terça-feira, março 17, 2009

Na véspera de uma frequência, ficámos juntos
no mesmo acaso. Um refúgio depois das aulas,
com os livros errados às costas. Ela tinha dúvidas
e eu não tinha vergonha de fingir
que sabia as respostas. Conhecíamo-nos
mal e do que me lembro nem estávamos
a falar do mesmo quando nos começámos
a entender. Um pensamento
meu abriu-se-lhe nas mãos, como se mordesse
na ponta daqueles dedos um paraíso
– nervosamente, em busca de fissuras,
desertos devolvidos e deuses humilhados.

Falámos de vulcões, tequilha e mezcal,
mas pedimos refrigerantes – tínhamos tanto tempo
para nos metermos sem pressa noutras provocações
e desafios. Penduravam-se nos nossos ombros
as hipóteses do desejo, mas para não sermos óbvios
evitámos o assunto. Ao lado, um cretino qualquer
ia berrando vazios na nossa direcção,
um b+a=ba estéril, sem nenhum talento
que lhe servisse de desculpa. Queria conversa,
atenção, um resto de entusiasmo
que lhe pudéssemos dispensar.

Mudámos de mesa, sem hesitação,
acompanhando a música
que nos engrossava o sangue, um jazz
lento e vigoroso
que estendia entre nós
uma série de reticências, acima das notas,
o café, sem querer, derramado quando
um grito se entreteve nos meus nervos
e me fez acender um primeiro cigarro.

Mantive a expressão dela intacta
ao longo de todo o percurso que me arrastou
até estas linhas. Para lá das mais simples feridas,
o esboço de um sorriso nos lábios ou
um passatempo de sílabas, agora numa outra língua
que nem era a mesma da canção.
Improvisava à medida de um íntimo caos
irrepetíveis rimas ou simples exclamações
encostadas a um ritmo qualquer. Pequenos slogans,
tantos infinitos apertados naquela boca.
Senti o peito arrombado, abrindo caminho
à dócil carne, avançando e recuando
entre fábulas. Precisei de mais gelo na bebida,
contei alguns minutos aflitos antes de lhe pedir
licença e fugir para a casa-de-banho.

Enquanto mijava passou-me por trás um tipo
de camisa axadrezada, estacou no alto de um suspiro
e pareceu esquecer-se do que tinha ido ali fazer.
Quando eu lavava as mãos, puxou do bolso
um pequeno envelope azul, cheirou o pólen
de astros alinhados e deixou-se cair
adormecido – um príncipe perdido
– cabeça de lado apoiada na tampa da sanita,
os olhos meio abertos de onde vi escapar-se
uma distância enorme, intensos
golpes de doçura, como se do lado de lá
rompessem relâmpagos de encanto,
um ninho de sombras alimentando-se
no centro de um incêndio.

Avisei o homem ao balcão e saímos.
Fiz com ela o caminho até casa,
por ruas já sem eco, apenas a ameaça
do amanhecer. Era quase uma imagem
de verdadeira poesia: os pássaros acordavam-se
uns aos outros e o sol levantava-se ainda
ressacado em tons escarlate que podíamos
olhar de frente. Deixei-me ficar para trás
e apanhei uma cor viva de um canteiro
para lhe dar, mas antes que a entregasse
vi-a morrer-me nas mãos, pequena
flor de ódio, deixando muito claro
que esse era um instante sem retorno.
Mesmo que memorizássemos cada passo
não teríamos como regressar.
Ao menos isso ainda foi o que me serviu
para lhe arrancar aquele primeiro
e último beijo.

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