quarta-feira, março 25, 2009

Maremoto

Quando a primeira chuva, ainda no verão,
lava e suja a memória, o íntimo caudal
de tudo o que chamamos «experiência»,
sucede-me pensar que já não sei escrever
poemas como dantes, quando as horas
se dilatavam, escuras, até se perderem
no mar, que me oferecia o seu rugido
enquanto as ondas vinham rebentar
mesmo em cheio no meu coração. Toda a noite
cada pergunta iria transformar-se
em milhares de respostas, prateados ecos
da lua sobre a água.

Revivo agora as ruas mais estreitas,
as ribas escarpadas, sob um novo
céu. À espera de um rosto inesperado, os rapazes
e as raparigas pairam de esplanada
em esplanada, repetem os rituais
do programado agosto, discutindo
marcas de motos ou de jeans e outros
assuntos igualmente sérios, decisivos
como para os seus pais devem ser os impostos,
os partidos políticos, os clubes
de futebol, os níveis de audiência
das televisões onde todos se vê(e)m
até ao infinito – espelhos sobre espelhos,
reflexos de reflexos no refluxo
das vozes que deflagram no interior
de um bar onde entro por acaso: gritam
«Don't you forget about me!» Já não sei
se vale mesmo a pena esse pedido
a horas como estas em que os Simple Minds
ainda vociferam num écran
atraindo os olhares ocasionais
de muitos outros simple minds, até
ao infinito – espelhos sobre espelhos,
reflexos de reflexos. Sim, eu sei
que estou a repetir-me, não é fácil
queimar agora o tempo que não arde,
por mais fogos que os olhos se divirtam
a atear noutros olhos, nessa pose
falsamente blasée de quem viu tudo
mas nunca sentiu nada e se limita
a imitar impunemente os gestos
e os sorrisos mortíferos de alguém, errante
reflexo de reflexos. Volto a repetir-me
em circuito fechado, mas três whiskies
trazem de vez em quando alguma lucidez.

Lá fora a lua dorme, envolta pelo negro
e quente cobertor das nuvens quase à deriva
no mar da minha boca, onde os desejos
infiltraram de novo o seu travo de treva,
o preço que ainda tenho de pagar
e é cada vez mais alto e nem a chuva
leva consigo. O mundo
desabou nos meus ombros e a própria linha
do horizonte oscila devagar
dentro do copo – inútil maremoto
de um líquido infeliz, sempre ao sabor
da mão que o move sem saber porquê.

- Fernando Pinto do Amaral

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