segunda-feira, março 16, 2009

Aqui vais ser feliz

“Aqui vais ser feliz”, disse com o seu sorriso avaliado em milhares de euros, “Tenho a certeza disso”.
Tens a certeza que vou ser feliz? Quer dizer, vê-se um tipo de fato e gravata notoriamente mal escolhidos para primeiro dia de trabalho, sorriso nervoso, tão à vontade como um urso polar numa ilha tropical, de facto, que mais se lhe pode dizer? Com o tempo, os fatos e as gravatas começam a ser melhor escolhidos, acerta-se com o perfume, os sapatos deixam de aparecer riscados, gastos na ponta e nos calcanhares, sem rastos de pó das obras pelas quais se passa na rua. Um dia chega-se ao escritório radiante, quatro ou cinco pessoas reparam nisso com um sorriso, as outras não conseguem disfarçar a inveja. Um gajo sente-se como um Mau Tempo no Canal numa feira do livro manuseado, rodeado de Colecções Vampiro e livros d’Os Cinco. Com sorte, chama-se a atenção de uma das sócias e a probabilidade dessa noite acabar algures num restaurante muito discreto a partilhar uma garrafa de vinho tinto ou de champanhe aumenta exponencialmente. Sorri-se, deixa-se o casaco preto de corte impecável no cabide, vai-se até ao lugar de trabalho, acende-se o computador. Na caixa de correio, cinco mensagens a exigir a reformulação de dois documentos, seis contratos para fotocopiar e uma tradução dum protocolo para fazer, tudo com o prazo longínquo do dia seguinte de manhã. É o momento central na vida de qualquer estagiário, uma espécie de Dia-Moisés que separa os valiosos predestinados dos pobres egípcios que vão morrer afogados pelo caminho. Cada um descobre por si nesse dia a grande mentira que lhe contaram. Aqui nunca vais ser feliz. Uns tornam-se imediatamente infelizes, outros reconfiguram a felicidade e acrescentam-lhe uns quantos zeros.
- Diogo Almeida
in Há uma luz que nunca se apaga

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