A mesma cor de ruína,
os tesos de sempre, as mesmas estórias
e os vícios onde se esquece a repetição
de um corpo já cansado de si. Eu também
havia de aparecer mais à frente,
muitas vezes, nesse lugar onde ainda
se vai conseguindo morrer
pelas causas mais naturais do mundo.
Mas só muito mais tarde.
Esta memória ainda vem do início,
quando me ía sentar junto ao velho
impressionado com aquele tom vencido e
as olheiras onde pareciam descansar séculos,
as longas horas e as coisas que arrastava
no hálito: café fraco, chocolates, melancolia,
um whisky velho ou a cerveja preta –
garrafas umas atrás das outras
tentando embebedá-lo, mas em vão.
Desertava no começo das noites
ou se muita juventude começasse
a assustá-lo,
e perdia os dias entre uns desenhos
que lá ia datando, presos,
nos intervalos, debaixo dos cotovelos.
Nesse dia era o elevador de Santa Justa,
uma ponte que não sei referenciar
e um fim de tarde com gatos de malhas azuis
a olhar para cima.
Largava umas afirmações trágicas, linhas diagonais,
e se eu sequer franzisse o sobrolho
era o que bastava –
punha um ar sério e dava-me as respostas mais longas
e inesperadas. Grandes injecções que eu levava ali.
Eram delírios importados de outras terras,
aventuras cheias de moinhos de vento, e puxava
por mim, castigava-me com os seus amores
perdidos, traições de mulheres, putas na maioria dos casos
(imaginava eu), outras vezes ficava-se pelas dores
mais à mão: a perda de urina, caravelas que tinha
encalhadas entre as vértebras,
uma úlcera maltratada… Entretanto ficava
tarde, graças-a-deus, e ou ele saía ou eu pedia
as mil e tal desculpas
a que me obrigava e fugia dali.
Descia a correr a rua
da velhice para uma sombra feminina
e essas lendas de saia que me apaixonavam,
tudo sempre nalgum bar, café, no virar
de esquinas, que hoje já não há necessidade
de ir buscar princesas a outros reinos,
elas entram clandestinas neste,
servem-nos à mesa ou mesmo
directamente na cama.
E foi num desses bares
que eu fui o primeiro de todos os homens a vê-la.
O seu pequeno rosto moreno ansioso, aquele jeito
no olhar como se o mundo tivesse nascido
à coisa de hora e meia, cheia de entusiasmos e amanhãs
dardejando na pele, incontáveis sorrisos e a voz
embrulhando num ronrom de anjo com defeito.
Mascava chiclete, amorosamente – tutti frutti,
ainda me lembro, era o sabor que preferia –,
conseguia aguentar aqueles balões uma eternidade
antes de lhe explodirem na cara,
e disso também se ria.
Vinha com os seus sinónimos de alegria
e servia de lenitivo ao torpor e aos obsessivos langores
a que tresandávamos todos.
Penso nela e em como lhe tremiam na boca as luas mais
oferecidas, deixando-se rebocar na conversa
de homens mais velhos, poetas assim mais ao gosto
popular. As rimas a caírem-lhes das mangas
para o decote dela, flores ordinárias
regateadas aos indianos, algum shot,
e os corações vindo-se bem depressa
entre o céu e o inferno.
Ficou-me bordado nos primeiros sonhos
húmidos aquele corpo dela, a sua distribuição
e as horas que tinha marcadas para entrar ao serviço.
Depois das aulas, aqueles contornos
onde eu aumentei o meu vocabulário
e vi as minhas frases fluírem estreitas,
tensas, directamente dos curtos e indecisos
movimentos que ela me trazia…
Era uma cadeia de suspiros,
as letras roucas junto ao nome,
a roçar o apagamento.
Chamava-se Marta e ajudou-me a emagrecer
enquanto o estômago não queria mais nada e só gemia
melodias de sangue, canções de a ver passar
sem olhar para trás.
Mais tarde, sem a esquecer, lá foi havendo
uma Maria qualquer que andava comigo
em vez de ficar em casa, sozinha, ou perder tempo
com outro, e quartos alugados onde estudávamos, fodíamos,
víamos o telejornal e as novelas a seguir,
com a sensação de que a vida nunca
seria só aquilo. Mas era,
– e é, só aquilo –,
tão longe das promessas, do ideário
que deixámos noutras páginas,
quando ainda íamos longe
e tínhamos conversas até às duas, três
e quatro da madrugada a chutar futuros
para esquecer o que tínhamos.
Mesmo assim, atenção que isto não é
só mais do mesmo desencanto, vou findar
sem azedume agora que sentado à secretária
vejo da janela a vizinha na varanda
a estender a roupa sobre este apontamento,
sem saber que a puxei para aqui, remói para si
o desgosto do rapaz que a ela lhe terá fugido,
mas afinal não sofre de faltas de ar,
do que vejo sobra-lhe peito,
tem cor na carne e não está tísica
como a que morava em frente ao Cesário.
Do mesmo modo não são muito originais
nem exactos os meus alexandrinos,
mas a minha vizinha e eu estamos vivos
e estou aqui a ganhar coragem para ir até lá
mostrar-lhe este poema.
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