terça-feira, março 10, 2009

Sexto

Partem para empregos, lavam as mandíbulas
com bâton, cigarros e sorrisos,
chamam-se pátria, férias na província,
a bica e o bagaço e o jornal,
vizinhos, filhos, os funcionários,
a banal violência do dia atrás de dia.
Aquilo a que chamam ditador,
burocracia, alienação, sobrevivência
são eles. Não lhes é imposto,
fabricam-no, destilam-no,
brilha nos seus olhos cansados,
recebemo-lo no ordenado do mês,
é a nossa sopa, o cheiro que largamos
nos lençóis de manhã cedo.

Na mancha de betão e patamar
a vida corre contra
como querem que se viva a vida.
Com coragem ou sem valor alguns refazem
outro real.
Não são precisas armas. Basta um corpo,
uma ácida harmonia, transfiguradora,
agarrar-se ao outro homem sem temor.

A paz da mudança vive além,
ergue do espírito o mar de inverno,
nesse homem que dorme o outro homem,
a rede de bancos num jardim.
É uma luta travada sem terreno.

- Joaquim Manuel Magalhães

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