
da minha caneta
e a fugir
para norte.
Nunca serão domesticados.
Nunca terão bom aspecto.
Deixam a página numa confusão
com as suas imagens persistentes
de uma quinta,
ruminam entre as suas cordas
de metáforas urbanas
e esgueiram-se logo que podem.
E quando não têm saída
enroscam-se rancorosamente
debaixo dos seus títulos
e deixam-se morrer à fome.

- Leona Gom
(tradução de L.P.)
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domingo, março 29, 2009

Espreitávamos todas as ruas estreitas
e seguíamos pela desordem juvenil
dos bares & esplanadas.
Sentados no banco de trás dessa noite
caías entre mim e outro gajo que estava
a sair-se bem melhor. Eu esperava ainda
uma nota mais inspirada e pus-me
a acender cigarros, depressa, uns
contra os outros, deixando dois no fim
caso entretanto surgisse a oportunidade
de nos afastarmos juntos.

Acho que estava apresentável, penteado
e perfumado num casaco de tweed bege
emprestado e a minha única gravata de malha.
Alguma coisa nesta combinação mereceu-te
um elogio e finalmente pediste o tal cigarro.

Fomos andando até uma música
que nos agradasse aos dois, novamente
sentados, amadurecias-me o olhar e as intenções
ao mesmo tempo que passavas
os dedos pelos lábios como se
evitasses deixar o caminho livre. Adiante
apenas os copos na mesa à sombra
do coração, e, a torcer-se na garganta,
algumas palavras e o seu demorado veneno,
avanços que tardavam em produzir efeito.
Aí e entre tantas quebras em silêncio
julguei perder-te quando te puseste
muito séria e murmuraste: «Diz-me, Diogo,
estamos muito longe de Montmartre?»
Não sei se entendi e não quis falar de Paris,
que mesmo quando lá estive
não me deixou mais que
um significado relativamente vago.

Fui pedindo ajuda e confiando no álcool,
entretanto já soluçavas sobre uns restos de
ternura ou talvez fosse apenas o sono
que tantas vezes facilita a entrega.

Soube descer escadas contigo nos braços,
apanhar um táxi e trazer-te para casa,
oferecer-te a cama da minha irmã
e ficar calmo à medida que apagavas.
Depois de tudo, pareceu-me tão injusto
que te pus dois dedos, sem aviso, lá dentro
e tu nem sonhavas nem acordaste.
Talvez não devesse, mas
apeteceu-me tanto provar dessa inocência.
Ficou-me nos dedos o sabor de uma agonia
menstruada e doce, esgueirando-se
muito para lá desse momento,
indo e voltando da minha velhice e derrota
com uma saudade agredida de loucura.

Então vi-me ao fundo como
a um vulto noutras noites temperadas
de lembranças e derivações imaginárias,
a fazer o caminho de volta, esquecendo
tudo o que não interessa
para chegar à certeza do teu corpo.
E é isso, agora que amanhece, o que me
dói no teu cheiro, o desejo
nos limites do exagero e o sangue
acelerando, para se estragar pouco depois.
Aqui mesmo, a descamar lentamente neste
triste acto de amor – a tua imagem
apertada entre os cinco dedos da mão direita
e a sensação de que tenho a vida toda
pela frente e ela acaba de passar
por mim só para recuperar um instante
em que estiveste mais perto.

Se...

Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o «ponto» do Jorge!) tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva»;
E Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto…

…Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?

- Alexandre O’Neill

sábado, março 28, 2009

Os mais pedidos

nada de mais irresistível do que
um homem corando
apetece logo beber-lhe a cor
comer-lhe a face
esfacelar-lhe o rosto

concentrar-lhe o sangue onde
deus em pessoa abocanha

- Bénédicte Houart
os namorados namoram é uma redundância
no fundo
basta um homem
de vez em quando
só para matar saudades

- Bénédicte Houart

Por causa de uma ave

para a minha mãe

Cada vez gosto menos de saborear
o travo tão pastoso da morte, o murmúrio
secreto dos seus olhos invisíveis
dentro de mim. Porém, há pouco tempo,
num fim de tarde deste fim de julho,
passou-me um episódio que rompeu
de repente na alma todas as comportas
que fingem proteger os ópios tranquilos
a que chamamos vida. Aconteceu
depois de ter chegado a esta casa
perdida numa encosta de província
e onde venho só de longe em longe:
foi durante a limpeza da sala maior
que, afastando um armário, descobri
entre pequenas teias, quase envolto
num sudário de pó, ali esquecido,
na treva e no silêncio dos meses de inverno,
o esqueleto de um pássaro. Entrara
pla chaminé de pedra e escorregara
até cair junto à lareira. Hoje
imagino o pavor do seu voo suicida
poisando às cegas de móvel em móvel,
dias e dias plo escuro deserto
da sala fria, à toa, procurando
escapar ao seu naufrágio, encontrar
uma réstia de céu, até que, já sem forças,
se deixou deslizar para trás desse armário
onde morreu de sede e fome e solidão
enquanto mal batia as asas
em arremedos de frustradas fugas.

Ao ter na mão aquele resto de corpo
os “pedacinhos de ossos”, toda a quilha
do peito sustentando o arco das costelas,
as minúsculas patas quase intactas,
lembrei-me, num relance de terror,
de outros ossos maiores, os do meu pai,
a não muitas centenas de metros daqui,
num absurdo cubículo de pedra
sobre o qual está gravado um nome de família.
Apodrecem há mais de quinze anos
em sombras que serão iguais a nós
– passageiros ingénuos e translúcidos
de corpos consumidos no seu próprio lume.
Ao sentir entre os dedos o que foram asas,
vi nos últimos gestos dessa ave,
chocando com as paredes, sem saída,
o mesmo desespero esbracejante
de uma nocturna cama de hospital
onde houve um homem que lutou às cegas
no seu estertor febril e consciente,
junto à fronteira íntima, abissal,
que nem a voz transpõe. Nenhum dos gritos
pode ecoar nos meus, aqui, agora,
nesta dádiva enxangue e sem destinatário,
porque toda a poesia se resume
a um calafrio embalsamado em letras,
palavras destinadas a morrer
no momento em que as páginas de um livro,
como as asas de um pássaro, os braços de um homem,
se fecham num sono a que ninguém responde.

- Fernando Pinto do Amaral

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

- Alexandre O'Neill

quinta-feira, março 26, 2009

Chega amanhã às livrarias do costume

[criatura3.jpg]

REVISTA CRIATURA nº 3 – Abril de 2009, 156 pp., 8 euros
(Tiragem Única de 300 exemplares)
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto
Impressão e Acabamento: Guide - Artes Gráficas Lda.

educação sentimental (I)

dizia-lhe que lhe doía a cabeça antes de ambos começarem a conversar
queixava-se sempre disso,
sei isto porque
às vezes
enquanto estendia a roupa conseguia ouvir-lhe essa queixa que me levou instintivamente a rotulá-lo de fraco: como é do conhecimento geral, nenhum homem sofre de
enxaquecas

mas como dizia, queixava-se frequentemente da cabeça mas nem sei muito bem porquê, uma vez que, quando a morte o surpreendeu não tinha quaisquer objecções a apresentar-lhe em relação à cabeça: a moça com a grande foice censurava-o antes de estômago (sei disso porque da janela o vi cair de borco e fulminado para cima da mesa, no intervalo de dois copos de uísque: só pode ter sido coisa relativa a miudezas digestivas)

à parte isso
como eu dizia
costumávamos sentar-nos no banco do lado de cá da minha varanda, depois do ódio, isto é, depois de eu ter deixado de o odiar e uma vez ou outra chegámos mesmo a conversar, embora a maior parte das vezes as nossas conversas consistissem apenas em trocas recíprocas de palavras que nunca me permitiram muito bem avaliar verdadeiramente o carácter do indivíduo
antes costumava odiá-lo porque

por qualquer motivo - o qual eu nunca cheguei a perceber muito bem qual - ele costumava levantar-se a meio da noite para fumar e deixava as beatas do meu lado da varanda, sei de resto que era ele e a meio da noite porque no final da tarde nunca havia beatas e de manhã estavam lá sempre
hábito detestável, diga-se
mas tolerável

o que de facto era intolerável eram as bananas, que vinham imediatamente a seguir ao cigarro
ele acabava sempre por comer uma banana, deixando a casca como oferenda ou recordação também do lado de cá, da minha varanda
quando aos sábados limpava a varanda
lançava-lhe uns olhares furiosos que ele retribuía com um baixar de olhos relutantemente pudico portanto

apesar de uma morte ser sempre uma grande perda não posso deixar de concluir, e corrijam-me se estiver errado,

o que sobra de ti,
depois de teres sido macaco toda a vida
é a puta da casca

por outro lado, agora que não tenho vizinho acho a coisa um pouco perturbadora (não tendo quaisquer espécies de vizinhos a minha solidão vê-se melhor)

Pretextos para fugir do real

A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da provocação. É assim
que te faço arder triunfalmente onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a fonte desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

*

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.

- Alexandre O´Neill

quarta-feira, março 25, 2009

Estação de Inverno

A 60ª edição do programa Estação de Inverno foi ontem para o ar e nela foram lidos poemas que integram o segundo número da revista criatura. A versão em podcast já está disponível para download no seguinte endereço - http://archive.radiozero.pt/inverno20090324.mp3

Aqui fica também o endereço para o programa em que foram lidos textos do primeiro número da revista - http://archive.radiozero.pt/inverno20081216.mp3


Este é um programa da responsabilidade de João Blake

Maremoto

Quando a primeira chuva, ainda no verão,
lava e suja a memória, o íntimo caudal
de tudo o que chamamos «experiência»,
sucede-me pensar que já não sei escrever
poemas como dantes, quando as horas
se dilatavam, escuras, até se perderem
no mar, que me oferecia o seu rugido
enquanto as ondas vinham rebentar
mesmo em cheio no meu coração. Toda a noite
cada pergunta iria transformar-se
em milhares de respostas, prateados ecos
da lua sobre a água.

Revivo agora as ruas mais estreitas,
as ribas escarpadas, sob um novo
céu. À espera de um rosto inesperado, os rapazes
e as raparigas pairam de esplanada
em esplanada, repetem os rituais
do programado agosto, discutindo
marcas de motos ou de jeans e outros
assuntos igualmente sérios, decisivos
como para os seus pais devem ser os impostos,
os partidos políticos, os clubes
de futebol, os níveis de audiência
das televisões onde todos se vê(e)m
até ao infinito – espelhos sobre espelhos,
reflexos de reflexos no refluxo
das vozes que deflagram no interior
de um bar onde entro por acaso: gritam
«Don't you forget about me!» Já não sei
se vale mesmo a pena esse pedido
a horas como estas em que os Simple Minds
ainda vociferam num écran
atraindo os olhares ocasionais
de muitos outros simple minds, até
ao infinito – espelhos sobre espelhos,
reflexos de reflexos. Sim, eu sei
que estou a repetir-me, não é fácil
queimar agora o tempo que não arde,
por mais fogos que os olhos se divirtam
a atear noutros olhos, nessa pose
falsamente blasée de quem viu tudo
mas nunca sentiu nada e se limita
a imitar impunemente os gestos
e os sorrisos mortíferos de alguém, errante
reflexo de reflexos. Volto a repetir-me
em circuito fechado, mas três whiskies
trazem de vez em quando alguma lucidez.

Lá fora a lua dorme, envolta pelo negro
e quente cobertor das nuvens quase à deriva
no mar da minha boca, onde os desejos
infiltraram de novo o seu travo de treva,
o preço que ainda tenho de pagar
e é cada vez mais alto e nem a chuva
leva consigo. O mundo
desabou nos meus ombros e a própria linha
do horizonte oscila devagar
dentro do copo – inútil maremoto
de um líquido infeliz, sempre ao sabor
da mão que o move sem saber porquê.

- Fernando Pinto do Amaral

Pela voz contrafeita da poesia

Dá-nos os passos os teus passos
de manhã triunfal de cidade à solta
os gestos que devemos ter
quando a alegria descobrir os dedos
em que possa viver toda a vertigem
que trouxer da noite
os primeiros dedos do sonho
do teu sonho nosso sonho mantido
mesmo no mais íntimo abandono
mesmo contra as portas que sobre nós:
em silêncio e noite
em venenosa ternura
em murmúrio e reza
se fecharam já
mesmo contra os dias vorazes
que por todos os lados nos assaltam
e consomem
mesmo contra o descanso eterno
a viagem fácil
com que nos ameaçam vigiando
todo o percurso do nosso sono
interminável sono coração emparedado
no muro cruel da vida
desta que vivemos que morremos
assim esperando
assim sonhando
sonhando mesmo quando o sonho
ignorado recua até ao mais íntimo de cada um de nós
e é o gemido sem boca
a precária luz que nem aos olhos chega

Não digas o teu nome: ele é Esperança
vai até aos que sofrem sozinhos
à margem dos dias
e é a palavra que não escrevem
sobre as quatro paredes do tempo
o admirável silêncio que os defende
ou o sorriso o gesto a lágrima
que deixam nas mãos fiéis

Não digas o teu nome: quem o não sabe
quem não sabe o teu nome de fogo
quem o não viu entrar na sua noite
de pobre animal doente
e tomar conta dela
mesmo só pelo espaço de um sonho

O teu nome
até os objectos o sabem
quando nos pedem um uso diferente
os objectos tão gastos tão cansados
da circulação absurda a que os obrigam

As coisas também gritam por ti

E as cidades as cidades que morreram
na mesma curva exemplar do tempo
estão hoje em ti são hoje o teu nome
levantam-se contigo na vertigem
das ruas no tumulto das praças
na espera guerrilheira em que perfilas
o teu próprio sono


*


Ah
onde estão os relógios que nos davam
o tempo generoso
os dedos virtuosos os pezinhos
musicais do tempo
as salas onde o luxo abria as asas
e voava de cadeira em cadeira
de sorriso em sorriso
até cair exausto mas feliz
na almofada muito azul do sono

Onde está o amor a sublime
rosa que os amantes desfolhavam
tão alheios a tudo raptados
pela mão aristocrática do tempo
o amor feito nos braços no regaço
de um tempo fácil
perdulário
vosso

Hoje não é fácil o tempo
já não é vosso o tempo
viajantes do sonho que divide
doces irmãos da rosa
colunas do templo do Imóvel
prudentes amigos da vertigem
deliciados poetas duma angústia
sem vísceras reais
já não é vosso o tempo.

Noivas do invisível
não é vosso o tempo
Relógios do eterno
não é vosso o tempo


*


Impossível

Impossível cantar-te
como cantei o amor adolescente
colorindo de ingenuidade
paisagens e figuras reduzindo-o
à mesma atmosfera rarefeita
do sonho sem percurso no real
Impossível tomar o íngreme caminho
da aventura mental
ou imaginar-te pelo fio estéril
da solitária imaginação

Tão-pouco desenhar-te como estrela
neste céu infame
dizer-te em linguagem de jornal
ou levar-te à emoção dos outros
pela voz contrafeita da poesia

Impossível

Impossível não tentar dizer-te
com as poucas palavras que nos ficam
da usura dos dias
do grotesco discurso que escutamos
proferimos
transidos de sonho no ramal do tempo
onde estamos como ervas
pedrinhas
coisas perfeitamente inúteis
pequenas conversas de ferrugem de musgo
queixas
questiúnculas
arrotos comoventes


*


Mas de repente voltas
numa dor de esperança sem razão de ser

Da sua indiferença
agressivamente as coisas saem
Sentimo-nos cercados
ameaçados pelas coisas
e agora lamentamos o tempo perdido
a dispô-las a nosso favor

Porque é tempo de romper com tudo isto
é tempo de unir no mesmo gesto
o real e o sonho
é tempo de libertar as imagens as palavras
das minas do sonho a que descemos
mineiros sonâmbulos da imaginação

É tempo de acordar nas trevas do real
na desolada promessa
do dia verdadeiro


*


Nesta luz quase louca
que se prende aos telhados
às árvores aos cabelos das mulheres
aos olhos mais sombrios
falamos de ti do teu alto exemplo
e é com intimidade que o fazemos
falamos de ti como se fosses
a árvore mais luminosa
ou a mulher mais bela mais humana
que passasse por nós com os olhos da vertigem
arrastando toda a luz consigo

- Alexandre O´Neill

Equação

De pé neste penhasco,
aceito a mentira da paisagem.

Tudo é inacessível:
o orvalho
..... ... ...– que é suor vegetal –
e o comboio que passa.

Uma cegonha voa a preto e branco.

Tem o seu ninho no cimo da igreja
que fica junto ao cemitério.
Estranho paradoxo,

a pedra testemunha a fugacidade,
a carne é apenas um leito para o tempo.

(Cada osso que tenho é uma lápide
pelos mortos que escondo no meu íntimo.)

Para quê contar o tempo que nos resta?

Viver é abraçar escuridões:
do que não sabemos ao que não sabemos,
de uma distância a outra distância.
Tudo é inacessível.

Quem vê um comboio passar compreende o resto.

- Josep M. Rodríguez

terça-feira, março 24, 2009

Toma lá cinco!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

- Alexandre O'Neill
-
Devo estar a ficar velho, se fiz uma longa viagem
sempre sentado, se nada vi
senão a chuva, se um débil raio
de vida silenciosa... (os operários
entravam e saíam do comboio,
levando de uma aldeia para um lago tranquilo
o sono e as ferramentas de trabalho).
Quando cheguei à cama também gritei:
somos homens, mais cansados que cobardes.

- Sandro Penna

Chuck

Toda a gente devia ver Chuck, porque o raio da série é óssome. É mais ou menos um OC, só que tem espiões em vez de adolescentes. E, mais importante, em vez de uma espécie de puto rico, que é indie, tem uma espécie de empregado da fnac, que é indie.

segunda-feira, março 23, 2009



You say you want a revolution
Well, you know
We all want to change the world
You tell me that it's evolution
Well, you know
We all want to change the world
But when you talk about destruction
Don't you know that you can count me out
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right

You say you got a real solution
Well, you know
We'd all love to see the plan
You ask me for a contribution
Well, you know
We're doing what we can
But when you want money
for people with minds that hate
All I can tell is brother you have to wait
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right

You say you'll change the constitution
Well, you know
We all want to change your head
You tell me it's the institution
Well, you know
You better free you mind instead
But if you go carrying pictures of chairman Mao
You ain't going to make it with anyone anyhow
Don't you know it's gonna be all right
all right, all right
all right, all right, all right
all right, all right, all right

Uma vida de cão

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente» vida de cão

*

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

*

Até aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em “bons” poemas “maus” poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e “a dor é grande” dizes tu
“mas sublime”

*

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro

- Alexandre O'Neill

domingo, março 22, 2009

um dia apagam-se os teus braços nas pedras. os teus braços que sobem pelos muros na madrugada azul cinzenta. é útil, porém, ser de chão, sem subir. ter pequenas mãos. tentativos braços. o teu corpo incendiado de cinzento um destes dias respira à tona de água.há um semi-círculo desenhado no rodar dos corpos, dos corpos que passam e regressam na água antes do trovão te rasgar o peito mas tu já não o vês. não o reconheces.
e há um nome semeado ao fundo da tua boca. eu hei-de ir buscá-lo sem sangue, segurando um punhal entre dois dedos. o risco do horizonte da noite desenhado abaixo da linha dos joelhos. será como entrar numa pequena vila ao fim da noite, cortada por duas ruas dividida em quatro quarteirões (um farol no extremo ocidental elucida os barcos da sua presença na costa).
como eu dizia, ir lá buscar o nome com o punhal, memória silenciosa de borboleta contra os últimos braços de luz. ir lá buscá-lo. o nome do tamanho das mãos.
que me esqueça dele depois.
já terei estado em ítaca e saberei para que servem as ítacas.

The Black Balloon (2008)



Uma verdadeira pérola - 9/10

sábado, março 21, 2009

[Vast_Homeland_by_dim_baida.jpg]

Doodles & Cartoons

Passou a manhã sobre
a mesa da cozinha a desenhar fruta,
rabiscos e uns bonecos com balões estilo bd
a lançarem-se sarcasmos, e foi variando
entre as suas compilações de música
indie, melodias inseguras, outras
simplesmente histéricas. Ao lado
um saco de rebuçados de mentol, a chávena
de chá preto, um maço e um cinzeiro.
Ia deixando os grandes e húmidos olhos
borrados, num rastro acastanhado em que
aos poucos se perdeu a tarde inteira.

Eu fui passando uma vez por outra
para espreitar o que estava a fazer;
gosto de cheirar-lhe
as mãos, sussurrar-lhe disparates junto
ao ouvido, ou pedir-lhe a opinião
sobre estrofes assim, em que
pouca coisa acontece.

Às vezes penso que passamos muito tempo
fechados, há aqui um vazio que me dói
nos joelhos, põe-se a roer-me as unhas
e os ossos, a escrever por mim estes versos.
A ela dói-lhe no ventre, espasmos
desse mesmo vazio. Afasta-se e vai parindo
(do quarto à casa-de-banho e pelo corredor)
silêncios, uma enorme vedação em seu redor.

Têm vindo a crescer pilhas de desnecessários
livros no chão, arrumados contra as paredes
pela ordem em que os fomos deixando
a meio. Ela entretêm-se a alinhá-los com os pés,
descalços, enquanto passeia pelo apartamento
em cuecas apenas – as preferidas dela:
verde clarinho, com letras
cor-de-rosa à frente, a dizer «revolução».
Este fim-de-semana acabou por organizar
sozinha uma pequena manifestação. Barricada
na despensa, entre variações de humor,
lá ia tendo bons e maus motivos para
não querer sair.

Eu tenho deixado de fingir convicções
só para ela ter com quem brincar
às consciências, políticas ou sociais,
umas noções dessas arranjadas à pressa
a ver se ainda salva o mundo.
Já não sei quantas vezes mudámos
de ideias e andámos perdidos por uns tempos
para enfim voltarmos sempre a estas
divagações extra-literárias. Mas hoje,
não sei explicar porquê,
também eu sinto que ando a precisar
de levar um tiro por uma causa qualquer,
um encantado ponto final que venha
beijar-me a boca.

Estou aqui entornado sobre o vestido
que ela acaba de enfiar pela cabeça e aquelas
cores silenciosas pouco me trazem.
Disse que gostava de ir a algum lado,
mas entretanto não resolveu onde. Está ali
sentada sobre o velho televisor da Siemens
do tempo em que o meu pai tinha idade
para ser meu filho. Regressa. Fala por falar:
diz que gostava de ter filhos, um dia…,
mas também diz várias vezes que seria
uma péssima mãe
– possivelmente espera que a contrarie,
eu prefiro não. Estamos os dois
demasiado crescidos para ainda aguentarmos
alguém que repita constantemente
que vai ficar tudo bem.

Felizmente faz algum tempo que deixou
de insistir em chamar a atenção de família
& amigos por coisas de nada.
Isto depois de algumas lavagens
ao estômago, suaves prestações de sangue
e uma série de desiludidos suicídios. Entretanto
anda mais calma e até começou a juntar
dinheiro para uns implantes. Ainda houve
um episódio no outro dia depois de vermos
o Revolutionary Road. Fartou-se de chorar.
Pensei que íamos voltar ao mesmo, mas não,
adormeceu e passou-lhe.

A maioria das noites vamos enrolando
paisagens e fumando-as até estarmos exaustos,
desnorteados depois de tantas viagens
no tecto do quarto. Inchados de sono
saímos e entramos no abraço um do outro,
acho que visto de fora ainda devemos parecer
apaixonados. Outras noites fico até mais tarde
enquanto ela dorme de olhos abertos, com
uma estranha e infantil meiguice no rosto,
e às vezes a meio de um sonho
larga frases em inglês – “rain keeps falling in
my head… where it comes from I don’t
know and I don’t know” –, restos eternos
de canções que não sei onde ouve
e outras ausências que soletra tristemente.
Também não sei o que pensa se sou eu
quem dorme, não sei sequer se fica a olhar.

Muitas vezes acordamos os dois
um pouco eufóricos a horas improváveis
e dá-me vontade de fugir com ela.
Penso que se calhar nos devíamos vestir pior,
tomar banho menos vezes, abdicar
dos últimos planos que ainda nos restam
e metermo-nos num comboio
sem destino. Como naquelas histórias
que já não se contam às crianças, agora
presas e vigiadas nestas cidades esquisitas
de prédios inclinados com o peso
sobre as nossas costas,
jardins abandonados com fontes silenciosas
que vão vivendo das chuvas e no fundo
guardam o sono profundo de velhas bicicletas.

Sei que é uma imagem fácil, uma ideia
vulgar, mas prefiro assim mesmo,
deixar que isto termine por cima
de uma sensação envergonhada,
vibrando como um eco que nos lembre
que agora como antes ainda podemos
mudar alguma coisa. Se ela quiser
vamos embora hoje mesmo.

sexta-feira, março 20, 2009

João "que Grande" Coração

Para o António

Vem um dia em que o corpo não responde
não acorda não condiz
não se habitua

É uma primeira e definitiva recusa: alheio
não se dá ao trabalho de
avisar ou despedir-se

– o corpo

vem um dia: agora e na hora
da nossa morte
amen

- Rui Caeiro

Across The Universe (2007)



Um poderoso musical a partir de covers dos Beatles - 9/10

De Passagem

I

Vai-te vai-te
tu que andas como um cego a fingir de vidente
tu que deixas abismados os adolescentes
com teus gestos de Embaixador do Invisível
de Sacerdote do Murmúrio
de generoso Dador do Sangue da Vertigem
vai-te
e que as mulheres que alguma vez te serviram de mãe
te recolham de novo e te cubram com trapos de ternura
com piolhos de ternura
com chagas
ranho
esterco de ternura
e que depois te dispam como se despem os velhos e as crianças
e levem anos a descolar do teu corpo confrangido
as crostas que por ternura lá puseram
anos e anos às soleiras das portas
a livrar-te dos piolhos dos milhares de piolhos
que sugam a tua cabeça de pateta

E quando puderes revolta-te
toma o Caminho-de-Todas-as-Surpresas
o caminho que correste ao contrário
em desumano sentido proibido
luta com os vagabundos de sonho que encontrares
e extermina-os
eles são a tua velha presença nesta terra de homens
são o que tu pensavas ter de mais humano
luta com eles e prossegue
precipita o teu novo ser
corre à tua frente
deixa lá os gritos e as rezas
as cartas das mulheres que ficaram para trás
anda anda sempre
começas a parecer-te com qualquer um de nós
e o teu riso já é humano

II

E também tu ó o dos gestos de martelo cósmico
também tu falso estribo do orgulho
vaidade espiada nas montras
onde o luxo mostra os dentes à canalha
tu mesmo
miséria esplendente destas ruas
enrodilhado sonho de grandezas impossíveis
cisne pálido do cinismo
arroto azul
sangue de empréstimo
lapela das pequenas virtudes dos pequenos mitos
que te sustentam ainda ó morto já de há muito
desaparece também tu no grande esgoto
que faz justiça a todos
não te resignes a esperar
aqui és só grotesco
só esse luar essa ilusão de vida
que furtas ao dia-a-dia
esse rompante megalómano
diário esconjuro do medo
espelhinho de hora a hora interrogado

Desaparece agora que ninguém dá por ti
agora que os martelos cósmicos
dormem o sono da eterna ferrugem
algures no céu já morto

- Alexandre O'Neill

quinta-feira, março 19, 2009

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós

- Eugénio de Andrade
Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

- António Franco Alexandre

quarta-feira, março 18, 2009

Corte à guineense

“Soubeste do Silva Costa?”, pergunta-me depois de limpar o nariz à toalha de mãos do lavatório.
“Foda-se, cortaram-te isto à catanada”, digo.
“És um esquisito… o gajo morreu.”
“Foste enganada”, aproximo o nariz do espelho para o observar com mais pormenor. Está vermelho, com uma mancha que se alastra quase até ao lábio superior. Os indícios dum corte guineense improvisado no Bairro Alto são inegáveis. A coloração não levantava grandes suspeitas, mas a experiência da Rita em aquisições deste calibre também não augurava nada de bom.
“Fui enganada? Quem é que te disse que ele não morreu?”
“Quem é que não morreu? Estás a falar do quê?”
“Do Silva Costa. Disseram-me que o gajo quinou, dum cancro daqueles lixados, acho que de fígado ou pâncreas.”
“O primo do Chico?”
“Não.”
“Ah, já sei quem é”, acho, “Mas não pode ser, ainda ontem o vimos no Noobai, não te lembras?”
“Isso foi o Cabral, nem sequer são do mesmo escritório. O Silva Costa é aquele gajo do nosso ano que foi para a A.”, por mais que tente não consigo irmanar um rosto com o nome, talvez tenhamos coincidido num daqueles momentos mais nublados da minha existência enquanto aluno da faculdade. Deve ser isso.
“Era da nossa idade?”
“Acho que sim. Quer dizer, não sei, talvez fosse mais velho um ano ou dois, mas era mais ou menos da nossa idade.”
“Isto queimou-me os canos todos”, sinto um ardor fora do comum no interior das narinas.
“És um exagerado, dantes parecia que tinhas um nariz de platina, metias tudo, agora andas armado em menino.”
Sorrio.
“Requintei-me”, pressiono com força cada um dos lados do nariz, mais por tique que por necessidade. A Rita passa o dedo pelo espelho e depois esfrega-o na gengiva, “Não faças isso que dás cabo dos dentes”, digo-lhe enquanto agito o que resta dos cubos de gelo dentro do copo de vodka.
Tento voltar para o meu lugar de trabalho, levando numa mão o copo e na outra a garrafa de vodka. Ao atravessar o corredor que liga a zona da casa de banho e da copa ao open space onde fica a minha mesa, tenho a sensação de que as paredes estão a latejar ao mesmo ritmo que a minha cabeça, ora alargando ora apertando, de tal forma que me sinto dentro dum túnel que a qualquer segundo se vai fechar para sempre. Atravesso-o a correr, deixando a Rita para trás. Quando chego ao fim, encosto-me à porta de vidro opaco de um dos gabinetes de sócio, um daqueles que está desocupado desde que aqui comecei a trabalhar. Estou ofegante apesar de não ter corrido mais de vinte metros. Não importa, as minhas vias respiratórias acusam cem metros a velocidades impróprias para o meu físico. “Ontem ficaste acordado até que horas?”, “Não tenho a certeza. Até muito tarde”, “A fazer o quê?”, “Tu sabes”, ela sabe, ela esteve comigo o tempo todo, ficaste acordado comigo a ver o canal de vendas à espera de comprar a felicidade por 29,60 euros – mais portes de envio e IVA –, pagos no acto de entrega, por transferência bancária ou por cheque. “Compraste alguma coisa?”, “Sim, comprámos o kit de facas de cozinha Seppuku”, “Estás feliz?”, “Não é esse o sentido”, “Qual é o sentido?”, “São facas, o sentido é cortarem”.Do outro lado do corredor a Rita observa-me com estranheza. A abertura dos olhos e da boca coloca-me a pergunta para a qual não tenho resposta, pelo menos a este nível de queimadura cerebral. Claro que ela está em plena fase wagneriana – eufórica –, um ou dois estádios de atrasada em relação a mim. Passo a mão pela testa e depois pelo cabelo. Estão encharcados em suor. Um gole de redbull apenas é o que me separa de entrar na fase Schreber – demente. Entretanto dou-me conta que a meio da correria atirei o copo e a garrafa de vodka para o chão. O copo partiu-se. A garrafa não, mas o conteúdo entornou-se praticamente todo. Que falta de respeito pelo trabalho dos agricultores lituanos.

- Diogo Almeida

terça-feira, março 17, 2009

[trainy_morning_by_optical_flare.jpg]
Na véspera de uma frequência, ficámos juntos
no mesmo acaso. Um refúgio depois das aulas,
com os livros errados às costas. Ela tinha dúvidas
e eu não tinha vergonha de fingir
que sabia as respostas. Conhecíamo-nos
mal e do que me lembro nem estávamos
a falar do mesmo quando nos começámos
a entender. Um pensamento
meu abriu-se-lhe nas mãos, como se mordesse
na ponta daqueles dedos um paraíso
– nervosamente, em busca de fissuras,
desertos devolvidos e deuses humilhados.

Falámos de vulcões, tequilha e mezcal,
mas pedimos refrigerantes – tínhamos tanto tempo
para nos metermos sem pressa noutras provocações
e desafios. Penduravam-se nos nossos ombros
as hipóteses do desejo, mas para não sermos óbvios
evitámos o assunto. Ao lado, um cretino qualquer
ia berrando vazios na nossa direcção,
um b+a=ba estéril, sem nenhum talento
que lhe servisse de desculpa. Queria conversa,
atenção, um resto de entusiasmo
que lhe pudéssemos dispensar.

Mudámos de mesa, sem hesitação,
acompanhando a música
que nos engrossava o sangue, um jazz
lento e vigoroso
que estendia entre nós
uma série de reticências, acima das notas,
o café, sem querer, derramado quando
um grito se entreteve nos meus nervos
e me fez acender um primeiro cigarro.

Mantive a expressão dela intacta
ao longo de todo o percurso que me arrastou
até estas linhas. Para lá das mais simples feridas,
o esboço de um sorriso nos lábios ou
um passatempo de sílabas, agora numa outra língua
que nem era a mesma da canção.
Improvisava à medida de um íntimo caos
irrepetíveis rimas ou simples exclamações
encostadas a um ritmo qualquer. Pequenos slogans,
tantos infinitos apertados naquela boca.
Senti o peito arrombado, abrindo caminho
à dócil carne, avançando e recuando
entre fábulas. Precisei de mais gelo na bebida,
contei alguns minutos aflitos antes de lhe pedir
licença e fugir para a casa-de-banho.

Enquanto mijava passou-me por trás um tipo
de camisa axadrezada, estacou no alto de um suspiro
e pareceu esquecer-se do que tinha ido ali fazer.
Quando eu lavava as mãos, puxou do bolso
um pequeno envelope azul, cheirou o pólen
de astros alinhados e deixou-se cair
adormecido – um príncipe perdido
– cabeça de lado apoiada na tampa da sanita,
os olhos meio abertos de onde vi escapar-se
uma distância enorme, intensos
golpes de doçura, como se do lado de lá
rompessem relâmpagos de encanto,
um ninho de sombras alimentando-se
no centro de um incêndio.

Avisei o homem ao balcão e saímos.
Fiz com ela o caminho até casa,
por ruas já sem eco, apenas a ameaça
do amanhecer. Era quase uma imagem
de verdadeira poesia: os pássaros acordavam-se
uns aos outros e o sol levantava-se ainda
ressacado em tons escarlate que podíamos
olhar de frente. Deixei-me ficar para trás
e apanhei uma cor viva de um canteiro
para lhe dar, mas antes que a entregasse
vi-a morrer-me nas mãos, pequena
flor de ódio, deixando muito claro
que esse era um instante sem retorno.
Mesmo que memorizássemos cada passo
não teríamos como regressar.
Ao menos isso ainda foi o que me serviu
para lhe arrancar aquele primeiro
e último beijo.

segunda-feira, março 16, 2009

Aqui vais ser feliz

“Aqui vais ser feliz”, disse com o seu sorriso avaliado em milhares de euros, “Tenho a certeza disso”.
Tens a certeza que vou ser feliz? Quer dizer, vê-se um tipo de fato e gravata notoriamente mal escolhidos para primeiro dia de trabalho, sorriso nervoso, tão à vontade como um urso polar numa ilha tropical, de facto, que mais se lhe pode dizer? Com o tempo, os fatos e as gravatas começam a ser melhor escolhidos, acerta-se com o perfume, os sapatos deixam de aparecer riscados, gastos na ponta e nos calcanhares, sem rastos de pó das obras pelas quais se passa na rua. Um dia chega-se ao escritório radiante, quatro ou cinco pessoas reparam nisso com um sorriso, as outras não conseguem disfarçar a inveja. Um gajo sente-se como um Mau Tempo no Canal numa feira do livro manuseado, rodeado de Colecções Vampiro e livros d’Os Cinco. Com sorte, chama-se a atenção de uma das sócias e a probabilidade dessa noite acabar algures num restaurante muito discreto a partilhar uma garrafa de vinho tinto ou de champanhe aumenta exponencialmente. Sorri-se, deixa-se o casaco preto de corte impecável no cabide, vai-se até ao lugar de trabalho, acende-se o computador. Na caixa de correio, cinco mensagens a exigir a reformulação de dois documentos, seis contratos para fotocopiar e uma tradução dum protocolo para fazer, tudo com o prazo longínquo do dia seguinte de manhã. É o momento central na vida de qualquer estagiário, uma espécie de Dia-Moisés que separa os valiosos predestinados dos pobres egípcios que vão morrer afogados pelo caminho. Cada um descobre por si nesse dia a grande mentira que lhe contaram. Aqui nunca vais ser feliz. Uns tornam-se imediatamente infelizes, outros reconfiguram a felicidade e acrescentam-lhe uns quantos zeros.
- Diogo Almeida
in Há uma luz que nunca se apaga

domingo, março 15, 2009

Uma entrevista

Aqui fica o link para uma entrevista a Eduardo Sousa (um dos responsáveis da livraria Letra Livre) no programa da TSF - Lido e Relido. Uma conversa séria e esclarecedora sobre livros, o mercado e a literatura.

C. da Silva

Nenhuma outra morte foi mais pequena do que (1966) a de Clóvis da Silva. Estava a coçar o cu quando um camião carregado de fruta lhe passou por cima. Não teve tempo de dizer uma palavra, ele que poderia ter dito, se se lembrasse, algumas das coisas mais importantes deste século. Nem uma simples denúncia, um tropesto, um dos maiores revolvetados de sempre! Molto sobre uma sapateira de peões, um espírito estulturalmente desobediente! A morte surpreendeu-o a caminho da casa de Flávio dos Prazeres, com quem trabalhava na elaboração de um grande projecto literário, definitivamente prejuficado. De Clóvis se diz que um dia, entramigos, afirmara: «A littratura morreu. Eu e Flávio lhe faremos o emperro». Aqui se reúnem alguns poemas de Clóvis (é dedicado a Plágio dos Fazeres o poema «Van Gogh Mondrian»), datados de 1965 e 1966, os poucos que foi possível salvar da destruição a que a irmã procedeu nas suas roubas e babéis. De acordo com as datas dos textos, dividiu-se a obra recolhida em duas partes: A décima oitava infância de Clóvis da Silva e As pessoas e outros poemas de Clóvis da Silva.

- Manuel António Pina

Gran Torino


7/10

sábado, março 14, 2009

Noite de Verão

Junto ao tanque,
saltam as horas
tal como aquela rã do haiku de Bashô.

Entediado,
atiro uma pedra à água

e o tanque é uma árvore recém-cortada.

Atiro outra pedra:
de anel em anel,
amanhece.

- Josep M. Rodríguez
A caixa negra, Averno, 2009

Consciência

À noite,
no terraço
uma cadeira sem ninguém,

como se suportasse o peso de tanto vazio

ou como o mendigo à porta de uma escola,
esperando que alguém lhe devolva
aquilo que nunca teve.

Eu sou todas as crianças,
cada estrela

o relâmpago suspenso no momento exacto de nascer.

- Josep M. Rodríguez
A caixa negra, Averno, 2009

Chuva

Uma professora perguntou ao Paulo
de que se lembrava ele
do terceiro ano; ele esteve sentado
durante muito tempo antes de escrever
"nesse ano álguei tucõ me
no ombru"
e dobrou a folha de papel.
Mais tarde ela mostrou-ma
como um exemplo da sua vida desperdiçada.
As palavras que ele escreveu eram grandes
como casas numa paisagem.
Ele quis entrar nelas
e viver lá, podia preencher
as janelas dos "o" e do "b"
e ficar seguro enquanto lá fora
os pássaros fariam os seus ninhos nos algerozes
sem nada saberem sobre a chegada da chuva.

- Naomi Shihab Nye
(tradução de L.P.)

Oração do amanhecer na cidade

A esta hora podemos encontrar-te,
ao andar pelas ruas: ainda
o teu grande respirar vigilante se ouve, como
o da mãe ao fundo da casa,
à beira do filho, contemplando-o
como uma laguna no bosque,
infundindo-lhe amor; do seu entresonhar
mal desperta, enviando ao sonho infantil
palavras, beijos, que entram e ficam
para sempre no mais fundo da alma,
na secreta câmara do sono.

Em breve todos despertarão; já chegam
de regresso pelas sendas dos sonhos,
e há nostalgia ao regressar, ao deixar longe
as regiões do Pai, a mansão
de sombra onde Ele repousava,
e de onde chegam ainda
seus adeuses, detendo-se nas frondes,
apagadas subitamente numa curva.
Há nostalgia ao voltar apressados
para chegar a tempo em frente à porta
da nova manhã, do trabalho.

Já há quem esteja acordado para a lida.
Operários de mantas ao pescoço, cegas botas,
gabões do avesso, velhos guarda-chuvas,
agrupam-se ao acaso, como às apalpadelas,
falando a meia-voz enquanto aguardam
os primeiros eléctricos, que os levem
às praias da alvorada e ao trabalho;
os eléctricos sonâmbulos, com luzes
puríssimas, alegres, inconscientes,
na triste negrura que se afasta.

Há tabernas com frio, que madrugam
a preparar o dia com o seu vinho,
triste de fome, de obrigação, de pressa;
iluminadas, como olhos abertos
à força apesar de um sonho infindo.
As obras, os escombros, os terrenos por edificar,
os poços com um sarilho, junto a um charco
de cimento, os adobes, o lixo,
solitários, são a pergunta abandonada
do homem quando o homem se calou,
a inquietação que prendemos nas coisas
ao passar, um amargo pó de alma.

A aurora, com cor de equivocada,
às golfadas vai chegando, rua a rua,
como andar de costas, não querendo
olhar para onde pisa. Mas o sol
beija tudo logo, como um cego.
E agora todos despertam. Já se lembram
dos seus nomes, do dia que é, do mundo;
já se põem novamente entre as mãos
da angústia das datas; já se ocupam
dos assuntos de hoje, do que espera.
Ao acordar, ainda têm nas mãos
algo de além, do Pai. E não o olham;
mas de súbito uma ausência, um voo leve,
obriga-os a olhar para trás, para essas
terras, tarde entrevistas, para o pórtico
que não pode voltar a abrir-se, o sono.

E tu já te retiras. Ainda
vais por alguma rua solitária,
seguido pelo sol, a pôr o último
beijo sobre as pálpebras que se abrem,
para que tenham depois uma dispersa
sensação de doçura sem memória,
o sulco da tua estada, o dom do sono...

- José María Valverde

sexta-feira, março 13, 2009

de repente tens a memória do rosto nas mãos um caminho por onde passas de sapatilhas
a flexibilidade que ser indeterminado exige
por mais dois minutos dura o relâmpago que é a volta do eléctrico na esquina e tu já nem pensas para onde vais porque és esperto
aprendes a cada instante que não importa

já não importa

o corpo sabia o caminho há três anos atrás e agora dás-lhe rédea solta emprestas um ouvido ao coração que bate contra o solo
na tua mão há a sábia marca de um filho um choro que incendeia a canção da terra
está tudo a arder tudo a arder
e no teu corpo há mensagens fáceis coisas quase fáceis de dizer que podem coser algumas tiras de pano rasgado fazer ligaduras para muitas feridas e mordaças para calar a fome
estar vivo é útil
(excerto final de A RELIGIÃO DO MEU TEMPO)


Aqui, entre as casas, as praças, as ruas
abjectas, da cidade onde agora reina
esse novo espírito que ofende

a alma a cada instante, – com catedrais,
igrejas, monumentos mudos no desuso
angustioso que é usual em homens

que não crêem – recuso-me
de futuro a viver. Já nada resta
a não ser natureza – onde aliás só se descobre

o fascínio da morte – nada há,
neste mundo humano, que eu possa amar.
Tudo me faz sofrer: esta gente

servil que obedece a cada chamada
que aos seus senhores apraz fazer,
adoptando, sem suspeita, os mais infames

hábitos das vítimas predestinadas;
o cinzento das roupas pelas ruas cinzentas;
os gestos cinzentos em que parece gravada

a cumplicidade com o mal que a invade;
a sua agitação em redor de um bem-estar
ilusório, como um rebanho em redor de uma seara:

a sua regularidade de maré que alterna
multidões e desertos pelas ruas,
em fluxos e refluxos obcecados

e anónimos de necessidades rançosas;
os ajuntamentos na tristeza dos bares e dos cinemas,
o coração que triste se resigna aos factos...

E em torno deste interno domínio
da vulgaridade, a cidade esboroa-se
amontoando-se brasileira ou levantina,

como a erupção de uma lepra,
deliciando-se, ébria de morte, com os restos
das épocas humanas, cristãs ou gregas,

e alinhando vendavais de casarios,
pauis de lotes cor de bílis ou de vómito,
sem um só sentimento, de angústia ou de paz;

destrói a suavidade das paredes, os cotovelos
poéticos dos becos em redor dos jardins interiores,
o que resta de moradias cor de pedra-pomes

ou de rato, onde figueiras e chicórias hibernam
satisfeitas, os lajedos estriados de erva
rala, os bairros que pareciam eternos

nos seus traços quase humanos
de pedra cinzenta ou pálido tijolo:
tudo destrói a torrente grosseira

dos piedosos possuidores de lotes:
corações de cães, olhos profanadores,
torpes discípulos de um Jesus corrompido,

nos salões vaticanos, nos oratórios,
nas antecâmaras dos ministros, nos púlpitos,
escorados por um povo de criados.

Que longe está agora de ouvir
o tumulto puro do seu coração,
e da paisagem de prímulas e arbustos

do materno Friul, o doce-ardente
Rouxinol da Igreja Católica!
O seu sacrílego mas religioso amor

é apenas memória, arte retórica:
mas quem morreu foi ele, não eu, de raiva,
amor desiludido, angústia espasmódica

por uma tradição que morre cada dia
às mãos de quem se diz seu defensor;
e com ele morreu uma terra propícia

à luz religiosa, na limpidez
campestre de campos e casais;
morreu uma mãe que é inocência e ternura

inalteráveis, num tempo só de mal;
e morreu uma época da nossa existência,
que, num mundo destinado a humilhar,

foi luz moral e resistência.

- Pier Paolo Pasolini

quinta-feira, março 12, 2009

Claire is for lovers

Para o Luís

Cada poema faz esquecer o anterior
apaga a história de todos os poemas,
apaga a sua própria história
e até apaga a história do homem
para ganhar um rosto de palavras
que o abismo não apague.

Também cada palavra do poema
faz esquecer a anterior,
desfilia-se por um momento
do tronco multiforme da linguagem
e reencontra-se despois com as outras palavras
para cumprir o rito imprescindível
de inaugurar outra linguagem.

E também cada silêncio do poema
faz esquecer o anterior,
entra na grande amnésia do poema
e vai envolvendo palavra por palavra,
até sair depois e envolver o poema
como uma capa protectora
que o preserva de outros dizeres.

Nada disto é raro.
No fundo,
também cada homem faz esquecer o anterior,
faz esquecer todos os homens.

- Roberto Juarroz

Autoelegia

Minha forma meu carácter meu desejo
Pensando que a noite azul se ponha
Não sonho nada em meu detrimento

A coroa que tenho na cabeça
só com resignação é que a suporto
Sou um rei numa retrete desterrado

Não tenho calças e vivo escondido
morto de fome sob a minha cama
Alimento-me de muitos musaranhos

A cada escorada de meus versos
é todo o meu domínio pessoal
E urina-se minha alma por meus olhos

Se medito adormeço num recanto
e o sonho que podia ser-me útil
mete-se numa perna e em qual não sei

Minha candura minha paciência meu descuido
Busco trabalho e perco a saúde
a rezar enquanto vou subindo a escada

- Carlos Edmundo Ory
Tenho uma tristeza
no bolso de dentro
do velho casaco.
Dobrada, quebrado.
Tenho uma tristeza
suja de papel
e de letras gastas.

Eu quero deixá-la
no café sem noite
tiro-a do bolso
pouso-a nos olhos,
em cima da mesa
também é de ti.
Vinha de ninguém.

Charco de jardim
dádiva na mão
triste, por abrir
e depois a dor
aperta-me o punho
por anoitecer.
Venho de uma rua
para o teu lugar.

Olha para mim
para a sala toda
para esta tristeza
atirada ao chão
entre rastos de água
os dedos acolhem
um sorriso vão.

Parou tudo agora
neste ritual
que nada detém.
Bolso de casaco
costas da cadeira
chuva na cidade
vou da tua beira

para um quarto triste
com a mãe que dorme
noutro corredor
o sangue vigia
a pequena lei
a minha tristeza
chamavas-lhe amor.

- Joaquim Manuel Magalhães

Isto é uma crítica

Toda a gente me falava d'A série. "Tem piada, mas também tem uma laugh track", explicava-me ela, ressabiada, na internet. "Basically, it's a sitcom, but – and i know this may sound weird – it's good", explicava-me ele, bêbedo, enquanto devorávamos um kebab, ali para os lados da baixa. "Eu já vi, na televisão. Eu nem vejo televisão, mas calhou. E, sim, parece ser bom", desculpava-me eu. Sempre.

Passado uns dias, saquei a primeira temporada. Durante aquelas primeiras setenta e poucas horas, eu, este computador, as cervejas – tantas, não interessa contar quantas –, e perto de um quilo de caju, divertimo-nos imenso. Eu pelo menos diverti-me. Era uma comédia inteligente à séria. Tinha o Jason Segel, que eu conhecia de Freaks and Geeks. Também estava por lá o Neil Patrick Harris, foda-se, lendário. O gajo é um ilusionista, na vida real, é preciso dizer mais? E aquela putinha que eu conhecia de American Pie. E da Buffy.

Pá, a sério, melhor sitcom dos anos zero. Sem truques.
A certa altura, se bem me lembro, ouvi Pavement. Na série. A caixa da primeira temporada já anda pelas fnacs, e sim, vale mesmo a pena.

terça-feira, março 10, 2009

Sabem que mais?

Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas
e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar
ou morrer: voar é que é muito mais improvável

Sou um homem de áridas certezas e uma esperança
a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas
paro escuto e olho antes de atravessar

com ela. E não sei o nome. E não me preocupo

- Rui Caeiro
Regressar a casa sozinho e noite dentro
quando o silêncio das árvores da rua se acentua
e os poemas que nunca hás-de fazer te atingem
com o fragor de telhas caídas de um telhado
mesmo em cima da tua cabeça – tanta fragilidade
E por fim entrar em casa, ordeiramente
A essa hora todo e qualquer remorso
é coisa de somenos, importante sim
para dormir, para brincar, só a morte
Ursinho de peluche no travesseiro
da cama – a tua morte

- Rui Caeiro
-
Pois morre-se de muita coisa, de muita coisa
se morre, morre-se por tudo e por nada
morre-se sempre muito
Por exemplo, de frio e desalento
um pouco todos os dias
mas de calor também se morre
e de esperança outro tanto
e é assim: como a esperança nunca morre
morre a gente de ter que esperar
Morre-se enfim de tudo um pouco
De olhar as nuvens no céu a passar
ou os pássaros a voar, não há mais remédio
ó amigos, tem que se morrer
Até de respirar se morre e tanto
tão mais ainda que de cancro
De amar bem e amar mal
de amar e não amar, morre-se
De abrir e fechar, a janela ou os olhos
tão simples afinal, morre-se
Também de concluir o poema
este ou qualquer outro, tanto faz
ou de o deixar em meio, o resultado
é o mesmo: morre-se
Data-se e assina-se – ou nem isso
Sobrevive-se – ou nem tanto
Morre-se – sempre
Muito

- Rui Caeiro
_
Ter na mão a ponta do fio tenso que segura o sonho – e largá-la
para que o sonho voe mais alto.
...

Quando a vontade de chorar – não a dor,
mas a vontade de chorar –,
a todas as outras sobreposta, se eterniza
e as lágrimas não acorrem mais à chamada,
entre tu e o teu corpo pode estar prestes a acontecer
o último acto de amor. Sê carinhoso, violento
e perfeito: é o último.
...

Adiar o acto é passar a viver a vida de um outro. Adiar é, por isso,
uma outra forma de morte – por suicídio também.

- Rui Caeiro

Sexto

Partem para empregos, lavam as mandíbulas
com bâton, cigarros e sorrisos,
chamam-se pátria, férias na província,
a bica e o bagaço e o jornal,
vizinhos, filhos, os funcionários,
a banal violência do dia atrás de dia.
Aquilo a que chamam ditador,
burocracia, alienação, sobrevivência
são eles. Não lhes é imposto,
fabricam-no, destilam-no,
brilha nos seus olhos cansados,
recebemo-lo no ordenado do mês,
é a nossa sopa, o cheiro que largamos
nos lençóis de manhã cedo.

Na mancha de betão e patamar
a vida corre contra
como querem que se viva a vida.
Com coragem ou sem valor alguns refazem
outro real.
Não são precisas armas. Basta um corpo,
uma ácida harmonia, transfiguradora,
agarrar-se ao outro homem sem temor.

A paz da mudança vive além,
ergue do espírito o mar de inverno,
nesse homem que dorme o outro homem,
a rede de bancos num jardim.
É uma luta travada sem terreno.

- Joaquim Manuel Magalhães

segunda-feira, março 09, 2009

Escrever um texto
e deixá-lo abandonado na página.

Não voltar a lê-lo,
não o mostrar a ninguém,
não o mandar a nenhum lado.
Que fique no seu repouso de texto.

E deixar que aí encontre o seu leitor,
como todos os textos o encontram.

Também o que levamos escrito dentro
e nos parece impossível que alguém possa ler.

- Roberto Juarroz

domingo, março 08, 2009

[Us_by_goodmusicgoodpeople.jpg]

Guilty pleasures

No princípio correram ainda uns dias
sem que o desencanto desse
pela nossa falta. Seja como for,
não fomos muito longe.

Íamos mais era ao cinema mas aí eu
já olhava menos para o lado, apaixonava-me
pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois,
com o sexo aceso e louco por se molhar
entre quaisquer pernas, a levar a casa
e nos despirmos entre o corredor e o quarto,
sem grandes cerimónias nem truques.
Na cama víamo-nos rapidamente desfeitos
entre as simples urgências de um desejo
sem nome.

A meio daquilo lembrava-se de perguntas,
insistia repetidamente “onde tens
a cabeça?”, “aqui mesmo” dizia-lhe,
mas sentia-a rolar para longe
do triste e descoordenado impacto
que prendia cada orgasmo.

Chegava a fechar os olhos para não ver.
Mesmo nas paredes sangrava uma adolescência
sem explicação: posters, postais e bilhetes,
o lixo vago das recordações e a linha de sorrisos
que unia as fotografias – anjinhos
desfigurados, as asas pisadas
com os sonhos entretanto devorados
por insónias.

Pedia-lhe
que desligasse a luz e ficava em silêncio alvejando
as constelações sobre nós, estrelas de plástico
fluorescentes coladas no tecto. Ali, no escuro,
as palavras que tínhamos
favoreciam efeitos tão óbvios e piedosos,
terríveis delicadezas a que cedíamos
por vergonha, pudor
ou uma outra porra qualquer.

A carne dividida nos lençóis, usada,
o rádio ou a televisão aligeirando o vazio,
e aos poucos erguíamo-nos, como adultos.
Enquanto ela apanhava o cabelo e outros
restos de si, ou simplesmente se limpava,
eu fugia cobardemente
para um cigarro, este caderno, um copo
de leite morno. A ela, por hábito (talvez),
servia-lhe vodka
e deixava-a amuar, fedendo no suor
frio das inseguranças. Os olhos
baixos, entre os chinelos, sublinhados
de vez em quando por lágrimas.

Antes de sair via-me no papel
de um desses gajos de que é tão fácil
pensar o pior. “Até amanhã” ou “eu ligo-te”,
um beijo à traição e abandonava o que se parecia
cada vez mais com a cena de um crime.

No fim deixámos os corações
arrumados numa estatística qualquer,
não houve gritos, acusações nem aqueles
episódios com louça pelo ar, apenas a repetição
das noites, a garganta arranhada de suspiros
cada vez mais fundos e mortes dessas
a que ninguém dá importância. Pequenos,
desprezados sinais – o bâton
rosado que não voltei a encontrar
nas camisas, o perfume que lhe dei
também não, o afterworld de Leonard
Cohen onde se refugiava cada vez mais cedo
e para onde não voltou a chamar-me,
além dos últimos desabafos passeando-se
nas bordas do delírio, florindo como se
apesar de tudo ainda houvesse
esperança.

E hoje acredito que sim
– talvez haja alguma, para ela.

sábado, março 07, 2009

Dr. em medicina e cirurgia

A vida aposta sempre pela vida.
Em caso de hemorragia o nosso corpo
vai sacrificando,
um a um,
os seus orgãos vitais,
para assim alimentar o nosso cérebro
por mais uns segundos.
É complicado
escrever um poema onde fique
reflectida esta ideia. Mas chega,
ainda assim, nas tardes de outono,
quando tudo parece ir morrendo
e o amor se passeia de gabardina,
chega ler um livro e descobrir
que há algo indefinido que jamais
se deixa convencer, que não se rende,
um instinto suicida que não aceita
nenhuma palavra salvo vida.

- Ben Clark
-
Eis um regresso muito aguardado: Achaques e Remoques




FRANZ KAFKA, 1987


Quanto mais o mundo cresce, mais pequenos
nos sentimos, é fatal, e com o tempo emudecemos
nos salões de circunstância, duvidamos da virtude
calorífica dos verbos, encolhemos, já cabemos
num sapato de cristal ou numa toca de toupeira
ensimesmada, rabugenta, começamos a
desconfiar de velas, avenidas, pedestais,
a corar de repugnância nos lugares onde os amigos,
os estranhos, se combinam em atávicos enredos
e moléstias de rotina, percebemos como fúteis,
mais que falsos, os discursos que nos tapam
a saída, emudecemos, já o disse, e assumimos
para sempre a condição de zero à esquerda,
convencidos (parvamente) de que zeros à direita
apenas servem para engrandecer a cifra detestável
deste mundo que nos torna, dia-a-dia, mais pequenos.

- José Miguel Silva

sexta-feira, março 06, 2009

O leitor ideal

"(...) aquele que só quer ler e partir para o que é dele com essa leitura."

- Joaquim Manuel Magalhães

Agrafe

A carestia outonal levou-nos para a beira-rio
até uma cerveja sossegada. O bar
de pequena moral e pior comércio
cobria-nos com a sombra do repouso
e da música furtiva. Os fósforos acesos,
os cigarros gastos, as mãos abandonadas
na frescura da mesa, os risos traziam
a viagem marítima do nada.

Em azinhagas perdidas eu quis um paiol.
Sem bairros partidários de betão burgesso
nem hetero-anónimos reacço-grafitadores.
Um vulcão de amigos farpados de motim.
Ao desabrigo, Pistola, nós e os outros gatos,
na bulha do silêncio, inimigos
da neurose urbana dos domingos,
do esterco costeiro dos fins de semana.

Pedras fulgentes de fogo impossível.
O voo tresandante dos anúncios ronca
na TV. A tormenta cerosa dos churrascos
acomete o saguão. Os vendedores
ruaceiros flutuam em municipais
abjecções. Nos andares, a prego e berbequim,
as famílias. A um nada chamamos
o desejo e nada resta para desejar.
A cabeça num lago de despejos, de ruínas.

- Joaquim Manuel Magalhães

Fresh new taste out of the closet



dedicado a duas ou três em particular, mas tantas mais se dispensasse tempo para as conhecer melhor

quarta-feira, março 04, 2009

Poesia 1970

Tudo o que eu faço
Alguém em mim que eu desprezo
Sempre acha o máximo.

Mal rabisco
Não dá prá mudar nada.
Já é um clássico

- Paulo Leminski

Princípio

Havia junto ao velho portão
um monte de tijolos vermelhos
e não existe nenhuma razão concreta
para se considerar relevante aquele momento.

Porém, julgando tocar a eternidade,
a criança ordenou ao tempo
que parasse. Pequeno deus
brincando sozinho ao entardecer,
sob as amarras azuis do bibe.

A ordem, claro, não pôde
ser cumprida. E só lhe restam
agora o tempo, o nada, a morte
e as palavras que não sabem dizê-los.

Ou essa música para mãos paradas
que trouxe consigo o Outono,
junto do velho portão verde
que tantos anos depois reabriu.

Chama-se Pandora, Cassandra,
Télefo, mas volta a assinar
_________________Manuel António.

- Manuel de Freitas

terça-feira, março 03, 2009

Janeiro, 25

lá dentro jogam à facada
matam-se acho à facada dentro da minha cabeça quero dizer
lá dentro jogam apenas às cartas há um tédio que não quero matar antes de chegar à última cartada por um punhado de cartas mato o silêncio à machadada nem o meu nome dito agora mataria o silêncio mata só esta coisa mais uma memória de manhã rumorosa numa estação de comboio foi há tanto tempo atrás o meu último corpo vivo numa madrugada não o meu último corpo vivo nem foi assim há tanto tempo devo ter tido os olhos abertos
no teu corpo não evidentemente à minha espera na ma druga da na madrugada era
penso que era
mais fácil respirar disciplinar o vício absurdo do silêncio
há em mim um sono de bronze uma vocação para um sono de bronze desabitado de palavras e gente que nunca fechou os olhos, ainda.
[criatura-abril2009.bmp]

segunda-feira, março 02, 2009

O espanto

O que se passa em mim é um prodígio.
Um sim que se dilata
até perder o sentido
longe, como o balão
fugido da criança.
Um sim, transgredido,
arremetido
à estupidez do ouvido,
da razão.
Um sim que quando explode me diz não
com delicadeza.

- Ruy Cinatti

domingo, março 01, 2009

Prédios coloridos nas colinas lisboa porto em três horas
chovia de raiva o nome entre os dedos
a canção do nome pela cinza nos caminhos
a cidade à entrada das raízes em ruínas terra adentro
não tenho muito bem certeza absoluta acerca destes esquemas
luz&cor a educação sentimental das estruturas a máquina ao serviço de ti próprio
regresso à cidade para mais três meses deste diálogo planos num comboio handaye lisboa vou tornar-me o tradutor dos hinos homéricos ao mesmo tempo que
sem ar na garganta
preparo a minha tese em língua grega - edição e tradução de um texto clássico de um texto prático vamos todos morrer disto my scream lost in a papercut a febre dos carros que gritam no meio da trânsito esta coisa
cidade
escrita
veias
nas minhas veias a mão de um homem que poderia ter feito muitas coisas e sagrou até morrer viveu até morrer
vamos todos morrer disto em texto prático
[72f3bb20bd186edfc4034d67b0727d9a.jpg]

Contrariedades

A mesma cor de ruína,
os tesos de sempre, as mesmas estórias
e os vícios onde se esquece a repetição
de um corpo já cansado de si. Eu também
havia de aparecer mais à frente,
muitas vezes, nesse lugar onde ainda
se vai conseguindo morrer
pelas causas mais naturais do mundo.
Mas só muito mais tarde.

Esta memória ainda vem do início,
quando me ía sentar junto ao velho
impressionado com aquele tom vencido e
as olheiras onde pareciam descansar séculos,
as longas horas e as coisas que arrastava
no hálito: café fraco, chocolates, melancolia,
um whisky velho ou a cerveja preta –
garrafas umas atrás das outras
tentando embebedá-lo, mas em vão.

Desertava no começo das noites
ou se muita juventude começasse
a assustá-lo,
e perdia os dias entre uns desenhos
que lá ia datando, presos,
nos intervalos, debaixo dos cotovelos.
Nesse dia era o elevador de Santa Justa,
uma ponte que não sei referenciar
e um fim de tarde com gatos de malhas azuis
a olhar para cima.
Largava umas afirmações trágicas, linhas diagonais,
e se eu sequer franzisse o sobrolho
era o que bastava –
punha um ar sério e dava-me as respostas mais longas
e inesperadas. Grandes injecções que eu levava ali.
Eram delírios importados de outras terras,
aventuras cheias de moinhos de vento, e puxava
por mim, castigava-me com os seus amores
perdidos, traições de mulheres, putas na maioria dos casos
(imaginava eu), outras vezes ficava-se pelas dores
mais à mão: a perda de urina, caravelas que tinha
encalhadas entre as vértebras,
uma úlcera maltratada… Entretanto ficava
tarde, graças-a-deus, e ou ele saía ou eu pedia
as mil e tal desculpas
a que me obrigava e fugia dali.

Descia a correr a rua
da velhice para uma sombra feminina
e essas lendas de saia que me apaixonavam,
tudo sempre nalgum bar, café, no virar
de esquinas, que hoje já não há necessidade
de ir buscar princesas a outros reinos,
elas entram clandestinas neste,
servem-nos à mesa ou mesmo
directamente na cama.

E foi num desses bares
que eu fui o primeiro de todos os homens a vê-la.
O seu pequeno rosto moreno ansioso, aquele jeito
no olhar como se o mundo tivesse nascido
à coisa de hora e meia, cheia de entusiasmos e amanhãs
dardejando na pele, incontáveis sorrisos e a voz
embrulhando num ronrom de anjo com defeito.
Mascava chiclete, amorosamente – tutti frutti,
ainda me lembro, era o sabor que preferia –,
conseguia aguentar aqueles balões uma eternidade
antes de lhe explodirem na cara,
e disso também se ria.
Vinha com os seus sinónimos de alegria
e servia de lenitivo ao torpor e aos obsessivos langores
a que tresandávamos todos.

Penso nela e em como lhe tremiam na boca as luas mais
oferecidas, deixando-se rebocar na conversa
de homens mais velhos, poetas assim mais ao gosto
popular. As rimas a caírem-lhes das mangas
para o decote dela, flores ordinárias
regateadas aos indianos, algum shot,
e os corações vindo-se bem depressa
entre o céu e o inferno.

Ficou-me bordado nos primeiros sonhos
húmidos aquele corpo dela, a sua distribuição
e as horas que tinha marcadas para entrar ao serviço.
Depois das aulas, aqueles contornos
onde eu aumentei o meu vocabulário
e vi as minhas frases fluírem estreitas,
tensas, directamente dos curtos e indecisos
movimentos que ela me trazia…
Era uma cadeia de suspiros,
as letras roucas junto ao nome,
a roçar o apagamento.
Chamava-se Marta e ajudou-me a emagrecer
enquanto o estômago não queria mais nada e só gemia
melodias de sangue, canções de a ver passar
sem olhar para trás.

Mais tarde, sem a esquecer, lá foi havendo
uma Maria qualquer que andava comigo
em vez de ficar em casa, sozinha, ou perder tempo
com outro, e quartos alugados onde estudávamos, fodíamos,
víamos o telejornal e as novelas a seguir,
com a sensação de que a vida nunca
seria só aquilo. Mas era,
– e é, só aquilo –,
tão longe das promessas, do ideário
que deixámos noutras páginas,
quando ainda íamos longe
e tínhamos conversas até às duas, três
e quatro da madrugada a chutar futuros
para esquecer o que tínhamos.

Mesmo assim, atenção que isto não é
só mais do mesmo desencanto, vou findar
sem azedume agora que sentado à secretária
vejo da janela a vizinha na varanda
a estender a roupa sobre este apontamento,
sem saber que a puxei para aqui, remói para si
o desgosto do rapaz que a ela lhe terá fugido,
mas afinal não sofre de faltas de ar,
do que vejo sobra-lhe peito,
tem cor na carne e não está tísica
como a que morava em frente ao Cesário.
Do mesmo modo não são muito originais
nem exactos os meus alexandrinos,
mas a minha vizinha e eu estamos vivos
e estou aqui a ganhar coragem para ir até lá
mostrar-lhe este poema.