quarta-feira, março 18, 2009

Corte à guineense

“Soubeste do Silva Costa?”, pergunta-me depois de limpar o nariz à toalha de mãos do lavatório.
“Foda-se, cortaram-te isto à catanada”, digo.
“És um esquisito… o gajo morreu.”
“Foste enganada”, aproximo o nariz do espelho para o observar com mais pormenor. Está vermelho, com uma mancha que se alastra quase até ao lábio superior. Os indícios dum corte guineense improvisado no Bairro Alto são inegáveis. A coloração não levantava grandes suspeitas, mas a experiência da Rita em aquisições deste calibre também não augurava nada de bom.
“Fui enganada? Quem é que te disse que ele não morreu?”
“Quem é que não morreu? Estás a falar do quê?”
“Do Silva Costa. Disseram-me que o gajo quinou, dum cancro daqueles lixados, acho que de fígado ou pâncreas.”
“O primo do Chico?”
“Não.”
“Ah, já sei quem é”, acho, “Mas não pode ser, ainda ontem o vimos no Noobai, não te lembras?”
“Isso foi o Cabral, nem sequer são do mesmo escritório. O Silva Costa é aquele gajo do nosso ano que foi para a A.”, por mais que tente não consigo irmanar um rosto com o nome, talvez tenhamos coincidido num daqueles momentos mais nublados da minha existência enquanto aluno da faculdade. Deve ser isso.
“Era da nossa idade?”
“Acho que sim. Quer dizer, não sei, talvez fosse mais velho um ano ou dois, mas era mais ou menos da nossa idade.”
“Isto queimou-me os canos todos”, sinto um ardor fora do comum no interior das narinas.
“És um exagerado, dantes parecia que tinhas um nariz de platina, metias tudo, agora andas armado em menino.”
Sorrio.
“Requintei-me”, pressiono com força cada um dos lados do nariz, mais por tique que por necessidade. A Rita passa o dedo pelo espelho e depois esfrega-o na gengiva, “Não faças isso que dás cabo dos dentes”, digo-lhe enquanto agito o que resta dos cubos de gelo dentro do copo de vodka.
Tento voltar para o meu lugar de trabalho, levando numa mão o copo e na outra a garrafa de vodka. Ao atravessar o corredor que liga a zona da casa de banho e da copa ao open space onde fica a minha mesa, tenho a sensação de que as paredes estão a latejar ao mesmo ritmo que a minha cabeça, ora alargando ora apertando, de tal forma que me sinto dentro dum túnel que a qualquer segundo se vai fechar para sempre. Atravesso-o a correr, deixando a Rita para trás. Quando chego ao fim, encosto-me à porta de vidro opaco de um dos gabinetes de sócio, um daqueles que está desocupado desde que aqui comecei a trabalhar. Estou ofegante apesar de não ter corrido mais de vinte metros. Não importa, as minhas vias respiratórias acusam cem metros a velocidades impróprias para o meu físico. “Ontem ficaste acordado até que horas?”, “Não tenho a certeza. Até muito tarde”, “A fazer o quê?”, “Tu sabes”, ela sabe, ela esteve comigo o tempo todo, ficaste acordado comigo a ver o canal de vendas à espera de comprar a felicidade por 29,60 euros – mais portes de envio e IVA –, pagos no acto de entrega, por transferência bancária ou por cheque. “Compraste alguma coisa?”, “Sim, comprámos o kit de facas de cozinha Seppuku”, “Estás feliz?”, “Não é esse o sentido”, “Qual é o sentido?”, “São facas, o sentido é cortarem”.Do outro lado do corredor a Rita observa-me com estranheza. A abertura dos olhos e da boca coloca-me a pergunta para a qual não tenho resposta, pelo menos a este nível de queimadura cerebral. Claro que ela está em plena fase wagneriana – eufórica –, um ou dois estádios de atrasada em relação a mim. Passo a mão pela testa e depois pelo cabelo. Estão encharcados em suor. Um gole de redbull apenas é o que me separa de entrar na fase Schreber – demente. Entretanto dou-me conta que a meio da correria atirei o copo e a garrafa de vodka para o chão. O copo partiu-se. A garrafa não, mas o conteúdo entornou-se praticamente todo. Que falta de respeito pelo trabalho dos agricultores lituanos.

- Diogo Almeida

1 comentário:

Artur Corvelo disse...

nicely done, gentleman