domingo, março 15, 2009

C. da Silva

Nenhuma outra morte foi mais pequena do que (1966) a de Clóvis da Silva. Estava a coçar o cu quando um camião carregado de fruta lhe passou por cima. Não teve tempo de dizer uma palavra, ele que poderia ter dito, se se lembrasse, algumas das coisas mais importantes deste século. Nem uma simples denúncia, um tropesto, um dos maiores revolvetados de sempre! Molto sobre uma sapateira de peões, um espírito estulturalmente desobediente! A morte surpreendeu-o a caminho da casa de Flávio dos Prazeres, com quem trabalhava na elaboração de um grande projecto literário, definitivamente prejuficado. De Clóvis se diz que um dia, entramigos, afirmara: «A littratura morreu. Eu e Flávio lhe faremos o emperro». Aqui se reúnem alguns poemas de Clóvis (é dedicado a Plágio dos Fazeres o poema «Van Gogh Mondrian»), datados de 1965 e 1966, os poucos que foi possível salvar da destruição a que a irmã procedeu nas suas roubas e babéis. De acordo com as datas dos textos, dividiu-se a obra recolhida em duas partes: A décima oitava infância de Clóvis da Silva e As pessoas e outros poemas de Clóvis da Silva.

- Manuel António Pina

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