sábado, março 14, 2009

Oração do amanhecer na cidade

A esta hora podemos encontrar-te,
ao andar pelas ruas: ainda
o teu grande respirar vigilante se ouve, como
o da mãe ao fundo da casa,
à beira do filho, contemplando-o
como uma laguna no bosque,
infundindo-lhe amor; do seu entresonhar
mal desperta, enviando ao sonho infantil
palavras, beijos, que entram e ficam
para sempre no mais fundo da alma,
na secreta câmara do sono.

Em breve todos despertarão; já chegam
de regresso pelas sendas dos sonhos,
e há nostalgia ao regressar, ao deixar longe
as regiões do Pai, a mansão
de sombra onde Ele repousava,
e de onde chegam ainda
seus adeuses, detendo-se nas frondes,
apagadas subitamente numa curva.
Há nostalgia ao voltar apressados
para chegar a tempo em frente à porta
da nova manhã, do trabalho.

Já há quem esteja acordado para a lida.
Operários de mantas ao pescoço, cegas botas,
gabões do avesso, velhos guarda-chuvas,
agrupam-se ao acaso, como às apalpadelas,
falando a meia-voz enquanto aguardam
os primeiros eléctricos, que os levem
às praias da alvorada e ao trabalho;
os eléctricos sonâmbulos, com luzes
puríssimas, alegres, inconscientes,
na triste negrura que se afasta.

Há tabernas com frio, que madrugam
a preparar o dia com o seu vinho,
triste de fome, de obrigação, de pressa;
iluminadas, como olhos abertos
à força apesar de um sonho infindo.
As obras, os escombros, os terrenos por edificar,
os poços com um sarilho, junto a um charco
de cimento, os adobes, o lixo,
solitários, são a pergunta abandonada
do homem quando o homem se calou,
a inquietação que prendemos nas coisas
ao passar, um amargo pó de alma.

A aurora, com cor de equivocada,
às golfadas vai chegando, rua a rua,
como andar de costas, não querendo
olhar para onde pisa. Mas o sol
beija tudo logo, como um cego.
E agora todos despertam. Já se lembram
dos seus nomes, do dia que é, do mundo;
já se põem novamente entre as mãos
da angústia das datas; já se ocupam
dos assuntos de hoje, do que espera.
Ao acordar, ainda têm nas mãos
algo de além, do Pai. E não o olham;
mas de súbito uma ausência, um voo leve,
obriga-os a olhar para trás, para essas
terras, tarde entrevistas, para o pórtico
que não pode voltar a abrir-se, o sono.

E tu já te retiras. Ainda
vais por alguma rua solitária,
seguido pelo sol, a pôr o último
beijo sobre as pálpebras que se abrem,
para que tenham depois uma dispersa
sensação de doçura sem memória,
o sulco da tua estada, o dom do sono...

- José María Valverde

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